Cristovão Tezza



Coluna Estante – Sobre Tezza

Por Wilame Prado

EM ALTA Cristovão Tezza, que mora em Curitiba, está com agenda cheia. Ele tem lançado pelo País o seu mais novo romance, “A Tradutora”.PONTE AÉREA O autor do premiadíssimo “O Filho Eterno” estava ontem em SP, mas retornaria hoje a Curitiba.

E MARINGÁ? A última vez que Tezza esteve em Maringá foi em 2010, pela Semana Literária do Sesc, atração que infelizmente não foi realizada este ano na cidade.

BEATRIZ DE VOLTA Em “A Tradutora”, a personagem Beatriz está de volta. Ela é a mulher pelo qual o escritor Paulo Donetti admite que cometeu um chamado erro emocional, o de se apaixonar por ela, no romance “Um Erro Emocional”, de 2010. A personagem também já foi usada em um conto antigo do catarinense e ex-professor da Universidade Federal do Paraná.

IMAGINE NA COPA A nova história de Tezza é passada em Curitiba, onde a tradutora Beatriz topa ser intérprete de um dirigente da Fifa que chega à cidade para a Copa do Mundo de 2014. Ela também está em meio a uma tradução de um livro catalão e, claro, em contato com o persistente Donetti, que, agora, solta uma dessas: “Não me deixe, preciso da minha leitora pela última vez”.

CRÍTICA GOSTOU Ainda não li “A Tradutora”. Preciso, antes, ler “O Professor”, romance de Tezza lançado em 2014. Mas li algumas críticas, como a de Vanessa Ferrari, da Folha, que avaliou “A Tradutora” como “Bom”.

MODERNIDADE LÍQUIDA Este trecho da crítica da Vanessa me instigou ainda mais a ler “A Tradutora”: “Há no romance a modernidade líquida de que fala Zygmunt Bauman, em que tudo evapora, está fragmentado e perde o sentido muito antes de se consolidar.”

NOITE EM CURITIBA Para fechar o papo sobre Tezza, lembro até hoje da expectativa que tinha em ler a obra mais comentada entre as catalogadas para o vestibular da UEM, o tocante “Uma Noite em Curitiba”, romance que estimulou muita gente a se interessar pelo universo literário. Valeu, Tezza!

*Coluna Estante sai às quintas-feiras no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Tezza revisita o passado

AUTOCRÍTICA .Cristovão Tezza, em Curitiba: “Sinto que é o meu melhor livro”. —FOTO: GUILHERME PUPO

AUTOCRÍTICA. Cristovão Tezza, em Curitiba: “Sinto que é o meu melhor livro”. —FOTO: GUILHERME PUPO

Wilame Prado

Antes de discursos em que precisamos falar da gente mesmo, passa um filme na cabeça e ativamos a máquina da memória tentando, num exercício de ordenação e coerência, transformar lembranças em palavras proferidas. No ínterim, tendemos a pensar em fatores externos – família, relacionamentos, profissão, política atual – mas, quase sempre, deixamo-nos comover pelas reminiscências, pelas emoções, que, tal qual uma lágrima que transborda dos olhos e que ofusca o plano da visão, chegam a distorcer os fatos com a exacerbação dos sentimentos em detrimento da realidade pretérita. Nosso passado, que é uma história que nós mesmos construímos para a gente, tende a ser potencializado com a nostalgia.

“O Professor” (Editora Record, 240 páginas, R$ 32), romance lançado recentemente por Cristovão Tezza, 62 anos, tem sua narrativa concentrada nas poucas horas que antecedem o discurso que o professor aposentado de filologia românica Heliseu da Motta e Silva, 71, fará em uma homenagem que está prestes a receber pelos serviços docentes prestados.

Não há limite de tempo para as memórias, e Heliseu rememora, nessas poucas horas, décadas de uma vida dedicada à arte de ensinar, incluindo, nesse pacote de lembranças, fatos importantes da história pessoal e da política brasileira.

Como acontece com a maioria das pessoas, passa um filme na cabeça do professor. E como bem sabe fazer o escritor catarinense radicado em Curitiba, o filme das memórias de Heliseu foi transformado em romance.

Em “Um Erro Emocional” (Record, 2010), Tezza praticou a sua destreza em escrever páginas e mais páginas que concentram, no tempo da obra, apenas horas vividas pelas personagens. Na ocasião, ele narra a ida do escritor renomado Paulo Donetti ao apartamento de uma leitora, Beatriz, para dizer que havia cometido um “erro emocional”, o de ter se apaixonado por ela.

Em “O Professor”, o recorte temporal se limita entre o lento despertar do idoso e o momento em que finalmente coloca o papel do discurso no bolso, olha-se no espelho e vai para a devida homenagem a ser recebida.

Nesse intervalo de quatro anos entre os dois romances, Tezza exercitou o conto em “Beatriz”, o ensaio literário em “O Espírito da Prosa” e a crônica em “Um Operário em Férias”. Agora volta ao romance e, até pelo pouco destaque que teve publicando em outros formatos literários (principalmente quando comparado com o retumbante sucesso de “O Filho Eterno”, de 2008), demonstra mesmo que a prosa mais longa é o seu forte.

Na bibliografia, são 18 obras publicadas, sendo 14 romances, incluindo, além dos supracitados, os elogiados “Uma Noite em Curitiba”, “Trapo” e “O Fotógrafo”.

Comemoração à parte dos leitores que aguardavam um novo romance de Tezza, “O Professor” chega ao País já premiado. Ano passado, o livro foi escolhido pelo Financial Times como um dos melhores estrangeiros publicados no Reino Unido.

Afora isso, o próprio autor considerou, em entrevista concedida por e-mail, tratar-se de seu melhor livro até aqui. “Depois de vários livros publicados, o escritor já consegue ter uma noção de medida de seu trabalho, ainda que não a certeza absoluta, que não existe. Eu sinto que é o meu melhor livro pelo apuro técnico e pela maturidade da visão de mundo, que é algo que só o tempo dá. Mas é preciso lembrar que o autor é sempre suspeito ao falar da própria obra.”

Após a conquista de vários prêmios com “O Filho Eterno”, ele ganhou dinheiro, fato que estimulou a antecipação da aposentadoria nos tablados da Universidade Federal do Paraná, onde lecionou por 20 anos no curso de Letras. Olhando para o currículo de Tezza e todo seu envolvimento com a academia, poder-se-ia imaginar que “O Professor” é mais um romance com traços autobiográficos. Não é, segundo o próprio autor.

“O único livro de fundo autobiográfico que escrevi foi ‘O Filho Eterno’. Personagens professores são recorrentes na minha obra: há professores em ‘A Suavidade do Vento’ e ‘Uma Noite em Curitiba’, por exemplo, e isso não significa que sejam livros autobiográficos. Não há nada de mim em Heliseu, exceto a profissão – já fui professor e convivi no mundo universitário que meu personagem habita”, explica.

TEZZA AGUARDA CONVITES PARA LANÇAR ‘O PROFESSOR’
“O Professor” foi lançado oficialmente em Curitiba no começo de abril. Já no sábado do dia 12 de abril, Tezza estaria na Livraria e Editora Arte & Letra, também na capital paranaense, ao lado dos escritores Rogério Pereira e Mário Araújo, no lançamento de “Entre as Quatro Linhas”, coletânea de 15 contos sobre futebol organizada por Luiz Ruffato.

Dentre os contistas estão, além de Tezza, Pereira e Araújo, Fernando Bonassi, Ronaldo Correia de Brito, Eliane Brum, Flávio Carneiro, André de Leones, Tatiana Salem Levy, Adriana Lisboa, Ana Paula Maia, Tércia Montenegro, Marcelo Moutinho, Carola Saavedra e André Sant’anna.

Em sua última passagem por Maringá, Tezza participou da Semana Literária do Sesc em 2010 e versou sobre a criação literária e importância da leitura. O romance recém-publicado por ele já pode ser encontrado nas principais livrarias da cidade, mas ainda não há previsão de lançamento da obra com noite de autógrafos do autor por aqui.

“Já fui várias vezes a Maringá, em palestras, eventos literários e lançamento do livros, sempre uma ótima recepção. Se surgir uma oportunidade, é claro que irei”, diz Tezza.

o professor, cristovao tezzaESTANTE
O PROFESSOR
Autor: Cristovão Tezza
Gênero: romance
Editora: Record
Número de páginas: 240
Preço sugerido: R$ 32

ISTO É CRISTOVÃO TEZZA
A cadeia de desconcertos deste amanhecer, ele sussurrou, achando bonito, testando a linguagem e vivendo um impulso de entusiasmo — eu poderia ter sido escritor, se tivesse tido a coragem no momento certo. Quase rompi a membrana e passei para o lado de lá. Parecia simples. Therèze uma vez lhe disse: por que você não escreve? Um tropeço de fonemas — cadeia de desconcertos deste. O fonema “d”, repetiu ele milhares de vezes diante de milhares de alunos, seguido da vogal “i”, palataliza-se em algumas regiões do Brasil. Comparem: djia x dia, assim, dia, ele abria bem a boca para a demonstração, alveolar, a língua contra os dentes da arcada superior. Para quem não compartilha a diferença de sotaque, é engraçado. Passou as mãos no rosto, moveu a cabeça de um lado a outro, três vezes, num simulacro de ginástica — é bom contra torcicolo, ele ouviu uma vez e passou décadas repetindo o movimento. Mas o pescoço parece um papo de galinha, assim como os olhos revelam o pé de galinha — é assim que as mulheres dizem. Um símile perfeito. Essa pele despencada grudando-se ao que resta de apoio, para se espraiar em ossos secos que se erguem como raízes de árvores arruinadas. A clássica barba amanhecida, ainda por fazer. Houve um tempo em que era estilo. Minha cabeça é um bulbo, e ele se surpreendeu com a teimosia da conclusão, já diante da plateia: senhoras e senhores, brasileiras e brasileiros, eu fui sim um homem bonito. Eheh. Esticou a perna direita, depois a esquerda. As pernas pareciam doer menos essa manhã. A química funciona.

A verdade é que nem sempre fui um homem antigo, ele argumentou arriscando uma ironia em defesa própria, agora sentado na cama de imbuia envernizada, mais velha ainda que ele, com seus frisos caprichosos. Confira os detalhes da cabeceira. Uma hora de trabalho em cada raminho de madeira, as ranhuras das folhas perfeitas no relevo. No tempo dos artesãos, que não existem mais. Não fabricam mais nada assim, ele ouviu a mulher repetir mil vezes, com irritação legítima, hoje é esse lixo descartável, serragem com cola, a cama desmonta no primeiro dia — na primeira trepada, ele completou uma vez, há muitos e muitos anos, e os dois riram. A Mônica, senhores, de saudosa memória. Talvez a homenagem que vão fazer a ele seja justamente o reconhecimento de sua atualidade. Não. De sua contribuição. Alguém que passou sem traumas (Na verdade, com altruísmo; eles têm de reconhecer pelo menos isso. Se não fosse ele — se não fosse ele o mundo não existia? Sim, de certa forma, e ele riu como quem ouve uma piada de café; o velho e bom solipsismo. Depois de mim, o dilúvio; sem mim, nada! É engraçado.) — que passou sem traumas da velha filologia românica para a linguística moderna — do papel escrito para a língua viva. Dos textos sólidos — desenhados quase que com o punhal há 600 anos, a brutalidade do tempo, e que ele lia com prazer, no púlpito da sua aula, aquilo sim é palpável, a verdadeira gramática universal, nom seria razõ, n˜e dereyto que no processo de nossa lyçam seiam squecidas aquellas moças que som ˜e estado de virgijndade, das quaes homem pode fallar em duas maneyras — daquellas que teem preposito de guardar virgijndade toda sua vyda por amor de Deos e daquellas que ha guardam ho tempo de seu casamento per ordenãça de seus padres. Não é uma maravilha?, ele perguntava aos alunos, o anfiteatro cheio, um bloco granítico de silêncio. ///Trecho do romance “O Professor”, de Cristovão Tezza

*Reportagem publicada em 12 de abril no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Cristovão Tezza lança autobiografia literária

Um ensaio não acadêmico, em linguagem clara e direta: é assim que Cristovão Tezza, autor do consagrado “O Filho Eterno”, define seu novo livro, “O Espírito da Prosa”.

Com marcantes passagens autobiográficas, Tezza investiga a sua formação de escritor e o que fazia a cabeça de sua geração, nos tumultuados e transformadores anos 60 e 70. Ele examina o impacto de certos autores na sua visão literária, o imaginário utópico daquele tempo, o peso da influência acadêmica no ideário estético dos anos pré-internet, e suas consequências na prosa brasileira.

Enfrentando as variáveis existenciais que marcaram sua vida, ele mergulha no processo de criação, tentando responder a pergunta que muitos leitores e aspirantes a escritores se fazem: o que leva alguém a escrever? Um texto fundamental para quem se interessa por literatura.

Escrever deixa marcas. E são as pegadas de seu eu literário que Cristovão Tezza retraça em “O Espírito da Prosa”. Uma espécie de romance de formação às avessas, onde em vez de acompanharmos a maturação de um personagem, fazemos o caminho contrário. E encontramos as origens de um escritor consagrado.

Tezza visita o pouco explorado território fronteiriço criador-leitor. Dr. Jekill e Mr. Hyde, coexistindo no mesmo olhar — o narrador que escreve, autor de “O filho Eterno”, premiado, incensado, comentado, em justaposição com o leitor que fiscaliza. Num estranho minueto, de ritmo tenso e equilíbrio delicado.

A natureza da criação literária, a luta para encontrar seu texto, as influências em sua sintaxe se encontram nestas memórias seletivas. Da criança que copiava a forma dos livros em pequenos compêndios brancos até o prosador premiado, passando pelo jovem que tentava absorver um estilo por osmose. Ou teimosia. Que queria escrever um novo São Bernardo, uma cena de Dostoiévski ou um parágrafo de Faulkner.

Aqui, Tezza disseca a máquina da criação literária com o bisturi de seu talento. Separa nervos e tendões, estilos e ícones de seu ofício, num mergulho no espírito da prosa, de si mesmo, de sua geração e da literatura que o marcou. E que ainda hoje o interessa. E dá vida a um inanimado objeto de discussões filosóficas, antropológicas e estéticas.

Abre o peito de prosador/leitor e revela a massa de dificuldades, desajustes, sentimentos contraditórios, ódios suprimidos, desejos proibidos e náuseas insuportáveis que são a matéria-prima do sacerdócio da escrita. E que o moldaram em uma principais vozes da literatura brasileira contemporânea. (Da assessoria de imprensa da Record)

Título: O ESPÍRITO DA PROSA

Autor: Cristovão Tezza

Páginas: 224

Preço: R$ 34,90

Editora: Record

Sobre o autor: Cristovão Tezza nasceu em Lages, Santa Catarina, mas mudou-se ainda criança para Curitiba, onde vive até hoje, dedicando-se à literatura. Considerado um dos mais importantes autores brasileiros contemporâneos, publicou uma dezena de romances, entre eles “Trapo”, “O Fantasma da Infância”, “Aventuras provisórias” (Prêmio Petrobras de Literatura de 1987), “Breve Espaço Entre Cor e Sombra” (Prêmio Machado de Assis/Biblioteca Nacional de melhor romance de 1998), “A Suavidade do Vento”, “Juliano Pavollini”, “Uma Noite em Curitiba”, “O Filho Eterno” (que recebeu os mais importantes prêmios literários brasileiros de 2008 – São Paulo de Literatura de melhor livro do ano, Jabuti, Portugal Telecom, Bravo!, APCA e Zaffari & Bourbon), “Um Erro Emocional” e “Beatriz”. Acesse o site de Tezza: www.cristovaotezza.com.br

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Sobre paixão e memórias silenciosas*

“Um erro emocional”, de Tezza, é um livro sobre paixão e sobre como nos portamos quando estamos frente a frente com a pessoa pela qual estamos apaixonados

“Um erro emocional”, novo romance de Cristovão Tezza, é silencioso; nas quase 200 páginas do livro, o casal de personagens pensa mais do que conversa, e a memória das lembranças da vida dita a prosa

Wilame Prado

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Após o estrondoso sucesso do livro “O filho eterno”, lançado em 2008, Cristovão Tezza volta a publicar. O romance “Um erro emocional” (Editora Record, 192 páginas) saiu há pouco da gráfica e já está disponível nas livrarias do Brasil. Para os fãs do catarinense radicado em Curitiba, é mais um grande livro a ser consumido de maneira voraz e rápida – o texto bem elaborado do autor faz com que o leitor não queira parar de ler enquanto não descobre o desfecho da história (eu, por exemplo, acompanhado de um tereré, o li de uma tacada só, deitado no sofá, em uma madrugada maringaense tranquila).

Não por acaso, a fluidez impressionante em “Um erro emocional” é explicada pelo próprio Tezza, em uma entrevista respondida por email, enquanto o autor saía de Pampulha, em Minas Gerais, rumando ao Rio de Janeiro, para, mais tarde, retornar à fria Curitiba. Segundo ele, o seu novo livro, na verdade, foi idealizado primeiramente como conto. Mas, no decorrer de dois anos, reunindo fragmentos, acabou transformando-se em romance.

Ao contrário do que acontece em “O filho eterno”, Tezza não tem uma surpreendente e comovente história para contar em “Um erro emocional”. Não há muitas descrições de lugares, de situações e de conflitos pessoais. No eleito melhor romance do ano de 2008, o escritor, misturando realidade e ficção, narra uma história densa, que começa com o nascimento de seu filho, o Felipe, tem um grande clímax quando ele descobre que o piá nasceu com Síndrome de Down, se desenrola com o processo de aceitação desta situação e se finaliza com o pleno crescimento e desenvolvimento do filho.

Já em “Um erro emocional”, Tezza simples e belamente narra um fato isolado: a ida do escritor renomado Paulo Donetti (vencedor de Jabuti e tudo) ao apartamento da sua leitora número um, Beatriz, para dizer que havia cometido o “erro emocional” de ter se apaixonado por ela. E também, mas isso parece ser apenas uma desculpa, para que ela fizesse uma edição e digitasse em um computador seus escritos reunidos em amarelecidas folhas de manuscritos.

E para aqueles que imaginam se tratar de outro romance autobiográfico, já que o personagem principal é um escritor conhecido como ele, Tezza faz questão de afirmar que a sua cota como narrador de fatos reais já se encerrou. “O único livro autobiográfico da minha vida foi ‘O filho eterno’. Com ele, esgotei o poço! O resto é literatura. O personagem Donetti já aparece no ‘Ensaio da Paixão’, de 85 – eu já esboçava um personagem escritor (com o mesmo sobrenome). E a Beatriz nasceu de uma série de contos, muitos já publicados”, revela, em outro email, já em Curitiba, um dos maiores romancistas vivos do Brasil.

Paixão, memórias e o não dito

“Um erro emocional” é um livro sobre paixão e sobre como nos portamos quando estamos frente a frente com a pessoa pela qual estamos apaixonados. Quem está apaixonado, logo se identifica com a prosa, que transmite muito bem a sensação de pavor sentida nesse momento, a vontade de querer impressionar o outro e a linha tênue que separa o que pensamos, o que almejamos dizer e o que de fato falamos para a outra pessoa.

E, diante desta situação, o escritor concentra esforços para narrar o não dito e o que as personagens estão pensando naquele momento, entre as folhas de textos inéditos de Donetti em cima da mesa, entre as intermitentes taças de vinho tomadas por ele e por Beatriz e entre um pedaço ou outro de uma pizza.

“A memória queima. Longe dela, brilha o deserto”, a frase destacada por Tezza e posta uma página antes de o romance começar traduz muito bem o que é aquela história prestes a ser lida: transcrição da memória das personagens, que extravasam sentimentos e que, por meio de lembranças (principalmente da ex-mulher dele e do ex-marido dela), influenciam sobremaneira no modo como agem naquele apartamento, localizado em Curitiba.

Mais do que traduzir em texto tudo o que Paulo e Beatriz estão pensando, Tezza vai um pouco além. Traz, com a memória de ambos, as personagens secundárias da trama, como exemplo a Doralice, melhor amiga de Beatriz, o psicanalista de Donetti, seu inimigo Cássio e também os ex-companheiros dos dois. Nesses casos, o escritor usa e abusa de parênteses para compor melhor o texto e fazer com que o leitor consiga entender o que exatamente está se passando na cabeça pensante deles.

Só quem mesmo tem o quê escrever, e sabe desenvolver com maestria esta tarefa, consegue prender um leitor durante tantas páginas em uma história que fica mais no mundo das ideias, um romance intenso, psicológico. Tezza, que afirma estar treinando este estilo narrativo há alguns anos, teve aumentado o seu poder de conseguir descrever uma história que se passa de maneira silenciosa.

Em “Um erro emocional”, os diálogos em si ficam em segundo plano para que a memória, os pensamentos, as incertezas e os constantes erros emocionais, que, de repente, podem ser evitados com o simples cálculo de pensar muito bem antes de pronunciar palavra, fiquem somente na memória, que queima e se explode nas inenarráveis lembranças de um passado recheado de situações delicadas envolvendo principalmente paixões e amor.

Não sei bem ao certo como são os critérios de avaliação na hora de se premiar os romances em prêmios como o Jabuti, por exemplo. De todo modo, “Um erro emocional”, por toda a qualidade literária reunida em mais um bom trabalho de Tezza talvez merecesse mais louros do que o querido “O filho eterno”. Porém, deve-se levar em consideração o fato de que uma história tão bela e, ao mesmo tempo, chocante, em que um pai revela a fria rejeição que sentiu pelo filho que nasceu com Síndrome de Down pode chamar muito mais a atenção, tanto de público como de crítica, do que um relato de memórias dos errantes e emotivos Paulo Donetti e Beatriz.

Vivendo de literatura – Junto a tantas premiações, inevitavelmente Cristovão Tezza ganhou também boa quantia de dinheiro com “O filho eterno”. Só o Prêmio São Paulo de Literatura, por exemplo, rendeu-lhe R$ 200 mil. Com isso, Tezza largou as aulas que lecionava na Universidade Federal do Paraná para dedicar-se exclusivamente à literatura, o que, para grande parte dos escritores brasileiros, ainda é algo impossível.

Trecho do livro “Um erro emocional”

Cometi um erro emocional, Beatriz se imaginou contando à amiga dois dias depois — foi o que ele disse assim que abri a porta, o tom de voz neutro, alguém que parecia falar de uma avaliação da Bolsa, avançando sem me olhar como se já conhecesse o apartamento, dando dois, três, quatro passos até a pequena mesa adiante em que esbarrou por acaso, depositando ali o vinho com a mão direita e a pasta de textos com a esquerda (e ela se viu desarmada no meio de três sinais contraditórios, o erro, o vinho, o texto, mais a espécie de invasão de alguém que está à vontade — o que ela havia sonhado, Beatriz teria de confessar à amiga, e ambas achariam graça da ideia — à vontade, mas não do modo correto) e Beatriz fechou a porta devagar com um sorriso de quem se vê imersa na ironia, e isso é bom; e se virou para escutar o resto, agora vendo-o com as mãos livres, a silhueta contra a luz, os braços brevemente desamparados daquele homem magro:

— Eu me apaixonei por você.

Isso acontece, ela pensou em responder, a esgrima instantânea de alguém que entra num jogo difícil mas saboroso, mas não disse, o gesto lento ainda lá atrás abrindo a porta para um erro emocional, e ela de novo sorriu defensivamente em silêncio daquele provável mal-entendido, tentando colocar o breve evento de três segundos num quadro que lhe desse um sentido seguro, mas era impossível, porque agora, como se ela não existisse, ou (corrigiu-se) como se a reação dela fosse para ele um dado completamente irrelevante nesse momento, um “não estou interessado no que você pensa a respeito disso, o problema é meu” — e ele suspirou, puxou uma cadeira, sentou-se, abriu a pasta e, alguém que não havia dito o que havia dito, de novo olhou para ela:

— Vamos conversar sobre o nosso trabalho?

Uma cena com um toque de teatro, ela avaliou, como quem põe uma moldura nesses três segundos, pendura-os na parede, e assim encerra o que não tem solução. Uma homenagem que ele me faz, uma homenagem gratuita, ela interpretou, quase com vergonha. Soterrada pela timidez, preferiu não dizer nada, cuidando de manter a sombra do sorriso no rosto para que ele interpretasse o seu silêncio do modo certo, isto é, não como uma reação a uma invasão agressiva de sua vida — na noite anterior acontecera apenas um jantar civilizado a três, a sincera admiração pelo bom escritor, um certo derramamento dele que ela atribuiu ao exagero do vinho, dentro da medida do aceitável, nenhum vexame, e a proposta quase casual, de fim de noite, para que ela o ajudasse em alguma coisa que Beatriz não entendeu mas aceitou imediatamente, porque seria afinal manter contato com um escritor que se admira: e de tão poucos e ralos sinais (o telefonema esquisito de manhã cedo, aquela mal disfarçada aflição de quem dormiu mal), ele agora irrompe abrupto em sua casa dizendo-se apaixonado, sem sequer olhar para ela — que ele mesmo interpretasse o silêncio dela, Beatriz seguiu planejando, enquanto procurava o saca-rolhas na gaveta da cozinha, onde desta vez não estava, não como uma recusa da paixão (e sorriu da ideia, paixões não se recusam — apenas explodem e sobrevivem independentemente da ação dos envolvidos), mas como um precavido e cuidadoso e sensato pé-atrás.

3 perguntas para Tezza – “Um erro emocional é mais intimista, concentrado”

O Diário – Para o senhor, todas as paixões são erros emocionais?

Critovão Tezza – Não, certamente não. O título é irônico – há um tom de ironia quando Donetti define sua paixão como um “erro”. É também uma espécie de “defesa prévia” de sua aproximação amorosa.

Qual é o grau de dificuldade para se escrever um livro de quase 200 páginas que, porém, se passa inteiramente em algumas horas dentro de um apartamento, com duas personagens fazendo a memória queimar e as lembranças explodirem a todo momento, dando fôlego à narrativa ligeira?

Tezza – Para ser sincero, não sei. É um livro que escrevi aos fragmentos, ao longo de dois anos, e que originalmente foi pensado como um conto. A dificuldade é não perder o fio da meada e a tensão da linguagem. Ou seja, a de sempre, para quem escreve.

Há uma evolução literária entre “O filho eterno” e “Um erro emocional” ou, assim como a crítica em geral, o senhor considera o seu trabalho de 2008 praticamente insuperável de tão bom?

Tezza – São livros diferentes, muito diferentes. Do ponto de vista técnico, “Um erro emocional” apura aspectos do ponto de vista narrativo que eu vinha desenvolvendo desde “O fotógrafo”. Em “Um erro emocional”, eu radicalizei o recurso de aproximar & distanciar o narrador da consciência dos personagens. Do ponto de vista temático, são livros com embocaduras diferentes. “O filho eterno” tem uma temática mais ampla; “Um erro emocional” é um livro intimista, concentrado.

Para ler

Título: Um erro emocional

Autor: Cristovão Tezza

Gênero: Romance brasileiro

Editora: Record

Quanto: R$ 34,90

Avaliação: Ótimo

*Resenha publicada dia 26/08 no caderno D+, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Não tem Tezza na estante do Clariovaldo

Então perguntaram para Clariovaldo se ele daria o ar da graça no bate papo literário com o escritor Cristovão Tezza, que estaria na cidade só para discorrer sobre tal assunto e que certamente reuniria uma multidão de estudantes de Letras, poetas, escritores, músicos, artistas plásticos, jornalistas e apreciadores de contação de histórias infantis.

Ele respondeu nem que sim nem que não. Chateou quando soube que o outro convidado famosinho, Moacyr Scliar, o homem dos 100 livros publicados, não poderia conferir de perto as árvores, a Catedral e as moças bonitas de Maringá. Homem de família, talvez não pudesse viajar sossegadamente sabendo que o sogro se encontrava em uma cama de hospital. Tentou imaginar o quanto de idade poderia ter o sogro de um homem que já publicou 100 livros. Bom. Talvez, como fazem muitos velhos ricos, Scliar tenha casado com uma mulher 30 anos mais nova e, certamente, teria um sogro com idade semelhante a sua.

Acabou não indo, o Clariovaldo, ao Sesc, conhecer de perto o autor de dois ou três livros que sentiu prazer em ler. Mas, mesmo com o público e crítica extremamente contrário ao seu gosto, ele não achava tão bom assim o “O filho eterno”. Gostava mais é do “Trapo”. Identificava-se bastante.

Já perdido pela indecisão, no meio da rua, lembrou-se de uma história que um jornalista de Curitiba o contou uma vez e que dizia respeito ao Tezza, grêmio estudantil e certa prepotência por parte do escritor, que, na época, deveria ser estudante de Letras ou já professor universitário. História estranha, ouvida enquanto tomava uma garrafa de vinho doce Paschoetto. Para conseguir tal proeza, a de tomar um vinho doce Paschoetto, colocava meio copo de vinho e meio de água. No final das contas, já não tão sóbrio, acabou sentindo que talvez houvera, no discurso do jornalista contador de histórias, uma pitada de inveja. Naqueles tempos, com seu último romance publicado, Tezza estava ganhando tudo quanto é prêmio de literatura.

Clariovaldo, reclinando mais uma vez a sua ida ao reconhecimento pessoal dos homens das letras, sentiu-se amedrontado e preferiu ficar só com os escritos dos escritores e não com as palavras faladas. Ainda não conseguia ser convencido de que um homem que escreve bem vai falar bem, ou para o bem de algo.

No final das contas, teve de inventar uma desculpa. E, para não mentir, foi procurar algum livro do Tezza na sua estante, para depois justificar a sua ausência de uma maneira nobre: diria a todos que, enquanto todos estavam ali, ouvindo o Tezza, ele estaria acolá, lendo o Tezza. Brilhante, pensava. Ficou extremamente zangado quando se recordou que, na sua estante, não havia livro algum daquele autor. Emprestara o seu “O filho eterno” e, os demais livros lidos de Tezza, tinham sido consumidos vorazmente em uma época em que a biblioteca era praticamente a casa de Clariovaldo.

Mesmo assim, conseguiu dormir tranquilamente naquela noite seca de setembro. Amanhã cedo, poderia ler algumas crônicas de Tezza no jornal da capital.

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