Crônico



Tristeza no jantar

Por Wilame Prado

O pai ficou triste na hora do jantar. Não era a primeira vez que a sua mulher e a sua filha desrespeitavam a mesa sem sequer perceberem tal atitude. Naquela noite de sábado em especial, veja só, ele estava se sentindo confortável com uma felicidade passageira que chegou como a poeira levada pelo vento e que também se vai ao primeiro olhar. Estava gostando do clima, da calmaria. Sentia vontade de agradecer a Deus por poder, em mais um final de semana, estar próximo da família, com comida na mesa, televisão para assistir mais tarde, uma boa cama para se deitar finalmente. Sensações desmanchadas quando notou o desdém que as duas dedicaram às esfihas de carne, queijo, frango e chocolate compradas por ele no disque entrega do bairro, com preço mais acessível que os praticados no centro, nos shoppings e nos restaurantes chiques.

Havia contas a pagar, afinal. A situação financeira da família estava difícil de ser controlada porque ele havia retornado ao mercado e se sujeitado – regras do jogo – a ganhar muito menos do que ganhava na empresa anterior, onde cumpriu expediente religiosamente ordeiro por mais de dez anos antes de ser dispensado. Sentia-se culpado. Percebia (ou seria paranoia?) o olhar de cobrança da mulher e o ar de desprezo da filha quando anunciou a “boa nova”: o fim do desemprego, o cargo de vendedor na loja de departamento e a necessidade de se acostumar a receber ordens e não o contrário, como fazia anteriormente quando era gerente de setor.

Na madrugada, sozinho na sala, permitindo-se uma dose ou duas, colocou em perspectiva tudo aquilo que aconteceu nas horas recentes e que o deixou para baixo: esfihas entregues, mesa posta, comida em cima da mesa, ele tardando alguns minutos para se sentar, a mulher e a filha já devorando pedaços de massa de farinha e água com carne e cebola em cima, as duas falando meio que com a boca cheia, criticando o gosto, a temperatura, a gordura, a imensa quantidade de cebola, a pouca quantidade de carne, e ele ali, ainda de pé, sem sequer ter se sentado à mesa para o jantar de sábado com a sua família, e ouvindo, “a esfiha lá de não sei onde é bem melhor”, “essa esfiha é horrível”, “está fria”, “pega o refrigerante para mim?”, “vou comer a doce já, porque não quero mais dessa salgada ruim”, “credo, que chocolate podre”, “parece manteiga”, “pai, não dá nem pra comer”, “pelo amor de Deus, por que inventou de comprar esfiha neste lugar?” etc.

Em dez ou quinze minutos, a filha foi escapando rapidamente em direção ao quarto, ao encontro do smartphone ou do computador (ele não sabe) e justificando a necessidade de prosseguir com os estudos para o vestibular que estava próximo. E a mulher, alegando cansaço e dor em algum lugar do corpo, foi para o sofá e até que se distraiu um pouco com o humorístico da TV antes de finalmente ir para a cama. E ele, ia perdendo a fome diante da mesa, solitário, esfihas espalhadas nos pratinhos de papelão, copos sujos, uma mancha de molho de pimenta bem ao lado da sua mão direita, na toalha quadriculada, e o fim, por completo, daquela breve sensação confortável de felicidade que havia sentido antes daquele jantar malfadado de sábado à noite.

Antes de se deitar, o triste pai pensou que não era assim que as coisas deveriam acontecer em um jantar de sábado à noite com a família. Antes das críticas, deveria haver agradecimentos, sorrisos fraternos e a reunião de todos iniciando e terminando juntos a nobre tarefa de saciar a fome, de receber os alimentos que propiciam forças e energias para se continuar vivendo e, mais que isso, prazer pelo ato de comer. Elas nem perceberam a tristeza do pai. E ele preferiu não fazer comentário algum, estava cansado. Ao fim da bebida, na calada da noite, prestes a encostar a cabeça no travesseiro, ele finalmente se lembrou do motivo que o fizera comprar esfihas para o jantar daquele sábado em família, em vez de requentar as sobras do almoço.

Caso elas tivessem esperado para que todos jantassem juntos diante da mesa, ele iria dizer para a sua mulher e para a sua filha que estava se esforçando muito no novo emprego, que havia sim dificuldades, que havia sim, por ora, menos dinheiro entrando como remuneração, mas que ele, pelo contrário, não havia perdido as forças, sequer as esperanças de que, com a ajuda da família, conseguiria sim superar as dificuldades, conseguiria crescer na nova empresa e que, não tenha dúvidas, voltaria a ser um gerente de setor, para que pudessem, ele, a mulher e a filha, retomarem rapidamente a qualidade de vida de outrora dentro daquele lar.

Às oito horas da manhã de segunda-feira, à espera dos clientes dentro da loja, ele já não tinha tanta certeza assim de que conseguiria se reerguer profissionalmente.

*Conto publicado terça-feira (22) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Germanizar, jamais

Por Wilame Prado

O futebol continua nos dando lições, veja só. A Alemanha, seleção de futebol que mais viveu intensamente a Copa do Mundo, sagrou-se tetracampeã mundial em solos brasileiros. Os baianos das redondezas de Santa Cruz de Cabrália, que adoraram a presença dos alemães durante o torneio, devem ter comemorado esse título tal qual um hexacampeonato do Brasil, projeto brecado após uma derrota acachapante nas semifinais justamente para eles, os germanos, e cujo resultado não preciso ficar aqui repetindo, não é mesmo?

A Alemanha demonstrou que é possível vencer sorrindo fora de campo e sério pisando no gramado, simples assim. Não precisamos fazer cara feia, chorar para mamar, tentar ludibriar, entrar para quebrar. Basta jogar. Em dias de folga, por exemplo, dois dos grandes atletas da seleção alemã – Neuer e Schweinsteiger – se deixavam ser flagrados nas areias das praias baianas, aprendendo danças típicas, dando autógrafos, curtindo, por que não, um turismo no País. Dentro de campo, não perderam o foco um minuto sequer das partidas que disputaram do mundial.

Os alemães se abrasileiraram e, sem dúvida, se aproveitaram disso também dentro de campo: jogaram como se estivessem em casa. Lukas Podolski, a partir de agora, será nome lembrado em cartórios daqui. Mario Götze fez o gol mais brasileiro na história da Alemanha de todos os tempos: habilidade de Neymar, matando a redonda no peito no tempo certo, e precisão de Pelé, enfiando a bola para a rede argentina. Gostaram tanto do País, esses alemães, que se recusaram a entregar a Copa do Mundo dentro de nossa casa para o nosso maior rival no futebol. Somos eternamente gratos, portanto.

Além de toda essa simpatia que foi capaz inclusive de quebrar o paradigma reinante – o de que alemão é antipático –, muitos agora aproveitam a conquista do título da Alemanha para sugerir à Seleção Brasileira um possível jeito de se voltar a jogar bola de maneira convincente. Erramos nessa tentativa, a meu ver. Tudo bem: elogiemos, sim, o comportamento deles fora de campo e aplaudamos, e muito, o comportamento tático dos capitaneados pelo polivalente Philipp Lahm. Reconheçamos que a frieza, a obediência tática e a determinação da Alemanha em campo resultaram na conquista do título mais importante para o futebol. Ressaltemos também que é muito melhor ter um time de bons jogadores do que ter um apanhado de jogadores medianos com uma estrela brilhante solitária. Agora, germanizar o futebol brasileiro e suas marcantes características, aí acho demais.

Precisamos de um bom técnico e de um bom time. Precisamos de mais atenção dentro de campo e mais estudo sobre os adversários fora de campo. Mas não precisamos deixar de chorar e sentir menos as coisas do nosso Brasil, assim como muitos sugeriram após o aperto passado na vitória, nos pênaltis, contra o Chile, nas oitavas de final da Copa do Mundo. Não podemos só ter isso, mas temos de respeitar e ver a importância de talentos individuais, porque um talento individual brasileiro – essas coisas de Neymar, Ronaldo, Rivaldo, Romário, Zico, Pelé e Garrincha – vale mais que mil palavras, é coisa que o dinheiro não compra.

Não somos imbatíveis, e isso, aos poucos, o País onde nasceu e vive o rei do futebol vai entendendo. Mas temos um futebol diferente, difícil de explicar. É aquela velha história envolvendo quem é esforçado e quem é talentoso nato. O talento, para nós, é natural. Precisamos é nos esforçar um pouco mais, aceitar algumas reciclagens, ter um pouco mais de humildade para também aprender e admirar outros “futebóis”, e não apenas ficar esperando a admiração alheia por nossa genialidade, fintas, golaços, impossibilidades que só são possíveis dentro de campo com a bola nos pés brasileiros.

Se tudo isso acontecer, meu amigo, aí sim será “Rumo ao Hexa”, tudo voltará ao normal, o Brasil voltará a jogar futebol para alemão ver e, finalmente, poderemos ter o mínimo de chances de ganharmos novamente uma Copa do Mundo, lá na Rússia, em 2018.

Ademais, Olimpíada Rio 2016 está logo aí também.

*Crônica publicada nesta terça-feira (15) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Os não-torcedores do Neymar

Por Wilame Prado

Há cinco anos, após começar a brilhar com a camisa do time profissional do Santos em plenos 17 anos de idade, Neymar Jr é assunto recorrente da mídia. De lá para cá, o jogador conquistou uma legião de fãs e desafetos também. Os rivais da equipe santista são detentores de torcidas populosas. Muitos destes, em especial, alimentam uma raiva doentia pela camisa 10 da Seleção Brasileira, e as causas dos sintomas podem ser facilmente explicadas por duas frentes: pela simulação de faltas que o atleta insiste em desempenhar, mas principalmente pela ousadia e alegria – bordão que ele eternizou em tatuagens e nas chuteiras – que resultam nos mais belos gols, nas mais belas jogadas.

Discussão velha, no entanto. Neymar já nem é o 11 do Peixe, disputou uma temporada com o Barcelona e, desde 2013, é a grande estrela do futebol brasileiro porque, ao contrário de Messi com a Argentina, chamou rapidamente para si a responsabilidade com a camisa amarela, foi peça fundamental na conquista da Copa das Confederações e, até onde pôde ajudar na Copa do Mundo deste ano, desempenhou papel crucial para que exatamente hoje, logo mais às 17 horas, possamos estar grudados à telinha assistindo a uma semifinal de copa, coisa que não víamos desde 2002, quando vimos ainda mais, um Brasil sendo brilhantemente campeão mundial.

Pensando bem, discussão velha, mas nem tanto. Tive a oportunidade de ver alguns jogos recentes do Brasil com pessoas que dizem não gostar do Neymar. Os olhos destas pessoas, quando a bola está nos pés do craque, aumentam de tamanho, assustados. Suam frio, mais do que o próprio adversário, temendo o pior, que, para eles, parece ser mesmo o êxito da jogada, o gol, a mágica, o futebol-arte. Os não-torcedores do Neymar implicam demais com ele, foram, talvez, acometidos por uma espécie de trauma após verem seus times tanto sofrerem com os pés deste menino de só 22 anos. Quando dribla genialmente, eles dizem que Neymar é fominha. Quando faz um gol – e só na copa foram quatro – olham de lado, comemoram com menos entusiasmo e geralmente dão crédito para quem passou a bola para ele concluir com bola na rede.

Chega a ser engraçada essa birra que há com o melhor jogador que despontou no País após a aposentadoria precoce de Ronaldo Fenômeno. São tão birrentos os não-torcedores do Neymar que, com a contusão dele no jogo contra a Colômbia, alguns chegaram a dizer que a sua ausência seria menos sentida que a suspensão do ótimo zagueiro e capitão do Brasil, Thiago Silva. Aí eu pergunto: quem está à altura para substituir Neymar naquele banco de reservas? Dante, ou até mesmo Henrique, podem jogar bem lá atrás, com a força que terão do simplesmente melhor jogador da copa, chamado David Luiz. Mas e lá na frente? Quem é que vai chamar o jogo, conduzir a bola, desestruturar o adversário, cobrar escanteios com maestria, bater faltas perigosas ao gol e – com ou sem exageros, com ou sem simulações – sofrer as faltas e dar chances reais de gol para um time que tem aproveitado bem as bolas paradas nas partidas? Vamos torcer para William ou o próprio Bernard entrar bem no jogo de hoje contra a Alemanha. Podem sim, fazer ótimas partidas, jogar até melhor do que o Neymar e, assim como fez Amarildo em 1962, suprir a ausência de um camisa 10 do Brasil.

Eles, os não-torcedores do Neymar, continuarão buscando justificativas absurdas para provar que ele não é craque, que ele é fominha, que ele deveria ser ator ao lado da namorada, que deveria nem estar usando a 10, que deveria mesmo é estar como está agora, machucado (“Vai fingir tanta falta! Deus castiga”, dizem os mais bizarros não-torcedores) e vendo do lado de fora o espetáculo do futebol que o próprio ajudou a se concretizar.

São raivosos estes não-torcedores, enfim. Um deles, jornalista que escreve para o Portal R7, expressou publicamente em redes sociais a sua torcida (isso em 23 de junho) para que o Neymar se contundisse, quebrando o fêmur, de preferência. Mas para o desespero de todo eles, Neymar tem idade – e futebol – para jogar mais umas três copas do mundo. Isso se a mandinga e a não-torcida deixarem.

*Crônica publicada nesta terça-feira (8) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Manhã atípica

Por Wilame Prado

O velho varria a calçada pela manhã. A camisa branca do velho estava com todos os botões fechados, até em cima. Em frente à casa onde mora, ele varria meio que desesperadamente, mais apressado do que em outras manhãs corriqueiras.

Os homens iniciavam seu meio expediente a contragosto. Fazia um vento gelado. Era de manhã, era inverno. Mas quase ninguém estava de blusa. Tempo fechado. A construção precisava continuar. Portanto, eles martelavam, batiam, quebravam e não viam o tempo passar. Muitos demonstraram no semblante uma cara séria, um ar de preocupação e expectativa.

Um senhor de bermuda e camiseta de manga demonstrava, no peito, certo orgulho enquanto segurava a coleira do cachorro no passeio público. O dono pouco atentava, na verdade, à felicidade do cão em sua matinal escapada. Olhava para frente com um ar de esperança, e a espera pela conclusão das necessidades básicas de seu cão se tornou momento ideal para reflexões, cara de sonhador.

Na fila do supermercado, um rapaz concluiu que era uma manhã boa para pensar na Letícia, que há tanto tempo não via. Eram divertidas as manhãs ao lado dela, os dois se permitindo tomarem café preto e pão com ovo, queijo e tomate na padaria mais próxima, justamente em manhãs como aquelas. Mas pagou rapidamente o valor cobrado pela caixa e, como num passe de mágica, esqueceu-se completamente de Letícia.

Uma mãe descascava tranquilamente batatas na cozinha quando considerou aquela manhã como muito boa hora para ligar para a filha que mora em SP e que certamente estava prestes a ir num mercado ou numa feira. Ela nem se importou com as possibilidades de não encontrar a filha em casa. Ligou do mesmo jeito, mas não podia, naquela manhã, ficar pendurada por mais de trinta minutos ao telefone como de costume.

Manhã ideal, pensou Letícia, para abrir a janela do pequeno quarto, no quarto andar do prédio simples e popular, e ver um pouco a paisagem cinza, sentir um friozinho, uma vontade de beber chá e se lembrar de que, naquele momento – em vários momentos –, não há ninguém dentro daquele apartamento para lhe aquecer, para dividir uma bebida quente em manhãs frias como aquela, para simplesmente pedir que feche logo a janela, “está tão frio e você pode pegar um resfriado, menina”. Ao contrário do rapaz da fila do supermercado, nem passou por sua cabeça lembranças de manhãs como aquelas em que se permitiam ir a uma padaria mais próxima tomar café preto e comer pão com ovo, queijo e tomate.

Quem olhava para o velho varrendo inevitavelmente visualizava também enormes bandeiras penduradas na sacada do sobrado onde morava, sede para um bom e velho churrasco que começaria em instantes. Os homens da construção, um deles com boné verde e amarelo, não participariam da confraternização, mas por estarem trabalhando ao lado da casa do velho, daqui a pouco sentiriam cheiro de carne assada e teriam mais vontade ainda de voltar para casa após o fim do expediente. O homem do cachorrinho ostentava a 10 da Seleção Brasileira no peito no meio da rua, mas, dentro de alguns minutos, precisaria voltar para casa e iniciar os trabalhos com sal grosso e carne encomendada no açougue. O jovem da fila do supermercado aproveitava a promoção e comprava boa quantidade de cerveja em lata para abastecer o churrasco que começaria antes, seguiria durante e perduraria depois do jogo. A mãe que ligou para a filha descascava batatas justamente para a maionese que seria servida no churrasco do filho que tinha ido ao supermercado comprar cervejas.

Letícia, que mora na mesma cidade onde todos aqueles aproveitariam os embalos de uma copa do mundo para comemorarem com churrasco não sabem certamente o quê, se esqueceria, naquela manhã atípica de sábado, que era dia de jogo do Brasil. Ela ficaria espantada ao ouvir comemorações de vizinhos pelo primeiro gol da partida, de David Luiz, aos 18 minutos do primeiro tempo, momento em que pensou em até ligar a TV para finalmente começar a ver o jogo, optando, entretanto, por ficar debaixo das cobertas, no quarto, agora com a janela bem fechada.

*Crônica publicada terça-feira (1º) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Dinheiro não compra a metafísica do futebol

Por Wilame Prado

Futebol tem dessas coisas. E é por isso que é mágico. É por isso que deve ser respeitado, goste-se ou não do esporte bretão responsável pela emoção de milhões de torcedores pelo mundo afora, e duelado, em média, duas vezes por semana, ou, como diz o técnico Muricy Ramalho, jogado quarta e domingo quarta e domingo quarta e domingo.

O Figueirense é um horrível time, um “catado” de Santa Catarina e que fatalmente cairá para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro no final deste 2014. Sei disso. Sei da ausência de qualidade do time catarinense. Vi, com meus próprios olhos, Figueirense 0 x 2 Santos domingo retrasado, em jogo disputado no péssimo gramado do Estádio do Café, em Londrina. Admitamos, pois: o Peixe está devendo futebol desde que perdeu o estadual para o Ituano, mas perder para o fraquíssimo Figueira, aí seria demais.

O time de Florianópolis colecionava quatro derrotas e zero gol, em quatro jogos, quando chegou, anteontem, à monumental Arena Corinthians para enfrentar o dono do estádio Padrão Fifa em jogo válido pela quinta rodada do nacional. Os barriga-verdes foram para não perder de W.O. Foram para cumprir tabela. Foram para evitar, ao menos, um vexame maior. E saíram vitoriosos. Um a zero para o azarão. E fim de papo, ficou para história: lembraremos para sempre que, na inauguração do estádio de abertura da Copa do Mundo Fifa 2014, plantado graças a muita grana vinda nem sei de onde na zona leste de São Paulo-SP, o Corinthians perdeu.

Mas, que loucura: era derrota na certa para o Figueira. Por lá, o primeiro jogo de um time que, por mais de 100 anos, esperou para ter um estádio. Mas futebol tem dessas coisas, como sabemos. No mundo futebolístico, não há cavalo premiado para apostar. Não tem bilhete marcado, salvo exceções, quando resolvem comprar os juízes ou quando um time se presta a perder de propósito só para azucrinar rivais. Caso contrário – talvez tirando também aquele desastroso e arranjado França 3 x 0 Brasil na final da Copa do Mundo de 1998 –, futebol é imprevisível, é mágico e nos atiça a dizer o famoso slogan do cartão de crédito: “Existem coisas que o dinheiro não compra”.

Dinheiro não paga uma vitória e os gols de uma partida bem jogada. Dinheiro não paga o toque metafísico que há em diversas disputas entre as quatro linhas do gramado, quando Davi vence Golias, quando o mais fraco surpreende o mais forte, quando um jogador retorna de lesão, chega a sonhar com o tento da vitória e sacramenta o êxito para o seu time marcando um gol em chute cruzado nas redes de Cássio, no começo do segundo tempo. Estamos falando de Giovanni Augusto, o “craque da camisa número 10” do alvinegro catarinense, e que merecia uma placa. E, ainda que, com a arrecadação recorde no jogo graças aos 36.694 pagantes e o rendimento de R$ 3.029.801,70, dinheiro não paga o Figueirense vencendo o Corinthians em plena inauguração de seu estádio, após angustiante espera de 104 anos de um time por uma casa própria.

Mas, fora tudo isso, no fim das contas, passada a euforia envolvendo o jogo atípico, todos sabemos que muitas vitórias corintianas acontecerão naquele belo estádio e que, mais do que no Pacaembu, aquele bando de loucos gritará mais forte que nunca e continuará estimulando os jogadores a buscarem a vitória, custe o que custar. E como bem conheço tantos amigos corintianos, tenho certeza de que a derrota na inauguração da Arena Corinthians, no fundo, já era aguardada. Afinal, confessam-se sempre como sendo os maiores sofredores do futebol planetário.

*Crônica publicada terça-feira (20) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Pesos do passado

Por Wilame Prado

Mais da metade do Brasil está acima do peso. Maringá também, segundo pesquisa realizada pela JGV em parceria com o Diário sobre o famoso Índice de Massa Corpórea (IMC). Na pesquisa, 54,2% dos entrevistados maringaenses apresentam sobrepeso ou obesidade. Eu estou acima do peso. Por baixo, uns sete quilos que precisam sumir de minha existência física para que eu não seja mais enquadrado como alguém pesado em excesso. Hora, então, de falar sobre o meu pai.

Era ele quem dizia que eu precisava comer mais, quando criança, para deixar de ser esquelético. Quando ele morreu, há sete anos, eu ainda era magro. O oposto de agora. Certamente, se tivesse medido meu IMC em 2007, o índice seria de magreza ou má-nutrição. Eu era um ser humano com a mesma altura, só que com 20 quilos a menos. Muitos desafios diários envolvendo estágio, faculdade, transporte coletivo e caminhadas. Não havia moto, não havia carro, não havia casamento e, sobretudo, não havia sequer dinheiro para almoçar direito.

Meu pai era gordo. Tinha as pernas finas e uma barriga enorme. Quando a vida ficou bem mais difícil para ele, emagreceu bastante. Mas a barriga nunca sumiu completamente. É estranho pensar sobre a imagem de um pai. Acho que sempre veremos nossos pais como fôssemos crianças e eles uns adultos enormes, cheios de razão, cheios de direitos para com você. Gigantescos. Mas como se apequenam os velhos pais deitados numa cama de hospital… a imagem das mais difíceis para um filho ver.

Ayrton Senna era magrinho. Pudemos ver diversas imagens dele nesses últimos dias. Chorei com rúculas (não estou de regime) na boca enquanto almoçava e assistia, ao mesmo tempo, imagens de um documentário sobre o piloto de Fórmula 1 que nos deixou há 20 anos. Senna parecia ser uma pessoa um tanto especial. Parecia ter urgência de viver, parecia saber que era um missionário e que a sua missão teria um prazo curto de validade. Ele morreu aos 34 anos sem deixar filhos, mas deixando inúmeros fãs e um enorme legado.

Em 1º de maio de 1994, com 8 anos de idade, dei uma dica para a minha família do que seria quando crescesse: jornalista. Sabia o quanto meu pai gostava do Ayrton Senna, e a minha grande missão naquele dia, pelo menos em minha cabeça, seria dar a notícia em primeira mão para ele. Ficaria contente, independentemente da morte do ídolo, quando revelasse a trágica notícia para o meu pai. Corri, então, rapidamente, as quadras que separavam minha casa da de um amigo, local onde havia ficado sabendo do desastre envolvendo o piloto. E, como sempre, meu pai não estava em casa. Nem me lembro do que aconteceu depois, se realmente cheguei a dar a notícia da morte do Ayrton Senna para alguém.

O tempo passou. O tempo passa bem rápido. E, tirando os pesos que costumam se acumular em nosso corpo, as coisas tendem a desaparecer. Os amigos, os ídolos e os nossos pais costumam ir embora, muitos deles para sempre. Há 20 anos, Senna morreu. Há sete anos, meu pai morreu, também em 1º de maio. As lágrimas, no final das contas, sempre cairão no prato de rúcula, assistindo a um documentário ou sentindo a ausência do pai, estando ele vivo ou não. Só que este ano fiz diferente, ou pelo menos quis pensar diferente: sete é um número forte, sete anos é tempo demais, e a data pode pressagiar (tudo depende do seu próprio pensar) novos tempos.

Inicio, então, as despedidas das sombras. A morte do pai fica no passado (essa história que escrevemos todos os dias, para nós mesmos), opto apenas pela vida dele, pela lembrança boa, pela saudade gostosa. Assim, quem sabe, consiga até me reencontrar com as vitórias seguindo os exemplos de determinação e força do nosso querido Ayrton Senna. A primeira batalha? Contra a balança.

*Crônica publicada nesta terça-feira (7) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Maringá FC, um time de respeito

Por Wilame Prado

Mesmo com a derrota no jogo dramático do último domingo no Estádio Regional Willie Davids para o Londrina Esporte Clube, afirmo sem medo de errar que o Maringá Futebol Clube é também um campeão. Não leva o caneco, mas merece os parabéns pelo jogo jogado tanto dentro das quatro linhas como fora – uma bela campanha de um time que, em pouco tempo, pulou da terceira para a primeira divisão do estadual, perdendo poucas partidas neste período, desempenhando um futebol elogiável e que se estende nestes quatro anos de fundação do clube.

Dito isto, revelo: fiz uma promessa para mim mesmo na noite do último sábado, vendo uma garoa fina molhar o chão do pátio aqui do jornal, pensando na grande final do Paranaense, que só escreveria esta crônica em caso de derrota do Maringá FC. Fui, durante pouco mais de um mês, assessor de imprensa do time e, em caso de título, evitaria escrever para que não pensassem que estivesse eu me incluindo – justo nos festejos – como parte integrante daquela que foi, e continua sendo, uma verdadeira família capitaneada pelos irmãos Regini (Zebrão e João Batista), gerenciada pelo diretor de futebol, Paulinho Regini, e orquestrada pelo técnico Claudemir Sturion.

Durante o pouco tempo em que convivi com funcionários, comissão técnica e elenco do Maringá FC, percebi o tamanho da pressão que envolve aqueles que trabalham com algo intimamente relacionado à paixão das pessoas. É bem mais fácil torcer do que trabalhar com o futebol. Corre nos sangue dos maringaenses o esporte bretão. Homem, mulher, criança. Não importa o nome do clube nem as cores do brasão: o que importa, para a maioria dos moradores desta cidade, é o melão rolando no gramado verde do Willie Davids.

Por tudo isso e muito mais, sinto uma vontade danada de parabenizar o pessoal lá do time, a começar pelo roupeiro Eli Lima, lenda viva do futebol maringaense desde os anos 1970, até o boa gente João Regini, presidente que está sempre escalado para a pelada descontraída nas manhãs de sábado junto ao plantel, no CT Vale da Zebra, e que não se importa nem mesmo de ajudar um assessor sem jeito a pregar no alambrado do estádio um painel, com a logo do time e patrocinadores, servindo de fundo nas entrevistas para a TV.

Essa campanha do Maringá FC, que resultou num vice-campeonato com sabor de título – o time demonstrou uma evolução impressionante até chegar às finais e, afora as penalidades, jogou melhor no Estádio do Café e também em casa –, ficará guardada em minha memória em relances de quando trabalhei para o time, em especial os momentos em que fiquei na beira do gramado do Willie Davids. Momentos de bastidores que, talvez, digam mais do que as arrancadas de Reginaldo, os lançamentos de Léo Maringá, os dribles de Max, o oportunismo de Gabriel Barcos, os gols de Cristiano, a raça de Zé Leandro, as defesas de Ney e depois de Ednaldo, a seriedade de Fabiano na zaga e tanta entrega dos demais do elenco.

Nas entrelinhas da assessoria para o Maringá FC, entre uma anotação e outra no caderninho, entre uma informação e outra repassada para os colegas de imprensa, entre um pedido e outro de declarações para jogadores, comissão e diretoria, entre uma crítica e outra de jornalistas querendo água, querendo lanche, querendo entrevistas, querendo informações exclusivas, querendo tudo (!), certamente o que mais me marcou foi o término das partidas, momento em que, exaustos, todos os envolvidos nessa guerra benigna que é o futebol, saíam pelos fundos do velho Willie Davids e iam embora para o descanso merecido. Uns, rodeados por filhos em festa e mulher carinhosa. Outros, solitários, rumando ao alojamento onde provavelmente sentiriam saudades da família que ficou longe. Outros, ainda, acelerando seus automóveis para passarem pelo menos um dia ao lado daqueles que o amam e que ficaram em casa. Todos, sem exceção, humildes, determinados e felizes por fazerem aquilo que mais gostam nesta vida, que é viver em função do futebol e que foi (pelo menos até então) ter vivido pela honra e glória do Maringá FC, um time de respeito.

*Crônica publicada nesta terça-feira (15) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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O caminhar é mais belo quando de bicicleta

Por Wilame Prado

Um colega pagou R$ 4.999 em uma linda bicicleta e é um dos que ajudaram na estatística surpreendente em prol do ciclismo: houve um aumento de 300% no mercado de bicicletas no País nos últimos cinco anos, segundo a Associação Brasileira da Indústria, Comércio, Importação e Exportação de Bicicletas (Abradibi). E valeu cada centavo, segundo ele e segundo quem viu a bike de perto. Cintilam o preto e o vermelho das cores do quadro. Coroas e catracas brilham e se mostram prontas para aguentar o eterno trocar das marchas, claro, todas coordenadas pelo cérebro pensante de um câmbio Shimano dos mais competentes. As rodas com aro de tamanho 29 polegadas dão imponência à magrela, que de fraquinha não tem nada, principalmente quando se repara nos pneus grossos ostentadores de um meio de transporte bravo, imponente, pronto para os desafios citadinos, off road e até rodoviários.

Quando ele chegou ao trabalho com sua bicicleta nova, foi uma festa. As meninas paravam para olhar o seu pedalar charmoso e os mais chegados cercaram o ciclista e o seu meio de transporte para sabatiná-lo: “quanto pagou?”, “é melhor de pedalar do que a bicicleta antiga?” Há alguns anos, quando ele chegava ao serviço pedalando bicicleta, os olhares eram de desconfiança. Alguns chegaram a dizer que se tratava de fogo de palha, tendo a certeza de que as pedaladas servindo como meio de transporte entre casa e trabalho não perdurariam por mais de uma semana. Que nada: hoje, no marcador de quilometragem instalado na magrela, os números surpreendem. Assim como ele, segundo a Abradibi, 50% daqueles que compram bicicletas as usam como meio de transporte.

Além do que, o jogo se reverteu rapidamente. A bike caiu no gosto de vários funcionários. Poucos, é verdade, se atrevem a ir trabalhar pedalando bicicleta, por uma infinidade de motivos: se sentem incomodados com as roupas, com o suor e muitos precisam do carro para fazer uma rotina agitada cuja chegada ao trabalho é apenas um dos milhares de compromissos profissionais e pessoais diários. Então, para esses muitos, a alternativa é praticar o ciclismo assim que as luzes do escritório finalmente se desligam e se pode então retornar ao lar, reencontrar-se com a magrela esperando na garagem, ao lado do carro, ao lado da moto, estacionados, quietos.

Algo no ar parece estar bem claro: é mais legal falar que comprou uma bike do que anunciar a “conquista” de um carro zero-quilômetro. Os rapazes chegam ao ambiente de trabalho e torcem para que ninguém veja o seu carro zero estacionado na rua. As moças tratam logo de tirar os plásticos dos bancos. O emplacamento do carro novo do patrão é feito no mesmo dia. E, também no primeiro dia, muitos têm apelado para as estradas de terra e a consequente sujeira de lama na lataria para amenizar os possíveis efeitos negativos de algum conhecido ver a tinta impecável, o brilho denunciador de que aquele pagador de impostos é só mais um que se deixou enganar pelas propagandas das concessionárias na TV, no intervalo da novela.

Com a bike é diferente. Mais do que anunciar a compra de uma magrela, todos ficam mesmo felizes sabendo quando a pessoa vira uma adepta das pedaladas, independentemente de marca, modelo, cor. O ato de pedalar é nobre, seja numa Barra Circular, seja numa Aurumania Gold Bike Crystal Edition (R$ 249 mil). Acontece um tipo de celebração quando se diz “estou pedalando”: os que já pedalavam antes passam a minar o iniciante do ciclismo com uma infinidade de informações importantes para que não seja atropelado, não sofra com subidas muito íngremes em determinados trechos da cidade ou então que não sofra com tombos tolos. Ao lado de uma bicicleta, há mais socialização, novos casais se encontram e amizades se fazem.

Destinos mais nobres são alcançados quando se trocam os pedais de acelerar e frear de um carro por um pedal que promove o atrito com a corrente, o estímulo do girar das duas rodas e, consequentemente, o movimento de uma bela bicicleta a trafegar por aí, pelas ruas da cidade. O caminhar é mais belo quando de bicicleta. E que bom seria se houvesse mais ciclovias e políticas que estimulassem o uso das bikes nas cidades. Que bom seria.

*Crônica publicada nesta terça-feira (18) na Coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Última viagem

Por Wilame Prado

De que adiantam os sermões? Os aconselhamentos? As propagandas? O respeito com as leis de trânsito? Em muitos casos, de nada adiantam. O asfalto é palco para as mortes, é como marchar em cinzas fúnebres daqueles que morrem diuturnamente, é se aventurar numa metralhadora automobilística, numa roleta russa sobre rodas.

Não bastam as curvas e o perigo da ultrapassagem na faixa contínua. Quando se propõe a ir para guerra, ou seja, conduzir um veículo pelas nossas rodovias federais, estaduais, mortais, corre-se o risco até mesmo de se ter a vida tomada por um “carro perdido”, uma versão da bala perdida substituída por um trambolho de metal, vidro e plástico que pesa toneladas e que pode atingir a sua cara, corajoso motorista das nossas estradas quase sempre esburacadas.

Diante de um volante, antes da partida, a sugestão é válida para os homens de fé e até para os homens de pouca ou nenhuma fé: reze, ore, acenda velas, destrinche terços, faça a oração que o próprio pai nos ensinou, agradeça por tudo e peça para viver mais, ainda que, a partir daquele momento, ligando o carro, ajeitando o retrovisor e engatando a marcha, a sorte estará lançada e a morte pode infelizmente acompanhá-lo naquela que poderá ser a última viagem em terra.

Todas as histórias envolvendo mortes no trânsito respigam no drama. A morte é dramática, eu sei, mas as mortes no asfalto quente ou no asfalto molhado pela chuva sempre são piores. As pessoas que pegam as rodovias para se locomoverem de um ponto a outro quase sempre estavam topando aquele risco em prol de algo melhor: um trabalho a se fazer em outra cidade, um final de semana no resort, o início de umas férias na casa de cunhados que moram próximo ao litoral, uma ida até o país vizinho para as compras ou uma visita pontual ao amigo, ao irmão, ao tio, que, deitado numa cama de hospital, precisa da sua companhia, nem que for por poucos instantes.

Mãe e pai deixam filhos. Ciclista perde a mão, que desaparece em meio à leve correnteza do córrego sujo da cidade grande. Bêbado estraçalha pedreiro e bicicleta e percorre quilômetros com o pobre coitado preso no vidro estourado da frente do carro. Famílias inteiras se vão. Homem que faria aniversário amanhã perde a vida um dia antes após ser mais uma vítima do violento trânsito.

Moça que ia para a lua de mel deixa marido viúvo no primeiro dia de casamento após colisão frontal com um caminhão em ultrapassagem perigosa. Após entregar convite de casamento para amigos que moram em cidade vizinha, homem perde a direção do veículo numa curva e o casal não se salva a tempo de dizer sim no altar.

Isso sem dizer nos sobreviventes, sem uma perna, sem um braço, sequelado, que têm pesadelos todos os dias com lembranças terríveis do barulho da batida, da dor, do susto, da luz forte na cara, do conhecido morto no banco ao lado.

Quem aí está pronto para a guerra? Quem se sujeita a talvez fazer a última viagem? O sangue vermelho que escorre no asfalto cinza será rapidamente lavado. Os destroços automotores serão recolhidos. Corpos passam pelo Instituto Médico-Legal antes do enterro para as últimas lágrimas de parentes e amigos. Mas a guerra continuará: os carros estarão cada vez mais potentes, as propagandas de cerveja cada vez mais atraentes e mais frágeis serão as nossas vidas.

*Crônica publicada nesta terça-feira (11) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Não vá embora

Por Wilame Prado

Pai, entre em nossa casa. Deixe esta malinha aí de lado e fique à vontade. Não trouxe shorts? Eu pego uma bermuda minha para você vestir. Sente-se aqui no sofá. Mas, por favor, não repare a bagunça.

Hoje quero te contar sobre as coisas que temos vivido. É uma correria grande, mas feita com muita vontade e carinho. Finalmente nos mudados para o nosso apartamento. Corremos todos os dias, mas com energia, por saber que estamos correndo ao encontro da nossa felicidade. Estamos cansados, mas contentes. A maciez da nossa cama é como um gole de água no deserto. Não tenho tido, ultimamente, energia nem mesmo para sonhar. Minhas noites de sono são utilizadas exclusivamente para descansar.

Aí então acordo, pai, e fico algum tempo olhando ao meu redor. Fico com vontade de agradecer por tudo, por todos, fico feliz por ser teu filho, por ser irmão da minha irmã, por ser filho da minha mãe, por ser marido da minha mulher e por ser amigo dos meus amigos. Vivo momentos de deslumbres, mas que duram pouco. Há sempre alguma coisa para resolver, para ser feita. Dedico poucos, mas preciosos, minutos para pensar em tanta gente que já me ajudou, que passaram em minha vida e que deixaram marcas positivas no meu viver. Penso muito em você, pai.

E lamento o fato de, aliando fobia social com a falta de tempo, não ter visto e nem sequer falado ultimamente com as pessoas que eu amo. Vivo momentos em que a praticidade deve predominar. A máquina não pode parar. Só que as engrenagens precisam de manutenção. O ser humano precisa dos outros, precisa amar e viver momentos felizes compartilhados. Vivemos um tanto isolados, só que a ilha, agora, mudou de endereço.

Sei que essa fase vai passar e que teremos calmaria. Mas há que se ter cuidado, pai. As ondas do mar podem esticar demasiadamente uma reta que liga dois pontos. O senhor sabe bem disso. E preferiu se isolar. É um milagre, na verdade, o senhor estar hoje aqui do meu lado, sentado neste sofá, conhecendo minha casa nova e se divertindo com a minha falta de jeito, com a minha ânsia de querer contar tanta coisa de uma vez só. Logo eu, que nem sou muito de falar. Só pode ser um milagre.

Fique tranquilo, não vá embora tão já. Eu pego um par de chinelos para o senhor se sentir mais confortavelmente bem, assim como fazia quando eu era pequeno e você chegava cansado do trabalho. Não tenha medo. Não contarei para ninguém que o senhor me visitou, mas, por favor, não vá embora novamente. Sei que as suas despedidas costumam ser para sempre, para a eternidade. Não vá embora, eu te imploro: aprendi a cozinhar, gosta de strogonoff? Tome um banho, as toalhas são novas e macias, descanse na minha cama, se precisar usar o computador, a internet já foi instalada. Pagamos um absurdo, mas olha quantos canais nessa televisão, vários em HD. Não vá embora, fique mais, podemos fazer um churrasquinho na área social do prédio amanhã quando eu voltar do trabalho, compro carne de primeira e cerveja gelada. Na mesa de sinuca, a gente duela mesmo sabendo que, mais uma vez, não terá coragem de vencer o próprio filho e fará corpo mole com o taco na mão. Podemos fazer várias coisas ainda, pai. Não vá embora. Não vá embora.

*Crônica publicada nesta terça-feira (21) na Coluna Crônico, do Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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