Cultura



Uvas de John Fante

"A Irmandade da Uva", último livro de John Fante publicado no País, foi lançado originalmente em 1977

“A Irmandade da Uva”, último livro de John Fante publicado no País, foi lançado originalmente em 1977

Por Wilame Prado

Em 2012, fez 80 anos que o escritor norte-americano John Fante (1909-1983) publicou seu primeiro conto na revista The American Mercury. E a comemoração veio em forma de livro: a José Olympio Editora publicou, em 2013, o romance “A Irmandade da Uva”, lançado originalmente em 1977 por Fante.

No romance, o personagem Henry Molise, 50 anos, escritor de sucesso, retorna à casa da família para ajudar com o mais recente drama dos pais já idosos: um divórcio. O pai de Henry, tirânico e alcoólatra, ainda desperta o medo em seus filhos, todos já na faixa dos 50 anos. A mãe, doente e devota ao catolicismo, tenta sempre amenizar as situações dramáticas dentro do lar, consolando e até confundindo os filhos.

Costumeiramente revelando uma ponta autobiográfica em seus livros, os seguidores de Fante podem perceber que, em mais esta obra, o escritor continua com as premissas sempre requisitadas e que tanto encantam aos leitores: a vida de quem sai do lar extremamente tradicional e católico para tentar ser escritor, dramas de família, as dificuldades de imigrantes e descendentes italianos nos Estados Unidos, o vinho tomado além da conta, o poder e os questionamentos sobre religião e as manifestações de amor que, para o escritor, ainda resta nas pessoas.

Os finais dos livros de Fante costumam ser tocantes, sempre com uma espécie de salvação oferecida ao errante ser humano.

Mais de Fante
Atualmente, os fãs aqui do Brasil têm em mãos oito obras traduzidas de Fante. Pela José Olympio Editora, o penúltimo livro lançado foi a coletânea de contos “O Vinho da Juventude”, lançado originalmente nos Estados Unidos em 1985 e que chegou traduzido em 2010 nas livrarias do Brasil.

A mesma editora também já lançou “O caminho de Los Angeles”, “Espere a primavera, Bandini” e “Pergunte ao Pó”. Do autor, a editora L&PM Editores lançou por aqui “Sonhos de Bunker Hill” e “1933 foi um ano ruim”.

“A Oeste de Roma”, livro lançado em 1990 pela Editora Brasiliense com duas novelas, é também outra alternativa traduzida no País. O problema é encontrar o livro, esgotado nas livrarias e hoje considerado artigo de luxo em sebos.

A distância que me separava de Oeste de Roma
John Fante que me perdoe, mas faltou-me grana para pagar mais de R$ 40 por “A Oeste de Roma” (Editora Brasiliense, 180 páginas) usado em um dos poucos sebos que ainda têm o exemplar. Para os fãs ardorosos, pode ser a única alternativa. Para quem tem o dinheiro, vale cada centavo investido naquela que considero uma das melhores obras escritas por ele.

Mas tive sorte na busca pela leitura obrigatória de “A Oeste de Roma”. Digo obrigatória porque era o último livro que me faltava para finalizar a leitura de todas as obras de Fante já traduzidas no País. Precisava consumir aquelas páginas tal qual uma criança diz precisar do doce, do brinquedo.

Minha sorte veio em nome de uma até então desconhecida moradora de Osasco-SP. Na busca ensandecida pelo livro, cheguei ao ponto de digitar o nome da obra na rede social de literatura Skoob e comecei a perguntar para cada um que afirmava ter o exemplar se poderia me emprestar a obra.

Claro, muitos ignoraram ou disseram não para o fã louco de Fante. Menos Priscila Costa, que me respondeu: “Será um prazer te emprestar o livro. Passe os dados para que eu possa te enviar via correio”. Antes, porém, de me enviar o seu raro “A Oeste de Roma”, a simpática garota, hoje minha amiga virtual, sugeriu me mandar também uma caixa de lenços tamanha era minha emoção ao agradecer o empréstimo.

Em “Meu Cão Estúpido” – uma das duas novelas do livro, Fante parece estar mais maduro do que em qualquer outro relato. Ele descreve com maestria e de maneira irônica as situações envolvendo uma família típica da Califórnia que se vê diante de um problema quando, sem explicações, um cachorro estúpido, preguiçoso e com hábitos sexuais constrangedores passa a morar em seu quintal.

O cachorro, no texto, acaba mesmo ficando em segundo plano. O que fica evidente é a maneira que Fante enxergava a mediocridade que reina os hábitos familiares de filhos mesquinhos, mimados e folgados, mulheres consumistas e histéricas e homens sempre levemente alcoolizados em uma vida que, às vezes, só mesmo a presença de um inocente bicho de estimação parece dar um pouco de paz de espírito em um lar.

Em “A Orgia”, a outra novela do livro, Fante retoma as velhas questões familiares e autobiográficas de um menino que vive no dilema entre a mãe fervorosamente católica e o pai, que, ainda que trabalhador, acompanhado de um amigo, vai atrás de mulheres e bebidas. Outra texto imperdível de Fante.

É por essas e outras que só tenho a agradecer por tudo o que Fante já escreveu e, claro, à amiga Priscila Costa, que, sabendo do tamanho do valor da literatura feita pelo criador do eterno Arturo Bandini, reconheceu a importância de se propagar isso tudo emprestando um raro e ótimo livro para mim.

*Parte de reportagem publicada em 10 de junho de 2012 no extinto caderno D+, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Ateliê vira coworking artístico em Maringá

Andy Ferrari, em espaço artístico colaborativo: para todos criarem (Foto de Ricardo Lopes)

Andy Ferrari, em espaço artístico colaborativo: para todos criarem (Foto de Ricardo Lopes)

Por Wilame Prado

Na hora de criar, para muitos artistas, escritores e atores o isolamento é uma opção. Mas não a única. O processo criativo pode ser expandido com experiências colaborativas. Pensando nisso, a artista plástica Andy Ferrari, 27 anos, abriu as portas do ateliê dela, na zona 7 de Maringá, e o transformou em um coworking artístico, prática cada vez mais comum nas capitais.

Quem visita um coworking voltado a trabalhos administrativos percebe um clima interessante, moderno. Várias pessoas, em um mesmo ambiente, conectadas em notebooks e tocando os negócios delas. Geralmente, compartilham da máquina do café e da secretária. A troca de ideias é fluente. Isso também ocorre em um coworking voltado às artes – a diferença é que, em vez de computadores, mesas e cadeiras, vê-se pincéis, cavaletes, esculturas e espaços abertos para o movimento, por exemplo, de alguém que ensaia a próxima montagem de teatro.

Andy gostou do que viu em espaços coletivos em Curitiba, São Paulo, Inglaterra e no Canadá. “Posso citar o Ateliê em Rede, de São Paulo, e o Astrolábio Centro de Criatividade, em Curitiba, mas em outros países é comum encontrar esse formato em centros de arte, como o Montreal Arts Center, no Canadá, que oferece ateliês a baixo custo, ou o The Egg Factory, na Inglaterra, que acabou de inaugurar um coworking com estrutura para estamparia e costura”, destaca.

Diante disso, não teve dúvidas (principalmente pensando em um público que está apenas dando as primeiras pinceladas na tela em branco) que o coworking artístico pode também ser bem-vindo a Maringá, cidade universitária que recebe, anualmente, um número grande de jovens dispostos a encarar os dotes artísticos como algo a ser seguido profissionalmente.

“O coworking funciona muito bem como alternativa para esse passo inicial. Os custos não são altos, o coworker tem mais liberdade de horários e acesso a ferramentas e equipamentos aos quais, muitas vezes, não teria, como por exemplo o forno para cerâmica ou uma prensa para gravura”, destaca.

Para Andy, espaços colaborativos, afinal, é solução para um problema mais técnico envolvendo as artes. Em suma, hoje em dia já não há mais desculpa para o artista criar. “Para a produção e ensino de artes é necessário um ambiente diferente, que consiga atender tanto um ilustrador quanto um escultor, que pode passar semanas trabalhando na mesma obra”, ressalta a artista maringaense, que, ano passado, além de inaugurar o espaço, mostrou em exposições um pouco do trabalho dela de modelagem em cerâmica, principalmente, em máscaras.

Atualmente, no coworking de Andy, seis profissionais oferecem cursos e oficinas. “Nossas aulas começam agora, na primeira semana de março”, diz.

CALDEIRÃO VERSUS PANELINHA
Para a área do teatro, Leiza Maria vê com bons olhos os espaços coletivos de criação. A escritora, produtora e atriz conta que é sempre muito desgastante depender de espaços públicos para os ensaios e outras atividades dramatúrgicas.

“Os artistas e produtores sempre dependem de parcerias com instituições que possam oferecer um espaço mais amplo, já que a nossa atividade é prática e envolve muita gente. Outro ponto importante é a praticidade de uma infraestrutura que atenda à necessidade de quem precisa trabalhar, sem ter de se preocupar em mantê-la, essa é a grande sacada”, destaca. Ela ressalta ter trocado o local dos ensaios quatro vezes em um dos últimos espetáculos.

Antes de retornar a Maringá, Leiza morou no Rio de Janeiro por vários anos, cidade onde teve a oportunidade de gerenciar um teatro privado e outro público. Pela grande procura e também por uma agilidade maior, muitos grupos tendem a pagar pelos espaços privados para os ensaios.

Mais do que uma opção interessante de criação e ensaios, na opinião de Leiza, um coworking, em Maringá, por exemplo, pode servir para que aconteça uma maior união entre a classe artística da cidade. “Cria-se um ambiente de cooperação e não de concorrência. Percebo em Maringá as famosas ‘panelinhas’, e isso é péssimo para a troca de experiências. É uma cultura de concorrência que só atrapalha, por isso, penso que sim, um espaço coletivo seria um caldeirão em vez de uma panelinha.”

COWORKING ARTÍSTICO
Conheça o espaço coletivo da artista Andy Ferrari no site
O espaço fica na Rua Rui Barbosa, 693, Zona 7
Telefone: (44) 9804-8886, via ligação, SMS ou WhatsApp
[email protected]

*Reportagem publicada em 3 de março no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Programa Primeiro Museu está com inscrições abertas em todo o País

Lançamento do Programa Primeiro Museu em Campo Bonito, município localizado na região de Cascavel. Foto: Fortunato Fávero

Lançamento do Programa Primeiro Museu em Campo Bonito, município localizado na região de Cascavel. Foto: Fortunato Fávero

Por Wilame Prado

O Museu da Família (MF) e o Instituto Cultural Ingá (ICI) abriram nacionalmente as inscrições para o Programa Primeiro Museu, que viabiliza a implantação nas localidades interessadas de um museu comunitário de tipologia virtual e ainda um projeto cultural para implantação de um museu físico enquadrado nos instrumentos de renúncia fiscal existentes. As inscrições vão até 15 de dezembro, pelo site: www.primeiromuseu.org.br/site/inscricao.

No site, os interessados poderão preencher uma ficha de inscrição com dados básicos, contrato, ata ou estatuto social da instituição (prefeitura, associações, câmaras municipais, empresas privadas etc), comprovante de endereço e documentos pessoais. As dúvidas podem ser sanadas por telefone ou e-mail: (44) 3025-1666 e [email protected]

Há dois meses, o Programa Primeiro Museu começou a ser implantado em diversas cidades localizadas nas regiões norte, noroeste e centro-oeste do Estado do Paraná. De lá para cá, diversas famílias moradoras destes municípios – encorajadas pelas secretarias culturais e de educação – estão resgatando suas fotos e documentos pessoais importantes para alimentar as páginas de cada família e que vão ajudar a compor o museu comunitário destas localidades.

Entendendo que a carência de museus e até mesmo de dados históricos não é exclusividade apenas das pequenas cidades paranaenses, o Programa estende o serviço para qualquer município brasileiro que ainda não tenha museu e que se interesse por um. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), os municípios brasileiros com menos de dez mil habitantes, de maneira geral, continuam perdendo moradores e, consequentemente, parte de sua história.

Pertencimento
Para o geógrafo e presidente do MF, Edson Pereira, isso se deve ao suposto sonho de uma vida melhor na cidade grande, fato comprovado pelo aumento populacional em municípios com população entre 200 e 500 mil habitantes. “O Programa Primeiro Museu atua não apenas no resgate e conservação da memória local. Mais que isso, estimula o sentimento de pertencimento nos moradores, que, ao se sentirem representados na história do local onde moram, recuperam a autoestima e encontram mais sentido em continuar morando lá”, explica.

A preocupação do MF está relacionada também à ausência de museus na maioria dos pequenos e médios municípios brasileiros. No Paraná, 95% das cidades com menos de 100 mil habitantes não possuem museus ou mesmo salas de memória. O Plano Nacional Setorial de Museus (PNSM) trás como meta o estímulo à criação de um museu em cada município brasileiro até 2020, o que totalizaria a criação de mais 4.295 museus até lá.

Direito à memória
Marcelo Seixas, diretor de projetos do MF, ressalta que, conforme previsto na Constituição Federal, o direito à memória é algo que deve ser garantido pelo Estado, com a cooperação da comunidade. “Museus comunitários devem se comprometer na garantia deste direito, o que certamente age não só nessa preservação da memória, mas também na integração maior entre moradores, elevação da autoestima da população e uma necessidade automática de preservação dos bens públicos daquele local.”

Entenda
O Programa Primeiro Museu prevê a viabilização de um museu comunitário de tipologia virtual implantado; um projeto cultural para implantação de museu físico, enquadrado nos instrumentos de renúncia fiscal existentes; e a capacitação de agentes locais na gestão das unidades museológicas do projeto.

Com isso a comunidade recebe um museu virtual contendo informações textuais e fotográficas da história local, que pode inclusive ser implantado no site da prefeitura, dependendo do caso. Depois, inicia-se um processo de capacitação de pessoas que morem na cidade e que se interessem pela memória local para atuarem, sob coordenação de profissionais da museologia contratados pelo MF, na efetivação do primeiro museu físico do município.

Com a contrapartida de R$ 6.300 para custear gastos logísticos iniciais, podem participar do Programa Primeiro Museu prefeituras, câmaras municipais, associações civis sem fins lucrativos, entidades filantrópicas, instituições de ensino, clubes esportivos, igrejas e cooperativas vinculadas à comunidade a ser beneficiada.

O projeto do futuro museu físico será modelado de acordo com as exigências do Fundo Nacional de Cultura do Ministério da Cultura (MinC). Assim, a ideia é que, até 2015, o programa viabilize o primeiro museu para pelo menos 60 municípios, nos quais os recursos via Lei Rouanet podem chegar até R$ 600 mil para cada um deles.

Visite o site do Programa Primeiro Museu: primeiromuseu.org.br
E a página do Museu da Família no Face: facebook.com/museudafamilia

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Com a arte e a coragem II*

HISTÓRIA. Reunião de cineclubistas de Maringá na sede da União Maringaense de Estudantes Secundaristas: na foto, José Gil de Almeida e Ademir Demarchi. —FOTO: ARQUIVO PESSOAL

HISTÓRIA. Reunião de cineclubistas de Maringá na sede da União Maringaense de Estudantes Secundaristas: na foto, José Gil de Almeida e Ademir Demarchi. —FOTO: ARQUIVO PESSOAL

(*) Continuação da reportagem de ontem, sobre manifestações culturais em Maringá na época da ditadura

Por Wilame Prado

Cineclubismo, movimento que permitiu o acesso a filmes que não entravam em cartaz e que foi alternativa para se discutir política em plena ditadura, teve forte representação em Maringá nos 1970 e 80

Em depoimento para o documentário “Cineclubismo – Resistência na Ditadura”, o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet revela que, nos anos 1970, o cineclubismo se tornou uma das únicas alternativas para se debater política num País assolado pela ditadura e repressão militar, após o golpe de 31 de março de 1964, data marcante na história política do Brasil e que esta semana completou 50 anos.

Bernardet explica que, mais do que excelentes alternativas para entretenimento, programação e debate envolvendo a sétima arte, os cineclubes se tornaram áreas para a discussão política. E seguindo a onda do cineclubismo em diferentes lugares do País, em especial em São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Campinas (SP) e outras cidades do Nordeste, criou-se, em meados de 1974, o Cineclube Maringá, que viria a ser um dos mais ativos do Estado graças à energia de seus participantes, em especial a do então funcionário do extinto Banestado José Gil de Almeida, que mais tarde viria a ser presidente do cineclube.

Conforme evidencia Gil de Almeida demais participantes, pelo menos dois fatores fizeram do Cineclube Maringá algo um tanto mais ousado, comparado a outros cineclubes formados na década de 70: as cidades menores e do interior eram menos vigiadas pelos censores da ditadura e o grupo de apreciadores de cinema local era “protegido” pelo time de advogados – e também cinéfilos – Horácio Raccanello, Laércio Souto Maior, José Raccanello e José Cícero.

Mesmo assim, relembra Gilde Almeida – preso apenas uma vez por ter pichado “Abaixo a Ditadura” num muro em Maringá –, havia perseguição na cidade por conta das atividades envolvendo o cineclube local. “A casa de um integrante foi metralhada e outro foi ameaçado por um agente do Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna (DOI/Codi) durante uma manifestação na Praça Raposo Tavares, em plena luz do dia”, contou Gil de Almeida em entrevista ao Diário em 2008, quando lançou o livro “A História do Movimento Cineclubista no Paraná”.

O professor aposentado da UEM José Tarcísio Pires Trindade diz ter sido membro do Cineclube Maringá durante pouco mais de um ano. Tempo suficiente, segundo ele, para entender o quanto foi importante o movimento cineclubista e a atividade das cinematecas no País em pleno regime militar. “Os filmes chegavam por malote de cinematecas de São Paulo e de Campinas. Muitas vezes, conseguíamos os filmes em embaixadas também”, recorda-se.

Segundo ele, muitos filmes bons – e não apenas do cinema alternativo – nem sequer entravam na programação comercial dos cinemas de rua de Maringá, dentre eles o Cine Teatro Plaza, o Cine Maringá, Cine Horizonte e o Cine Pedutti. “Lembro-me de ter visto, pelo Cineclube Maringá, dois clássicos do cinema mundial: ‘Encouraçado Potemkin’ [do russo Sergei Eisenstein] e ‘Cidadão Kane’ [do norte-americano Orfson Welles”, conta ele, destacando a importância que tinham as discussões após a exibição dos filmes para a formação de opinião e conhecimento sobre a arte do cinema. “Fazíamos uma espécie de boletim, falando sobre o filme que iria ser exibido e com outros artigos sobre cinema, algumas vezes com críticas a filmes que estavam no circuito comercial, como esteve, por exemplo, ‘Vai Trabalhar, Vagabundo’ [do brasileiro Hugo Carvana]. Distribuímos na UEM, em colégios e para os frequentadores do cineclube”, diz Trindade.

Gênese do PT
O historiador da Gerência de Patrimônio Histórico de Maringá João Laércio Lopes Leal lembra que, ao lado do teatro, o movimento do cineclubismo na cidade foi declaradamente de esquerda. “Era um núcleo de resistência cultural ativo, com uma postura abertamente contrária à ditadura”, diz. O professor e pesquisador da UEM Reginaldo Dias, doutor em História Política, diz que, entre os integrantes do Cineclube Maringá estavam alguns dos futuros fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) na cidade.

Um deles foi o maringaense radicado em Santos (SP) Ademir Demarchi, poeta e cronista do caderno Cultura. Gil de Almeida, que atualmente mantém o Jornal Água Verde em Curitiba, lembra que, no início do Cineclube Maringá, havia apenas um projetor 16 mm e que, inúmeras vezes, foi transportado na garupa da bicicleta de Demarchi. “As primeiras exibições foram em escolas públicas e particulares da cidade, seguidas de debates sobre o cinema e política nacional. Algumas escolas só permitiram uma vez a entrada do cineclube, preocupados com as repercussões políticas que desagradavam as autoridades”, conta Gil de Almeida.

Federação
Na década de 1980, com o enfraquecimento dos militares no governo, as atividades no cineclube da cidade e em outras regiões do Estado foram mantidas, contando com o empenho de outros cinéfilos como o jornalista e professor Paulo Petrini e o advogado e hoje delegado de polícia Jun Sukekava.

O primeiro Encontro de Cineclubes do Paraná foi realizado em 26 de maio de 1985, em Curitiba, e por determinação do encontro estadual, foi fundada a Federação Paranaense de Cineclubes. José Gil de Almeida foi presidente do Cineclube de Maringá de 1981 a 1984, coordenador estadual da Federação Paranaense de Cineclubes de 1985 a 1990, tendo em 1986 ocupado, simultaneamente, a presidência do Conselho Nacional de Cineclubes.

*Reportagem publicada quinta-feira (3) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Semana cheia no Sesc

O escritor, diretor e ator Lauande Aires é João Miolo, um operário da construção civil e brincante de bumba-meu-boi em "Miolo da Estória" (Foto de Ayrton Valle)

O escritor, diretor e ator Lauande Aires é João Miolo, um operário da construção civil e brincante de bumba-meu-boi em “Miolo da Estória” (Foto de Ayrton Valle)

Por Wilame Prado

Parece propaganda manjada de televisão, mas não é: comemora-se amanhã o Dia do Comerciário e quem ganha é o maringaense. Isso porque uma programação especial visando formação de plateia e aproximação de linguagens diferenciadas foi definida pelo Sesc e resultou em uma semana cheia de boas atrações culturais na cidade, a chamada Semana do Comércio em Movimento.

“Neste projeto, estão inseridas atividades artísticas com apresentações musicais e de teatro sempre gratuitas. Buscamos ampliar assim o nível cultural e de formação do indivíduo”, diz Bárbara Di Gennaro, técnica de Atividades do Sesc.

Tudo começou ontem, com obras clássicas de Edino Krieger compondo o concerto apresentado pelo Duo Cancionâncias.

Quem perdeu, tem a chance de se encontrar com a boa música hoje novamente. O cancioneiro do compositor – e biólogo – brasileiro falecido este ano Paulo Vanzolini, autor de famosas canções como “Ronda” e “Na Boca da Noite”, será interpretado pelo músico e médico maringaense Celso Barretto, da banda A Válvula.

Com voz e violão, Barretto faz show ao lado de Geraldinho do Cavaco, Paulo na percussão e José Domingos no pandeiro, além de contar com a voz de Najara Nogueira em participação especial.

Amanhã é dia de teatro. Também pela programação da Semana do Comércio em Movimento, o espetáculo “Miolo da Estória”, da Santa Ignorância Cia. de Artes (São Luís-MA), será apresentado no Teatro Barracão após ter sido atração do Festival Palco Giratório no mês de agosto em Curitiba, e ter percorrido por outras cidades paranaenses.

O escritor, diretor e ator Lauande Aires estrela o solo com base em leitura, observação e depoimentos de brincantes e conta a história de João Miolo, um operário da construção civil e brincante de bumba-meu-boi que vive dilemas sobre a fé e relações sociais.

Em entrevista por telefone, ele diz que estreou o espetáculo em 2010 com o objetivo de refletir e se fazer refletir sobre esses dois mundos conflitantes de seu personagem: o mundo do operário e o mundo do brincante.

“Como esse homem se sente nesses dois mundos? Como o operário se sente no mundo do brincante? Como o brincante se sente no mundo do operário?”, indaga ele. A história revela o drama de João Miolo quando, não sendo aceito como cantador no boi, decide não sair na boiada daquele ano e, revoltado, acaba se machucando ao ir bêbado para o trabalho. Com isso, precisa rever sua fé ao pedir votos para o santo temendo o pior: perder uma perna.

“Mesmo tendo estreado em 2010, toda a inspiração para fazer o texto se deu dez anos antes, quando vi um brincante pagando uma promessa, em uma festa de São Pedro, subindo e descendo escadarias com o boizinho nas costas”, diz Lauande, que apresenta “Miolo da Estória” contando com o trabalho de um iluminador, um operador de palco e um operador de sonoplastia.

Vencedor do Prêmio Myriam Muniz concedido pelo Ministério da Cultura, o espetáculo circulou por toda a região Norte em 2011.

Na quinta-feira, a música volta a ser destaque da semana com o show da cantora paulistana Keila Abeid e Quarteto no Sesc. Ela lança o álbum “Muito Prazer”, que vai do samba e da bossa ao ijexá e baladas. Também no Sesc, na sexta, a semana cultural se encerra com o espetáculo “As Espertezas de Arlequim”, do grupo Arte da Comédia (Curitiba). A peça, inspirada na Commedia dell´Arte, não tem falas e os atores improvisam realizando jogos cênicos a todo momento.

*Reportagem publicada nesta terça-feira (29) no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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Entrevista com o presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Marcos Cordiolli

Por Wilame Prado

No início deste ano, o historiador e educador de Maringá Marcos Cordiolli, 49 anos, assumiu a presidência da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) com a missão de coordenar a política cultural da capital paranaense na gestão do prefeito Gustavo Fruet. Na bagagem, o maringaense, que se mudou para Curitiba em 1979, leva a experiência como produtor de cinema, assessor da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados e da Agência Nacional do Cinema.

Via e-mail, ele concedeu uma longa entrevista comentando, dentre vários outros assuntos, sobre a descentralização dos projetos culturais curitibanos e que poderá estimular a vinda de mais espetáculos da capital para Maringá, e vice-versa.

Cordiolli também contou sobre as memórias afetivas que nutre pela sua cidade natal, onde hoje vivem toda sua família, de pais à filha. Hip Hop, cinema, Vale-Cultura e características aconselháveis para se gerir pastas culturais também foram temas abordados na entrevista. Para ele, que reafirma a todo momento a importância do setor cultural para a comunidade, “ser secretário de Cultura é assumir as responsabilidades como um dos artífices da alma da cidade.”

Durante exposição no Palladium Shopping Center, em Curitiba, Marcos Cordiolli segura caneca personalizada do artista plástico Rogério Dias

Leio que mora em Curitiba desde 1979, mas nasceu em Maringá. Qual sua relação com a cidade e o que ficou guardado em sua memória dos tempos em que morou aqui, principalmente.

MARCOS CORDIOLLI – Maringá é a minha referência afetiva. A minha família continua morando na cidade: meu pai, minha mãe, meus cinco irmãos, cunhados e sobrinhos. Além de dezenas de tios e primos. E, por estas coincidências da vida, a minha filha, que nasceu em Curitiba, também mudou para Maringá junto com a mãe.

Estudei nos colégios Santo Inácio, Gastão Vidigal e Osvaldo Cruz, instituições importantes na minha formação cultural. Frequentava assiduamente a biblioteca pública municipal. No Colégio Santo Inácio, fui muito estimulado à leitura pela Mirian Ramalho e ao conhecimento da história pela Marta Ramalho. Duas professoras de referência na minha vida.

No Gastão Vidigal fui aluno do mestre Galdino Andrade, que descortinou para mim o mundo maravilhoso da literatura. Até hoje guardo com carinho uma obra de sua autoria, o “Poeira Vermelha”, bela coletânea de contos ambientados à época da colonização.

No que consistirá, ou já está consistindo, esse aprimoramento dos mecanismos de fomento cultural e a criação de instrumentos para dar mais visibilidade às produções locais fora de Curitiba, que o senhor disse ser uma das metas na gestão?

Curitiba produz excelentes obras culturais em todos os segmentos. No entanto, estas obras não conseguem obter a circulação merecida. Tanto na cidade como fora dela. Atuamos, na perspectiva da economia da cultura, em duas linhas, ampliação do público e dos locais de exibição de espetáculos e venda de produtos culturais em Curitiba; e complementarmente estimularemos a circulação de obras curitibanas em outras cidades.

Nesta perspectiva reestruturaremos os nossos mecanismos de fomento fortalecendo o estimulo à circulação da produção cultural. Combinado a essas mudanças criaremos instrumentos para financiar a circulação de obras culturais em outras cidades do Brasil e do exterior; Instituiremos mecanismos de fomento plurianual para grupos culturais de pesquisa e produções de longo prazo. Também estudamos a formatação de um fundo de investimentos com recursos retornáveis para investir em projetos de maior viabilidade comercial.

Além disso, adotamos ações de estímulo, como o conveniamento com cidades brasileiras e do exterior que forneçam apoio logístico e de mídia para os artistas curitibanos.

Com a meta de estimular a ida de espetáculos curitibanos para além da capital, isso significa dizer que há chances de esses espetáculos virem inclusive para Maringá?

Sim. Maringá e outras cidades do Paraná estão em nossos planos, tanto de enviar como receber espetáculos. Temos sempre a preocupação de atuação em mão dupla. As cidades que abrem espaço para os nossos espetáculos podem enviar as suas produções para Curitiba, onde serão muito bem recebidas. Já estamos trabalhando em protocolos de cooperação com diversas cidades, algumas delas do exterior.

O senhor reconhece tantos bons eventos culturais consagrados em Curitiba, como o Festival de Teatro e o Lupaluna, mas diz ser importante descentralizar a programação cultural. Segundo alguns produtores culturais daqui da cidade, também seria preciso haver uma maior descentralização dos projetos culturais em Maringá. Com o conhecimento que tem da cidade, o senhor concorda com isso?

Não conheço adequadamente os circuitos culturais de Maringá para emitir uma opinião. Mas toda cidade precisa desenvolver ações para três campos culturais básicos: a formação, a produção e a circulação de obras dos artistas locais estabelecidos, como uma dimensão da economia da cultura que precisam de apoio para criação, espaços de exibição e reconhecimento social; a atração de espetáculos e artistas de outras localidades, pois a convivência cultural garante o aprimoramento e a renovação da produção local; e o reconhecimento e fortalecimento do que denominamos de cultura viva: os artistas e fazedores de cultura espalhados pela cidade, que geralmente são invisibilizados pelos mecanismos de fomento cultural e desconhecidos da população.

Um levantamento sumário realizado em Curitiba, há cinco anos, indicou a existência de 3.500 agentes culturais na cidade. No entanto, estimamos que o número atual de agentes da culturais do campo da cultura viva possa ser até três vezes superior. A cultura viva é um universo a ser desvelado e reconhecido urgentemente.

Também deve ser desafio de qualquer política pública de cultura propiciar eventos culturais nos diversos espaços da cidade, ampliando a democratização do acesso aos bens culturais e promovendo a cidadania cultural. Para isto, é preciso ações permanentes e estruturantes com focos descentralizados, mas articulados com toda a cidade.

Outra dimensão deste processo é o reconhecimento de toda a diversidade cultural apoiando a cultura de migrantes, de afrodescendentes, de ciganos, de indígenas, da população LGBT, da juventude e da terceira idade.

A promoção da cidadania cultural nas comunidades das grandes cidades é uma ação estratégica de recomposição do tecido social destroçado pelo modelo urbano e midiático contemporâneo. O estímulo da produção e circulação cultural nas comunidades estimula o religamento dos laços sociais e a promoção das relações sociais necessárias para que as pessoas possam construir formas de convívio comunitário. As comunidades que dispõem destes laços sociais conseguem identificar e reduzir a violência contra crianças, idosos e mulheres; combater a pedofilia; inibir a ação do narcotráfico e dispor de mais condições para recompor os ambientes familiares. As comunidades organizadas podem estabelecer um novo modelo de democracia participativa e estimular o controle social sobre as politicas públicas de saúde, educação, proteção social e segurança.

Portanto, descentralização e desconcentração das ações culturais devem orientar as políticas públicas culturais contemporâneas como uma dimensão da cidadania cultural e como uma estratégia para recompor as bases de convívio social.

A ideia do senhor, de viabilizar um cineclube para cada escola estadual de Curitiba, parece ser muito boa. Está esperançoso de que vai dar certo?

Sim. Esta é uma das minhas grandes esperanças. Os cineclubes têm características peculiares e são eixos estratégicos de toda gestão cultural, pois podem ser a base da estruturação das redes culturais colaborativas da juventude. Constituídos como grupos auto organizados, os cineclubes são a porta de entrada para a formação de diversos outros movimentos culturais de música, teatro, dança, audiovisual, leitura e literatura. Além disso, estimulam a produção e a expansão da cultura digital.

Os cineclubes possibilitam todas estas situações pois reúnem pessoas para a fruição cultural combinada aos debates e às experimentações estéticas. Os investimentos são relativamente pequenos, basta um bom acervo de filmes e a combinação de diversas atividades de estímulo.

Em Maringá, assim como em Curitiba, principalmente em bairros e cidades da região metropolitana, há também uma cena interessante do Hip Hop. Por que é tão difícil para as secretarias culturais traçar um diálogo maior com essas manifestações culturais?

O Hip Hop é talvez o segmento mais visível da cultura viva. Eles têm uma força maior pelas características de militância associada a este movimento cultural. Em Curitiba, estamos avançando na relação do Hip Hop, como também estamos abrindo interlocução com o heavy metal, o punk, a arte urbana e outros. Todas as tribos precisam ter direito à cidadania cultural. Estes movimentos possuem características muito peculiares que requerem ações compartilhadas e instrumentos flexíveis de políticas públicas. A gestão pública ainda tem dificuldade para respeitar e reconhecer as necessidades destes segmentos. Em alguns governos conservadores, a situação é ainda mais complexa, pois são tratados até com preconceito.

Qual a sua relação com a fundação antes de assumir o cargo e, na opinião do senhor, o que levou o prefeito Gustavo Fruet a indicar seu nome para a presidência?

Eu atuei com produção executiva de cinema de longa-metragem aqui em Curitiba. Depois atuei na assessoria técnica no Congresso Nacional acompanhando a tramitação de diversos projetos fundamentais, como os do Pró-cultura, do Vale-Cultura, do Plano Nacional de Cultura, do Sistema Nacional de Cultura e a PEC que determina dotações orçamentárias mínimas para cultura em todos os entes da Federação.

Depois, trabalhei na Ancine, Agência Nacional do Cinema, que é uma das maiores agências públicas de fomento cultural da Ibero-América.

Esta experiência com políticas culturais deve ter influenciado o prefeito na escolha do meu nome para presidir a Fundação Cultural de Curitiba.

O senhor afirmou, em entrevista recente, que o próprio prefeito Fruet é um ávido consumidor da cultura local. Considera isso importante para que as coisas aconteçam na pasta ou na fundação?

Um prefeito que é consumidor da cultura local faz a diferença quanto à compreensão da natureza das políticas públicas de Cultura. O prefeito de Curitiba, por conhecer a cena local, tem apoiado irrestritamente nossas ações. O secretariado também tem compreensão muito apurada do modelo de política cultural que estamos desenvolvendo. Eu tenho dito que sou um secretário de cultura privilegiado pelos apoios que disponho no governo municipal.

Digo isso porque, pelo menos em Maringá, o secretario de Cultura, Jovi Barboza, e a diretora de Cultura e presidente do Conselho Cultural, Edith Dias, são pouco conhecidos dos artistas e, conforme seus currículos, nunca atuaram na linha de frente da cultura local. Considera isso um problema ou, como o próprio secretário daqui afirmou, “toda indicação é política” e a experiência dele como gestor pode ser suficiente para o cargo?

Esta é uma pergunta difícil de responder, pois cada situação é peculiar, e, como disse, desconheço o cenário cultural em Maringá. No entanto, assumi recentemente a presidência do Fórum dos Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais, que reúne cidades com mais de meio milhão de habitantes. Nossa intenção é constituir uma entidade forte, que congregue os secretários municipais de todos os municípios brasileiros. Fiquei muito honrado com a missão de liderar este processo.

Assim, acredito que, embora o perfil do secretário municipal tenha importância, é necessário a disposição de construir instrumentos republicanos de gestão, como o reconhecimento e estímulo a circuitos culturais diversificados, a instituição de instrumentos flexíveis de fomento cultural, a consolidação de um quadro de servidores qualificado, a disponibilidade de recursos públicos e funcionamento regular e efetivo mecanismo de controle social, como conselhos e conferências de cultura e audiências e consultas públicas.

Além disso, é preciso que todos os setores da sociedade – como empresários, associações, imprensa – reconheçam a cultura como política pública, assumindo obrigações com o setor que não podem ficar restritas a artistas e produtores culturais.

Vamos falar um pouco de cinema, área que o senhor gosta. Conte como foram os trabalhos na produção de “O Sal da Terra” e “Curitiba Zero Grau”.

Os dois filmes permitiram adquirir grande experiência profissional, pois foram produções muito complexas. Quase todas as sequências foram filmadas fora de estúdios e a maioria delas em estradas e ruas. Para isso, foi preciso um intenso trabalho de planejamento, logística apurada e equipe qualificada. Os filmes também adotaram estratégias de financiamento e circulação inovadoras. Os resultados de qualidade de produto e estética foram excelentes. Os dois filmes foram reconhecidos em premiações importantes no Brasil e no exterior.

Tem algo na gaveta?

Como produtor executivo, normalmente desenvolvo projetos de outras pessoas. Tenho diversos projetos em mente, alguns em parceria, para depois que deixar o governo. No momento, estou participando da formatação de um programa de TV com minha namorada, que é atriz. Um projeto muito interessante e que já está bastante adiantado.

Como avalia a produção de cinema em Curitiba e no Estado?

Curitiba tem uma produção cinematográfica de alta qualidade e em expansão. Está em processo de renovação com uma nova geração, liderada pelo Aly Muritiba, que já conquista reconhecimento crescente no mercado e na crítica. Na Fundação Cultural, estamos atuando no foco da Economia da Cultura para fortalecer toda a cadeia produtiva com a formação e qualificação de técnicos, fomento à formação de especialistas e produtos em diversas áreas e o fortalecimento da Film Comission para apoiar a produção audiovisual na cidade.

Na área de fomento, apoiamos a realização de filmes de curta-metragem e de filmes digitais e estamos incluindo o estimulo à produção de roteiros, de formatos de programas de televisão e o desenvolvimento de projetos. Curitiba caminha a passos largos para se tornar um dos mais importantes polos de produção audiovisual no Brasil.

Quando se assumem cargos de gestão fica difícil produzir cultura?

Fica sim. A FCC tem mais de 500 ações diferentes. Cerca de 100 equipamentos culturais espalhados por mais de 50 pontos da cidade. Centenas de servidores. E orçamento anual superior a 50 milhões de reais. Administra dois fundos de milhões de reais, um de renúncia fiscal e outro de fomento direto. Realiza mais de uma dezena de eventos culturais por dia. Além disso, também acumulo as funções de presidente do Fórum dos Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais e de membro do Conselho Nacional de Políticas Culturais. Além de uma série de outras funções no governo e na sociedade.

Também não abro mão da minha vida pessoal. Frequento diversas atividades culturais. Sou pai de uma garota de 16 anos, a Paula, e tenho um namoro consolidado com a Isadora (Ribeiro), que também tem duas filhas, Maria e Valentine, às quais dedico atenção e afeto. Assim, o tempo é bastante restrito.

Como falei, estou desenvolvendo um projeto de programa de televisão. Realizo com alguma regularidade conferências sobre educação e políticas culturais. Estou publicando crônicas com alguma regularidade e pretendo voltar a escrever sobre cinema. Recebi convites para publicar um volume com textos sobre cinema e para escrever um livro sobre o Plano Nacional de Educação. Não é tanto quanto gostaria, mas é o possível.

Mas ser secretário de cultura é um privilégio. A gestão da política cultural é intervenção na alma da cidade (no sentido junguiano do termo). É articular a produção artística, com a ebulição intelectual, com as mediações da comunicação, convergindo desejos, angústias, sonhos e frustrações. Isto é mais importante quando as cidades perderam as suas ágoras, seus pontos de referência identitárias e loccus de pertencimento. Trabalho muito para que Curitiba volte a recompor o seu sentimento de pertencimento, recontextualize os seus ícones de identidade e volte a ter uma ágora simbólica no centro da cidade. Por isso, estou empenhado em recuperar o Passeio Público, o parque mais central da cidade, como espaço de sociabilidade de todos os curitibanos, sem distinções. E vamos convergir para o Memorial da Cidade, no centro histórico, os grandes debates estéticos e intelectuais. O objetivo é que este dois componham um trio com a Boca Maldita, na Rua XV, um tradicional espaço de efervescência política. Ser secretário de Cultura é assumir as responsabilidades como um dos artífices da alma da cidade.

O que pensa sobre o setor cultural do Estado de modo geral?

Os governos estaduais de maneira geral têm limitações sérias. No Paraná, esta situação é agravada por um antigo modelo que concentrou a grande maioria do equipamentos na capital. Mas creio que, com a nova lei estadual de fomento à cultura, este cenário possa mudar gradualmente.

E de Maringá?

Maringá tem potenciais culturais imensos. Como uma cidade de migrantes, é um caldeirão social que produziu um patrimônio cultural, embora recente, de riquezas e diversidade de alta qualidade. A cidade deveria valorizar e demostrar orgulho dessa característica.

Também é uma cidade que dispõe de empresas fortes, que poderiam fomentar mais intensamente a produção local. Tem bons espaços culturais e uma Lei muito interessante de apoio aos museus.

Conheço alguns projetos de alta qualidade de maringaenses. A cidade tem tudo para acontecer no cenário cultural, basta desenvolver políticas sérias, participativas e estruturantes.

O que pensa sobre o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Instituto Memória e Vida (IMV), na figura do Edson Pereira e do Marcelos Seixas? Eles sempre falam muito bem do senhor, principalmente dos trabalhos desenvolvidos na Ancine.

Os dois são muito competentes, criativos e têm grande disposição para o trabalho. Compreenderam o potencial de Maringá e resolveram investir na promoção de projetos culturais. A cidade tem sorte de tê-los e deveria reconhecer esta sorte, apoiando-os intensamente. O Captart é uma experiência exitosa e já é referência nacional. Estamos conversando com os dois para nos ajudar a montar um mecanismo similar em Curitiba. Também estamos discutindo a possibilidade de Curitiba aderir ao Museu da Família, outro projeto de grande importância e que deverá, também, ser referência nacional e internacional. E como maringaense, gostaria muito de ver o Museu da Agricultura funcionando.

Leio em seu currículo que o senhor teve também uma grande atuação na área da Educação. Em sua opinião, de que forma é possível ganhar pontos culturais investindo na Educação de uma cidade? Acha que é válida a unção das pastas ou pelo menos diálogo frequente?

Cultura e educação, em particular nos governos municipais, precisam caminhar juntas, embora resguardando as suas respectivas autonomias. Aqui em Curitiba, temos uma situação ideal de articulação entre estas duas secretarias.

A ação cultural nas escolas é uma de nossas linhas principais de atuação. Inclusive estou estruturando toda uma área específica para tratar das ações articuladas entre cultura e educação.

Estamos ampliando a oferta de cultura na escola direcionando diversos eventos e apoiando a ampliação da jornada escolar. Mas temos alertado que há uma diferença entre as obras de arte utilizadas com função didática e as ações culturais para livre fruição. Os espetáculos de teatro, dança, música e cinema, e as ações de leitura, em museus e outros centros culturais, devem ser de livre fruição, sem obrigações ou avaliações.

Estamos ofertando o EduCultura, um programa que visa disponibilizar espetáculo e obras culturais para os professores, pois entendemos que a formação cultural dos estudantes corresponde à proporção desta mesma formação nos professores.

Todos os nossos equipamentos – salas de exibição, museus, o conservatório de música – assim como a Camerata, os coros e as orquestras, terão atividades direcionadas para o público escolar, tanto nas categorias didáticas como de livre fruição.

Na comissão cultural do Congresso Nacional, trabalhou com Ana Hollanda, né? Aprecia o trabalho que vem sendo desenvolvido por Marta Suplicy?

Quando trabalhei no Congresso Nacional, o ministro era o Juca Ferreira. O período que trabalhei na Ancine coincidiu com a gestão da Ana de Hollanda. Aprecio muito o trabalho da Marta Suplicy no Ministério da Cultura. Quando foi prefeita de São Paulo mostrou grande sensibilidade e apreço pela cultura é também uma gestora muito competente. Responde de forma eficiente e rápida às demandas do Ministério.

A Marta demonstrou muito apreço por nosso trabalho e nossos projetos para Curitiba e tem se mostrado uma importante parceira, tanto na FCC como no Fórum dos Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais.

O senhor ajudou na criação do Vale-Cultura, que deverá virar realidade no meio deste ano. O que pensa sobre este projeto?

O Vale-Cultura é um mecanismo fundamental. Enquanto nossos programas de fomento estimulam a produção, o Vale Cultura vai estimular o consumo cultural, a outra ponta do processo.

Em Curitiba estamos trabalhando bastante para que os produtores e artistas da cidade possam usufruir destes recursos. Já estamos estruturando um guia de oferta para circular entre os usuários do programa e preparando os produtores culturais para usufruir da melhor e maior maneira possível.

Alguns criticam o Vale-Cultura porque não contemplará alguns gostos como por games e TV a cabo. Mas, isso é cultura, em sua avaliação?

O Vale-Cultura é um mecanismo novo. Acho bom que ele comece atendendo um rol menor de produtos e serviços, para que possa ser testado e para verificar e compreender o comportamento dos usuários. Num futuro breve, poderá ser reavaliado e poderá incluir outros segmentos de consumo cultural.

Acha que a Lei Rouanet precisa melhorar ou com a criação do Pro-Cultura as questões envolvendo captação via isenção fiscal para apoiar a cultura já estão bem acertadas?

Acredito que precisamos de diversos tipos de financiamento ao fomento cultural. A renúncia fiscal, regulado pela Lei Rouanet e pela Lei do Audiovisual no âmbito do governo federal, e por diversas leis estaduais e municipais, é uma peculiaridade das políticas culturais no Brasil. São mecanismos que precisam de ajustes regulatórios mais flexíveis e que os aproximem dos focos das políticas públicas, em particular nos municípios.

O segundo tipo são os fundos de fomento direto, que financiam a cultura disponibilizando diretamente verba dos orçamentos governamentais. O modelo do Fundo Municipal de Cultura de Curitiba é um dos melhores, pois dispõe de recursos para dezenas de linhas de ação cultural, disponibilizados através de editais regulares. Os modelos do PAR, PAQ e os editais de coprodução internacional mantidos pela Agência Nacional do Cinema, a Ancine, são também modelos eficientes de fundo de fomento direto.

O terceiro tipo é o do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), mantido também pela Ancine, um fundo retornável, que transforma o governo numa espécie de sócio dos produtores de cinema.

Eu também defendo um novo modelo de regulação dos recursos da cultura flexibilizando os formatos de fomento e financiamento para os agentes da cultura viva. É preciso aprimorar os modelos atuais de editais que dificultam e até inviabilizam a realização de eventos com artistas populares. Penso numa forma de fomento direto, com supervisão, semelhante aos modelos de bolsas de pesquisa e pós-graduação da Capes e do CNPq.

Acredito que é necessário, também, a criação de uma instituição financeira específica para gerenciar os recursos da cultura. Uma financiadora que administre os contratos e investimentos dos recursos culturais aprovados por todos os órgãos e instituições vinculadas ao Ministério da Cultura.

Acha que é por meio da Lei Rouanet que definitivamente pode haver mais apoio cultural partindo da iniciativa privada ou há também outras alternativas de parcerias entre o público e o privado?

Eu creio em três modelos de fomentos. O primeiro é o fomento direto, com recurso do tesouro, que possa financiar tanto obras autorais, experimentais e de iniciantes, centrado na formação e renovação estética. Ele é também para estimular a autonomia crescente dos produtores e artistas, para que consigam a auto sustentação financeira pelo trabalho cultural. Por outro lado, os governos municipais devem ofertar espaços de exibição e mecanismo de circulação e apoiar o consumo cultural.

Defendo enfaticamente que o fomento cultural é para o estímulo à criatividade do artista e que devemos superar o preconceito que o artista não pode ganhar dinheiro com um produto cultural financiado com recursos públicos. O produto cultural é uma propriedade do artista que deve dispor dele para gerar trabalho e renda. Os artistas e os produtores devem, no entanto, oferecer contrapartidas à sociedade e disponibilizar os produtos criados como recursos educacionais abertos.

O segundo modelo é o mecanismo de renúncia fiscal, em que os apoios à arte são retirados de impostos e tributos devidos pelos empresários fomentadores. Acho que este mecanismo é importante em alguns setores, que podem ampliar os recursos públicos disponibilizados via renúncia fiscal com contrapartidas efetivas dos fomentadores. E insisto que o foco deles deve estar articulados às políticas culturais vigentes, em particular, nos municípios.

O terceiro modelo é o estímulo a outras formas de investimentos provenientes da inciativa privada, ampliando a participação destes recursos na produção cultural brasileira, sem intermediação dos governos.

O senhor também disse considerar o hábito da leitura ainda pouco difundido em Curitiba. Pensa em algo para melhorar essa questão, que certamente não é só da capital?

O hábito de leitura é pouco difundido em todo o Brasil. Temos pelo menos quatro grandes obstáculos para superar esta situação. O primeiro é que, até recentemente, as políticas de incentivo à leitura nas escolas não eram eficientes. O segundo é o preço do livro, ainda alto em relação ao poder aquisitivo da população. O terceiro corresponde ao fato de que as bibliotecas são em número insuficiente e, de forma geral, mal localizadas, dificultando o acesso dos potenciais leitores ao livros. O quarto é que as bibliotecas ainda são muito burocratizadas, exigindo cadastros, determinando o tempo de empréstimo dos livros e, em alguns casos, constrangem os leitores, publicando listas daqueles que estão em atraso.

Em Curitiba, estamos ampliando o acesso aos livros com as Estações da Leitura, que são pequenas bibliotecas em terminais de ônibus e outros pontos. Também temos as Casas de Leitura, que promovem, por ano, milhares de rodas de leituras em diversos pontos da cidade, um dos programas mais eficientes de estímulo à leitura em curso no Brasil.

Mas o grande impulso para a mudança desta situação, e que está mudando os hábitos de leitura, são as Tubotecas. Trata-se de uma ideia simples e de baixo custo, mas de alta eficiência. Colocamos livros de literatura em estantes nas estações tubo de ônibus: à altura dos olhos, ao alcance das mãos e sem nenhuma burocracia. A pessoa pode ler enquanto espera o ônibus. Se preferir, continua lendo no transporte e até em casa. Pode devolver quando quiser em qualquer uma das estações vinculadas ao projeto.

A procura pelos livros foi muito superior ao projetado e o retorno dos leitores é extraordinário. E o melhor: além de estimularmos pessoas que nunca tinham lido um único livro, que não têm poder aquisitivo, que não frequentam bibliotecas, ganhamos diversos agentes de leitura, com os novos leitores estimulando pessoas do seu convívio à leitura. Diversos dos livros retirados são repassados para outros leitores por estímulo daqueles que o leram.

Chega a ser emocionante a mobilização dos doadores de livros que fazem coletas entre amigos, em escolas e locais de trabalho. A Tuboteca poderá virar um ícone da cidade baseada na educação e no voluntariado.

Curitiba já está lendo mais. Esta é uma ótima notícia, pois a pessoa que lê mais está aberta a frequentar outras linguagens artísticas, como espetáculos musicais e cênicos, exibição de filmes, exposições de diversos tipos e proteger o patrimônio cultural .

Em Curitiba, qual a função da Fundação Cultural, já que também há uma secretaria de Cultura?

Em Curitiba, o presidente da Fundação Cultural tem o status de Secretário Municipal. O regime jurídico da fundação facilita a execução de projetos com maior flexibilidade na gestão de equipamentos, pessoal e recursos.

Acha que Maringá necessita de uma fundação cultural?

Como disse, não conheço o modelo de gestão de Maringá, mas via de regra a criação de uma fundação cultural pode facilitar a execução de projetos com maior flexibilidade. Mas é importante manter a autonomia da gestão da cultura, pois este é um requisito do Sistema Nacional de Cultura e uma necessidade política. Também é importante blindar o orçamento da cultura para que não tenha utilização em eventos religiosos, festas cívicas etc. Atividades constantemente atribuídas a cultura e que, de fato, não o são.

Por fim, se neste momento estivesse conversando com o secretário de Cultura de Maringá, quais conselhos o atual presidente da FCC daria a ele para que seja possível na cidade uma melhora no setor?

Conheci o Jovi Barboza rapidamente num evento em Curitiba. Eu não teria conselho para ele. Mas gostaria muito de encontrá-lo para trocarmos experiências e discutirmos algumas parcerias.

*Parte desta entrevista foi publicada na edição impressa desta quinta-feira (16), no D+, do Diário de Maringá

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Bar do Bulga: Mais que blog, mais que bar

É mais do que um blog. É mais do que um bar. O Bar do Bulga, blog do conhecido jornalista Marcelo Bulgarelli, é um local onde os amigos são homenageados, bons filmes são comentados, ótimas músicas são disponibilizadas e literatura de primeira é sempre pautada.

Para divulgar o blog, nada melhor do que descrever, na íntegra, a apresentação criada pelo próprio Bulga:

“Para o seu prazer, conforto e alegria, nós não temos música ao vivo. Pode cantar e dançar. Aqui você só paga o que come. A bebida nós cobramos. Inimigos são bem vindos, mas não podem reclamar do garçom. Fiado só pagando antecipado. Os textos podem ser copiados, contando que você informe de onde surrupiou. Entre sem bater (não gostamos de apanhar).”

Eu recomendo o Bar do Bulga!

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