Curitiba



Fotógrafo registra a força da fé em Cuba

Devotos de San Lázaro a caminho, em romaria, do Santuário Nacional (Foto de Leandro Taques)

Devotos de San Lázaro a caminho, em romaria, do Santuário Nacional (Foto de Leandro Taques)

Por Wilame Prado

O que é a fé? Essa é uma pergunta recorrente na trajetória profissional do fotógrafo Leandro Taques, 41, de Curitiba. Em busca de respostas, nos últimos anos, ele tem percorrido o mundo e desenvolve um trabalho de fotodocumentarismo instigante.

As inserções fotográficas dele no universo religioso em manifestações cubanas, em 2011 e 2014, renderam-lhe pelo menos cinco mil fotografias. Ele documentou a peregrinação dos devotos de San Lázaro (o santo católico) e de Babalú Ayé (o orixá na Santeria), em Rincon, Santiago de Las Vegas, em Cuba.

Uma espécie de suprassumo dessas imagens estarão reunidas em um livro com, pelo menos, 80 fotografias selecionadas. Para isso, Taques aderiu, recentemente, ao mecanismo de crowdfunding para arrecadar R$ 29.750 e, finalmente, lançar a obra.

Todos os anos, em 17 de dezembro, Dia de San Lázaro, milhares de pessoas, de todas as partes de Cuba, fazem uma peregrinação até o Santuário Nacional, em Rincon, um pequeno vilarejo perto de Havana. A procissão passa pelo caminho forrado de imagens, altares improvisados, flores, velas e pessoas pedindo dinheiro para remediar seus males.

Isso tudo foi conferido de perto por Taques, que, como na maior parte das fotos, optou pelas imagens em preto e branco. “O PB é mais honesto. A cor distrai. O PB não. A cor é uma imitação da realidade. O PB é a realidade”, destaca.

Buscando uma frieza necessária para se alcançar os objetivos profissionais com a câmera em mãos, ele diz que, na hora de documentar as manifestações religiosas, muitas vezes, uma foto pode simbolizar aquilo que não tem explicação.

“O que faz um homem arrastar um bloco de concreto amarrado à perna por longos 15 quilômetros? O que faz uma senhora de 75 anos de idade acreditar que, se ela passar entre a estátua e a bengala da estátua do Pe. Cícero, ele vai protegê-la? O que faz uma mulher quase desmaiar de calor, sob um sol de 38 graus, tocando uma corda para manifestar sua devoção pela Nossa Senhora de Nazaré? Na verdade, creio que essas perguntas não são possíveis de serem respondidas. Eu sigo fotografando”, ressalta.

Em Cuba, diz Taques, a força da fé é impressionante: “A força dos devotos. A força da fé. Isso me impressionou.”

PUBLICAÇÃO
SAN LÁZARO -BABALÚ AYÉ
Fotógrafo: Leandro Taques
Com 80 fotografias e texto do jornalista José Carlos Fernandes
Participe do financiamento coletivo AQUI

*Reportagem publicada sábado (28) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Vale bem mais que 2,99

Caricatura de Marcio Renato dos Santos que faz parte do projeto gráfico das Tulipas Negras para "2,99"

Caricatura de Marcio Renato dos Santos que faz parte do projeto gráfico das Tulipas Negras para “2,99”

Por Wilame Prado

O cotidiano das cidades é prato cheio para quem procura histórias a serem contadas por meio dos textos. O difícil é enxergá-las. Nem tanto para Marcio Renato dos Santos, 40 anos, que lançou recentemente em Curitiba “2,99” (Editora Tulipas Negras, R$ 30, 120 páginas). Para o seu terceiro livro de contos, o curitibano se apropriou do olhar treinado de repórter – profissão exercida por vários anos nas redações da revista Ideias (Travessa dos Editores) e no Caderno G (Gazeta do Povo) – para enxergar a ficção literária que o cotidiano revela.

Os 16 contos curtos do livro revelam personagens em práticas cotidianas atípicas, a exemplo dos Gattelli, do conto “Segredo de família”, que sabem da importância de se haver anões se relacionando com as mulheres da família para que haja prosperidade nos negócios; ou então dos bigodudos envolvidos no concurso semanal de imitadores de Paulo Leminski, no conto hilário “A noite está velha”, que, de uma maneira muito sutil, com as aventuras envoltas ao anti-Leminski, critica a cena, a pose, as modinhas literárias. O que dizer do conto tragicômico “O Souza da Ilha”, que narra a história do Souza, vendedor há 20 anos de batidinha no litoral e que diz, para o mesmo cliente, na beira da praia, a mesma frase, dez ou quinze anos depois do primeiro encontro: “A Mega está acumulada. Dessa vez eu ganho.”?

É como se Santos, que atualmente trabalha na equipe editorial da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, incorporasse seu lado repórter apenas para o deslocamento do olhar e, no momento em que finalmente coloca as histórias no papel, se deixasse levar pela liberdade de invenções que a prosa oferece. O resultado disso são contos sucintos, brilhantemente claros graças à facilidade que o autor tem de contar uma história por meio do texto e, em certa medida, engraçados. Certa medida porque, a depender da avaliação que se faz quando se olha um cotidiano aparentemente absurdo, pode-se concluir o quanto de loucura há na vida dos mais comuns dos homens que vivem nas cidades.

Tal qual um simples artigo do cotidiano vendido em lojas a preços fixos e populares – R$ 1,99, R$ 2,99, R$ 3,99 – o autor aparentemente oferece seus contos sem preocupações, sem ambições. E justamente pelo fato de conseguir ser simples ao contar histórias engraçadas envolvendo lugares comuns com pessoas estranhas, ele tem alcançado um grande – senão o maior – objetivo com os contos publicados: leituras. Além dos conhecidos, jornalistas, professores e um público que adquire o livro nos lançamentos e nas livrarias, “2,99” vem sendo recomendado como leitura em colégios da capital e de cidades próximas. Certamente auxiliará para que alguns jovens criem o hábito da leitura.

ISTO É MARCIO RENATO DOS SANTOS
“Enquanto o Alberto, o Bernardo, o César, o Daniel, o Ferdinando, o Gastão, o Hamilton e outros tantos devem ter vindo ao mundo com uma missão, talvez destinados a construir algo, aterrissei por aqui a passeio ou, com mais precisão, a descanso. Vim para beber, me embriagar e viver aquele estado no qual a razão não tem vez.

Beber todo dia, toda noite, me trouxe dor de cabeça. A sensação dos primeiros goles é prazerosa, mas nos minutos, horas, copos e garrafas seguintes o que se entende por raiva toma conta do que sou. Já perdi o controle e me envolvi em conflitos por causa do consumo de álcool. Briguei, bati, apanhei, mais apanhei do que bati, e os efeitos foram irreversíveis. Afastei-me de amigos, desfiz casamentos, inclusive o meu, e escapei de balas disparadas por armas de fogo contra o meu corpo.

O que me trouxe mais problemas foi a minha covardia no mundo físico, que se transformou em uma coragem relativa, na realidade da internet. Apesar de cordial, de sorrisos, bom dia, oi tudo bom? tudo bem? – ao beber, me transformo em um sujeito hostil, talvez o ser agressivo real, que eu camuflo e dissimulo para sobreviver.

Já havia lido, na internet mesmo que, se beber, não tecle; se beber, não entre nas redes sociais. Mas entrei, bêbado, por diversas vezes, na internet, em especial, no facebook.”
///Trecho do conto “O segredo da bem-aventurança de Chuni Kuni”, do livro “2,99”, de Marcio Renato dos Santos

ESTANTE

JPG72 capa 2,99

2,99
Gênero: contos
Autor: Marcio Renato
dos Santos
Editora: Tulipas Negras
Páginas: 120
Preço: R$ 30
Onde comprar: www.livrariascuritiba.com.br

ENTREVISTA

Primeiramente, por que resolveu levar o “2,99” para várias escolas

MARCIO RENATO DOS SANTOS – Meu segundo livro de contos, o “Golegolegolegolegah!”, publicado pela Travessa dos Editores, em 2013, teve leitura em escolas, sobretudo em alguns colégios do Sesi, na unidade do bairro Boqueirão, em Curitiba, e na unidade de Araucária, na região metropolitana de Curitiba. Agora, a Ana Paula Galkowski, coordenadora do Colégio Sesi de Castro, apresentou o “2,99” aos alunos do Colégio Sesi de Castro. Sessenta alunos vão ler o “2,99” nas férias e, em agosto, devo bater um papo com eles. É sensacional, não é? Dia desses, um aluno que leu “Golegolegolegolegah!” me contou, pelo Facebook, que comprou, leu e gostou de “2,99”. Que tal? Isso é uma beleza. Os meus livros circulam entre escritores, jornalistas, professores e, enfim, não sei exatamente quem lê a minha ficção. Mas ter a oportunidade de ser lido por alunos do ensino médio e, em seguida, conversar com os alunos sobre a minha obra literária é algo sensacional. Para mim, é quase um milagre. E penso que a leitura de ficção contemporânea pode ser estimulante para esses alunos do ensino médio.

Uma curiosidade: como é a vida aí na capital plenamente envolvido em trabalhos envolvendo jornalismo e literatura? Produzir o Cândido, trabalhar na Biblioteca Pública do Paraná, tudo isso tem auxiliado ou atrapalhado sua produção de ficção?

Estreei na ficção com “Minda-au”, livro de contos publicado pela Record em 2010. Naquela época, eu trabalhava na Gazeta do Povo, no Caderno G. Os contos de “Minda-au” foram escritos de 2007 a 2008, período no qual eu já estava no jornalismo diário. Escrevo ficção desde 1986, quando comecei mesmo a ler ficção e poesia todo dia. Se teve um marco? Eu passava férias na casa do meu tio Luiz, que morava em Maringá — hoje ele mora em Camboriú. Naquelas férias de 1986, li, na casa dele, em Maringá, “Feliz Ano Velho”, do Marcelo Rubens Paiva. Até então, eu lia os livros na escola, em casa, mas aquele livro do Marcelo Rubens Paiva me tocou muito. A dicção contemporânea, a prosa fluente e trama insinuante me pegaram. Em seguida, procurei outros livros. Continuo até hoje, 2014, em busca de mais livros. Leio todo dia. Mais de um livro ao mesmo tempo. E foi a partir das leituras que comecei a escrever. Em 2000, passei a colaborar, como resenhista, com o Rascunho e até 2010 escrevi uma resenha por mês, isso durante uma década, no Rascunho. Só parei de resenhar por que a Record lançou “Minda-au”, o meu primeiro livro. Demorei para procurar editora. De 1986 até 2008, 2009, escrevia todo dia, lia todo dia, sem pensar em publicar livro. Foi por volta de 2008, 2009, que pensei em enviar um original para uma editora. E escolhi a Record. Enviei “Minda-au” e a Luciana Vilas-Boas, então diretora-editorial, decidiu publicar o livro. Depois, publiquei o segundo livro, também de contos, “Golegolegolegolegah!”, pela Travessa dos Editores, em 2013. Este ano, publiquei, em maio, o “Dicionário Amoroso de Curitiba”, pela editora Casarão do Verbo, da Bahia — é um projeto no qual um escritor de cada uma das cidades-sedes da Copa 2014 escreve um livro com verbetes sobre a cidade. E, em junho, publiquei pela Tulipas Negras esse “2,99”. Tudo isso pra te dizer o seguinte: a vida segue, trabalho e leio e escrevo ficção. Até maio deste ano deu certo. Faço, entre outras atividades, as matérias para o Cândido, trabalho na Biblioteca Pública do Paraná e, em casa, à noite, e de madrugada, acontece a ficção. Pelo menos até maio deste ano. O resto eu conto em outra pergunta, aguarde.

Produz também prosas mais longas ou é um defensor convicto do conto, e por quê?

Somos frutos do meio no qual nascemos? Não sei. Sei que nasci dia 28 de abril de 1974 em Curitiba, a terra do conto. Paraná, terra de Newton Sampaio (1913-1938) – ele nasceu em Tomazina, o primeiro autor moderno do Paraná, contista, a respeito de quem fiz uma dissertação de mestrado, defendida na Universidade Federal do Paraná em 2005. O Dalton Trevisan foi leitor do Newton Sampaio, e fez menção ao autor na revista Joaquim, que o próprio Trevisan editou entre 1946 a 1948. Nasci e moro em Curitiba, cidade do Dalton Trevisan, um mestre do conto. Convivi com Jamil Snege (1939-2003), outro mestre do conto. Também convivi com Wilson Bueno (1949-2010), que foi um excelente contista. Leio romance, poesia, não ficção e leio conto. Talvez eu tenha começado, em 1986, a escrever conto por causa dos livros do Dalton Trevisan. Admiro muito os contos do Machado de Assis, do Antonio Carlos Viana, do Sergio Faraco e do André Sant’Anna. Dizem que conto não vende? Mentira. Claro que vende. Dizem que poucos leem conto? Mentira. Há muito público para o conto. Eu continuo a responder essa pergunta ao longo das próximas respostas, combinado?

O que almeja, ou pelo menos imagina almejar, com os textos publicados em “2,99”?

Eu gostaria que os textos de “2,99” fossem lidos. O livro está à venda nas lojas da Livrarias Curitiba, na Livraria Poetria Livros, em Curitiba, na Livraria Arte & Letra, em Curitiba e no Sebo Kapricho II, em Curitiba. É possível adquirir por meio da internet, é bem fácil. O livro custa R$ 30. Essa matéria que você está fazendo vai proporcionar visibilidade ao “2,99”. O resto, você vai ver, respondo na próxima pergunta.

Pode me explicar o motivo do nome do livro, e peço perdão se essa informação estiver no release (estou longe dele).

O meu primeiro livro se chama “Minda-au”, foi publicado em 2010 pela Record. “Minda-au” teria sido, dizem os meus pais, a primeira palavra que pronunciei, ao olhar para um quadro de um dromedário, obra de minha avó Diva, já falecida. Depois, em 2013, lancei “Golegolegolegolegah!” pela Travessa dos Editores. “Golegolegolegolegah!” trata da incomunicabilidade e pensei num título impronunciável. Segui escrevendo e reuni alguns contos para o que seria o meu terceiro livro, o “2,99”. Nesse meio tempo, fui convidado, pelo Rosel Soares, da Casarão do Verbo, para escrever o livro “Dicionário Amoroso de Curitiba”, com verbetes sobre a capital do Paraná. Durante 2013, escrevi os verbetes para o “Dicionário Amoroso de Curitiba” e também os contos de “2,99”. Se você olhar a contracapa de “2,99”, vai ver o número 3. Esse livro de contos seria o meu terceiro livro, daí o número 3. Mas, também, escolhi “2,99” para fazer alusão às lojas de 1,99 e 2,99: os contos fazem alusão a situações do cotidiano. Às vezes, é um cotidiano no qual uma família prospera no comércio pelo fato de as esposas dos negociantes se entregarem a anões (confira o conto “Segredo de família”). À vezes, é um cotidiano no qual são realizados concursos de imitação do Paulo Leminski e o melhor candidato é o anti-Leminski (veja no conto “A noite está velha”). Às vezes, o sujeito trabalha na profissão mais feliz do mundo, autuário (isso de acordo com pesquisa recente), mas é infeliz (dê uma olhada no conto “Jimi Hendrix”). O cotidiano, mesmo que surreal, está recriado nos contos de 2,99. Por isso o título: para fazer alusão às lojas que vendem produtos do cotidiano.

Leio algumas informações sobre o livro na internet. E me deparo com este parágrafo, a respeito de um dos contos: “… Outros não conseguem sair do itinerário casa-trabalho, trabalho-casa”. Cara, a vida cotidiana, comum a várias pessoas, é algo que o motiva a escrever de maneira irônica, dramática ou escrachada?

O cotidiano pode parecer chato, pode parecer uma prisão, onde nada muda, mas tudo está em transformação, o tempo todo. O cotidiano é o melhor dos mundos. O trecho que você citou pode ser atribuído ao conto “Rastros”, no qual o personagem sua e o cheiro incomoda apenas a ele. O conto mostra um dia na vida do sujeito que se incomoda em suar, apesar de não fazer, em tese, quase nada. Não sei dizer se escrevo de maneira irônica ou dramática. Algumas pessoas que leram, me disseram que os contos de “2,99” são engraçados por causa da ironia, de um efeito de humor. O André Sant’Anna, um escritor brilhante, leu “2,99” e escreveu o texto que está na orelha. O texto dele ajuda a entender o livro. Eu não sei dizer algo sobre o que escrevo. Sei que “2,99” está sendo bem recebido, tem mais leitura dos que os livros anteriores. Já concedi entrevista para uma rádio de Minas Gerais. Pela primeira vez estou sendo entrevistado por um jornal de Maringá. Veja só! O livro circula. É uma alegria imensa tudo isso. Te agradeço, demais, por se interessar pelo meu livro, pela minha ficção. Obrigado, muito obrigado.

Situações cotidianas são inspirações para a literatura? E o que mais?

Um escritor, amigo, que mora em São Paulo leu “2,99” e disse que “2,99” é surreal, que eu flerto com o surrealismo. Será? Não sei. Mas se o escritor disse, talvez possa ser. Será? No conto “O segredo da bem-aventurança de Chuni Kuni”, que foi traduzido para o alemão e está na coletânea Wir sind bereit, publicada na Alemanha no ano passado, e agora em “2,99”, o personagem vivia perdido por causa do consumo de álcool, até que desiste de beber e prospera — esse é o segredo dele. Mas, em seguida, ele está diante de um garçom e pode pedir um drink e, se beber, destruir a vida. Ele vai beber? Não vou contar mais nada, é o desfecho do texto. Esse conto é sobre o cotidiano? Ou surreal? Ou algo que dialoga com o mundo dos sonhos? Nos contos “Uma jornada particular”, “Caminho de Santiago”, “Jobs” e “Fantasmas”, os personagens não sabem mais qual o limite entre realidade, sonho e pesadelo. Nos últimos cinco anos, vejo toda noite um filme, sobretudo do Federido Fellini, mas também vejo e revejo filmes do Roberto Rosselini, do Vittorio De Sica, do Luchino Visconti, do Francis Ford Coppola. Música escuto todo dia desde pequeno. Frequento museus, principalmente o Museu Oscar Niemeyer, almoço em restaurantes por quilo, como em pastelarias, caminho pelas ruas de Curitiba. Isso tudo deve ter impacto no que escrevo.

O que esta Copa do Mundo, morando numa das cidades-sede, auxiliou em seu processo como escritor, jornalista e observador do mundo?

Torço para o Clube Atlético Paranaense. O fato de o estádio da Copa 2014 em Curitiba ser o do CAP é uma maravilha. Ainda não fui ao estádio novo, mas nesse Brasileirão de 2014, agora no segundo semestre, sem dúvida, estarei lá. Gosto muito de futebol. Em 2010, quando eu trabalhava na Gazeta do Povo, tirei férias em junho para acompanhar todos os jogos da Copa, pela televisão, em casa. Esse ano, vejo o que posso. Está sendo uma maravilha viver em Curitiba durante a Copa 2014. Tem turistas nas ruas, as pessoas, os locais, ficam mais leves e alegres, muitos assopram cornetas, tem gente com roupa verde e amarela, caminhar nas ruas em dia de jogo do Brasil é uma experiência única. Surgiram algumas ideias para contos durante esta Copa. Só não vou contar o que é por que acho que se contar, a ideia se esvazia e perde a força. Mas considero essa Copa 2014 muito inspiradora. Vou escrever sobre esse período. No próximo livro.

Quais livros gostaria de ter sido o autor? Quais escritores admira para sempre e quais estão, neste momento, em sua cabeceira, na mesa do computador, enfim…

Em geral, leio 10 ou mais livros ao mesmo tempo. Agora, estou lendo, entre outros, “Poesia Total”, do Waly Salomão; “As coisas de João Flores”, de Marco Aurélio Cremasco; “O beijo de Schiller”, de Cezar Trdapalli; “O Brasil é bom”, do Andre Sant’Anna; “Lado B”, de Sérgio Augusto; “O mais estranho dos países”, de Paulo Mendes Campos e “A origem do gênio”, de Dean Keith Simonton. Tem prosa, romance e conto, tem poesia, tem ensaio e tem crônica. Terminei de ler “Nu, de botas”, do Antonio Prata, uma obra-prima sobre a infância. Acompanho lançamentos, leio clássicos que ainda não li, releio Machado de Assis, Borges, Dalton Trevisan, Swift, Shakespeare, Drummond, Roberto Gomes, Bandeira, Guido Viaro, Guimarães Rosa, Melville, Cervantes etc. Um pouco de tudo, todo dia.

Eu quero escrever os meus próprios livros. Os livros que os outros escreveram, eu quero mesmo é ler.

Esta é uma pergunta que sempre faço, mais por curiosidade mesmo: como é o seu processo criativo? Curte escrever que horas? É cercado por manias? Por brancos criativos? Por necessidades desesperadas de por coisas no papel? Acorda no meio da noite em busca de uma caneta e papel? Enfim…

Desde 1986, quando comecei a ler e a escrever, e li e escrevi praticamente todos os dias, sem interrupção, em qualquer lugar, até abril, maio de 2014. Em casa? No computador. Em viagem? No caderno. Em férias? Caderno. Sem problemas, em qualquer lugar, em qualquer hora. Mas este ano aconteceu, pela primeira vez, um problema. Publiquei dois livros, o “Dicionário Amoroso de Curitiba”, com sessão de autógrafos dia 6 de maio e o “2,99”, lançado dia 3 de junho. Fiz a revisão e o fechamento dos livros quase ao mesmo tempo, desde o fim de abril. Veja só. Eu trabalho durante o dia na Biblioteca Pública do Paraná. Então, à noite, ao chegar em casa, a partir de abril, toda noite, me dediquei a reler e a rever esses dois livros por quase 40 dias. Fiquei e estou esgotado. Sabe o que aconteceu? Travei. Não consigo mais escrever ficção. Pela primeira vez na vida, desde 1986, estou sem escrever ficção. Ideias eu tenho, o tempo todo. Acordo para anotar sonhos. Ando e tenho ideias, paro e anoto. Almoço e tenho ideias. Tomo banho e surge uma ideia para um conto. Vou comer um pastel e tenho outra ideia. Sem parar. Só não estou escrevendo. Estou fraco, debilitado, de tanto trabalhar com os dois livros. Vamos ver se, ainda em 2014, eu consigo escrever ficção. Será? Por enquanto, quero apenas ler, dormir e anotar as ideias.

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (16) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Os insetos também amam

PREMIADO. “O Malefício da Mariposa”, montagem da Ave Lola Espaço de Criação: insetos, amor, atores e bonecos. —FOTO: JOSÉ TEZZA

PREMIADO. “O Malefício da Mariposa”, montagem da Ave Lola Espaço de Criação: insetos, amor, atores e bonecos. —FOTO: JOSÉ TEZZA

Por Wilame Prado

l “O Malefício da Mariposa”, espetáculo curitibano premiado no Gralha Azul, estreia hoje na cidade

l Peça de García Lorca, em montagem da Ave Lola, fala das agruras do amor humano por meio da fábula

Não é fácil explicar o amor. Ainda mais quando se trata de um amor impossível. Para a tarefa, o poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca usou, na década de 1920, a poesia e a fábula na peça “O Malefício da Mariposa”, tragicomédia que se apropria do universo de insetos para contar uma história sobre as dificuldades que os humanos têm em variadas manifestações amorosas.

O espetáculo, que ganhou montagem da curitibana Ave Lola Espaço de Criação, chega pela primeira vez a Maringá hoje, em apresentação única e com entrada franca no Teatro Barracão, às 20h30. O programa é uma atração do Convite ao Teatro, que distribui os ingressos na bilheteria do local meia hora antes do início.

A depender do currículo do espetáculo, recomenda-se chegar cedo para garantir lugar no Barracão – teatro de pequeno porte e que tem capacidade para pouco mais de 200 pessoas sentadas. É que “O Malefício da Mariposa”, espetáculo de estreia da Ave Lola e apresentado pela primeira vez há dois anos no Festival de Teatro de Curitiba, foi o grande vencedor do Troféu Gralha Azul 2012 com sete indicações e cinco troféus.

Revelaram-se como pontos positivos e devidamente premiados do espetáculo a direção, as atuações e a sonoplastia. Mas era grande o desafio com a montagem – Lorca teve um retumbante fracasso com a peça, que ficou apenas dois dias em cartaz.

A Ave Lola, mostrando no palco um trabalho elogiável de criação coletiva com três atores tendo de manejar bonecos-personagens, conseguiu fugir do caricaturismo ao encenar algo que, à primeira e errônea vista, parece se tratar de fábula da Disney e seus sentimentalismos: uma espécie de vida de insetos existencialistas. Nada disso, garante a diretora Ana Rosa Tezza, que também dá vida à Dr. Nigromântica – personagem que traça com a Dona Curiana (Janine de Campos) um eterno dilema: “Vale a pena ser poeta?”

No palco, além delas, Curianito (Val Salles) precisa encarar o drama e os perigos de se viver uma paixão proibida por uma mariposa. Isso tudo em figurinos e iluminação que, mesclando atores atuando e bonecos ganhando vida, proporcionam, segundo Ana Rosa, um espetáculo tocante, para um público de todas as idades. “Lorca dizia se tratar de uma ‘comedia rota’, uma comédia quebrada, uma tragédia, na verdade.O texto fala sobre a paixão e a busca do impossível. Pensar que insetos amam foi a metáfora encontrada para se distanciar e assim poder falar sobre o amor utópico, sobre o amor das pessoas também pela arte, pela poesia, pelo inalcançável”, diz a diretora.

AVE LOLA COLECIONA CONQUISTAS
Com apenas dois anos e meio de fundação, a Ave Lola Espaço de Criação já coleciona algumas conquistas que, segundo a diretora e atriz Ana Rosa Tezza, refletem o profissionalismo e a entrega para com a arte de todos os envolvidos na companhia.

“O Malefício da Mariposa”, espetáculo de estreia da Ave Lola e que chega pela primeira vez a Maringá hoje, foi indicado a sete categorias no Troféu Gralha Azul 2012 (premiação dos melhores do teatro paranaense), sendo premiado como Melhor Espetáculo, Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Sonoplastia.

Situada no bairro São Francisco, em Curitiba, a companhia conta atualmente com 15 profissionais da área do teatro, música e audiovisual. O espaço, diz Ana Rosa, além de servir para os ensaios e estudos multidisciplinares pensando nas montagens cênicas, comporta também um pequeno teatro com capacidade para um público de 40 pessoas. Na semana passada, a Ave Lola encerrou no local a temporada de “Tchekhov”, segundo espetáculo da companhia inspirado no conto “Aniuta” do escritor russo.

GRÁTIS
O MALEFÍCIO DA MARIPOSA
Ave Lola Espaço de Criação
Direção: Ana Rosa Tezza
Dir. de Arte: Cristine Conde
Classificação: Livre
Duração: 70 minutos
Quando: sexta-feira, às 20h30
Onde: Teatro Barracão
Entrada franca

*Reportagem publicada quarta-feira (30) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Tezza revisita o passado

AUTOCRÍTICA .Cristovão Tezza, em Curitiba: “Sinto que é o meu melhor livro”. —FOTO: GUILHERME PUPO

AUTOCRÍTICA. Cristovão Tezza, em Curitiba: “Sinto que é o meu melhor livro”. —FOTO: GUILHERME PUPO

Wilame Prado

Antes de discursos em que precisamos falar da gente mesmo, passa um filme na cabeça e ativamos a máquina da memória tentando, num exercício de ordenação e coerência, transformar lembranças em palavras proferidas. No ínterim, tendemos a pensar em fatores externos – família, relacionamentos, profissão, política atual – mas, quase sempre, deixamo-nos comover pelas reminiscências, pelas emoções, que, tal qual uma lágrima que transborda dos olhos e que ofusca o plano da visão, chegam a distorcer os fatos com a exacerbação dos sentimentos em detrimento da realidade pretérita. Nosso passado, que é uma história que nós mesmos construímos para a gente, tende a ser potencializado com a nostalgia.

“O Professor” (Editora Record, 240 páginas, R$ 32), romance lançado recentemente por Cristovão Tezza, 62 anos, tem sua narrativa concentrada nas poucas horas que antecedem o discurso que o professor aposentado de filologia românica Heliseu da Motta e Silva, 71, fará em uma homenagem que está prestes a receber pelos serviços docentes prestados.

Não há limite de tempo para as memórias, e Heliseu rememora, nessas poucas horas, décadas de uma vida dedicada à arte de ensinar, incluindo, nesse pacote de lembranças, fatos importantes da história pessoal e da política brasileira.

Como acontece com a maioria das pessoas, passa um filme na cabeça do professor. E como bem sabe fazer o escritor catarinense radicado em Curitiba, o filme das memórias de Heliseu foi transformado em romance.

Em “Um Erro Emocional” (Record, 2010), Tezza praticou a sua destreza em escrever páginas e mais páginas que concentram, no tempo da obra, apenas horas vividas pelas personagens. Na ocasião, ele narra a ida do escritor renomado Paulo Donetti ao apartamento de uma leitora, Beatriz, para dizer que havia cometido um “erro emocional”, o de ter se apaixonado por ela.

Em “O Professor”, o recorte temporal se limita entre o lento despertar do idoso e o momento em que finalmente coloca o papel do discurso no bolso, olha-se no espelho e vai para a devida homenagem a ser recebida.

Nesse intervalo de quatro anos entre os dois romances, Tezza exercitou o conto em “Beatriz”, o ensaio literário em “O Espírito da Prosa” e a crônica em “Um Operário em Férias”. Agora volta ao romance e, até pelo pouco destaque que teve publicando em outros formatos literários (principalmente quando comparado com o retumbante sucesso de “O Filho Eterno”, de 2008), demonstra mesmo que a prosa mais longa é o seu forte.

Na bibliografia, são 18 obras publicadas, sendo 14 romances, incluindo, além dos supracitados, os elogiados “Uma Noite em Curitiba”, “Trapo” e “O Fotógrafo”.

Comemoração à parte dos leitores que aguardavam um novo romance de Tezza, “O Professor” chega ao País já premiado. Ano passado, o livro foi escolhido pelo Financial Times como um dos melhores estrangeiros publicados no Reino Unido.

Afora isso, o próprio autor considerou, em entrevista concedida por e-mail, tratar-se de seu melhor livro até aqui. “Depois de vários livros publicados, o escritor já consegue ter uma noção de medida de seu trabalho, ainda que não a certeza absoluta, que não existe. Eu sinto que é o meu melhor livro pelo apuro técnico e pela maturidade da visão de mundo, que é algo que só o tempo dá. Mas é preciso lembrar que o autor é sempre suspeito ao falar da própria obra.”

Após a conquista de vários prêmios com “O Filho Eterno”, ele ganhou dinheiro, fato que estimulou a antecipação da aposentadoria nos tablados da Universidade Federal do Paraná, onde lecionou por 20 anos no curso de Letras. Olhando para o currículo de Tezza e todo seu envolvimento com a academia, poder-se-ia imaginar que “O Professor” é mais um romance com traços autobiográficos. Não é, segundo o próprio autor.

“O único livro de fundo autobiográfico que escrevi foi ‘O Filho Eterno’. Personagens professores são recorrentes na minha obra: há professores em ‘A Suavidade do Vento’ e ‘Uma Noite em Curitiba’, por exemplo, e isso não significa que sejam livros autobiográficos. Não há nada de mim em Heliseu, exceto a profissão – já fui professor e convivi no mundo universitário que meu personagem habita”, explica.

TEZZA AGUARDA CONVITES PARA LANÇAR ‘O PROFESSOR’
“O Professor” foi lançado oficialmente em Curitiba no começo de abril. Já no sábado do dia 12 de abril, Tezza estaria na Livraria e Editora Arte & Letra, também na capital paranaense, ao lado dos escritores Rogério Pereira e Mário Araújo, no lançamento de “Entre as Quatro Linhas”, coletânea de 15 contos sobre futebol organizada por Luiz Ruffato.

Dentre os contistas estão, além de Tezza, Pereira e Araújo, Fernando Bonassi, Ronaldo Correia de Brito, Eliane Brum, Flávio Carneiro, André de Leones, Tatiana Salem Levy, Adriana Lisboa, Ana Paula Maia, Tércia Montenegro, Marcelo Moutinho, Carola Saavedra e André Sant’anna.

Em sua última passagem por Maringá, Tezza participou da Semana Literária do Sesc em 2010 e versou sobre a criação literária e importância da leitura. O romance recém-publicado por ele já pode ser encontrado nas principais livrarias da cidade, mas ainda não há previsão de lançamento da obra com noite de autógrafos do autor por aqui.

“Já fui várias vezes a Maringá, em palestras, eventos literários e lançamento do livros, sempre uma ótima recepção. Se surgir uma oportunidade, é claro que irei”, diz Tezza.

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O PROFESSOR
Autor: Cristovão Tezza
Gênero: romance
Editora: Record
Número de páginas: 240
Preço sugerido: R$ 32

ISTO É CRISTOVÃO TEZZA
A cadeia de desconcertos deste amanhecer, ele sussurrou, achando bonito, testando a linguagem e vivendo um impulso de entusiasmo — eu poderia ter sido escritor, se tivesse tido a coragem no momento certo. Quase rompi a membrana e passei para o lado de lá. Parecia simples. Therèze uma vez lhe disse: por que você não escreve? Um tropeço de fonemas — cadeia de desconcertos deste. O fonema “d”, repetiu ele milhares de vezes diante de milhares de alunos, seguido da vogal “i”, palataliza-se em algumas regiões do Brasil. Comparem: djia x dia, assim, dia, ele abria bem a boca para a demonstração, alveolar, a língua contra os dentes da arcada superior. Para quem não compartilha a diferença de sotaque, é engraçado. Passou as mãos no rosto, moveu a cabeça de um lado a outro, três vezes, num simulacro de ginástica — é bom contra torcicolo, ele ouviu uma vez e passou décadas repetindo o movimento. Mas o pescoço parece um papo de galinha, assim como os olhos revelam o pé de galinha — é assim que as mulheres dizem. Um símile perfeito. Essa pele despencada grudando-se ao que resta de apoio, para se espraiar em ossos secos que se erguem como raízes de árvores arruinadas. A clássica barba amanhecida, ainda por fazer. Houve um tempo em que era estilo. Minha cabeça é um bulbo, e ele se surpreendeu com a teimosia da conclusão, já diante da plateia: senhoras e senhores, brasileiras e brasileiros, eu fui sim um homem bonito. Eheh. Esticou a perna direita, depois a esquerda. As pernas pareciam doer menos essa manhã. A química funciona.

A verdade é que nem sempre fui um homem antigo, ele argumentou arriscando uma ironia em defesa própria, agora sentado na cama de imbuia envernizada, mais velha ainda que ele, com seus frisos caprichosos. Confira os detalhes da cabeceira. Uma hora de trabalho em cada raminho de madeira, as ranhuras das folhas perfeitas no relevo. No tempo dos artesãos, que não existem mais. Não fabricam mais nada assim, ele ouviu a mulher repetir mil vezes, com irritação legítima, hoje é esse lixo descartável, serragem com cola, a cama desmonta no primeiro dia — na primeira trepada, ele completou uma vez, há muitos e muitos anos, e os dois riram. A Mônica, senhores, de saudosa memória. Talvez a homenagem que vão fazer a ele seja justamente o reconhecimento de sua atualidade. Não. De sua contribuição. Alguém que passou sem traumas (Na verdade, com altruísmo; eles têm de reconhecer pelo menos isso. Se não fosse ele — se não fosse ele o mundo não existia? Sim, de certa forma, e ele riu como quem ouve uma piada de café; o velho e bom solipsismo. Depois de mim, o dilúvio; sem mim, nada! É engraçado.) — que passou sem traumas da velha filologia românica para a linguística moderna — do papel escrito para a língua viva. Dos textos sólidos — desenhados quase que com o punhal há 600 anos, a brutalidade do tempo, e que ele lia com prazer, no púlpito da sua aula, aquilo sim é palpável, a verdadeira gramática universal, nom seria razõ, n˜e dereyto que no processo de nossa lyçam seiam squecidas aquellas moças que som ˜e estado de virgijndade, das quaes homem pode fallar em duas maneyras — daquellas que teem preposito de guardar virgijndade toda sua vyda por amor de Deos e daquellas que ha guardam ho tempo de seu casamento per ordenãça de seus padres. Não é uma maravilha?, ele perguntava aos alunos, o anfiteatro cheio, um bloco granítico de silêncio. ///Trecho do romance “O Professor”, de Cristovão Tezza

*Reportagem publicada em 12 de abril no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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New York, Curitiba

Por Wilame Prado

Lembro-me do meu velho pai todas as vezes em que piso em um hotel. Aliás, posso dizer que, quando estou em hotéis, mais do que lembranças paternas, permito-me reencarnar na figura dele, que morreu há seis anos, naquele inesquecível 1º de maio de 2007. Sou seu único filho homem (reconhecido em cartório), tenho este direito.

A reencarnação começa logo na recepção, quando ouço as atendentes me chamarem pelo sobrenome (que nunca uso, diga-se) e com uma cordialidade incomum em meu dia a dia: “Sr. Elias, queira me acompanhar até o quinto andar, onde fica a sua exclusiva suíte M…”, diz Maíra, simpática moça curitibana, com um suave problema de dicção na voz que a obriga trocar sutil e graciosamente o r pelo l quando conversa.

Em bancos, corretoras de seguro e concessionárias de veículos onde trabalhou em São Paulo (SP), meu pai sempre foi o Elias. Em redações de jornais no interior paranaense, nunca deixei de ser o Wilame Prado, o cara do nome esquisito. No hotel, viro o jovem senhor Elias. Tenho 27 anos. Meu pai morreu aos 49 após Acidente Vascular Cerebral (AVC). Estou pensando seriamente em oficializar a troca de nome; gostei da sonoridade de “Sr. Elias”.

Estou em Curitiba, região central da capital do Paraná, próximo a um shopping que já foi estação de trem. Sou um paulistano natural de Maringá que ganhou um final de semana na suíte exclusiva do hotel com ares nova-iorquinos. Nunca fui aos Estados Unidos, mas assisti a bastantes filmes de Woody Allen. No aposento provisório, em nenhum momento sequer o Sr. Elias se permitiu imaginar-se um estrangeiro. Quartos de hotel são iguais, afinal.

A previsão do tempo havia nos assustado: voltaria a fazer frio. Mas nem deu para apreciar o frio curitibano não. Do avião para o táxi, do táxi para o hotel. Ar-condicionado no quente. Cobertas, travesseiros e cama macia. O conforto de uma Manhattan fictícia e uma vontade de rever algum longa de Woody Allen (dizem que “Blue Jasmine”, filme a estrear este mês no País, promete).

O que mais me emociona em quartos de hotel são as potentes duchas quentes no banheiro. Estar em um hotel é estar fora de casa. Isso já é fator suficiente para ficar pensando mais profundamente na vida. Faço isso debaixo do chuveiro, percebendo a vermelhidão aparecer em meu corpo por causa da quentura da água. As veias que saltam no peito do meu pé, já inchado após quarenta minutos de banho, relembram-me que não sou mais quem eu era antes. Agora sou o Sr. Elias. Tenho os pés inchados do meu pai, mas torço para não sofrer o que ele sofreu (em silêncio) com a pressão alta e dores nas pernas.

Eu calço 41. Sem inchaços, um par de sapatos do número 39 servia perfeitamente bem nos pés do meu pai.

Dizem que muitos escolhem os quartos de hotéis como local para cometer suicídios. Fiquei pensando nessas coisas ruins antes de terminar meu banho e acabei por me recordar de uma noite solitária e triste que passei no 23º andar de um hotel paulistano, há alguns anos. Olhando para baixo, da janela do quarto, a imensidão de toda aquela visão fazia dicotomia com o vazio inexplicável que atingia o meu peito naquele instante, em minha cidade natal, tão perto de mim e tão longe de todo mundo. Naquela noite, após uma ducha quente e demorada, não tardei a dormir confortavelmente em cima de uma cama que mais parecia uma jangada espaçosa.

Dificilmente alguém vai se matar após um revigorante banho quente.

Nessa última viagem, havíamos planejado restaurantes bem conceituados, passeios a céu aberto, guloseimas, presentes, caminhadas, fotos, sorrisos e abraços em praça pública. Queríamos uma Curitiba de peito aberto só para nós, local onde pretendíamos reinventar uma lua de mel que nunca existiu. O Sr. Elias e a sua mulher, confortavelmente instalados na suíte 502, mereciam mais do que os ovos mexidos e o bacon no café da manhã, o café expresso à vontade no andar do quarto e a champagne no cair da tarde. Mas nada disso foi possível. Deixamos Curitiba para mais tarde, para outros finais de semana. É que somos exibidos e desdenhamos da capital. Preferimos ficar na Manhattan fictícia consumindo duchas e travesseiros tão distantes dos nossos.

Trancafiado em um quarto de hotel, em suas muitas horas de sono deitado em cama confortável de hotel, o Sr. Elias pensou que teria sido legal ter sonhado com o pai já falecido. Mas não sonhou com ninguém e nem mesmo com lugares, como o Central Park ou o Jardim Botânico. E então se despediu da cidade grande rumando a Maringá em uma noite chuvosa de domingo. New York, New York. Curitiba, Curitiba.

*Crônica publicada nesta terça-feira (8) na coluna Crônico do caderno Cultura, do jornal O Diário de Maringá

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Entrevista com o presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Marcos Cordiolli

Por Wilame Prado

No início deste ano, o historiador e educador de Maringá Marcos Cordiolli, 49 anos, assumiu a presidência da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) com a missão de coordenar a política cultural da capital paranaense na gestão do prefeito Gustavo Fruet. Na bagagem, o maringaense, que se mudou para Curitiba em 1979, leva a experiência como produtor de cinema, assessor da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados e da Agência Nacional do Cinema.

Via e-mail, ele concedeu uma longa entrevista comentando, dentre vários outros assuntos, sobre a descentralização dos projetos culturais curitibanos e que poderá estimular a vinda de mais espetáculos da capital para Maringá, e vice-versa.

Cordiolli também contou sobre as memórias afetivas que nutre pela sua cidade natal, onde hoje vivem toda sua família, de pais à filha. Hip Hop, cinema, Vale-Cultura e características aconselháveis para se gerir pastas culturais também foram temas abordados na entrevista. Para ele, que reafirma a todo momento a importância do setor cultural para a comunidade, “ser secretário de Cultura é assumir as responsabilidades como um dos artífices da alma da cidade.”

Durante exposição no Palladium Shopping Center, em Curitiba, Marcos Cordiolli segura caneca personalizada do artista plástico Rogério Dias

Leio que mora em Curitiba desde 1979, mas nasceu em Maringá. Qual sua relação com a cidade e o que ficou guardado em sua memória dos tempos em que morou aqui, principalmente.

MARCOS CORDIOLLI – Maringá é a minha referência afetiva. A minha família continua morando na cidade: meu pai, minha mãe, meus cinco irmãos, cunhados e sobrinhos. Além de dezenas de tios e primos. E, por estas coincidências da vida, a minha filha, que nasceu em Curitiba, também mudou para Maringá junto com a mãe.

Estudei nos colégios Santo Inácio, Gastão Vidigal e Osvaldo Cruz, instituições importantes na minha formação cultural. Frequentava assiduamente a biblioteca pública municipal. No Colégio Santo Inácio, fui muito estimulado à leitura pela Mirian Ramalho e ao conhecimento da história pela Marta Ramalho. Duas professoras de referência na minha vida.

No Gastão Vidigal fui aluno do mestre Galdino Andrade, que descortinou para mim o mundo maravilhoso da literatura. Até hoje guardo com carinho uma obra de sua autoria, o “Poeira Vermelha”, bela coletânea de contos ambientados à época da colonização.

No que consistirá, ou já está consistindo, esse aprimoramento dos mecanismos de fomento cultural e a criação de instrumentos para dar mais visibilidade às produções locais fora de Curitiba, que o senhor disse ser uma das metas na gestão?

Curitiba produz excelentes obras culturais em todos os segmentos. No entanto, estas obras não conseguem obter a circulação merecida. Tanto na cidade como fora dela. Atuamos, na perspectiva da economia da cultura, em duas linhas, ampliação do público e dos locais de exibição de espetáculos e venda de produtos culturais em Curitiba; e complementarmente estimularemos a circulação de obras curitibanas em outras cidades.

Nesta perspectiva reestruturaremos os nossos mecanismos de fomento fortalecendo o estimulo à circulação da produção cultural. Combinado a essas mudanças criaremos instrumentos para financiar a circulação de obras culturais em outras cidades do Brasil e do exterior; Instituiremos mecanismos de fomento plurianual para grupos culturais de pesquisa e produções de longo prazo. Também estudamos a formatação de um fundo de investimentos com recursos retornáveis para investir em projetos de maior viabilidade comercial.

Além disso, adotamos ações de estímulo, como o conveniamento com cidades brasileiras e do exterior que forneçam apoio logístico e de mídia para os artistas curitibanos.

Com a meta de estimular a ida de espetáculos curitibanos para além da capital, isso significa dizer que há chances de esses espetáculos virem inclusive para Maringá?

Sim. Maringá e outras cidades do Paraná estão em nossos planos, tanto de enviar como receber espetáculos. Temos sempre a preocupação de atuação em mão dupla. As cidades que abrem espaço para os nossos espetáculos podem enviar as suas produções para Curitiba, onde serão muito bem recebidas. Já estamos trabalhando em protocolos de cooperação com diversas cidades, algumas delas do exterior.

O senhor reconhece tantos bons eventos culturais consagrados em Curitiba, como o Festival de Teatro e o Lupaluna, mas diz ser importante descentralizar a programação cultural. Segundo alguns produtores culturais daqui da cidade, também seria preciso haver uma maior descentralização dos projetos culturais em Maringá. Com o conhecimento que tem da cidade, o senhor concorda com isso?

Não conheço adequadamente os circuitos culturais de Maringá para emitir uma opinião. Mas toda cidade precisa desenvolver ações para três campos culturais básicos: a formação, a produção e a circulação de obras dos artistas locais estabelecidos, como uma dimensão da economia da cultura que precisam de apoio para criação, espaços de exibição e reconhecimento social; a atração de espetáculos e artistas de outras localidades, pois a convivência cultural garante o aprimoramento e a renovação da produção local; e o reconhecimento e fortalecimento do que denominamos de cultura viva: os artistas e fazedores de cultura espalhados pela cidade, que geralmente são invisibilizados pelos mecanismos de fomento cultural e desconhecidos da população.

Um levantamento sumário realizado em Curitiba, há cinco anos, indicou a existência de 3.500 agentes culturais na cidade. No entanto, estimamos que o número atual de agentes da culturais do campo da cultura viva possa ser até três vezes superior. A cultura viva é um universo a ser desvelado e reconhecido urgentemente.

Também deve ser desafio de qualquer política pública de cultura propiciar eventos culturais nos diversos espaços da cidade, ampliando a democratização do acesso aos bens culturais e promovendo a cidadania cultural. Para isto, é preciso ações permanentes e estruturantes com focos descentralizados, mas articulados com toda a cidade.

Outra dimensão deste processo é o reconhecimento de toda a diversidade cultural apoiando a cultura de migrantes, de afrodescendentes, de ciganos, de indígenas, da população LGBT, da juventude e da terceira idade.

A promoção da cidadania cultural nas comunidades das grandes cidades é uma ação estratégica de recomposição do tecido social destroçado pelo modelo urbano e midiático contemporâneo. O estímulo da produção e circulação cultural nas comunidades estimula o religamento dos laços sociais e a promoção das relações sociais necessárias para que as pessoas possam construir formas de convívio comunitário. As comunidades que dispõem destes laços sociais conseguem identificar e reduzir a violência contra crianças, idosos e mulheres; combater a pedofilia; inibir a ação do narcotráfico e dispor de mais condições para recompor os ambientes familiares. As comunidades organizadas podem estabelecer um novo modelo de democracia participativa e estimular o controle social sobre as politicas públicas de saúde, educação, proteção social e segurança.

Portanto, descentralização e desconcentração das ações culturais devem orientar as políticas públicas culturais contemporâneas como uma dimensão da cidadania cultural e como uma estratégia para recompor as bases de convívio social.

A ideia do senhor, de viabilizar um cineclube para cada escola estadual de Curitiba, parece ser muito boa. Está esperançoso de que vai dar certo?

Sim. Esta é uma das minhas grandes esperanças. Os cineclubes têm características peculiares e são eixos estratégicos de toda gestão cultural, pois podem ser a base da estruturação das redes culturais colaborativas da juventude. Constituídos como grupos auto organizados, os cineclubes são a porta de entrada para a formação de diversos outros movimentos culturais de música, teatro, dança, audiovisual, leitura e literatura. Além disso, estimulam a produção e a expansão da cultura digital.

Os cineclubes possibilitam todas estas situações pois reúnem pessoas para a fruição cultural combinada aos debates e às experimentações estéticas. Os investimentos são relativamente pequenos, basta um bom acervo de filmes e a combinação de diversas atividades de estímulo.

Em Maringá, assim como em Curitiba, principalmente em bairros e cidades da região metropolitana, há também uma cena interessante do Hip Hop. Por que é tão difícil para as secretarias culturais traçar um diálogo maior com essas manifestações culturais?

O Hip Hop é talvez o segmento mais visível da cultura viva. Eles têm uma força maior pelas características de militância associada a este movimento cultural. Em Curitiba, estamos avançando na relação do Hip Hop, como também estamos abrindo interlocução com o heavy metal, o punk, a arte urbana e outros. Todas as tribos precisam ter direito à cidadania cultural. Estes movimentos possuem características muito peculiares que requerem ações compartilhadas e instrumentos flexíveis de políticas públicas. A gestão pública ainda tem dificuldade para respeitar e reconhecer as necessidades destes segmentos. Em alguns governos conservadores, a situação é ainda mais complexa, pois são tratados até com preconceito.

Qual a sua relação com a fundação antes de assumir o cargo e, na opinião do senhor, o que levou o prefeito Gustavo Fruet a indicar seu nome para a presidência?

Eu atuei com produção executiva de cinema de longa-metragem aqui em Curitiba. Depois atuei na assessoria técnica no Congresso Nacional acompanhando a tramitação de diversos projetos fundamentais, como os do Pró-cultura, do Vale-Cultura, do Plano Nacional de Cultura, do Sistema Nacional de Cultura e a PEC que determina dotações orçamentárias mínimas para cultura em todos os entes da Federação.

Depois, trabalhei na Ancine, Agência Nacional do Cinema, que é uma das maiores agências públicas de fomento cultural da Ibero-América.

Esta experiência com políticas culturais deve ter influenciado o prefeito na escolha do meu nome para presidir a Fundação Cultural de Curitiba.

O senhor afirmou, em entrevista recente, que o próprio prefeito Fruet é um ávido consumidor da cultura local. Considera isso importante para que as coisas aconteçam na pasta ou na fundação?

Um prefeito que é consumidor da cultura local faz a diferença quanto à compreensão da natureza das políticas públicas de Cultura. O prefeito de Curitiba, por conhecer a cena local, tem apoiado irrestritamente nossas ações. O secretariado também tem compreensão muito apurada do modelo de política cultural que estamos desenvolvendo. Eu tenho dito que sou um secretário de cultura privilegiado pelos apoios que disponho no governo municipal.

Digo isso porque, pelo menos em Maringá, o secretario de Cultura, Jovi Barboza, e a diretora de Cultura e presidente do Conselho Cultural, Edith Dias, são pouco conhecidos dos artistas e, conforme seus currículos, nunca atuaram na linha de frente da cultura local. Considera isso um problema ou, como o próprio secretário daqui afirmou, “toda indicação é política” e a experiência dele como gestor pode ser suficiente para o cargo?

Esta é uma pergunta difícil de responder, pois cada situação é peculiar, e, como disse, desconheço o cenário cultural em Maringá. No entanto, assumi recentemente a presidência do Fórum dos Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais, que reúne cidades com mais de meio milhão de habitantes. Nossa intenção é constituir uma entidade forte, que congregue os secretários municipais de todos os municípios brasileiros. Fiquei muito honrado com a missão de liderar este processo.

Assim, acredito que, embora o perfil do secretário municipal tenha importância, é necessário a disposição de construir instrumentos republicanos de gestão, como o reconhecimento e estímulo a circuitos culturais diversificados, a instituição de instrumentos flexíveis de fomento cultural, a consolidação de um quadro de servidores qualificado, a disponibilidade de recursos públicos e funcionamento regular e efetivo mecanismo de controle social, como conselhos e conferências de cultura e audiências e consultas públicas.

Além disso, é preciso que todos os setores da sociedade – como empresários, associações, imprensa – reconheçam a cultura como política pública, assumindo obrigações com o setor que não podem ficar restritas a artistas e produtores culturais.

Vamos falar um pouco de cinema, área que o senhor gosta. Conte como foram os trabalhos na produção de “O Sal da Terra” e “Curitiba Zero Grau”.

Os dois filmes permitiram adquirir grande experiência profissional, pois foram produções muito complexas. Quase todas as sequências foram filmadas fora de estúdios e a maioria delas em estradas e ruas. Para isso, foi preciso um intenso trabalho de planejamento, logística apurada e equipe qualificada. Os filmes também adotaram estratégias de financiamento e circulação inovadoras. Os resultados de qualidade de produto e estética foram excelentes. Os dois filmes foram reconhecidos em premiações importantes no Brasil e no exterior.

Tem algo na gaveta?

Como produtor executivo, normalmente desenvolvo projetos de outras pessoas. Tenho diversos projetos em mente, alguns em parceria, para depois que deixar o governo. No momento, estou participando da formatação de um programa de TV com minha namorada, que é atriz. Um projeto muito interessante e que já está bastante adiantado.

Como avalia a produção de cinema em Curitiba e no Estado?

Curitiba tem uma produção cinematográfica de alta qualidade e em expansão. Está em processo de renovação com uma nova geração, liderada pelo Aly Muritiba, que já conquista reconhecimento crescente no mercado e na crítica. Na Fundação Cultural, estamos atuando no foco da Economia da Cultura para fortalecer toda a cadeia produtiva com a formação e qualificação de técnicos, fomento à formação de especialistas e produtos em diversas áreas e o fortalecimento da Film Comission para apoiar a produção audiovisual na cidade.

Na área de fomento, apoiamos a realização de filmes de curta-metragem e de filmes digitais e estamos incluindo o estimulo à produção de roteiros, de formatos de programas de televisão e o desenvolvimento de projetos. Curitiba caminha a passos largos para se tornar um dos mais importantes polos de produção audiovisual no Brasil.

Quando se assumem cargos de gestão fica difícil produzir cultura?

Fica sim. A FCC tem mais de 500 ações diferentes. Cerca de 100 equipamentos culturais espalhados por mais de 50 pontos da cidade. Centenas de servidores. E orçamento anual superior a 50 milhões de reais. Administra dois fundos de milhões de reais, um de renúncia fiscal e outro de fomento direto. Realiza mais de uma dezena de eventos culturais por dia. Além disso, também acumulo as funções de presidente do Fórum dos Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais e de membro do Conselho Nacional de Políticas Culturais. Além de uma série de outras funções no governo e na sociedade.

Também não abro mão da minha vida pessoal. Frequento diversas atividades culturais. Sou pai de uma garota de 16 anos, a Paula, e tenho um namoro consolidado com a Isadora (Ribeiro), que também tem duas filhas, Maria e Valentine, às quais dedico atenção e afeto. Assim, o tempo é bastante restrito.

Como falei, estou desenvolvendo um projeto de programa de televisão. Realizo com alguma regularidade conferências sobre educação e políticas culturais. Estou publicando crônicas com alguma regularidade e pretendo voltar a escrever sobre cinema. Recebi convites para publicar um volume com textos sobre cinema e para escrever um livro sobre o Plano Nacional de Educação. Não é tanto quanto gostaria, mas é o possível.

Mas ser secretário de cultura é um privilégio. A gestão da política cultural é intervenção na alma da cidade (no sentido junguiano do termo). É articular a produção artística, com a ebulição intelectual, com as mediações da comunicação, convergindo desejos, angústias, sonhos e frustrações. Isto é mais importante quando as cidades perderam as suas ágoras, seus pontos de referência identitárias e loccus de pertencimento. Trabalho muito para que Curitiba volte a recompor o seu sentimento de pertencimento, recontextualize os seus ícones de identidade e volte a ter uma ágora simbólica no centro da cidade. Por isso, estou empenhado em recuperar o Passeio Público, o parque mais central da cidade, como espaço de sociabilidade de todos os curitibanos, sem distinções. E vamos convergir para o Memorial da Cidade, no centro histórico, os grandes debates estéticos e intelectuais. O objetivo é que este dois componham um trio com a Boca Maldita, na Rua XV, um tradicional espaço de efervescência política. Ser secretário de Cultura é assumir as responsabilidades como um dos artífices da alma da cidade.

O que pensa sobre o setor cultural do Estado de modo geral?

Os governos estaduais de maneira geral têm limitações sérias. No Paraná, esta situação é agravada por um antigo modelo que concentrou a grande maioria do equipamentos na capital. Mas creio que, com a nova lei estadual de fomento à cultura, este cenário possa mudar gradualmente.

E de Maringá?

Maringá tem potenciais culturais imensos. Como uma cidade de migrantes, é um caldeirão social que produziu um patrimônio cultural, embora recente, de riquezas e diversidade de alta qualidade. A cidade deveria valorizar e demostrar orgulho dessa característica.

Também é uma cidade que dispõe de empresas fortes, que poderiam fomentar mais intensamente a produção local. Tem bons espaços culturais e uma Lei muito interessante de apoio aos museus.

Conheço alguns projetos de alta qualidade de maringaenses. A cidade tem tudo para acontecer no cenário cultural, basta desenvolver políticas sérias, participativas e estruturantes.

O que pensa sobre o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Instituto Memória e Vida (IMV), na figura do Edson Pereira e do Marcelos Seixas? Eles sempre falam muito bem do senhor, principalmente dos trabalhos desenvolvidos na Ancine.

Os dois são muito competentes, criativos e têm grande disposição para o trabalho. Compreenderam o potencial de Maringá e resolveram investir na promoção de projetos culturais. A cidade tem sorte de tê-los e deveria reconhecer esta sorte, apoiando-os intensamente. O Captart é uma experiência exitosa e já é referência nacional. Estamos conversando com os dois para nos ajudar a montar um mecanismo similar em Curitiba. Também estamos discutindo a possibilidade de Curitiba aderir ao Museu da Família, outro projeto de grande importância e que deverá, também, ser referência nacional e internacional. E como maringaense, gostaria muito de ver o Museu da Agricultura funcionando.

Leio em seu currículo que o senhor teve também uma grande atuação na área da Educação. Em sua opinião, de que forma é possível ganhar pontos culturais investindo na Educação de uma cidade? Acha que é válida a unção das pastas ou pelo menos diálogo frequente?

Cultura e educação, em particular nos governos municipais, precisam caminhar juntas, embora resguardando as suas respectivas autonomias. Aqui em Curitiba, temos uma situação ideal de articulação entre estas duas secretarias.

A ação cultural nas escolas é uma de nossas linhas principais de atuação. Inclusive estou estruturando toda uma área específica para tratar das ações articuladas entre cultura e educação.

Estamos ampliando a oferta de cultura na escola direcionando diversos eventos e apoiando a ampliação da jornada escolar. Mas temos alertado que há uma diferença entre as obras de arte utilizadas com função didática e as ações culturais para livre fruição. Os espetáculos de teatro, dança, música e cinema, e as ações de leitura, em museus e outros centros culturais, devem ser de livre fruição, sem obrigações ou avaliações.

Estamos ofertando o EduCultura, um programa que visa disponibilizar espetáculo e obras culturais para os professores, pois entendemos que a formação cultural dos estudantes corresponde à proporção desta mesma formação nos professores.

Todos os nossos equipamentos – salas de exibição, museus, o conservatório de música – assim como a Camerata, os coros e as orquestras, terão atividades direcionadas para o público escolar, tanto nas categorias didáticas como de livre fruição.

Na comissão cultural do Congresso Nacional, trabalhou com Ana Hollanda, né? Aprecia o trabalho que vem sendo desenvolvido por Marta Suplicy?

Quando trabalhei no Congresso Nacional, o ministro era o Juca Ferreira. O período que trabalhei na Ancine coincidiu com a gestão da Ana de Hollanda. Aprecio muito o trabalho da Marta Suplicy no Ministério da Cultura. Quando foi prefeita de São Paulo mostrou grande sensibilidade e apreço pela cultura é também uma gestora muito competente. Responde de forma eficiente e rápida às demandas do Ministério.

A Marta demonstrou muito apreço por nosso trabalho e nossos projetos para Curitiba e tem se mostrado uma importante parceira, tanto na FCC como no Fórum dos Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais.

O senhor ajudou na criação do Vale-Cultura, que deverá virar realidade no meio deste ano. O que pensa sobre este projeto?

O Vale-Cultura é um mecanismo fundamental. Enquanto nossos programas de fomento estimulam a produção, o Vale Cultura vai estimular o consumo cultural, a outra ponta do processo.

Em Curitiba estamos trabalhando bastante para que os produtores e artistas da cidade possam usufruir destes recursos. Já estamos estruturando um guia de oferta para circular entre os usuários do programa e preparando os produtores culturais para usufruir da melhor e maior maneira possível.

Alguns criticam o Vale-Cultura porque não contemplará alguns gostos como por games e TV a cabo. Mas, isso é cultura, em sua avaliação?

O Vale-Cultura é um mecanismo novo. Acho bom que ele comece atendendo um rol menor de produtos e serviços, para que possa ser testado e para verificar e compreender o comportamento dos usuários. Num futuro breve, poderá ser reavaliado e poderá incluir outros segmentos de consumo cultural.

Acha que a Lei Rouanet precisa melhorar ou com a criação do Pro-Cultura as questões envolvendo captação via isenção fiscal para apoiar a cultura já estão bem acertadas?

Acredito que precisamos de diversos tipos de financiamento ao fomento cultural. A renúncia fiscal, regulado pela Lei Rouanet e pela Lei do Audiovisual no âmbito do governo federal, e por diversas leis estaduais e municipais, é uma peculiaridade das políticas culturais no Brasil. São mecanismos que precisam de ajustes regulatórios mais flexíveis e que os aproximem dos focos das políticas públicas, em particular nos municípios.

O segundo tipo são os fundos de fomento direto, que financiam a cultura disponibilizando diretamente verba dos orçamentos governamentais. O modelo do Fundo Municipal de Cultura de Curitiba é um dos melhores, pois dispõe de recursos para dezenas de linhas de ação cultural, disponibilizados através de editais regulares. Os modelos do PAR, PAQ e os editais de coprodução internacional mantidos pela Agência Nacional do Cinema, a Ancine, são também modelos eficientes de fundo de fomento direto.

O terceiro tipo é o do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), mantido também pela Ancine, um fundo retornável, que transforma o governo numa espécie de sócio dos produtores de cinema.

Eu também defendo um novo modelo de regulação dos recursos da cultura flexibilizando os formatos de fomento e financiamento para os agentes da cultura viva. É preciso aprimorar os modelos atuais de editais que dificultam e até inviabilizam a realização de eventos com artistas populares. Penso numa forma de fomento direto, com supervisão, semelhante aos modelos de bolsas de pesquisa e pós-graduação da Capes e do CNPq.

Acredito que é necessário, também, a criação de uma instituição financeira específica para gerenciar os recursos da cultura. Uma financiadora que administre os contratos e investimentos dos recursos culturais aprovados por todos os órgãos e instituições vinculadas ao Ministério da Cultura.

Acha que é por meio da Lei Rouanet que definitivamente pode haver mais apoio cultural partindo da iniciativa privada ou há também outras alternativas de parcerias entre o público e o privado?

Eu creio em três modelos de fomentos. O primeiro é o fomento direto, com recurso do tesouro, que possa financiar tanto obras autorais, experimentais e de iniciantes, centrado na formação e renovação estética. Ele é também para estimular a autonomia crescente dos produtores e artistas, para que consigam a auto sustentação financeira pelo trabalho cultural. Por outro lado, os governos municipais devem ofertar espaços de exibição e mecanismo de circulação e apoiar o consumo cultural.

Defendo enfaticamente que o fomento cultural é para o estímulo à criatividade do artista e que devemos superar o preconceito que o artista não pode ganhar dinheiro com um produto cultural financiado com recursos públicos. O produto cultural é uma propriedade do artista que deve dispor dele para gerar trabalho e renda. Os artistas e os produtores devem, no entanto, oferecer contrapartidas à sociedade e disponibilizar os produtos criados como recursos educacionais abertos.

O segundo modelo é o mecanismo de renúncia fiscal, em que os apoios à arte são retirados de impostos e tributos devidos pelos empresários fomentadores. Acho que este mecanismo é importante em alguns setores, que podem ampliar os recursos públicos disponibilizados via renúncia fiscal com contrapartidas efetivas dos fomentadores. E insisto que o foco deles deve estar articulados às políticas culturais vigentes, em particular, nos municípios.

O terceiro modelo é o estímulo a outras formas de investimentos provenientes da inciativa privada, ampliando a participação destes recursos na produção cultural brasileira, sem intermediação dos governos.

O senhor também disse considerar o hábito da leitura ainda pouco difundido em Curitiba. Pensa em algo para melhorar essa questão, que certamente não é só da capital?

O hábito de leitura é pouco difundido em todo o Brasil. Temos pelo menos quatro grandes obstáculos para superar esta situação. O primeiro é que, até recentemente, as políticas de incentivo à leitura nas escolas não eram eficientes. O segundo é o preço do livro, ainda alto em relação ao poder aquisitivo da população. O terceiro corresponde ao fato de que as bibliotecas são em número insuficiente e, de forma geral, mal localizadas, dificultando o acesso dos potenciais leitores ao livros. O quarto é que as bibliotecas ainda são muito burocratizadas, exigindo cadastros, determinando o tempo de empréstimo dos livros e, em alguns casos, constrangem os leitores, publicando listas daqueles que estão em atraso.

Em Curitiba, estamos ampliando o acesso aos livros com as Estações da Leitura, que são pequenas bibliotecas em terminais de ônibus e outros pontos. Também temos as Casas de Leitura, que promovem, por ano, milhares de rodas de leituras em diversos pontos da cidade, um dos programas mais eficientes de estímulo à leitura em curso no Brasil.

Mas o grande impulso para a mudança desta situação, e que está mudando os hábitos de leitura, são as Tubotecas. Trata-se de uma ideia simples e de baixo custo, mas de alta eficiência. Colocamos livros de literatura em estantes nas estações tubo de ônibus: à altura dos olhos, ao alcance das mãos e sem nenhuma burocracia. A pessoa pode ler enquanto espera o ônibus. Se preferir, continua lendo no transporte e até em casa. Pode devolver quando quiser em qualquer uma das estações vinculadas ao projeto.

A procura pelos livros foi muito superior ao projetado e o retorno dos leitores é extraordinário. E o melhor: além de estimularmos pessoas que nunca tinham lido um único livro, que não têm poder aquisitivo, que não frequentam bibliotecas, ganhamos diversos agentes de leitura, com os novos leitores estimulando pessoas do seu convívio à leitura. Diversos dos livros retirados são repassados para outros leitores por estímulo daqueles que o leram.

Chega a ser emocionante a mobilização dos doadores de livros que fazem coletas entre amigos, em escolas e locais de trabalho. A Tuboteca poderá virar um ícone da cidade baseada na educação e no voluntariado.

Curitiba já está lendo mais. Esta é uma ótima notícia, pois a pessoa que lê mais está aberta a frequentar outras linguagens artísticas, como espetáculos musicais e cênicos, exibição de filmes, exposições de diversos tipos e proteger o patrimônio cultural .

Em Curitiba, qual a função da Fundação Cultural, já que também há uma secretaria de Cultura?

Em Curitiba, o presidente da Fundação Cultural tem o status de Secretário Municipal. O regime jurídico da fundação facilita a execução de projetos com maior flexibilidade na gestão de equipamentos, pessoal e recursos.

Acha que Maringá necessita de uma fundação cultural?

Como disse, não conheço o modelo de gestão de Maringá, mas via de regra a criação de uma fundação cultural pode facilitar a execução de projetos com maior flexibilidade. Mas é importante manter a autonomia da gestão da cultura, pois este é um requisito do Sistema Nacional de Cultura e uma necessidade política. Também é importante blindar o orçamento da cultura para que não tenha utilização em eventos religiosos, festas cívicas etc. Atividades constantemente atribuídas a cultura e que, de fato, não o são.

Por fim, se neste momento estivesse conversando com o secretário de Cultura de Maringá, quais conselhos o atual presidente da FCC daria a ele para que seja possível na cidade uma melhora no setor?

Conheci o Jovi Barboza rapidamente num evento em Curitiba. Eu não teria conselho para ele. Mas gostaria muito de encontrá-lo para trocarmos experiências e discutirmos algumas parcerias.

*Parte desta entrevista foi publicada na edição impressa desta quinta-feira (16), no D+, do Diário de Maringá

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Vivemos na era do Datena

 É melhor ter um gato do que ter macacos em casa. Acordei aliviado de sonhos intranquilos e mais calmo fiquei quando percebi que estava de volta à vida real – com um gato miando no quarto pela manhã e não com macaquinhos ligeiros rodeando meu pescoço. Foi ruim a sensação de traição: o dono sendo atacado pelo bicho de estimação. No sonho o macaco, de um salto (quanta habilidade!), vai do chão direto para a minha cara e morde meu nariz. Doeu pra caramba, pelo menos em sonho. Se alguém quer uma dica para a jogatina ilegal diária: é macaco na cabeça!

Tenho visto muitos ataques sanguinolentos, e talvez isso tenha me impressionado. O vídeo em que mostra um pitbull quase arrancando o braço inteiro do dono, em uma batalha utópica entre o senhor e o cão em um chão de quintal que mais parece uma piscina de sangue, é forte. Vivemos na era do Datena: “ibagens, ibagens, me dá ibagens”. Todos querem fazer uma imagem, uma foto, um vídeo, ser o cidadão-repórter.

Lá no jornal recebemos diariamente informações importantes e que rendem reportagens vindas de pessoas que, com uma boa vontade inexplicável, perdem alguns minutos do seu dia para dedurar um cara que deixou animais soltos na pista ou então pedindo email para mandar as fotos que ele, bravamente, conseguiu capturar de um acidente de trânsito. E tudo isso é muito bacana.

O que me revolta, nessa história toda envolvendo sangue, cachorros, macacos e “ibagens” é a falta de ética do marceneiro, ou seja a boa e velha ética que todos deveríamos ter. Gostaria de saber se o autor do vídeo sanguinário mostrando o pitbull (com sede de vingança ou seguindo um instinto animal?) moendo o velho dono recebeu um realzinho sequer pelas inéditas e sensacionais imagens produzidas. Isso me fez lembrar a história do fotógrafo chinês que, para conseguir uma foto de um ciclista se acidentando, deixa camuflada uma cratera que há na pista e se posiciona para não perder o instante ideal do clique flagrante.

Por ter entrevistado a mulher do senhor que quase perdeu o braço com o ataque do cão e também uma vizinha, que aparece no vídeo desesperada tentando fazer alguma coisa, posso confirmar aos leitores que o autor do vídeo ganhou, pelo menos, a antipatia de muita gente, inclusive a minha. Segundo relato dos envolvidos, o cara simplesmente ignorou todos os pedidos, todas as súplicas, todas as clemências, para que fizesse algo de produtivo e que pudesse quem sabe coibir o ataque voraz daquele cão.

Ao contrário, o sujeito, que inclusive mereceria um emprego no Datena (as “ibagens” dele nem tremem em meio àquele desespero todo), faz questão de permanecer ali para não perder um detalhe sequer daquele “fato”. Obviamente que ninguém estava pedindo para ele dar uma de Super-Homem e ter se achegado no ringue empoçado de sangue para iniciar uma “vias de fato” com o dog. Era só ter tentado ajudar, sei lá como: correndo atrás de uma faca, ligando no 190, fazendo uma oração ou pelo menos chamando o cachorro “vem, vem, vem, vem, cãozinho, vem, vem, vem”. Nem isso. Macacos me mordam viu!

*Crônica publicada dia desses no D+ – caderno de cultura do Diário de Maringá.

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Pior do que o Santos só mesmo a transmissão

Fazia tempo que eu não presenciava uma fase tão ruim como a do Santos neste Campeonato Brasileiro. Tirando o Borges, todos do time ainda não voltaram de uma ressaca que parece ser eterna após título da Libertadores.

No entanto, ontem, tendo de assistir ao jogo em um canal da televisão aberta, conclui que só existe, atualmente, algumas coisas piores do que o Santos: a transmissão, a narração e os comentários esportivos daquele canal.

O locutor do jogo é cego, só pode. Conseguiu confundir o Durval com o Léo. Além de jamais ter citado o Arouca no jogo, sempre dizendo que era o Borges. Sem falar no descarado bairrismo curitibano, com comemorações efusivas nos gols do Coxa, tratamento diferente dado nos outros dois gols da partida, marcados pelo único em campo do lado do Santos, o Borges.

Os caras que controlam as marcações dos gols também estavam perdidos. Em determinado momento, em vez de computar no marcador o placar de 1 a 1, computaram equivocadamente um 2 a 0 para o Peixe, o que seria bom, mas não ocorreu. O erro permaneceu na tela por quase dois minutos.

Também no começo da partida, em vez de disponibilizarem a imagem do jogo, talvez distraídos os caras da edição preferiram deixar rolando na telinha a imagem de duas torcedoras no estádio. Por que, afinal, insistem tanto em filmar os torcedores no meio da partida? Qualquer dia desses vão deixar de transmitir um gol.

Reflexão santista

Ontem à noite foi um show de horrores a partida. Além da péssima atuação da transmissão e da lamentável falta de interesse do Santos em jogar bola, o afobado Pará e o estranho Edu Dracena conseguiram ser expulsos. A impressão que fica é que os jogadores do Santos estão loucos por folgas, por dispensas, por descanso.

Descanso até que mereciam mesmo. O Santos é o time que mais jogou no Brasil este ano. São 52 partidas contra, por exemplo, apenas 30 do Corinthians, que, sendo um participante de luxo do Brasileirão, foi eliminado na Pré-Libertadores e não participou da Copa do Brasil, tampouco da Sul-Americana. O Peixe, ao contrário, jogou todas as partidas do Paulistão (derrotando o Corinthians na final) e da Libertadores da América, conquistando os dois campeonatos.

Muricy Ramalho, apático e teimoso como um asno, prefere continuar com o cinismo e com os coices. Talvez fosse melhor admitir que seu time não está jogando nada e que ele parece não conseguir manter a ordem de jogadores como o Neymar, por exemplo, que tem demonstrado ainda pequenos resquícios daquele moleque mimado que acabou destruindo a carreira de Dorival Jr. no Peixe. Ainda assim, o menino do moicano mais feio do mundo é um dos poucos que corre em campo e que busca a vitória. Parece mesmo ser o único a torcer pelo Santos e não apenas estar ali por causa de salário.

Não sei qual o clima nos corredores da Vila Belmiro e do CT Rei Pelé. Sei apenas é que passou da hora de haver reuniões, comunicados e até punições diante das atitudes da maioria dos atletas do time, que não têm honrado com os bons salários que recebem para vestir o glorioso manto sagrado do Santos Futebol Clube.

Para alguns atletas, inclusive, talvez esteja faltando, mais do que multas e puxões de orelha, alguns remédios combatendo anemia ou fadiga. Paulo Henrique Lima, o Ganso, deve estar com alguma doença grave, pois não tem forças em campo.

Arouca, talvez cansado de ser ignorado por Mano Menezes na Seleção Brasileira, permitiu-se jogar de maneira mediana, não conseguindo concluir metade das jogadas que faz. Rafael está atrasado uns três, quatro segundos no gol. Léo demonstra uma necessidade de aposentadoria imediata. E o contratado Henrique perdeu a noção do que é jogar futebol, mas tem a desculpa de estar fora de forma.

Não ficará bonito aos atletas irem para o Japão jogar o Mundial Interclubes sabendo que levaram um dos últimos times grandes do Brasil ao rebaixamento do nacional. E não pegará nada bem ter de disputar a segunda divisão justamente no ano do centenário do alvinegro da Vila Belmiro. É hora de refletir, Santos!

Nessas horas tem feito falta a figura do presidente do clube, o Luis Alvaro Ribeiro, com algum posicionamento perante os maus resultados. E faz falta também uma torcida mais atuante e chata, que deve cobrar de todos daquele grupo um respeito maior com a camisa do time que mais fez gols no mundo, do time que o rei do futebol o tornou conhecido mundialmente, do time que é oito vezes campeão nacional, tri-campeão da América e que busca a terceira estrela mundial no fim deste ano.

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Viaje na maionese

Feliz é o homem que viaja. Alegria deviam estar sentindo aqueles que lotaram o terminal rodoviário ontem (veja em reportagem da jornalista Rosângela Gris) e se adentraram nos grandes e confortáveis ônibus rumo a não sei onde. Poderiam estar visitando a mãe, moradora de São Paulo, que não viam desde o Natal; ou talvez a namorada, que mora em Curitiba; ou, ainda, quem sabe, simplesmente dando um pulo em Campinas ou em Ribeirão Preto para curtir o feriado prolongado.

Na reportagem, a jornalista me conta que os destinos mais procurados pelos maringaenses são justamente os quatro citados acima e que, por causa do intenso movimento de ontem, foi preciso disponibilizar mais 23 carros extras. Feliz é o homem que viaja.

Depois de uma viagem, é bem certo que a gente volta mais leve. A carteira fica mais leve também, é verdade, o dinheiro some, o cartão de crédito estoura, mas, na realidade, pouco importa para nós. O que a gente quer mesmo é viajar, distrair a cabeça, esquecer o trampo, a faculdade, a rotina, desligar-se.

Em feriados prolongados, o pessoal acessa menos a internet, confere menos as caixas de email, liga menos a TV, ouve menos a rádio que só toca notícia e aproveita para curtir as pessoas que estão ao seu redor, seja viajando ou não.

Mas se você está na mesma situação que este pobre cronista, que só queria (não pode porque tem de trabalhar amanhã) poder pegar um busão daqueles na rodoviária e chegar na grande São Paulo, dar um abraço na sobrinha, na irmã, no cunhado, nos amigos, nos tios e curtir a vida numa boa, pelo menos tente viajar no lugar em que estiver. Viaje na maionese mesmo!

Explico: em vez de ficar a tarde toda se preocupando com o dia de amanhã, com a poeira da casa ou com as contas espalhadas em cima da mesa, aproveite este feriado e olhe com mais atenção as flores do seu jardim, visite o parquinho do seu prédio só para ver o sorriso sincero das crianças, caminhe no bosque sem se esquecer de dar aquela respirada forte para sentir o cheiro do mato, pegue aquela máquina digital e fotografe qualquer coisa, pode ser o seu pé, surpreenda seu parceiro ou parceira e, em vez de esperar que ela (e) faça a comida, chegue com uma caixinha de comida chinesa, coloque aquele filme asiático no dvd e tente aprender a respeitar culturas diferentes etc.

Enfim. Sei lá. Viaje aí na maionese do jeito que achar melhor, só não se esqueça do quanto é importante para nós sabermos aproveitar o nosso tempo de maneira prazerosa e feliz. A vida passa rápido demais. E feliz é o homem que viaja.

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