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Uvas de John Fante

"A Irmandade da Uva", último livro de John Fante publicado no País, foi lançado originalmente em 1977

“A Irmandade da Uva”, último livro de John Fante publicado no País, foi lançado originalmente em 1977

Por Wilame Prado

Em 2012, fez 80 anos que o escritor norte-americano John Fante (1909-1983) publicou seu primeiro conto na revista The American Mercury. E a comemoração veio em forma de livro: a José Olympio Editora publicou, em 2013, o romance “A Irmandade da Uva”, lançado originalmente em 1977 por Fante.

No romance, o personagem Henry Molise, 50 anos, escritor de sucesso, retorna à casa da família para ajudar com o mais recente drama dos pais já idosos: um divórcio. O pai de Henry, tirânico e alcoólatra, ainda desperta o medo em seus filhos, todos já na faixa dos 50 anos. A mãe, doente e devota ao catolicismo, tenta sempre amenizar as situações dramáticas dentro do lar, consolando e até confundindo os filhos.

Costumeiramente revelando uma ponta autobiográfica em seus livros, os seguidores de Fante podem perceber que, em mais esta obra, o escritor continua com as premissas sempre requisitadas e que tanto encantam aos leitores: a vida de quem sai do lar extremamente tradicional e católico para tentar ser escritor, dramas de família, as dificuldades de imigrantes e descendentes italianos nos Estados Unidos, o vinho tomado além da conta, o poder e os questionamentos sobre religião e as manifestações de amor que, para o escritor, ainda resta nas pessoas.

Os finais dos livros de Fante costumam ser tocantes, sempre com uma espécie de salvação oferecida ao errante ser humano.

Mais de Fante
Atualmente, os fãs aqui do Brasil têm em mãos oito obras traduzidas de Fante. Pela José Olympio Editora, o penúltimo livro lançado foi a coletânea de contos “O Vinho da Juventude”, lançado originalmente nos Estados Unidos em 1985 e que chegou traduzido em 2010 nas livrarias do Brasil.

A mesma editora também já lançou “O caminho de Los Angeles”, “Espere a primavera, Bandini” e “Pergunte ao Pó”. Do autor, a editora L&PM Editores lançou por aqui “Sonhos de Bunker Hill” e “1933 foi um ano ruim”.

“A Oeste de Roma”, livro lançado em 1990 pela Editora Brasiliense com duas novelas, é também outra alternativa traduzida no País. O problema é encontrar o livro, esgotado nas livrarias e hoje considerado artigo de luxo em sebos.

A distância que me separava de Oeste de Roma
John Fante que me perdoe, mas faltou-me grana para pagar mais de R$ 40 por “A Oeste de Roma” (Editora Brasiliense, 180 páginas) usado em um dos poucos sebos que ainda têm o exemplar. Para os fãs ardorosos, pode ser a única alternativa. Para quem tem o dinheiro, vale cada centavo investido naquela que considero uma das melhores obras escritas por ele.

Mas tive sorte na busca pela leitura obrigatória de “A Oeste de Roma”. Digo obrigatória porque era o último livro que me faltava para finalizar a leitura de todas as obras de Fante já traduzidas no País. Precisava consumir aquelas páginas tal qual uma criança diz precisar do doce, do brinquedo.

Minha sorte veio em nome de uma até então desconhecida moradora de Osasco-SP. Na busca ensandecida pelo livro, cheguei ao ponto de digitar o nome da obra na rede social de literatura Skoob e comecei a perguntar para cada um que afirmava ter o exemplar se poderia me emprestar a obra.

Claro, muitos ignoraram ou disseram não para o fã louco de Fante. Menos Priscila Costa, que me respondeu: “Será um prazer te emprestar o livro. Passe os dados para que eu possa te enviar via correio”. Antes, porém, de me enviar o seu raro “A Oeste de Roma”, a simpática garota, hoje minha amiga virtual, sugeriu me mandar também uma caixa de lenços tamanha era minha emoção ao agradecer o empréstimo.

Em “Meu Cão Estúpido” – uma das duas novelas do livro, Fante parece estar mais maduro do que em qualquer outro relato. Ele descreve com maestria e de maneira irônica as situações envolvendo uma família típica da Califórnia que se vê diante de um problema quando, sem explicações, um cachorro estúpido, preguiçoso e com hábitos sexuais constrangedores passa a morar em seu quintal.

O cachorro, no texto, acaba mesmo ficando em segundo plano. O que fica evidente é a maneira que Fante enxergava a mediocridade que reina os hábitos familiares de filhos mesquinhos, mimados e folgados, mulheres consumistas e histéricas e homens sempre levemente alcoolizados em uma vida que, às vezes, só mesmo a presença de um inocente bicho de estimação parece dar um pouco de paz de espírito em um lar.

Em “A Orgia”, a outra novela do livro, Fante retoma as velhas questões familiares e autobiográficas de um menino que vive no dilema entre a mãe fervorosamente católica e o pai, que, ainda que trabalhador, acompanhado de um amigo, vai atrás de mulheres e bebidas. Outra texto imperdível de Fante.

É por essas e outras que só tenho a agradecer por tudo o que Fante já escreveu e, claro, à amiga Priscila Costa, que, sabendo do tamanho do valor da literatura feita pelo criador do eterno Arturo Bandini, reconheceu a importância de se propagar isso tudo emprestando um raro e ótimo livro para mim.

*Parte de reportagem publicada em 10 de junho de 2012 no extinto caderno D+, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Cantadas e cantadas

Por Wilame Prado

Seria só mais um dia como outro qualquer, pensava Laura de olhos fechados, mas já acordada, em sua cama de casal. O marido ainda roncava, a pequena sonhava no quarto ao lado e o gato nem havia dado o primeiro sinal de fome. Ou seja: não passava das 5h30 da manhã. Levantou e foi adiantar um trabalho no computador. Antes de começar a ler alguns relatórios da firma, permitiu-se navegar em redes sociais e sites de notícias. E logo percebeu uma agitação feminina a respeito de uma pesquisa apontando que 99,6% das quase oito mil mulheres participantes já tinham recebido “cantadas” em lugares públicos, na rua, transporte público, no trabalho e na balada. Tentou mas não conseguiu se recordar da última vez em que isso ocorrera com ela, motivo mais que suficiente para que não risse das piadas comumente contadas no café da manhã por seu marido e toda sua disposição recorrente após banho quente.

“Você me acha gostosa?”, perguntou a ele antes de acordar a filha, que logo mais teria colégio. “Claro, você é linda, meu amor. Mas prefiro você sem esse pijama”, respondeu o marido, insistindo no humor matinal. “Você paquera as meninas na rua? Tipo, dá aquele assovio escroto, chama de linda, gostosa, delícia, princesa ou fala aquela frase meio sem nexo: ‘ô, lá em casa!’?”. Desconfiado da desconfiança, as piadas dele cessaram. “Acho ridículo isso! Quero só ver quando a Maria Eduarda for mocinha, ai daquele que vier com gracinha pra cima dela.” Beijo seco, tchau e bom trabalho.

Laura estava enfurecida! Além de não se lembrar da última vez em que recebeu uma constrangedora cantada, concluiu que o ciúme de pai já era maior do que ciúme de marido em sua casa. Ela tinha adorado a pesquisa sobre cantadas e também a campanha “Chega de Fiu-Fiu”. Os argumentos eram corretíssimos: tudo começa no básico constrangimento do assovio, mas pode terminar em um assédio maior, em uma perseguição, na calada da noite, na penumbra, um estupro! Mas ler sobre o assunto havia sido mesmo um golpe indigesto no ego.

No bate-papo do Facebook, não sabia explicar direito seus sentimentos para uma amiga solteira, linda, desimpedida e acostumada com as babaquices masculinas no meio da rua. Recordou-se da última cantada narrada por ela, que mesclava o clichê da construção civil com letras nem sempre criativas do funk carioca. Após sair do carro, contou a amiga, um grupo de pedreiros, do alto do primeiro andar de um prédio em construção, cantou a uma só voz o hit: “Ela não anda, ela desfila…”. “Que falta de criatividade”, refletiu bem Laura, rindo sozinha ao imaginar a amiga em apuros, no meio da rua, em meio a serenatas ao som de Mc Bola. Já estava mais aliviada, no horário do almoço, a ponto de querer ligar para o marido só para ouvir a sua voz irritadiça em meio ao estresse do trabalho, fazer piadinhas (era a vez dela de ser engraçadona) e anunciar que vestiria aquela lingerie para ele tirá-la, à noite.

Ao fim do dia, no percurso entre a empresa e o carro estacionado, passou por uma construção civil que se despedia de trabalhadores indo com suas bicicletas sentido ao lar, por uma lanchonete que vende espetinhos já com bebedores de cerveja a postos e ainda por uma padaria com senhores ancorados no balcão sorvendo talvez o último cafezinho daquele dia. Deixou, de propósito, seu olhar penetrante de bela mulher esclarecida e confiante cruzar com os de jovens mais novos, rapazes da sua idade e senhores de mais idade. Todos, sem exceção, recepcionaram o olhar matador e se encantaram com o par de olhos amendoados de Laura.

Alguns sorriram um sorriso safado e se sentiram mais confiantes e belos que nunca; outros se avexaram, baixaram a cabeça e não suportaram a troca de olhares por mais que três segundos, levando, tímidos, uma espécie de troféu para a casa. Nesse meio tempo, um rapaz mais desbocado ia ensaiando uma cantada para ela, mas ficou sem palavras com o golpe do olhar e com a beleza que qualquer mulher tem quando olha firme, sorri confiante e continua “desfilando” certeira até o seu destino.

Laura não recomenda para nenhuma mulher a atitude que resolveu tomar naquele dia atípico, em que um ego bipolar mexeu com seus sentimentos a partir do momento em que leu a notícia sobre cantadas. Mas foi bom para ela tudo aquilo que aconteceu: teve certeza de que só não se lembrou da última cantada recebida pelo simples fato de não considerá-la importante em seu dia a dia. Em sua vida, concluiu, não caberia espaço para as cantadas; ocupa-se demais adorando os desafios profissionais e amando aqueles que estão próximos.

E no anoitecer, com a pequena já sonhando no quarto ao lado, com o gato já não dando sinal qualquer de fome e o marido quase querendo iniciar o ronco dos justos, Laura pôs a lingerie, reanimou-o e só se deixou entregar para o amor com uma promessa: a de que, na intimidade do casal, falando baixinho em seu ouvido, ele direcionaria, até o fim da vida dos dois, as cantadas mais sujas e sacanas possíveis que ele conseguisse imaginar.

*Conto publicado nesta terça-feira (1º) na coluna Crônico do D+, caderno do Diário de Maringá

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O pai, o filho, a moça e o camaro amarelo*

Por Leandro Veras*

Um rapaz, cuja idade não foi divulgada, está andando pela cidade e tirando a maior onda com um carrão de duzentos mil reais que comprou recentemente só para impressionar uma moça que, aparentemente, não queria nada com ele até bem pouco tempo atrás. Segundo pudemos apurar, a moça teria desprezado o coitado só porque ele andava com uma CG Titan, provavelmente de 125 cilindradas, que não chama a atenção de ninguém (exceto de alguns trombadinhas).

Agora, o que impressiona mesmo nessa história, é como ele ganhou o dinheiro para comprar o carrão. De acordo com as palavras do próprio rapaz: “Aí veio a herança do meu ‘véio’,/ Resolveu os meus problemas, minha situação/ E do dia pra noite fiquei rico/ Tô na grife, tô bonito/ Tô andando igual patrão.”

Como podemos ver, o pai dele MORREU e o insensato em vez de ter ficado triste com isso, não, se apressou logo em, “do dia pra noite”, meter a mão na grana do “véio” (que talvez tenha batalhado a vida inteira para construir um patrimônio).

Mas a história não termina aí e é cheia de mistérios.

Primeiro, não sabemos se o “véio” morreu de fato ou se apenas adiantou a herança para o filho, como naquela história bíblica. Segundo, por que será que um sujeito cheio da grana (afinal, não é qualquer um que deixa ou adianta uma herança dessas para um filho) permitia que o seu moleque andasse por aí de CG? Por que será que ele não dava logo uma Kawasaki pro garoto tirar onda com as “mina”? Ou quem sabe uma Hayabusa? Certamente a moça não o teria esnobado!

Temos algumas hipóteses: como vimos, o “véio” até podia bancar a vida boa do filho, mas não o fazia. Por quê? Talvez porque esse pai fosse daquele tipo de empresário de classe média que saiu de baixo, comeu o pão que o diabo amassou, lutou, batalhou 10, 12, 16 horas por dia para construir seu patrimônio e não concordava com o estilo de vida do filho. Aliás, é isso que nos faz crer que o “véio” tenha mesmo batido as botas.

E que estilo de vida seria esse? Ao que tudo indica, o moleque é um desses boyzinhos mauricinhos, mimados pela mãe, que não tem nada na cabeça e não faz a menor ideia do que seja dar valor ao trabalho (muito menos o trabalho dos outros!). Afinal, que ideia podemos fazer de um sujeito que anda por aí dizendo coisas do tipo:

“Agora eu fiquei doce, doce, doce, doce/ Agora eu fiquei dododododoce, doce [2x]/ Agora eu fiquei doce igual caramelo/ Tô tirando onda de camaro amarelo/ Agora você diz: ‘Vem cá que eu te quero!’ Quando eu passo no camaro amarelo”?

É possível também que o pai fosse um tirano malvado, desses que fazem questão de que o filho assuma os negócios da família enquanto o garoto quer tocar violão e passear de moto com a namorada, sentindo o vento na cara como forma de liberdade. Daí viria, então, sua rebeldia, só para contrariar o “véio”.

Mas isso são só conjecturas que não encontram respaldo no relato conhecido e difundido pela mídia.

Também não podemos esquecer da tal moça. Considerando as palavras do rapaz, e é só com base nisso que podemos afirmar qualquer coisa (como, aliás, aconteceu com aquela Capitu), ela não passa de uma interesseira esperando algum novo rico para dar o bote. Senão, “Quando eu passava por você na minha CG/ Você nem me olhava/ Fazia de tudo pra me ver, pra me perceber/ Mas nem me olhava”

Hoje, após a provável morte do pai e o lance da herança e do carrão, nos conta o “Sr. agora eu fiquei doce” a respeito da moça: “Agora você vem, né?/ E agora você quer, né?/ Só que agora vou escolher, ta sobrando mulher.”

Mas ela se deu mal! É óbvio que o rapaz não ia querer compromisso agora que “tá sobrando mulher”.

A história ficou famosa, mas parece que ninguém ainda se deu conta dos detalhes absurdos (e sórdidos, inclusive, podemos afirmar) nos meandros deste enredo aparentemente tão leve e inocente.

*O texto de Leandro Veras foi publicado no D+, caderno do Diário de Maringá, em 7 de julho de 2013

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Escritor Rodrigo Lacerda faz bate-papo hoje em Maringá

Escritor Rodrigo Lacerda, ano passado, em bate-papo com Luis Henrique Pellanda no Paiol Literário, em Curitiba (Foto de Matheus Dias)

Por Wilame Prado

Com o bate-papo do escritor carioca radicado em São Paulo Rodrigo Lacerda, 44 anos, marcado para hoje, às 20h, o Sesc encerra o ciclo com escritores convidados do projeto Autores & Ideias. Próximos encontros acontecerão só no ano que vem. Além de Lacerda, este ano vieram à cidade falar sobre literatura o cronista e biógrafo Humberto Werneck e o autor de livros infantis Ilan Brenman.

Neto de Carlos Lacerda (jornalista, governador do antigo Estado da Guanabara e criador da editora Nova Fronteira morto em 1977), Rodrigo Lacerda passou toda a infância rodeada por livros e gente que trabalhava com livros na editora. Mas isso nem sempre estimula as pessoas da família a ambicionarem a carreiras das letras. “Tenho muitos primos e uma irmã que nasceram no mesmo meio familiar e cultural que eu e não deram para isso. Foram ganhar sua vida de outro jeito”, conta Lacerda, em entrevista para O Diário.

No caso dele, a timidez, o medo da morte e a dificuldade em arrumar uma namorada foram fatores mais determinantes na hora de sonhar em ser escritor do que propriamente o trabalho familiar com a editora.

No bate-papo de logo mais, cujo tema é “Um Caminho Para os Novos Leitores”, Lacerda fala sobre esses possíveis caminhos, formação de leitor de ficção e possibilidades fora da escola relacionadas à literatura. Sobre isso, carreira, cenário atual da literatura e muito mais o autor do premiado “O Mistério do Leão Rampante” (Ateliê Editorial, 156 páginas, 1995) conversou com a reportagem. Leia a entrevista:

O tema dos Autores & Ideias em que participará aqui em Maringá é “Um Caminho Para os Novos Leitores”. Que caminho é este, Rodrigo?

RODRIGO LACERDA – Acho que é o caminho da persistência, não desistir nunca é a chave. Tudo irá conspirar contra a carreira de escritor: a falta de tempo, de dinheiro, a incompreensão da crítica (na maioria das vezes), a necessidade de ter outro trabalho até se firmar (ou mesmo depois), a solidão inerente ao processo de escrita etc. Então, para vencer tudo isso, você precisa ter uma necessidade interna imensa de escrever. Na verdade, escrever não deve ser uma opção, mas uma condição.

Replico aqui as perguntas do texto de apresentação do projeto: “o que uma formação mais sólida de leitor de ficção e poesia poderia oferecer aos brasileiros adultos, não importa de que área?” “E fora da escola, que caminho os leitores podem seguir?”

O que as artes, não só a literatura, têm a oferecer é algo fundamental para todos, não só para estudantes da área. Pois diz respeito à capacidade de ver o mundo por outros olhos, de educar seus sentimentos para enxergar o outro, e isso afetará sua vida em todos os níveis, pessoal, familiar, profissional e como cidadão. Como falar de política, por exemplo, se você não enxerga o outro, se você acha que a sua razão se sobrepõe a todas as outras? Como ser um irmão melhor, um filho melhor, um marido melhor, sem treinar sua consciência para lidar com realidades paralelas?

O que pensa sobre os Autores & Ideias? Antes de Maringá, irá ter visitado quais cidades? Particularmente, curte essa aproximação com o público leitor?

Gosto muito de fazer essas viagens. É uma chance de sair do escritório e encontrar os leitores, de quebrar a solidão de que já falei. E o Paraná despontou nos últimos anos como polo literário importante, com grandes programas de apoio à leitura, com o melhor jornal literário do Brasil, o Rascunho, com pessoas que realmente estão fazendo a diferença nessa área. Então, além de um prazer, torna-se quase uma obrigação participar e, na medida do meu possível, ajudar.

Ainda sobre o tal caminho para os novos leitores, devo considerar ter sido fácil o seu caminho nas letras, já que veio de uma família cujo negócio era uma grande editora de livros?

Na verdade, ser de uma família ligada ao mundo editorial foi um elemento a mais a me aproximar da literatura, mas não sei se foi o determinante. Tenho muitos primos e uma irmã que nasceram no mesmo meio familiar e cultural que eu e não deram para isso. Foram ganhar sua vida de outro jeito. E quando publiquei meu primeiro livro, não publiquei pela editora da família. Já estava morando em São Paulo, e não no Rio de Janeiro, onde nasci, e estava justamente afastado da empresa familiar, embora continuasse trabalhando no meio editorial. Os elementos determinantes, que realmente plantaram em mim, lá pelos 13/14 anos, o desejo de ser escritor, foram: 1) a timidez e a dificuldade de arrumar uma namorada; 2) o medo de morrer e não deixar nada para trás.

E para os brasileirinhos filhos de analfabetos ou de analfabetos funcionais, cuja leitura de ficção nunca foi hábito, em casas onde o único livro encontrado muitas vezes se resume a uma Bíblia Sagrada?

Tenho um colega escritor, e amigo, Ronaldo Correia de Brito, que era exatamente essa pessoa. O filho de uma família muito humilde de camponeses, que tinha apenas a Bíblia em casa. E o escritor sobre o qual fiz minha tese de doutorado, o João Antônio, também foi eleito pela família para ler a Bíblia todas as noites, com a família a sua volta. E os dois viraram escritores maravilhosos. Convenhamos, a Bíblia, do ponto de vista literário, é um livro tão bom, tão cheio de histórias, de variações estilísticas, que é certamente um excelente começo para qualquer escritor. Se você, além da opção de ser escritor, “sofre” a condição, os parcos recursos culturais da sua família serão tanto um obstáculo quanto um estímulo.

Sinceramente falando, alguma vez já sentiu estar sendo superestimado pelo fato de ser de uma família conhecida, principalmente no meio literário?

Nunca, até porque, nunca tive tanto sucesso assim. Ganhei alguns prêmios, é verdade, mas não tenho grande adesão da crítica ao meu trabalho. Sou visto como um escritor que, na melhor das hipóteses, renova a tradição, mas não como um inventor de algo novo. Do ponto de vista do público, meu livro que mais vendeu, afora adoções em escola, vendeu por volta de 10 mil exemplares, o que não é tanto. Sendo assim, sinto-me na verdade subestimado! Eu acho que mereço muito mais! (risos)

Salvo engano, seu penúltimo livro foi publicado originalmente em 2008. “O Fazedor de Velhos” continuou ganhando reimpressões até o ano passado. Por que resolveu publicar literatura infantojuvenil?

Eu estava escrevendo outro romance, adulto, chamado “Outra Vida”, e estava tendo muita dificuldade para continuar. Tinha a impressão de que havia começado uma história que não sabia como acabar. Então resolvi fazer um livro leve, para minha filha, que tinha então 12 anos. Um livro que eu escrevesse sem pressão, sem planos, sem uma história pronta, improvisando a cada passo. Saiu o “Fazedor de Velhos”, meu livro mais bem sucedido comercialmente falando, e talvez literariamente. A decisão de escrevê-lo, portanto, tinha um caráter recreativo. Além disso, eu queria transmitir à minha filha algumas das coisas que eu pensava da vida, mas sem soar professoral, fazendo com que as emoções dela a levassem às mesmas conclusões que eu. E uma boa história é a melhor maneira de fazer isso.

“Outra Vida”, de 2009, também é romance premiado e sua última obra. Tem algo na manga? De repente, o livro sobre política e que pesquisou a história de seu avô, o Carlos Lacerda? O que pode me contar sobre sua última obra?

O que posso contar é que acabei! Entreguei na editora e dei a umas pessoas próximas para que lessem. Estou recolhendo suas impressões para depois fazer a versão definitiva. Posso dizer também que o livro deixou de ser apenas sobre o meu avô. Vi que o pai dele também era político, e os dois tios, e o avô dele. Então o livro virou algo maior, que vem do período imperial até 1954, com a história do Brasil sendo contada pelos olhos de três gerações de políticos de uma mesma família. Acho que ficou legal.

Como analisa essa sua bela biografia literária, começando bem com um “O Mistério do Leão Rampante” vencedor do Jabuti e um “Outra Vida” vencedor de prêmio na Academia Brasileira de Letras?

Como eu disse, não tenho de mim essa impressão de alguém tão bem sucedido. Vocês estão sendo generosos demais comigo. Encaro esses prêmios como incentivos para continuar a melhorar, a ampliar meus recursos literários, a expandir minha sensibilidade, a me despojar de minhas travações, e assim fazer melhor na próxima vez. Quando rendem algum dinheiro, são uma garantia de que o próximo livro poderá existir, o que é bom. Acabo de acabar o romance sobre os políticos da família e já estou pensando num livro de contos que tenho começado. Sempre estou com a cabeça no próximo livro.

O que tem feito ultimamente da vida? Pode se dedicar apenas ao ato de escrever ficção ou tem outras atividades, ainda que, de repente, envolvida com a literatura?

Já houve o tempo em que eu tinha uma relação de amor e ódio com minhas outras atividades além da literária, sobretudo com minha atividade como editor. Hoje gosto de atuar em mais de uma frente: sou escritor, tradutor e editor. Vivo do que ganho como editor, e portanto essa é minha atividade cotidiana, mais regular que a literatura, até. Trabalho na editora Zahar, onde encontrei o ambiente de trabalho ideal, cheio de amizade, transparência, respeito e admiração mútua. Custou, mas encontrei uma editora onde estou totalmente feliz. E olha que eu rodei, passando pela Nova Aguilar, Nova Fronteira, Edusp, CosacNaify e Mameluco. Em todas tive ótimas experiências, mas só na Zahar a química foi perfeita.

Na apresentação d´“O Mistério do Leão Rampante”, João Ubaldo Ribeiro disse que você chegaria onde quisesse na literatura porque tinha amor pelas palavras, um deleite em escrever. Como é a sua relação com as palavras, digo, com a leitura de palavras e com a produção de palavras. Revele ao nosso leitor, por gentileza, alguns de seus hábitos de leitura e também de produção literária.

Meus hábitos de leitura são caóticos. Por causa do trabalho na editora, leio predominantemente livros de não-ficção, de todos os tipos e sabores. E muitas vezes leio-os pela metade, pois se já não gostei devo aproveitar ao máximo meu tempo para ler os que estão na fila. Fora isso, tento ler literatura, mas acabo lendo tudo aos pedaços também, por falta de tempo. Meus livros, enquanto estão sendo escritos, passam por centenas de releituras, e mexo neles até o último minuto, o que é bastante cansativo. Quando chego no fim do dia, como tenho dupla jornada, como editor e escritor, acabo preferindo um filmezinho na TV.

Quando estreou na literatura, com muito êxito, diga-se de passagem, tinha só 26 anos. Olhando para trás, teria feito tudo exatamente igual, esperaria um pouco mais para lançar? Enfim, o que tem a dizer para os jovens que estão lotando suas pastas de arquivos de computador com contos, romances, poesias. Em Maringá há um monte deles.

Quando eu lancei o primeiro livro, minha vontade era reencarnar um Balzac ou um Jorge Amado, e sair publicando dez, vinte, trinta romances. Ter uma obra imensa, mesmo que nem tudo fosse bom. Mas fui vendo que o meu ritmo de vida e o meu nível de perfeccionismo não me encaminhava para isso, e sim para um ritmo mais lento de publicação. Se tenho algum conselho a dar é que a publicação do livro não deve ser apressada. Mas ele deve ser lido por aquelas pessoas cuja opinião são importantes para você, para que você possa aprimorá-lo. Quando esse trabalho de aperfeiçoamento estiver avançado (terminado nunca está), o livro encontrará um caminho para ser publicado.

Por falar em Maringá, já conhece a cidade ou será a primeira vez? Tenho a honra de informar, se já não sabe, que temos o atual vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2012/2013 na categoria Romance, o meu amigo Marcos Peres, também muito jovem, e temos o atual vencedor do Prêmio Jabuti na Categoria Romance, o professor e escritor Oscar Nakasato (vencedor do Prêmio Benvirá, da Saraiva com o mesmo livro), que nasceu aqui mas se radicou em Apucarana (65 quilômetros distantes).

Já ouvi muito falar de Maringá, sobretudo quando fiz a tese de doutorado, pois o João Antônio morou no Paraná, onde foi um dos editores do jornal Panorama, nos anos 70, e ele tem textos sobre Maringá. Também tenho uma grande amiga que mora perto, e acompanho sua vida. Não sabia dessa concentração de premiados por aí, mas espero poder conhecê-los.

Última de Maringá: No Paiol Literário, em 2012, afirmou: “escolhi São Paulo para morar, mas adoraria morar no Rio, em Curitiba, Londres, Paris, Berlim”. Maringá seria muito pequeno para um grande escritor como você? O que pensa sobre os eixos imaginários Rio-SP no que tange à literatura e escritores?

Na verdade, meu sonho é morar numa fazenda, ou num sítio próximo a uma cidade de porte médio. Odeio os grandes centros. Mas como preciso trabalhar para viver, e como 99% das editoras, no Brasil, estão concentradas no eixo Rio-São Paulo, estou condenado a ficar ou numa ou na outra cidade. Se a prefeitura de Maringá quiser me dar uma bolsa para eu ir morar aí, faço as malas hoje mesmo!

Para o Paiol Literário, disse que tentava seguir uma linha de João Ubaldo, com erudição e humor. Continua sendo a sua grande referência para escrever, além de Eça, Faulkner e Shakespeare? Ou, de lá para cá, descobriu outras leituras e que seriam boas recomendações para os leitores deste jornal?

Descobrir bons escritores é a coisa mais fácil do mundo. Para mim, o talento está disseminado em toda a parte. Não vejo o talento como o dom de uma casta de privilegiados a serem cultuados. Vejo o talento artístico como parte da vida cotidiana. Mas às vezes certos escritores te pegam num momento da vida em que a obra deles realmente transforma sua percepção da vida, sua visão de mundo. Não só pelo mérito literário deles, mas por um momento de vida seu. É uma conjunção cósmica, quase. E nesse plano, realmente, Eça, João Ubaldo, Shakespeare e Faulkner são, para mim, os escritores fundamentais. Eça e João Ubaldo me ensinaram a rir da minha desgraça, o Shakespeare, a lutar para sair da condição de desgraçado, e o Faulkner me ensinou que todo mundo é irresgatavelmente desgraçado, o que não resolveu meu problema mas me deu a sensação de não estar sozinho, o que já foi um adianto considerável.

No Paiol, disse também para Pellanda e plateia curitibana que, nos anos 90, “O Mistério do Leão Rampante” foi um contraponto ao realismo de Rubem Fonseca “ditador” de tendências para a literatura brasileira da época. Hoje, na sua opinião, conseguimos fazer uma análise daquilo o que se está produzindo na literatura contemporânea brasileira? Assim como há quase 20 anos, você destoa ou percebe que vem seguindo uma linha parecida?

Não devemos esquecer que, se o “Mistério…” teve esse papel, ele o teve para mim e para a meia dúzia de leitores na época, enquanto o Rubem Fonseca era lido por milhões. É importante guardar as proporções, ou eu estaria reescrevendo a história da literatura brasileira a meu favor. Acho que hoje em dia é muito mais difícil fazer um painel compreensivo da literatura brasileira, pois a variedade de vozes é imensa, não há grupos ou movimentos muito articulados, que organizem a cena. Então todas os balanços, a meu ver, tendem a ser um pouco parciais. Isso não é necessariamente mau, mas precisamos ter em mente que existe. Quanto à minha obra, cheguei à conclusão que, entre o Hitchcock e o Billy wilder, sou mais o Billy Wilder. O que quero dizer com isso? Que não sou o tipo de escritor que tem um gênero preferencial, que faz de cada livro uma variação numa linha de trabalho contínua. Para o bem ou para o mal, vejo meus livros como muito diferentes uns dos outros, e gosto de variar de “voz narrativa”, gosto de recriar tons e universos a cada livro. Talvez o verbo “gostar”não seja o ideal; não escolhi ser assim, sou assim porque não sei ser do outro jeito.

SERVIÇO – ENTRADA FRANCA

Autores & Ideias

Com o escritor Rodrigo Lacerda

Mediação do jornalista Marcelo Bulgarelli

Quando: amanhã

Onde: Sesc (Av. Duque de Caxias, 1.517, Zona 7)

Horário: 20h

Entrada franca

Informações: (44) 3262-3232

*Entrevista publicada terça-feira (13) no D+, caderno do Diário de Maringá

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Em terra de Smile, todo mundo é feliz

Por Wilame Prado

A felicidade não se mede com o tamanho do sorriso, embora o símbolo mais comumente utilizado para representar pessoas felizes é o rostinho amarelo chamado Smile, minimalista com suas duas bolotas pretas representando olhos e um arco horizontal com as pontas para cima fazendo o sorriso de desenho.

Após reportagem aqui no Diário informando sobre os 90% de felizes maringaenses, resolvi que vou passar mais tempo zanzando nas ruas só para ver meu novos amiguinhos, os Smiles maringaenses. Em minha imaginação, já estou aqui trocando os rostos das pessoas, nas calçadas, dirigindo carro, esquentando ovos na chapa da padaria, por aquela carinhas amarelas sorridentes. Todos, automaticamente, ficam felizes e eu, de quebra, fico também.

Lembro-me bem da infância, período em que era proibido ser muito felizão. Corríamos perigo de sermos chamados de “bobo alegre”. Que medo mais besta. Felizes são os bobos alegres, que riem de tudo e do nada, que não fecham a cara mesmo sabendo que tem um monte de gente dando porrada e chute na bunda.

A felicidade costuma ficar mais contida na adolescência. E aí a moçada acha que é bonito ser feio. A velha e saudável rebeldia, o descontentamento como premissa de vida. Muitos adultos, por essa época, gostam de repetir uma frase clichê e afirmam que, para eles, cara feia é sinal de fome.

Na fase adulta, vim parar na cidade dos felizes. Maringá é onde trabalho. E no ambiente profissional, repare bem, ao contrário da época infantil, é meio que obrigação ser alegre. Alguém, um dia, deve ter escrito naqueles importantes livros de autoajuda que, para um bom ambiente de trabalho, devemos sorrir, ainda que talvez não estejamos sendo filmados.

Estou pensando bem aqui comigo e, na verdade, não é só no trabalho, não, que somos obrigados a ser Smiles. Na fase adulta, de modo geral, todo mundo fica cobrando felicidade. Em casa, na padaria, em qualquer lugar. O homem de pouco sorriso é malvisto. Deve ser traído, já começam a pensar os mais ferinos. A mulher mais séria espanta pretendentes e amigas. É falta de homem, imaginam os canalhas; mal amada, repetem as mulheres.

O bobo alegre, em toda sua respeitabilidade, em seus eternos cumprimentos de mãos, beijinhos no rosto e cara de Smile, cumpre bem o seu papel corporativo. Tem a vida ganha e não se estressa. Quando chega em casa, nada de bronca no filho que não sai do videogame, apenas recomendações, um olho no olho para discorrer sobre os malefícios do game.

A mulher do bobo alegre nunca o viu chorar, mesmo no dia em que brochou na cama ou quando sua tia querida morreu. Smiles não choram, ele comentou uma vez para ela, mãos no volante, olhar fixo para a frente, prestes a sair dirigindo o seu carro do ano, com ar-condicionado e rádio ligado, pelas ruas bem sinalizadas de Maringá. Pelo vidro, de relance, percebeu que 90% das pessoas tinham os rostos iguais ao seu, amarelo e redondo.

*Crônica publicada nesta terça-feira (13) na coluna Crônico, do D+, caderno do Diário de Maringá

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Parabéns Metrô!

Por Wilame Prado

Por esses tempos, os sujeitos mais atentos vinham reparando bem nos olhares tristes dos maringaenses enquanto iam até a padaria do bairro buscar os pãezinhos, dentro de uma circular ou quando se prestavam a rodear intermitentemente o Parque do Ingá. Estavam todos calados, cabisbaixos, absortos em pensamentos, sós consigo mesmos os moradores desta cidade. Olhavam mais para a poeira do chão do que para a imensidão do horizonte. Essa tristeza incalculável mas nem sempre admitida dos maringaenses – pesquisas suspeitas andam dizendo por aí que aqui mora gente feliz – só podia ter uma explicação. A ausência de um time de futebol profissional decente.

Havia uma carência futebolística que foi se acumulando com tantos anos de amargura dentro do gramado, anos de times não sintonizados com o anseio do povo e uma dor no peito grande ao ver rivais como o Londrina Esporte Clube ou o Cianorte Futebol Clube jogando certinho, brigando lá em cima, dando alegria para seus torcedores em tardes de domingo, em dias de estádio cheio, sol quente e bola nas redes. Esse clima de velório futebolístico se reverteu por aqui desde as 17h19 do último domingo, instante em que o juiz Murilo Ugolini Klein apitou o término da partida entre o Colorado e o Metropolitano Maringá (realizada no simpático Estádio Municipal Francisco Borges de Campos na terra não menos simpática da cana-de-açúcar e do rodeio), sacramentando a vitória por 1×0 que garantiu o time maringaense, com duas rodadas de antecedência, na primeira divisão do Campeonato Paranaense, a ser disputado no ano que vem.

Com o acesso à primeira divisão, o sorriso do maringaense só não é mais escancarado porque, a bem da verdade, a sensação é a mesma quando acontece de o carro ser recuperado sem rádio e sem calotas após um furto. Recupera-se o bem que jamais deveria ter saído de suas mãos. Maringá jamais deveria ter saído da elite do futebol estadual e até nacional. Gente gabaritada, como o compositor e jornalista Cláudio Viola, não me deixa mentir: Maringá sempre foi boa das pernas e, em décadas passadas, não escolhia adversário para duelar no esporte bretão.

O Estádio Regional Willie Davids jamais deveria ter sido silenciado. Ninguém merece tardes vazias de domingo com um gigante calado.

Cristiano: esta é a minha sugestão para o nome do teu filho, caro leitor ou leitora. Cristiano, este é o nome da fera. Dono da camisa 9, artilheiro do torneio e autor do gol da vitória que garantiu a subida do Metropolitano Maringá aos céus após período que parecia ser interminável no purgatório das almas que tateiam em busca de times para torcer, com gritos de gols entalados e que causavam sufocamento de gargantas aquietadas.

Quando Cristiano interferiu na trajetória do escanteio batido por Fernandinho, fazendo, aos quarenta minutos do primeiro tempo, um belo gol de cabeça no canto superior esquerdo do pobre goleiro colorado Rafael, ele sabia que os maringaenses estávamos feridos, abatidos, sem dignidade, sem alma, sem coração e cada vez mais agarrados aos times paulistas.

Obrigado, Cristiano.

Sim, tudo bem, somos santistas também, palmeirenses, corintianos e até são-paulinos – as vezes encontra-se flamenguistas, atleticanos e outros suicidas mais na cidade. Mas, a cada rodada dos torneios mais representativos praticados por esses times, competições com envergadura nacional e até internacional, havia uma outra camisa vestindo os maringaenses, só que pelo lado de dentro do corpo. Maringá sempre teve camisa (cores e nomes dos times que representam a cidade pouco importam), nunca se desprotegeu. Chegou a hora de vesti-la por cima de qualquer roupagem enquanto se caminha – sem olhar para trás ou para o chão – até o estádio em uma tarde ensolarada de domingo, dia de rede balançando e de guerreiros cantando na arquibancada. Parabéns, Metrô!

*Crônica publicada esta terça-feira (6) na coluna Crônico, do D+, caderno do Diário de Maringá

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Ressonâncias – Final

Por Wilame Prado

Como fui injusto semana passada! Dedicar uma crônica inteirinha só comentando os desprazeres de oferecer o corpo para um exame de ressonância magnética! Claro, muitos leitores se identificaram. Afinal, realmente não é fácil viver nos dias de hoje: temos os tênis furados em dias de chuva, o sertanejo universitário, o Renan Calheiros e as dores nas costas que obrigam os médicos a pedir um exame invocado e que registra em imagens tudo o que se está rolando dentro da gente, torcendo para não se ver o pior e já adiantando que, para amenizar o dano de uma coluna torta, uma postura correta é alcançável via fisioterapia.

Pois bem. A ressonância magnética é o chamado mal necessário, aquela paulada que dói mais na consciência do pai do que nas nádegas dos filhos. O Google não me deixa mentir: a ressonância garante imagens de qualquer plano. Um a zero contra a tomografia, que só nos dá imagens no plano horizontal. E foi com o exame de ressonância em mãos que o doutor me garantiu que nem tudo está perdido, que aquela coisa ruim que a gente nem gosta de citar o nome não foi vista pelas bandas do meu interior físico e que existe vida sim ao lado de uma escoliose “importante”.

Tendo sido documentado prós e contras das ressonâncias que nos cercam, gostaria de prosseguir meu relato de vida sobre as experiências notadas dentro de uma máquina de ressonância magnética. E o efeito esperado aqui é o mesmo de um testemunho de gente que sobe no altar da igreja para contar, jurando de pés juntos, os acontecimentos marcados na memória. A grande esperança, com a carta oferecida aos leitores em forma de crônica, é de ajudar aqueles que precisam enfrentar seus medos quando estão já de uniforme bege, chinelas usadas nos pés e prestes a encarar um túnel estreito que vai te encher de barulhos para que as imagens (“ibagens”, todos querem “ibagens”) sejam produzidas.

E foi sabendo do medo de tanta gente, sabendo do incômodo de tantos coitados que adentram aquele maquinário esdrúxulo, que, mais do que relatos em crônicas de jornal que voam com o vento, penso mesmo em divulgar meu método de controle emocional em meio a exames de ressonância magnética lançando um livro de autoajuda! Gostei do título “Ressonância Magnética: Como Sobreviver em 7 Passos”, mas considero outras possibilidades, como “Você Pode Enfrentar a Ressonância Magnética”. O objetivo é ficar rico e pagar o melhor tratamento possível contra escolioses.

Se as editoras já não tivessem me cobrando conteúdo exclusivo do inevitável e retumbante best-seller prestes a ser lançado, poderia adiantar alguns pormenores sobre meu revolucionário método de sobrevivência em meio a exames de ressonância magnética, a exemplo da artimanha de se teletransportar simplesmente com o poder da mente, o que me possibilita ficar invisível e alheio a tudo o que chega do exterior. Mas é papo esotérico demais, que envolve o desprendimento do corpo e da alma; deixemos para outro dia, para outras ressonâncias, outras crônicas, outros livros, outras vidas.

*Crônica publicada nesta terça-feira (16) na coluna Crônico, do D+, caderno do Diário de Maringá

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Ressonâncias – Parte I

Por Wilame Prado

Nenhum ser humano em sã consciência deveria aceitar se prestar ao quizilento exame de ressonância magnética. Se criança, certamente é trauma para vida toda. Os adultos entram naquela espécie de máquina do tempo para depois irem direto ao psiquiatra aumentar a dose do remédio. Aos diagnosticados com síndrome do pânico, recomendo afastamento de alguns quilômetros de distância de uma máquina desjeitosa daquelas.

Pedi música clássica em uma ficha aterrorizante com perguntas sobre seu passado envolvendo cirurgias, pinos e marca-passos e que, ao final da folha, oferece uma indagação mais amena aos bravos que estão prestes a aceitar entrar em um trambolho fazedor de barulhos irritantes: “Gostaria de ouvir música durante o exame?” “Sim!” “Qual estilo musical o senhor prefere?”

Senti-me em um filme dramaticamente exagerado de algum diretor latino-americano ou espanhol e pensei que música clássica poderia servir como trilha sonora para o medo e as incertezas que rondavam a minha cabeça naquele momento. Não tive meu pedido atendido e o meu filme imaginário sem Bach, mas com trilha do caos sonoro dentro daquele aparelho assustador, os senhores e as senhoras ainda haverão de ver (ler).

A via sacra de algum vitimado que se vê obrigado por um médico a fazer um exame de ressonância magnética está só no início quando se está respondendo àquelas perguntas. O mais garboso dos homens certamente será só mais um no exato momento em que veste umas chinelas usadas no trocador de roupas e quando se vê obrigado a se desmascarar, a se ver longe da armadura de boutique para colocar calça e blusa folgadas na cor bege.

Aquele cidadão brasileiro agora está vestido com o uniforme do time das Ressonâncias, quase pronto para a chuva magnética que propiciará imagens de um corpo humano e seus ossos e seus músculos escondidos pela pele humana. Este soldado merecia até uma foto com a legenda: “Eis mais um corajoso que se propôs a enfrentar o monstro barulhento”.

Vou sugerir à clínica que oferece esse tipo de exame que faça uma recepção mais calorosa aos sobreviventes – após vinte minutos que se aproximam da eternidade – com medalha no peito, buquê de flores, garota bonita de biquíni para posar ao lado da foto, chuva de papel picado, um cheque grandão simbolizando prêmio monetário e estouro de garrafa de champanhe. Algo, digamos assim, menos desmotivador do que presenciar, ao término do exame, a chegada de um profissional vestido de branco dizendo: “Nossa! Sua escoliose é bem acentuada, não?” (Continua na próxima semana)

Crônica publicada nesta terça-feira (9) na coluna Crônico do D+, caderno do Diário de Maringá

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Paixão de protesto

Por Wilame Prado

Marchando, as individualidades se tornam invisíveis e todos se transformam em um só corpo, em uma só coletividade. O protesto serve como esconderijo e refúgio para ele. Em sua timidez, opta por não erguer cartaz e segura com a mão direita uma máscara do V de Vingança para alguma emergência, caso precise apagar ainda mais os traços personificados de sua existência. Ele só não pode perdê-la de vista, o que é difícil de acontecer.

Diferentemente dele, ela leva o cartaz mais estrambólico de todos, tem cores pintadas pelo corpo inteiro e uma impressionante capacidade de gritar sem perder a voz. As ruas do centro de Maringá se transformam em passarela para a moça que passa com suas pernas de louça de fora e visíveis no espaço entre um simples shortinho jeans e um tênis de skatista. Ela não sente frio, não sente fome, não sente medo e só quer mudar o Brasil.

Ele, pelo contrário, não acredita em nada disso. Mas está ali, anulado em meio a uma coletividade só para não perdê-la de vista. Por vezes ficou sem fôlego ao precisar apertar o passo para continuar observando-a no protesto. A chuva agora cai irritantemente para deixá-lo ainda mais exausto de tanta caminhada no meio da rua.

A água dos céus, para ela, é como benta, sente-se agora abençoada, abastecida com combustível chamado chuva e grita ainda mais forte enquanto ele, cansado, agradece pelo menos o fato de o líquido gelado ter delineado ainda mais as curvas da moça que faz das ruas da cidade o palco de sua indignação e a vitrine de sua beleza.

A vitória da juventude oprimida parece certa. Os jovens estão bravos e cheios de razão. Conquistam até o microfone da Câmara Municipal. Fazem exigências, assim como um sequestrador com a arma engatilhada no pescoço da vítima. Conquistam até uma Comissão Parlamentar de Inquérito.

Neste momento, ela já foi ao céu e voltou e fica impressionantemente mais bonita a cada segundo que passa. Em compensação, se algum conhecido o visse naquele estado lamentável, diria que talvez precisasse urgentemente de um médico ou pelo menos de descanso e chá quente na cama.

Quando ela some em meio à multidão, já em clima de conquista de Copa do Mundo, ele se sente completamente desnorteado e sem forças para procurar. O cartaz chamativo dela derreteu com a chuva, e as tintas no corpo também se foram juntamente com a água que caía do céu.

A beleza da moça se mistura agora com a beleza do povo, com o charme da juventude em pleno protesto. Ele sabe do seu egoísmo e manda para o inferno a CPI, os R$ 0,20, a PEC 37, os hospitais, as escolas e a Cura Gay.

Pensando honestamente, mais valeria para ele esta paixão de protesto, esse desejo incontrolável de tê-la nos braços protegendo-a do frio e da chuva, um drinque depois da vitória ou um encontro a dois, talvez rachando um cachorro-quente na avenida Colombo.

Sem dinheiro no bolso para um táxi, sem esperança na alma e por saber que o transporte coletivo na cidade nunca funciona direito, ainda aguenta um pouco mais as dores das bolhas nos pés e chega até o apartamento na Zona 7 que divide com outros dois caras. O bairro universitário está vazio, triste e sujo.

Sem as pessoas, até o Afonso’s se transforma em um boteco deprimente, feio e parecido com uma jaula para abrigar os animais humanos sempre em busca de ração e cerveja. Os politizados daquele bairro mutante ainda esbravejam na manifestação. Os demais foram para a casa dos pais no período de férias da universidade.

No lar, restam-lhe a raiva e a solidão. Depois de um banho e mais calmo, veste a máscara do V de Vingança enquanto confere o noticiário sobre a onda de protestos em todo o País. Ele adormece na sala pensando na moça bonita da manifestação. Pensa que ela nem sabe o seu nome e que sequer olhou para ele algum dia.

*Crônica publicada ontem (25) no D+, caderno do Diário de Maringá

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Poesia com vinagre

Por Wilame Prado

O maior poema de toda história brasileira. É assim como define a onda de protestos e manifestações registradas em todo o País (inclusive em Maringá) o paulistano Fabiano Calixto, 40 anos, um dos organizadores de “Vinagre – Uma Antologia dos Poetas Neobarracos”, publicação online de 93 páginas que reuniu inúmeros poemas e algumas ilustrações inspirados no sentimento de revolta e na ânsia por mudanças – características primeiras dos jovens que estão mas ruas em protesto nos últimos dias.

Fabiano Calixto em protesto da quinta-feira da semana passada, em SP: escritor é um dos organizadores da “Vinagre…” (Foto de Eduardo Sterzi)

Calixto, escritor e mestre em teoria literária e literatura comparada pela Universidade de São Paulo (USP), há algum tempo, juntamente com outros amigos, almejava criar um zine com o formato de antologia digital.

Quando percebeu a “contaminação” vinda dos protestos das ruas chegando até o âmago dos poetas, muitos já fazendo literatura engajada por meio de publicações nas redes sociais, sentiu que havia encontrado o tema para a antologia. Após o convite, em poucos dias estava pronta “Vinagre…”, disponibilizada no começo desta semana, gratuitamente, pelo link: http://migre.me/f5Ddx.

Sem muitas preocupações relacionadas à estética da publicação, “Vinagre…” é um arquivo em pdf com textos distribuídos pelas páginas, aparentemente sem edição. A capa é ilustrada pela famosa arte do grafiteiro britânico Banksy em que um homem atira flores ao invés de uma bomba incendiária. De modo geral, os poemas são revoltosos e acalorados.

Tem-se a impressão de que alguns dos escritores, inconsolados após ferimento por bala de borracha, por exemplo, foram rapidamente para o teclado fazer poesia. Tal qual uma manifestação em massa, a antologia é quente. Os organizadores foram felizes ao não tardar na disponibilização da publicação, que funciona e certamente será lida por muita gente, em especial nesses dias cercados por protestos em todo o País.

“A ideia, desde o princípio, foi de um gesto de solidariedade. Não deixei minhas preferências estéticas interferirem no processo. A ideia era fazer uma antologia que, na verdade, tivesse a cara de um único poema com muitas vozes.

A preocupação poética, neste gesto de solidariedade, é inteiramente política”, explica Calixto, que, além de organizar a antologia, também publicou um poema de sua lavra, “Dark Medieval Times”, que exalta o gesto corajoso de sair às ruas para o enfrentamento e que também critica aqueles que não abrem mão da segurança do sofá e TV. “Apenas tentei fazer um poema sobre o que eu estava sentindo, após a manifestação do dia 13 de junho, quando a polícia atuou com uma brutalidade sem tamanho.”

Segunda edição

Com o sucesso da primeira antologia, Calixto resolveu abrir espaço para outros escritores convidando-os, pelas redes sociais, a enviarem seus poemas por e-mail cujo tema são as manifestações que acontecem em todo o País. Essa segunda antologia, que deverá ficar pronta também rapidamente e ser disponibilizada na rede dentro de alguns dias, contará com capa ilustrada por Diego de Sousa.

“Estou fazendo, a pedidos de pessoas e por conta também de sugestão de amigos e da capa linda que Diego de Sousa fez para o projeto, uma segunda edição. Só isso. Apenas para aumentar o volume do grito. Depois, me volto para a luta nas ruas apenas”, informa.

Os escritores de Maringá e região que quiserem participar da antologia devem mandar seus textos, em documento de Word, até amanhã, para o e-mail: [email protected]

Escritores do PR também em ‘Vinagre…’

Para o escritor maringaense radicado em Santos (SP) Ademir Demarchi, 53, “Vinagre – Uma Antologia dos Poetas Neobarracos” é como uma bomba: “foi uma antologia no calor da hora, a grande maioria daqueles poetas ali é ótima, estão na lida com a linguagem há anos, portanto mesmo que um dado poema ali não seja ótimo, pode haver ótimos em sua obra.

No calor da hora não dá para refletir muito, escolher, essa é a marca da antologia, como uma bomba que se joga, é preciso jogar, não dá pra pensar. Jogamos, e você agora, n’O Diário, está interessado nisso. Os estilhaços se espalham, está circulando amplamente no Facebook.”

Cronista do D+ às quintas-feiras e autor de “Pirão de Sereia” e “Os Mortos na Sala de Jantar”, Demarchi participa na antologia com uma espécie de haikai conciso e ácido. Fala sobre bombas que acabam, mais que estimulando passeatas, favorecendo ainda os festejos da juventude que protesta.

“A festa é própria da juventude. Daí que, tendo bomba, teremos mais passeatas e mais festas. É delicioso lutar contra o poder instituído, ele sempre existe, ele sempre está aí, normatizando as vidas, enquadrando-as e tornando-as previsíveis e disfarçando as formas de controle e de autoritarismo”, diz.

Ricardo Pedrosa Alves, 40, de Guarapuava (PR), é outro paranaense que contribuiu com “Vinagre…”. Ainda que longe das principais manifestações que vem acontecendo nas capitais, em “Estado de Exceção” questiona a língua e o poder. “Este poema nasceu de uma inquietação com a linguagem oficial. Trata-se de um elenco (que poderia ser ampliado, em tese) de termos do senso comum. Como a função da poesia é também a do questionamento da linguagem, nada melhor que tentar realizar isso num momento de acirramento social e político nacional”, considera.

A artista visual e poeta Jussara Salazar vive entre Recife, Curitiba e São Paulo. Em “Vinagre…”, contribuiu com uma ilustração poética. “A observação e a crítica aos 20 centavos demonstram maturidade por parte da população brasileira, a sutileza inaugura um novo momento, tudo passará a ser importante a partir de agora. A imagem da moeda e o provérbio popular me pareceram adequados para expressar um sentimento de ironia e humor, quase uma brincadeira, considerando também a informalidade e o pouco tempo com que o Fabiano Calixto organizou tudo, praticamente em dois dias. O resultado foi uma surpresa, o conjunto reunido tem força e coerência.”

Beatriz Azevedo, moradora do Rio

A poeta, cantora e compositora carioca Beatriz Azevedo diz que a antologia é mais uma expressão da inquietação geral que movimenta o País. Para participar da antologia, levou para a poesia o que vem sentindo com o “calor da hora” das manifestações literárias nas redes sociais.

“A própria agilidade da edição da antologia me inspirou a entrar no fluxo dos acontecimentos e experimentar usar essas ferramentas virtuais, e não o tempo de maturação da feitura de um livro de poemas, por exemplo”, diz ela, autora, em “Vinagre…”, de rajadas poéticas que dialogam com os acontecimentos. “Quando vi a declaração do governador de SP sobre as manifestações, incitando a violência da polícia, comecei instantaneamente a digitar.”

*Reportagem publicada nesta quinta-feira (20) no D+, caderno do Diário de Maringá

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