Daniel Alves



Gabo faz falta, ou a câimbra na alma de Esteban

Por Wilame Prado

Um dia, nos livros de história, falarão do nosso tempo e da insistência que os habitantes do Velho Mundo tiveram em tentar nos rebaixar, nós, os latino-americanos. Assim como hoje tendemos a ficar chocados com a escravidão ou com as coisas da Idade Média, por exemplo, os habitantes do futuro, até mesmo os que moram na Europa (que talvez nem seja mais a Europa), sentirão asco do preconceito que insistiu em existir na Terra por muito tempo, inclusive no século 21.

O espetáculo do futebol é o espelho da vida real. Daniel Alves, lateral-direito do Barcelona e da Seleção Brasileira, comeu a banana que jogaram no picadeiro do gramado verde e contribuiu para que o mundo todo discutisse as formas de racismo. Atendeu a Cristo, que diz para darmos também o lado esquerdo da face para bater, mas dotado de ironia fina: em vez de se abalar com o ato de racismo, comeu, agradecido, a banana, fruto que tem potássio e com isso combate as tão comuns câimbras no esporte bretão.

Só por causa daquele pedacinho de fruta saborosa e madura, o brasileiro nascido na Bahia conseguiu, sem sentir câimbras, um cruzamento dentro da área que resultou no gol contra de Musacchio. Final da partida: Villarreal 2 x 3 Barcelona (com, veja só, dois gols contra do time que tem torcida racista e uma banana que se tornou símbolo de protesto no mundo todo).

Alimento saboroso, banana engorda e faz crescer, conforme cantou Raul Seixas. Com mel e aveia é uma delícia. Batida com leite, as bananas resultam em boa vitamina. Pseudobaga da bananeira, ou seja, uma pseudofruta, a banana é uma planta herbácea da família Musaceae que é produzida em 130 países.

A Espanha produz banana? Não importa se era ou não importada a banana tacada em Daniel Alves. Pesquiso, então, um nome comum no país da Península Ibérica. Esteban é meu personagem. Esteban sai de sua casa na cidade de Villarreal, Província de Castellón, e leva consigo uma banana madura. Não a come. Não se nutre. Tem apenas o plano maligno e “genial”, conforme confessa para os amigos, de arremessá-la no gramado justamente quando Daniel Alves fosse cobrar um escanteio.

“Por que fez isso Esteban?”, pergunta o mundo, pergunta a consciência do próprio. Após ter alimentado o adversário com o rico fruto, Esteban volta para o lar cabisbaixo, triste com a derrota do time fazedor de gols contra e com medo de ter sido flagrado pelas câmeras no momento em que tacava a banana, talvez sorrindo de seu ato boçal e rapidamente sentindo todos os dentes podres se amarelarem ao se surpreender com a comilança do nosso Daniel Alves apreciador de bananas. Certamente Esteban teve câimbras terríveis já deitado na cama, em meio a pesadelos em que morria afogado em tonéis gigantescos onde se preparava um saboroso doce de banana.

Esteban, aliás, não leu “Cem Anos de Solidão”, clássico livro do nosso querido e agora saudoso escritor colombiano Gabriel García Márquez – porta-voz da América Latina e detentor de alta obra literária que cala qualquer escritorzinho catalão de meia tigela. No romance que apresenta a saga da família Buendía na mítica Macondo, publicado originalmente em 1967 e que já vendeu mais de 30 milhões de exemplares, a Companhia Bananeira é metáfora da América Latina exportadora de matéria-prima no sistema capitalista.

Exportamos sim bananas e jogadores para o espanhol e o mundo todo comer e ver. E só recebemos em troca ofensas por meio de gestos que traduzem fatos alarmantes: bons índices educacionais não significa dizer que os europeus são educados e a falta de bondade no coração para com o próximo – independentemente de raça, país, cor ou fruta preferida – continua sendo um desafio a ser encarado pela maioria dos seres humanos. García Márquez já está fazendo falta.
*Na tarde de ontem, o Villarreal informou que identificou o torcedor atirador de banana e decidiu retirar seu carnê de sócio, além de proibir seu acesso ao estádio El Madrigal pelo resto da vida.

*Crônica publicada nesta terça-feira (29) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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