divagação



Novembros

Por Wilame Prado

Novembros são excêntricos
Pesam toneladas de essência
São decisivos como os pênaltis
Errantes como canhotos,
nos pênaltis
Não são meses
…seculares, milenares…
Fodem no tarô, traem na rotina
Chove, e faz sol (e faz arco-íris)
casamento de espanhol
Sabe-se da doença
Anuncia-se matrimônio
Divórcios, então
Teste deu positivo
Conta está no negativo
Multas remetidas
Cartas nunca recebidas
Aniversários sem convidados
Aniversários jamais anunciados
Aniversários nos finados
Peçonhentos ambulantes
signo dos amantes
Saiu na pesquisa
Andarilhos são de escorpião
em sua maioria
Um mês qualquer
mês de bola, samba e vodka
ventou absurdamente
no dia onze do onze
a árvore caiu
na casa atingiu
ninguém se feriu
soltaram os bichos do canil
piedade nunca existiu
novembros, vão pra puta que pariu
no dia doze do onze
não ventou absurdamente
varrição das besteiras da mente
dia após dia
sempre em frente
fez sol, havia esperança
de consertar a mente da gente
pé pelado no asfalto quente
o suor escorrendo da testa
miragem nos faz sonhar
existir, até sorrir
engano, erro, inocência, seu demente
ainda há todo um mês pela frente
novembros são todos os meses
de que se possa imaginar
em vida existente
o sepultamento se deu
em trinta de novembro
daquele ano vigente
Nem vai notar que,
ainda bem,
dezembros também são sempre
ineloquentes.

Comente aqui


Crimes, castigos e penas

tudo isso vale (u) a pena mesmo
pena leve
pena branda
peso pena
peso que não pesa

o natal foi com minúscula
e as ruas estavam tão quietas
e, acreditem, garoou
ridícula e imensamente
deprimente
gotas peso pena – fisicamente falando
gotas peso pesado – nostalgicamente falando

insisto, o que vale (u) a pena
até que ponto compensa
ela passou do ponto
o ônibus não parou no ponto
você nunca quer o ponto final
castigos não apagam os crimes
crimes não se apagam com castigos

Qual será sua pena?
Uma apendicite
Um ouvido entupido
Uma síndrome do intestino irritável
Ou um se sentir sozinho
Tomando coca lata
Comendo um lanche de forno
Indo pro jornal
Na chuva
Já é (N)atal
Sentindo pena de si

Crimes, castigos
Vale (u) a pena?

2 Comentários


Socorro nunca foi Maria

Socorro nunca foi dado.
Ela nunca deixou.
Quis e soube andar
– ainda que por caminhos tortos –
desde muita nova,
em ritmo embalado.

Deixa a mãezinha, filhas e netos
Deixa parte da família
para se reencontrar
com outros lá em cima

Ninguém socorreu
E foi-se sozinha, dormindo.
Em uma noite que não estava fria.
14 ou 15 de novembro de 2013?
Qual a data da ausência de socorro?
Qual o dia ou a noite da escuridão maior,
da solidão incomparável?
Morrer é um ato solitário.

Ela nunca quis socorro,
gostava de andar sozinha.
Sempre em vielas, em becos,
entrando numa fria.
A verdade é que Socorro nunca foi Maria.
Adeus, tia.
Manda um beijo pro pai e pro vô.
E saiba que nunca estará sozinha.

4 Comentários


Tweets, ‘Cavalo’, Rodrigo Amarante, Tardei

Por Wilame Prado e Rodrigo Amarante

Hoje é o seguinte: “Cavalo” e só. Como tem sido há alguns dias. //Quando eu vejo você/ Me olhando assim/ Vendo em mim/ O que eu vejo em ti//.

Milagre seria não ver, Irene.

Foi meu professor/Foi meu cúmplice/Sua mente, eu sei/Só chego ao índice. De Amarante para o poeta morto Ericson Pires.

“The Ribbon” mostra o melhor de Amarante, o melhor! Assim como em “O Vento”, “O Moço e o Velho”, “Primeiro Andar” e “Os Pássaros”.

Quem na rua se perde/Encontra o que pede/Acerta o que mede/E conta até errar/Que o erro é onde a sorte está. >>>Estamos prontos para o fim.

Por fim, “Tardei” (Amarante) e “Tardei”:

Tardei

Por Wilame Prado

Tardei, no lado oeste da cidade de pequeno porte
o sol caía
o moleque recolhia o par de chinelo-trave
o shortinho curto da moça tapava o paraíso
a senhora terminava de varrer a sujeira do mundo
e eu,
enquanto deixava a máquina automobilística me levar para mais próximo das nuvens,
tardei

Tardei porque não queria te ouvir, ver ou sentir
Tardei porque são desesperadoras as tardes de domingo
Assim como são desesperadoras qualquer tarde, de qualquer dia
Tardei para evitar a fadiga
Apaziguar os ânimos
Esfriar a cabeça
Amenizar a situação
Tardei para ver se, longe de mim, a casa ficasse em ordem

Lembro-me bem
Estava, sentido aos céus, no lado oeste da cidade de pequeno porte,
Quando tardei
E lá fui deixando a máquina me levar,
Marcha macia, brisa na cara, paraíso escondido, brincadeira acabada, sujeira varrida

No tardar, subi
Vi poeira leve e inofensiva pelo retrovisor
E estava mais determinado que nunca: o mundo ficou para trás
Cenário e gente serviam de retardatários
Tardei enquanto o sol caía, enquanto a tarde caía e tardava também
Subi em linha reta e notei que havia chegado a hora de parar
Dois pontos, uma linha, ponto de partida, ponto de chegada

Uma cerca, afinal, impedia-me de seguir adiante
Tardei mais um pouco por ali
Era voltar para trás ou tardar
Era encarar a sobrevivência ou me perder de vez
Em pensamentos, em frases soltas, em parágrafos imaginários,
Em sonhos daquilo que já foi e não foi e nunca será

Tardei e deixei, aos poucos,
não as obrigações
As saudades sim
Levarem-me para trás
Regredir nem sempre é sinônimo de fraqueza
Pode ser sintoma de experiência, pode ser fortificação

E hoje continuo tardando
Mais sereno
Sem tanto sacolejar as pernas
Olhando até mesmo as tardes de domingo passar
Azulejos refrescantes do alpendre da casa grande
Cadeiras de área, na área
Em outros pontos cardeais da cidade de pequeno porte

E sem me esquecer jamais do dia em que deixei o carro me levar até o ponto final
Tendo na memória o chinelo-trave, o shortinho e a vassoura, e as pessoas
Os caminhos, as pessoas e os cenários nunca são iguais, retardatários

De vez em quando, retomo os trajetos de outrora, sempre mudados
Em tardes de domingo, feriados, dias atípicos de semana
No lado oeste da cidade de pequeno porte,
Onde tardei

E continuarei tardando
O sol caindo e tudo
Mas eu voltando

1 Comentário


A moça que passa

Por Wilame Prado

Ruas que andam
Vida que passa
Sentado
as ruas andam
a vida passa

O carro passa
O avião passa
A moto passa
E a moça passa

Sentado a vida passa

A árvore respira
O homem traga
O tênis se gasta
As paredes se desgastam
E gastam o asfalto

A moça passa
Sentado, a vida passa

E de repente
Coisa de centésimo de segundo
Olha-se por entre o buraco do alargador
na orelha de um jovem e delicado rapaz
e ali vê-se e prevê-se uma vida inteira sentado
vendo a moça a vida passar

Comente aqui


Cheiro de terra molhada

Uma forte sensação de abandono. Todos sumiram. Tinham outros afazeres. Uns precisaram morrer. Outro queriam viver mais intensamente. Uma forte chuva caiu, mas, de dentro daquele pequeno apartamento na Rua K., ela nem pôde ver o movimento das águas, nem mesmo sentir o cheiro da terra. Tudo parecia tão distante do alto daquele oitavo andar. Todos estão distantes. Se tudo isso tivesse acontecido há, sei lá, uns quatro anos, reflete ela, certamente botaria tudo a perder. Mas hoje não. Agora não. Talvez não, nunca mais. Passou a acreditar em propósitos. Levou a sério aquela história de se escrever certo por linhas tortas. A maior provação? O afastamento das pessoas. A maior alegria? Ana, a pequena filha de sete meses e meio. Junto dela, pode cair o mundo em águas, e as pessoas podem se mudar até de país. Enquanto prepara a mamadeira na cozinha, olhando para os miúdos olhos abertos e suaves de Ana, ela se deixa levar pelo pensamento e sente uma nostalgia ao contrário, uma já saudade do que nem aconteceu: pensa com carinho no dia em que, depois de uma torrencial chuva e chegada do sol, levará a sua filha até lá fora para explicar que aquele cheiro é cheiro de terra molhada.

3 Comentários


o último dia

é, é

um dia olhei pro sol

e cego não fiquei

apenas enxerguei

de repente, toda cegueira se curou

a miopia não voltou

eu pude ver tudo, todos

os segundos, o tempo, a eternidade

pude ver o mundo, e o além-mundo

senti que algo estava errado

quando passei a ver

concluí que algo precisava ser feito…

termine de ler n´A Poltrona

Comente aqui


Paciência e excesso de amor próprio

Agoniza, mas não morre.

Um dia eu voltarei.

Um dia ela voltará.

Mas quantas vidas precisaremos morrer para o reencontro?

Um dia, quando acordei na pele de um monge velho tibetano, quase morri de tédio.

Depois aprendi a esperar, de tanto observar uma rocha do mar virar areia.

Passaram-se mil anos e alguns meses.

E então eu era mulher de malandro, sofredora, que toma e gosta de tapa na cara

Arduamente aprendi a me amar, também.

E então mais duzentos anos separaram vidas.

Estou aqui, hoje, sem ver o mar, sem tomar o tapa.

Amando demais quem não deveria,

incluindo-me no primeiro lugar da lista,

ao lado de deus,

egoísta.

Numa sala de espera sem fim, sem remédios para o tédio

e sem acreditar que um dia eu apanhei

que um dia eu esperei o grão de areia nascer da montanha.

2 Comentários