Divagações



plástico

no que eu me tornei?
não toco mais violão
não faço gols
não leio mais que três páginas de uma vez só.
não vou ao cinema.
não vejo parentes.
tenho poucos e distanciados amigos.
eu passo um dia todo sem sequer pensar nas pessoas que amo.
eu brigo com os números de contas bancárias.
eu plastifiquei as relações.
eu nem beijo mais.

tudo é um jogo.
estratégias de sobrevivência.
noites que passam num piscar de olhos, fechados, dormindo.
dias que duram séculos.
o trabalho nunca acaba.

a vida acaba.
o amor pode acabar.
as pessoas podem acabar com você.
ou, pior: ignorarem você.
Afastarem-se de vez.
o mundo não está a seus pés.
ninguém está nem aí para você.

e quando a doença vier?
quem estará ao teu lado?
um amontoado de notas e moedas não fazem companhia.

Pense no melhor momento da sua vida.
Pense naquela lágrima mais sincera.
Naquele sorriso mais encantador.
Em um abraço que você nunca mais recebeu.
Pense naquelas pessoas.
E então refletirá que nunca trabalho e dinheiro fizeram parte disso.

Ok. Você precisou ouvir novamente Radiohead com legenda no YouTube para descobrir isso.
Mas se você parou e pensou, isso quer dizer que está vivo.
Quando nada mais emocionar, é a morte da alma.

Então é melhor assim?
Enrole-se num plástico bolha e saia rolando escada abaixo.
Coloque uma sacola de mercado na cabeça e erre na multidão.
Vista a armadura de plástico.
Voe com a capa de plástico.
Coma plástico com sal.
Depois ingira plástico com açúcar.

Do jeito que vai
Vão achar que você é de plástico.

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Carnaval em cinco atos divagantes

Por Wilame Prado

1
Tão bonita. Ela se fez tão bonita naquele dia. E eu não acreditei. Tanta graça, tanta praça. Que gata. Fiquei bobo, alegre, adolescente. Então estufei o peito, saí do carro, abri a porta, dei um sorriso, senti o seu perfume – não queria nunca mais sentir outro cheiro –, acorrentei a sua mão na minha e atravessamos a rua, no verde; íamos a um baile de carnaval. Íamos. Caminhão acelerado. Desespero. Dois corpos pedestres no chão, em cima da faixa branca, que se fez vermelha. Borrão. Antes de entrar na ambulância, senti o seu perfume – não queria nunca mais sentir outro cheiro –, mas estava misturado com o ocre metal. Vi dentes meus pelo chão. Nunca mais a vi com vida. Tão bonita. Ela se fez tão bonita naquele dia.

 2
Mexo a cabeça. O ouvido há muito entupido. Onde está? Olhando para um chão sujo de mijo e coliformes fecais. Banheiro público. Carnaval. E ele, o outro eu, maldito, está olhando, pela janela suja, a avenida movimentada. Braços que se sujam encostados na janela, cinzas podres de cigarros. Calma. Calma que a calmaria vai chegar. Calma que ainda, eu e eu, iremos nos encontrar. O outro eu saiu feito louco, escada desabando abaixo, um pé desnudo para fora do lençol se despede – a última imagem humana. Morreu atropelado na Brasil. Ônibus coletivo, o ouvido entupido não ouviu, e o receio de me contaminar no sujo banheiro público, enquanto descarrego necessidades corpóreas, pensando naquele pé descoberto para fora do lençol – reminiscências na pré-morte, já na ambulância. Eu e eu ainda iremos nos encontrar.

3
Tudo isso vale (u) a pena mesmo? Pena leve. Pena branda. Peso pena. Peso que não pesa. O carnaval foi com minúscula. E as ruas estavam tão quietas. E, acreditem, garoou ridícula e imensamente. Deprimente. Gotas peso pena – fisicamente falando. Gotas peso pesado – nostalgicamente falando. Insisto, o que vale (u) a pena? Até que ponto compensa? Ela passou do ponto, o ônibus não parou no ponto, você nunca quer o ponto final. Crimes não se apagam com castigos. Qual será a sua pena? Uma apendicite? Um ouvido entupido? Uma síndrome do intestino irritável? Ou um se sentir sozinho, tomando coca lata, indo pra casa, na chuva? Agora já é (C)arnaval. Crimes, castigos. Vale (u) a pena?

4
Ruas que andam. Vida que passa. Sentado. As ruas andam. A vida passa. O carro passa. O avião passa. A moto passa. A banda passa. O bloco passa. E a moça passa. Sentado, a vida passa. A árvore respira. O homem traga. O tênis se gasta. As paredes se desgastam. E gastam o asfalto. A moça passa. Sentado, a vida passa. E, de repente, coisa de centésimo de segundo, olha-se por entre o buraco do alargador na orelha de um jovem e delicado rapaz e ali se vê e se prevê uma vida inteira, sentado, vendo a moça, a vida e o bloco passar.

5
Uma forte sensação de abandono. Todos sumiram neste Carnaval. Tinham outros afazeres. Uns precisavam morrer. Outros queriam viver mais intensamente. Uma forte chuva caiu, mas, de dentro daquele pequeno apartamento na Rua K., ela nem pôde ver o movimento das águas, nem mesmo sentir o cheiro da terra. Tudo parecia tão distante do alto daquele oitavo andar. Todos estão distantes. Se tudo isso tivesse acontecido há, sei lá, uns quatro anos, reflete ela, certamente botaria tudo a perder. Mas hoje não. Agora não. Talvez não, nunca mais. Passou a acreditar em propósitos. Levou a sério aquela história de se escrever certo por linhas tortas. A maior provação? O afastamento das pessoas. A maior alegria? Ana, a pequena filha de sete meses e meio. Junto dela, pode cair o mundo em águas, e as pessoas podem se mudar até de país. Enquanto prepara a mamadeira na cozinha, olhando para os miúdos olhos abertos e suaves de Ana, ela se deixa levar pelo pensamento e sente uma nostalgia ao contrário, uma já saudade do que nem aconteceu: pensa com carinho no dia em que, depois de uma torrencial chuva e chegada do sol, talvez num feriado de Carnaval, levará a sua filha até lá fora para explicar que aquele cheiro é cheiro de terra molhada.

*Parte dos atos foi remanejada de divagações anteriores, já publicadas no blog
*Texto publicado nesta terça-feira (4) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Nirvana Unplugged no apartamento

Por Wilame Prado

Praticaram o desapego na mudança.
Mas o MTV Unplugged in New York com o Nirvana ficou.
O CD tocará no drive do not (sem internet)
enquanto eles tomarão bebidas geladas na sacada.
A vida é nova n´uma sacada.
Verão maringaense.
Ouvirão então,
entre o intervalo das faixas “Pennyroyal Tea” e “Dumb”,
Os novos sons do novo lar.
Estalos de móveis remanejados.
Cigarras em árvores tão próximas do 1º andar.
Silêncios de um prédio ainda pouco habitado.
Quando o CD terminar, terão olhado muito para trás,
esquecendo-se de que, a partir daquele momento,
só o futuro é que interessa.

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No banheiro sujo e/ou morrendo atropelado na Brasil

Por Wilame Prado

mexo a cabeça
o ouvido há muito entupido
onde está
olhando para um chão sujo
de mijo e coliformes fecais
banheiro público

e ele, o eu maldito,
está olhando pela janela suja
a avenida movimentada
braços que se sujamencostados na janela
cinzas podres de cigarros

calma
calma que a calmaria vai chegar
calma que ainda,
eu e eu,
iremos nos encontrar

sai feito louco
escada desabando abaixo
um pé desnudo para fora do lençol
se despede
a última imagem humana
morri atropelado na Brasil

maldito ônibus coletivo
ouvido entupido
e o receio de me contaminar
no sujo banheiro público
enquanto descarrego necessidades corpóreas
pensando naquele pé descoberto
para fora do lençol
eu e eu ainda não podemos nos encontrar

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Sofá

Por Wilame Prado

Ela viu um sofá

jogado no terreno

baldio.

Eu vi verde do tecido,

vermelho da terra e azul logo adiante

no céu.

Pensávamos sobre o dali pra frente.

Desafios prestes a serem encarados.

Ela então se lembrou de querer um novo sofá.

E eu me lembrei da decadência aceita

em tardes de domingo sentado,

olhando pra TV.

Então ela foi dar um jeito de pagar as contas.

Eu eu permaneci no velho sofá,

pensando no verde, vermelho e azul

lá de fora.

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Tardei

Por Wilame Prado

Tardei, no lado oeste da cidade de pequeno porte

o sol caía

o moleque recolhia o par de chinelo-trave

o shortinho curto da moça tapava o paraíso

a senhora terminava de varrer a sujeira do mundo

e eu,

enquanto deixava a máquina automobilística me levar para mais próximo das nuvens,

tardei

Termine de ler n´A Poltrona

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terceiro sorriso

e parece até um milagre o abrir de olhos

o levantar, cambaleante, da cama

mas não é milagre

é só mais um corpo humano,

fraco e debilitado

que já pede o clássico repositor hidroeletrolítico

e vale até um sorriso, em meio a tanta confusão mental,

simplesmente pelo fato de não ter nascido na Faixa de Gaza

vale o segundo sorriso por saber que,

mesmo com tantas estripulias,

ainda está vivo, andando

e com olhos claros que brilham em frente ao espelho

o terceiro sorriso ele quase dá, sentindo o cheiro dela

que impregnou em sua pele, que se faz outra vida em forma de aroma

que lhe faz rememorar tantos sabores, tanta maciez na pele,

mas o terceiro sorriso logo se esvai, assim como a água do seu banho

indo ralo abaixo

mesmo com tantos problemas neurológicos

envolvendo uma amnésia noturna assustadora

recorda-se, em recortes, de dois corpos na praça,

no motel, no táxi e, finalmente, um adeus taxativo,

uma lágrima representando o quanto ela gosta dele

e também o quanto não o quer mais

o terceiro sorriso nunca mais existiu

mas ele se reconforta na temperatura do banho

sabendo que é difícil fazer atentados mártires

depois de trinta minutos de um bom banho quente

e pela enésima vez naquele dia,

sem sorriso, sem açúcar, com café

botou para tocar no youtube

“Simple Twist of Fate”, de Dylan

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Caminho para lugar nenhum da dor

O homem não é nada quando enfermo. Não pisa firme. Infirmu. Em latim ou em português, a dor é sempre cruel. Não tem afirmação nenhuma. Não consegue ser ele mesmo. E nem se reconhece em frente ao espelho. O homem com dor, seja a dor física ou psíquica, perde seus poderes e não serve nem para anti-herói. A dor dói doída. Redundâncias poderiam explicar a dor?

Enganam-se aqueles que pensam que apenas os recém-nascidos não conseguem explicar a dor porque ainda não pronunciam palavra. Afinal, que palavra há para explicar uma dor? Pode-se engolir um dicionário e ainda assim o homem nunca saberá explicar a dor. Pode até dizer onde é a região do sofrimento, onde é que arde, comprime, espreme, queima, fode. A dor fode com a gente. Mas não se pode traduzir em palavra a quantidade do sofrimento que aquela dor está impondo ao reles ser humano, que neste momento não passa de uma criança, de um indefeso, de um vegetal, de um mórbido, de um rato que está prestes a morrer no laboratório.

É nos momentos das dores que as igrejas começam a lotar e que os livros de autoajuda são rapidamente esvaziados das livrarias. E não tiro a razão do homem que, no auge da dor, no auge da insanidade causada pelo sofrimento, pensou que o que lhe restava eram as orações, as mandingas, as preces, as leituras aceleradas e fugazes. Eu mesmo, neste momento, em meio a tantas dores, aprendi a pedir para as questões metafísicas melhoras, alívios imediatos, pelo menos uma trégua com o monstro da dor.

A dor é um monstro implacável, sanguinário e que se alimenta das entranhas do homem. Come as paredes do estômago, os neurônios do cérebro e a metragem da carne sob a pele. Rasga pelos, tecidos e até armaduras de ouro. A dor não respeita ninguém, nem mesmo idade. É democrática a dor: vem para o negro, branco, índio e até para o milionário. Quando chega, a dor tira a paz e promove uma estrada de mão dupla com caminhos sempre negativos: o caminho do ódio ou o caminho da autolamentação. Mesmo optando por qualquer um dos caminhos, ou de repente encontrando atalhos em analgésicos com prazos curtos de eficácia, quem está no caminho da dor nunca chega a lugar algum.

Na dor, tudo é derrota e não adianta chorar, suplicar ou chutar, raivoso, o pé da cama. Resta apenas esperar e tentar não se deixar entregar pela vertigem e até mesmo pela alucinação que só as dores podem causar.

Talvez haja, na dor, um único benefício para o homem fraco: a capacidade de, no próximo dia, no próximo alvorecer, no próximo amanhecer, no próximo mês ou na próxima vida saber valorizar o momento em que a dor resolver passar. É nesse instante mágico que, após a recomposição de todas as forças sugadas pela malfadada dor, o homem finalmente acorda revigorado e pronto para encarar a vida enxergando flores nascendo até em meio ao asfalto, sentindo melhor o gosto do mel e do leite na boca e caminhando com passadas mais firmes, porém tranquilas, para o caminho rotineiro e certeiro, sabendo que, se contar com um pouco mais de sorte nesta vida para não ser acometido pelas enfermidades, pelas dores cretinas, nada poderá impedi-lo de encontrar, se não a felicidade, pelo menos momentos felizes e muita serenidade ao lado das pessoas que o amam reciprocamente.

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A boa da semana: Ovomaltine de caixinha

Já até pensei em criar um blog falando só sobre os produtos que levam a marca Ovomaltine. Paixão antiga, de criança. Tem o sorvete de Mc, o milk-shake do Bob´s, ovo de páscoa e o achocolatado que deixa aquelas bolinhas de chocolate crocantes em cima do leite. O único produto que eu não gostei do Ovomaltine foi uma potinho contendo uma pasta cremosa de avelã (tipo Nutella) sabor Ovomaltine. Cara, tinha gosto de manteiga, ruim pra caramba!

Mas eis que, via email, chega-me o release com a melhor notícia da semana: agora tem Ovomaltine de caixinha de 180ml, tipo Todynho. Bom também! Segundo a assessoria de imprensa dos caras, além do sabor único de Ovomaltine, a caixinha traz 180 ml do produto enriquecido com 10 vitaminas e quatro minerais – Ferro, Zinco, Iodo e Manganês. Bacana hein!

E tem mais: “A tecnologia das embalagens cartonadas da Tetra Pak mantém os produtos frescos, saborosos e nutritivos, sem a necessidade de refrigeração. A praticidade da embalagem também é ideal para o público infantil, já que pode ser levada para qualquer lugar”. Anotou, mãe que está preparando a lancheira do filho?

A bebida, ainda de acordo com o release, é para um público-alvo de crianças entre 4 e 10 anos. Portanto, se assim como eu, tens 11 anos ou mais de idade, não pega bem sair por aí tomando Ovomaltine de caixinha no meio da rua? Uma ova! Leia mais: “o produto também é lançado como opção para jovens e adultos que querem uma bebida láctea saborosa e que os acompanhe na rotina agitada, com sabor muito próximo ao de Ovomaltine misturado ao leite” – ufa!

Mais sobre a fórmula especial do Ovomaltine
Para chegar à fórmula especial, desenvolvida com exclusividade para atender ao paladar do brasileiro, foram realizadas pesquisas junto a consumidores e o resultado não poderia ser melhor: a aceitação do público surpreendeu com 83% dos consumidores mostrando intenção de compra após experimentarem o Ovomaltine pronto para beber.

A pesquisa foi realizada com crianças e mães de São Paulo – as mães relataram o que mais agradou: “além do sabor único de Ovomaltine, o fato de o produto ter 10 vitaminas e quatro minerais”.

“Ovomaltine é uma marca que possui grande versatilidade e isso possibilita sua penetração em diversas categorias. O ‘Ovomaltine na caixinha’ representa uma extensão natural para a marca, já que agora vamos oferecer nosso principal produto de uma maneira mais conveniente, pronto para beber”, ressalta Daniela Paula, Diretora de Marketing de Ovomaltine para Mercados Internacionais.

Desde 1904 fazendo a alegria da molecada
Ovomaltine foi criado no ano de 1904 em Berna, na Suíça, pelo Dr. Albert Wander. A partir do extrato do malte, ele desenvolveu um complemento alimentar para as crianças que tinham carência nutricional. Nomeou então o produto de Ovomaltine, uma combinação dos termos “ovum” (ovo, em latim) e “malt” (malte, em francês).

Em poucos anos, o diferenciado sabor do malte e valor nutritivo fizeram com que o produto se espalhasse por todo o mundo. Atualmente Ovomaltine pertence à Associated British Food (ABF), uma das maiores companhias alimentícias da Europa.

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