Dorival Caymmi



O mar sempre nos espera

Muitas curvas, retas, ultrapassagens e marchas trocadas no carro foram necessárias para se chegar até bem perto do mar. Mas se Maringá ficou para trás, no espelho retrovisor do veículo, as blusas e cobertores foram juntos. O frio estava em todo o lugar, inclusive bem perto do mar. Não houve biquíni, futebol na areia e aquela alegria sentida só pelo fato de se estar à beira mar. Não houve nada disso. Chegamos muito perto do mar, mas não o alcançamos, não tocamos na água salgada, não sujamos os pés de areia, não comemos queijo na brasa, não chupamos picolés de limão, não tomamos refrigerante e cerveja trazidos na caixinha térmica, não lemos um livro debaixo do guarda-sol enquanto outros faziam castelos de areia ou se deixavam levar um pouco pelas ondas do rasinho do mar. Estava frio, estávamos perto do mar e o jeito, ora se não, era pelo menos brindar ao mar comendo de seus frutos (uma tainha de dois quilos na brasa temperada só com sal e limão), pensando em sua imensidão infinita e rememorando as alegrias da Avenida Atlântica em Balneário Camboriú, as canções de Caymmi que inspiraram aquela crônica há um ano e o barco que sempre se quis ter para quem sabe pintar o nome do primeiro filho na parte da fora para todo mundo ver.

Algumas coisas mudaram de um ano para cá. O filho nasceu, cresce a cada segundo e agora já sorri para a gente. Fico pensando no sorriso de Lorenzo quando ele for pela primeira vez na beira da praia, de frente pro mar; queria poder participar deste momento ao lado do meu sobrinho. Quem sabe?

Todo mundo tem ou pelo menos deveria ter o direito de conhecer o mar. A gente vê na TV aquela pessoa simples do sertão, que viveu a vida toda rodeada só por terra, por mato, por vegetação, encontrar-se pela primeira vez com o mar, sentindo o cheiro da maresia, a temperatura da água, o olhar que nunca se acaba para o horizonte distante do mar. Aquilo é uma das traduções que se pode dar para a felicidade, ou pelo menos para um momento feliz. Ondas azuis, barcos ao léu. Piratas, quem sabe? Caranguejos. Pérolas escondidas em conchas mágicas. E quanta sereia que nos faz crer que viver vale sim a pena. É uma coisa bonita que vem e que passa. O balanço. O caminho. O mar!

Gostaria de me lembrar da primeira vez que vi o mar. Provavelmente deve ter sido o mar lá da Praia Grande, Vila Caiçara, litoral paulista, perto de Santos. Deve ter sido. É aquele mar que está retratado em meia dúzia de fotos que recortaram um período, uns dias, umas férias da minha infância, tendo sempre ao lado aquele meu amigo de sempre, um dos únicos, um irmão. Ele aproveitou mais ao mar do que eu. Ele aprendeu a surfar melhor, nadar melhor e, de tanto que ia à praia, conseguiu uma resistência dermatológica melhor do que a branquidão da minha pele, sempre tão protegida por calças e camisetas de gola. O meu amigo foi feito pro mar, pra praia. Ele, um dia, foi branco igual a mim. Hoje sua pele é dourada. Ele aguenta o sol e não liga tanto para o sal da água, para a areia nos pés. Ele continua morando muito perto do mar. Ele se encontra com o mar iluminado de Santos frequentemente. E eu, cerquei-me de outro mar, também imenso: o mar da soja, das plantações, os mares de “Mar-ingá” e região. Mas tá bom. E que bom que temos pelo menos uma saudade para sentir do mar. E sempre a possibilidade de um dia voltar para bem perto do mar. Seja o mar de Santos ou o mar de Santa Catarina. Algum mar sempre está por nos esperar.

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O mar, o homem e o filho*

O homem andou por andar, andou. E parou na beira do mar. Um assovio, os pés descalços na areia. O barulho das ondas. Um aquário gigante e infinito que permite pescar a vida toda. Ele andou por andar e, de tanto andar, encontrou o mar. E de perto dele não quer mais sair. Dorival Caymmi sempre está certo. Um assovio. A bela canção vai começar. O músico está certo: quem vem pra beira do mar nunca mais quer voltar.

E é perto do mar que o homem faz sua história, sua vida. Ao interior, onde o mar é roxo e tem gosto de terra e de soja, palco de sua criação e de seu espichar, voltou só para buscar um amor e logo a levou bem pra perto do mar. Um homem precisa do mar, mas precisa de um amor também para mostrar a beleza do mar.

Vendo boniteza em tudo é que o homem sai para trabalhar. E como é lindo, para ele, acordar e ver o topo de uma serra, lá no alto, que o faz lembrar que o mar está perto. São poucos quilômetros, de carro alguns minutos, uma considerável caminhada a pé, e o mar aponta no horizonte de águas salgadas. O cheiro e a maresia não respeitam fronteiras e chegam a sua casa como marca registrada.

Casa, animais de estimação, amor e trabalho. É isso o que tem na vida. E ele é feliz por tanto andar e finalmente encontrar a paz do viver bem perto do mar. Talvez ainda não saiba, mas é Caymmi quem diz: todo caminho dá no mar.

Para muita gente, a vida é como a onda do mar. Leva. Traz. E um dia o homem que foi pra beira do mar e que nunca mais voltou para o sertão mostrou aos seus amigos uma avenida que a chamam de Atlântica. Da avenida, dá pra ver areia, dá pra ver o mar de Santa Catarina. E dá pra ver o sorriso da moça bonita que passa. E dá pra ver a vida que pulsa em tons de jovialidade naquela turma de rapazes. Dá pra ver, da avenida Atlântica, na beira do mar, que todos nunca mais querem voltar.

O homem, quando se está perto da beleza litorânea, perto do mar que quando quebra na praia é bonito é bonito, começa a sonhar mais alto. Ele olha pra imensidão aquática, olha pra liberdade existente só naquele aquário de Deus e fica sonhando acordado com um barco. Mas logo se lembra dos dois amores que tem o pescador. Ah, grande Caymmi. Ele quer pescar (uma forma de estar conectado com o mar), mas quer ficar juntinho também com o bem da terra, que fica na beira da praia, chorando baixinho de saudade fingindo não chorar.

Nessas idas e vindas, nesse leva e traz das ondas, ora estando mais perto dela ora estando mais perto dele, do mar, ele segue a vida e, mesmo com as dificuldades que parecem querer provar que nada ainda está ganho, ele não sente dificuldades em sorrir.

O mar é doce. Mas deixa saudades. E, ainda que perto, às vezes pode ficar muito longe. É por uma boa causa. Neste mês de julho, completam-se nove meses que ele não vai pra beira do mar. Mas há dois amores (ou agora seriam três?)! Noites frescas em uma casa que fica bem perto do mar, o doce mar. E a vida também é doce. E pode ser sempre melhor. E é isso o que pensa o homem. A vida pode ser sempre melhor, ainda mais na beira do mar. Ele não desistiu do barco, continua sonhando acordado. Talvez mande pintar nele o nome do seu primeiro filho e futuro parceiro de pescaria: Lorenzo.

*Crônica publicada dia 5 de julho na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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