entrevista



‘O leitor é um grande mistério’, diz Hatoum

Estreia segunda-feira (9) a minissérie da Globo “Dois Irmãos”, inspirada em romance homônimo de Milton Hatoum. Um dos autores em atividade mais respeitados do País respondeu três perguntas sobre a série, o livro e leitores:

Por que “Dois Irmãos” tem atraído tantos projetos artísticos que extrapolam as páginas do livro?
Não sei dizer o que motivou adaptações para o teatro, HQ e minissérie, mas deve ter algo a ver com a trama do romance, o modo de narrar e a linguagem. Um drama familiar em contraponto com a decadência de Manaus num período de brutalidade da história brasileira recente. O mais relevante numa ficção é a forma de narrar. E o narrador do “Dois irmãos” não pertence à família de imigrantes libaneses. Nael é um agregado, um personagem que veio de baixo, filho de uma empregada, uma índia que trabalha para sobreviver. Ele consegue estudar graças ao avô (Halim) e os estudos dão a ele a capacidade de refletir e escrever sobre o passado. O narrador não sabe quem é seu pai. Talvez esse drama moral, a paixão de Zana (mãe dos dois irmãos) por um dos filhos e outros conflitos tenham atraído a atenção dos leitores. Mas o leitor é também um grande mistério.

Essas possibilidades que cercam a literatura aproximam as pessoas dos livros?
Acho que aproximam. Sei que vários leitores da adaptação do Fábio Moon e do Gabriel Bá leram também o “Dois irmãos”. Certamente isso está acontecendo ou vai acontecer com os espectadores da minissérie.

Como o senhor se sente quando vê a sua obra sendo utilizada em outras artes, como a dos quadrinhos e da teledramaturgia?
Foi um golpe de sorte ou uma feliz fatalidade. Os artistas gráficos são excelentes, assim como a direção de Luiz Fernando Carvalho, o roteiro da Maria Camargo, os atores, figurinistas e toda a equipe da minissérie. Fico contente em compartilhar com esses artistas a história e a linguagem de um romance a que dediquei quase dez anos da minha vida. Na verdade, eles não adaptaram, e sim recriaram a essência do romance em outra linguagem. Penso que meus leitores gostaram dos quadrinhos e vão apreciar a beleza visual da minissérie.

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Entrevistão com Laurentino Gomes

Laurentino Gomes, em Itu (SP): "A escravidão é um fantasma que nos assombra até hoje porque nos recusamos a estudá-lo e  encará-lo mais a fundo"

Laurentino Gomes, em Itu (SP): “A escravidão é um fantasma que nos assombra até hoje”

Por Wilame Prado

A história que começa com a transferência da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, e que culmina com a Proclamação da República Brasileira, em 1889, também desperta imenso interesse ao público leitor de Portugal. Foi do país-irmão que, gentilmente, o escritor maringaense radicado em Itu (SP) Laurentino Gomes – best-seller com a trilogia que narra boa parte do século derradeiro de colonização portuguesa – concedeu entrevista contando sobre o seu novo e ousado projeto: dissecar a escravidão no Brasil em uma nova trilogia de livros-reportagem, a ser publicada a partir de 2019.

Entre um lançamento e outro, uma palestra e outra, percorrendo por Lisboa, Vila Real, Porto e Belmonte, Gomes encerrará a sua expedição lusitana em 28 de maio, retornando ao País no dia 30. Pretende começar imediatamente o seu novo projeto literário. E pode parecer um tempo longo (quatro anos) para lançar o primeiro dos três livros sobre escravidão, mas quando o escritor e jornalista comenta sobre o seu processo criativo e de pesquisa, há de se entender o motivo pelo prazo esticado.

“Começarei pela vasta bibliografia sobre o assunto. São centenas de livros já publicados, no Brasil e no exterior, o que me obriga a ser muito seletivo para não correr o risco de passar o resto da vida só na pesquisa, sem nunca escrever nada. Depois vem a fase da reportagem, com visitas aos locais relacionados à história da escravidão, o que inclui os portos negreiros na África e os pontos de desembarque, comercialização e trabalho dos escravos no Brasil. Também pretendo entrevistar historiadores e outros estudiosos em museus e centros de pesquisas sobre o tema”, explica ele.

Para o maringaense, que confirmou a sua presença na 2ª Festa Literária de Maringá (Flim) em outubro – quando será um dos homenageados – a escravidão é o acontecimento mais marcante da história brasileira, mas ainda mal explorado pela historiografia. Por meio da linguagem acessível e do aprofundamento dos fatos permitidos pelo livro-reportagem, Gomes pretende, mais uma vez, fazer jus aos fatos históricos desse capítulo que explica consideravelmente as injustiças irrecuperáveis para com os negros no País.

Como está sendo a recepção de “1889” aí em Portugal, país totalmente envolvido nesta história? Lançou o livro em quais cidades e quando retornará ao País?

LAURENTINO GOMES – A repercussão tem sido a melhor possível. Já havia lançado aqui os dois primeiros livros, “1808” e “1822”, mas nunca a acolhida tinha sido tão calorosa quanto agora, com “1889”. Tenho observado muito entusiasmo e uma torcida muito grande entre os leitores portugueses com os quais me relaciono nas redes sociais. O circuito de lançamentos inclui palestras, entrevistas e bate-papos com leitores em quatro cidades portuguesas: Lisboa, Vila Real, Porto e Belmonte. Começa com um evento de apresentação na Casa da América Latina, em Lisboa, e termina também em Lisboa com uma sessão de autógrafos na Feira do Livro, no dia 28 de maio. Retorno ao Brasil no dia 30.

Por que escolheu Itu para morar?
Moro em Itu há seis anos. Escolhi essa cidade pela localização, próxima a São Paulo, Campinas e Sorocaba, e também pela qualidade de vida. Minha casa fica em um condomínio muito bonito e arborizado, na zona rural do município. É uma paisagem que, em muitos aspectos, me lembra a região de Maringá, onde nasci. Além disso, Itu é uma cidade histórica, com mais de quatrocentos anos de fundação e papel decisivo em alguns episódios como a Independência e a Proclamação da República. É, portanto, um bom lugar para viver e escrever.

Por que resolveu investir, agora, em reportagens sobre a escravidão?
Essa é uma ideia que foi crescendo ao longo da trilogia “1808”, “1822” e “1889”. Nos três livros eu tratei bastante da escravidão. Quando a corte de Dom João chegou ao Rio de Janeiro, em 1808, de cada três brasileiros um era escravo. O tráfico negreiro era na época o maior negócio do Brasil e, talvez, até de Portugal, mobilizando milhares de pessoas e centenas de navios nas costas nos dois lados do Oceano Atlântico. Os homens mais ricos do Rio de Janeiro eram todos traficantes de escravos e foram os que mais deram contribuições à corte portuguesa, tanto com dinheiro quanto com apoio político. Na Independência, o Brasil rompeu os vínculos com Portugal mas manteve inalterada a situação social até então vigente. Uma tentativa de José Bonifácio de Andrada e Silva de acabar com o tráfico negreiro foi um dos motivos para o fechamento da Constituinte, em 1823. Há uma sensação de orfandade da Independência brasileira porque os escravos viram que as ideias libertárias defendidas pelos brancos na época não os incluíam. O Brasil foi o último País do hemisfério ocidental a acabar com o tráfico, em 1850, e o também o último a abolir a escravidão, em 1888. A principal consequência foi a queda da monarquia e a Proclamação da República no ano seguinte. Tudo isso foi me convencendo de que era preciso escrever uma nova trilogia tratando a escravidão.

Em seu ponto de vista, a historiografia brasileira peca nas pesquisas sobre escravidão?
Acredito que sim. Esse é um tema ainda muito mal tratado na historiografia brasileira, repleto de preconceitos e distorções. Eu acredito que esse seja o tema mais importante de toda a História do Brasil. Tudo o que nós já fomos, somos hoje e seremos no futuro gira em torno das nossas raízes africanas e do uso da mão de obra cativa. Sem a escravidão o Brasil de hoje simplesmente não existiria. Foi a maneira encontrada por Portugal para ocupar e explorar uma colônia 91 vezes maior, em extensão geográfica, do que a pequenina metrópole. As consequências são profundas. Joaquim Nabuco dizia que não bastava abolir a escravidão, era preciso também educar, dar terras e oportunidades para os ex-escravos, de modo a incorporá-los na sociedade brasileira como cidadãos de plenos direitos. Isso jamais aconteceu. Basta ver as estatísticas atuais sobre as diferenças de tratamento e oportunidade entre negros e brancos em todos os níveis e aspectos da sociedade brasileira, e também a polêmica que envolve políticas públicas como as cotas para estudantes negros nas escolas e universidades. A escravidão é, portanto, um fantasma que nos assombra até hoje porque nos recusamos a estudá-lo e encará-lo mais a fundo.

O que poderia citar da bibliografia e mesmo de filmes que tratam este tema?
O Brasil foi o maior território escravagista do hemisfério ocidental. Recebeu entre 40% e 45% de todos os doze milhões de escravos que, segundo as melhores estimativas, foram trazidos para a América nos primeiros 350 anos da colonização. Apesar disso, a produção cultural brasileira relacionada a escravidão é ainda relativamente modesta quando comparada, por exemplo, com a dos Estados Unidos. O número de filmes, minisséries, documentários e obras literárias sobre a escravidão no mercado norte-americano é enorme, embora os Estados Unidos tenham recebido somente 7% dos cativos africanos. É hora de tentar corrigir essa desproporção. Há uma produção acadêmica razoável no Brasil sobre o tema, e também cultural – como o celebrado filme “Chica da Silva”, com Zezé Mota – mas ainda há muito o que fazer. Meu objetivo, com essa nova trilogia, é menos abrir novas frentes de pesquisas e mais tornar esse assunto mais popular e acessível a leitores que nunca se interessaram muito por ele.

Assistiu “Doze Anos de Escravidão”? Gostou? Acredita encontrar histórias interessantes como aquelas em sua pesquisa?
Gostei muito de “Doze Anos de Escravidão”, mas no Brasil nós temos histórias ainda melhores, que poderiam ter rendido bons filmes e, quem sabe, até um Oscar. Um exemplo é a biografia do abolicionista Luis Gama. Filho de uma negra livre com um fidalgo português, o mulato Luiz Gama viveu na pele as injustiças da escravidão. Era ainda uma criança de dez anos quando seu pai, às voltas com dificuldades financeiras, não teve pudores de vendê-lo como escravo para um comerciante do Rio de Janeiro. Levado mais tarde para Campinas, interior de São Paulo, fugiu do cativeiro, estudou Letras como um autodidata e tornou-se um rábula – praticante da advocacia sem diploma universitário. Era um homem ousado e corajoso. Sozinho conseguiu libertar mais de mil escravos. Em um famoso processo de 1870, defendeu um escravo que matara o seu senhor. Seu argumento assustou os fazendeiros: todo cativo que mata o seu dono age em legítima defesa. Por defender posições como essa, Gama recebia ameaças de morte e andava armado. Faleceu vítima de diabetes em 1882, aos 52 anos, sem ver a sua obra coroada. Para mim, essa história é melhor do que a do personagem de “Doze Anos de Escravidão”.

Você é a favor de cotas raciais? O que pensa sobre o argumento de quem é a favor das cotas, afirmando de que se trata de uma dívida do País para com os negros?
Sou a favor das cotas raciais, ainda que não sejam a solução ideal nem a mais popular para o problema. Acredito que a escravidão é um passivo que o Brasil não conseguiu até hoje corrigir. A escravidão foi oficialmente abolida em pela Lei Áurea de 13 de maio de 1888, mas os ex-cativos acabaram abandonados à própria sorte. O Brasil nada fez para promovê-los à condição de cidadãos. O resultado é uma tragédia humana e social de dimensões gigantescas. O cinturão de pobreza e de violência que hoje se observa na periferia das metrópoles brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, é ainda herança do nosso passado escravocrata. Uma sociedade nacional é um pacto que se projeta no futuro. Se uma geração não faz o que deve ser feito, as gerações seguintes terão de assumir a tarefa de corrigir os problemas. Portanto, mesmo hoje, mais de um século após a Lei Áurea, está em nossas mãos enfrentar a tarefa de corrigir esse passivo. A política das cotas raciais pode ser polêmica e até injusta em muitos aspectos, mas é talvez a primeira tentativa séria e concreta que o Brasil faz para enfrentar essa herança mal resolvida.

Sobre terminologia, qual a correta ou qual prefere: negro, preto, afrodescendente?
Para mim, tanto faz. Tenho certa aversão aos modismos politicamente corretos que tentam resolver passivos históricos por meio da semântica e do vocabulário em lugar de políticas públicas concretas. O que adianta ser bacaninha no vocabulário e chamar os negros de afrodescendentes se, na prática, eles continuam a ser discriminados e violentados todos os dias? Eu uso nos meus textos a expressão negros, que, acredito, seja de aceitação mais geral, mas realmente não me preocupo muito com terminologias, desde que elas tenham significado real para os meus leitores.

Pretende focar na macro-história ou na micro-história da escravidão?
As duas coisas. Nos três livros vou explicar como nasceu o tráfico de escravos da África para as Américas no Século 16, qual a diferença da escravidão no período colonial dos tempos antigos em Roma e na Grécia, também vou descrever como era o negócio do tráfico, as viagens dentro de um navio negreiro e o trabalho dos escravos nas lavouras de açúcar e café. Tudo isso é macro-história. Mas, obviamente, vou jogar luz em personagens e acontecimentos muito particulares, como a história de Zumbi dos Palmares, e contribuição dos africanos para as nossas raízes culturais, como o Carnaval, o Samba e o Candomblé, com seus astros da música pop e seus pais de santo, o que já resvala na micro-história. A fórmula é, portanto, muito semelhante aquela que já usei nos três livros anteriores.

É verdade que nos brindará com a sua presença na 2ª Festa Literária de Maringá (Flim), a ser realizada em outubro na cidade?

Sim, estou muito honrado com a decisão dos organizadores da Flim de me incluir entre os escritores homenageados da edição deste ano. Existe um velho ditado, extraído das Escrituras, segundo o qual ninguém faz sucesso na própria terra em que nasceu. Felizmente, isso não acontece comigo. Desde que lancei o livro “1808”, Maringá tem me prestado todas as homenagens possíveis, incluindo o título de Cidadão Benemérito do Município. Então, nada tenho que reclamar. Estarei aqui todos os dias da Flim 2015 e procurarei participar com alegria e gratidão de todos os eventos programados pelos organizadores.

Vem muita a Maringá, ou é difícil?
Vou sempre que posso a Maringá. Dois dos meus quatro irmãos ainda moram aí. Geralmente passo o Natal na casa de um deles. Meu programa favorito, quando estou na cidade, é caminhar de manhã em volta ao Parque do Ingá. É onde aproveito para rever amigos e ex-colegas de escola ou de trabalho.

Pretende escrever ficção um dia?
Por enquanto, não me animei a escrever ficção. Maringá tem excelentes romancistas, como os premiados Marcos Peres e Oscar Nakasato. Eu não sei se teria talento para me aventurar nesse gênero literário. Prefiro ficar nos livros-reportagem, um termo que eu conheço e domino relativamente bem.

E voltar ao jornalismo, em revistas, impressos?
Eu já trabalhei mais de trinta anos em redações de jornais e revistas e fiz quase tudo que era possível experimentar nesse ambiente. Aprendi muito como repórter e editor. O que sei fazer isso no mundo dos livros vem dessa época. Agora prefiro continuar sendo escritor. Na verdade, eu não deixei de ser jornalista. Apenas mudei de formatos. Antes fazia jornais e revistas. Agora, faço livro-reportagens. Mas a profissão e também o meu amor por ela continuam os mesmos.

O sucesso ensina alguma coisa aos escritores? Pergunto isso fazendo referência ao tremendo sucesso que a sua primeira trilogia fez e continua fazendo.
Sim, hoje eu encaro o meu trabalho com um senso de humildade que não tinha antes. Quando o primeiro livro entrou na lista dos best-sellers e começou a vender centenas de milhares de exemplares, confesso que fui tomado por uma mistura de susto e vaidade. Isso felizmente passou. Agora entendo que todos nós temos vocações e missões que precisam ser assumidas e exercitadas com respeito, dedicação e também gratidão. Ser escritor é, para mim, uma grande graça recebida de Deus. Continuar a escrever é uma forma de me curvar a sua vontade, em benefício dos outros seres humanos que me acompanham nessa jornada. Não por acaso, os livros têm tido um papel importante na área de educação. Portanto, já não me assusto nem me envaideço mais. Apenas caminho.

Há algum fundamento nas críticas partidas principalmente de historiadores, que dizem haver pouca profundidade em suas propostas de livro-reportagem?
Essa crítica já foi mais forte no passado. Hoje, uma boa parte dos historiadores, especialmente aqueles que eu mais admiro, já entenderam que o meu papel não é banalizar ou desqualificar o estudo de História, mas contribuir para o aumento do interesse por essa disciplina. Acredito também (e acho que já disse isso em uma entrevista ao Diário) que historiadores e jornalistas têm muito a aprender uns com os outros. Historiadores podem ensinar aos jornalistas método e disciplina na pesquisa. Os jornalistas, por sua vez, tem contribuição de linguagem e estilo a dar no ensino e na divulgação do conhecimento da história. O Brasil está mudando rapidamente, para melhor, em quase todas as áreas – e isso não é mérito individual de nenhum governo. É resultado do exercício continuado da democracia por quase três décadas, uma experiência inédita em nossa história. Estamos colhendo, finalmente, os frutos da participação de todos os brasileiros na construção da nossa própria história. Hoje temos, entre outras melhorias, mais renda, mais empregos, mais educação e oportunidades do que trinta anos atrás. Uma das consequências é o aumento no número de leitores e o crescimento do mercado editorial brasileiro. Há novos leitores entrando nesse mercado, o que impõe novas responsabilidades para nós, escritores, editores e distribuidores de livros. Temos de ser generosos com esse novo leitor, de modo a atrai-lo definitivamente para o fascinante mundo dos livros. O grande desafio é ampliar o interesse do público pela História sem banalizar o conteúdo. Essa é uma linha tênue e perigosa. Se o autor ficar só na superfície e na banalidade, o livro não oferecerá contribuição alguma, será irrelevante. Se, ao contrário, der um mergulho muito profundo, não conseguirá prender a atender desse leitor menos especializado. Mas entendo também que esse é o desafio permanente do bom jornalista.

Após pesquisar tanto o nosso Brasil, consegue encontrar algumas respostas para o que acontece hoje especialmente na política e no modo como a corrupção parece ser sistêmica no País?
Basta ler o noticiário todos os dias para perceber que o Brasil tem uma república mal-amada. Os brasileiros não se reconhecem na sua república porque o regime, ao longo de mais de um século, falhou em cumprir muitas de suas promessas, incluindo o combate à corrupção. Muito do que ocorre hoje no Brasil, incluindo as manifestações de rua, tem raízes nessa distância entre as promessas e os sonhos republicanos. O brasileiro participou pouco da construção do Estado Nacional. Por isso, essa sensação de estranheza entre Estado e sociedade que se observa hoje. Os brasileiros não se reconhecem no que está em Brasília. Querem um País melhor, mais eficiente, mais ético e menos corrupto. Acredito que isso seja também resultado de uma experiência inédita na nossa história, que são os quase trinta anos de democracia, sem rupturas. A Campanha das Diretas de 1984 poderia ser considerada uma segunda Proclamação da República, promovida não pelos quartéis mas pelas ruas. As manifestações de rua fazem parte dessa nova equação política em que o povo brasileiro reivindica, finalmente, o direito de participar ativamente da organização do futuro, incluindo o combate à corrupção. É uma jornada difícil e tortuosa, às vezes até assustadora, mas não existe outra forma de construir um País no qual todos os seus cidadãos se reconheçam.

Após conhecer tanto do nosso passado, consegue encontrar algumas possíveis respostas para a resolução de nossos problemas?
Acho que não devemos perder as esperanças em um Brasil melhor. As pessoas estão, de fato, muito frustradas e chateadas com os rumos atuais da política brasileira. Duas grandes tentações nos ameaçam no futuro próximo. A primeira é o cinismo que diz ‘tudo mundo rouba, então eu também posso roubar’ ou, em outra versão, ‘no passado todos roubaram, por que eu não posso roubar agora?’ Esse tipo de argumento é inaceitável porque nos leva a segunda tentação, segundo a qual ‘o Brasil seria ruim por natureza, corrupto, violento e desigual. Por isso, não adianta lutar porque o País não tem jeito’. Então, o melhor seria nos acomodarmos na situação atual e seguir em frente. Isso seria jogar a toalha e abrir mão dos nossos próprios sonhos. Não podemos desistir. A jornada rumo a um Brasil melhor, mais justo e mais honesto será longo e difícil, mas nós temos de fazer parte dela com todas as nossas forças e convicções. Esse esforço começa dentro de casa, nas escolas, nas empresas, nos relacionamentos pessoais e em todos os aspectos das nossas vidas públicas e privadas. Acredito que o Brasil tem jeito, sim, e pode melhorar. A maioria das pessoas que conheço são honestas, corretas, trabalhadoras e bem intencionadas. Se somos assim na maioria por que o País também não poderia ser?

*Parte da entrevista publicada nesta terça-feira no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Fim do Projeto Um Outro Olhar: ‘Estou cansado’, desabafa Campagnolo

Campagnolo em cena: mesmo com os trabalhos nos palcos, revela poder voltar com projeto de cinema

Campagnolo: 2015 será teatral, mas ele revela poder voltar com projeto de cinema (Foto de Ademir Kimura)

Por Wilame Prado

Mesmo longuíssimo, o filme “Satantango” (exibido em Maringá em 2011 graças ao Projeto Um Outro Olhar), do húngaro Bela Tárr e que tem sete horas e meia de duração, tem um fim.

Uma das iniciativas envolvendo cinema mais marcantes de toda a história da cidade, o Projeto Um Outro Olhar, foi assim também: longo, mas com começo, meio e fim. No último dia 8 de novembro, quando o projeto completava 14 anos, no Sítio Kimura, o idealizador Paulo Campagnolo, 50, natural de Cascavel e radicado há alguns anos na Zona 7 de Maringá, abaladamente emocionado, comunicou o fim daquele que foi um dos programas mais “cabeças” que Maringá já viu nos últimos anos, por sábados a fio.

Ver a mais um cultuado filme na sessão noturna do projeto – que já percorreu por cinemas de shoppings e que, nos últimos anos, era exibido no Auditório Hélio Moreira – sempre sob curadoria de Campagnolo – amante da sétima arte, ator, diretor e escritor – era programa certo para um bom público. Após a exibição, que procurava ser pontual (poderia até ser filho do prefeito, mas, se chegasse atrasado, simplesmente não entrava), havia uma palestra do próprio coordenador do projeto, que, após optar por este ou aquele filme, munia-se de muito estudo acerca da obra e do autor, não sem antes ter assistido a uma infinidade de filmes para a sua escolha.

O cansaço pelo árduo trabalho com o projeto por anos ininterruptos, aliado a uma declarada decepção com o cinema contemporâneo, foram alguns dos principais motivos pelos quais Campagnolo, em quase uma semana de bate-papo via e-mail, declarou ter encerrado o Projeto Um Outro Olhar. No total, calcula ele, foram mais de 100 mil participantes, cerca de 1.200 filmes exibidos, centenas de resenhas publicadas neste caderno Cultura, algumas amizades alicerçadas e a honra de ter exibido verdadeiras preciosidades cinematográficas: “Cito dois filmes que me arrebentam emocionalmente: o clássico ‘Dois Destinos’, de 1962 (do italiano Valerio Zurlini), e o contemporâneo ‘Bom Dia, Noite’, de 2005 (também do italiano Marco Bellocchio).”

Na entrevista, a reportagem aproveitou para indagá-lo sobre os projetos que certamente consumirão a maior parte de seu tempo em 2015, quase todos relacionados à labuta teatral. E ao público que ficou órfão de cinema de qualidade com o fim do projeto, uma notícia boa e outra ruim. Primeiro, a boa: Campagnolo pode voltar com novos projetos de cinema; e agora a ruim: ele não divide por nada a sua invejável coleção de seletos quatro mil filmes devidamente guardados dentro de casa. Abaixo, a entrevista:

Após 14 anos, por que resolveu encerrar o projeto de cinema Um Outro Olhar?
PAULO CAMPAGNOLO – O Projeto Um Outro Olhar começou, no ano 2000, de uma forma muito inesperada para mim. Nem se tratava de um sonho, porque na verdade jamais sonhei com a possibilidade de que pudesse acontecer. Mas aconteceu, graças ao empenho do Gilmar Leal Santos (na época, um dos sócios dos cinemas do Shopping Aspen Park, que, depois, se transformou no Cinesystem e, enfim, no Cineflix hoje). E ele me pediu um projeto de exibição de filmes “alternativos” e a coisa toda aconteceu de uma maneira muito rápida e, devo dizer, profundamente transformadora para a minha vida. De repente, vi-me cercado de latas de película (portanto, verdadeiras, palpáveis, concretas) de filmes que fizeram parte da minha infância e adolescência e que, ainda por cima, fazem parte da história do cinema. Filmes como “Gritos e Sussurros”, do Bergman (o filme inaugural do Projeto, com uma sala lotada por mais de 200 pessoas que, é claro, jamais voltaram – com a exceção de algumas poucas); “O Leopardo” e “Rocco e Seus Irmãos”, do Visconti; “A Malvada”, do Joseph L. Mankiewicz; “Casablanca”, do Michael Curtiz; “Noites de Cabiria” e “Ensaio de Orquestra”, do Fellini; “O Morro dos Ventos Uivantes” (numa cópia péssima, mas que arrebatou todo mundo), no William Wyler; “Saló”, do Pasolini (que fez muita gente sair correndo da sessão), e tantos outros. E sem contar os filmes contemporâneos, distribuídos bravamente por pequenas empresas e que, aqui em Maringá, pouca gente viu, lamentavelmente. Quer dizer, era uma coisa de louco. E o louco era eu. Eu mal me aguentava nas pernas ao fazer os debates. Mal sabia do que estava falando. Achava mesmo que nem era preciso falar. Mas a proposta assim era. Então, os tempos mudaram. E quando penso nessas mudanças, a impressão que tenho é que foram tão violentas e abruptas que mal tive tempo de assimilá-las. E o cinema mudou tanto. Hoje creio ser possível contar nos dedos os cineastas que realmente realizam obras de relevância. Então o tempo foi passando e essa perspectiva nada agradável de que o cinema “incorporava” alguns desses sintomas tão precários da “experiência contemporânea” foi me dando nos nervos. E isso provocou um cansaço enorme porque, em alguns momentos (muitos, na verdade), eu acabava por assistir a uma penca de filmes (uns 40 ou 50, por vezes) para escolher apenas um para ser exibido. Esse trabalho foi ficando árduo principalmente porque com o tempo o Projeto foi assumindo um caráter muito político e ficava difícil, ou impossível, exibir qualquer coisa. E, depois, a vida, os outros projetos (teatro, literatura), acabaram por pedir mais a minha participação e, enfim… O cansaço. O Projeto acabou por tomar por demais o meu tempo. E como já não sou mais jovem, acabei por pedir “um tempo” nessa relação tão conturbada, tão difícil e, ao mesmo tempo, que me deu tantos momentos absolutamente loucos e maravilhosos.

Em todo esse tempo, tem ideia de quantas pessoas passaram por suas sessões? E o público mais fiel, aquele que você chegou a marcar rostos e nomes, era formado por quantos bravos?
Sempre fiz cálculos arredondando para menos. Porque o Projeto passou por fases bem complicadas. Mas, segundo esses cálculos, penso que mais de 100 mil pessoas frequentaram o Projeto. Quanto ao público fiel é muito difícil precisar o número. O Projeto sempre teve fluxos e muita gente frequentou durante muito tempo, depois sumiram e vieram outros. Porém, alguns muito loucos tiveram uma frequência mais regular. Alguns tornaram-se meus amigos em vida, muitos outros tornaram-se afetos conquistados e pelos quais tenho uma tremenda admiração e respeito.

Ainda sobre números, tem ideia de quantos filmes no total foram exibidos? Consegue imaginar a quantidade de horas dedicadas à apreciação e discussão fílmica?
No total, foram quase 1.200 filmes – alguns, hoje, eu nem exibiria. Não por serem ruins, mas trata-se desse caráter que o Projeto assumiu ao longo dos anos. Quanto ao tempo dedicado a isso tudo, é melhor que eu nem saiba mesmo. Muito tempo. Mas os debates, por mais que em muitos momentos eu quisesse “tomar conta”, sempre foram muito divertidos e muitas coisas alucinantes aconteceram nesses debates. Creio que daria um belo livro essa coisa dos “bastidores do Projeto”. Estou pensando nisso.

Qual o melhor e o pior filme exibidos durante o projeto, em seu ponto de vista?
Essa é uma pergunta muito complicada. Como você elege uma coisa como sendo a melhor ou a pior assim, de supetão? Como você compara filmes como “Aurora”, do Murnau, “O Ano Passado em Marienbad”, do Resnais, “A Marca da Maldade”, do Orson Welles, e mesmo um contemporâneo fabuloso como o gigantesco (7 horas e meia de duração) “Satantango”, do húngaro Bela Tárr, ou o “Berlin Alexanderplatz” (com mais de 15 horas), do Fassbinder, e o “Decálogo” (com quase dez horas) do Kieslówski? Talvez uma maneira de responder a essa pergunta seja apelando para questões como “honestidade”, importância histórica, relevância formal e tantas outras coisas. Em alguns momentos, é claro, tive de fazer certas concessões, mas não saberia dizer realmente qual foi o pior filme. Quanto ao melhor, tudo não passa de uma questão pessoal e muito emocional, penso. Então cito dois filmes que me arrebentam emocionalmente: o clássico “Dois Destinos”, de 1962 (do italiano Valerio Zurlini), e o contemporâneo “Bom Dia, Noite”, de 2005 (também do italiano Marco Bellocchio).

Nesse tempo, algo lhe aborreceu? Se arrepende de alguma coisa?
Todo aborrecimento acabou se transformando em mitologia. Aconteceram coisas muito estranhas. Pessoas que reagiram muito mal a alguns filmes e que, até mesmo, quiseram me bater. Acho isso tão engraçado hoje. Sobre arrependimentos, talvez se eu tivesse feito de outra forma… talvez se tivesse exibido tal e tal filme… talvez se não tivesse tanta insegurança. E assim vai. Mas, no fundo, é aquela velha história: você tem de tentar fazer o seu melhor.

Qual a lembrança mais bonita de algum acontecimento durante todos esses anos de projeto?
Tantas lembranças incríveis e que eu considero muito loucas. Por exemplo: quando eu fazia a programação e colocava alguns filmes eu pensava “porra, nesse aqui não vai ninguém!” E, então, acabava acontecendo justamente o contrário. Era uma coisa muito estranha e eu nunca entendi ao certo. Tenho as mais lindas emoções guardadas para certas exibições que eu julgava que não “funcionariam”. Eis que programo “O Atalante”, de Jean Vigo – um filme de 1934, uma maravilha para o qual as palavras talvez resultem em tremendas bobagens. E, naquela noite, não para de chegar gente. A sala ficou lotada e aquilo foi me dando uma coisa e eu queria perguntar pra cada uma daquelas pessoas (muitas eu jamais havia visto no Projeto): por que você veio ver este filme, justo este filme? E assim foi com a primeira exibição, também, do descomunal “A Palavra”, do Carl Dreyer. Talvez esse tenha me dado o maior dos arrepios que já senti na minha vida e quem conhece o filme vai me entender. Quando está chegando o final do filme e teremos, então, uma das cenas mais belas e emocionantes de toda a história do cinema, eu entrei na sala. E pude, assim, “sentir” a reação do público a essa tão milagrosa cena. Foi uma das coisas mais belas da minha vida. Aquele “ahhhh” em uníssono, na sala lotada. Senti um orgulho tão grande de pertencer a essa raça, a humana, capaz de tantos horrores, mas capaz de tantas coisas belas que podem mesmo nos dar uma dimensão do nosso lugar no mundo. Mas foram tantos momentos bonitos que minha vontade, agora, é curvar-me ao público para agradecer pelo mais elementar dos gestos: esse, de se fazer humano na sua inegável possibilidade de ser gentil, afetuoso, apto para o humanismo e a ética num mundo tão devastado pelo egoísmo.

Qual o legado deixado pelo Projeto Um Outro Olhar a Maringá?
Penso que, em primeiro lugar, foi uma oportunidade das pessoas darem uma “bisbilhotada” nas cinematografias chamadas “periféricas” e de assistirem alguns dos maiores clássicos do cinema. Alguns não sabiam exatamente o que estavam fazendo ali e jamais voltaram – esses eu tenho de considerar uns imbecis, lamentavelmente. Os outros, de alguma forma, foram “percebendo” coisas e, quando se deram conta, já estavam “entregues”, ou “debruçados” sobre este “novo” universo cinematográfico que se mostrava diante deles. Muita gente, com o tempo, chegou pra mim e disse: “Paulo, não consigo mais ver esses filmes comerciais que eu assistia antes”. E eu ficava apavorado, é claro. Pensava: “Cara, o que você está fazendo com essas pessoas?” Mas, depois, me tranquilizava: “não é você, são os filmes”.
Mas creio que quem deva falar mesmo sobre o legado do Projeto tenha de ser o público.

Mesmo com tantos projetos engatilhados ou sendo executados na área do teatro, o cinema continua sendo a grande paixão?
O cinema nunca foi uma paixão. O cinema é um AMOR imenso. É a minha primeira referência, na infância quando eu via na TV (vejam, eu tenho 50 anos) os filmes com a Greta Garbo, o Marlon Brando, a Bette Davis (eu adorava a Bette Davis), e o Hitchcock, o Sean Connery, o Errol Flynn (meu deus, que homem lindo! Eu pensava), o Clark Gable, os westerns, os melodramas do Douglas Sirk. Depois veio a literatura. Quando eu tinha 14 anos eu li “Crime e Castigo” e juro que pensei: que m… é essa? Tão louco eu fiquei. E no cinema fui pela primeira vez aos 6 anos de idade ver “Era Uma Vez no Oeste”, do Leone. Aquilo me deixou louco. Tinha um cinema na minha cidade que exibia, em matinée, os clássicos. Eu ficava encantado com aquilo, com os filmes em preto e branco, com a Ingrid Bergman e o Humphrey Bogart em “Casablanca”, o James Stewart e a Kim Novak em “Um Corpo Que Cai” – cheguei a ver “Lolita”, do Kubrick, e “Psicose”, do Hitchcock no cinema… quem poderia imaginar isso hoje? Então, é uma coisa sobre a qual nem posso falar direito. Claro que vi muita besteira. Eu vivia no cinema. Assistia tudo. Minha mãe achava estranho, mas mesmo assim eu insistia. Fiquei numa fila quilométrica para ver o “Guerra nas Estrelas”, do George Lucas, e “Tubarão”, do Spielberg, e “Lúcio Flávio”, do Babenco. E, quando a ditadura militar arrefeceu e pudemos ver, finalmente, os “filmes proibidos”, quase enlouqueci. Imagina ver, no cinema “O Último Tango em Paris”, do Bertolucci, “O Império dos Sentidos”, do Oshima, os filmes políticos do Costa-Gravas, o “Saló” do Pasolini, “O Porteiro da Noite” da Liliana Cavani, o maravilhoso “Iracema, Uma Transa Amazônica” do Jorge Bodanzky e Orlando Senna e “Laranja Mecânica” do Kubrick (com as infames bolinhas pretas nas genitálias dos atores, num primeiro momento), entre tantos outros. Que festa! Depois vieram os filmes de sexo explícito. E eu e algumas amigas do colégio de freiras onde estudávamos, pulávamos os muros e íamos nos “divertir”. Aquela “abertura” foi tão libertária. O cinema passava a ser “a liberdade”. Foi um momento lindo da minha vida. Um momento que só posso mesmo comparar com o Projeto Um Outro Olhar. Porque com o Projeto pude compartilhar dessa “experiência” tão devastadora e bela – a de ver filmes que nos colocam numa posição diante do mundo. E não há como fugir disso. É preciso estabelecer essa posição. Quem não faz isso eu só posso mesmo chamar de imbecil.

Almeja um dia participar de algum projeto na área do cinema, seja como ator, diretor ou roteirista?
Isso não passa pela minha cabeça. O cinema é uma coisa muito complicada, difícil.

O que gostaria de ver retratado nas cenas de um filme e que ainda não viu?
Se analisarmos bem, toda a condição humana já está presente em filmes extraordinários. Toda a percepção desse “estar no mundo” e de “pertencer” a este mundo já foi trabalhada de forma magistral por inúmeros cineastas.Tanto na forma quanto no conteúdo. Tenho, é claro, minhas predileções. Mas não desprezo o trabalho daqueles que, porventura, ainda tentam se aventurar nesse dilema. Quando penso em cineastas como o tailandês Apichatpong Weerasethakul (de “Mal dos Tropicos”, “Síndromes e Um Século” e “Tio Boonmee”), no húngaro Bela Tárr (de “Danação”, “Satantango”, “Werckmeister Hamóniák e “O Cavalo de Turim” – que encerrou sua carreira como diretor) e no português Pedro Costa (de “O Quarto de Vanda”, “Juventude em Marcha” e “Cavalo Dinheiro) – só para citar três -, então penso que eles trilharam um caminho tão prodigioso que faz com que eu pense: bem, nem tudo está perdido. Eu, seguramente, deixo a “bola” com eles.

Tem ideia de quantos filmes já assistiu em toda a sua vida?
Não tenho a menor ideia. Mas parece que foram muitos.

O que pode nos adiantar sobre os projetos para 2015, e aqui eu cito o possível Convite ao Cinema, ou então uma espécie de continuidade do Um Outro Olhar.
Creio que há uma possibilidade com o Convite ao Cinema, projeto da Secretaria de Cultura. Seria um projeto de cunho muito social, levando cinema para os bairros de Maringá. Mas nada ainda está “finalizado” quanto a isso. Sobre uma volta do Projeto Um Outro Olhar, creio que pode ser possível, mas num outro formato. Não tenho condições de pensar nisso agora. Ainda estou na ressaca do término do Projeto e isso é uma coisa que me dá muita tristeza.

Quais projetos no teatro serão executados em 2015?
Ah, os projetos… Toda vez que penso nos projetos logo em seguida me vem essa tenebrosa indagação: pra que tudo isso? Mas, enfim, deve ser, talvez, um desejo de falar sobre as coisas, as pessoas, essas inerências apavorantes que dizem respeito a todos nós. Tenho encontrado no teatro uma via de acesso a esses desconfortos, às dificuldades, ao que mais me aflige. Então eu tento. É um processo deveras difícil, principalmente quando você não pode depender disso para “movimentar” a sua vida. Porém, devo dizer, que tudo no qual me empenho em relação ao teatro vem de uma vontade de transformar em “prática”, em concretude de corpos e vozes, a “literatura” dos meus textos. E quando coloco a palavra literatura entre aspas é porque ainda não tenho certeza de nada… se aquele amontoado de palavras (das quais eu gosto, de uma forma geral – chego a ficar espantado com algumas coisas e penso: “porra, eu escrevi isso?”) significam algo que deva mesmo ser nomeado como literatura. Talvez, ainda, porque não tenho certeza de que as pessoas chegam mesmo a apreender, da maneira como “eu penso que deve ser apreendido” (que fique bem claro isso) tudo o que quero dizer. Bem, mas falávamos sobre os projetos.
Há uma coisa linda acontecendo comigo lá em Mandaguari, no trabalho de teatro que desenvolvo na Comunidade Social Cristã Beneficente. Num mundo de absurdo cinismo, lá encontro, com quatro garotas adolescentes, um “lugar” que eu julgava perdido, um “lugar” onde o afeto tem um papel predominante e, mais ainda, um “lugar” onde eu aprendo – porque essa convivência com as meninas (a Bruna, a Andressa, a Vanessa Lara e a Vanessa Carolina) faz eu me sentir melhor como pessoa, como artista. E elas, num despojamento assombroso, devolvem a emoção que sinto ao estar com elas com sagacidade, vontade e muito talento. Em 2015 vamos apresentar o “Barricada”, texto que eu já montei anteriormente e, ainda, um trabalho novo com as quatro e que deverá ter um humor negro daqueles que sempre pensei com adolescentes. Uma mistura de Godard com “South Park”. Creio que pode ficar bem politicamente incorreto.
Com o Teatro de Câmera, vamos montar “Puta!”, um trabalho que eu penso ser de ruptura do grupo e que terá Jucélia Cadamuro, Joaquim dos Santos, Fabrício Machado, Elizabety Barbosa, Mariana Scalassara e Amanda Podanoscki no elenco.
Em Campo Mourão estou dirigindo outro trabalho, “Desaparecimentos”, que é um texto meu com um grupo de lá. Estamos começando, mas a ideia é apresentar no segundo semestre de 2015. Um trabalho, no mais, bem difícil e que trata de um questionamento sobre o próprio ato de encenar, de fazer teatro, e do papel do ator.
Também quero montar um trabalho baseado na breve vida do tcheco Jan Palach que, em 1969, contra a invasão dos soviéticos na antiga Tchecoslováquia, se auto imolou em praça pública, em Praga, aos 20 anos de idade. A peça fará parte de uma trilogia sobre personagens históricos do Leste Europeu em tempos de autoritarismo político. Outro trabalho será sobre o ator polonês Zbigniew Cybulski (que fez o clássico “Cinzas e Diamantes”, do Andrzej Wajda, e era considerado o James Dean da Polônia). Nesse trabalho vou dirigir Donizeti Mazonas que este ano fez muito sucesso em São Paulo com a peça “Osmo”, baseado em Hilda Hilst. Mas não sei se conseguiremos finalizar para o próximo ano. Vamos começar, ao menos.
Portanto, muito trabalho pela frente e muita chicotada nos atores – essa é a parte que eu mais gosto.

Por que lutou tanto tempo pela vida do projeto Um Outro Olhar? Chegou a ganhar dinheiro, fama, amigos, amores ou, pelo menos, uma coleção de filmes (quantos? É um acervo físico? Virtual?)
Agora, pensando com tanto distanciamento sobre o Projeto, imagino que a “luta” tenha sido apenas porque eu achava bonito isso de compartilhar um gosto adquirido. E tinha um público e as coisas foram acontecendo. Esse “dar-se conta” de como tudo ocorreu é estranho e, ao mesmo tempo, tremendamente delicado. Eu nunca parei pra pensar que “se eu fizer assim“ ou “se eu fizer assado” isso poderia ser mais “interessante”. As coisas simplesmente aconteceram. Nunca ganhei dinheiro (ao menos nada que pudesse “solucionar” algumas questões elementares da vida cotidiana. E com isso não estou desprezando, é claro, dois patrocinadores corajosos que ajudaram o Projeto nos últimos anos), nunca foi meu foco – aliás, sou péssimo nisso de ganhar dinheiro.
Sobre a fama, creio que aconteceu alguma coisa. Algo que me faz rir hoje em dia porque isso é uma tremenda bobagem.
Amigos foram muitos e continuam sendo. Isso é o tipo de coisa que a gente costuma chamar de “impagável”.
Amores, nenhum… infelizmente. Porque no fundo o Projeto, como eu já disse publicamente, sempre foi uma tentativa de “arranjar” um namorado. Mas isso nunca deu certo. Acho que os rapazes tinham medo de mim.
Já a coleção de filmes (físicos, todos eles) bem razoável. Creio que uns 4 mil.
Sem contar os que já joguei fora – nossa, quantas bobagens são feitas!

Qual é a sua cidade natal e qual o bairro onde mora em Maringá? A idade já revelou, né? 50 anos bem vividos!
Eu nasci em Cascavel, mas saí de lá aos 20 anos e perambulei por aí. Moro, aqui em Maringá, na Zona 7, perto do Teatro Barracão. Lamentavelmente, 50 anos. Isso porque sou absolutamente incompetente no quesito suicídio. Tentei três vezes. Depois, tive que me conformar. Mas como muitos casos famosos, creio que ainda é uma possibilidade. Nunca esqueço a emoção que senti quando o diretor italiano Mario Monicelli (de filmes como “A Grande Guerra” e “Os Companheiros”) se atirou do quarto andar do hospital onde estava internado para tratar de um câncer na próstata. E isso aos 95 anos de idade. Pra mim, foi uma grande demonstração de que ele tinha direito à liberdade. Parece-me, na verdade, um tremendo gesto político, se pensarmos que a única maneira, hoje, de encararmos essa palavra é como um gesto absolutamente político. O meu corpo é político. A minha vida é política. O que eu faço dele, do corpo, e dela, da vida, é de interesse meu e apenas meu. Eu, inevitavelmente, sou um ser político. Como diria o Kirilov, em “Os Demônios”, do Dostoiévski: “suicidar-se é dar provas da própria liberdade”. Há quem não concorde, e eu sou muito compreensivo quanto a isso, na medida em que cada um cuida do que é seu e faz de sua vida o que bem entender. Adoro o Maiakóvski quando ele diz: “Para o júbilo, o planeta está imaturo. É preciso arrancar alegria ao futuro. Nesta vida, morrer não é difícil. Difícil é a vida e seu ofício”.

Como era a sua relação com as distribuidoras de filmes e como você encarou a mudança radical do 35mm (película) para o digital?
Quando o Projeto começou, as coisas eram bem complicadas. Por mais que as distribuidoras de filmes de arte soubessem que seu produto não iria vender como um blockbuster, queriam um retorno razoável. E nem sempre isso foi possível, devido ao público inicial bastante escasso. Depois, com o tempo – e tanta vontade de desistir – as coisas foram mudando e a relação basicamente se inverteu: era a própria distribuidora que pedia para que exibíssemos seus filmes. Chegamos a deixar em cartaz o “Nossa Música”, do Godard, durante quatro semanas – mais tempo do que em São Paulo. E chegamos mesmo a exibir a cópia restaurada do “Passion”, também do meu querido Godard, antes mesmo de São Paulo. Foram muitas coisas lindas que aconteceram e das quais tenho muita saudade.
A mudança para o digital foi uma coisa triste, para mim. Como eu disse, a emoção de receber aquelas latas de filmes era inigualável. Quando chegaram as dez latas (três horas de duração) do “Rocco e Seus Irmãos”, do Visconti, eu juro: beijei todas as latas. Apalpei a película. Queria sequestrar o filme. Foi quase um orgasmo.

Na entrevista também comentou o lado divertido dos debates, mas já ouvimos casos de pessoas que se sentiram constrangidas durante as discussões pelo fato de ter demonstrado autoritarismo quanto aos seus pontos de vista. Isso tudo fazia parte de uma cena, do jogo, ou realmente, como também afirmou na entrevista, teve gente que quis acertar as contas no braço?
Essa questão do autoritarismo, eu penso agora, sempre foi uma defesa. Era o meu jeito de me defender de algumas coisas, de algumas pessoas, de algumas colocações que eu, por vezes, pensava serem ingênuas demais, tolas demais e, ainda, imbecis demais. E era, ainda, uma maneira de me defender daquilo que eu ainda não compreendia, das coisas que eu ainda não detinha (e, talvez, ainda não detenho). Mas é a velha história: o Projeto era eu, ficava difícil fugir de alguns “princípios”, digamos assim, adquiridos com o tempo. De qualquer forma, jamais disse que eu era o dono da verdade. Aqueles que se sentiram vilipendiados pelo meu autoritarismo, na verdade, talvez, não tiveram culhões para encarar de forma mais ostensiva a minha argumentação. Inclusive, uma dessas pessoas, algum tempo depois de um “arranco rabo”, num debate, chegou a vir a óbito. E eu pensei: “tá vendo Paulo, pra que tanto estresse?” Achei engraçado. O meu pensamento, não a morte do cara, por favor! A morte é uma coisa natural, não é mesmo? Considero a morte uma beleza. A última beleza. Calma (caro leitor), cuidado para não simplificar as coisas.
E depois, se pensarmos bem, tudo é cena, tudo é jogo de controle – não há como escapar disso. Contudo, teve gente que, julgando que eu era “culpado” por aquilo que (ele) havia acabado de assistir, chegou mesmo a dar de dedo na minha cara dizendo coisas do tipo: “você não tinha o direito de fazer isso”. Ora, se isso não é engraçado, então eu devo mesmo ser louco. Eu acho muito divertido quando lembro de certas coisas, de certas cenas bizarras – como, por exemplo, pessoas chegando até a bilheteria do cinema e apontando para um cartaz de um filme do Projeto e perguntando: “aquele filme é pra pensar?” Ou então o cara que entrou nada sala exatamente no momento de uma cena de sexo oral explícita, entre dois homens, no polêmico “O Fantasma” (2001), do português João Pedro Rodrigues. Foi muito engraçado, porque eu estava assistindo também ao filme, junto com o público. E ele se sentou na mesma fileira de poltronas que eu, só que do lado oposto. E ele começou a se masturbar, tranquilamente, como se estivesse na sua própria casa. E dava pra ouvir o barulho do cinto dele. Quando terminou a cena, ele se levantou, fechou o zíper da calça e o cinto e foi embora. Eis o mundo, eis o ser humano. Como diria o Melville, no “Bartleby”: “Oh, humanidade!”

Já pensou em disponibilizar essa sua coleção (4 mil títulos!) para o público de alguma maneira? Fazendo empréstimos remunerados, de repente…Assim como já existe em sebos de SP, você poderia ser uma espécie de locador-guia, sugerindo os filmes certos para cada um…
Acho que teria de abrir uma empresa. Acho que daria muito trabalho. Acho que teria de dizer não para muitas pessoas com as quais não tenho a menor afinidade. Acho que acabariam estragando os filmes. Acho que as pessoas são muito mal-educadas e não cuidam direito das coisas dos outros. Acho que não quero não. Acho até que vou vender os meus filmes e me tornar mendigo. Eu e meus três cachorros, que eu amo mais do que tudo neste mundo. Mais até, inclusive, que o cinema. E viveríamos até o dinheiro acabar. Depois, a escuridão e o silêncio da floresta. “E ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos”. Sempre amei isso do Pessoa. Ou, então: “Vivi, amei, estudei e até cri. E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu”. O Pessoa ainda é o cara.

*Parte desta entrevista foi publicada nesta terça-feira (16) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Sociedade mais sólida a partir da leitura

Por Wilame Prado

Pela Bienal do Livro e Leituras de Campo Mourão, Rogério Pereira ministrou a palestra “Políticas públicas para o livro, leitura e literatura”. Por email, o diretor da Biblioteca Pública do Paraná, editor do jornal Rascunho e escritor comenta o tema:

Rogério Pereira, diretor da Biblioteca Pública do Paraná e editor do Rascunho

Rogério Pereira, diretor da Biblioteca Pública do Paraná e editor do Rascunho

Recentemente, em um texto publicado no Vida Breve, o senhor criticou duramente a Fundação Cultural de Curitiba pela falta de apoio ao projeto Paiol Literário. Na sua opinião, como estão as políticas públicas para a área da literatura em nosso Estado e no Brasil de um modo geral?
ROGÉRIO PEREIRA – O Brasil (e aí incluo os estados e municípios) avançou muito nas políticas públicas para a leitura nos últimos anos. Mas, obviamente, estamos muito longe de uma situação apenas razoável. As políticas do livro e leitura no Brasil ainda são muito delicadas, algo em construção, lentamente. Uma construção que às vezes se esboroa. E, então, é preciso recomeçar tudo. É comum andar cinco passos adiante. E dez para trás. Veja o exemplo do Plano Nacional do Livro e Leitura: foi completamente esfacelado no início da gestão da presidente Dilma. Agora, há um recomeço. Mas muito tempo foi perdido. Conquistas importantes se perderam.

Por que é importante uma atenção maior das políticas públicas nessa área?
Porque é a partir da leitura que se estrutura toda uma política cultural. Porque é a partir da leitura (da boa leitura) que se constrói uma sociedade mais sólida, mais crítica, mais humana. A leitura é o caminho possível para uma grande transformação social. E, quando digo leitura, obviamente estou falando em educação e cultura – duas palavras que andam muito distantes uma da outra no Brasil. O que o Ministério da Educação faz hoje como política de leitura? Compra livros, compra milhões de livros. O governo brasileiro é o maior comprador de livros do mundo. E o que acontece? Quase nada. Por que o nosso índice de leitura é tão baixo, se temos um mercado editorial que movimenta bilhões de reais todos os anos? Porque livros são comprados, mas não são lidos. Livros são mandados para escolas, mas ficam em caixas, esquecidos, mofando. É óbvio que é importante comprar livros, mas é mais importante investir na formação de professores-leitores, de bibliotecários-leitores. São eles, bem capacitados, que vão construir novos leitores. A escola pública é fundamental na formação de leitores, mas não está preparada para isso. É preciso encontrar um caminho de fortalecer o valor social da leitura. Portanto, são imprescindíveis políticas públicas consistentes voltadas ao livro e leitura. Por quê? Por motivos bastante óbvios. Acho.

O que citaria como exemplos de boas políticas públicas para o livro, leitura e literatura?
Há várias ações espalhadas por todo o Brasil. Em todos os Estados brasileiros, temos bons exemplos. Mas, volto a ressaltar, as políticas públicas mais fortes são aquelas voltadas para a formação de agentes de leitura (professores e bibliotecários). Estas têm um resultado muito interessante a longo prazo.

Por fim, o que pensa sobre essa maior agitação no interior paranaense envolvendo a literatura, com mais obras publicadas e eventos literários acontecendo.
O que acontece no interior do Paraná é um reflexo do que acontece no Brasil nos últimos anos. Hoje, temos um ambiente mais propício para se discutir o livro e a leitura em todo o País. E não é diferente aqui no Paraná. É importante que aproveitemos este momento para construir novos leitores, uma massa crítica consistente, em busca de um País de leitores. O caminho é tortuoso, a viagem bem desconfortável. Mas vale muito a pena seguir adiante.

*Entrevista publicada nesta terça-feira (22) no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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Escritor Rodrigo Lacerda faz bate-papo hoje em Maringá

Escritor Rodrigo Lacerda, ano passado, em bate-papo com Luis Henrique Pellanda no Paiol Literário, em Curitiba (Foto de Matheus Dias)

Por Wilame Prado

Com o bate-papo do escritor carioca radicado em São Paulo Rodrigo Lacerda, 44 anos, marcado para hoje, às 20h, o Sesc encerra o ciclo com escritores convidados do projeto Autores & Ideias. Próximos encontros acontecerão só no ano que vem. Além de Lacerda, este ano vieram à cidade falar sobre literatura o cronista e biógrafo Humberto Werneck e o autor de livros infantis Ilan Brenman.

Neto de Carlos Lacerda (jornalista, governador do antigo Estado da Guanabara e criador da editora Nova Fronteira morto em 1977), Rodrigo Lacerda passou toda a infância rodeada por livros e gente que trabalhava com livros na editora. Mas isso nem sempre estimula as pessoas da família a ambicionarem a carreiras das letras. “Tenho muitos primos e uma irmã que nasceram no mesmo meio familiar e cultural que eu e não deram para isso. Foram ganhar sua vida de outro jeito”, conta Lacerda, em entrevista para O Diário.

No caso dele, a timidez, o medo da morte e a dificuldade em arrumar uma namorada foram fatores mais determinantes na hora de sonhar em ser escritor do que propriamente o trabalho familiar com a editora.

No bate-papo de logo mais, cujo tema é “Um Caminho Para os Novos Leitores”, Lacerda fala sobre esses possíveis caminhos, formação de leitor de ficção e possibilidades fora da escola relacionadas à literatura. Sobre isso, carreira, cenário atual da literatura e muito mais o autor do premiado “O Mistério do Leão Rampante” (Ateliê Editorial, 156 páginas, 1995) conversou com a reportagem. Leia a entrevista:

O tema dos Autores & Ideias em que participará aqui em Maringá é “Um Caminho Para os Novos Leitores”. Que caminho é este, Rodrigo?

RODRIGO LACERDA – Acho que é o caminho da persistência, não desistir nunca é a chave. Tudo irá conspirar contra a carreira de escritor: a falta de tempo, de dinheiro, a incompreensão da crítica (na maioria das vezes), a necessidade de ter outro trabalho até se firmar (ou mesmo depois), a solidão inerente ao processo de escrita etc. Então, para vencer tudo isso, você precisa ter uma necessidade interna imensa de escrever. Na verdade, escrever não deve ser uma opção, mas uma condição.

Replico aqui as perguntas do texto de apresentação do projeto: “o que uma formação mais sólida de leitor de ficção e poesia poderia oferecer aos brasileiros adultos, não importa de que área?” “E fora da escola, que caminho os leitores podem seguir?”

O que as artes, não só a literatura, têm a oferecer é algo fundamental para todos, não só para estudantes da área. Pois diz respeito à capacidade de ver o mundo por outros olhos, de educar seus sentimentos para enxergar o outro, e isso afetará sua vida em todos os níveis, pessoal, familiar, profissional e como cidadão. Como falar de política, por exemplo, se você não enxerga o outro, se você acha que a sua razão se sobrepõe a todas as outras? Como ser um irmão melhor, um filho melhor, um marido melhor, sem treinar sua consciência para lidar com realidades paralelas?

O que pensa sobre os Autores & Ideias? Antes de Maringá, irá ter visitado quais cidades? Particularmente, curte essa aproximação com o público leitor?

Gosto muito de fazer essas viagens. É uma chance de sair do escritório e encontrar os leitores, de quebrar a solidão de que já falei. E o Paraná despontou nos últimos anos como polo literário importante, com grandes programas de apoio à leitura, com o melhor jornal literário do Brasil, o Rascunho, com pessoas que realmente estão fazendo a diferença nessa área. Então, além de um prazer, torna-se quase uma obrigação participar e, na medida do meu possível, ajudar.

Ainda sobre o tal caminho para os novos leitores, devo considerar ter sido fácil o seu caminho nas letras, já que veio de uma família cujo negócio era uma grande editora de livros?

Na verdade, ser de uma família ligada ao mundo editorial foi um elemento a mais a me aproximar da literatura, mas não sei se foi o determinante. Tenho muitos primos e uma irmã que nasceram no mesmo meio familiar e cultural que eu e não deram para isso. Foram ganhar sua vida de outro jeito. E quando publiquei meu primeiro livro, não publiquei pela editora da família. Já estava morando em São Paulo, e não no Rio de Janeiro, onde nasci, e estava justamente afastado da empresa familiar, embora continuasse trabalhando no meio editorial. Os elementos determinantes, que realmente plantaram em mim, lá pelos 13/14 anos, o desejo de ser escritor, foram: 1) a timidez e a dificuldade de arrumar uma namorada; 2) o medo de morrer e não deixar nada para trás.

E para os brasileirinhos filhos de analfabetos ou de analfabetos funcionais, cuja leitura de ficção nunca foi hábito, em casas onde o único livro encontrado muitas vezes se resume a uma Bíblia Sagrada?

Tenho um colega escritor, e amigo, Ronaldo Correia de Brito, que era exatamente essa pessoa. O filho de uma família muito humilde de camponeses, que tinha apenas a Bíblia em casa. E o escritor sobre o qual fiz minha tese de doutorado, o João Antônio, também foi eleito pela família para ler a Bíblia todas as noites, com a família a sua volta. E os dois viraram escritores maravilhosos. Convenhamos, a Bíblia, do ponto de vista literário, é um livro tão bom, tão cheio de histórias, de variações estilísticas, que é certamente um excelente começo para qualquer escritor. Se você, além da opção de ser escritor, “sofre” a condição, os parcos recursos culturais da sua família serão tanto um obstáculo quanto um estímulo.

Sinceramente falando, alguma vez já sentiu estar sendo superestimado pelo fato de ser de uma família conhecida, principalmente no meio literário?

Nunca, até porque, nunca tive tanto sucesso assim. Ganhei alguns prêmios, é verdade, mas não tenho grande adesão da crítica ao meu trabalho. Sou visto como um escritor que, na melhor das hipóteses, renova a tradição, mas não como um inventor de algo novo. Do ponto de vista do público, meu livro que mais vendeu, afora adoções em escola, vendeu por volta de 10 mil exemplares, o que não é tanto. Sendo assim, sinto-me na verdade subestimado! Eu acho que mereço muito mais! (risos)

Salvo engano, seu penúltimo livro foi publicado originalmente em 2008. “O Fazedor de Velhos” continuou ganhando reimpressões até o ano passado. Por que resolveu publicar literatura infantojuvenil?

Eu estava escrevendo outro romance, adulto, chamado “Outra Vida”, e estava tendo muita dificuldade para continuar. Tinha a impressão de que havia começado uma história que não sabia como acabar. Então resolvi fazer um livro leve, para minha filha, que tinha então 12 anos. Um livro que eu escrevesse sem pressão, sem planos, sem uma história pronta, improvisando a cada passo. Saiu o “Fazedor de Velhos”, meu livro mais bem sucedido comercialmente falando, e talvez literariamente. A decisão de escrevê-lo, portanto, tinha um caráter recreativo. Além disso, eu queria transmitir à minha filha algumas das coisas que eu pensava da vida, mas sem soar professoral, fazendo com que as emoções dela a levassem às mesmas conclusões que eu. E uma boa história é a melhor maneira de fazer isso.

“Outra Vida”, de 2009, também é romance premiado e sua última obra. Tem algo na manga? De repente, o livro sobre política e que pesquisou a história de seu avô, o Carlos Lacerda? O que pode me contar sobre sua última obra?

O que posso contar é que acabei! Entreguei na editora e dei a umas pessoas próximas para que lessem. Estou recolhendo suas impressões para depois fazer a versão definitiva. Posso dizer também que o livro deixou de ser apenas sobre o meu avô. Vi que o pai dele também era político, e os dois tios, e o avô dele. Então o livro virou algo maior, que vem do período imperial até 1954, com a história do Brasil sendo contada pelos olhos de três gerações de políticos de uma mesma família. Acho que ficou legal.

Como analisa essa sua bela biografia literária, começando bem com um “O Mistério do Leão Rampante” vencedor do Jabuti e um “Outra Vida” vencedor de prêmio na Academia Brasileira de Letras?

Como eu disse, não tenho de mim essa impressão de alguém tão bem sucedido. Vocês estão sendo generosos demais comigo. Encaro esses prêmios como incentivos para continuar a melhorar, a ampliar meus recursos literários, a expandir minha sensibilidade, a me despojar de minhas travações, e assim fazer melhor na próxima vez. Quando rendem algum dinheiro, são uma garantia de que o próximo livro poderá existir, o que é bom. Acabo de acabar o romance sobre os políticos da família e já estou pensando num livro de contos que tenho começado. Sempre estou com a cabeça no próximo livro.

O que tem feito ultimamente da vida? Pode se dedicar apenas ao ato de escrever ficção ou tem outras atividades, ainda que, de repente, envolvida com a literatura?

Já houve o tempo em que eu tinha uma relação de amor e ódio com minhas outras atividades além da literária, sobretudo com minha atividade como editor. Hoje gosto de atuar em mais de uma frente: sou escritor, tradutor e editor. Vivo do que ganho como editor, e portanto essa é minha atividade cotidiana, mais regular que a literatura, até. Trabalho na editora Zahar, onde encontrei o ambiente de trabalho ideal, cheio de amizade, transparência, respeito e admiração mútua. Custou, mas encontrei uma editora onde estou totalmente feliz. E olha que eu rodei, passando pela Nova Aguilar, Nova Fronteira, Edusp, CosacNaify e Mameluco. Em todas tive ótimas experiências, mas só na Zahar a química foi perfeita.

Na apresentação d´“O Mistério do Leão Rampante”, João Ubaldo Ribeiro disse que você chegaria onde quisesse na literatura porque tinha amor pelas palavras, um deleite em escrever. Como é a sua relação com as palavras, digo, com a leitura de palavras e com a produção de palavras. Revele ao nosso leitor, por gentileza, alguns de seus hábitos de leitura e também de produção literária.

Meus hábitos de leitura são caóticos. Por causa do trabalho na editora, leio predominantemente livros de não-ficção, de todos os tipos e sabores. E muitas vezes leio-os pela metade, pois se já não gostei devo aproveitar ao máximo meu tempo para ler os que estão na fila. Fora isso, tento ler literatura, mas acabo lendo tudo aos pedaços também, por falta de tempo. Meus livros, enquanto estão sendo escritos, passam por centenas de releituras, e mexo neles até o último minuto, o que é bastante cansativo. Quando chego no fim do dia, como tenho dupla jornada, como editor e escritor, acabo preferindo um filmezinho na TV.

Quando estreou na literatura, com muito êxito, diga-se de passagem, tinha só 26 anos. Olhando para trás, teria feito tudo exatamente igual, esperaria um pouco mais para lançar? Enfim, o que tem a dizer para os jovens que estão lotando suas pastas de arquivos de computador com contos, romances, poesias. Em Maringá há um monte deles.

Quando eu lancei o primeiro livro, minha vontade era reencarnar um Balzac ou um Jorge Amado, e sair publicando dez, vinte, trinta romances. Ter uma obra imensa, mesmo que nem tudo fosse bom. Mas fui vendo que o meu ritmo de vida e o meu nível de perfeccionismo não me encaminhava para isso, e sim para um ritmo mais lento de publicação. Se tenho algum conselho a dar é que a publicação do livro não deve ser apressada. Mas ele deve ser lido por aquelas pessoas cuja opinião são importantes para você, para que você possa aprimorá-lo. Quando esse trabalho de aperfeiçoamento estiver avançado (terminado nunca está), o livro encontrará um caminho para ser publicado.

Por falar em Maringá, já conhece a cidade ou será a primeira vez? Tenho a honra de informar, se já não sabe, que temos o atual vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2012/2013 na categoria Romance, o meu amigo Marcos Peres, também muito jovem, e temos o atual vencedor do Prêmio Jabuti na Categoria Romance, o professor e escritor Oscar Nakasato (vencedor do Prêmio Benvirá, da Saraiva com o mesmo livro), que nasceu aqui mas se radicou em Apucarana (65 quilômetros distantes).

Já ouvi muito falar de Maringá, sobretudo quando fiz a tese de doutorado, pois o João Antônio morou no Paraná, onde foi um dos editores do jornal Panorama, nos anos 70, e ele tem textos sobre Maringá. Também tenho uma grande amiga que mora perto, e acompanho sua vida. Não sabia dessa concentração de premiados por aí, mas espero poder conhecê-los.

Última de Maringá: No Paiol Literário, em 2012, afirmou: “escolhi São Paulo para morar, mas adoraria morar no Rio, em Curitiba, Londres, Paris, Berlim”. Maringá seria muito pequeno para um grande escritor como você? O que pensa sobre os eixos imaginários Rio-SP no que tange à literatura e escritores?

Na verdade, meu sonho é morar numa fazenda, ou num sítio próximo a uma cidade de porte médio. Odeio os grandes centros. Mas como preciso trabalhar para viver, e como 99% das editoras, no Brasil, estão concentradas no eixo Rio-São Paulo, estou condenado a ficar ou numa ou na outra cidade. Se a prefeitura de Maringá quiser me dar uma bolsa para eu ir morar aí, faço as malas hoje mesmo!

Para o Paiol Literário, disse que tentava seguir uma linha de João Ubaldo, com erudição e humor. Continua sendo a sua grande referência para escrever, além de Eça, Faulkner e Shakespeare? Ou, de lá para cá, descobriu outras leituras e que seriam boas recomendações para os leitores deste jornal?

Descobrir bons escritores é a coisa mais fácil do mundo. Para mim, o talento está disseminado em toda a parte. Não vejo o talento como o dom de uma casta de privilegiados a serem cultuados. Vejo o talento artístico como parte da vida cotidiana. Mas às vezes certos escritores te pegam num momento da vida em que a obra deles realmente transforma sua percepção da vida, sua visão de mundo. Não só pelo mérito literário deles, mas por um momento de vida seu. É uma conjunção cósmica, quase. E nesse plano, realmente, Eça, João Ubaldo, Shakespeare e Faulkner são, para mim, os escritores fundamentais. Eça e João Ubaldo me ensinaram a rir da minha desgraça, o Shakespeare, a lutar para sair da condição de desgraçado, e o Faulkner me ensinou que todo mundo é irresgatavelmente desgraçado, o que não resolveu meu problema mas me deu a sensação de não estar sozinho, o que já foi um adianto considerável.

No Paiol, disse também para Pellanda e plateia curitibana que, nos anos 90, “O Mistério do Leão Rampante” foi um contraponto ao realismo de Rubem Fonseca “ditador” de tendências para a literatura brasileira da época. Hoje, na sua opinião, conseguimos fazer uma análise daquilo o que se está produzindo na literatura contemporânea brasileira? Assim como há quase 20 anos, você destoa ou percebe que vem seguindo uma linha parecida?

Não devemos esquecer que, se o “Mistério…” teve esse papel, ele o teve para mim e para a meia dúzia de leitores na época, enquanto o Rubem Fonseca era lido por milhões. É importante guardar as proporções, ou eu estaria reescrevendo a história da literatura brasileira a meu favor. Acho que hoje em dia é muito mais difícil fazer um painel compreensivo da literatura brasileira, pois a variedade de vozes é imensa, não há grupos ou movimentos muito articulados, que organizem a cena. Então todas os balanços, a meu ver, tendem a ser um pouco parciais. Isso não é necessariamente mau, mas precisamos ter em mente que existe. Quanto à minha obra, cheguei à conclusão que, entre o Hitchcock e o Billy wilder, sou mais o Billy Wilder. O que quero dizer com isso? Que não sou o tipo de escritor que tem um gênero preferencial, que faz de cada livro uma variação numa linha de trabalho contínua. Para o bem ou para o mal, vejo meus livros como muito diferentes uns dos outros, e gosto de variar de “voz narrativa”, gosto de recriar tons e universos a cada livro. Talvez o verbo “gostar”não seja o ideal; não escolhi ser assim, sou assim porque não sei ser do outro jeito.

SERVIÇO – ENTRADA FRANCA

Autores & Ideias

Com o escritor Rodrigo Lacerda

Mediação do jornalista Marcelo Bulgarelli

Quando: amanhã

Onde: Sesc (Av. Duque de Caxias, 1.517, Zona 7)

Horário: 20h

Entrada franca

Informações: (44) 3262-3232

*Entrevista publicada terça-feira (13) no D+, caderno do Diário de Maringá

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Entrevista com o presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Marcos Cordiolli

Por Wilame Prado

No início deste ano, o historiador e educador de Maringá Marcos Cordiolli, 49 anos, assumiu a presidência da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) com a missão de coordenar a política cultural da capital paranaense na gestão do prefeito Gustavo Fruet. Na bagagem, o maringaense, que se mudou para Curitiba em 1979, leva a experiência como produtor de cinema, assessor da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados e da Agência Nacional do Cinema.

Via e-mail, ele concedeu uma longa entrevista comentando, dentre vários outros assuntos, sobre a descentralização dos projetos culturais curitibanos e que poderá estimular a vinda de mais espetáculos da capital para Maringá, e vice-versa.

Cordiolli também contou sobre as memórias afetivas que nutre pela sua cidade natal, onde hoje vivem toda sua família, de pais à filha. Hip Hop, cinema, Vale-Cultura e características aconselháveis para se gerir pastas culturais também foram temas abordados na entrevista. Para ele, que reafirma a todo momento a importância do setor cultural para a comunidade, “ser secretário de Cultura é assumir as responsabilidades como um dos artífices da alma da cidade.”

Durante exposição no Palladium Shopping Center, em Curitiba, Marcos Cordiolli segura caneca personalizada do artista plástico Rogério Dias

Leio que mora em Curitiba desde 1979, mas nasceu em Maringá. Qual sua relação com a cidade e o que ficou guardado em sua memória dos tempos em que morou aqui, principalmente.

MARCOS CORDIOLLI – Maringá é a minha referência afetiva. A minha família continua morando na cidade: meu pai, minha mãe, meus cinco irmãos, cunhados e sobrinhos. Além de dezenas de tios e primos. E, por estas coincidências da vida, a minha filha, que nasceu em Curitiba, também mudou para Maringá junto com a mãe.

Estudei nos colégios Santo Inácio, Gastão Vidigal e Osvaldo Cruz, instituições importantes na minha formação cultural. Frequentava assiduamente a biblioteca pública municipal. No Colégio Santo Inácio, fui muito estimulado à leitura pela Mirian Ramalho e ao conhecimento da história pela Marta Ramalho. Duas professoras de referência na minha vida.

No Gastão Vidigal fui aluno do mestre Galdino Andrade, que descortinou para mim o mundo maravilhoso da literatura. Até hoje guardo com carinho uma obra de sua autoria, o “Poeira Vermelha”, bela coletânea de contos ambientados à época da colonização.

No que consistirá, ou já está consistindo, esse aprimoramento dos mecanismos de fomento cultural e a criação de instrumentos para dar mais visibilidade às produções locais fora de Curitiba, que o senhor disse ser uma das metas na gestão?

Curitiba produz excelentes obras culturais em todos os segmentos. No entanto, estas obras não conseguem obter a circulação merecida. Tanto na cidade como fora dela. Atuamos, na perspectiva da economia da cultura, em duas linhas, ampliação do público e dos locais de exibição de espetáculos e venda de produtos culturais em Curitiba; e complementarmente estimularemos a circulação de obras curitibanas em outras cidades.

Nesta perspectiva reestruturaremos os nossos mecanismos de fomento fortalecendo o estimulo à circulação da produção cultural. Combinado a essas mudanças criaremos instrumentos para financiar a circulação de obras culturais em outras cidades do Brasil e do exterior; Instituiremos mecanismos de fomento plurianual para grupos culturais de pesquisa e produções de longo prazo. Também estudamos a formatação de um fundo de investimentos com recursos retornáveis para investir em projetos de maior viabilidade comercial.

Além disso, adotamos ações de estímulo, como o conveniamento com cidades brasileiras e do exterior que forneçam apoio logístico e de mídia para os artistas curitibanos.

Com a meta de estimular a ida de espetáculos curitibanos para além da capital, isso significa dizer que há chances de esses espetáculos virem inclusive para Maringá?

Sim. Maringá e outras cidades do Paraná estão em nossos planos, tanto de enviar como receber espetáculos. Temos sempre a preocupação de atuação em mão dupla. As cidades que abrem espaço para os nossos espetáculos podem enviar as suas produções para Curitiba, onde serão muito bem recebidas. Já estamos trabalhando em protocolos de cooperação com diversas cidades, algumas delas do exterior.

O senhor reconhece tantos bons eventos culturais consagrados em Curitiba, como o Festival de Teatro e o Lupaluna, mas diz ser importante descentralizar a programação cultural. Segundo alguns produtores culturais daqui da cidade, também seria preciso haver uma maior descentralização dos projetos culturais em Maringá. Com o conhecimento que tem da cidade, o senhor concorda com isso?

Não conheço adequadamente os circuitos culturais de Maringá para emitir uma opinião. Mas toda cidade precisa desenvolver ações para três campos culturais básicos: a formação, a produção e a circulação de obras dos artistas locais estabelecidos, como uma dimensão da economia da cultura que precisam de apoio para criação, espaços de exibição e reconhecimento social; a atração de espetáculos e artistas de outras localidades, pois a convivência cultural garante o aprimoramento e a renovação da produção local; e o reconhecimento e fortalecimento do que denominamos de cultura viva: os artistas e fazedores de cultura espalhados pela cidade, que geralmente são invisibilizados pelos mecanismos de fomento cultural e desconhecidos da população.

Um levantamento sumário realizado em Curitiba, há cinco anos, indicou a existência de 3.500 agentes culturais na cidade. No entanto, estimamos que o número atual de agentes da culturais do campo da cultura viva possa ser até três vezes superior. A cultura viva é um universo a ser desvelado e reconhecido urgentemente.

Também deve ser desafio de qualquer política pública de cultura propiciar eventos culturais nos diversos espaços da cidade, ampliando a democratização do acesso aos bens culturais e promovendo a cidadania cultural. Para isto, é preciso ações permanentes e estruturantes com focos descentralizados, mas articulados com toda a cidade.

Outra dimensão deste processo é o reconhecimento de toda a diversidade cultural apoiando a cultura de migrantes, de afrodescendentes, de ciganos, de indígenas, da população LGBT, da juventude e da terceira idade.

A promoção da cidadania cultural nas comunidades das grandes cidades é uma ação estratégica de recomposição do tecido social destroçado pelo modelo urbano e midiático contemporâneo. O estímulo da produção e circulação cultural nas comunidades estimula o religamento dos laços sociais e a promoção das relações sociais necessárias para que as pessoas possam construir formas de convívio comunitário. As comunidades que dispõem destes laços sociais conseguem identificar e reduzir a violência contra crianças, idosos e mulheres; combater a pedofilia; inibir a ação do narcotráfico e dispor de mais condições para recompor os ambientes familiares. As comunidades organizadas podem estabelecer um novo modelo de democracia participativa e estimular o controle social sobre as politicas públicas de saúde, educação, proteção social e segurança.

Portanto, descentralização e desconcentração das ações culturais devem orientar as políticas públicas culturais contemporâneas como uma dimensão da cidadania cultural e como uma estratégia para recompor as bases de convívio social.

A ideia do senhor, de viabilizar um cineclube para cada escola estadual de Curitiba, parece ser muito boa. Está esperançoso de que vai dar certo?

Sim. Esta é uma das minhas grandes esperanças. Os cineclubes têm características peculiares e são eixos estratégicos de toda gestão cultural, pois podem ser a base da estruturação das redes culturais colaborativas da juventude. Constituídos como grupos auto organizados, os cineclubes são a porta de entrada para a formação de diversos outros movimentos culturais de música, teatro, dança, audiovisual, leitura e literatura. Além disso, estimulam a produção e a expansão da cultura digital.

Os cineclubes possibilitam todas estas situações pois reúnem pessoas para a fruição cultural combinada aos debates e às experimentações estéticas. Os investimentos são relativamente pequenos, basta um bom acervo de filmes e a combinação de diversas atividades de estímulo.

Em Maringá, assim como em Curitiba, principalmente em bairros e cidades da região metropolitana, há também uma cena interessante do Hip Hop. Por que é tão difícil para as secretarias culturais traçar um diálogo maior com essas manifestações culturais?

O Hip Hop é talvez o segmento mais visível da cultura viva. Eles têm uma força maior pelas características de militância associada a este movimento cultural. Em Curitiba, estamos avançando na relação do Hip Hop, como também estamos abrindo interlocução com o heavy metal, o punk, a arte urbana e outros. Todas as tribos precisam ter direito à cidadania cultural. Estes movimentos possuem características muito peculiares que requerem ações compartilhadas e instrumentos flexíveis de políticas públicas. A gestão pública ainda tem dificuldade para respeitar e reconhecer as necessidades destes segmentos. Em alguns governos conservadores, a situação é ainda mais complexa, pois são tratados até com preconceito.

Qual a sua relação com a fundação antes de assumir o cargo e, na opinião do senhor, o que levou o prefeito Gustavo Fruet a indicar seu nome para a presidência?

Eu atuei com produção executiva de cinema de longa-metragem aqui em Curitiba. Depois atuei na assessoria técnica no Congresso Nacional acompanhando a tramitação de diversos projetos fundamentais, como os do Pró-cultura, do Vale-Cultura, do Plano Nacional de Cultura, do Sistema Nacional de Cultura e a PEC que determina dotações orçamentárias mínimas para cultura em todos os entes da Federação.

Depois, trabalhei na Ancine, Agência Nacional do Cinema, que é uma das maiores agências públicas de fomento cultural da Ibero-América.

Esta experiência com políticas culturais deve ter influenciado o prefeito na escolha do meu nome para presidir a Fundação Cultural de Curitiba.

O senhor afirmou, em entrevista recente, que o próprio prefeito Fruet é um ávido consumidor da cultura local. Considera isso importante para que as coisas aconteçam na pasta ou na fundação?

Um prefeito que é consumidor da cultura local faz a diferença quanto à compreensão da natureza das políticas públicas de Cultura. O prefeito de Curitiba, por conhecer a cena local, tem apoiado irrestritamente nossas ações. O secretariado também tem compreensão muito apurada do modelo de política cultural que estamos desenvolvendo. Eu tenho dito que sou um secretário de cultura privilegiado pelos apoios que disponho no governo municipal.

Digo isso porque, pelo menos em Maringá, o secretario de Cultura, Jovi Barboza, e a diretora de Cultura e presidente do Conselho Cultural, Edith Dias, são pouco conhecidos dos artistas e, conforme seus currículos, nunca atuaram na linha de frente da cultura local. Considera isso um problema ou, como o próprio secretário daqui afirmou, “toda indicação é política” e a experiência dele como gestor pode ser suficiente para o cargo?

Esta é uma pergunta difícil de responder, pois cada situação é peculiar, e, como disse, desconheço o cenário cultural em Maringá. No entanto, assumi recentemente a presidência do Fórum dos Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais, que reúne cidades com mais de meio milhão de habitantes. Nossa intenção é constituir uma entidade forte, que congregue os secretários municipais de todos os municípios brasileiros. Fiquei muito honrado com a missão de liderar este processo.

Assim, acredito que, embora o perfil do secretário municipal tenha importância, é necessário a disposição de construir instrumentos republicanos de gestão, como o reconhecimento e estímulo a circuitos culturais diversificados, a instituição de instrumentos flexíveis de fomento cultural, a consolidação de um quadro de servidores qualificado, a disponibilidade de recursos públicos e funcionamento regular e efetivo mecanismo de controle social, como conselhos e conferências de cultura e audiências e consultas públicas.

Além disso, é preciso que todos os setores da sociedade – como empresários, associações, imprensa – reconheçam a cultura como política pública, assumindo obrigações com o setor que não podem ficar restritas a artistas e produtores culturais.

Vamos falar um pouco de cinema, área que o senhor gosta. Conte como foram os trabalhos na produção de “O Sal da Terra” e “Curitiba Zero Grau”.

Os dois filmes permitiram adquirir grande experiência profissional, pois foram produções muito complexas. Quase todas as sequências foram filmadas fora de estúdios e a maioria delas em estradas e ruas. Para isso, foi preciso um intenso trabalho de planejamento, logística apurada e equipe qualificada. Os filmes também adotaram estratégias de financiamento e circulação inovadoras. Os resultados de qualidade de produto e estética foram excelentes. Os dois filmes foram reconhecidos em premiações importantes no Brasil e no exterior.

Tem algo na gaveta?

Como produtor executivo, normalmente desenvolvo projetos de outras pessoas. Tenho diversos projetos em mente, alguns em parceria, para depois que deixar o governo. No momento, estou participando da formatação de um programa de TV com minha namorada, que é atriz. Um projeto muito interessante e que já está bastante adiantado.

Como avalia a produção de cinema em Curitiba e no Estado?

Curitiba tem uma produção cinematográfica de alta qualidade e em expansão. Está em processo de renovação com uma nova geração, liderada pelo Aly Muritiba, que já conquista reconhecimento crescente no mercado e na crítica. Na Fundação Cultural, estamos atuando no foco da Economia da Cultura para fortalecer toda a cadeia produtiva com a formação e qualificação de técnicos, fomento à formação de especialistas e produtos em diversas áreas e o fortalecimento da Film Comission para apoiar a produção audiovisual na cidade.

Na área de fomento, apoiamos a realização de filmes de curta-metragem e de filmes digitais e estamos incluindo o estimulo à produção de roteiros, de formatos de programas de televisão e o desenvolvimento de projetos. Curitiba caminha a passos largos para se tornar um dos mais importantes polos de produção audiovisual no Brasil.

Quando se assumem cargos de gestão fica difícil produzir cultura?

Fica sim. A FCC tem mais de 500 ações diferentes. Cerca de 100 equipamentos culturais espalhados por mais de 50 pontos da cidade. Centenas de servidores. E orçamento anual superior a 50 milhões de reais. Administra dois fundos de milhões de reais, um de renúncia fiscal e outro de fomento direto. Realiza mais de uma dezena de eventos culturais por dia. Além disso, também acumulo as funções de presidente do Fórum dos Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais e de membro do Conselho Nacional de Políticas Culturais. Além de uma série de outras funções no governo e na sociedade.

Também não abro mão da minha vida pessoal. Frequento diversas atividades culturais. Sou pai de uma garota de 16 anos, a Paula, e tenho um namoro consolidado com a Isadora (Ribeiro), que também tem duas filhas, Maria e Valentine, às quais dedico atenção e afeto. Assim, o tempo é bastante restrito.

Como falei, estou desenvolvendo um projeto de programa de televisão. Realizo com alguma regularidade conferências sobre educação e políticas culturais. Estou publicando crônicas com alguma regularidade e pretendo voltar a escrever sobre cinema. Recebi convites para publicar um volume com textos sobre cinema e para escrever um livro sobre o Plano Nacional de Educação. Não é tanto quanto gostaria, mas é o possível.

Mas ser secretário de cultura é um privilégio. A gestão da política cultural é intervenção na alma da cidade (no sentido junguiano do termo). É articular a produção artística, com a ebulição intelectual, com as mediações da comunicação, convergindo desejos, angústias, sonhos e frustrações. Isto é mais importante quando as cidades perderam as suas ágoras, seus pontos de referência identitárias e loccus de pertencimento. Trabalho muito para que Curitiba volte a recompor o seu sentimento de pertencimento, recontextualize os seus ícones de identidade e volte a ter uma ágora simbólica no centro da cidade. Por isso, estou empenhado em recuperar o Passeio Público, o parque mais central da cidade, como espaço de sociabilidade de todos os curitibanos, sem distinções. E vamos convergir para o Memorial da Cidade, no centro histórico, os grandes debates estéticos e intelectuais. O objetivo é que este dois componham um trio com a Boca Maldita, na Rua XV, um tradicional espaço de efervescência política. Ser secretário de Cultura é assumir as responsabilidades como um dos artífices da alma da cidade.

O que pensa sobre o setor cultural do Estado de modo geral?

Os governos estaduais de maneira geral têm limitações sérias. No Paraná, esta situação é agravada por um antigo modelo que concentrou a grande maioria do equipamentos na capital. Mas creio que, com a nova lei estadual de fomento à cultura, este cenário possa mudar gradualmente.

E de Maringá?

Maringá tem potenciais culturais imensos. Como uma cidade de migrantes, é um caldeirão social que produziu um patrimônio cultural, embora recente, de riquezas e diversidade de alta qualidade. A cidade deveria valorizar e demostrar orgulho dessa característica.

Também é uma cidade que dispõe de empresas fortes, que poderiam fomentar mais intensamente a produção local. Tem bons espaços culturais e uma Lei muito interessante de apoio aos museus.

Conheço alguns projetos de alta qualidade de maringaenses. A cidade tem tudo para acontecer no cenário cultural, basta desenvolver políticas sérias, participativas e estruturantes.

O que pensa sobre o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Instituto Memória e Vida (IMV), na figura do Edson Pereira e do Marcelos Seixas? Eles sempre falam muito bem do senhor, principalmente dos trabalhos desenvolvidos na Ancine.

Os dois são muito competentes, criativos e têm grande disposição para o trabalho. Compreenderam o potencial de Maringá e resolveram investir na promoção de projetos culturais. A cidade tem sorte de tê-los e deveria reconhecer esta sorte, apoiando-os intensamente. O Captart é uma experiência exitosa e já é referência nacional. Estamos conversando com os dois para nos ajudar a montar um mecanismo similar em Curitiba. Também estamos discutindo a possibilidade de Curitiba aderir ao Museu da Família, outro projeto de grande importância e que deverá, também, ser referência nacional e internacional. E como maringaense, gostaria muito de ver o Museu da Agricultura funcionando.

Leio em seu currículo que o senhor teve também uma grande atuação na área da Educação. Em sua opinião, de que forma é possível ganhar pontos culturais investindo na Educação de uma cidade? Acha que é válida a unção das pastas ou pelo menos diálogo frequente?

Cultura e educação, em particular nos governos municipais, precisam caminhar juntas, embora resguardando as suas respectivas autonomias. Aqui em Curitiba, temos uma situação ideal de articulação entre estas duas secretarias.

A ação cultural nas escolas é uma de nossas linhas principais de atuação. Inclusive estou estruturando toda uma área específica para tratar das ações articuladas entre cultura e educação.

Estamos ampliando a oferta de cultura na escola direcionando diversos eventos e apoiando a ampliação da jornada escolar. Mas temos alertado que há uma diferença entre as obras de arte utilizadas com função didática e as ações culturais para livre fruição. Os espetáculos de teatro, dança, música e cinema, e as ações de leitura, em museus e outros centros culturais, devem ser de livre fruição, sem obrigações ou avaliações.

Estamos ofertando o EduCultura, um programa que visa disponibilizar espetáculo e obras culturais para os professores, pois entendemos que a formação cultural dos estudantes corresponde à proporção desta mesma formação nos professores.

Todos os nossos equipamentos – salas de exibição, museus, o conservatório de música – assim como a Camerata, os coros e as orquestras, terão atividades direcionadas para o público escolar, tanto nas categorias didáticas como de livre fruição.

Na comissão cultural do Congresso Nacional, trabalhou com Ana Hollanda, né? Aprecia o trabalho que vem sendo desenvolvido por Marta Suplicy?

Quando trabalhei no Congresso Nacional, o ministro era o Juca Ferreira. O período que trabalhei na Ancine coincidiu com a gestão da Ana de Hollanda. Aprecio muito o trabalho da Marta Suplicy no Ministério da Cultura. Quando foi prefeita de São Paulo mostrou grande sensibilidade e apreço pela cultura é também uma gestora muito competente. Responde de forma eficiente e rápida às demandas do Ministério.

A Marta demonstrou muito apreço por nosso trabalho e nossos projetos para Curitiba e tem se mostrado uma importante parceira, tanto na FCC como no Fórum dos Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais.

O senhor ajudou na criação do Vale-Cultura, que deverá virar realidade no meio deste ano. O que pensa sobre este projeto?

O Vale-Cultura é um mecanismo fundamental. Enquanto nossos programas de fomento estimulam a produção, o Vale Cultura vai estimular o consumo cultural, a outra ponta do processo.

Em Curitiba estamos trabalhando bastante para que os produtores e artistas da cidade possam usufruir destes recursos. Já estamos estruturando um guia de oferta para circular entre os usuários do programa e preparando os produtores culturais para usufruir da melhor e maior maneira possível.

Alguns criticam o Vale-Cultura porque não contemplará alguns gostos como por games e TV a cabo. Mas, isso é cultura, em sua avaliação?

O Vale-Cultura é um mecanismo novo. Acho bom que ele comece atendendo um rol menor de produtos e serviços, para que possa ser testado e para verificar e compreender o comportamento dos usuários. Num futuro breve, poderá ser reavaliado e poderá incluir outros segmentos de consumo cultural.

Acha que a Lei Rouanet precisa melhorar ou com a criação do Pro-Cultura as questões envolvendo captação via isenção fiscal para apoiar a cultura já estão bem acertadas?

Acredito que precisamos de diversos tipos de financiamento ao fomento cultural. A renúncia fiscal, regulado pela Lei Rouanet e pela Lei do Audiovisual no âmbito do governo federal, e por diversas leis estaduais e municipais, é uma peculiaridade das políticas culturais no Brasil. São mecanismos que precisam de ajustes regulatórios mais flexíveis e que os aproximem dos focos das políticas públicas, em particular nos municípios.

O segundo tipo são os fundos de fomento direto, que financiam a cultura disponibilizando diretamente verba dos orçamentos governamentais. O modelo do Fundo Municipal de Cultura de Curitiba é um dos melhores, pois dispõe de recursos para dezenas de linhas de ação cultural, disponibilizados através de editais regulares. Os modelos do PAR, PAQ e os editais de coprodução internacional mantidos pela Agência Nacional do Cinema, a Ancine, são também modelos eficientes de fundo de fomento direto.

O terceiro tipo é o do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), mantido também pela Ancine, um fundo retornável, que transforma o governo numa espécie de sócio dos produtores de cinema.

Eu também defendo um novo modelo de regulação dos recursos da cultura flexibilizando os formatos de fomento e financiamento para os agentes da cultura viva. É preciso aprimorar os modelos atuais de editais que dificultam e até inviabilizam a realização de eventos com artistas populares. Penso numa forma de fomento direto, com supervisão, semelhante aos modelos de bolsas de pesquisa e pós-graduação da Capes e do CNPq.

Acredito que é necessário, também, a criação de uma instituição financeira específica para gerenciar os recursos da cultura. Uma financiadora que administre os contratos e investimentos dos recursos culturais aprovados por todos os órgãos e instituições vinculadas ao Ministério da Cultura.

Acha que é por meio da Lei Rouanet que definitivamente pode haver mais apoio cultural partindo da iniciativa privada ou há também outras alternativas de parcerias entre o público e o privado?

Eu creio em três modelos de fomentos. O primeiro é o fomento direto, com recurso do tesouro, que possa financiar tanto obras autorais, experimentais e de iniciantes, centrado na formação e renovação estética. Ele é também para estimular a autonomia crescente dos produtores e artistas, para que consigam a auto sustentação financeira pelo trabalho cultural. Por outro lado, os governos municipais devem ofertar espaços de exibição e mecanismo de circulação e apoiar o consumo cultural.

Defendo enfaticamente que o fomento cultural é para o estímulo à criatividade do artista e que devemos superar o preconceito que o artista não pode ganhar dinheiro com um produto cultural financiado com recursos públicos. O produto cultural é uma propriedade do artista que deve dispor dele para gerar trabalho e renda. Os artistas e os produtores devem, no entanto, oferecer contrapartidas à sociedade e disponibilizar os produtos criados como recursos educacionais abertos.

O segundo modelo é o mecanismo de renúncia fiscal, em que os apoios à arte são retirados de impostos e tributos devidos pelos empresários fomentadores. Acho que este mecanismo é importante em alguns setores, que podem ampliar os recursos públicos disponibilizados via renúncia fiscal com contrapartidas efetivas dos fomentadores. E insisto que o foco deles deve estar articulados às políticas culturais vigentes, em particular, nos municípios.

O terceiro modelo é o estímulo a outras formas de investimentos provenientes da inciativa privada, ampliando a participação destes recursos na produção cultural brasileira, sem intermediação dos governos.

O senhor também disse considerar o hábito da leitura ainda pouco difundido em Curitiba. Pensa em algo para melhorar essa questão, que certamente não é só da capital?

O hábito de leitura é pouco difundido em todo o Brasil. Temos pelo menos quatro grandes obstáculos para superar esta situação. O primeiro é que, até recentemente, as políticas de incentivo à leitura nas escolas não eram eficientes. O segundo é o preço do livro, ainda alto em relação ao poder aquisitivo da população. O terceiro corresponde ao fato de que as bibliotecas são em número insuficiente e, de forma geral, mal localizadas, dificultando o acesso dos potenciais leitores ao livros. O quarto é que as bibliotecas ainda são muito burocratizadas, exigindo cadastros, determinando o tempo de empréstimo dos livros e, em alguns casos, constrangem os leitores, publicando listas daqueles que estão em atraso.

Em Curitiba, estamos ampliando o acesso aos livros com as Estações da Leitura, que são pequenas bibliotecas em terminais de ônibus e outros pontos. Também temos as Casas de Leitura, que promovem, por ano, milhares de rodas de leituras em diversos pontos da cidade, um dos programas mais eficientes de estímulo à leitura em curso no Brasil.

Mas o grande impulso para a mudança desta situação, e que está mudando os hábitos de leitura, são as Tubotecas. Trata-se de uma ideia simples e de baixo custo, mas de alta eficiência. Colocamos livros de literatura em estantes nas estações tubo de ônibus: à altura dos olhos, ao alcance das mãos e sem nenhuma burocracia. A pessoa pode ler enquanto espera o ônibus. Se preferir, continua lendo no transporte e até em casa. Pode devolver quando quiser em qualquer uma das estações vinculadas ao projeto.

A procura pelos livros foi muito superior ao projetado e o retorno dos leitores é extraordinário. E o melhor: além de estimularmos pessoas que nunca tinham lido um único livro, que não têm poder aquisitivo, que não frequentam bibliotecas, ganhamos diversos agentes de leitura, com os novos leitores estimulando pessoas do seu convívio à leitura. Diversos dos livros retirados são repassados para outros leitores por estímulo daqueles que o leram.

Chega a ser emocionante a mobilização dos doadores de livros que fazem coletas entre amigos, em escolas e locais de trabalho. A Tuboteca poderá virar um ícone da cidade baseada na educação e no voluntariado.

Curitiba já está lendo mais. Esta é uma ótima notícia, pois a pessoa que lê mais está aberta a frequentar outras linguagens artísticas, como espetáculos musicais e cênicos, exibição de filmes, exposições de diversos tipos e proteger o patrimônio cultural .

Em Curitiba, qual a função da Fundação Cultural, já que também há uma secretaria de Cultura?

Em Curitiba, o presidente da Fundação Cultural tem o status de Secretário Municipal. O regime jurídico da fundação facilita a execução de projetos com maior flexibilidade na gestão de equipamentos, pessoal e recursos.

Acha que Maringá necessita de uma fundação cultural?

Como disse, não conheço o modelo de gestão de Maringá, mas via de regra a criação de uma fundação cultural pode facilitar a execução de projetos com maior flexibilidade. Mas é importante manter a autonomia da gestão da cultura, pois este é um requisito do Sistema Nacional de Cultura e uma necessidade política. Também é importante blindar o orçamento da cultura para que não tenha utilização em eventos religiosos, festas cívicas etc. Atividades constantemente atribuídas a cultura e que, de fato, não o são.

Por fim, se neste momento estivesse conversando com o secretário de Cultura de Maringá, quais conselhos o atual presidente da FCC daria a ele para que seja possível na cidade uma melhora no setor?

Conheci o Jovi Barboza rapidamente num evento em Curitiba. Eu não teria conselho para ele. Mas gostaria muito de encontrá-lo para trocarmos experiências e discutirmos algumas parcerias.

*Parte desta entrevista foi publicada na edição impressa desta quinta-feira (16), no D+, do Diário de Maringá

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O Vampiro de Astorga – entrevista com Marcos Peres

Marcos Peres, em seu escritório: “Tomo uma xícara de café enorme e escrevo umas duas, três horas. Se eu ultrapassar esse tempo, sinto que a qualidade do escrito cai” (Foto de Ricardo Lopes)

Quando a reportagem do Diário descobriu, no último domingo, que um jovem escritor maringaense havia ganhado o disputado Prêmio Sesc de Literatura, começou a “caça” pela entrevista com o autor. Para a sorte deste que vos escreve, Marcos Peres Gomes Filho, 28 anos, mais conhecido como Marcos Peres ou ainda simplesmente Astorga (cidade onde morou por um tempo), vencedor do prêmio na categoria Romance com o aguardado “O Evangelho Segundo Hitler”, é um colega de rede social em razão do projeto Contos Maringaenses, do qual ambos participamos.

Nem tanta sorte assim. Ao contrário do que se imaginava, Marcos Peres resolveu dar um sumiço por esses dias, alegando afazeres e compromissos inadiáveis. Formado em Direito, ele é servidor público e dá expediente no Fórum maringaense todos os dias. Não conseguimos entrevistá-lo pessoalmente, infelizmente. Foi difícil marcar até a fotografia. Mas, pelo menos, ele prometeu responder as perguntas da reportagem, via e-mail. Mesmo assim, aos 47 do segundo tempo, em horário próximo ao fechamento das páginas do jornal, a tão esperada entrevista ainda não tinha chegado na caixa de entrada.

Para alegria do repórter, a entrevista chegou. E, lendo o conteúdo do e-mail de Marcos Peres, finalmente entendemos a demora: ele leva a sério esse negócio de escrever e, não se esquivando de nenhuma pergunta, totalizou um documento de quase 10 páginas !

Demonstrando imensa paixão pela literatura, o leitor de Gabriel García Márquez e Jorge Luis Borges, apaixonado pelo São Paulo Futebol Clube e por corridas no Parque do Ingá (onde idealiza grande parte do que escreverá em suas sagradas três horas dedicadas à literatura), “Astorga” contou um pouco mais sobre sua vida e sobre o processo de produção do romance “O Evangelho Segundo Hitler”, que em breve será lançado pela Editora Record, com distribuição nacional.

Leia abaixo a entrevista na íntegra:

O que costuma fazer habitualmente?

MARCOS PERES – Graduado em Direito pela UEM, trabalho na Vara de Execuções Penais de Maringá. Nasci em Maringá – apesar de passar minha infância em Astorga, moro na Zona 2, sou casado e tenho um shih-tzu chamado Billy. Meu maior hobby é correr no Parque do Ingá. Corro todos os dias e todos os anos participo da Prova Tiradentes (inclusive, inspiro-me no japonês Murakami que escreve e participa de provas de atletismo – e que tem um livro chamado “Do que Falo Quando Falo de Corrida”). Gosto de futebol e vejo qualquer partida que esteja passando na TV. Sou são paulino e vi meu time ser campeão da Libertadores da América ao vivo no Morumbi. Além disso, leio e escrevo todos os dias. Minha rotina já há alguns anos é essa. Trabalhar, escrever e correr. O ato da corrida, além de relaxar, ajuda-me também a pensar, a raciocinar como um romance ou um conto deve ser desenvolvido. Algumas boas partes de “O Evangelho Segundo Hitler” saíram do Parque do Ingá. Lá é um lugar maravilhoso.

Desde quando escreve? Por que resolveu começar a escrever?

As duas perguntas se cruzam de forma indissolúvel. Escrevo porque necessito. Escrevo porque há coisas que me perturbam e que preciso exteriorizar, independentemente de um leitor posterior. Escrever sempre foi minha terapia. E escrevo, portanto, desde que comecei a possuir indagações que não eram facilmente respondidas. Creio que desde os 15 anos, mais ou menos. E escreverei enquanto tiver algo inquieto em minha mente. O dia que eu não tiver mais dúvidas, o dia em que eu estiver conformado, não escreverei mais nada. Escrever nunca foi e espero que nunca seja um comércio pra mim. É terapia e paixão. E basta.

Com que frequência produz textos? Onde? Como? Quais suas manias na hora de escrever? Precisa de silêncio? Escreve diretamente no computador? Faz muita pesquisa? Vai no impulso?

Escrevo diariamente. É uma necessidade, de fato. Prefiro a parte da manhã, que minha cabeça está descansada. Tomo uma xícara de café enorme e escrevo umas duas, três horas. Se eu ultrapassar esse tempo, sinto que a qualidade do escrito cai. Escrevo algumas vezes no impulso e, quando o faço, necessito revisitar o escrito e limá-lo. Um escrito genial feito no impulso é, invariavelmente, no dia posterior, algo cheio de vícios e erros grotescos. O Flauzino (José Flauzino Alves), que é meu grande amigo e foi corretor de “O Evangelho…”, sempre me alertou por ser impulsivo. É algo que tento controlar.

Acredita mais em inspiração ou transpiração?

Acredito que, apesar de antônimas, não são características excludentes. As duas devem coexistir. Inspiração é o sopro inaugural, a ideia germinal que aparece de repente e mexe com o nosso brio. O resto é tudo transpiração e desmistificação do escritor como um ser inteiramente feito de pensamentos. Depois de criadas as bases estruturais pela inspiração, o escritor tem de sentar a bunda na cadeira e labutar. Tem de estar ciente que é um trabalho que demanda tempo, dedicação, disposição e entrega, como qualquer outro. Portanto, acho que inspiração e transpiração se complementam. Transpiração sem inspiração gera escritores sem coração. O inverso gera escritores sem livros. E os dois são um problema.

De que forma outras manifestações artísticas, como a música e o cinema, influenciam em sua literatura? Cite alguns gostos pessoais que são importantes em sua produção.

Há determinados momentos que gosto de escrever sob a influência de música. “O Evangelho…” envolve a Argentina e mais de uma vez me peguei escutando Piazzola. Acho que era uma tentativa, mesmo que inconsciente, de entrar no clima. Há um determinado trecho que não conseguia desenvolver e que só o fiz quando escutei “Libertango”. Se foi coincidência, foi uma coincidência ótima. Quanto ao cinema, acho que a premissa é a mesma. Música e cinema são artes que nos fazem sonhar, que realizam a catarse que Aristóteles já previu. Quando escuto uma boa música ou um bom filme, transporto-me para aquele universo. E, consequentemente, penso. E pensar faz parte do sopro inaugural da literatura, daquele momento único da inspiração.

Bisbilhotando em sua rede social, percebo um apreço grande por viagens. Quais você poderia citar que foram determinantes para a produção literária? Viagens são importantes para se escrever bem?

Não sei até que ponto o ato de escrever e viajar podem ser relacionados. Viajar, na verdade, ajuda a compreender melhor – não só o mundo, mas a si mesmo. Escrever após o ato de viajar é, portanto, escrever com mais propriedade, com mais conhecimento dos limites geográficos e próprios. A decisão de escrever “O Evangelho…” se deu no meio de um mochilão que realizei com amigos, um mochilão pela Bolívia, Peru e Chile. Viajava no meio do Deserto do Atacama enquanto pensava nos primeiros alicerces de “O Evangelho…”. Era estimulante olhar um mundo tão diferente do meu e pensar que eu estava prestes a construir um pequeno universo, que, de alguma maneira, eu ousava reescrever a história. Coincidentemente, no Peru, fiz amizade com um escritor argentino, o Juan. Disse-lhe sobre meu fascínio pelo Borges. Ele, ao contrário, preferia outros escritores, outros que nomeava como genuinamente argentinos – Como Sabato e Cortázar. Foi uma conversa estranha – um brasileiro exaltando um ídolo argentino e um argentino afirmando que o brasileiro estava equivocado. Foi uma conversa que, no futebol, provavelmente não ocorreria. Ele me explicou que o Borges é um lord europeu e que nunca refletiu inteiramente o sangue quente portenho. Algo parecido com o que o Messi hoje representa: endeusado na Europa e não tão estimado na própria nação. A conversa me ajudou a criar a imagem do Borges que eu queria escrever. E hoje o Juan é um grande amigo e já me felicitou pelo prêmio.

Você, ao lado do Michel Roberto, foi o idealizador do projeto Contos Maringaenses. O que levou aos dois a encabeçarem o projeto que acabou reunindo o pessoal que aprecia escrever na cidade? O que sentiu com o tempo e com as publicações no Contos Maringaenses? A cidade realmente tem uma geração de escritores? Existem características em comum entre eles?

O Michel foi o criador dos Contos. Na época eu havia mandado uma novelinha irônica chamada o “Código do Ingá” – e que brincava e fazia referências ao “Código Da Vinci”. Era uma história que se passava em Maringá e unia alguns personagens célebres locais. Logo após ele me perguntou se eu topava escrever sobre Maringá. Ele reuniu o time, estabeleceu as diretrizes, estipulou os prazos e, ainda, cuidou da parte gráfica e artística do e-book. Os contos deste e-book deviam mencionar Maringá, mesmo que esta não fosse a protagonista da trama. O Bruno Vicentini definiu bem o tema: “Maringá, incidentemente ou acidentalmente”. Fizemos o e-book e depois mantivemos o blog. O blog foi um baita feito. Antes dele não existia nada, nada. Depois os escritores ficaram amigos uns dos outros, conheceram a fundo a obra que era realizada em Maringá. O projeto Contos Maringaenses sempre teve um princípio: o da democratização. Não negamos nunca o direito de um jovem ver seu texto publicado naquele espaço. Acreditamos que era mais importante o papel de fomentar a criação de textos do que o da triagem. Lá estão jovens incipientes e escritores consagrados. Conseguimos a façanha de publicar no mesmo veículo jovens de 16, 17 anos e textos do Oscar Nakassato e do Laurentino Gomes. Mostramos que é possível – em uma cidade de médio porte, do interior de um Estado, fora do centro cultural nacional, encravada em um país do terceiro mundo – produzir literatura, com quantidade e qualidade. Durante um bom tempo, o blog era abastecido semanalmente com textos meus e de outros jovens – e de escritores consagrados e rodados. Considero um feito. Considero, humildemente, um meio eficaz para organizar a literatura feita pelos escritores principiantes de uma cidade. E, pelo blog, conheci o Flauzino – que aos poucos tomou para si o fardo de crítico literário dos Contos Maringaenses. Ele já havia corrigido o bem sucedido “Nihonjin”, do Oscar. Com o mesmo empenho, corrigiu “O Evangelho…”. É mais um que vai pra conta dele.

Quais escritores maringaenses aprecia?

Não vou citar o Oscar pela obviedade que isso representa. Ele atualmente é o ícone literário de qualquer escritor maringaense e, obviamente, meu ícone também. Gosto muito do Nelson Alexandre e tentei ajudá-lo a divulgar o seu “Paridos e Rejeitados” ano passado. Gosto também do Bruno Vicentini, do Alexandre Gaioto, da Thays Pretti. Maringá tem muitos jovens talentosos.

Quais escritores – não precisa ser maringaense – influenciam sua escrita?

Gosto muito de Dostoiévski, do Borges, do García Márquez, do Bolaño, do Umberto Eco, do Philip Roth, do Tchekhov, do Saramago, do Murakami… Dos brasileiros, leio sempre Guimarães Rosa, Machado, Autran Dourado, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Tezza. Dos contemporâneos, gosto muito de “Os Malaquias”, da Andréa del Fuego e de “Fazes-me Falta”, da portuguesa Inês Pedrosa. São dois livros de uma sensibilidade absurda. Acho que procuro beber da fonte dos escritores que admiro. E acho que este é um fato normal para um escritor principiante, não é?

Sua escrita se assemelha com a literatura produzida por qual escritor brasileiro ou estrangeiro?

Seria pretensão demais afirmar que pareço com outro escritor. Nem escritor me considero. Na ficha do médico, no quadro profissão, assino como “servidor público”. É ousadia demais querer me comparar com alguém que admiro tanto.

Gostaria que sua literatura se parecesse com qual literatura?

Gostaria de ter uma voz própria. Gostaria que as pessoas lessem meu escrito e falassem: “É do Marcos Peres”. Espero um dia chegar lá.

Se alguém fosse apontar características para a sua literatura, quais seriam, na sua opinião?

O Rafael Zanatta, que é uma opinião que considero e admiro na cidade, diz que eu bebo do elemento fantástico. Ele, em parte, está certo. Já usei a fantasia em determinados contos. Mas já procurei beber de outras fontes. Já fiz romance sobre ficção científica, novelas realistas, contos policiais, esboços de teatro… tudo para tentar descobrir meus limites, tudo para tentar explorar o palco em que estou inserido. Muitos projetos não foram exitosos, é verdade. Mas ainda estou me descobrindo. Não acho que já posso me classificar em um gênero. E acho que, quem tentar me classificar, corre o sério risco de errar. Ainda estou em metamorfose…

Utiliza muitos elementos autobiográficos em sua literatura?

Utilizo, mas aparecem sempre como passagens de temas maiores. Acabam surgindo como detalhes de um universo fictício. Não tenho a intenção de me expor ou expor pessoas que conheço na ficção. Quando isso ocorre, é um fato circunstancial e acidental.

Quais contos publicados na internet poderia me indicar para eu ler e que pode definir um pouco melhor o seu perfil literário?

Cara. Há algum tempo fiquei chateado com a publicação de ficção e resolvi tirar meus contos do blog Contos Maringaenses. Na oportunidade, não abandonei a escrita; abandonei apenas a possibilidade de ser lido. Acho que há um ou outro conto no blog do pessoal do Nego Dito. Nos Contos Maringaenses, não sobrou nada.

Por que mesmo com o gosto pela literatura resolveu estudar e trabalhar na área do Direito e não seguir carreira, por exemplo, na área de Letras ou Jornalismo?

O sonho primitivo era o Jornalismo. Uma jornalista, quando eu prestava o vestibular, me desanimou. Disse coisas sobre o mercado de trabalho, sobre o fato de Maringá estar distante do eixo Rio-São Paulo e acabei optando pelo Direito. Quando eu estava no quinto ano do curso de Direito na UEM, passei na primeira fase para virar trainee na Folha de S. Paulo. Mas era tarde demais. Na oportunidade, já havia passado no concurso da Justiça Federal de Presidente Prudente. Todos, na oportunidade, alertaram-me sobre o risco de jogar tudo para o ar para tentar um sonho incerto. E nem fui fazer as demais fases do concurso da Folha.

Assim como 90% dos escritores lembrados na história da literatura brasileira, é servidor público. O que isso ajuda na produção literária?

Não sei se a pedra de toque é o serviço público. Se realizar uma estatística dos escritores que fizeram Direito ou que também foram advogados, o montante será alto também. Imagino que a pedra de toque, de fato, é o ramo das ciências humanas. A grande maioria dos servidores públicos passaram pelas fileiras de algum curso da área de humanas. E escrever, seja ficção ou não, é um ato umbilicalmente ligado às Humanas. É a ciência humana, aplicada na prática, no papel.

Tem ideia da quantidade de coisas que já escreveu? Quantos contos? Só um romance ou tem mais tesouro guardado nas gavetas virtuais do seu computador? Sei que escreve contos por causa do Contos Maringaenses. Descubro que escreve romances com a conquista do Prêmio Sesc de Literatura. Curte escrever outras coisas também, como crônicas e poesias?

O Flauzino costuma dizer que sou producente. Coloquei muitos contos no blog e outros tantos ficaram fora do blog, por opção própria. No meu estoque de contos, devo ter material para uns dois ou três livros. Mas gosto mesmo de escrever romances. Desde que comecei, sei que gosto dos romances. Para falar a verdade, só tomei gosto pelos contos através do Michel Roberto e dos Contos Maringaenses. Tenho alguns romances engavetados e projetos para mais alguns. Uma coisa eu tenho certeza. Escrevo muito – no sentido quantitativo da coisa. Se são bons, eu não posso afirmar. Mas afirmo que são muitos. Escrevi também alguns textos que nem sei se podem ser chamadas de crônicas. Foi para o blog de um grande amigo, José Marques, que também muito me incentivou a escrever. E poesia, definitivamente, não é comigo. Não me sinto capaz.

Nós, do interior do Paraná, as vezes temos o péssimo hábito de nos rebaixarmos perante os escritores da cidade grande, do eixo Rio-SP. Oscar Nakasato e tantos outros estão aí para dizer que estamos errados e que é possível sim produzir literatura boa em qualquer lugar, seja em Maringá, Apucarana ou até mesmo em Astorga. O que pensa sobre isso?

Lembro-me da visita que o Marcelino Freire e o Carpinejar fizeram em nossa cidade. Lembro-me da surpresa que tiveram quando encontraram um grupo literário forte e atuante. Freire depois disse no Twitter que Maringá possuía escritores porretas. Deram sugestões, batizaram nosso projeto, curtiram mesmo. O Tezza também, nas duas oportunidades em que aqui esteve, reuniu-se com o pessoal dos Contos e se mostrou surpreso com a organização que criamos. Não sou capaz de precisar a diferença entre o eixo cultural Rio-São Paulo com o resto do Brasil. Mas ouso afirmar que Maringá não perde para o tal eixo cultural, se considerarmos o tamanho da cidade e a quantidade de recursos que possuímos.

Surpreendeu-se, ainda fazendo referência ao menosprezo por quem é de cidade pequena, ao vencer o Prêmio Sesc de Literatura, disputado pelo Brasil inteiro? Consegue relatar a sensação sentida ao saber da notícia da premiação? Como foi? Quem te contou? Quando?

Foi uma surpresa enorme. Eu estava no trabalho e vejo uma ligação do Rio de Janeiro no celular. Como não tenho amigos lá, imaginei que fosse ligação de algum banco. Quando o senhor perguntou meu nome, todo formal, a expectativa de que era um vendedor de cartões de crédito aumentou. Cheguei a ser ríspido com o senhor do Sesc. Ele, polido, informou que eu era o grande vencedor do prêmio deste ano. O mais difícil foi desligar o telefone e explicar aos colegas de trabalho a notícia. Para eles, eu era apenas o servidor Marcos. Foi um pouco constrangedor explicar que eu escrevi um romance premiado com o nome “O Evangelho Segundo Hitler”. Não é um fato muito comum. Não é algo que ocorre todos os dias.

Conte como foi o processo de escrita de “O Evangelho Segundo Hitler”. Quanto tempo demorou? Quantas horas por dia dedicava ao livro? Que obras te influenciaram? Foi feita muita pesquisa?

Sou, de modo geral, desorganizado. Toda a minha vida é uma bagunça. Na escrita, não. Tenho algumas regras e sempre as cumpro. Crio, primeiro, o esqueleto do livro. Faço esboços com os modos, as características e os trejeitos do personagem. São fatos que podem não ser observados pelo leitor, mas que me auxiliam a movimentar com segurança no mundo que criei. Creio que a segurança é primordial para uma boa escrita. Depois, aos poucos, preencho o esqueleto. Escrevo duas ou três horas por dia, apenas. Mas estabeleço algumas metas. Normalmente, me contento em escrever duas mil palavras diárias. Mais que isso, sinto a qualidade cair. “O Evangelho…” tem em torno de oitenta e cinco mil palavras. Demorei uns dois meses para fazê-lo e mais alguns para revisá-lo.

Por que escolheu esse título?

Foi um nome que ainda me causa um certo receio, é um nome forte e improvável. Senti medo com a repercussão que um Evangelho ligado a Hitler pudesse obter. Minha família é inteira católica, pensei muito neles. Ao contrário do que possa parecer, não quero criar polêmica.

O que pensa sobre Hitler?

Penso o mesmo que ensinam em todos os colégios de todo o mundo. Que é um monstro. Um ditador. Que fez um mal muito grande para humanidade.

E sobre o Evangelho?

É uma palavra bonita. É bonito imaginar que o maior acontecimento da fé cristã foi testemunhado por quatro escritores e que estes foram os responsáveis pela transmissão desta fé. Marcos. Matheus, Lucas e João escreveram, cada qual ao seu modo, os acontecimentos centrais da fé. Denota, de fato, a importância da escrita. Denota o papel do escritor e a responsabilidade que este assume ao empunhar uma caneta ou digitar no word.

Há alguma referência à obra “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de Saramago?

Nenhuma. O único fato em comum é a referência aos Evangelhos canônicos.

De que forma escreveria uma sinopse do seu livro?

O livro trata de um homônimo do escritor Jorge Luis Borges que, por uma série de enganos, acaba se envolvendo com uma seita alemã. Os alemães acreditam que o homônimo é, em verdade, o famoso escritor e acreditam nas palavras dele. O homônimo, para não se envolver, repete escritos do Borges e os alemães, mediante uma interpretação desregrada, acabam criando conotações nazistas nestas declarações. O livro trata de uma união improvável, quiçá impossível: do monstro Hitler com o fabuloso escritor Borges. Crio uma teoria conspiratória apenas para demonstrar ao leitor que é possível criar teorias conspiratórias a torto e a direito. Crio um castelo de areia para desmoroná-lo depois.

Qual público, na sua opinião, vai gostar mais de “O Evangelho Segundo Hitler”?

Não sei. Na verdade não pensei que “O Evangelho…” teria mais que a meia dúzia de leitores que comumente tenho. Ainda é uma novidade para mim.

Chegou a mandar os originais para alguma editora? Como foram recebidos?

Não. Mandei outro romance há alguns anos para Companhia das Letras. Responderam-me com uma resposta já pronta que não tinham interesse.

Quantas páginas de word deram os originais enviados para o prêmio? Quantas páginas acredita que a publicação concretizada terá?

240 páginas de word mais ou menos. 85 mil palavras, para usar um código mais preciso. Não posso precisar quantas páginas terá o romance.

Conte como está sendo o processo de diálogo com a Record? É verdade que vai precisar enxugar um pouco a obra? Por quê?

O diálogo ainda é incipiente. Até pouco tempo meu contato era todo com a instituição do Sesc. Não. Na verdade, eu reli “O Evangelho…” e decidi que era necessária uma releitura. Escrevi o livro há três anos, já há algumas coisas que não me soam bem. A decisão de lapidar “O Evangelho…” partiu de mim e não da editora.

Por que escolheu o pseudônimo Lestast?

Foi uma coincidência grande. Quando necessário, usava outro pseudônimo. Desta vez, antes de mandar os originais, coincidentemente havia acabado de ler “O Vampiro de Curitiba”, do Dalton Trevisan, e de ver o filme “Entrevista com o Vampiro”. Um dos personagens de “Entrevista com o Vampiro” se chama Lestat. Criei, por brincadeira, uma corruptela com o Lestat da Anne Rice e o Ast, de Astorga. Há o Vampiro de Curitiba. Há, agora, o Vampiro de Astorga. Tremei, Edward Cullen!

Além da publicação, há mais alguma premiação pelo Sesc? Serão dois mil exemplares né? Haverá um suporte de divulgação ou precisa correr atrás de alguma coisa?

São dois mil exemplares. O premio é este. Acredito que a Record fará um suporte de divulgação, mas é divagação ainda. Não conversei com a editora a respeito.

Acha que conseguirá vender todos os livros?

Espero verdadeiramente que sim!

Qual é a porcentagem de destinação de dinheiro ao autor por livro vendido? No contrato, quais outras obrigações terá com a Record? Em uma nova obra, terá de publicar com eles?

10% do valor de capa. Com relação às obrigações que terei, ainda me são desconhecidas. Não sei exatamente os termos do contrato que terei que cumprir.

Em uma carreira que se inicia ainda jovem, acha que pode melhorar em que sentido em sua produção literária?

“O Evangelho…” foi feito há três anos e já há muitas coisas que vejo que mudei. Como disse, estou ainda em formação. Escreverei até descobrir, de fato, quem eu sou. É a descoberta do palco. A descoberta do que sou capaz de fazer e quais são minhas limitações.

De que maneira sua vida como escritor vai mudar com essa conquista?

Espero continuar com minha rotina. Espero dedicar minhas manhãs para a literatura. O reconhecimento é muito gostoso, mas escrever, para mim, sempre será uma terapia. Um ato necessário. Espero que isso não mude.

Quais os planos? Tem em mente ideias para novos livros?

Já “O Evangelho” estava engavetado. Estava envolvido até o pescoço com o projeto de uma trilogia de romances. No dia em que recebi a notícia, havia acabado de mandar um e-mail pro Flauzino: “Prepare-se que tem mais um calhamaço pra analisar”. Em seguida, logo que recebi a notícia da premiação, tive de me retratar: “Isso vai ficar pra mais tarde. ‘O Evangelho…’, pelo visto, pede mais atenção agora”.

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‘O samba é capaz de tudo’ – Entrevista com Adilson Gavião

O projeto “Vida de Compositor” continua na noite deste sábado (9) na Casa de Bamba e recebe o grande compositor Adalto Magalha (leia entrevista exclusiva com ele). Na noite de sexta-feira (8), Adilson Gavião garantiu o samba e a festa na casa. Leia, abaixo, entrevista com ele que, dentre suas cerca de 250 composições, é autor de “A Batucada dos Nossos Tantãs”:

É a primeira vez que vem a Maringá se apresentar? O que pensa sobre a cidade e o Paraná?

ADILSON GAVIÃO – Sim, é a primeira vez que vou a Maringá. Tenho pesquisado sobre a cidade e a cultural local. Estou ansioso para poder conhecê-la melhor.

De que maneira se deu a educação musical em sua casa, já que seu irmão também compõe?

A minha família tem grande tendência musical. Além do Adalto Magalha, que é compositor, o meu irmão mais velho é arranjador. Meu filho é baterista e técnico de gravação. Meu primo Romero Lubambo é considerado um dos melhores violonistas do mundo, e está radicado nos Estados Unidos a 25 anos. Meu outro primo, Ilvamar Magalhães, é músico, compositor, intérprete, arranjador, artista plástico e foi o carnavalesco campeão com a Unidos de Vila Isabel em 1988.

Há uma disputa saudável para ver quem faz mais e melhores músicas entre você e seu irmão?

Nem pensamos nisso. O Adalto é meu irmão, somos profissionais e, inclusive, parceiros em muitas músicas. Não existe rivalidade.

Leio em seu release que sua carreira começou compondo músicas instrumentais na década de 70. Gosta mais de compor instrumental ou letra? Por quê?

Eu gosto de compor o que vem da alma, e às vezes a inspiração vem na forma instrumental. Na década de 70 houve um impasse entre a Rede Globo e alguns compositores de sucesso da época, o que os impediu de compor trilhas sonoras para programas de TV da Globo. Eles queriam algum compositor que facilitasse a autorização das músicas, e como eu estava começando a minha carreira, o meu irmão Dulcídio – que era sonoplasta da Globo – sugeriu ao diretor Sr. Pinheiro a inserção de minhas músicas como fundo musical em alguns programas. Com isso, tive o privilégio de ter as minhas músicas executadas por grandes músicos do Brasil, como Eduardo Lage, Radamés Gnatalli , Zé Budega, Biju, Netinho, Jorginho, Edson Frederico, Aurino, Ed e Edson Maciel entre outros.

Tem ideia de quantas composições já fez?

Tenho mais de 150 músicas gravadas e mais ou menos 100 inéditas, fora muitas que ficaram perdidas nas minhas fitas k7.

Como é o seu processo de criação?

A música vem na gente sem esperar, é como uma luz que vem do alto. A música “Poder da Criação” do João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro retrata isso, com muita propriedade.

Quais são suas principais referências musicais na hora de compor?

No início eu me espelhava muito no Paulinho da Viola, que tem um jeito tímido semelhante ao meu. Depois me inspirei também no João Nogueira, que era daqui do Méier. Tive a sorte de ter o João Nogueira como parceiro em uma música.

Qual música que compôs preferida?

Gosto de todas porque a gente tem que agradecer a Deus o dom de compor e valorizar tudo que ele nos dá. Mas, de fato, tenho algumas preferidas: “Nosso Show”; “Samba em Alto Astral”, que será gravada pelo Marquinhos Sathan; “Foi Você”, gravada pelo Jair Rodrigues; mas sem dúvida nenhuma, a música mais importante pra mim é a “A Batucada dos Nossos Tantãs”, que tem na parceria o Sereno do Fundo de Quintal e o Robson Guimarães. Essa música tem mais de 30 regravações, incluindo no exterior. Foi lançada na França pela coletânea “Favela Chic” e no Japão por um grupo de samba. Curiosamente, existe outro grupo japonês, chamado Y-No, que apareceu no Fantástico recentemente, falando que toca essa música há 10 anos em shows. É incrível saber que essa música conseguiu se dispersar pelo mundo. No Brasil, vários nomes importantes da música popular já tocaram a “Batucada dos Nossos Tantãs” em shows. Só pelo youtube, já vi a Alcione, Maria Rita, Paula Lima, Monobloco, Inimigos da HP, Alexandre Pires, Marcelo D2, Arlindo Cruz… É o nosso carro-chefe.

Qual música preferida composta por outra pessoa?

São inúmeras! “Poder da Criação”; “Insensato Destino”; “Lama nas Ruas”; “Wave” e “Dindi”, de Tom Jobim; “Madureira”, do Arlindo Cruz e Mauro Diniz; “Rendição”, do Almir Guinéto, Adalto Magalha e Capri… Eu poderia estender essa lista com muitas outras músicas.

Conte com detalhes como se deu a composição de “A Batucada dos Nossos Tantãs”, que ano, quem ajudou, qual foi sua contribuição e inspirações para umas das músicas de samba mais executadas.

A música “A Batucada dos Nossos Tantãs” foi composta no início de 1993. Eu tinha feito a melodia por inteiro e o Robson a letra, mas achei que a segunda parte da melodia e da letra não estavam à altura da primeira. Fiquei martelando semanas, e a mesma não ficava do jeito que queríamos, ai eu lembrei do meu amigo e também parceiro Sereno, que é integrante fundador do Grupo Fundo de Quintal. Por telefone expliquei a ele o que estava ocorrendo com a referida música, marcamos um encontro, ele veio e paramos lá no meu estúdio. Em 20 minutos fizemos a segunda parte, e achei que estava perfeita a combinação. Aliás, todos nós gostamos, e a primeira coisa que o Sereno falou depois da música pronta foi: não mostra essa música pra ninguém, porque vou guardá-la para o Fundo de Quintal. Nessa época o Fundo de Quintal estava há 3 ou 4 anos sem gravar nada. A Gravadora tinha deixado o grupo em banho Maria, sem falar nas baixas provocadas pela saída do Sombrinha e do Arlindo Cruz. Essa música explodiu, e recolocou o Fundo de Quintal no lugar de onde ele nunca deveria ter saído. Foi um impacto pela mensagem direta em sintonia com a melodia.

O que é a “batucada dos nossos tantãs”?

Batucada dos Nossos tantãs descreve o que vemos em qualquer evento de samba. Mas esse samba é uma mensagem, quase um protesto, porque naquela época o samba estava sofrendo algumas discriminações. Uma parte da letra que eu gosto muito é quando dizemos que o samba “nasce da alma, sem pele, sem cor”. Mostra que o samba pode ser do morro, mas do asfalto também. Eu e o Robson somos brancos, do subúrbio, o Sereno é negro. Viva o multiculturalismo!

O samba é mesmo o “eterno delírio do compositor”?

Com certeza é um eterno delírio. O samba é capaz de tudo, tem o poder de quebrar barreiras, amenizar a solidão e invadir os lugares onde antes ele não existia. “Fronteiras não há para nos impedir”.

A canção é uma resposta a quem não respeita o samba e a cultura popular brasileira? Isso te incomoda?

Essa música não foi feita exclusivamente para falar disso, mas a letra acaba abrangendo esse tema, que pode ser inserido no contexto. A cultura popular é uma das coisas mais importantes para um país e seu povo. Acho que hoje em dia os brasileiros estão começando a valorizar melhor isso.

Cite alguns nomes de intérpretes que já gravaram músicas suas e cite os nomes das músicas também.

Jovelina Pérola Negra, Leci Brandão: “Pomba Rolou”; Fundo de Quintal: “A Força do Samba”, “Ponte Aérea”; Marcelo D2, Planet Hemp, Reinaldo, Revelação e Fundo de Quintal: “A Batucada dos Nossos Tantãs”; Neguinho da Beija Flor: “Ousadia”; Jair Rodrigues: “Foi Você”, “Papo Informal”, “Perfume de uma Flor”; Almir Guineto: “Momentos de Prazer”, “Onde o Sol se Perfuma”; Beth Carvalho: “Vem Sambar”; Marquinho Sathan: “Dança da Vida”, “Nosso Show”; Jorge Aragão: “Vem ao Meu Encontro”; Swing & Simpatia: “Quero Namorar”; Adalto Magalha: “Na Hora de Voltar”; Vavá: “Rumo Certo”; etc.

Como é a essa relação com os grupos e com os cantores para que conheçam seu trabalho na composição?

Tem que ter oportunidade, que pode ser por envio de um CD demonstrativo, pela intermediação das editoras ou mesmo por e-mails. Muitos compositores pensam que vale tudo na hora de mostrar músicas para artistas, e chegam a bater palma e cantar na frente da pessoa. Isso eu acho deselegante e inconveniente.

Ainda compõe samba-enredo? O que achou dos desfiles das escolas de samba deste ano? Participou de alguma maneira?

Não participo mais, cansei do ambiente das Escolas de Samba. Tem muita politicagem, sem falar nos escritórios abastecidos de grana que mais parecem uma “linha de montagem” de sambas, pensando apenas no lucro. Ao contrário do que aparece no desfile, o ambiente dentro das escolas de samba não é muito legal. Sobre o carnaval desse ano, achei merecida a vitória da Vila Isabel. Lindo samba! Eu participei de 13 concursos do grupo especial e venci 5, acho que é uma boa média. Desses, 4 foram com o meu irmão Adalto. Ele teve mais sambas ganhos com outros parceiros.

E seu trabalho como intérprete? Tem CD gravado? Canta, só toca? Canta só músicas próprias ou músicas de outros compositores também?

Eu fiz um CD remasterizado com varias músicas de minha autoria e parceiros, interpretadas por diversos artistas que gravaram músicas de minha autoria. Este CD estará à venda no dia do show, por um preço simbólico. Mas a minha grande prioridade do momento é um CD de bossa nova, com músicas inéditas de minha autoria. O CD conta com vários convidados, totalizando 50 músicos e intérpretes. É um resgate da bossa nova, mas este CD ainda não esta à venda. Sinto orgulho e tristeza de saber que esse meu projeto conta com a última participação do cantor Pery Ribeiro. Sem falar em craques como Claudia Telles, Marcio Lott, Rildo Hora, Jota Moraes, Gilson Peranzzetta, Ilvamar Magalhães, Reinaldo Arias, Person, Romero Lubambo, Pamela Driggs, Zé Carlos, Luizão Ramos, Leandro Barros, Mauro Diniz, Luiz Antonio Gomes, Guilherme Lara, Marquinho Sathan, e muitos outros. O nome do projeto é Bossa 89.

Quais planos para o futuro? Explique o projeto do CD de Bossa Nova e em homenagem ao Rio de Janeiro. Quais músicas próprias vai incluir no trabalho? Tem previsão de lançamento?

O Bossa 89 é um projeto que eu tenho desde 2007. Amos os clássicos da bossa nova, mas acho que seria interessante que houvesse renovação sem perder as raízes. Esse projeto é uma tentativa de fornecer ao público da bossa algumas novidades. Serve, lateralmente, de incentivo aos demais compositores, para que componham mais músicas desse gênero. Não se trata de rejeitar o que já foi criado, mas apenas de somar. O projeto de músicas sobre o Rio de Janeiro também é de músicas inéditas de minha autoria. Eu aproveito a identificação que a bossa nova tem com o Rio de Janeiro para abordar características geográficas, culturais e sociais da cidade. Ambos os projetos ainda não tem previsão para lançamento. Estamos correndo atrás de leis de incentivo à cultura.

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Rubem Braga: crônicas de caráter

Com as entrevistas que coletei para produzir a reportagem sobre o centenário de Rubem Braga, comemorado sábado passado (12), pude conhecer outros lados, muitíssimos interessantes, diga-se, do Velho Braga, que, para mim, um leitor doentio de crônicas e que tento me arriscar também nesse gênero literário, é o maior de todos, o que conseguiu nas poucas linhas de uma crônica transmitir prosa refinada, sensibilidade poética e sempre algo marcante para mim, coisa que não conseguia explicar direito quando discorria com amigos sobre o eterno filho de Cachoeiro do Itapemirim-ES.

Graças à bela entrevista concedida por Augusto Massi, 54 anos, doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, pude conseguir traduzir em palavras, definidas pelo entrevistado, o que talvez sempre quis dizer sobre a obra de Rubem Braga. No trecho a seguir, Massi, que é o organizador do livro “Retratos Parisienses”, com 31 crônicas do Velho Braga inéditas em livro e que deverá ser lançado no próximo mês pela José Olympio, disse tudo o que um dia eu queria ter dito: “Rubem Braga é uma espécie de reserva ética. Suas crônicas têm caráter. Ao mesmo tempo, dentre todos os nossos escritores é um dos que tem maior senso da beleza. Trata-se de um prosa de voltagem poética.” Leia a entrevista completa:

Qual sua relação com a obra de Rubem Braga?

Augusto Massi – A mais civilizada possível: sempre fui um leitor. De uns cinco anos pra cá passei a condição de pesquisador neurótico e estudioso nervoso de sua obra. Vou ter que fazer análise por muitos anos.

Como foi a temporada de Rubem Braga na Europa como correspondente e que resultou em vários textos, reunidos em “Retratos Parisienses”, livro organizado pelo senhor?

A medida que comecei organizar o livro, fui adquirindo a certeza de que 1950 foi um dos melhores anos da vida do jovem cronista. Ele estava com 37, novamente solteiro, vivendo confortavelmente na capital francesa, rodeado de amigos e pintores brasileiros. Gente como Cícero Dias, Clóvis Graciano, Portinari, Antonio Bandeira etc. Dito isso, trabalhou duro como correspondente do Correio da Manhã, o principal jornal da época. Escrevia uma crônica diária, “Recado de Paris”, publicada sempre na página 2, e entrevistas ou reportagens especiais para o suplemento cultural.

Como conseguiu esse material?

Eu coleciono jornais e revistas antigas. Tempos atrás comprei uma coleção do Literatura e Arte, suplemento cultural do Correio da Manhã. Os números que me faltavam, consultei a Hemeroteca Digital Brasileira, uma ótima ferramenta disponibilizada pela Fundação Biblioteca Nacional-RJ.

Quais suas conclusões após ter reunido o material sobre o olhar do Velho Braga sobre a Europa e sobre os grandes artistas e pensadores que teve a oportunidade de entrevistar?

Este material, inédito em livro, ajuda a compor uma nova imagem do cronista. Primeiro, oferece uma noção mais concreta dos seus interesses literários, fornece pistas sobre sua formação política, por fim, nos permite reavaliar a sua relação com as artes plásticas. “Retratos Parisienses” pode relativizar certa mitologia que vem sendo construída em torno do homem solitário, que não era dado a leituras etc. Ora, as 31 crônicas e entrevistas que compõem o volume mostram, na verdade, que ele tinha uma consciência muito aguda do que caracterizava a cena cultural do pós-guerra. Também sabia perfeitamente que a vanguarda representada por Jean Cocteau e André Breton estava entrando em declínio, que Jean-Paul Sartre e Thomas Mann eram dois dos principais intelectuais europeus da época, que Picasso e Matisse eram mais importantes do que Chagall e De Chirico.

Por que é importante ler Rubem Braga até hoje, na sua opinião?

Ele representa o amadurecimento e a consolidação das principais conquistas modernistas. Num certo sentido, ajudou a modelar a língua brasileira atual, conferiu poesia ao cotidiano e soube valorizar aquelas coisas que a maioria das pessoas ainda considera desprezíveis e insignificantes. Rubem Braga é uma espécie de reserva ética. Suas crônicas têm caráter. Ao mesmo tempo, dentre todos os nossos escritores é um dos que tem maior senso da beleza. Trata-se de um prosa de voltagem poética.

Qual a importância dele para a crônica brasileira?

A linha evolutiva da crônica vai de Machado de Assis a Rubem Braga. É o ponto de chegada. Penso que todo um ciclo da nossa experiência, principalmente, a passagem da roça pra cidade, está entranhada e sedimentada em sua prosa. Talvez, por isso, ele é o único cronista que libertou a crônica do jornal, conferindo a ela a dimensão de um clássico moderno. Não é pouca coisa. Em outras palavras: é para poucos.

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