Ficção



Os sertões de ‘Outros Cantos’

Maria Valéria Rezende em sua casa, em João Pessoa (Foto de Rafael Passos)

Maria Valéria Rezende em sua casa, em João Pessoa (Foto de Rafael Passos)

Por Wilame Prado

A escritora santista radicada em João Pessoa Maria Valéria Rezende, 73 anos, demonstra domínio da linguagem e um olhar diferenciado para com os excluídos do sertão brasileiro no livro “Outros Cantos” (Alfaguara, 152 páginas, R$ 29,90). A publicação se deu graças ao patrocínio da Petrobras Cultural.

Ela, que, além de escritora é também freira, volta a publicar após ter vencido, ano passado, o Prêmio Jabuti na categoria Romance e Melhor Livro de Ficção do Ano com “Quarenta Dias”.

Em “Outros Cantos”, a personagem Maria – deflagradamente inspirada na vida da própria autora – está dentro de um ônibus leito retornando à cidade fictícia de Olho d´Água, no Nordeste brasileiro.

Junto dela, nada além de reminiscências que transportam a história para décadas atrás, quando a personagem foi para o sertão graças ao programa Mobral disposta a auxiliar na alfabetização de um povo que não tinha quase nada, especialmente educação formal.

O relato se dá única e exclusivamente pelo olhar de Maria, ora no presente – com o sacolejar de um ônibus velho e percebendo que o sertão dos tempos de agora mudou radicalmente, como percebido no trecho instigante do livro: “O sertão não é mais sertão e ainda não virou mar. Fecho os olhos e minha memória recupera e estiliza a beleza despojada daquele meu outro sertão. Desde quando, sem que eu me desse conta, as casas sertanejas encheram-se de trastes e abandonaram aquela estética do essencial, minimalista, diriam hoje, que me encantava na minha casinha e em todas as outras de Olho d ´Água?”; ora no passado, descrevendo as suas lembranças que permitem ao leitor imaginar o cotidiano de pessoas simples, que viviam em uma intensa luta de sobrevivência – para comer, beber água e em meio às rezas e festejos para santos pedindo chuva para plantar e colher.

Ela permite que o leitor só aos poucos consiga construir em seu imaginário quem realmente é Maria. Uma simples e jovem professora idealista e disposta a mudar o mundo com suas próprias mãos? Não somente. Há também as lembranças das andanças da personagem pelo mundo, na Argélia e no México, por exemplo, conhecendo povos, costumes e outros tipos de sertões.

E há ainda no romance uma curiosa característica da protagonista: sonhadora em seus pensamentos, ela no fundo busca sempre um olhar perdido de um homem que cruza com ela em diferentes momentos da história. Sempre atenta ao olhar deste ser masculino, ela enxerga os olhos dele em vários lugares, em várias situações. No fim, ao levar em consideração também a própria história de vida da autora, abre-se uma margem para se pensar que, talvez, aquele olhar é a figura de uma entidade protetora para Maria, onde quer que ela esteja, talvez os olhos de Deus.

“Outros Cantos”, conclui-se, é maduro, de uma autora madura e esclarecida quanto à estilística textual, ortografia e gênero. Maria Valéria Rezende emociona, denuncia e propõe reflexões acerca de uma região brasileira, a vibração de gente que ainda sonha com o poder transformador do ensino e também de um período histórico: mais para o fim da trama, percebe-se claramente algo que a autora quer mesmo eternizar com a proposta literária, que é uma relação histórica com os rompantes vividos em meio à ditadura militar no País e movimentos importantes na luta contra a opressão, isso em regiões praticamente esquecidas pela grande mídia, cinema, História e afins.

OutrosCantos_570OUTROS CANTOS
Maria Valéria Rezende
Editora Alfaguara
Número de páginas: 152
Preço sugerido: R$ 29,90
Avaliação: ótimo

*Comentário publicado quarta-feira (11) no caderno Cultura, do Diário do Norte do Paraná

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Elas têm a palavra, e os prêmios também

À esquerda, Vanessa Barbara; acima, Sônia Barros; e embaixo, Adriana Griner: só deu elas no PR de Literatura. —FOTOS: DIVULGAÇÃO E RAFAEL ROCHA CARDOZO

À esquerda, Vanessa Barbara; acima, Sônia Barros; e embaixo, Adriana Griner: só deu elas no PR de Literatura. —FOTOS: DIVULGAÇÃO E RAFAEL ROCHA CARDOZO

Por Wilame Prado

É de se destacar a boa literatura que vem sendo produzida por escritoras brasileiras. Anunciado ontem pela Biblioteca Pública do Paraná, o resultado do Prêmio Paraná de Literatura 2014 revelou a superioridade delas em todas as categorias: a paulistana Vanessa Barbara venceu o prêmio Manoel Carlos Karam com o romance “Operação Impensável”; a carioca Adriana Griner é a vencedora do prêmio Newton Sampaio com a coletânea de contos “No Início”; e a paulista Sônia Barros venceu o prêmio Helena Kolody com os poemas do livro “Fios”.

Sem nem citar as muitas escritoras em atividade no País que vêm publicando livros elogiáveis mas sem receberem premiações, ressalte-se que, recentemente, o Prêmio São Paulo de Literatura teve, pela primeira vez, uma mulher como grande vencedora: Ana Luísa Escorel recebeu R$ 200 mil ao vencer na categoria Melhor Livro do Ano de 2013 com o romance “Anel de Vidro” (Editora Ouro Azul). Já no último Prêmio Sesc de Literatura, foi escrito por uma jovem de 27 anos o melhor romance na opinião dos jurados. “Enquanto Deus Não Está Olhando” é de autoria da pernambucana Débora Ferraz.

As três mulheres que terão direito a R$ 40 mil e uma tiragem de mil exemplares de seus livros graças à conquista do PR de Literatura não são fracas não: Vanessa, Adriana e Sônia deixaram para trás um total de 630 obras inéditas de autores de todo o País, inscritas sob pseudônimo, e que foram avaliadas por um júri com outras escritoras de prestígio, como Elvira Vigna, Regina Zilberman, Cíntia Moscovich e Luci Collin.

Elas também são persistentes. Em entrevista por e-mail, Sônia Barros – conhecida pela vasta obra de infanto-juvenis – diz que foi o segundo ano a tentar, com o mesmo “Fios”, o PR de Literatura. Para adultos ou crianças, os versos precisam existir, na opinião dela. “A poesia nos torna mais humanos, mais sensíveis. E é com essa sensibilidade que tento escrever, alcançar o leitor, tenha ele a idade que tiver.”

Estrategistas, sem dúvida alguma, elas também são. Vanessa Barbara, em entrevista para o Estadão, diz que pensou no concurso literário como forma de se “obrigar” a escrever tendo um objetivo – o romance – e um prazo a cumprir – a data limite das inscrições. “É um incentivo tremendo para a produção literária”, opina.

E, por fim, por que não, ousadas em suas propostas literárias? Também para o Estadão, a professora de inglês e estreante na literatura Adriana Griner comenta sobre os diferenciais dos contos reunidos em “No Início”: “Para mim, o livro é, antes de tudo, sobre o amor. Em termos de linguagem, brinco com o primeiro capítulo do ‘Mimesis’, de Auerbach, quando ele compara a linguagem da Bíblia com a da Odisseia.”

Vai vendo!

3 perguntas para Vanessa Barbara

Mesmo autores já conhecidos como você ainda “precisam” dos concursos literários para alavancar a carreira e ganhar dinheiro?
Sim, principalmente pela parte financeira. Viver de literatura é bem difícil (eu, por exemplo, vivo de jornalismo), então um prêmio desses é muito bem-vindo até para quem tem algum reconhecimento na área. Em edições anteriores do prêmio, o José Roberto Torero, o Alexandre Vidal Porto e o Caetano Galindo foram vencedores. Isso diz muito sobre a pindaíba em que vivemos! :p

Conte o que puder contar sobre o processo de criação do romance “Operação Impensável”, sobre a história que o livro traz e também sobre o que pensa desse livro ainda inédito teu.
Já escrevi o romance pensando em mandar para o prêmio – queria submeter esse livro por outros caminhos, sob pseudônimo, para ver se ele realmente valia algo. Também queria ter um objetivo claro e um prazo que servissem de incentivo para trabalhar. O livro conta a história de amor entre uma historiadora especialista em Segunda Guerra Mundial (daí o título) e um programador de computadores que esconde segredos.

Sua versatilidade é invejável. Na crônica e nas reportagens, tem ótimas publicações. Para você, mais conhecida com as crônicas, quais são os desafios na hora de encarar um romance ficcional?
Acho bem difícil escrever ficção, acho que porque não tenho tanta prática… Também porque é um trabalho que exige fôlego, paciência, senso de estrutura… Enfim, é um desafio tremendo.

3 perguntas para Adriana Griner

Trabalha com literatura mesmo?
Trabalho como professora no ensino médio, e só indiretamente estou na área de literatura, através do ensino. Nunca publiquei um livro. Escrevi muito na vida, li mais ainda. Eu era daquelas crianças que atravessam a rua lendo um livro, vêm TV lendo, almoçam lendo. Aos quinze anos diminuí o ritmo de leitura, aos trinta me tornei semi-analfabeta e assim passei a ler bem menos.

O que pode nos contar sobre os contos de “No Início”?
É um livro de contos porque o livro pedia um livro de contos. Como eu reconto histórias do primeiro livro da Bíblia, não haveria outra forma de fazê-lo. Mas apesar de ser um livro de contos, é um livro em que diversos temas perpassam todas as histórias, então são contos independentes, mas que remetem uns aos outros.
O que faço no livro é criar ou recriar as histórias. Algumas histórias são apenas a reprodução da história original, mas com um ponto de vista distinto, pois tento dar voz às personagens femininas que eram tratadas apenas como paisagem ou como objeto da narração. Procuro ver como elas se sentiram ao passar por aquela situação. Em outras histórias a Bíblia é apenas o ponto de partida para eu narrar uma história que não foi contada.

Esperava vencer tão disputado prêmio?
Não, não esperava vencer. Fiquei com o maior jeito de boba ao saber do resultado. Acho que ninguém acredita muito que vai vencer um prêmio como esse, considerado um dos mais importantes do país. O reconhecimento tem um gosto bom.

3 perguntas para Sônia Barros

Atualmente vive só da literatura?
Sim, mas não vivo apenas dos direitos autorais dos meus livros (tenho 17 títulos infanto-juvenis publicados), também visito escolas e participo de feiras literárias, converso com alunos, pais e educadores.

De que maneira os versos e a poesia ajudam ou ajudaram em sua carreira como escritor de livros infanto-juvenis?
Eu não vivo sem poesia. Já na infância, me encantavam os poemas da Cecília Meireles, Mário Quintana, José Paulo Paes… Dos meus 17 títulos infanto-juvenis, vários são de poesia ou prosa poética. A poesia nos torna mais humanos, mais sensíveis. E é com essa sensibilidade que tento escrever, alcançar o leitor, tenha ele a idade que tiver.

O que pode nos contar sobre os poemas de “Fios”?
Foram escritos ao longo dos últimos sete anos, de 2008 a 2014. O título acabou se impondo depois que percebi os muitos poemas retratando “fios” aparentemente distintos, mas, de certa forma, entrelaçados: do ofício, da infância, da velhice, da maternidade, do amor, da memória, da solidão, da morte, da própria poesia, da arte… enfim, os caminhos internos e externos da existência humana. Quem me mostrou isso foi o poeta Donizete Galvão, com quem conversava muito sobre poesia, e a quem o livro é dedicado. Infelizmente, o Doni faleceu em janeiro deste ano. Aliás, um grande poeta, que ainda não teve o merecido reconhecimento no País.

*Reportagem publicada nesta terça-feira (25) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

 

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O conto em questão na Flim

NOCAUTE. À esquerda, o escritor André Kondo, de Jundiaí ; ao lado, o santista José Roberto Torero: conto é tema da conversa

NOCAUTE. À esquerda, o escritor André Kondo, de Jundiaí ; ao lado, o santista José Roberto Torero: conto é tema da conversa

Por Wilame Prado

O conto, a inspiração e o processo criativo dos contistas José Roberto Torero, 51, e André Kondo, 39, são temas hoje para a mesa da 1ª Festa Literária de Maringá (Flim). O bate-papo com os autores começa às 19h30, no Auditório Hélio Moreira, no Centro de Convivência Renato Celidônio (ao lado do Paço). A entrada é franca.

Torero é conhecido pelos contos, pelas crônicas e também pelas participações em discussões futebolísticas. Mas o santista diz estar cada vez mais afastado do futebol. Nem a vitória do Santos sobre o Palmeiras no último final de semana pareceu animar o autor. “Estes últimos anos (o futebol) foi enfeiando tanto que me desinteressei. O Santos ainda consegue certos lances de beleza, mas são um tanto raros.”

Kondo se destaca pelos vários concursos literários conquistados escrevendo contos. Seu livro “Contos do Sol Nascente” dividiu, em 2011, o Prêmio Bunkyô de Literatura em língua portuguesa com “Nihonjin”, do maringaense Oscar Nakasato, e “Retratos Japoneses no Brasil”, organizado por Marília Kubota. Natural de Jundiaí (SP), pela Flim ele também dá a palestra “Produção literária” hoje, às 14 horas, no Hélio Moreira.

Em entrevista por e-mail, os dois escritores adiantaram um pouco do que falarão nesta noite a respeito dos desafios envolvendo a feitura de contos. Torero, engraçado e direto, considera um ato de sorte a sua conquista no Prêmio Paraná Literatura de 2012 com o livro de contos “Papis et circenses”, o que lhe rendeu R$ 40 mil.

Para ele, o conto sempre vem de algo já existente. “Em ‘Pequenos Amores’, um livro de contos de amor, eu olhava casais na rua ou em restaurantes (na época, era repórter do Guia 4 Rodas e ia a muitos restaurantes) e inventava uma história para eles. Já em ‘Papis et circenses’, fiz uma pesquisa histórica sobre os papas e ela serviu de ponto de partida. Ou seja, sempre parto de alguma coisa já existente. Talvez seja falta de criatividade”, comenta o vencedor do Jabuti de 1995 com “O Chalaça”.

Sem ainda ter se aventurado na prosa longa, Kondo diz não saber responder se é mais difícil fazer um conto ou um romance. Mas revela: gosta da liberdade que ele e seus personagens costumam ter nos contos. “Meu processo criativo é simples: apenas escrevo. Não tenho a disciplina de montar a história inteira dentro da minha cabeça antes de começar a escrevê-la. É arriscado, mas gosto de pensar que o meu personagem tem o mínimo de liberdade para caminhar pelo papel, para sonhar, para ter algo dentro dele que eu desconheço. Gosto de me surpreender com ele, de me emocionar. Enfim, gosto de me enganar, de acreditar que aquilo que escrevo é a mais pura verdade.”

Para o também autor dos livros “Além do horizonte”, “Amor sem fronteiras” e “O Pequeno Samurai”, o importante é que o conto emocione, seja por pontos ou nocaute. “Não se vence batendo no leitor, mas escrevendo algo tão bom que ele não queira te dar um soco na cara, mas um abraço”, diz Kondo. Para Torero, que aconselha a leitura dos contistas Dalton Trevisan, Luís Fernando Verissimo, Sérgio Sant’Anna e Luiz Vilela, o conto aceita o inusitado: “A prosa curta pede uma estrutura mais aparente, mais surpreendente. No romance um formato estranho pode cansar, mas no conto é algo bem mais suportável. Ele até pede uma certa estranheza.”

PARTICIPE
MESA: O CONTO,
A INSPIRAÇÃO
E O PROCESSO CRIATIVO
Com os contistas
José Roberto Torero e André Kondo
Mediação: Wilame Prado
Quando: hoje, às 19h30
No Auditório Hélio Moreira
Entrada franca

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (22) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Cheiro de terra molhada

Uma forte sensação de abandono. Todos sumiram. Tinham outros afazeres. Uns precisaram morrer. Outro queriam viver mais intensamente. Uma forte chuva caiu, mas, de dentro daquele pequeno apartamento na Rua K., ela nem pôde ver o movimento das águas, nem mesmo sentir o cheiro da terra. Tudo parecia tão distante do alto daquele oitavo andar. Todos estão distantes. Se tudo isso tivesse acontecido há, sei lá, uns quatro anos, reflete ela, certamente botaria tudo a perder. Mas hoje não. Agora não. Talvez não, nunca mais. Passou a acreditar em propósitos. Levou a sério aquela história de se escrever certo por linhas tortas. A maior provação? O afastamento das pessoas. A maior alegria? Ana, a pequena filha de sete meses e meio. Junto dela, pode cair o mundo em águas, e as pessoas podem se mudar até de país. Enquanto prepara a mamadeira na cozinha, olhando para os miúdos olhos abertos e suaves de Ana, ela se deixa levar pelo pensamento e sente uma nostalgia ao contrário, uma já saudade do que nem aconteceu: pensa com carinho no dia em que, depois de uma torrencial chuva e chegada do sol, levará a sua filha até lá fora para explicar que aquele cheiro é cheiro de terra molhada.

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Sobre velhice, amor e Portugal

“A Máquina de Fazer Espanhóis” (editora Cosac Naify, R$ 39, 256 páginas) foi o segundo romance de Valter Hugo Mãe a chegar no Brasil. Primeiro veio o excelente “O Remorso de Baltazar Serapião” (editora 34, 197 páginas, R$ 37), vencedor do Prêmio José Saramago de melhor romance em 2007 e que encantou o próprio Saramago, que definiu o livro como sendo um “tsunami linguístico, semântico e sintático”.

O Nobel de Literatura e autor de “Ensaio Sobre a Cegueira” tinha razão: o primeiro romance de Mãe que chegou nas mãos dos brasileiros é arrebatador porque conseguiu unir, em uma obra só, estilos semelhantes a três grandes imortais da literatura universal. “O Remorso de Baltazar Serapião” tem um rico e original texto aproximado do próprio Saramago, tem a musicalidade da prosa de Guimarães Rosa e a genialidade ao descrever o absurdo quase indescritível semelhante ao que fez Gabriel García Márquez.

Por tudo isso, a expectativa dos leitores foi grande com a chegada de “A Máquina de Fazer Espanhóis”, o grande vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura deste ano. A obra não pode ser considerada ruim, mas, obviamente, seria mesmo difícil que se aproximasse do outro romance de Mãe. Para levantar questões envolvendo a história política e os costumes do povo português, como exemplo a antiga rivalidade entre os times de futebol Benfica e Porto, o escritor narra a trajetória de António Jorge da Silva, um barbeiro de 84 anos que, depois de perder a mulher, passa a viver em um asilo.

As ironias do protagonista referentes aos inúmeros problemas que chegam com a velhice dão a mescla entre humor e drama que envolve os habitantes do chamado Lar da Feliz Idade, o nome do asilo onde António se instala e motivo para as mais variadas formas de rabugices. “o lar da feliz idade, assim se chama o matadouro onde fui metido. que irónico nome e só então me ocupava o pensamento”, diz António, que narra em primeira pessoa a história.

As mais instigantes histórias passadas no Lar da Feliz Idade e as reminiscências de cada um daqueles velhinhos tornam, a princípio, o romance descompromissado, uma boa leitura aprazível e engraçada: são os fantasmas que visitam os velhinhos de noite, as brincadeiras na roda de amigos, as suposições que os idosos fazem sobre o passado da fanática torcedora do Porto dona Leopoldina e as incríveis histórias envolvendo o centenário Esteves sem Metáfisica – um dos moradores mais antigos e que jura ter sido a inspiração para o poeta Fernando Pessoa ter escrito o belo poema “Tabacaria”.

Mas não é só isso. “A Máquina de Fazer Espanhóis” é, a princípio, uma reflexão sobre o que é o amor na terceira idade e sobre a falta, praticamente desumana, que uma companheira ou companheiro faz para alguém de idade na altura da morte. É também, principalmente, uma reflexão sobre a consequência da ditadura salazarista em toda uma geração de portugueses, pessimista e que se sente desvalorizada quando comparada a outros países europeus, como a Espanha.

Pela boa história, o romance merece ser lido. E pelo impecável projeto gráfico desenvolvido pela edição da Cosac Naify, o livro merece ser adquirido. Além da capa – a pintura “Pássaros Negros” desenhada pelo escritor e quadrinista Lourenço Mutarelli – o livro contou com um acabamento todo especial, com alinhamento, formato, fonte e separações de capítulos diferenciados.

Em “A Máquina de Fazer Espanhóis”, Valter Hugo Mãe mantém-se fiel ao artifício formal de sua tetralogia que diz ser sobre as quatro idades do homem – composta ainda por “Nosso Reino (2004), “O Remorso de Baltazar Serapião” (2006) e “O Apocalipse dos Trabalhadores” (2008), preferindo não usar maiúsculas, nem mesmo em seu próprio nome e títulos da obra. Recentemente, o escritor comunicou que deixaria de fazer isso porque, segundo ele, cansou de ter de explicar o motivo pelo qual só escrevia em minúsculas. Em “O Filho de Mil Homens”, novo romance de Mãe lançado em abril deste ano pela Cosac Naify, as maiúsculas estão lá.

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Sobre leitura, imprensa e outras questões de Borges

“Ele me disse:

– Agora você vai ver uma coisa que nunca viu.

Estendeu-me com cuidado um exemplar da Utopia de More, impresso na Basileia em 1518, no qual faltavam folhas e lâminas.

Não sem fatuidade repliquei:

– É um livro impresso. Em casa haverá mais de dois mil, embora não tão antigos nem tão preciosos.

Li em voz alta o título.

O outro riu.

Ninguém consegue ler dois mil livros. Nos quatro séculos que vivo não terei passado de meia dúzia. Além disso, não é importante ler, mas reler. A imprensa, agora abolida, foi um dos piores males do homem, já que tendeu a multiplicar até a vertigem textos desnecessários.

-No meu curioso ontem – respondi -, prevalecia a superstição de que entre cada tarde e cada manhã acontecem fatos que é uma vergonha ignorar. O planeta estava povoado de espectros coletivos, o Canadá, o Brasil, o Congo Suíço e o Mercado Comum. Quase ninguém conhecia a história prévia daqueles entes platônicos, mas, sim, os mais ínfimos pormenores do último congresso de pedagogos, a iminente ruptura de relações e as mensagens que os presidentes mandavam, elaboradas pelo secretário do secretário com a prudente imprecisão que era própria do gênero.

Tudo isso era lido para o esquecimento, porque em poucas horas era apagado por outras trivialidades”….

…”As imagens e a letra impressa eram mais reais que as coisas. Somente o publicado era verdadeiro. Esse este percipi (ser é ser percebido) era o princípio, o meio e o fim de nosso singular conceito do mundo. No ontem que me tocou, as pessoas eram ingênuas; acreditavam que uma mercadoria era boa porque assim o afirmava e repetia o seu próprio fabricante. Também eram frequentes os roubos, embora ninguém ignorasse que a posse de dinheiro não dá maior felicidade nem maior tranquilidade”.

*Trechos do conto “Utopia de um homem que está cansado”, extraído do “Livro de Areia” (Coleção Folha, página 72), de Jorge Luis Borges. Não dá nem para comentar a lucidez dessas palavras de Borges. O próprio, no epílogo do livro, escreveu: “‘Utopia de um homem que está canasado’ é, a meu ver, a peça mais honesta e melancólica da série”. Um dos melhores contos que já li. Recomendo!

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Fernando Pessoa no lar da feliz idade

“o lar da feliz idade, assim se chama o matadouro para onde fui metido. que irónico nome e só então me ocupava o pensamento. o esteves sem metafísica ali contente de sentimento tão genuíno e o senhor pereira tão parecido a um amigo e eu a julgar que ia ter um ataque de qualquer coisa, porque aquela novidade era demasiada. era uma novidade que, sobretudo no meu estado para morto, continha uma energia de vida radical e inesperada. caramba, com oitenta e quatro anos um homem ainda pode ficar deslumbrado e todo incrédulo, como se viesse para criança pasmar diante de um gelado. e eu pedi apenas mais uma vez, não me engane, homem, diga-me a verdade, conheceu o fernando pessoa. e ele respondeu, é como lhe digo, senhor silva, conheci, era eu um moço novo longe até de saber que aquele seria o nosso grande poeta. a vida tem dessas coisas, quando não esperamos mete-nos numa grande história. bem, ou num grande poema, que também acaba por contar uma história, ou não é. acenei afirmativamente, pus-me para trás de novo, as fogueiritas espalhadas pelo meu corpo e eu estupefacto já não ouvia o senhor pereira, que, glorioso, troçava de mim por só ao fim de vinte e três dias de feliz idade ter percebido que partilhávamos o lar com um mito da poesia portuguesa.” – Valter Hugo Mãe, página 51-52 do livro a Máquina de Fazer Espanhóis (Cosac Naify, 254 páginas).

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Giselda sabe que é gostosa*

No auge da sua beleza, com seus 28 aninhos, casada, bem sucedida, morando no ap já financiado, Giselda anda tranquilamente pela avenida Riachuelo, em Maringá. É horário de almoço e, com o intervalo que tem do seu trabalho no escritório de contabilidade, ela parece desfilar pela calçada, com seu corpo que esbanja saúde, com sua pele levemente morena, com sua maquiagem retocada, com seus 28 aninhos bem distribuídos, com sua autoconfiança, ela desfila pela calçada e sabe que está abalando. Ela sabe que é gostosa, comenta o rapaz, sentado no boteco, enquanto palita os dentes. Ela sabe que é gostosa, balbucia novamente. Giselda não ouve, mas, ao olhar, disfarçadamente para o rapaz, pode ver nos seus olhos, pode ver na sua boca entreaberta que sim, ele a acha gostosa e sente uma vontade danada de devorá-la, ali mesmo, no meio da rua, no meio do dia, no meio dos outros. Ela gosta de se sentir desejada, ela se sente bem quando os outros a olham descaradamente para ela e comentam entre si sobre sua beleza de mulher, que não é nem menina mais e não é uma apagada senhora de idade: ela é simplesmente mulher. Giselda desfila e, de propósito, liga para uma amiga só para ficar conversando alto pelo celular enquanto desfila naquele mar de homens, mulheres, crianças e até freiras, que, absolutamente, não conseguem parar de olhar para a bunda de Giselda que requebra e que fica extremamente sensual naquela calça preta e justa do uniforme da empresa.

*Texto da coluna “Nem te conto”, composta somente por contos fictícios. Portanto, alguma semelhança com a realidade é mera coincidência.

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