Filme



Cinuem retorna em grande estilo

Orestes mata pai torturador da ditadura e assassino da própria mãe

Orestes mata pai torturador da ditadura e assassino da própria mãe

Por Wilame Prado

Maringá volta a ter mais uma opção que oferece cinema de qualidade longe dos circuitos comerciais das redes localizadas nos shoppings. O projeto Cinuem, da Pró-reitoria de Extensão e Cultura (PEC) da UEM, retomou as atividades após alguns meses sem oferecer sessões de cinema dentro do campus.

Com a Mostra Cinema Brasileiro Contemporâneo: Emergências da Política, iniciada há uma semana, o Cinuem volta a exibir filmes todas as quartas-feiras, pontualmente às 19 horas, na Sala 1 do Bloco A34, na UEM, sempre com entrada franca. O projeto é aberto a toda comunidade e não apenas a estudantes universitários.

O cartaz de hoje do Cinuem é o filme brasileiro “Orestes”, dirigido pelo mineiro Rodrigo Siqueira (“Terra deu, terra come”) e vencedor do Prêmio APCA como melhor documentário de 2015.

“Orestes” combina elementos documentais e ficcionais para jogar luz a dois problemas atuais da sociedade brasileira: a memória e a herança do regime militar de 1964 e a violência policial sentida principalmente pelos pobres e pelos negros. Quando do lançamento, ano passado, a crítica relacionou o filme aos ataques ocorridos em Osasco, na grande São Paulo.

Siqueira recorre à mitologia grega – mais precisamente às peças teatrais de Ésquilo – para criar analogias no documentário. Na tragédia grega, Orestes mata a mãe para vingar a morte do pai, o rei Agamemnon, e ganha um voto de minerva após decisão do júri formado por cidadãos atenienses.

No Brasil contemporâneo do diretor mineiro, Orestes é um personagem fictício que mata o pai – um torturador brasileiro anistiado em 1979 e assassino da mãe do seu filho – e que será submetido a um julgamento simulado dentro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Entre os casos reais citados em “Orestes”, algumas vítimas da ditadura militar são entrevistadas, como Ñasaindy Barrett Araújo, filha da guerrilheira comunista Soledad Barrett Viedma que foi assassinada em 1973 após emboscada tramada por José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo, ex-companheira de Soledad.

A crítica de cinema Eleonora de Lucena descreveu “Orestes” como um filme original e provocativo. “Mesclando documentário, psicodrama e encenação, o diretor mexe com a plateia: cria tensão, incômodo”, escreveu ela, em artigo publicado na Folha de S. Paulo em 29 de setembro de 2015.

Retomada
A retomada do Cinuem sempre foi desejo da PEC da UEM, mas estava parado desde que a professora Fátima Neves havia se desligado do projeto, no ano passado. Com a chegada da professora Cristiane Lima à universidade, o Cinuem ganhou sobrevida.

Ela, que veio de Belo Horizonte (MG), chegou como professora colaboradora para lecionar no curso de Comunicação e Multimeios. Com mestrado e doutorado na área de Cinema, definiu com o setor cultural da UEM o retorno do projeto.

Cristiane diz pretender aproximar o Cinuem dos alunos do curso de Comunicação e Multimeios. “A ideia é que eu coordene um grupo de curadoria, composto por alunos e ex-alunos do curso, para definir a programação dos filmes no projeto e também colaborar durante os encontros com explanações acerca das obras apresentadas”, diz ela.

Outro desafio será conseguir os filmes para as exibições, já que, agora, a proposta do Cinuem é levar ao público filmes recentes e premiados. Para isso, Cristiane se utilizará de seus contatos, amigos e conhecidos da área.

“Nesta primeira mostra de filmes brasileiros, consegui autorização dos próprios diretores para conseguir o filme ou então baixá-los”, conta ela, que finaliza: “O Cinuem permite essa abertura da universidade para a comunidade externa, e a gente acha que, desta maneira, promovemos a cultura no âmbito da cidade de Maringá.”

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (25) no caderno Cultura, do Diário

Comente aqui


Sobre amor, ‘Love’ se perde no sexo

Cena de "Love" com os atores

Cena de “Love” com os atores Karl Glusman e Aomi Muyock

Por Wilame Prado

Mesmo presente no cotidiano da maioria das pessoas, o sexo ainda é tabu. O sexo no cinema também é tabu. Quando um diretor de renome resolve apostar num filme com cenas de sexos explícitos, e principalmente com nu frontal masculino, causa desconforto em muita gente que ainda não consegue encarar o sexo como tema intrínseco à vida dos seres humanos.

“Love”, em cartaz em Maringá, inova ao propor um drama – e não apenas mais um filme pornográfico, cujo principal objetivo é causar excitação em quem está assistindo – regado a sexo, sem pudores, sem cortes. Mais: em 3D, com riqueza de detalhes, em relações sexuais corriqueiras de um casal, oral, vaginal, e também nem tão corriqueiras, em ménage à trois, grupal etc.

Algumas redes de cinema boicotaram o filme do elogiado diretor franco-argentino Gaspar Noé. Aqui em Maringá, continua em exibição no horário nobre da família: 21h50, no Cineflix Cinemas, no Maringá Park Shopping.

O filme é um eterno flash back de Murphy (Karl Glusman), que fica relembrando os bons anos em que viveu ao lado da namorada Electra (Aomi Muyock) – uma jovem atraente e disposta para absolutamente todos os prazeres que sejam possíveis de se obter por meio de sexo.

Casado e com filho pequeno, ele não se perdoa por ter deixado se distanciar da ex. É feriado de Ano Novo e uma ligação da ex-sogra faz o jovem temer o pior: talvez Electra tenha se matado. É quando começam as recordações regadas a sexo da melhor qualidade. O pior mesmo, no final, é ter deixado escapar o grande amor da vida em mais um vacilo da carne: ao ter relação sexual com a vizinha de 16 anos (que outrora participara de uma ménage com o casal), a camisinha estoura e vem a criança.

“Love” é sobre o amor verdadeiro que nem sempre se faz muito nítido em meio aos fluidos do sexo levado às últimas consequências. É também sobre os limites do corpo e da mente. Como experiência fílmica, é válido. Mas aos saudosistas do agressivo “Irreversível”, filme de 2002 do mesmo diretor, fica a impressão de que Noé poderia ter caprichado um pouco mais no roteiro. Talvez o próprio tenha se ludribriado também com as intermitentes e belas cenas de sexo explícito.

*Comentário publicado terça-feira (15) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Comente aqui


Woody Allen mais racional do que nunca

Cena de "Homem Irracional", com a bela e talentosa Emma Stone e com o barrigudo Joaquin Phoenix

Cena de “Homem Irracional”, com o barrigudo Joaquin Phoenix e com a bela e talentosa Emma Stone

Por Wilame Prado

Após o desastroso “Magia ao Luar”, exibido ano passado por aqui, Woody Allen volta à velha e boa forma. “Homem Irracional”, em cartaz em Maringá, mostra um diretor atento aos mínimos detalhes em absolutamente todos os diálogos do filme, recheados com filosofia, especialmente com os princípios morais de Kant, a vertigem da liberdade de Kierkegaard e o existencialismo de Sartre e Heidegger. Tudo válido em uma construção narrativa que leva a um desfecho perfeito.

O longa é mais drama que comédia – assim como os melhores filmes do diretor – e, mais uma vez, é cercado pelo universo dostoiévskiano (o diretor é fascinado pelo escritor russo), especialmente ligado à máxima de Raskólnikov, de “Crime e Castigo”: para se destoar dos homens comuns, para haver algum sentido na vida, há que se fazer grandes feitos, até, de repente, quem sabe, cometer assassinatos, para um bem maior.

Abe Lucas (um Joaquin Phoenix propositalmente barrigudo e desgostoso com a vida) é um professor de filosofia famosinho que acaba de chegar a um novo campus para trabalhar, numa pequena cidade dos Estados Unidos. Sua chegada é cercada por boatos envolvendo principalmente o seu uso excessivo de álcool e os seus relacionamentos fugazes com mulheres – especialmente com professoras e alunas. Entre aulas entediantes, goladas generosas em seu cantil de uísque e flertes, um dia ele põe na cabeça que precisa matar um juiz que está sendo injusto com uma mãe humilde, prestes a perder a guarda dos filhos.

Allen tem acertado também nas escolhas de suas musas. Não é a primeira vez que ele aposta no charme e na imensa capacidade cênica de Emma Stone, mais linda do que nunca, em papel irretocável. Ela é a aluna Jill, que, fatalmente, apaixona-se pelo professor tristonho e boêmio de filosofia. Lucas também arranca suspiros de Rita (Parker Posey), uma professora casada que tenta ter um caso com ele. A veia cômica fica reservada a ela, que se debruça em busca de sexo com o professor e em planos indecorosos de fuga com ele para a Europa.

O diretor estadunidense faz um filme por ano e costuma ser lacônico em seus roteiros: o desfecho dos filmes são estreitados para o limite da vida, meio que matar ou morrer. É assim também em “Homem Irracional”, longa que nos faz lembrar que, mesmo com tanta teoria já eternizada nos livros, a filosofia ainda não é capaz de alcançar a irracionalidade que envolve as pessoas, as suas relações pessoais e os seus eternos esforços para sobreviver, para respirar.

*Comentário publicado nesta terça-feira (15) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Comente aqui


‘Que Mal Eu Fiz a Deus?’ é para rir

Elenco completo do francês "Que Mal Eu Fiz a Deus?"

Elenco completo do francês “Que Mal Eu Fiz a Deus?”

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Wilame Prado

Não tem sido fácil rir no cinema. A penúltima vez, ainda me lembro, foi no ano passado, no ácido e irônico argentino “Relatos Selvagens”, que concorreu – mas não levou, injustamente – ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. As últimas e raras risadas aconteceram no último sábado, quando finalmente assisti ao francês duplamente estreado em Maringá (a primeira, no Festival Varilux de Cinema Francês) “Que Mal Eu Fiz a Deus?”, ainda em cartaz no Cineflix Cinemas, no Maringá Park Shopping.

A proposta do roteiro era arriscada: fazer as quatro filhas de um casal tradicional francês se casarem com homens de diferentes nacionalidades e religiões; mais especificamente falando, elas – quatro verdadeiras beldades caucasianas – se casam com um judeu, um árabe, um chinês e, finalmente, um africano. Poderia ter resultado num filme extremamente de mau gosto, xenofóbico, racista ou machista. Mas não. Deu muito certo.

O longa, dirigido por Philippe de Chauveron, prova – especialmente aos cineastas e dramaturgos brasileiros – que é possível tratar com humor o preconceito eminente que há no Ocidente, sem que com isso seja preciso apelar para o insuportável argumento do politicamente correto.

Mesmo sendo recordista absoluto de bilheteria nos cinemas franceses – e conquistando também bom público aqui no Brasil -, a crítica especializada brasileira não tem visto com bons olhos “Que Mal Eu Fiz a Deus?”. Entre, por exemplo, no site Adoro Cinema e tire sua prova: nas críticas reunidas em uma das páginas mais acessadas de cinema do País, descobrimos apenas uma estrelinha dada pela Folha de S. Paulo e também uma estrelinha do jornal O Globo, além de críticas negativas publicadas em sites especializados. O motivo? Acabou o bom humor e muitos acusaram o divertido longa como previsível e preconceituoso.

Discordo. Eu e a sala inteira do cinema rimos do absurdo, dos extremos, das situações impossíveis, da velha e boa comédia no cinema. Luiz Carlos Merten (ufa), do Estadão, também discorda. Para ele, “…deu a louca nos críticos. Não sintonizaram com o humor incorreto de Chauveron. Mas nem na cena hilária da missa?”

*Comentário publicado nesta quarta-feira (19), no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Comente aqui


‘Riocorrente’: SP (ou o mundo) em chamas

Carlos, Exu, o abismo e SP em cena de "Riocorrente": niilista e provocador

Carlos, Exu, o abismo e SP em cena de “Riocorrente”: niilista e provocador

Por Wilame Prado

São Paulo (SP), século 21. Um rio enegrecido segue lentamente o seu caminho. A imensidão traduzida em vidro, concreto e metal. Asfaltos quilométricos parecem levar para além do horizonte. Madrugada quieta. Um garoto negro avaria um veículo luxuoso estacionado na rua. Uma jam session rola solta em uma casa noturna quase vazia. Som maravilhoso. Homens solitários, devidamente armados com suas long necks em mãos, apenas escutam. Um desses sujeitos – com cara de mal –, entoja-se facilmente e sai acelerando a sua potente motocicleta pelas ruas paulistanas, até finalmente recolher o moleque solitário e descalço que, há pouco, riscara a lataria do carro preto estacionado.

É assim, como um conto bem escrito, que começa o filme “Riocorrente”. Em apenas uma hora e dezenove minutos, Paulo Sacramento, que dirigiu e escreveu o longa-metragem, traçou um retrato fidedigno da maior cidade brasileira com uma competente fotografia e tendo como enredo os encontros e desencontros de um triângulo amoroso encenado pelos atores Lee Taylor, Simone Iliescu e Roberto Audio, todos desconhecidos do cinema, porém elogiados nos palcos do teatro. Personagens todos – cada qual a seu modo – asfixiados na metrópole.

Exu (Vinicius dos Anjos) é só mais um (como tantos outros) menino órfão de São Paulo. Ele chama Carlos (Lee Taylor) de pai. Carlos, no entanto, é um típico paulistano fulo da vida, descontente com o que vê pelas ruas da cidade grande, completamente embrutecido e autocrítico com as alternativas que encontrou para ganhar dinheiro – roubando carros para o desmanche, por exemplo. Em cima da sua moto, a câmera vai seguindo o olhar dele pelas ruas de São Paulo, tal qual um Travis Bickle (Robert de Niro) com seu táxi amarelo em Nova York, em “Taxi Driver” (Martin Scorsese).

Carlos apenas segue vivendo – ou seguindo o seu caminho, como um rio corrente –, mas percebe uma chama se aquecer em seu pensamento após Renata (Simone Iliescu) – com quem tem um caso amoroso – ler para ele um trecho de um livro. A ideia de que tudo está errado, e que apenas as pessoas é quem pode fazer algo para mudar o mundo, gruda na cabeça do motociclista até o desfecho do conto urbano cinematográfico. O pensamento humano, filosofa os personagens com livro em mão ou após uma sessão de cinema, é como uma bomba atômica, que se expande somente depois de explodir.

Do outro lado da cidade, Marcelo (Roberto Audio) é a representação do cabeça pensante, figura fácil paulistana. Entendido de artes plásticas, ele é colunista de um famoso jornal impresso que tem circulação nacional, guia turístico em cemitérios paulistanos – onde palestra sobre arquitetura e arte – e, como também grande parte dos chamados “entendidos” de alguma coisa, extremamente pacífico, sujeito que vive no mundo das abstrações, teorias, livro e jornais. Marcelo também tem um caso com Renata.

Renata é o personagem que representa a figura feminina nos tempos de hoje. Cada vez mais resolvida com seus desejos sexuais, independente financeiramente e culta. Mulher que, entendendo os anseios de se envolver com homens extremados – Marcelo é calmaria, Carlos é explosão – não se intimida em, por exemplo, após dormir na casa de um, acordar e ir diretamente para a casa do outro, em busca de sexo. Mas, assim como seus dois homens, ela também padece de incertezas, também sofre a pressão da cidade grande, a pressão da vida contemporânea e suas fugacidades, e chora copiosamente numa das cenas mais belas do filme, na plateia de um concerto intimista de Arnaldo Baptista, ex-Mutantes, cantando desafinada e lindamente atrás de um piano de caldas.

“Riocorrente” demonstra a maturidade de Paulo Sacramento, que foi elogiado com o documentário “Prisioneiro da Grade de Ferro” e que coleciona trabalhos como montador em filmes importantes, a exemplo de “Quanto Vale ou é Por Quilo” e “Amarelo Manga”. Não à toa, “Riocorrente” foi selecionado para o Festival de Rotterdam (Holanda), venceu o Prêmio Abbracine na Mostra Internacional de São Paulo e ainda nas categorias Melhor Fotografia e Melhor Montagem no Festival de Brasília.

Em seu último longa, Sacramento mistura drama e suspense e tem capacidade de criar situações em que a cena não se esgota por ela apenas, autorizando o espectador a pensar sobre ou completá-la. É o caso de cenas memoráveis, como a da ninhada de ratos que destrói pilhas e mais pilhas de jornais impressos dispostos em um galpão; o flagra da briga do casal com a câmera se aproximando devagar até enquadrar a tela exatamente na janela do apartamento; ou ainda quando Exu se encanta, mas não se espanta, com o leão dentro de uma jaula, chega pertinho e, com toda a calma do mundo, tira da boca um dente que estava mole.

O filme “Riocorrente”, extremamente crítico, perturbador, niilista, estimula o choque, o atrito, é mais Carlos (inconsequente e prático) e menos Marcelo (consciente e estagnado), trata da loucura que é São Paulo, que é o mundo, e faz um alerta: a bomba pode explodir a qualquer momento. Homens incendiários podem finalmente entender que, assim como a frase do ativista Zack de la Rocha e incorporada em voz over no filme, “Tem que começar em algum lugar. Tem que começar em alguma hora. Que lugar melhor que esse? Que momento melhor que agora?” No longa, a hora para agir é sim agora. E a destruição pode ser disseminada com a velocidade da correnteza de um rio sujo, ou no simples pedido feito por um menino após jogar seu dente que acabou de cair.

EM CARTAZ
SEMANA TUPINIQUIM
Assista “Riocorrente”
no Cineflix Cinemas,
no Maringá Park Shopping,
domingo (28) às 14 horas,
segunda-feira (29) às 21h40
e terça-feira (30) às 16h30

Trailer:

Comente aqui


Woody Allen é o mesmo de sempre em ‘Magia ao Luar’

Colin Firth e Emma Stone em cena de "Magia ao Luar": ceticismo colocado à prova

Colin Firth e Emma Stone em cena de “Magia ao Luar”: ceticismo colocado à prova

Por Wilame Prado

Woody Allen continua o mesmo em “Magia ao Luar”, filme em cartaz em Maringá: focado nos imensos diálogos entre personagens inteligentes e sarcásticos, atento na criação de cenários e figurinos fidedignos a uma época cuja trilha sonora é o jazz e extremamente conciso em sua sequência fílmica que, via de regra, costuma ter a duração de uma hora e meia.

A comédia romântica, como em quase todas as comédias de Allen, é para poucas risadas, nesse caso dedicadas ao azedume de Stanley, mágico que se veste de chinês e desmascarador de charlatões bem interpretado por Colin Firth – vencedor do Oscar em “O Discurso do Rei”. Ele divide a maior parte das cenas na Riviera Francesa dos anos 1920 com Sophie (Emma Stone), jovem norte-americana que se passa por médium na propriedade de uma família milionária inglesa.

No filme estão em jogo as questões entre razão e emoção, ciência e religião, real e metafísico. Para isso, Allen tem o suporte narrativo da história do mágico cético e da bela garota que se diz medium. A história de amor (como de praxe no universo de Allen, entre uma garota mais nova com um homem mais velho) é pouco ou quase nada explorada. O humor fica mesmo na sinceridade crua e amarga de Stanley no trato com as pessoas e no seu declarado amor-próprio, e também nas cenas pitorescas do jovem apaixonado Brice (Hamish Linklater), em sofríveis serenatas dedicadas a Sophie com seu ukelele desafinado em mãos.

Por fim, tem-se uma sugestão suavizada, leve e delicada para se pensar no dualismo entre crença e ceticismo. “Magia ao Luar” não encanta, não enche os olhos, mas é bem articulado por Allen, que não sai de sua própria cartilha. Sem ousar em nada, parece estar ciente de que alcançou a fórmula certa para um filme que não comprometerá o seu posto de diretor cultuado. Até a cena que pudesse ser pensada como a principal do filme – a dos dois protagonistas vendo a lua num planetário – é ligeira e preguiçosamente escasseada de qualquer aprofundamento.

Também, como em quase todos os longas em que resolve não dar para si o papel principal, é impossível não imaginar em Stanley o próprio diretor, em suas típicas rabugices e questionamentos filosóficos. Culpa da direção e não do ator Colin Firth, que parece ter se esforçado para que “Magia ao Luar” não ficasse chato.

CARTAZ
MAGIA AO LUAR
Direção: Woody Allen
Duração: 1h38min.
Classificação: 12 anos

*Comentário publicado nesta terça-feira (23) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Comente aqui


‘Lucy’ é ação viajandona, mas tem lá os seus valores

Scarlett Johansson é Lucy em ficção científica/ação que continua em cartaz nos cinemas

Scarlett Johansson é Lucy em ficção científica/ação que continua em cartaz nos cinemas

Por Wilame Prado

“Lucy”, filme de Luc Besson e estrelado por Scarlett Johansson ainda em cartaz em alguns cinemas da cidade, é uma ação bem diferente das demais. Une ficção científica, o charme da loira mais requisitada em Hollywood e algumas reflexões acerca da imensa capacidade que um cérebro humano pode ter.

Nas devidas proporções e desconsiderando os exageros de impossibilidades humanas inaceitáveis até para uma ficção científica, o filme é envolvente do início ao fim.

Após cair numa armadilha, Lucy (Scarlett Johansson) se vê obrigada a transportar drogas pesadas dentro do estômago. Envolvida com uma espécie de máfia coreana das mais sanguinolentas, acaba sendo espancada. Os chutes que leva de um coreano no estômago acabam estourando os pacotes da droga, que propicia em Lucy poderes sobre-humanos, desde telecinesia e ausência de dor, até a capacidade de adquirir conhecimento instantaneamente.

Ao lado do professor Norman (Morgan Freeman), Lucy acompanha o seu martírio de ter que fugir da máfia – que perderá milhões sem as drogas – e de ver a sua capacidade cerebral vertiginosamente aumentar para os 100%, fato acompanhado por uma infinidade de efeitos colaterais mortíferos.

“Lucy” homenageia o ser humano e ressalta uma importante mensagem: a de que podemos sempre mais e mais. No entanto, joga na mesa também uma analogia sutil e perigosa: dependendo da quantidade ingerida, substâncias químicas ilícitas poderão agir em prol da inteligência humana.

*Comentário publicado na sexta-feira (19) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

2 Comentários


‘Se Eu Ficar’ é fraco e cansativo

Chlöe Grace Moretz em cena do filme "Se Eu Ficar", em cartaz  nos cinemas

Chlöe Grace Moretz em cena do filme “Se Eu Ficar”, em cartaz nos cinemas

Por Wilame Prado

O filme “Se Eu Ficar” (R.J. Cutler, EUA, 1h46min.), em cartaz nos cinemas da cidade, é extremamente cansativo e chato de se ver. O recurso do flashback, tão desgastado no cinema mas ainda usado com dignidade por alguns diretores, foi utilizado à exaustão no longa-metragem, em cenas do antes e depois do acidente sofrido por Mia Hall (Chlöe Grace Moretz) e toda sua família.

Mia é uma talentosa violoncelista. Infantil e doce, ela se apaixona por Adam, líder de uma banda de rock que, por trás das roupas de preto, tem um bom coração. O namoro juvenil é colocado à prova quando ele começa a viajar demais com a banda em franco sucesso e quando ela está prestes a ser aprovada na Juilliard School, em Nova York – uma das melhores escolas para músicos nos EUA -, distante da pacata cidade dos dois.

No meio dessa história de amor um tanto sem sal nem açúcar, a jovem perde toda a família em um acidente de carro. Ela, em coma no hospital, sai do seu corpo e, em forma de espírito, presencia a morte da mãe, do pai e do pequeno irmãozinho. Mia depende da vontade de viver para ela resistir aos ferimentos e acordar do coma, ou então se entregar à morte.

Mesmo com a falta de qualidade do filme, “Se Eu Ficar” conta com alguns elementos que podem resultar em sucesso de bilheteria: tem a temática romântica e ingênua apreciada por um público juvenil e é baseado em um romance homônimo que, aqui no País, está em primeiro lugar na lista dos livros mais vendidos de ficção. Ainda assim, tenderá a decepcionar aqueles que, por exemplo, se envolveram demasiadamente nos cinemas com a dramática história do filme “A Culpa É das Estrelas”.

Em “Se Eu Ficar”, não há nada além de uma menina andando descalça de um lado para o outro dentro de um hospital, ou em lembrança dos dias em que tocava sem parar um violoncelo e ouvia o namoradinho roqueiro cantar.

*Comentário publicado na quinta-feira (18) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Comente aqui


‘Sex Tape’ é engraçado e vem em boa hora

Cameron Diaz tentando seduzir o marido em cena de “Sex Tape”: 42 anos de boa forma

Cameron Diaz tentando seduzir o marido em cena de “Sex Tape”: 42 anos de boa forma

Por Wilame Prado

Na lista com mais de vinte celebridades hollywoodianas – encabeçadas por Jennifer Lawrence (“Jogos Vorazes” e “O Lado Bom da Vida”) – que tiveram fotos íntimas espalhadas na rede por um hacker, não se vê o nome de Cameron Diaz. Sorte a dela, que, recentemente, afirmou em entrevista que isso jamais aconteceria pois ela não se arrisca jamais.

A entrevista da atriz, famosa por protagonizar blockbusters como “As Panteras” e “Quem Vai Ficar com Mary”, fazia referência ao filme “Sex Tape: Perdido na Nuvem”, comédia de Jake Kasdan em cartaz em Maringá e que nada tem a ver com erotismo via fotos ou vídeos encontrados no mar de (im)possibilidades que é a internet.

“Sex Tape” é comédia para se ver em casal, ou até em família. Cameron Diaz, aliás, costuma ser engraçada, e só, em suas performances como atriz. Reconhecendo a ausência de dramaticidade em seus papeis – são vinte anos de carreira e pouquíssimos filmes bons no portfólio da loira – ela, no entanto, não tem do que reclamar financeiramente falando: a atriz é a sexta mais bem paga de Hollywood, segundo levantamento da Forbes, com R$ 40 milhões.

Ao lado do também engraçado por ser tipicamente estranho Jason Segel, 34, eles vivem Annie e Jay, um casal que, após a chegada dos filhos, entrega-se ao cansaço do cotidiano a ponto de deixar o sexo sempre para depois. A vida dos dois vira de cabeça para baixo quando resolvem apimentar a relação filmando com um tablet a relação sexual. O épico pornô protagonizado pelo casal acaba indo parar em outros tablets, num efeito viral, e a dupla agora tem que achar e deletar o material.

“Sex Tape” tem um começo sensual, com as primeiras e curtas cenas de nudez encaradas por Cameron Diaz em sua carreira – apenas um nu de costas. E pode-se afirmar: ela continua bela em seus 42 anos de idade muito bem distribuídos. Mas o apelo erótico que a nudez poderia extrair logo vira motivo de humor. As caretas da loira são engraçadas e, mais para o final, quando são reveladas parte das cenas do vídeo caseiro de mais de três horas de sexo, as risadas se transformam em gargalhadas: caras, bocas e pernas para todos os lados, demonstrando que, em meio às trapalhadas de um casal destreinado na cama, a risada pode servir como remédio contra o tédio e a falta de criatividade.

A sequência mais engraçada do filme, porém, fica reservada para Jay (Segel), ator que também assina o roteiro. Buscando encontrar um tablet numa casa enorme de um empresário que poderá dar uma chance profissional ao blog da sua mulher, ele se vê em apuros com um pastor alemão bizarramente imortal que o segue e o ataca implacavelmente. É realmente hilário ver a briga desmedida e com toques de exageros entre um cão raivoso e um homem em apuros.

Em tempos de atrizes desesperadas em deletar logo suas fotos em poses sensuais que vazaram para o mundo, “Sex Tape” é alternativa para se aprender a dar risada até nos momentos mais constrangedores possíveis. Ver-se em apuros numa nuvem virtual, afinal, tem sido algo mais recorrente do que muitos imaginam.

*Comentário publicado nesta quinta-feira (4) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

1 Comentário


Geração Kichute no País do Futebol

Crianças brincam de ferrorama em “Meninos de Kichute”

Crianças brincam de ferrorama em “Meninos de Kichute”

Por Wilame Prado

A espera valeu a pena. Em ano de Copa no Brasil, “Meninos de Kichute” – longa-metragem dirigido por Luca Amberg, baseado no romance homônimo do londrinense Márcio Américo – estreou semana passada em algumas salas de cinema do País, incluindo uma aqui em Maringá, que exibe até semana que vem o longa nacional.

Filme tocante, sensível e que certamente vem emocionando principalmente aqueles que passaram a infância nos anos 70 e ainda aqueles que amam futebol, “Meninos de Kichute” retrata fielmente uma época em que as principais diversões da molecada eram jogar bola no campinho de terra, jogar bafo e trocar figurinhas, ver mulher pelada na revista, ir à matinê do cinema e infernizar os pais com as mais variadas travessuras. No longa, Beto (Lucas Alexandre) sonha em ser goleiro da Seleção Brasileira, mas é atrapalhado pelo rigoroso pai, o pintor evangélico Lázaro (Werner Schünemann), que, no final, acaba sendo o “vilão” da história por ter se encarregado de representar a hipocrisia e o machismo corriqueiras da época.

No filme preferido do público na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é aquela velha história, conhecida pelos meninos brasileiros que hoje são homens barbados: uma partida de futebol é uma batalha, e os inimigos são os moleques da rua de baixo. Na rua Ivaí, Beto e seus amigos têm um time competente e com uma característica marcante: todos usam Kichute. Cria-se, então, o clubinho Meninos de Kichute, e a nostalgia sentida pela melhor época da vida rende comparações a clássicos do tipo como “Os Batutinhas” (Penelope Spheeris, 1994) e “Conta Comigo” (Rob Reiner, 1986).

Na cativante e divertida história que não se limita a contar as coisas que acontecem dentro das quatro linhas do campo – as alegrias e as tristezas vividas por uma família humilde de um bairro do interior do Brasil são brilhantemente interpretadas por Beto, pelo pai, irmãos e pela mãe (Vivianne Pasmanter) – o destaque fica para as crianças em pleno trabalho de atuar. Lucas Alexandre e uma pancada de crianças (a maioria, meninos) dão o toque ingênuo e incrivelmente real às tramas de um tempo em que era normal cantar o Hino Nacional antes das aulas de Educação Moral e Cívica começarem, colecionar figurinhas do álbum Brasil Pátria Amada, ver as “reportagens” ufanistas do programa do Amaral Netto e ter de encarar as gracinhas dos colegas de classe por ter um tio bicha ou um pai alcoólatra, tempos em que ninguém usava palavras como gay ou bullying.

O trabalho de pesquisa para compor a cenografia, figurinos e trilha sonora também é digno de nota. Soou muito natural, em “Meninos de Kichute”, a casa velha de madeira – com fogãozinho vermelho na cozinha, local onde a família precisava improvisar também a beliche para dois irmãos dormirem –, o colégio, o campinho, as roupas simples e curtas e os próprios Kichutes nos pés da meninada. É uma delícia assistir ao filme ao som embalado também daquela época, iniciado por “Fio Maravilha”, de Jorge Ben, e que conta ainda com “Que Fim Levaram Todas as Flores”, dos Secos e Molhados, “Giramundo”, d´Os Incríveis, “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, do gênio Sérgio Sampaio, “Eu Vou Rifar Meu Coração”, de Lindomar Castilho, e “Marcas do Que Se Foi”, dos The Fevers.

Por fim, a história de Beto sonhando em ser apenas um goleiro acaba sendo a história de uma geração brasileira, de garotos que, ainda que pobres, ainda que de família humilde, viveram extremamente felizes a sua infância. Entre os ligeiros cem minutos de duração de “Meninos de Kichute”, ainda cabe pontuar a atuação competente de Arlete Salles no papel de Leonor (vizinha que toca sanfona, toma cachaça e dá dinheiro para Beto comprar figurinhas), as pontas hilárias de Mário Bortolotto, Paulo César Pereio e do próprio Márcio Américo, e ainda uma cena inesquecível, a de quando Beto está internado no hospital após quebrar a perna num atropelamento, momento em que divide quarto com o Velho Goleiro, ex arqueiro do Londrina, Juventus, Vitória e outros times, que tece ensinamentos para o menino do kichute.

“Se você quiser ser goleiro, não pode ter medo e ser diferente. Se quiser ser igual, vai pra linha, tem mais nove feito você. Goleiro tem a sua própria área, uniforme único, número um. E só o goleiro pode voar”, diz o Velho Goleiro, interpretado pelo ator e professor de teatro Luthero de Almeida. Simplesmente um brinde para os amantes do futebol em plena Copa do Mundo.

MENINOS DE KICHUTE
O filme fica em cartaz na cidade até quarta-feira da semana que vem, sempre às 13h45, no Cineflix Cinemas, no Maringá Park Shopping

*Texto publicada quarta-feira (11) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Comente aqui