fim de semana



New York, Curitiba

Por Wilame Prado

Lembro-me do meu velho pai todas as vezes em que piso em um hotel. Aliás, posso dizer que, quando estou em hotéis, mais do que lembranças paternas, permito-me reencarnar na figura dele, que morreu há seis anos, naquele inesquecível 1º de maio de 2007. Sou seu único filho homem (reconhecido em cartório), tenho este direito.

A reencarnação começa logo na recepção, quando ouço as atendentes me chamarem pelo sobrenome (que nunca uso, diga-se) e com uma cordialidade incomum em meu dia a dia: “Sr. Elias, queira me acompanhar até o quinto andar, onde fica a sua exclusiva suíte M…”, diz Maíra, simpática moça curitibana, com um suave problema de dicção na voz que a obriga trocar sutil e graciosamente o r pelo l quando conversa.

Em bancos, corretoras de seguro e concessionárias de veículos onde trabalhou em São Paulo (SP), meu pai sempre foi o Elias. Em redações de jornais no interior paranaense, nunca deixei de ser o Wilame Prado, o cara do nome esquisito. No hotel, viro o jovem senhor Elias. Tenho 27 anos. Meu pai morreu aos 49 após Acidente Vascular Cerebral (AVC). Estou pensando seriamente em oficializar a troca de nome; gostei da sonoridade de “Sr. Elias”.

Estou em Curitiba, região central da capital do Paraná, próximo a um shopping que já foi estação de trem. Sou um paulistano natural de Maringá que ganhou um final de semana na suíte exclusiva do hotel com ares nova-iorquinos. Nunca fui aos Estados Unidos, mas assisti a bastantes filmes de Woody Allen. No aposento provisório, em nenhum momento sequer o Sr. Elias se permitiu imaginar-se um estrangeiro. Quartos de hotel são iguais, afinal.

A previsão do tempo havia nos assustado: voltaria a fazer frio. Mas nem deu para apreciar o frio curitibano não. Do avião para o táxi, do táxi para o hotel. Ar-condicionado no quente. Cobertas, travesseiros e cama macia. O conforto de uma Manhattan fictícia e uma vontade de rever algum longa de Woody Allen (dizem que “Blue Jasmine”, filme a estrear este mês no País, promete).

O que mais me emociona em quartos de hotel são as potentes duchas quentes no banheiro. Estar em um hotel é estar fora de casa. Isso já é fator suficiente para ficar pensando mais profundamente na vida. Faço isso debaixo do chuveiro, percebendo a vermelhidão aparecer em meu corpo por causa da quentura da água. As veias que saltam no peito do meu pé, já inchado após quarenta minutos de banho, relembram-me que não sou mais quem eu era antes. Agora sou o Sr. Elias. Tenho os pés inchados do meu pai, mas torço para não sofrer o que ele sofreu (em silêncio) com a pressão alta e dores nas pernas.

Eu calço 41. Sem inchaços, um par de sapatos do número 39 servia perfeitamente bem nos pés do meu pai.

Dizem que muitos escolhem os quartos de hotéis como local para cometer suicídios. Fiquei pensando nessas coisas ruins antes de terminar meu banho e acabei por me recordar de uma noite solitária e triste que passei no 23º andar de um hotel paulistano, há alguns anos. Olhando para baixo, da janela do quarto, a imensidão de toda aquela visão fazia dicotomia com o vazio inexplicável que atingia o meu peito naquele instante, em minha cidade natal, tão perto de mim e tão longe de todo mundo. Naquela noite, após uma ducha quente e demorada, não tardei a dormir confortavelmente em cima de uma cama que mais parecia uma jangada espaçosa.

Dificilmente alguém vai se matar após um revigorante banho quente.

Nessa última viagem, havíamos planejado restaurantes bem conceituados, passeios a céu aberto, guloseimas, presentes, caminhadas, fotos, sorrisos e abraços em praça pública. Queríamos uma Curitiba de peito aberto só para nós, local onde pretendíamos reinventar uma lua de mel que nunca existiu. O Sr. Elias e a sua mulher, confortavelmente instalados na suíte 502, mereciam mais do que os ovos mexidos e o bacon no café da manhã, o café expresso à vontade no andar do quarto e a champagne no cair da tarde. Mas nada disso foi possível. Deixamos Curitiba para mais tarde, para outros finais de semana. É que somos exibidos e desdenhamos da capital. Preferimos ficar na Manhattan fictícia consumindo duchas e travesseiros tão distantes dos nossos.

Trancafiado em um quarto de hotel, em suas muitas horas de sono deitado em cama confortável de hotel, o Sr. Elias pensou que teria sido legal ter sonhado com o pai já falecido. Mas não sonhou com ninguém e nem mesmo com lugares, como o Central Park ou o Jardim Botânico. E então se despediu da cidade grande rumando a Maringá em uma noite chuvosa de domingo. New York, New York. Curitiba, Curitiba.

*Crônica publicada nesta terça-feira (8) na coluna Crônico do caderno Cultura, do jornal O Diário de Maringá

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