fim de tarde



Apartamento na planta

Esses finais de tarde ficam, dia pós dia, mais cinzas. Aquele “pseudo-frio”que já pede uma blusa de lã. O escurecimento instantâneo que transforma a tarde em noite num piscar de olhos. Cinza, cinza escuro, negro. Negritude já da noite em plena 18h30. Nada de shortinho, saia, bermuda. Nada de perna bonita da moça que passa no Parque do Ingá. Agora é calça sobre calça, blusa sobre blusa.

É quando os homens largam as ferramentas e almejam somente um banho para finalmente se encontrarem com a última refeição, o último arroz com feijão do dia, ou com um pão francês que, graças a Deus, nunca tem faltado na mesa de casa, talvez acompanhado de uma taça de vinho, ou mais claramente falando: de uma dose de pinga, de uma lata de cerveja.

É fim de expediente. Hora de pegar o busão de volta pra casa. De pedalar na magrela. De vestir um capacete e acelerar a moto. Ou então pegar o 1.0 financiado em 60 vezes e, com todo conforto que se tem direito, dirigir pelas ruas, ouvindo as músicas que preencheram seu pendrive e que agora são executadas pelo moderno toca-fitas dos tempos de agora.

Foi em um desses finzinhos de tarde que eu o vi: o construtor. Ele, preferindo o meio de transporte mais antigo do mundo: o pé dois. Do boné vermelho encaixado na cabeça às botas impermeáveis, uma visível camada de pó de cimento fazia parte do figurino. Blusa não combina com aqueles que fazem da força e dos serviços braçais um jeito de vencer na vida. Dê algumas marteladas seguidas num prego, vestindo blusa, e entenderá o que eu digo sobre a necessidade de não se ter blusa por cima dos braços. Mas era fim de tarde, fim do dia, fim da vida. Era hora de voltar. De sair do trabalho. De parar com as marteladas, com as porradas. Então uma camiseta verde e surrada de manga comprida por debaixo da camiseta simples de algodão, cinza e vermelha, com a logomarca da construtora estampada no peito, basta para o construtor espantar alguma fatia do frio de mais um final de tarde.

O construtor vai embora da obra. E antes que o céu escureça de vez, olha pra trás. Uma ponta de sorriso mostra as perdas dentárias e a passagem dos anos. Ele olha pra trás e já consegue enxergar uma parte do prédio ainda descascado, ainda cru, sem acabamento. Com o fim das primeiras e mais longas fases da obra, com fundação e outras estruturas menos visíveis, agora o construtor pode ver, quase que semanalmente, um novo andar, uma nova altura, o crescimento do seu filho.

O construtor olha pra trás e sente que está fazendo um bom trabalho. Despede-se do amigo de obra. Um vai pro bar. Comemorar mais um andar levantado? O construtor vai pra casa. Está torcendo para que ela, a sua mulher, tenha feito aquela sopa de legumes que tanto gosta. Com esse friozinho que faz, é quase lei tomar aquela sopa. Com o pão quentinho que vai pegar na padaria, tudo ficará em paz, tudo ficará bem para que o outro dia seja realmente um outro digno dia.

O construtor dorme e não sonha com seu filho, o seu prédio. Mas eu sonho. Um dia vou adotar aquele filho. Um dia, caro pai da obra, caro construtor, você se despedirá da obra, achando tudo muito bonito, tudo muito bem feito, e partirá para outros prédios, outras obras, outros filhos. E deixará aquele prontinho para gente morar. Em um finzinho de tarde frio, que obriga pelo menos àqueles que não dão martelada no prego a vestir uma blusa, eu vi o pai, vi o construtor olhando pra trás e sorrindo por ver o filho saudável crescendo. Naquele dia também sorri, sonhei com o filho, sonhei com o meu futuro lar. Coisas de gente que compra apartamento ainda na planta.

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