futebol



Contos do futebol

Por Wilame Prado

Júlio Cortázar professorou: no conto se ganha por nocaute e no romance se ganha por pontos. O escritor argentino – que era apaixonado por boxe – dizia que o futebol é “altamente entediante”. O autor do clássico O Jogo da Amarelinha que nos perdoe, mas ele talvez tenha assistido aos jogos errados.

No esporte bretão vale gol de barriga e de bicicleta, vitória por meio a zero e por doze a um. A narrativa do futebol é inenarrável, praticamente ilegível, convém-se apenas assistir, e de preferência torcer por um dos dois times que traçam o duelo dentro das quatro linhas brancas que delimitam o retângulo de gramado verde mais cobiçado do mundo. José Roberto Torero, 51, escritor nascido em Santos (SP) e torcedor famoso do Santos Futebol Clube, sabe muito bem destas coisas: sobre romances, contos e também sobre futebol.

Torero – cerca de 30 livros publicados – esteve por aqui durante a 1ª Festa Literária de Maringá (Flim). Vencedor da primeira edição do Prêmio Paraná Literatura na categoria contos com o livro “Papis et Circenses”, em 2012, foi convocado para uma mesa cujos assuntos debatidos foram o conto, a inspiração e o processo criativo. Nada de futebol…

Dividiu a mesa com o escritor de Jundiaí (SP) André Kondo, 39, espécie de maratonista de concursos literários: após a mesa, dando uma carona para os dois escritores rumando a um bar decente maringaense que servisse comida, bebida e exibição de mais uma rodada de futebol em telas gigantes de TV, o autor de “Contos do Sol Nascente” calculava ter conquistado prêmios em mais de cem concursos literários. “Foi a forma que eu encontrei de me bancar apenas vivendo da literatura”, defendeu o torcedor – hoje não fanático, jura – do Sport Clube Corinthians Paulista.

Diferenças à parte, Kondo, sempre educado, muito polido, tardou em revelar para qual time torcia. Estava diante de dois santistas roxos (eu e Torero) e uma são-paulina (minha mulher) na mesa. A questão envolvendo a preferência por times paulistas em pleno interior paranaense fica para outra história.

Em vez de defender com unhas e dentes – como todo corintiano faz – a trupe atualmente liderada por Paolo Guerreiro no ataque, Elias no meio e Gil na defesa – o contista resolveu contar, já na mesa do bar, sobre a final da Copa do Mundo de 2002 entre Brasil e Alemanha no Japão. Kondo estava no Estádio Internacional de Yokohama no dia em que Ronaldo e Rivaldo deram o pentacampeonato à seleção brasileira, mas curiosamente nem viu os gols, estava mesmo é curtindo a festa. Não há palavras, segundo ele, para explicar a emoção de estar num estádio em final de copa do mundo. Mas pelo menos deixou a experiência registrada em forma de crônica, em algum jornal de cidade pequena, recordou-se.

Torero, já devorando a porção de tilápia no palito e o seu suco de goiaba com água, não conseguia prestar muita atenção na gente: através do smartphone, aguardava notícias sobre o filho recém-nascido passando pela primeira febre alta de sua vida e também sobre alguns quiproquós gerados na produção da próxima entrevista que realizaria para o Super Libris – programa que está desenvolvendo para ser exibido, no ano que vem, no Sesc TV, só entrevistando escritores brasileiros, de variadas localidades.

No lugar privilegiado em que estávamos naquele bar, curtindo um vento que se fazia ainda mais refrescante naquela noite quente graças aos bons ares vindos do Parque do Ingá – bem ali ao lado – uma TV de 50 polegadas, a três metros de distância da mesa, não conseguia chamar a atenção dos santistas, ainda que, como atração principal, jogavam, na Vila Belmiro, Santos x Fluminense, partida válida pela trigésima rodada do Brasileirão. Jogo fraco, mesmo contando com o nosso eterno Pedalada (o Robinho) e o Gabi Gol (a nova esperança criada no celeiro do Alvinegro Praiano) dentro de campo.

Momentos antes, desta vez na mesa literária, a qual mediei, lembro-me de ter tido o atrevimento de perguntar para o Torero se escritor santista costumava ser craque nas linhas, tal qual Pelé, Robinho e Neymar foram e são nos gramados. “Pelé é insuperável, é praxe, e, acredite, não há assim tantos santistas vivos por aí, torcendo ou escrevendo”, brincou o modesto escritor, que considerou como um “golpe de sorte” a conquista do disputado prêmio literário paranaense, há dois anos. Não foi apenas sorte: “Papis et circenses” – um conto para cada papa, de Pedro a Francisco – é uma das maiores críticas já feitas sobre o papado. Ironia fina, sarcasmo puro e a concisão em forma de contos que estamos acostumados a ler em textos de Dalton Trevisan, Sérgio Sant’Anna e Luiz Vilela.

Durante a mesa literária, quase não encontro brechas para falar de futebol. Na verdade, é momento para falar do conto, que, para Kondo, deve ser algo como um abraço no leitor, já para Torero, a depender da ocasião, deve ser sim um murro bem dado no estômago. Criou-se ali, interessantemente, uma espécie de embate saudável entre as diferentes formas de se contar uma breve história: abraço, soco, vitória por pontos, por nocaute, contos com finais felizes e motivadores, contos sobre papas sacanas…

No boteco, sim, encontramos finalmente a descontração necessária para falar das banalidades da vida, futebol, gols e a ‘não literatura’ envolvendo o esporte considerado paixão nacional. Foi quando o Torero – que há alguns anos abandou a crônica esportiva, a coluna na Folha de S. Paulo e até o blog no UOL – admitiu ter ensaiado algumas tentativas futebolísticas in loco, todas frustradas. “Eu ficava muito irritado em campo. Fui um mediano meia”, confessou ele, hoje um crítico do futebol feio – a la Leandro Damião – praticado no País. “Nestes últimos anos, o futebol foi enfeando tanto que me desinteressei. O Santos ainda consegue certos lances de beleza, mas são um tanto raros”, havia afirmado o escritor dias antes, numa entrevista concedida por e-mail.

“Futebol não rende literatura. O futebol fala por si só, não precisa ficar escrevendo muito sobre. A pessoa já consumiu aquilo ali assistindo ao jogo, que muitas vezes é meio mágico, meio literário. Para quê escrever depois sobre?”, filosofou, por fim, na mesa do bar, Torero, autor de “Santos, um time dos céus”, “Futebol é bom pra cachorro”, “Dicionário Santista, de A a Z, mas sem X”, “Uma história de futebol”, “Pelé 70”, “Nove contra o 9”, “Futebologia” etc.

Replico citando “O Drible”, romance elogiado, publicado em 2013 por Sérgio Rodrigues e finalista do Prêmio Jabuti em 2014. “Eu li, é bom. Mas não é um romance especificamente sobre futebol, mas há futebol ali”, explicou o escritor santista, que, em meio ao bate-papo com a gente e com as batalhas no aparelho celular, nem viu que (a velha caixinha de surpresas), aos 45 minutos do segundo tempo, o pouco habilidoso volante Edson empurrou de carrinho (o típico gol feio) a bola para as redes do goleiro Aranha, dando a vitória para o Flu e afastando de vez a chance de o Santos alcançar o G4 no Brasileirão e, consequentemente, obter uma vaga para a Libertadores do ano que vem. Coisas do futebol, e que fazem qualquer escritor deixar a mesa do bar extremamente aborrecido de volta para o seu hotel, em outro bairro de Maringá.

Também retornando para o mesmo hotel, o corintiano Kondo segurou o riso e a comemoração com a derrota de seu rival, mas penso que, por dentro, lavou a alma. O conto que abraça o leitor venceu.

*Texto publicado em dezembro de 2014 no jornal O Duque

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Germanizar, jamais

Por Wilame Prado

O futebol continua nos dando lições, veja só. A Alemanha, seleção de futebol que mais viveu intensamente a Copa do Mundo, sagrou-se tetracampeã mundial em solos brasileiros. Os baianos das redondezas de Santa Cruz de Cabrália, que adoraram a presença dos alemães durante o torneio, devem ter comemorado esse título tal qual um hexacampeonato do Brasil, projeto brecado após uma derrota acachapante nas semifinais justamente para eles, os germanos, e cujo resultado não preciso ficar aqui repetindo, não é mesmo?

A Alemanha demonstrou que é possível vencer sorrindo fora de campo e sério pisando no gramado, simples assim. Não precisamos fazer cara feia, chorar para mamar, tentar ludibriar, entrar para quebrar. Basta jogar. Em dias de folga, por exemplo, dois dos grandes atletas da seleção alemã – Neuer e Schweinsteiger – se deixavam ser flagrados nas areias das praias baianas, aprendendo danças típicas, dando autógrafos, curtindo, por que não, um turismo no País. Dentro de campo, não perderam o foco um minuto sequer das partidas que disputaram do mundial.

Os alemães se abrasileiraram e, sem dúvida, se aproveitaram disso também dentro de campo: jogaram como se estivessem em casa. Lukas Podolski, a partir de agora, será nome lembrado em cartórios daqui. Mario Götze fez o gol mais brasileiro na história da Alemanha de todos os tempos: habilidade de Neymar, matando a redonda no peito no tempo certo, e precisão de Pelé, enfiando a bola para a rede argentina. Gostaram tanto do País, esses alemães, que se recusaram a entregar a Copa do Mundo dentro de nossa casa para o nosso maior rival no futebol. Somos eternamente gratos, portanto.

Além de toda essa simpatia que foi capaz inclusive de quebrar o paradigma reinante – o de que alemão é antipático –, muitos agora aproveitam a conquista do título da Alemanha para sugerir à Seleção Brasileira um possível jeito de se voltar a jogar bola de maneira convincente. Erramos nessa tentativa, a meu ver. Tudo bem: elogiemos, sim, o comportamento deles fora de campo e aplaudamos, e muito, o comportamento tático dos capitaneados pelo polivalente Philipp Lahm. Reconheçamos que a frieza, a obediência tática e a determinação da Alemanha em campo resultaram na conquista do título mais importante para o futebol. Ressaltemos também que é muito melhor ter um time de bons jogadores do que ter um apanhado de jogadores medianos com uma estrela brilhante solitária. Agora, germanizar o futebol brasileiro e suas marcantes características, aí acho demais.

Precisamos de um bom técnico e de um bom time. Precisamos de mais atenção dentro de campo e mais estudo sobre os adversários fora de campo. Mas não precisamos deixar de chorar e sentir menos as coisas do nosso Brasil, assim como muitos sugeriram após o aperto passado na vitória, nos pênaltis, contra o Chile, nas oitavas de final da Copa do Mundo. Não podemos só ter isso, mas temos de respeitar e ver a importância de talentos individuais, porque um talento individual brasileiro – essas coisas de Neymar, Ronaldo, Rivaldo, Romário, Zico, Pelé e Garrincha – vale mais que mil palavras, é coisa que o dinheiro não compra.

Não somos imbatíveis, e isso, aos poucos, o País onde nasceu e vive o rei do futebol vai entendendo. Mas temos um futebol diferente, difícil de explicar. É aquela velha história envolvendo quem é esforçado e quem é talentoso nato. O talento, para nós, é natural. Precisamos é nos esforçar um pouco mais, aceitar algumas reciclagens, ter um pouco mais de humildade para também aprender e admirar outros “futebóis”, e não apenas ficar esperando a admiração alheia por nossa genialidade, fintas, golaços, impossibilidades que só são possíveis dentro de campo com a bola nos pés brasileiros.

Se tudo isso acontecer, meu amigo, aí sim será “Rumo ao Hexa”, tudo voltará ao normal, o Brasil voltará a jogar futebol para alemão ver e, finalmente, poderemos ter o mínimo de chances de ganharmos novamente uma Copa do Mundo, lá na Rússia, em 2018.

Ademais, Olimpíada Rio 2016 está logo aí também.

*Crônica publicada nesta terça-feira (15) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Os não-torcedores do Neymar

Por Wilame Prado

Há cinco anos, após começar a brilhar com a camisa do time profissional do Santos em plenos 17 anos de idade, Neymar Jr é assunto recorrente da mídia. De lá para cá, o jogador conquistou uma legião de fãs e desafetos também. Os rivais da equipe santista são detentores de torcidas populosas. Muitos destes, em especial, alimentam uma raiva doentia pela camisa 10 da Seleção Brasileira, e as causas dos sintomas podem ser facilmente explicadas por duas frentes: pela simulação de faltas que o atleta insiste em desempenhar, mas principalmente pela ousadia e alegria – bordão que ele eternizou em tatuagens e nas chuteiras – que resultam nos mais belos gols, nas mais belas jogadas.

Discussão velha, no entanto. Neymar já nem é o 11 do Peixe, disputou uma temporada com o Barcelona e, desde 2013, é a grande estrela do futebol brasileiro porque, ao contrário de Messi com a Argentina, chamou rapidamente para si a responsabilidade com a camisa amarela, foi peça fundamental na conquista da Copa das Confederações e, até onde pôde ajudar na Copa do Mundo deste ano, desempenhou papel crucial para que exatamente hoje, logo mais às 17 horas, possamos estar grudados à telinha assistindo a uma semifinal de copa, coisa que não víamos desde 2002, quando vimos ainda mais, um Brasil sendo brilhantemente campeão mundial.

Pensando bem, discussão velha, mas nem tanto. Tive a oportunidade de ver alguns jogos recentes do Brasil com pessoas que dizem não gostar do Neymar. Os olhos destas pessoas, quando a bola está nos pés do craque, aumentam de tamanho, assustados. Suam frio, mais do que o próprio adversário, temendo o pior, que, para eles, parece ser mesmo o êxito da jogada, o gol, a mágica, o futebol-arte. Os não-torcedores do Neymar implicam demais com ele, foram, talvez, acometidos por uma espécie de trauma após verem seus times tanto sofrerem com os pés deste menino de só 22 anos. Quando dribla genialmente, eles dizem que Neymar é fominha. Quando faz um gol – e só na copa foram quatro – olham de lado, comemoram com menos entusiasmo e geralmente dão crédito para quem passou a bola para ele concluir com bola na rede.

Chega a ser engraçada essa birra que há com o melhor jogador que despontou no País após a aposentadoria precoce de Ronaldo Fenômeno. São tão birrentos os não-torcedores do Neymar que, com a contusão dele no jogo contra a Colômbia, alguns chegaram a dizer que a sua ausência seria menos sentida que a suspensão do ótimo zagueiro e capitão do Brasil, Thiago Silva. Aí eu pergunto: quem está à altura para substituir Neymar naquele banco de reservas? Dante, ou até mesmo Henrique, podem jogar bem lá atrás, com a força que terão do simplesmente melhor jogador da copa, chamado David Luiz. Mas e lá na frente? Quem é que vai chamar o jogo, conduzir a bola, desestruturar o adversário, cobrar escanteios com maestria, bater faltas perigosas ao gol e – com ou sem exageros, com ou sem simulações – sofrer as faltas e dar chances reais de gol para um time que tem aproveitado bem as bolas paradas nas partidas? Vamos torcer para William ou o próprio Bernard entrar bem no jogo de hoje contra a Alemanha. Podem sim, fazer ótimas partidas, jogar até melhor do que o Neymar e, assim como fez Amarildo em 1962, suprir a ausência de um camisa 10 do Brasil.

Eles, os não-torcedores do Neymar, continuarão buscando justificativas absurdas para provar que ele não é craque, que ele é fominha, que ele deveria ser ator ao lado da namorada, que deveria nem estar usando a 10, que deveria mesmo é estar como está agora, machucado (“Vai fingir tanta falta! Deus castiga”, dizem os mais bizarros não-torcedores) e vendo do lado de fora o espetáculo do futebol que o próprio ajudou a se concretizar.

São raivosos estes não-torcedores, enfim. Um deles, jornalista que escreve para o Portal R7, expressou publicamente em redes sociais a sua torcida (isso em 23 de junho) para que o Neymar se contundisse, quebrando o fêmur, de preferência. Mas para o desespero de todo eles, Neymar tem idade – e futebol – para jogar mais umas três copas do mundo. Isso se a mandinga e a não-torcida deixarem.

*Crônica publicada nesta terça-feira (8) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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O meu amigo Barba

Por Wilame Prado

Vi um cara parecido com o Barba. Será que o Barba entraria assim naquele bar? Será que ele paqueraria a moça bonita das pernas magrelas, sentada a quatro mesas, 23 cadeiras e aproximadamente três metros de distância de mim? Será que teria comemorado os dois gols do Neymar, um de Oscar, tacando cerveja pra cima, tal qual certamente fez o cidadão levemente alcoolizado, com camisa amarela falsa do Brasil, boné descaindo pelas orelhas, horroroso, na mesa 43, a mesma mesa que já pediu mais de doze vezes novas garrafas de cerveja, uma porção de batata frita com muito queijo e bacon jogados por cima e ainda algumas rosetas de sal e limão porque as duas moças gostam de misturar a bebida levemente salgada e azeda com goles generosos de bebida alcoólica enquanto não entendem muito bem porque houve tão rapidamente um gol contra do Marcelo, e também porque se deve colocar a bola na marca branca próxima ao gol quando alguém do Brasil cai na grande área?

Pego-me a imaginar o Barba dentro daquele bar que mais se parece uma jaula suja, lotada de animais que precisam de cerveja como uma espécie de água e comida vitais para as energias juvenis de gente que só quer ter a coragem de olhar por mais de três segundos para os olhos amendoados da menina que revela tristeza até mesmo quando sorri, ou então a ousadia de tecer comentários com começo, meio e fim para a roda de amigos, sempre com uma pitada de humor, sempre com uma pitada de sensualidade no ato de revelar os contos cotidianos da vida regados a mais mentiras ou superlativos do que a verdade propriamente dita.

Barba perceberia que a loira que chegou com o cara da corneta gosta mesmo é do amigo do cara da corneta – tamanho foi o beijo tascado no rosto desse amigo, beijo que quase chegou na boca do amigo, beijo que revela segredos, intimidades, vontades e desejos da loira acompanhada do cara da corneta? Estaria ele incomodado com tanto barulho, irritações, braços que se tocam, gente que se empurra, banheiros sujos, vômito, urina e fezes, calor e frio, carros que sobem a avenida, motocicletas que aceleram de propósito na avenida e que, pela execução de seus devidos motociclistas, produzem sons que se assemelham ao estourar de rojões (comemoremos, é o Brasil ganhando jogo de copa do mundo!)?

Gostaria de saber onde estava o Barba no exato momento em que, após uma abertura muito criticada e chata (valeu ver apenas o rebolado da Jennifer Lopez e a sua beleza que chega a nos agredir fisicamente), finalmente a bola começou a rolar numa das copas mais aguardadas de toda a minha vida. Estaria em Maringá, no Jardim Alvorada de Santa Fé, em Londres, Nova York, Pantanal ou mesmo lá dentro da Arena Corinthians, vaiando a Dilma ou torcendo para que aqueles rapidíssimos 90 minutos não se esgotassem jamais, tamanha é a festa, tamanha é a alegria representada pelo futebol, tamanha é a emoção de viver, estar vivo e ter alguns dinheiros a mais a ponto de poder sim, o próprio Barba, hoje estar vendo com os próprios olhos da cara, sem filtros, sem televisões, sem replays, sem a voz do Galvão Bueno, o primeiro jogo da seleção em plena Copa do Mundo Fifa – Brasil 2014.

Lembro-me da última vez em que vi o Barba. Ele estava daquele jeito de sempre, lento caminhar, olhar distante, mão no ombro da mãe, bengala na outra mão, dando passos nas calçadas daquela pequena cidade como forma de exercício fisioterápico para, a conta-gotas, ir recuperando os movimentos da perna, perdidos após um trágico e besta acidente de moto. Se não fosse uma imensa placa que o impediu de continuar acelerando a sua moto, e que, por pouco, não gerou uma tragédia ainda maior para toda a sua família, Barba poderia estar aqui neste bar, comemorando feito idiota, assim como eu, mais uma “vitória” da Seleção Brasileira. Poderia, quem sabe, até chutar um placar para o próximo jogo, para o próximo espetáculo de circo, para a próxima palhaçada, cujos atores em cima do palco estariam uns vestidos com o amarelo do Brasil e outros vestidos com o verde do México. Viva o futebol. Viva o bar. Viva a cerveja, a festa e viva as pessoas que podem usufruir disso tudo sem precisar escorar numa bengala e no ombro de uma forte e guerreira mãe, assim como o meu amigo Barba precisa.

*Crônica publicada nesta terça-feira (17) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Dinheiro não compra a metafísica do futebol

Por Wilame Prado

Futebol tem dessas coisas. E é por isso que é mágico. É por isso que deve ser respeitado, goste-se ou não do esporte bretão responsável pela emoção de milhões de torcedores pelo mundo afora, e duelado, em média, duas vezes por semana, ou, como diz o técnico Muricy Ramalho, jogado quarta e domingo quarta e domingo quarta e domingo.

O Figueirense é um horrível time, um “catado” de Santa Catarina e que fatalmente cairá para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro no final deste 2014. Sei disso. Sei da ausência de qualidade do time catarinense. Vi, com meus próprios olhos, Figueirense 0 x 2 Santos domingo retrasado, em jogo disputado no péssimo gramado do Estádio do Café, em Londrina. Admitamos, pois: o Peixe está devendo futebol desde que perdeu o estadual para o Ituano, mas perder para o fraquíssimo Figueira, aí seria demais.

O time de Florianópolis colecionava quatro derrotas e zero gol, em quatro jogos, quando chegou, anteontem, à monumental Arena Corinthians para enfrentar o dono do estádio Padrão Fifa em jogo válido pela quinta rodada do nacional. Os barriga-verdes foram para não perder de W.O. Foram para cumprir tabela. Foram para evitar, ao menos, um vexame maior. E saíram vitoriosos. Um a zero para o azarão. E fim de papo, ficou para história: lembraremos para sempre que, na inauguração do estádio de abertura da Copa do Mundo Fifa 2014, plantado graças a muita grana vinda nem sei de onde na zona leste de São Paulo-SP, o Corinthians perdeu.

Mas, que loucura: era derrota na certa para o Figueira. Por lá, o primeiro jogo de um time que, por mais de 100 anos, esperou para ter um estádio. Mas futebol tem dessas coisas, como sabemos. No mundo futebolístico, não há cavalo premiado para apostar. Não tem bilhete marcado, salvo exceções, quando resolvem comprar os juízes ou quando um time se presta a perder de propósito só para azucrinar rivais. Caso contrário – talvez tirando também aquele desastroso e arranjado França 3 x 0 Brasil na final da Copa do Mundo de 1998 –, futebol é imprevisível, é mágico e nos atiça a dizer o famoso slogan do cartão de crédito: “Existem coisas que o dinheiro não compra”.

Dinheiro não paga uma vitória e os gols de uma partida bem jogada. Dinheiro não paga o toque metafísico que há em diversas disputas entre as quatro linhas do gramado, quando Davi vence Golias, quando o mais fraco surpreende o mais forte, quando um jogador retorna de lesão, chega a sonhar com o tento da vitória e sacramenta o êxito para o seu time marcando um gol em chute cruzado nas redes de Cássio, no começo do segundo tempo. Estamos falando de Giovanni Augusto, o “craque da camisa número 10” do alvinegro catarinense, e que merecia uma placa. E, ainda que, com a arrecadação recorde no jogo graças aos 36.694 pagantes e o rendimento de R$ 3.029.801,70, dinheiro não paga o Figueirense vencendo o Corinthians em plena inauguração de seu estádio, após angustiante espera de 104 anos de um time por uma casa própria.

Mas, fora tudo isso, no fim das contas, passada a euforia envolvendo o jogo atípico, todos sabemos que muitas vitórias corintianas acontecerão naquele belo estádio e que, mais do que no Pacaembu, aquele bando de loucos gritará mais forte que nunca e continuará estimulando os jogadores a buscarem a vitória, custe o que custar. E como bem conheço tantos amigos corintianos, tenho certeza de que a derrota na inauguração da Arena Corinthians, no fundo, já era aguardada. Afinal, confessam-se sempre como sendo os maiores sofredores do futebol planetário.

*Crônica publicada terça-feira (20) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Gabo faz falta, ou a câimbra na alma de Esteban

Por Wilame Prado

Um dia, nos livros de história, falarão do nosso tempo e da insistência que os habitantes do Velho Mundo tiveram em tentar nos rebaixar, nós, os latino-americanos. Assim como hoje tendemos a ficar chocados com a escravidão ou com as coisas da Idade Média, por exemplo, os habitantes do futuro, até mesmo os que moram na Europa (que talvez nem seja mais a Europa), sentirão asco do preconceito que insistiu em existir na Terra por muito tempo, inclusive no século 21.

O espetáculo do futebol é o espelho da vida real. Daniel Alves, lateral-direito do Barcelona e da Seleção Brasileira, comeu a banana que jogaram no picadeiro do gramado verde e contribuiu para que o mundo todo discutisse as formas de racismo. Atendeu a Cristo, que diz para darmos também o lado esquerdo da face para bater, mas dotado de ironia fina: em vez de se abalar com o ato de racismo, comeu, agradecido, a banana, fruto que tem potássio e com isso combate as tão comuns câimbras no esporte bretão.

Só por causa daquele pedacinho de fruta saborosa e madura, o brasileiro nascido na Bahia conseguiu, sem sentir câimbras, um cruzamento dentro da área que resultou no gol contra de Musacchio. Final da partida: Villarreal 2 x 3 Barcelona (com, veja só, dois gols contra do time que tem torcida racista e uma banana que se tornou símbolo de protesto no mundo todo).

Alimento saboroso, banana engorda e faz crescer, conforme cantou Raul Seixas. Com mel e aveia é uma delícia. Batida com leite, as bananas resultam em boa vitamina. Pseudobaga da bananeira, ou seja, uma pseudofruta, a banana é uma planta herbácea da família Musaceae que é produzida em 130 países.

A Espanha produz banana? Não importa se era ou não importada a banana tacada em Daniel Alves. Pesquiso, então, um nome comum no país da Península Ibérica. Esteban é meu personagem. Esteban sai de sua casa na cidade de Villarreal, Província de Castellón, e leva consigo uma banana madura. Não a come. Não se nutre. Tem apenas o plano maligno e “genial”, conforme confessa para os amigos, de arremessá-la no gramado justamente quando Daniel Alves fosse cobrar um escanteio.

“Por que fez isso Esteban?”, pergunta o mundo, pergunta a consciência do próprio. Após ter alimentado o adversário com o rico fruto, Esteban volta para o lar cabisbaixo, triste com a derrota do time fazedor de gols contra e com medo de ter sido flagrado pelas câmeras no momento em que tacava a banana, talvez sorrindo de seu ato boçal e rapidamente sentindo todos os dentes podres se amarelarem ao se surpreender com a comilança do nosso Daniel Alves apreciador de bananas. Certamente Esteban teve câimbras terríveis já deitado na cama, em meio a pesadelos em que morria afogado em tonéis gigantescos onde se preparava um saboroso doce de banana.

Esteban, aliás, não leu “Cem Anos de Solidão”, clássico livro do nosso querido e agora saudoso escritor colombiano Gabriel García Márquez – porta-voz da América Latina e detentor de alta obra literária que cala qualquer escritorzinho catalão de meia tigela. No romance que apresenta a saga da família Buendía na mítica Macondo, publicado originalmente em 1967 e que já vendeu mais de 30 milhões de exemplares, a Companhia Bananeira é metáfora da América Latina exportadora de matéria-prima no sistema capitalista.

Exportamos sim bananas e jogadores para o espanhol e o mundo todo comer e ver. E só recebemos em troca ofensas por meio de gestos que traduzem fatos alarmantes: bons índices educacionais não significa dizer que os europeus são educados e a falta de bondade no coração para com o próximo – independentemente de raça, país, cor ou fruta preferida – continua sendo um desafio a ser encarado pela maioria dos seres humanos. García Márquez já está fazendo falta.
*Na tarde de ontem, o Villarreal informou que identificou o torcedor atirador de banana e decidiu retirar seu carnê de sócio, além de proibir seu acesso ao estádio El Madrigal pelo resto da vida.

*Crônica publicada nesta terça-feira (29) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Maringá FC, um time de respeito

Por Wilame Prado

Mesmo com a derrota no jogo dramático do último domingo no Estádio Regional Willie Davids para o Londrina Esporte Clube, afirmo sem medo de errar que o Maringá Futebol Clube é também um campeão. Não leva o caneco, mas merece os parabéns pelo jogo jogado tanto dentro das quatro linhas como fora – uma bela campanha de um time que, em pouco tempo, pulou da terceira para a primeira divisão do estadual, perdendo poucas partidas neste período, desempenhando um futebol elogiável e que se estende nestes quatro anos de fundação do clube.

Dito isto, revelo: fiz uma promessa para mim mesmo na noite do último sábado, vendo uma garoa fina molhar o chão do pátio aqui do jornal, pensando na grande final do Paranaense, que só escreveria esta crônica em caso de derrota do Maringá FC. Fui, durante pouco mais de um mês, assessor de imprensa do time e, em caso de título, evitaria escrever para que não pensassem que estivesse eu me incluindo – justo nos festejos – como parte integrante daquela que foi, e continua sendo, uma verdadeira família capitaneada pelos irmãos Regini (Zebrão e João Batista), gerenciada pelo diretor de futebol, Paulinho Regini, e orquestrada pelo técnico Claudemir Sturion.

Durante o pouco tempo em que convivi com funcionários, comissão técnica e elenco do Maringá FC, percebi o tamanho da pressão que envolve aqueles que trabalham com algo intimamente relacionado à paixão das pessoas. É bem mais fácil torcer do que trabalhar com o futebol. Corre nos sangue dos maringaenses o esporte bretão. Homem, mulher, criança. Não importa o nome do clube nem as cores do brasão: o que importa, para a maioria dos moradores desta cidade, é o melão rolando no gramado verde do Willie Davids.

Por tudo isso e muito mais, sinto uma vontade danada de parabenizar o pessoal lá do time, a começar pelo roupeiro Eli Lima, lenda viva do futebol maringaense desde os anos 1970, até o boa gente João Regini, presidente que está sempre escalado para a pelada descontraída nas manhãs de sábado junto ao plantel, no CT Vale da Zebra, e que não se importa nem mesmo de ajudar um assessor sem jeito a pregar no alambrado do estádio um painel, com a logo do time e patrocinadores, servindo de fundo nas entrevistas para a TV.

Essa campanha do Maringá FC, que resultou num vice-campeonato com sabor de título – o time demonstrou uma evolução impressionante até chegar às finais e, afora as penalidades, jogou melhor no Estádio do Café e também em casa –, ficará guardada em minha memória em relances de quando trabalhei para o time, em especial os momentos em que fiquei na beira do gramado do Willie Davids. Momentos de bastidores que, talvez, digam mais do que as arrancadas de Reginaldo, os lançamentos de Léo Maringá, os dribles de Max, o oportunismo de Gabriel Barcos, os gols de Cristiano, a raça de Zé Leandro, as defesas de Ney e depois de Ednaldo, a seriedade de Fabiano na zaga e tanta entrega dos demais do elenco.

Nas entrelinhas da assessoria para o Maringá FC, entre uma anotação e outra no caderninho, entre uma informação e outra repassada para os colegas de imprensa, entre um pedido e outro de declarações para jogadores, comissão e diretoria, entre uma crítica e outra de jornalistas querendo água, querendo lanche, querendo entrevistas, querendo informações exclusivas, querendo tudo (!), certamente o que mais me marcou foi o término das partidas, momento em que, exaustos, todos os envolvidos nessa guerra benigna que é o futebol, saíam pelos fundos do velho Willie Davids e iam embora para o descanso merecido. Uns, rodeados por filhos em festa e mulher carinhosa. Outros, solitários, rumando ao alojamento onde provavelmente sentiriam saudades da família que ficou longe. Outros, ainda, acelerando seus automóveis para passarem pelo menos um dia ao lado daqueles que o amam e que ficaram em casa. Todos, sem exceção, humildes, determinados e felizes por fazerem aquilo que mais gostam nesta vida, que é viver em função do futebol e que foi (pelo menos até então) ter vivido pela honra e glória do Maringá FC, um time de respeito.

*Crônica publicada nesta terça-feira (15) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Dobradinha de títulos ou anotações sobre duas finais na TV

Por Wilame Prado

-Domingo de finais: Ituano Futebol Clube x Santos Futebol Clube; e Londrina Esporte Clube x Maringá Futebol Clube. Anoto no caderninho.

-Opto pelo time do coração.

-Mas gritos dos vizinhos me obrigam a mudar o canal: tiro da final do Campeonato Paulista para a final do Campeonato Paranaense.

-Se Londrina x Maringá estão merecidamente na final pela bola jogada, isso não repercute nos estádios. O que é pior? O pasto do Estádio do Café ou os postes andrógenos de iluminação no Estádio Regional Willie Davids?

-Penso no dilema dominical para os santistas que torcem para o Maringá e para os maringaenses que torcem para o Santos: Band ou Globo? Paraná ou São Paulo? Pizza ou dogão?

-Em Maringá e região, a torcida do Santos é a segunda maior. O fato foi revelado pela Paraná Pesquisa, em dezembro de 2012. Na região, 10% se declararam santistas. Em Maringá, 12,4%.

-O Santos de Oswaldo de Oliveira parece ser um time que tem perfil tático definido, jogadas ensaiadas e ofensividade desavergonhada: no escrete alvinegro praiano, 20 atletas selecionados para a final, sendo sete atacantes, ou 35% do total. Nos 90 minutos, seis deles tiveram o privilégio de vestir o manto dentro das quatro linhas, mas nenhum transformou em gol as parcas chances do time santista.

-Ao contrário do bom defensor Ituano – que nem pode ser chamado de retranqueiro porque marca bem, mas toca bem a bola no ataque também –, time responsável por um dos gols mais bonitos do Campeonato Paulista, com a triangulação a la Barcelona envolvendo Jackson, Esquerdinha e Cristian. Para poucos, aquela calma do camisa 10 da cidade onde tudo é grande. Para poucos, a precisão do chute daquele que poderá ter sido o autor do gol do título paulista.

-O barulho da bola fogueteando a rede lateral do gol defendido por Aranha ensurdeceu santistas de toda a nação, em especial os santistas torcedores do Maringá FC, que imediatamente trocaram de canal.

-Preocupo-me com o que vejo em outro canal: 1×0 para o Tubarão londrinense. Mais uma ou duas zapeadas nos canais, e o Maringá FC, que deverá ser eternizado como a Zebra no jogo dos animais que simbolizam times de futebol (parecemos crianças, não?), empata bravamente a partida. Daquele jeito mesmo: com o Cristiano, aos trancos e com a raça insuperável, caindo, levantando e chutando forte para o gol e com um Gabriel Barcos, oportunista como um pirata, estufando as redes do adversário.

-O segundo tempo entre Ituano x Santos, prefiro não comentar. Nada de muito importante aconteceu, a não ser um chapéu pomposo de Jackson, do time de Itu, para cima de Gabriel, do time de Santos. O alvinegro praiano perdeu, na bola e na tática, e terá uma semana inteira para esfriar a cabeça e pensar numa fórmula capaz de furar o esquema defensivo do Ituano. Não será fácil.

-O destaque, em se tratando de segundo tempo, fica mesmo no outro canal, no jogo bem mais próximo, disputado em Londrina, a 100 quilômetros daqui. E por falar em distâncias, foi de muito longe o canhão executado pelo meia Baiano – reserva sempre pronto para assumir o front no campo de batalha – e que calou os mais de 20 mil londrinenses empatando o clássico.

-Em se tratando de pescaria, o mar não foi para peixe neste domingo de final de campeonato ao quadrado. O Tubarão saiu mansinho do Estádio do Café, e a Zebra mais forte que nunca. Já a Baleia ficou pequena frente à grandeza dos ituanos.

-Muitos querem, seja nos arredores do Willie Davids, seja nas proximidades do Pacaembu, comer sardinha no almoço do próximo domingo. Então prevejo: os santistas torcedores do Maringá FC e os maringaenses fanáticos pelo Santos Futebol Clube ficam indecisos quanto ao cardápio, mas continuam otimistas e resolvem pedir dobradinha para o garçom, na panela uma mistura de conquistas – metade Paulistão e metade Paranaense.

*Crônica publicada terça-feira (8) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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No quintal de Madinho – Parte 2

Por Wilame Prado

Na partida daquele domingo, sobrinho, enteado e filho faziam companhia para Madinho, apoiados no muro baixo e dividindo as atenções entre a rodada do Brasileirão que passava na televisão e o jogo local. Além deles, cerca de 700 torcedores do Colorado Atlético Clube (CAC) e pouco mais de 50 torcedores da Fúria Alvinegra (torcida organizada do time maringaense) viram Cristiano, camisa 9 do Metropolitano (hoje, Maringá Futebol Clube), marcar de cabeça o gol solitário da partida, aos quarenta minutos do primeiro tempo. A vitória garantiu por antecipação, após cinco anos de ostracismo, um time de Maringá na primeira divisão do campeonato paranaense de 2014. Ao final do torneio, três semanas depois da partida realizada no “quintal de Madinho”, o time maringaense viria a ser campeão da Divisão de Acesso. O time de Colorado ficou a um ponto do segundo colocado do torneio e por pouco também não subiu.

Decepções no campo, nem tanto na manutenção da casa. Em quase três décadas de habitação dentro do estádio municipal, Madinho garante: jamais teve uma janela ou telha quebradas com casuais boladas de jogadores com supostas pernas tortas. Pelo menos na partida daquele domingo, realmente a bola não invadiu em uma oportunidade sequer o lar do zelador aposentado. Sorte do papagaio na gaiola e das flores de Dona Alzira Gonçalves da Rocha, mulher dele.

Nem mesmo os gandulas, em partida decisiva da divisão de acesso, tiveram trabalho para buscar eventuais bolas chutadas para fora do estádio e que possivelmente desceriam ladeira abaixo pelas ruas do bairro Vale do Sol. Árvores grandiosas de sibipiruna que cercam parte do estádio fazem o papel de amortecedoras dos chamados “balões” mais comumente executados nas partidas por zagueiros de habilidade suspeita.

Com poucas chances de gol presenciadas, a torcida do CAC não perdia a chance de festejar em aprazível tarde de sol. Se não era vibrando com o time da casa em campo, a zorra se armava todas as vezes em que a bola do jogo se enroscava por breves segundos nos galhos das árvores do estádio com ares bucólicos. E ao contrário do que acontece em jogos do Brasileirão – em que a venda e o consumo de bebida alcoólica dentro dos estádios são proibidos –, a festa da torcida colorada contava ainda com a ajuda das latinhas de cerveja oferecidas a R$ 3,50 em uma lanchonete improvisada estrategicamente entre uma sibipiruna e outra.

Na frente de casa, olhando para o campo e contando um pouco da sua história, Madinho não estava bebendo, mas, a princípio, quem o avistasse naquela tarde vestindo a camisa do Junior Team (equipe da cidade de Londrina que também brigava por uma das vagas à primeira divisão do campeonato paranaense de futebol) certamente pensaria que a lenda viva do CAC estivesse bêbado, ou então maluco. Que nada: segundo Felipe Rocha, seu enteado, ele usa aquela camisa é para “fazer moral com os parentes”. “O dono do Junior Team é meu sobrinho, por isso, às vezes, uso a camisa do time dele”, confessa Madinho, que, talvez já prevendo a amargurada espera por mais um ano sem ver o time do Colorado Atlético Clube na primeira divisão, não titubeia em revelar qual é o seu verdadeiro clube de coração. “Portuguesa de Desportos! Tenho duas camisas da Portuguesa. Quer ver?”

*Texto publicado nesta terça-feira (14) na coluna Crônico, do Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Feliz ano velho nem tão chato assim

Por Wilame Prado

O Brasil é campeão do Grand Prix de Futsal. Coisa óbvia dizer que, em terra de Falcão, Manoel Tobias e tantos outros craques salonistas, somos campeões em um torneio de futsal. O legal dessa história toda é que a taça foi erguida sobre o piso da quadra do maringaense Ginásio Chico Neto. E esta aproximação entre a cidade e as coisas envolvendo o melão sendo rolado – ainda que um melãozinho menor, no caso, a bola que não pinga do futsal – fez-me refletir sobre o ano de 2013 e toda sua chatice causada pelo desastroso torneio nacional de futebol de campo.

Diante disso, adianto que esta crônica é uma espécie de “crônica errata” da semana anterior, quando, no texto intitulado “Feliz chato ano velho”, tinha dito que o futebol jogado por essas plagas brasílicas tinha sido o grande culpado por mais um ano chato e que passou rápido demais. Por muitas vezes nem notamos que as chaves que passamos a manhã toda procurando estavam no bolso de trás da calça. O que quero dizer com isso é que, olhando mais atentamente para o que está próximo de mim, devo reconsiderar as coisas da vã filosofia dizendo que, graças ao esporte local, 2013 foi um feliz ano velho nem tão chato assim.

Enquanto nós, mortais pecadores que acompanhamos o esporte bretão, estávamos eternamente entediados com os zero a zero “conquistados” pelo Corinthians, irritadiços com os muitos volantes colocados pelo técnico nos jogos do Santos, rindo da incapacidade de bater pênalti do Rogério Ceni e desmerecendo as vitórias fáceis do Palmeiras na Série B, o então Metropolitano Maringá – atual Maringá Futebol Clube – seguia firme na caminhada rumo à elite do futebol paranaense com os gols do artilheiro Cristiano (já apelidado de CristiGol), com a organização no meio de campo exigida pela capitão Léo Maringá e aplaudindo de pé as pontes de Ney – goleiro menos vazado do torneio.

Quando cansados do sol de lascar ou do sereno noturno no Estádio Regional Willie Davids, tínhamos ainda a opção de nos abrigarmos no confortável Ginásio Chico Neto – onde, veja só, até se chegou a vender cerveja nos jogos – para assistirmos aos espetáculos de toques rápidos e chutes certeiros para as redes do plantel do Oppnus Maringá, time de futsal montado pelo Ciagym para uma elogiável atuação na Liga Futsal – o torneio mais importante de clubes salonistas do País. Dizem (eu não estava lá) que a vitória do time maringaense contra o Corinthians foi algo para ficar na história daquela quadra recentemente abençoada por Falcão e companhia no Grand Prix de Futsal.

E assim os mortais pecadores que acompanham o futebol em todas suas ramificações (dependendo do que for, assistimos até veteranos se digladiando no tapete sintético do futebol society em torneios de Showbol) vamos vendo os anos passarem, nem ligando para aquelas histórias furadas sobre pão (churrasquinho também vai bem antes, depois e durante um bom jogo visto na TV) e circo. Gostamos do espetáculo da bola, concordamos com a ideia de que futebol também é cultura e somos capazes de esperar décadas por um gol de placa do craque do nosso time ou até um centenário para ver o time do coração ganhando uma Libertadores.

E que 2014 seja um ano futebolístico feliz – nacional e localmente –, sem regressões no esporte em Maringá e, pelo amor de Deus, sem um novo Maracanaço na Copa do Mundo Fifa.

*Crônica publicada terça-feira (29) na coluna Crônico do caderno Cultura, do Diário de Maringá

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