Hermeto Pascoal



Incansável Hermeto Pascoal

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Música ruim é igual ebola, é a ebola da alma. E as pessoas estão cuidando do corpo e se esquecendo da alma – Hermeto Pascoal

Por Wilame Prado

“…sua obra é um legado antológico de criações sonoras constituído de centenas de peças musicais – muitas tornadas clássicas como “O Ovo”, “Bebê”, “Chorinho pra Ele”, “Forró Brasil”, “Montreux”, entre outras, que podem ser ouvidas em diferentes formações, gravadas por seus próprios grupos e por inúmeros intérpretes de diversos países do mundo, que o compositor e multi-instrumentista, para fugir do lugar comum dos rótulos e da música convencional impostos pela indústria cultural, emprega a expressão ‘música universal’.”

Acima, uma breve sinopse da grandeza musical representada pelo multi-instrumentista alagoano Hermeto Pascoal, 78, contida no livro “Hermeto Pascoal – musicalmente falando”, lançado no ano passado pelo maringaense Paulo Petrini. Considerado gênio da música, autodidata que tira sonoridade musical de qualquer instrumento, coisa, natureza e pessoas, Hermeto faz amanhã, às 20h30 no Teatro Calil Haddad, o seu segundo show na cidade. O primeiro, há 12 anos, ainda provoca saudades nos amantes de sua música universal, repleta de sonoridades originais, improvisações e significados.

O jazz de Hermeto, que emociona, alegra e ilumina, é propositalmente único. Em entrevista recente por telefone, o músico, que hoje mora em Curitiba com a mulher – a cantora e instrumentista Aline Morena – afirma que gosta de subir no palco para nunca mais parar de tocar. “Cada show é um show, é algo diferente do que fazemos em estúdio”, diz .

As apresentações de Hermeto & Grupo chegam a durar mais de duas horas, de improvisação e sonoridade exemplar. Música feita com alma, característica que o gênio fez questão de ensinar para o seu inseparável grupo. Hermeto vem acompanhado de Itiberê Zwarg (contrabaixo), Márcio Bahia (bateria), Fábio Pascoal (percussão), Vinicius Dorin (saxes e flautas), André Marques (piano) e Aline Morena (voz e viola caipira).

O DIÁRIO Como consegue enxergar tamanha beleza e som em tudo aquilo que faz?
HERMETO PASCOAL O segredo é o interior da gente, não premeditar e não querer adivinhar o que o público vai gostar. Tentar isso é besteira. Faça o que gosta, e verá que, ao mesmo tempo, o público também dará uma contribuição tão linda que as pessoas parecem mesmo compositores. O sentir vem na frente do saber. O público não vai saber que tom, que música, que ritmo, mas vai criar também.

E as composições escritas em materiais inusitados, como em papel higiênico?
No papel higiênico dá muito trabalho. Mas tem de tudo aqui. Em guardanapo, bolsa de supermercado e até em meus chapéus panamás. Quando vem aquela vontade inesperada, nem eles se salvam. Se chego no restaurante e acho um guardanapo bonito, escrevo música nele. Às vezes o gerente não deixa eu levar o guardanapo. Mas sempre estou com minha bolsa grande, ponho dentro. Passo depois avisando e todo mundo dá risada. Um dia farei uma exposição com todos esses objetos onde escrevo músicas.

O senhor liberou todos os direitos autorais de suas músicas. Já não precisa mais de dinheiro?
Eu gosto mais da música que de dinheiro. Dinheiro, preciso ganhar só para ter as minhas coisas. Rescindi contratos com gravadoras, não ganhava nem metade com isso, e hoje, qualquer um que quiser gravar uma música minha, pode gravar. Tantos músicos que tocam bem e também não ficam rico, mas eu sou mais irrequieto, faço 365 músicas por ano. Vejo músicos aqui de Curitiba que, com 60 anos, já estão vendendo instrumentos e se aposentando. Eu me aposento só quando o meu corpo não puder mais. Estou completando seis mil músicas no papel, fora as músicas exóticas, fora do papel. E meu sonho é pegar umas cinco mil delas e colocar cada uma num envelope, alugar um helicóptero e jogá-las para o povo de lá de cima.

Qual música mais gosta?
Eu gosto daquela que vem na minha cabeça. Há muitos músicos bons, o Egberto (Gismonti) mesmo, e uma turma nova, como o Guinga.

Mas pouco tocou ao lado do Egberto, né? Além de uma apresentação que fizeram em Berlim, se apresentaram outras vezes juntos?
Uma vez, tocamos eu, ele e (Naná) Vasconcellos, lá em Berlim, verdade. Mas eu tenho minhas formações, tenho o meu pessoal me esperando para tocar, e o Egberto toca com outros músicos também, ele viaja para Europa só com o violão, chega lá e toca com um ou outro.

Conhece a versão “Chorinho pra ele” da cantora portuguesa Maria Mendes?
Não me lembro, tem o clipe na internet, né? Vou ver. Mas ela canta bem. O problema do “Chorinho pra ele” é cantar a segunda parte. Um dia o letrista Silvio César fez letra, mas só para a primeira parte. Interpretar é quase como compor uma música.

É verdade que cobra só R$ 30 mil de cachê, um décimo do que pedem muitos nomes do chamado “sertanejo universitário”? Aliás, o que pensa dessa música?
O meu cachê? Nem isso. E outra coisa: estão botando uma onda de aumentar os impostos, se eu ganho R$ 15 mil num show, muito vai para o imposto e a metade sempre deixo com o grupo. Sobre a música sertaneja, se eu tiver num restaurante e tocar, eu saio. É negócio comercial, eles criam tudo. Mas quando falo isso, tenho o maior cuidado, tem muitas pessoas que eu cumprimento, abraço ela, mas não gosto das músicas que elas fazem. Não é nada importante, são só palavras soltas, só falam em fumo, em bebida, brigas. Música ruim é igual ebola, é a ebola da alma. E as pessoas estão cuidando do corpo e se esquecendo da alma, não recebem nenhuma energia. Música ruim atrai a realidade ruim.

*Reportagem publicada neste sábado (25) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Gênio Hermeto Pascoal domingo aqui

Hermeto Pascoal: músico mora em Curitiba há onze anos, mas ainda acha estranho o pessoal não dar 'bom dia'

Hermeto Pascoal: músico mora em Curitiba há onze anos, mas ainda acha estranho o pessoal não dar ‘bom dia’

Por Wilame Prado

O compositor e multi-instrumentista alagoano Hermeto Paschoal, 78 anos, está mais perto de Maringá do que muitos imaginam. Morador de Curitiba há onze anos, conheceu Aline Morena (sua mulher) em Londrina e foi em um hotel maringaense, antes de seu único show por aqui em 2002, que o gênio convidou a cantora a fazer parte de seu grupo musical. “Aline veio até meu quarto mostrar como ela cantava. Pensei que fosse uma outra cantora, uma ruinzinha, por isso disse que não havia instrumento nenhum por perto. Mas quando ela comentou que já havia dado uma canja comigo, eu me recordei e disse: ‘Deve haver uma escaleta aqui embaixo da cama'”, diz ele por telefone, em entrevista concedida de sua casa, no bairro Santa Felicidade, onde mora com Aline.

Hermeto Paschoal e Grupo se apresentam em Maringá no domingo, 26 de outubro, às 20h30, no Teatro Calil Haddad. Imperdível show, que tende a durar duas horas ou mais. Hermeto só para de tocar se os organizadores pedirem, e o pedido deve ser feito antes de o show começar. A vinda do músico brasileiro mundialmente conhecido é uma realização do Cottonet-Clube com patrocínio de várias empresas da cidade. Simpático ao telefone, já foi logo dizendo que as expectativas é das melhores para o show aqui na cidade e que sente saudades daqui. “O que gravamos em estúdio é diferente do que tocamos ao vivo. Não digo que o show é 100% de improvisação, mas todos os músicos têm liberdade e competência para serem eles próprios. Fico feliz porque todos eles têm seus próprios trabalhos. Considero-me um pai dessa família, mas um pai não gosta de ser imitado. Quando vejo alguém me imitando, digo assim: ‘você existe, Deus não fez nada igual, não confunda semelhança com imitação'”, conta Hermeto, que vem acompanhado de Itiberê Zwarg (contrabaixo), Márcio Bahia (bateria), Fábio Pascoal (percussão), Vinicius Dorin (saxes e flautas), André Marques (piano) e Aline Morena (voz e viola caipira).

Conversar com Hermeto Pascoal é ter a chance de entender um pouco mais sobre a simplicidade da vida e de ficar ainda mais perplexo com o tamanho da humildade que há em um dos maiores instrumentistas e compositores da história da música brasileira. É difícil explicar como o gênio “comete” as suas genialidades. No caso dele – que já tocou com Miles Davis e que já foi convidado para compor e tocar com John Lennon, Tom Jobim, Taiguara,Elis Regina, Fagner e Roberto Carlos – chega-se à conclusão que gênio nasce gênio; no caso dele, em Olho d´Água das Flores, Alagoas.

Ele comenta, sério, que os primeiros sons – já no nascimento, em 22 de junho de 1936 – foram predominantes para a habilidade que tem de “ver” música em tudo, desde os incontáveis tipos de instrumentos que toca, até objetos comuns do cotidiano, como caixa de fósforo, bandejas, chaleira etc. “Lembro do meu nascimento, do som da Maria Mãe – parteira que morreu aos 145 anos e que, à época, foi considerada a pessoa mais velha do mundo – dando um tapinha de leve em meu bumbum. Depois me lembro da imensidão do mato, todos os bichos, a natureza e de como tudo aquilo era cercado por sons, por música. Essa inocência na infância, em Lagoa da Canoa (AL), foi essencial.”

Depois, aos 14, conheceu a cidade grande. Recife. Por lá, Sivuca foi o seu primeiro padrinho. “Sivuca, maravilhoso, amigão de todos os tempos, meu irmão de som eterno. Depois que comecei a tocar com ele, não parei mais de fazer música, amar a música e, através da música, amar tudo o que é lindo”, diz. A determinação de Hermeto, claro, deu-se também pela coragem que ele teve em se distanciar da família para, ainda adolescente, viver de música. Ele sabia, desde muito pequeno, que havia nascido para as canções, que tanto propiciam sensações boas aos humanos e também para os bichos. “Ainda no mato, percebi que já tinha um público para a minha música. Os pássaros se aproximavam, o cavalo parava de trotar, até os sapinhos se aproximavam de mim para me ouvirem tocar. Gansos também chegavam, e os peixes, quando fazia meu som com a água da lagoa, vinham rapidamente para perto”, rememora.

E hoje, longe do silêncio, Hermeto também não reclama, enxerga música em tudo. “Considero o barulho da cidade como música. Não tenho medo do trânsito, para mim é como se fosse uma boiada. E consigo fazer música com outros barulhos acontecendo ao meu redor, até com o rádio ligado, mas hoje precisa ser em rádio de notícia porque só tem música ruim. Tenho o maior respeito pelas pessoas, mas não gosto da música que fazem. Hoje, o pessoal está fazendo só jingles, e dos ruins, é comercial, apelativo, ainda bem que não dura. Esse negócio de rap mesmo, isso tudo é embolada do Nordeste que o americano copiou dando 30 dólares para os caras entregarem o ouro.”

PARA OUVIR
HERMETO PASCOAL
E GRUPO
Quando: 26 de outubro (domingo)
Horário: 20h30
Onde: Teatro Calil Haddad
Preço: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia)
À venda na Genko Mix, do Maringá Park Shopping

*Reportagem publicada em 9 de outubro no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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