História



Entrevistão com Laurentino Gomes

Laurentino Gomes, em Itu (SP): "A escravidão é um fantasma que nos assombra até hoje porque nos recusamos a estudá-lo e  encará-lo mais a fundo"

Laurentino Gomes, em Itu (SP): “A escravidão é um fantasma que nos assombra até hoje”

Por Wilame Prado

A história que começa com a transferência da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, e que culmina com a Proclamação da República Brasileira, em 1889, também desperta imenso interesse ao público leitor de Portugal. Foi do país-irmão que, gentilmente, o escritor maringaense radicado em Itu (SP) Laurentino Gomes – best-seller com a trilogia que narra boa parte do século derradeiro de colonização portuguesa – concedeu entrevista contando sobre o seu novo e ousado projeto: dissecar a escravidão no Brasil em uma nova trilogia de livros-reportagem, a ser publicada a partir de 2019.

Entre um lançamento e outro, uma palestra e outra, percorrendo por Lisboa, Vila Real, Porto e Belmonte, Gomes encerrará a sua expedição lusitana em 28 de maio, retornando ao País no dia 30. Pretende começar imediatamente o seu novo projeto literário. E pode parecer um tempo longo (quatro anos) para lançar o primeiro dos três livros sobre escravidão, mas quando o escritor e jornalista comenta sobre o seu processo criativo e de pesquisa, há de se entender o motivo pelo prazo esticado.

“Começarei pela vasta bibliografia sobre o assunto. São centenas de livros já publicados, no Brasil e no exterior, o que me obriga a ser muito seletivo para não correr o risco de passar o resto da vida só na pesquisa, sem nunca escrever nada. Depois vem a fase da reportagem, com visitas aos locais relacionados à história da escravidão, o que inclui os portos negreiros na África e os pontos de desembarque, comercialização e trabalho dos escravos no Brasil. Também pretendo entrevistar historiadores e outros estudiosos em museus e centros de pesquisas sobre o tema”, explica ele.

Para o maringaense, que confirmou a sua presença na 2ª Festa Literária de Maringá (Flim) em outubro – quando será um dos homenageados – a escravidão é o acontecimento mais marcante da história brasileira, mas ainda mal explorado pela historiografia. Por meio da linguagem acessível e do aprofundamento dos fatos permitidos pelo livro-reportagem, Gomes pretende, mais uma vez, fazer jus aos fatos históricos desse capítulo que explica consideravelmente as injustiças irrecuperáveis para com os negros no País.

Como está sendo a recepção de “1889” aí em Portugal, país totalmente envolvido nesta história? Lançou o livro em quais cidades e quando retornará ao País?

LAURENTINO GOMES – A repercussão tem sido a melhor possível. Já havia lançado aqui os dois primeiros livros, “1808” e “1822”, mas nunca a acolhida tinha sido tão calorosa quanto agora, com “1889”. Tenho observado muito entusiasmo e uma torcida muito grande entre os leitores portugueses com os quais me relaciono nas redes sociais. O circuito de lançamentos inclui palestras, entrevistas e bate-papos com leitores em quatro cidades portuguesas: Lisboa, Vila Real, Porto e Belmonte. Começa com um evento de apresentação na Casa da América Latina, em Lisboa, e termina também em Lisboa com uma sessão de autógrafos na Feira do Livro, no dia 28 de maio. Retorno ao Brasil no dia 30.

Por que escolheu Itu para morar?
Moro em Itu há seis anos. Escolhi essa cidade pela localização, próxima a São Paulo, Campinas e Sorocaba, e também pela qualidade de vida. Minha casa fica em um condomínio muito bonito e arborizado, na zona rural do município. É uma paisagem que, em muitos aspectos, me lembra a região de Maringá, onde nasci. Além disso, Itu é uma cidade histórica, com mais de quatrocentos anos de fundação e papel decisivo em alguns episódios como a Independência e a Proclamação da República. É, portanto, um bom lugar para viver e escrever.

Por que resolveu investir, agora, em reportagens sobre a escravidão?
Essa é uma ideia que foi crescendo ao longo da trilogia “1808”, “1822” e “1889”. Nos três livros eu tratei bastante da escravidão. Quando a corte de Dom João chegou ao Rio de Janeiro, em 1808, de cada três brasileiros um era escravo. O tráfico negreiro era na época o maior negócio do Brasil e, talvez, até de Portugal, mobilizando milhares de pessoas e centenas de navios nas costas nos dois lados do Oceano Atlântico. Os homens mais ricos do Rio de Janeiro eram todos traficantes de escravos e foram os que mais deram contribuições à corte portuguesa, tanto com dinheiro quanto com apoio político. Na Independência, o Brasil rompeu os vínculos com Portugal mas manteve inalterada a situação social até então vigente. Uma tentativa de José Bonifácio de Andrada e Silva de acabar com o tráfico negreiro foi um dos motivos para o fechamento da Constituinte, em 1823. Há uma sensação de orfandade da Independência brasileira porque os escravos viram que as ideias libertárias defendidas pelos brancos na época não os incluíam. O Brasil foi o último País do hemisfério ocidental a acabar com o tráfico, em 1850, e o também o último a abolir a escravidão, em 1888. A principal consequência foi a queda da monarquia e a Proclamação da República no ano seguinte. Tudo isso foi me convencendo de que era preciso escrever uma nova trilogia tratando a escravidão.

Em seu ponto de vista, a historiografia brasileira peca nas pesquisas sobre escravidão?
Acredito que sim. Esse é um tema ainda muito mal tratado na historiografia brasileira, repleto de preconceitos e distorções. Eu acredito que esse seja o tema mais importante de toda a História do Brasil. Tudo o que nós já fomos, somos hoje e seremos no futuro gira em torno das nossas raízes africanas e do uso da mão de obra cativa. Sem a escravidão o Brasil de hoje simplesmente não existiria. Foi a maneira encontrada por Portugal para ocupar e explorar uma colônia 91 vezes maior, em extensão geográfica, do que a pequenina metrópole. As consequências são profundas. Joaquim Nabuco dizia que não bastava abolir a escravidão, era preciso também educar, dar terras e oportunidades para os ex-escravos, de modo a incorporá-los na sociedade brasileira como cidadãos de plenos direitos. Isso jamais aconteceu. Basta ver as estatísticas atuais sobre as diferenças de tratamento e oportunidade entre negros e brancos em todos os níveis e aspectos da sociedade brasileira, e também a polêmica que envolve políticas públicas como as cotas para estudantes negros nas escolas e universidades. A escravidão é, portanto, um fantasma que nos assombra até hoje porque nos recusamos a estudá-lo e encará-lo mais a fundo.

O que poderia citar da bibliografia e mesmo de filmes que tratam este tema?
O Brasil foi o maior território escravagista do hemisfério ocidental. Recebeu entre 40% e 45% de todos os doze milhões de escravos que, segundo as melhores estimativas, foram trazidos para a América nos primeiros 350 anos da colonização. Apesar disso, a produção cultural brasileira relacionada a escravidão é ainda relativamente modesta quando comparada, por exemplo, com a dos Estados Unidos. O número de filmes, minisséries, documentários e obras literárias sobre a escravidão no mercado norte-americano é enorme, embora os Estados Unidos tenham recebido somente 7% dos cativos africanos. É hora de tentar corrigir essa desproporção. Há uma produção acadêmica razoável no Brasil sobre o tema, e também cultural – como o celebrado filme “Chica da Silva”, com Zezé Mota – mas ainda há muito o que fazer. Meu objetivo, com essa nova trilogia, é menos abrir novas frentes de pesquisas e mais tornar esse assunto mais popular e acessível a leitores que nunca se interessaram muito por ele.

Assistiu “Doze Anos de Escravidão”? Gostou? Acredita encontrar histórias interessantes como aquelas em sua pesquisa?
Gostei muito de “Doze Anos de Escravidão”, mas no Brasil nós temos histórias ainda melhores, que poderiam ter rendido bons filmes e, quem sabe, até um Oscar. Um exemplo é a biografia do abolicionista Luis Gama. Filho de uma negra livre com um fidalgo português, o mulato Luiz Gama viveu na pele as injustiças da escravidão. Era ainda uma criança de dez anos quando seu pai, às voltas com dificuldades financeiras, não teve pudores de vendê-lo como escravo para um comerciante do Rio de Janeiro. Levado mais tarde para Campinas, interior de São Paulo, fugiu do cativeiro, estudou Letras como um autodidata e tornou-se um rábula – praticante da advocacia sem diploma universitário. Era um homem ousado e corajoso. Sozinho conseguiu libertar mais de mil escravos. Em um famoso processo de 1870, defendeu um escravo que matara o seu senhor. Seu argumento assustou os fazendeiros: todo cativo que mata o seu dono age em legítima defesa. Por defender posições como essa, Gama recebia ameaças de morte e andava armado. Faleceu vítima de diabetes em 1882, aos 52 anos, sem ver a sua obra coroada. Para mim, essa história é melhor do que a do personagem de “Doze Anos de Escravidão”.

Você é a favor de cotas raciais? O que pensa sobre o argumento de quem é a favor das cotas, afirmando de que se trata de uma dívida do País para com os negros?
Sou a favor das cotas raciais, ainda que não sejam a solução ideal nem a mais popular para o problema. Acredito que a escravidão é um passivo que o Brasil não conseguiu até hoje corrigir. A escravidão foi oficialmente abolida em pela Lei Áurea de 13 de maio de 1888, mas os ex-cativos acabaram abandonados à própria sorte. O Brasil nada fez para promovê-los à condição de cidadãos. O resultado é uma tragédia humana e social de dimensões gigantescas. O cinturão de pobreza e de violência que hoje se observa na periferia das metrópoles brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, é ainda herança do nosso passado escravocrata. Uma sociedade nacional é um pacto que se projeta no futuro. Se uma geração não faz o que deve ser feito, as gerações seguintes terão de assumir a tarefa de corrigir os problemas. Portanto, mesmo hoje, mais de um século após a Lei Áurea, está em nossas mãos enfrentar a tarefa de corrigir esse passivo. A política das cotas raciais pode ser polêmica e até injusta em muitos aspectos, mas é talvez a primeira tentativa séria e concreta que o Brasil faz para enfrentar essa herança mal resolvida.

Sobre terminologia, qual a correta ou qual prefere: negro, preto, afrodescendente?
Para mim, tanto faz. Tenho certa aversão aos modismos politicamente corretos que tentam resolver passivos históricos por meio da semântica e do vocabulário em lugar de políticas públicas concretas. O que adianta ser bacaninha no vocabulário e chamar os negros de afrodescendentes se, na prática, eles continuam a ser discriminados e violentados todos os dias? Eu uso nos meus textos a expressão negros, que, acredito, seja de aceitação mais geral, mas realmente não me preocupo muito com terminologias, desde que elas tenham significado real para os meus leitores.

Pretende focar na macro-história ou na micro-história da escravidão?
As duas coisas. Nos três livros vou explicar como nasceu o tráfico de escravos da África para as Américas no Século 16, qual a diferença da escravidão no período colonial dos tempos antigos em Roma e na Grécia, também vou descrever como era o negócio do tráfico, as viagens dentro de um navio negreiro e o trabalho dos escravos nas lavouras de açúcar e café. Tudo isso é macro-história. Mas, obviamente, vou jogar luz em personagens e acontecimentos muito particulares, como a história de Zumbi dos Palmares, e contribuição dos africanos para as nossas raízes culturais, como o Carnaval, o Samba e o Candomblé, com seus astros da música pop e seus pais de santo, o que já resvala na micro-história. A fórmula é, portanto, muito semelhante aquela que já usei nos três livros anteriores.

É verdade que nos brindará com a sua presença na 2ª Festa Literária de Maringá (Flim), a ser realizada em outubro na cidade?

Sim, estou muito honrado com a decisão dos organizadores da Flim de me incluir entre os escritores homenageados da edição deste ano. Existe um velho ditado, extraído das Escrituras, segundo o qual ninguém faz sucesso na própria terra em que nasceu. Felizmente, isso não acontece comigo. Desde que lancei o livro “1808”, Maringá tem me prestado todas as homenagens possíveis, incluindo o título de Cidadão Benemérito do Município. Então, nada tenho que reclamar. Estarei aqui todos os dias da Flim 2015 e procurarei participar com alegria e gratidão de todos os eventos programados pelos organizadores.

Vem muita a Maringá, ou é difícil?
Vou sempre que posso a Maringá. Dois dos meus quatro irmãos ainda moram aí. Geralmente passo o Natal na casa de um deles. Meu programa favorito, quando estou na cidade, é caminhar de manhã em volta ao Parque do Ingá. É onde aproveito para rever amigos e ex-colegas de escola ou de trabalho.

Pretende escrever ficção um dia?
Por enquanto, não me animei a escrever ficção. Maringá tem excelentes romancistas, como os premiados Marcos Peres e Oscar Nakasato. Eu não sei se teria talento para me aventurar nesse gênero literário. Prefiro ficar nos livros-reportagem, um termo que eu conheço e domino relativamente bem.

E voltar ao jornalismo, em revistas, impressos?
Eu já trabalhei mais de trinta anos em redações de jornais e revistas e fiz quase tudo que era possível experimentar nesse ambiente. Aprendi muito como repórter e editor. O que sei fazer isso no mundo dos livros vem dessa época. Agora prefiro continuar sendo escritor. Na verdade, eu não deixei de ser jornalista. Apenas mudei de formatos. Antes fazia jornais e revistas. Agora, faço livro-reportagens. Mas a profissão e também o meu amor por ela continuam os mesmos.

O sucesso ensina alguma coisa aos escritores? Pergunto isso fazendo referência ao tremendo sucesso que a sua primeira trilogia fez e continua fazendo.
Sim, hoje eu encaro o meu trabalho com um senso de humildade que não tinha antes. Quando o primeiro livro entrou na lista dos best-sellers e começou a vender centenas de milhares de exemplares, confesso que fui tomado por uma mistura de susto e vaidade. Isso felizmente passou. Agora entendo que todos nós temos vocações e missões que precisam ser assumidas e exercitadas com respeito, dedicação e também gratidão. Ser escritor é, para mim, uma grande graça recebida de Deus. Continuar a escrever é uma forma de me curvar a sua vontade, em benefício dos outros seres humanos que me acompanham nessa jornada. Não por acaso, os livros têm tido um papel importante na área de educação. Portanto, já não me assusto nem me envaideço mais. Apenas caminho.

Há algum fundamento nas críticas partidas principalmente de historiadores, que dizem haver pouca profundidade em suas propostas de livro-reportagem?
Essa crítica já foi mais forte no passado. Hoje, uma boa parte dos historiadores, especialmente aqueles que eu mais admiro, já entenderam que o meu papel não é banalizar ou desqualificar o estudo de História, mas contribuir para o aumento do interesse por essa disciplina. Acredito também (e acho que já disse isso em uma entrevista ao Diário) que historiadores e jornalistas têm muito a aprender uns com os outros. Historiadores podem ensinar aos jornalistas método e disciplina na pesquisa. Os jornalistas, por sua vez, tem contribuição de linguagem e estilo a dar no ensino e na divulgação do conhecimento da história. O Brasil está mudando rapidamente, para melhor, em quase todas as áreas – e isso não é mérito individual de nenhum governo. É resultado do exercício continuado da democracia por quase três décadas, uma experiência inédita em nossa história. Estamos colhendo, finalmente, os frutos da participação de todos os brasileiros na construção da nossa própria história. Hoje temos, entre outras melhorias, mais renda, mais empregos, mais educação e oportunidades do que trinta anos atrás. Uma das consequências é o aumento no número de leitores e o crescimento do mercado editorial brasileiro. Há novos leitores entrando nesse mercado, o que impõe novas responsabilidades para nós, escritores, editores e distribuidores de livros. Temos de ser generosos com esse novo leitor, de modo a atrai-lo definitivamente para o fascinante mundo dos livros. O grande desafio é ampliar o interesse do público pela História sem banalizar o conteúdo. Essa é uma linha tênue e perigosa. Se o autor ficar só na superfície e na banalidade, o livro não oferecerá contribuição alguma, será irrelevante. Se, ao contrário, der um mergulho muito profundo, não conseguirá prender a atender desse leitor menos especializado. Mas entendo também que esse é o desafio permanente do bom jornalista.

Após pesquisar tanto o nosso Brasil, consegue encontrar algumas respostas para o que acontece hoje especialmente na política e no modo como a corrupção parece ser sistêmica no País?
Basta ler o noticiário todos os dias para perceber que o Brasil tem uma república mal-amada. Os brasileiros não se reconhecem na sua república porque o regime, ao longo de mais de um século, falhou em cumprir muitas de suas promessas, incluindo o combate à corrupção. Muito do que ocorre hoje no Brasil, incluindo as manifestações de rua, tem raízes nessa distância entre as promessas e os sonhos republicanos. O brasileiro participou pouco da construção do Estado Nacional. Por isso, essa sensação de estranheza entre Estado e sociedade que se observa hoje. Os brasileiros não se reconhecem no que está em Brasília. Querem um País melhor, mais eficiente, mais ético e menos corrupto. Acredito que isso seja também resultado de uma experiência inédita na nossa história, que são os quase trinta anos de democracia, sem rupturas. A Campanha das Diretas de 1984 poderia ser considerada uma segunda Proclamação da República, promovida não pelos quartéis mas pelas ruas. As manifestações de rua fazem parte dessa nova equação política em que o povo brasileiro reivindica, finalmente, o direito de participar ativamente da organização do futuro, incluindo o combate à corrupção. É uma jornada difícil e tortuosa, às vezes até assustadora, mas não existe outra forma de construir um País no qual todos os seus cidadãos se reconheçam.

Após conhecer tanto do nosso passado, consegue encontrar algumas possíveis respostas para a resolução de nossos problemas?
Acho que não devemos perder as esperanças em um Brasil melhor. As pessoas estão, de fato, muito frustradas e chateadas com os rumos atuais da política brasileira. Duas grandes tentações nos ameaçam no futuro próximo. A primeira é o cinismo que diz ‘tudo mundo rouba, então eu também posso roubar’ ou, em outra versão, ‘no passado todos roubaram, por que eu não posso roubar agora?’ Esse tipo de argumento é inaceitável porque nos leva a segunda tentação, segundo a qual ‘o Brasil seria ruim por natureza, corrupto, violento e desigual. Por isso, não adianta lutar porque o País não tem jeito’. Então, o melhor seria nos acomodarmos na situação atual e seguir em frente. Isso seria jogar a toalha e abrir mão dos nossos próprios sonhos. Não podemos desistir. A jornada rumo a um Brasil melhor, mais justo e mais honesto será longo e difícil, mas nós temos de fazer parte dela com todas as nossas forças e convicções. Esse esforço começa dentro de casa, nas escolas, nas empresas, nos relacionamentos pessoais e em todos os aspectos das nossas vidas públicas e privadas. Acredito que o Brasil tem jeito, sim, e pode melhorar. A maioria das pessoas que conheço são honestas, corretas, trabalhadoras e bem intencionadas. Se somos assim na maioria por que o País também não poderia ser?

*Parte da entrevista publicada nesta terça-feira no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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A crueza do faroeste

Reedição de "Terra Crua" traz fotos históricas, como a do Hotel Campestre, inaugurado em 1942 na Av. Brasil

Reedição de “Terra Crua” traz fotos históricas, como a do Hotel Campestre, inaugurado em 1942 na Av. Brasil

Por Wilame Prado 

A história de uma Maringá que nascia em um verdadeiro cenário de faroeste entre 1938 e o fim da década de 1950 continuará sendo preservada. Naquele tempo e espaço, cuja “lei dos mais fortes” era predominante, viveu o advogado, dentista, piloto de avião e vereador Jorge Ferreira Duque Estrada, testemunha ocular da história local e autor de “Terra Crua”, um dos livros mais importantes da literatura historiográfica maringaense e que ganha hoje uma edição especial comentada.

O lançamento oficial acontece às 20 horas, na OAB – Subseção Maringá, com entrada franca. Essa versão do livro – que foi originalmente escrito em 1957 e editado em 1961 é organizada pelo professor de História da UEM Reginaldo Dias, pelo especialista em História e Sociedade do Brasil Miguel Fernando Perez e também pelo cientista político Sérgio Gini. A edição comentada de “Terra Crua” sai pela Eduem e tem 270 páginas. O projeto da reedição do livro é do Instituto Museu da Família e conta com o patrocínio cultural da Viapar, que destinou R$ 45 mil via Lei Rouanet.

Com poucos exemplares espalhados na cidade, o livro ganha agora outras três mil unidades, a serem distribuídas gratuitamente nas bibliotecas públicas municipais. Essa edição especial conta com fac-símile da obra original (tratando-o como documento histórico), posfácio de Fernando Duque Estrada (filho do autor), ensaio acadêmico assinado por José Henrique Rollo Gonçalves e Reginaldo Dias e uma seção com imagens que fazem algum tipo de ligação com o texto original.

Um verdadeiro Velho Oeste, ressalta o historiador Reginaldo Dias, era o que viu por aqui Jorge Ferreira Duque Estrada e que, posteriormente, foi documentado no livro. E para a tarefa intelectual de transformar os acontecimentos em fatos históricos, o autor de “Terra Crua” se fez valer de documentos oficiais (Câmara, cartórios, processos, fotos e até propaganda eleitoral), de uma facilidade que o advogado tinha em compor narrativas baseadas em papeis e, mais importante que tudo, um poder de morador observador e crítico que era.

“Ele escreve imerso nos acontecimentos ou com mínima distância. Ele narra tomando partido. Atualmente, chamamos isso de história do tempo presente, escrita no calor da hora”, explica Dias. Para o professor, que também é cronista, às quartas- feiras, deste caderno Cultura, na obra também é visível uma inspiração no cinema de faroeste, muito popular no período. “‘Terra Crua’ não é um lugar, mas um tempo, o tempo em que a civilização está chegando, mas não se instalou completamente. Algo como o Velho Oeste.”

Com a nova versão, ganha a história de Maringá e também a história sobre o importante personagem que foi Duque Estrada, morto em 1983 e que é lembrado no ensaio histórico e ainda no posfácio do livro. “É o livro mais influente da literatura histórica de Maringá. Ele funda essa literatura e influencia, pela qualidade de sua narrativa e por sua interpretação, a bibliografia posterior. Concordando ou não com o autor, é indispensável dialogar com o que ele escreveu. Trata-se de um clássico”, finaliza Dias.

REEDITAR ‘TERRA CRUA’ ERA SONHO ANTIGO

Não vem de hoje o sonho de reeditar o livro “Terra Crua”, de Jorge Ferreira Duque Estrada. Mas agora, passados 57 anos de sua primeira edição, finalmente o projeto sai do papel após a parceria de várias instituições. Essa nova edição, com comentários, fotos e posfácio e ainda o fac-símile da obra original tem patrocínio da Viapar, o Instituto Cultural Ingá como fomentador, o apoio da Acim, do jornal O Duque, Sinergia Mídia e Convergência e Sol Propaganda, além do Museu da Família (MF) como realizador.

“Como museu, entendemos que a história tem que ser contada. Percebendo que não havia sido viabilizado pela instância pública, dessa forma decidimos nos colocar como agentes privados para que pudéssemos, acessando os recursos, viabilizar a reedição. Além do livro, o mesmo projeto viabilizará um documentário e estamos abertos a novos patrocínios. As empresas de Maringá que quiserem apoiar o projeto podem nos procurar”, explica Marcelo Seixas, diretor executivo do MF.

O especialista em História Miguel Fernandes Perez, que agora comemora a reedição do livro após tentativas iniciadas ainda em 2007, considera “Terra Crua” uma obra de difícil definição, mas extremamente saborosa. “Duque Estrada escreveu uma história no olho do furacão dos acontecimentos, e ao mesmo tempo, sem rodeios. A verdade como ela é. É um livro de difícil definição, pois é uma crônica, literatura e outros formatos. Ele relata acontecimentos sangrentos que ocorreram nesta região, como embates entre grileiros e jagunços. Além, é claro, de situações pitorescas, como a surra que Américo Dias Ferraz levou de ‘Santão’, em dezembro de 1956, a mando de Aníbal Goulart Maia. Só por essa passagem, já entendemos que Maringá era bem diferente que muitos livros costumam relatar, como uma região pacata. Em verdade, até usando um termo do autor, aqui era literalmente ‘o velho oeste’.”

ESTANTE
TERRA CRUA
Autor: Jorge Ferreira Duque Estrada
Editora: Eduem
Número de páginas: 270
Lançamento: hoje, 20h, na OAB – Subseção Maringá

*Reportagem publicada terça-feira (18) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Programa Primeiro Museu está com inscrições abertas em todo o País

Lançamento do Programa Primeiro Museu em Campo Bonito, município localizado na região de Cascavel. Foto: Fortunato Fávero

Lançamento do Programa Primeiro Museu em Campo Bonito, município localizado na região de Cascavel. Foto: Fortunato Fávero

Por Wilame Prado

O Museu da Família (MF) e o Instituto Cultural Ingá (ICI) abriram nacionalmente as inscrições para o Programa Primeiro Museu, que viabiliza a implantação nas localidades interessadas de um museu comunitário de tipologia virtual e ainda um projeto cultural para implantação de um museu físico enquadrado nos instrumentos de renúncia fiscal existentes. As inscrições vão até 15 de dezembro, pelo site: www.primeiromuseu.org.br/site/inscricao.

No site, os interessados poderão preencher uma ficha de inscrição com dados básicos, contrato, ata ou estatuto social da instituição (prefeitura, associações, câmaras municipais, empresas privadas etc), comprovante de endereço e documentos pessoais. As dúvidas podem ser sanadas por telefone ou e-mail: (44) 3025-1666 e [email protected]

Há dois meses, o Programa Primeiro Museu começou a ser implantado em diversas cidades localizadas nas regiões norte, noroeste e centro-oeste do Estado do Paraná. De lá para cá, diversas famílias moradoras destes municípios – encorajadas pelas secretarias culturais e de educação – estão resgatando suas fotos e documentos pessoais importantes para alimentar as páginas de cada família e que vão ajudar a compor o museu comunitário destas localidades.

Entendendo que a carência de museus e até mesmo de dados históricos não é exclusividade apenas das pequenas cidades paranaenses, o Programa estende o serviço para qualquer município brasileiro que ainda não tenha museu e que se interesse por um. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), os municípios brasileiros com menos de dez mil habitantes, de maneira geral, continuam perdendo moradores e, consequentemente, parte de sua história.

Pertencimento
Para o geógrafo e presidente do MF, Edson Pereira, isso se deve ao suposto sonho de uma vida melhor na cidade grande, fato comprovado pelo aumento populacional em municípios com população entre 200 e 500 mil habitantes. “O Programa Primeiro Museu atua não apenas no resgate e conservação da memória local. Mais que isso, estimula o sentimento de pertencimento nos moradores, que, ao se sentirem representados na história do local onde moram, recuperam a autoestima e encontram mais sentido em continuar morando lá”, explica.

A preocupação do MF está relacionada também à ausência de museus na maioria dos pequenos e médios municípios brasileiros. No Paraná, 95% das cidades com menos de 100 mil habitantes não possuem museus ou mesmo salas de memória. O Plano Nacional Setorial de Museus (PNSM) trás como meta o estímulo à criação de um museu em cada município brasileiro até 2020, o que totalizaria a criação de mais 4.295 museus até lá.

Direito à memória
Marcelo Seixas, diretor de projetos do MF, ressalta que, conforme previsto na Constituição Federal, o direito à memória é algo que deve ser garantido pelo Estado, com a cooperação da comunidade. “Museus comunitários devem se comprometer na garantia deste direito, o que certamente age não só nessa preservação da memória, mas também na integração maior entre moradores, elevação da autoestima da população e uma necessidade automática de preservação dos bens públicos daquele local.”

Entenda
O Programa Primeiro Museu prevê a viabilização de um museu comunitário de tipologia virtual implantado; um projeto cultural para implantação de museu físico, enquadrado nos instrumentos de renúncia fiscal existentes; e a capacitação de agentes locais na gestão das unidades museológicas do projeto.

Com isso a comunidade recebe um museu virtual contendo informações textuais e fotográficas da história local, que pode inclusive ser implantado no site da prefeitura, dependendo do caso. Depois, inicia-se um processo de capacitação de pessoas que morem na cidade e que se interessem pela memória local para atuarem, sob coordenação de profissionais da museologia contratados pelo MF, na efetivação do primeiro museu físico do município.

Com a contrapartida de R$ 6.300 para custear gastos logísticos iniciais, podem participar do Programa Primeiro Museu prefeituras, câmaras municipais, associações civis sem fins lucrativos, entidades filantrópicas, instituições de ensino, clubes esportivos, igrejas e cooperativas vinculadas à comunidade a ser beneficiada.

O projeto do futuro museu físico será modelado de acordo com as exigências do Fundo Nacional de Cultura do Ministério da Cultura (MinC). Assim, a ideia é que, até 2015, o programa viabilize o primeiro museu para pelo menos 60 municípios, nos quais os recursos via Lei Rouanet podem chegar até R$ 600 mil para cada um deles.

Visite o site do Programa Primeiro Museu: primeiromuseu.org.br
E a página do Museu da Família no Face: facebook.com/museudafamilia

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Com a arte e a coragem*

CENSURA. Leonil Lara, na sede da Artemar: artista mostra autorização da Censura Federal para a apresentação de peça de teatro de bonecos, em 1976. —FOTO: RICARDO LOPES

CENSURA. Leonil Lara, na sede da Artemar: artista mostra autorização da Censura Federal para a apresentação de peça de teatro de bonecos, em 1976. —FOTO: RICARDO LOPES

*O teatro foi uma das principais manifestações culturais de resistência em Maringá durante a ditadura militar; amanhã, confira reportagem sobre o movimento cineclubista em Maringá à época

Por Wilame Prado

Completaram-se esta semana 50 anos do golpe de 31 de março de 1964, que implementou no País o regime militar e que durou mais de vinte anos. Durante esse período marcado pela repressão, falta de democracia e censura – principalmente após instaurado o AI 5, em 1968 – cada um lutava do jeito que podia e com as armas que tinha. Em Maringá, principalmente nas décadas de 1970 e 1980, foi em cima dos palcos ou assistindo a filmes alternativos num projetor 16 mm que muitos se viram “lutando” contra os tempos duros de repressão e ditadura.

João Laércio Lopes Leal, historiador da Gerência de Patrimônio Histórico de Maringá, recorda-se de movimentos culturais que foram legitimamente contestadores do regime militar na cidade. Ele cita como exemplo as peças encenadas pelo Teatro Estudantil Cultural (TEC). “Teve um episódio de perseguição envolvendo o TEC. Depois de um espetáculo, atores foram obrigados a se esconderem no salão paroquial da igreja matriz, que depois virou a Catedral. Dom Jaime protegeu os artistas”, diz ele. “Há uma lacuna na história cultural maringaense nesta época que merece ser estudada”, aponta Leal.

O historiador ainda cita o teatrólogo Calil Haddad (morto em 1981) como um dos que se viram com o trabalho artístico dificultado após o golpe de 1964. Artista pioneiro e que hoje dá nome ao maior teatro da cidade, Calil fundou o Teatro Maringaense de Comédia (TMC) em 1956. No entanto, conta Leal, os perrengues que ele passava estavam mais relacionados ao sobrenome. “O irmão do Calil, o médico Salim Haddad, era comunista declarado. À época, administrava o Hospital Brasília, hoje a maternidade do Santa Rita.”

Ele conta que surgiram na época outros grupos de teatro, como a Associação Maringaense de Teatro Amador (Amta), Grupo de Teatro Pioneiro (GTP), Grupo Independente de Teatro Amador (Grita), Teatro Maringaense Independente (Temi) e o Teatro Estudantil de Comédia (TEC). Em 1975, porém, chega à cidade o artesão e dramaturgo Leonil Lara, figura extremamente marcada pela violência da ditadura militar – mais devastadora nos grandes centros.

Seguindo a sua tática de sempre estar em movimento para fugir da cadeia, Leonil – um dos fundadores do Grupo Carreta de teatro de bonecos em São Paulo – funda naquele ano em Maringá o grupo Pau de Fitas, existente até hoje com a proposta de montar e apresentar espetáculos de teatro de bonecos.

Por aqui, diz ele, que hoje também mantém a Associação dos Artesãos de Maringá (Artemar), conseguiu mostrar a sua arte em praças e escolas ao lado de Sueli Alves de Sousa Lara, sua mulher e diretora do grupo de dança Fogança há 25 anos.

Comparado à perseguição que sofreu no Rio e em SP, principalmente pelo Comando de Caça aos Comunistas – Leonil chegou a ficar preso por dois anos, segundo ele, por ter feito teatro no Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE) – a autocensura e a censura prévia existente no interior do Paraná eram situações toleráveis, num período em que se começava a comentar sobre uma possível abertura política por parte dos militares.

Ainda assim, conta Leonil, os agentes de censura agiam na cena teatral em Maringá de duas maneiras: pedindo o texto original para possíveis alterações ou então pedindo uma encenação do espetáculo em branco, sem cenário e figurino. Ele se recorda que, logo no começo das atividades do Pau de Fita, em meados de 1976, precisou ir a Londrina apresentar um espetáculo de teatro de bonecos para que a Polícia Federal autorizasse as apresentações ao público.

“Os espetáculos de Maringá eram analisados pela censura em Londrina. Um dia, apresentamos o espetáculo infantil ‘A Margarida Curiosa Visita a Floresta Negra’ e os agentes da censura racharam de tanto rir da peça e aprovaram. Guardo até o documento carimbado. Com esse espetáculo, que montei em 76 em Maringá, tínhamos ganhado vários festivais, no Rio e SP, com o grupo Carreta”, relembra ele.

*Reportagem publicada quarta-feira (2) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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100 mil museus

Fotos antigas como esta, por exemplo, da família de Edson Pereira, serão digitalizadas para compor o projeto (Crédito: Arquivo do Museu da Família)

Instituto de Maringá é autorizado a captar mais de R$ 8 milhões para o Museu da Família, que digitalizará as histórias de 100 mil famílias do norte e noroeste do Estado

A Geada Negra, que assolou principalmente o Norte Pioneiro do Paraná na madrugada de 18 de julho de 1975, esvaziou a região. Na época, dos 174 municípios cafeicultores, 71 perderam mais da metade da população e 88 perderam mais de 1/5, segundo o documentário “Geada Negra”, dirigido por Adriano Justino. Cidades pequenas ficaram ainda menores. Distritos sumiram do mapa sem deixar rastro. E não é só uma questão geográfica: apagou-se, com isto, muita história de vida, história de gente que ajudou a colocar no mapa este pedaço do Brasil.

Já virando esta boca pra lá, se vier outra calamidade como a de 75, pelo menos as histórias de tantas famílias da região – e que, em seu conjunto, constroem a verdadeira e rica história local – não mais serão dizimadas assim como os milhares de pés de cafés ceifados pela geada. Isso porque, o Instituto Memória e Vida (IMV) obteve aprovação na Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, responsável pela análise das iniciativas inscritas na Lei Rouanet, para viabilizar o projeto Museu da Família, com captação de R$ 8.215.546. Isso significa a possibilidade, para inúmeras pessoas da região, de garantirem o registro histórico familiar a custo zero.

O Museu da Família, em toda sua inovação, já pode ser considerado o maior projeto de preservação da memória social já feito no Estado. Serão 100 mil famílias, totalizando quase 500 mil pessoas, localizadas em 211 municípios de quatro regiões paranaenses (norte pioneiro, norte central, noroeste e centro ocidental), assistidas pelo projeto e que terão suas histórias familiares registradas por meio da digitalização de diversos materiais históricos – fotos, fitas cassete, filmes, receitas culinárias, exames médicos, películas etc – que comporão uma página da internet no site do Museu da Família. Além da digitalização de material já existente, estão previstas a captura de depoimentos em vídeo de três mil pioneiros e a realização de 50 exposições em pequenos municípios.

Essa espécie de museu particular será uma imensa árvore genealógica digital, com garantia de perenidade em um software livre e com a responsabilidade do IMV em armazenar todos esses dados em um banco confiável.

O presidente do IMV, Edson Pereira, e o diretor de projetos Marcelo Seixas anunciaram ontem que os trabalhos já foram iniciados e que os moradores da região de atuação do projeto interessados em participar já podem acessar o site www.museudafamilia.org.br para obterem informações. Seixas confirmou para 13 de maio, em meio à Semana Nacional de Museus deste ano, em local a definir em Maringá, o evento de lançamento oficial da campanha de cadastramento das famílias para o museu.

Iniciando em maio, o diretor calcula finalizar a primeira etapa do cronograma do Museu da Família – com visitas, esclarecimentos, cadastramentos de famílias e digitalização dos materiais históricos – até outubro deste ano. Para isso, o IMV contará com cerca de 450 pessoas que, direta ou indiretamente, trabalharão no projeto em pelo menos quatro setores: educativo, tecnológico, núcleo histórico e logístico. Cada município terá um professor representando o Museu da Família. Só aí já são mais de 200 pessoas envolvidas. O prazo para a “entrega da obra” é de dois anos.

Começar o processo de divulgação da ideia por meio de professores não foi por acaso. Em uma primeira fase do Museu da Família – iniciada em 2011 na comunidade rural do município de Jussara (a 65 quilômetros de Maringá) – eles perceberam que uma das características marcantes das pequenas comunidades da região é a importância e atuação que escolas estaduais ou municipais têm. E será nelas, contam, que o pontapé inicial será dado e onde, nas cidades com menos de 30 mil habitantes (prioritárias no projeto), funcionarão núcleos de digitalização.

Maringá
No projeto, está previsto para Maringá e Londrina, em pontos estratégicos, a instalação de dois laboratórios de digitalização de documentos históricos de famílias que se interessarem pelo projeto. Eles ainda não definiram uma data para a viabilização dos laboratórios. Mas, segundo Seixas, quando essa etapa se tornar realidade, o processo de digitalização será rápido e as pessoas poderão aguardar a devolução dos documentos tomando um cafezinho enquanto a equipe responsável catalogará os materiais históricos e dados importantes de identificação. “Em 20 minutos, hoje já se consegue digitalizar até 700 documentos.”

Com a ideia ousada, mas muito bem vinda e importante, Edson Pereira ressalta o caráter de preservação da história regional por meio da memória privada e o ineditismo do que chama de “museu de primeira pessoa”. De forma colaborativa e invertendo a ordem habitual dos livros de história – cujos fatos quase sempre partem de cima para baixo e se limitam aos relatos oficiais, aos acontecimentos heróicos das figuras públicas – o Museu da Família pretende, assim, criar, em sua primeira etapa, 100 mil museus, de 100 mil famílias, de 100 mil histórias recheadas de peculiaridades mas que, ao mesmo tempo, contam com uma série de fatores em comum, principalmente a relação irrefutável que todos têm com a terra e com a saga do café nas regiões norte e noroeste do Paraná.

Histórias de família
Quando, em dado momento de sua vida, Marcelo Seixas percebeu o quanto foi importante para suas duas filhas verem um relato gravado que ele fez da bisavó delas, que morreu com mais de 100 anos, não teve dúvida do quanto poderia contribuir para a história pessoal de cada família com o Museu da Família. “Vi o quanto a história da bisavó foi importante para minhas filhas, para saberem que também faz parte da história delas.”

Edson Pereira lembra-se da mãe, que, mesmo já tendo seis filhos, resolveu ainda, em Jussara, adotar outras quatro crianças. “A família é a base e que te passa segurança e conhecimento. Por mais que você esteja distante, você pode voltar para sua família a qualquer momento”, diz. Com o Museu da Família, os dois estão contentes. Afinal, os familiares aumentarão.

*Matéria publicada no D+, do Diário de Maringá.

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Mestrando da UEM reclama do não pagamento de bolsa da Fundação Araucarária

Carta Aberta

Por Rafael Dias da Silva Campos*

Com mais de um ano completo recebendo bolsa da Fundação Araucária, ainda não obtive o prazer de receber regularmente o auxilio financeiro. Os atrasos foram tantos e tão graves, sempre com a esperança de se regularizarem um dia, que cheguei mesmo a ficar três meses em atraso, justamente no período onde, o exercício de qualquer atividade remunerada ainda era proibido. Tive a sorte de contar com a ajuda financeira de minha mãe e até mesmo de meu orientador, que sempre extrapolou positivamente suas obrigações acadêmicas.

Durante este período, encaminhei à submissão cinco artigos, em conjunto com este mesmo orientador, para revistas qualificadas (Qualis A1 a B2), com alguns inclusive de Janeiro e Fevereiro deste ano. Participamos da elaboração de material bibliográfico para o curso de História do NEAD, sob auspícios do Governo Federal e as expectativas e motivações são ainda maiores. Tanto que nos propomos a ir à Portugal para discutir sobre a dissertação e apreender mais sobre minha área de pesquisa (História das Ciências).

Todavia, mesmo com as passagens compradas tem me ficado cada vez mais clara a necessidade de desistir desta profícua troca de conhecimentos, que poderia se concretizar durante o Congresso Luso-Brasileiro de História das Ciências em Coimbra (Portugal). O mecenato, mais que essencial em muitos dos meses anteriores, não me será possível aproveitar nesta ocasião graças ao órgão que tantas vezes deixou de observar a simples execução do pagamento mensal. Portanto, para simplesmente comer e dormir em Coimbra, mesmo oficialmente recebendo auxilio da Fundação Araucária, terei de recorrer a amigos e familiares para pagar as custas de tal investimento. Investimento este que prevê a divulgação de uma instituição que, recorrentemente, não tem cumprido sua obrigação primeva de pagar pelo desenvolvimento de meu ofício de pesquisador.

Caso o desenvolvimento da pesquisa científica no Estado do Paraná, ainda seja do real interesse da Fundação Araucária, a escolha pelo cumprimento de uma das normas deverá ser tomada, como seja, o real compromisso com o desenvolvimento da pesquisa e pagamento de seus pesquisadores. Seria lamentável, que a instituição promotora de pesquisa do Estado que está entre as cinco maiores arrecadações do país em 2010, com R$ 27.516.204.812 (vinte sete trilhões, quinhentos e dezesseis milhões, duzentos e quatro mil e oitocentos e doze reais) não possa cumprir algo previsto no orçamento anual.

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Rafael Dias da Silva Campos

Mestrando em História

Universidade Estadual de Maringá

[email protected]

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Arquitetura que conta a história de Maringá*

História arquitetônica retratada em belo quadro de Edgar Werner Osterroht (na fotografia acima, antiga do Cine Horizonte, na Vila Operária, em 1951)

Saia de casa. De preferência, a pé. Caminhe pelas ruas de Maringá, mas sem deixar de notar, ao seu redor, o que foi construído pelas mãos dos homens. Repare que não foi apenas Deus que atuou com maestria na cidade, presenteando os maringaenses com as mais belas árvores, parques e bosques.

Além do verde que predomina tem também muito vidro, metal, concreto e asfalto por aqui. Uma série de obras, casas, prédios e condomínios, que, em seu conjunto, guarda consigo toda uma história vista pelo viés arquitetônico.

E é sob esta ótica que o historiador da gerência de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura, João Laércio Lopes, conta, com prazer, como a arquitetura de Maringá foi se desenvolvendo, com o passar das décadas até chegar aos dias de hoje.

Esquecemos a roça

Para o historiador, embora haja conhecimento da história arquitetônica do plano urbano de Maringá, pouco ou nada se sabe da arquitetura rural do município, que se perdeu pela falta de interesse da maior parte das pessoas.

“O plano urbanístico forte da cidade ocultou o mundo rural. Mesmo com a ideia de ‘Cidade Jardim’ e ainda tendo em sua área física 3/4 como sendo rural, não sabemos quase nada da história da arquitetura rural”, lamenta Laércio, citando ainda que, em 1960, dos pouco mais de 100 mil moradores de Maringá, cerca de 70 mil viviam no campo.

Casas de madeira

A história urbanística maringaense passa por fases comuns no desenvolvimento das cidades, com o diferencial que, ao contrário de Londrina, por exemplo, Maringá foi totalmente projetada e bem organizada.

O seu primeiro plano urbanístico mais abrangente (lembrando que o plano com as primeiras quadras no Maringá Velho já havia sido feito em 1943) foi realizado pelo engenheiro civil e urbanista Jorge Macedo Vieira no ano de 1945 e dividia a cidade em oito bairros, indo da Zona 01 à Zona 08.

“A expansão urbana em Maringá é muito ligeira. Mas, quando ainda a cidade era um grande sítio, as primeiras casas, chamadas de ranchinhos, eram feitas com tronco de palmito, que era cultivado na cidade naquela época e que servia para a construção e para a alimentação”, diz o historiador Laércio.

Depois disso, logo começaram a ser construídas as casas de madeira, estimulando assim a criação de serrarias na cidade. O historiador afirma que as casas de madeira reinaram em Maringá dos anos 40 até a década de 60.

Alvenarias e grandes prédios

Já na década de 70 começam a ser construídas em maior quantidade as casas de alvenaria. Nesta época era comum também se encontrar em Maringá edificações com fachadas de alvenaria e com fundos de madeira. Láercio ressalta que, já na década de 60, alguns grandes edifícios foram erguidos na cidade, como o Edifício Três Marias e o Maria Tereza.

Um marco na construção civil

Com a grande expansão demográfica vivida em Maringá na década de 80, saltando de 168 mil para 240 mil habitantes, a área da construção civil pegou carona e também obteve aceleração, principalmente com a construção de inúmeros prédios residenciais.

É quando, na opinião de Laércio, que o mercado imobiliário maringaense passa a ganhar força, o que é uma realidade até nos dias de hoje. “Na Zona 01, ali nas avenidas Arthur Thomas e na Tiradentes, por exemplo, foi onde vimos um grande crescimento imobiliário na década de 80, com a construção de vários prédios”, exemplifica o historiador.

Os horizontais

João Laércio explica que não houve grande salto demográfico na década de 90 em Maringá, situação logo invertida a partir dos anos 2000, quando a cidade passou de 290 mil para, segundo o último Censo (2010), 367 mil habitantes.

Junto com mais um aumento da população, começa-se desenhar em Maringá uma classe social mais abonada e com melhores condições financeiras. A partir de 2000, explica o historiador, a cidade passa a ver com grande expressão as construções dos chamados condomínios residenciais horintozais.

“A arquitetura de Maringá expressa o arrojo da cidade. Os residenciais fechados expressam também a necessidade que muitos maringaenses sentiram com relação à falta de segurança. Os condomínios horizontais são legítimos, ainda que perdem a questão estética da arquitetura de se mostrar a obra. Ninguém, a não ser os moradores, contemplam as casas construídas”, expressa Laércio.

História, arquitetura e turismo

Mirando os olhos para os acontecimentos importantes do passado na área da arquitetura, a população pode entender o quanto se faz importante a preservação de construções e obras espalhadas pela cidade em geral.

Na opinião da arquiteta e urbanista Fabíola Castelo de Souza Cordovil, a população, inclusive, deve participar mais das intervenções urbanas que ocorrem em Maringá. “É importante entender que as obras e as modificações na legislação urbanística afetam a paisagem e a vida cotidiana de todos”, diz ela.

O pesquisador e gestor de eventos da Acim, Miguel Fernando Perez Silva, salienta que a história da arquitetura de Maringá é muito rica e conta com episódios memoráveis desde o lançamento da pedra fundamental da cidade, no dia 10 de novembro de 1942.

Ele, que atualmente desenvolve diversas pesquisas históricas da cidade e as divulga principalmente em seu blog (maringahistorica.blogspot.com), defende a conservação histórica de Maringá também como forma de atrair ainda mais turistas.

“Se não temos praia, o que atrai o turista? Pode ser um grande evento, uma festa típica, etc… ou estruturas históricas. Maringá pode ter um city tour pelos bairros, com profissionais capacitados a contar a história do local”, comenta Silva.

Obras públicas de Maringá construídas ao longo de sua história

Ao contrário do plano urbanístico de Maringá, que foi construído rapidamente pela Companhia Norte Melhoramentos do Norte do Paraná, as obras públicas da cidade foram sendo construídas paulatinamente ao longo dos anos, conforme aponta a arquiteta e urbanista Fabíola Castelo de Souza Cordovil, que defendeu recentemente uma tese de doutorado, tratando sobre engenharia, arquitetura e urbanismo na construção de Maringá entre 1947 e 1992.

Ela, que também é professora do curso de Arquitetura da Universidade Estadual de Maringá (UEM), considera o conjunto das obras públicas como sendo de grande destaque no cenário arquitetônico e urbanístico da cidade.

Ao longo da história do município, Fabíola enumera algumas obras que marcaram época e que até hoje enriquecem esteticamente e historicamente Maringá. A exemplo do prédio da Biblioteca Municipal Bento Munhoz da Rocha Neto, localizado na Avenida XV de Novembro.

“A construção (biblioteca) foi declarada no relatório de gestão de Silvio Barros (pai do atual prefeito), com a data de novembro de 1976. A edificação em concreto aparente e revestida com grande área de superfície envidraçada em sua parte superior foi uma obra marcante. O projeto foi do engenheiro-arquiteto Luty Vicente Kasprowicz”, diz a arquiteta.

Fabíola também cita como obras importantes para a história da arquitetura de Maringá a Estação Rodoviária (demolida no ano passado) e também o Estádio Willie Davids. “O estádio estabeleceu-se na área determinada no plano inicial e foi tema de lei ainda em 1953. Há evidências do início da construção do estádio na terceira gestão municipal, a primeira de João Paulino. Segundo as fontes, o projeto foi encomendado a Jaime Lerner, arquiteto de Curitiba em ascensão, mas foi modificado ao longo da construção”.

Fato curioso citado pela arquiteta envolve a história do Paço Municipal de Maringá, que, nas primeiras cinco gestões municipais, funcionou em uma casa no mesmo terreno onde hoje se encontra a biblioteca central. “O Paço Municipal foi construído em duas etapas: a primeira foi realizada pelo escritório de (arquiteto José Augusto) Belucci; a segunda etapa não seguiu o projeto do arquiteto e foi concluída na gestão de Said Ferreira”, informa Fabíola.

*Reportagem publicada no caderno Construir & Decorar do dia 27 de março de 2011.

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Wil Scaliante clama: “Acorda Maringá!!!” – Eu recomendo

O estudante de Jornalismo e História William Scaliante, o engajado Wil, é o autor do polêmico, vermelho e interessante blog “Acorda Maringá!!!”. Em suas andanças entre o Cesumar e a Universidade Estadual de Maringá, entre as quadras poliesportivas e botecos que beiram os ninhos estudantis maringaenses, entre reuniões de grêmios estudantis e rodas de violão em casa de poeta fazedor de letras e acordes, Wil vai levando sua filosofia de vida e engajamento político por onde quer que passe.

Não à toa, Wil é presidente da Juventude Petista de Maringá, diretor de Universidades Pagas da UPE, presidente do Centro Acadêmico de Comunicação Social e diretor de Comunicação do Centro Acadêmico de História. Nas horas vagas, Wil também escreve seus textos no blog e empresta sua voz à RUC FM (94.3 Mhz) comandando o programa “Historiando”.

Tive a oportunidade de conversar várias vezes com o Wil Scaliante entre o intervalo e outro das aulas de Jornalismo.  Também troquei alguns passes de bola em jogos de futsal que o próprio organizava, comprava troféu, arrecadava dinheiro, distribuía as medalhas e ainda convidava a todos para jogar conversa fora numa mesa de bar ou ao redor de uma mesa de sinuca.

Acima de tudo isso, Wil demonstra ser um cara esperto ao não esconder de ninguém seu orgulho pelo nosso glorioso alvinegro praiano, o Santos Futebol Clube. Independentemente de sua posição política, gosto ou religião, recomendo a visita ao blog “Acorda Maringá!!!” – escrito por alguém que luta pela democracia e que ainda acredita na política como algo que possa mudar nosso mundo, e para melhor.

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