Japoneses



Extremismo e jeitinho**

Contra sua vontade, Matsumoto é escolhido para casar com a filha do chefe da empresa onde trabalha. Ele já tem namorada, mas os pais o pressionam para que siga o caminho do sucesso, casando com a boneca de luxo, filha de um homem rico. Sendo assim, Sawako, a ex-namorada, tenta se matar, mas consegue apenas, com overdose de remédios, perder a memória. Com peso eterno na consciência, o rapaz abandona o casamento manjado e vai até o hospital buscar a antiga amada, que agora mais parece vegetar no mundo.

Os dois viram mendigos. Ela não se lembra de nada e se torna uma pessoa totalmente indefesa. Para protegê-la, Matsumoto amarra uma corda na cintura de Sawako e vive, assim, literalmente amarrado em seu amor até seus últimos dias. Essa é uma das três histórias sofridas de amor retratadas no filme “Dolls”, do diretor japonês Takeshi Kitano, rodado em 2002. Uma mulher que espera seu namorado na praça durante 30 anos para levar seu almoço e um fã que fica cego de propósito para agradar a cantora de sucesso são os outros lancinantes dramas amorosos do longa.

Dizem que o pessoal lá da Ásia é meio extremista. Ou quem aqui nunca ouviu falar de japoneses que se matam por não terem conseguido entrar na universidade? São pessoas que mantêm tradições, honras e cumprem com seus ideais, sem titubear. Cito outro filme, “Old Boy”, que não é de um japonês, mas é do diretor sul-coreano Park Chan-wook. No filme, o protagonista fica quinze anos confinado em um quarto por pura vingança de um conhecido dos tempos de colégio. Não vou entrar em detalhes para não estragar o filme.

Tenho alguns amigos japoneses. Uns são inteligentíssimos e dedicados. Outros gostam de uma farra e não se preocupam com absolutamente nada. Porém, todos, sem exceção, sabem jogar vídeo-game. Os extremismos citados acima, sejam nas representações fílmicas ou na realidade de conhecidos, basicamente é o que sei sobre os simpáticos asiáticos, de olhos puxados.

Mas agora que os balões dos japoneses já não sobrevoam os ares de Maringá, fico cá matutando: o que eles devem pensar do jeitinho brasileiro, do modo como sempre procuramos levar vantagem nas situações e de toda a corrupção existente no País, que contamina desde mendigos até presidentes? Ainda bem que o centenário da imigração japonesa caiu justamente em 2008 – ano de eleições municipais no Brasil.

Apenas em anos políticos, ou quando recebemos visitas, é que os buracos do asfalto finalmente são tapados, as pontes e os parques são inaugurados (mesmo não estando prontos), as árvores voltam a ser plantadas e tantas outras obras que poderiam favorecer a população em anos anteriores são realizadas. Temos sempre de esperar três anos de mandato para vermos algo acontecer. É de se pensar que, talvez, a solução seria realizar eleições anualmente ou, então, comemorações de centenários com mais frequência.

*Crônica publicada dia 1 de julho de 2008 no jornal O Diário do Norte do Paraná.

*Lembrei desta crônica porque, amanhã, quinta feira, 10/06, no Teatro Oficina, às 18h30, o Cinuem exibirá o bonito filme “Dolls”. Não percam. Abaixo, o trailer do filmaço:

Comente aqui