Jornalismo



Entrevistão com Laurentino Gomes

Laurentino Gomes, em Itu (SP): "A escravidão é um fantasma que nos assombra até hoje porque nos recusamos a estudá-lo e  encará-lo mais a fundo"

Laurentino Gomes, em Itu (SP): “A escravidão é um fantasma que nos assombra até hoje”

Por Wilame Prado

A história que começa com a transferência da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, e que culmina com a Proclamação da República Brasileira, em 1889, também desperta imenso interesse ao público leitor de Portugal. Foi do país-irmão que, gentilmente, o escritor maringaense radicado em Itu (SP) Laurentino Gomes – best-seller com a trilogia que narra boa parte do século derradeiro de colonização portuguesa – concedeu entrevista contando sobre o seu novo e ousado projeto: dissecar a escravidão no Brasil em uma nova trilogia de livros-reportagem, a ser publicada a partir de 2019.

Entre um lançamento e outro, uma palestra e outra, percorrendo por Lisboa, Vila Real, Porto e Belmonte, Gomes encerrará a sua expedição lusitana em 28 de maio, retornando ao País no dia 30. Pretende começar imediatamente o seu novo projeto literário. E pode parecer um tempo longo (quatro anos) para lançar o primeiro dos três livros sobre escravidão, mas quando o escritor e jornalista comenta sobre o seu processo criativo e de pesquisa, há de se entender o motivo pelo prazo esticado.

“Começarei pela vasta bibliografia sobre o assunto. São centenas de livros já publicados, no Brasil e no exterior, o que me obriga a ser muito seletivo para não correr o risco de passar o resto da vida só na pesquisa, sem nunca escrever nada. Depois vem a fase da reportagem, com visitas aos locais relacionados à história da escravidão, o que inclui os portos negreiros na África e os pontos de desembarque, comercialização e trabalho dos escravos no Brasil. Também pretendo entrevistar historiadores e outros estudiosos em museus e centros de pesquisas sobre o tema”, explica ele.

Para o maringaense, que confirmou a sua presença na 2ª Festa Literária de Maringá (Flim) em outubro – quando será um dos homenageados – a escravidão é o acontecimento mais marcante da história brasileira, mas ainda mal explorado pela historiografia. Por meio da linguagem acessível e do aprofundamento dos fatos permitidos pelo livro-reportagem, Gomes pretende, mais uma vez, fazer jus aos fatos históricos desse capítulo que explica consideravelmente as injustiças irrecuperáveis para com os negros no País.

Como está sendo a recepção de “1889” aí em Portugal, país totalmente envolvido nesta história? Lançou o livro em quais cidades e quando retornará ao País?

LAURENTINO GOMES – A repercussão tem sido a melhor possível. Já havia lançado aqui os dois primeiros livros, “1808” e “1822”, mas nunca a acolhida tinha sido tão calorosa quanto agora, com “1889”. Tenho observado muito entusiasmo e uma torcida muito grande entre os leitores portugueses com os quais me relaciono nas redes sociais. O circuito de lançamentos inclui palestras, entrevistas e bate-papos com leitores em quatro cidades portuguesas: Lisboa, Vila Real, Porto e Belmonte. Começa com um evento de apresentação na Casa da América Latina, em Lisboa, e termina também em Lisboa com uma sessão de autógrafos na Feira do Livro, no dia 28 de maio. Retorno ao Brasil no dia 30.

Por que escolheu Itu para morar?
Moro em Itu há seis anos. Escolhi essa cidade pela localização, próxima a São Paulo, Campinas e Sorocaba, e também pela qualidade de vida. Minha casa fica em um condomínio muito bonito e arborizado, na zona rural do município. É uma paisagem que, em muitos aspectos, me lembra a região de Maringá, onde nasci. Além disso, Itu é uma cidade histórica, com mais de quatrocentos anos de fundação e papel decisivo em alguns episódios como a Independência e a Proclamação da República. É, portanto, um bom lugar para viver e escrever.

Por que resolveu investir, agora, em reportagens sobre a escravidão?
Essa é uma ideia que foi crescendo ao longo da trilogia “1808”, “1822” e “1889”. Nos três livros eu tratei bastante da escravidão. Quando a corte de Dom João chegou ao Rio de Janeiro, em 1808, de cada três brasileiros um era escravo. O tráfico negreiro era na época o maior negócio do Brasil e, talvez, até de Portugal, mobilizando milhares de pessoas e centenas de navios nas costas nos dois lados do Oceano Atlântico. Os homens mais ricos do Rio de Janeiro eram todos traficantes de escravos e foram os que mais deram contribuições à corte portuguesa, tanto com dinheiro quanto com apoio político. Na Independência, o Brasil rompeu os vínculos com Portugal mas manteve inalterada a situação social até então vigente. Uma tentativa de José Bonifácio de Andrada e Silva de acabar com o tráfico negreiro foi um dos motivos para o fechamento da Constituinte, em 1823. Há uma sensação de orfandade da Independência brasileira porque os escravos viram que as ideias libertárias defendidas pelos brancos na época não os incluíam. O Brasil foi o último País do hemisfério ocidental a acabar com o tráfico, em 1850, e o também o último a abolir a escravidão, em 1888. A principal consequência foi a queda da monarquia e a Proclamação da República no ano seguinte. Tudo isso foi me convencendo de que era preciso escrever uma nova trilogia tratando a escravidão.

Em seu ponto de vista, a historiografia brasileira peca nas pesquisas sobre escravidão?
Acredito que sim. Esse é um tema ainda muito mal tratado na historiografia brasileira, repleto de preconceitos e distorções. Eu acredito que esse seja o tema mais importante de toda a História do Brasil. Tudo o que nós já fomos, somos hoje e seremos no futuro gira em torno das nossas raízes africanas e do uso da mão de obra cativa. Sem a escravidão o Brasil de hoje simplesmente não existiria. Foi a maneira encontrada por Portugal para ocupar e explorar uma colônia 91 vezes maior, em extensão geográfica, do que a pequenina metrópole. As consequências são profundas. Joaquim Nabuco dizia que não bastava abolir a escravidão, era preciso também educar, dar terras e oportunidades para os ex-escravos, de modo a incorporá-los na sociedade brasileira como cidadãos de plenos direitos. Isso jamais aconteceu. Basta ver as estatísticas atuais sobre as diferenças de tratamento e oportunidade entre negros e brancos em todos os níveis e aspectos da sociedade brasileira, e também a polêmica que envolve políticas públicas como as cotas para estudantes negros nas escolas e universidades. A escravidão é, portanto, um fantasma que nos assombra até hoje porque nos recusamos a estudá-lo e encará-lo mais a fundo.

O que poderia citar da bibliografia e mesmo de filmes que tratam este tema?
O Brasil foi o maior território escravagista do hemisfério ocidental. Recebeu entre 40% e 45% de todos os doze milhões de escravos que, segundo as melhores estimativas, foram trazidos para a América nos primeiros 350 anos da colonização. Apesar disso, a produção cultural brasileira relacionada a escravidão é ainda relativamente modesta quando comparada, por exemplo, com a dos Estados Unidos. O número de filmes, minisséries, documentários e obras literárias sobre a escravidão no mercado norte-americano é enorme, embora os Estados Unidos tenham recebido somente 7% dos cativos africanos. É hora de tentar corrigir essa desproporção. Há uma produção acadêmica razoável no Brasil sobre o tema, e também cultural – como o celebrado filme “Chica da Silva”, com Zezé Mota – mas ainda há muito o que fazer. Meu objetivo, com essa nova trilogia, é menos abrir novas frentes de pesquisas e mais tornar esse assunto mais popular e acessível a leitores que nunca se interessaram muito por ele.

Assistiu “Doze Anos de Escravidão”? Gostou? Acredita encontrar histórias interessantes como aquelas em sua pesquisa?
Gostei muito de “Doze Anos de Escravidão”, mas no Brasil nós temos histórias ainda melhores, que poderiam ter rendido bons filmes e, quem sabe, até um Oscar. Um exemplo é a biografia do abolicionista Luis Gama. Filho de uma negra livre com um fidalgo português, o mulato Luiz Gama viveu na pele as injustiças da escravidão. Era ainda uma criança de dez anos quando seu pai, às voltas com dificuldades financeiras, não teve pudores de vendê-lo como escravo para um comerciante do Rio de Janeiro. Levado mais tarde para Campinas, interior de São Paulo, fugiu do cativeiro, estudou Letras como um autodidata e tornou-se um rábula – praticante da advocacia sem diploma universitário. Era um homem ousado e corajoso. Sozinho conseguiu libertar mais de mil escravos. Em um famoso processo de 1870, defendeu um escravo que matara o seu senhor. Seu argumento assustou os fazendeiros: todo cativo que mata o seu dono age em legítima defesa. Por defender posições como essa, Gama recebia ameaças de morte e andava armado. Faleceu vítima de diabetes em 1882, aos 52 anos, sem ver a sua obra coroada. Para mim, essa história é melhor do que a do personagem de “Doze Anos de Escravidão”.

Você é a favor de cotas raciais? O que pensa sobre o argumento de quem é a favor das cotas, afirmando de que se trata de uma dívida do País para com os negros?
Sou a favor das cotas raciais, ainda que não sejam a solução ideal nem a mais popular para o problema. Acredito que a escravidão é um passivo que o Brasil não conseguiu até hoje corrigir. A escravidão foi oficialmente abolida em pela Lei Áurea de 13 de maio de 1888, mas os ex-cativos acabaram abandonados à própria sorte. O Brasil nada fez para promovê-los à condição de cidadãos. O resultado é uma tragédia humana e social de dimensões gigantescas. O cinturão de pobreza e de violência que hoje se observa na periferia das metrópoles brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, é ainda herança do nosso passado escravocrata. Uma sociedade nacional é um pacto que se projeta no futuro. Se uma geração não faz o que deve ser feito, as gerações seguintes terão de assumir a tarefa de corrigir os problemas. Portanto, mesmo hoje, mais de um século após a Lei Áurea, está em nossas mãos enfrentar a tarefa de corrigir esse passivo. A política das cotas raciais pode ser polêmica e até injusta em muitos aspectos, mas é talvez a primeira tentativa séria e concreta que o Brasil faz para enfrentar essa herança mal resolvida.

Sobre terminologia, qual a correta ou qual prefere: negro, preto, afrodescendente?
Para mim, tanto faz. Tenho certa aversão aos modismos politicamente corretos que tentam resolver passivos históricos por meio da semântica e do vocabulário em lugar de políticas públicas concretas. O que adianta ser bacaninha no vocabulário e chamar os negros de afrodescendentes se, na prática, eles continuam a ser discriminados e violentados todos os dias? Eu uso nos meus textos a expressão negros, que, acredito, seja de aceitação mais geral, mas realmente não me preocupo muito com terminologias, desde que elas tenham significado real para os meus leitores.

Pretende focar na macro-história ou na micro-história da escravidão?
As duas coisas. Nos três livros vou explicar como nasceu o tráfico de escravos da África para as Américas no Século 16, qual a diferença da escravidão no período colonial dos tempos antigos em Roma e na Grécia, também vou descrever como era o negócio do tráfico, as viagens dentro de um navio negreiro e o trabalho dos escravos nas lavouras de açúcar e café. Tudo isso é macro-história. Mas, obviamente, vou jogar luz em personagens e acontecimentos muito particulares, como a história de Zumbi dos Palmares, e contribuição dos africanos para as nossas raízes culturais, como o Carnaval, o Samba e o Candomblé, com seus astros da música pop e seus pais de santo, o que já resvala na micro-história. A fórmula é, portanto, muito semelhante aquela que já usei nos três livros anteriores.

É verdade que nos brindará com a sua presença na 2ª Festa Literária de Maringá (Flim), a ser realizada em outubro na cidade?

Sim, estou muito honrado com a decisão dos organizadores da Flim de me incluir entre os escritores homenageados da edição deste ano. Existe um velho ditado, extraído das Escrituras, segundo o qual ninguém faz sucesso na própria terra em que nasceu. Felizmente, isso não acontece comigo. Desde que lancei o livro “1808”, Maringá tem me prestado todas as homenagens possíveis, incluindo o título de Cidadão Benemérito do Município. Então, nada tenho que reclamar. Estarei aqui todos os dias da Flim 2015 e procurarei participar com alegria e gratidão de todos os eventos programados pelos organizadores.

Vem muita a Maringá, ou é difícil?
Vou sempre que posso a Maringá. Dois dos meus quatro irmãos ainda moram aí. Geralmente passo o Natal na casa de um deles. Meu programa favorito, quando estou na cidade, é caminhar de manhã em volta ao Parque do Ingá. É onde aproveito para rever amigos e ex-colegas de escola ou de trabalho.

Pretende escrever ficção um dia?
Por enquanto, não me animei a escrever ficção. Maringá tem excelentes romancistas, como os premiados Marcos Peres e Oscar Nakasato. Eu não sei se teria talento para me aventurar nesse gênero literário. Prefiro ficar nos livros-reportagem, um termo que eu conheço e domino relativamente bem.

E voltar ao jornalismo, em revistas, impressos?
Eu já trabalhei mais de trinta anos em redações de jornais e revistas e fiz quase tudo que era possível experimentar nesse ambiente. Aprendi muito como repórter e editor. O que sei fazer isso no mundo dos livros vem dessa época. Agora prefiro continuar sendo escritor. Na verdade, eu não deixei de ser jornalista. Apenas mudei de formatos. Antes fazia jornais e revistas. Agora, faço livro-reportagens. Mas a profissão e também o meu amor por ela continuam os mesmos.

O sucesso ensina alguma coisa aos escritores? Pergunto isso fazendo referência ao tremendo sucesso que a sua primeira trilogia fez e continua fazendo.
Sim, hoje eu encaro o meu trabalho com um senso de humildade que não tinha antes. Quando o primeiro livro entrou na lista dos best-sellers e começou a vender centenas de milhares de exemplares, confesso que fui tomado por uma mistura de susto e vaidade. Isso felizmente passou. Agora entendo que todos nós temos vocações e missões que precisam ser assumidas e exercitadas com respeito, dedicação e também gratidão. Ser escritor é, para mim, uma grande graça recebida de Deus. Continuar a escrever é uma forma de me curvar a sua vontade, em benefício dos outros seres humanos que me acompanham nessa jornada. Não por acaso, os livros têm tido um papel importante na área de educação. Portanto, já não me assusto nem me envaideço mais. Apenas caminho.

Há algum fundamento nas críticas partidas principalmente de historiadores, que dizem haver pouca profundidade em suas propostas de livro-reportagem?
Essa crítica já foi mais forte no passado. Hoje, uma boa parte dos historiadores, especialmente aqueles que eu mais admiro, já entenderam que o meu papel não é banalizar ou desqualificar o estudo de História, mas contribuir para o aumento do interesse por essa disciplina. Acredito também (e acho que já disse isso em uma entrevista ao Diário) que historiadores e jornalistas têm muito a aprender uns com os outros. Historiadores podem ensinar aos jornalistas método e disciplina na pesquisa. Os jornalistas, por sua vez, tem contribuição de linguagem e estilo a dar no ensino e na divulgação do conhecimento da história. O Brasil está mudando rapidamente, para melhor, em quase todas as áreas – e isso não é mérito individual de nenhum governo. É resultado do exercício continuado da democracia por quase três décadas, uma experiência inédita em nossa história. Estamos colhendo, finalmente, os frutos da participação de todos os brasileiros na construção da nossa própria história. Hoje temos, entre outras melhorias, mais renda, mais empregos, mais educação e oportunidades do que trinta anos atrás. Uma das consequências é o aumento no número de leitores e o crescimento do mercado editorial brasileiro. Há novos leitores entrando nesse mercado, o que impõe novas responsabilidades para nós, escritores, editores e distribuidores de livros. Temos de ser generosos com esse novo leitor, de modo a atrai-lo definitivamente para o fascinante mundo dos livros. O grande desafio é ampliar o interesse do público pela História sem banalizar o conteúdo. Essa é uma linha tênue e perigosa. Se o autor ficar só na superfície e na banalidade, o livro não oferecerá contribuição alguma, será irrelevante. Se, ao contrário, der um mergulho muito profundo, não conseguirá prender a atender desse leitor menos especializado. Mas entendo também que esse é o desafio permanente do bom jornalista.

Após pesquisar tanto o nosso Brasil, consegue encontrar algumas respostas para o que acontece hoje especialmente na política e no modo como a corrupção parece ser sistêmica no País?
Basta ler o noticiário todos os dias para perceber que o Brasil tem uma república mal-amada. Os brasileiros não se reconhecem na sua república porque o regime, ao longo de mais de um século, falhou em cumprir muitas de suas promessas, incluindo o combate à corrupção. Muito do que ocorre hoje no Brasil, incluindo as manifestações de rua, tem raízes nessa distância entre as promessas e os sonhos republicanos. O brasileiro participou pouco da construção do Estado Nacional. Por isso, essa sensação de estranheza entre Estado e sociedade que se observa hoje. Os brasileiros não se reconhecem no que está em Brasília. Querem um País melhor, mais eficiente, mais ético e menos corrupto. Acredito que isso seja também resultado de uma experiência inédita na nossa história, que são os quase trinta anos de democracia, sem rupturas. A Campanha das Diretas de 1984 poderia ser considerada uma segunda Proclamação da República, promovida não pelos quartéis mas pelas ruas. As manifestações de rua fazem parte dessa nova equação política em que o povo brasileiro reivindica, finalmente, o direito de participar ativamente da organização do futuro, incluindo o combate à corrupção. É uma jornada difícil e tortuosa, às vezes até assustadora, mas não existe outra forma de construir um País no qual todos os seus cidadãos se reconheçam.

Após conhecer tanto do nosso passado, consegue encontrar algumas possíveis respostas para a resolução de nossos problemas?
Acho que não devemos perder as esperanças em um Brasil melhor. As pessoas estão, de fato, muito frustradas e chateadas com os rumos atuais da política brasileira. Duas grandes tentações nos ameaçam no futuro próximo. A primeira é o cinismo que diz ‘tudo mundo rouba, então eu também posso roubar’ ou, em outra versão, ‘no passado todos roubaram, por que eu não posso roubar agora?’ Esse tipo de argumento é inaceitável porque nos leva a segunda tentação, segundo a qual ‘o Brasil seria ruim por natureza, corrupto, violento e desigual. Por isso, não adianta lutar porque o País não tem jeito’. Então, o melhor seria nos acomodarmos na situação atual e seguir em frente. Isso seria jogar a toalha e abrir mão dos nossos próprios sonhos. Não podemos desistir. A jornada rumo a um Brasil melhor, mais justo e mais honesto será longo e difícil, mas nós temos de fazer parte dela com todas as nossas forças e convicções. Esse esforço começa dentro de casa, nas escolas, nas empresas, nos relacionamentos pessoais e em todos os aspectos das nossas vidas públicas e privadas. Acredito que o Brasil tem jeito, sim, e pode melhorar. A maioria das pessoas que conheço são honestas, corretas, trabalhadoras e bem intencionadas. Se somos assim na maioria por que o País também não poderia ser?

*Parte da entrevista publicada nesta terça-feira no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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José Castello dá entrevista falando sobre Rubem Braga

Rubem Braga completaria 100 anos de idade no último sábado (12) se vivo estivesse. O escritor e jornalista José Castello, autor do livro “Na Cobertura de Rubem Braga” (que será relançado mês que vem pela José Olympio) concedeu entrevista comentando sobre o mestre da crônica, sobre sua vida, obra e os cronistas contemporâneos. Leia:

Como foi o processo de organização do livro “Na Cobertura de Rubem Braga”, que será lançado em fevereiro?

José Castello – Na verdade, trata-se – até onde sei – apenas de uma edição comemorativa do livro lançado em 1996 pela mesma JO. Digo “até onde sei” porque falo do texto, não sei dizer se houve modificações na capa, nas imagens, na parte gráfica etc. Quanto ao livro, a ideia não foi minha, na verdade, mas da própria Maria Amélia (editora do grupo). Em um encontro na editora, ela comentou comigo que adorava a cobertura deixada pelo Braga (àquela altura já morto) e achava que ela até daria um livro. Ela já tinha até um nome na cabeça: “Na cobertura de Rubem Braga”. Imediatamente, eu lhe disse que queria escrever o livro e adotei o belo título que a Maria Amelia inventou.

Fiz uma visita à cobertura, ciceroneado pelo Roberto, filho do Braga. Entrevistei uns poucos amigos. Mas a base de minha pesquisa foi mesmo a releitura das crônicas do Braga. E também a leitura de 800 crônicas inéditas que ele escreveu para a “Revista Nacional”, editada por seu amigo Mauritônio Meira. Não chegam a ser bem crônicas, era uma coluna de notas breves – mas todas escrita no formato de pequenas crônicas. Nunca pretendi escrever uma biografia do Braga. Meu projeto foi sempre o de escrever uma crônica sobre o cronista e suas crônicas. O feitiço contra o feiticeiro…

Pelas informações coletadas, o que diria da vida e obra do Velho Braga?

Braga é o fundador da crônica moderna brasileira. A crônica, tal qual a conhecemos, é na verdade um gênero brasileiro. Foi criada por uma geração fabulosa de escritores de nosso século 20, que inclui também o Nelson Rodrigues, o Carlos Drummond, a Clarice Lispector, o Paulo Mendes Campos, o Sérgio Porto, o Fernando Sabino, o Otto Lara Resende e tantos outros. Braga foi, na verdade, o consolidador do gênero, seu grande mestre. Nelson fez crônica, mas fez teatro. Clarice fez crônica mas fez romances. Drummond fez crônica, mas fez poesia. Braga, entre todos eles, foi o único que se dedicou integralmente à crônica e, por esse motivo, eu penso, tornou-se seu grande mestre. A crônica é um gênero anfíbio, entre o jornalismo e a literatura. Os jornalistas veêm os cronistas com desconfiança, eles lhes parecem mentirosos e fantasiosos. Os escritores também: eles lhes parecem apegados demais às circunstâncias e, além do mais, venais – já que crônicas são escritas, quase sempre, primeiro por encomenda, para jornais e revistas, e vendidas por unidade. A crônica tem um pé no real, outro na fantasia, e é isso que a define e que lhe garante a autonomia como gênero literário.

Por que resolveu fazer o livro em forma de dicionário? Braga e suas crônicas preenchem dicionário de A a Z?

A ideia do dicionário me surgiu por acaso. Na verdade, quando comecei a fazer minha pesquisa e minhas leituras, resolvi organizar o material por temas, para me facilitar na hora de escrever o texto final. Decidi então organizá-las por verbetes, como um dicionário. Um dia, muito tempo depois, relendo minhas pesquisas (meus verbetes), percebi que aquele dicionário era, na verdade, meu livro – e não uma pesquisa para o livro! O acaso ajuda muito um escritor, sempre dei grande importância a ele.

O que pensa sobre a importância do cronista para a história da literatura brasileira?

Braga é importante, sobretudo, para a história de nosso cotidiano. Veja, muita gente diz que ele foi correspondente de guerra. Sim, de fato foi enviado para o front da guerra, em 1944, pelo Diário Carioca. Mas não fez reportagens de guerra, não atuou como um repórter, não se preocupou com os grandes temas da guerra, mas com os pequenos dramas e acontecimentos humanos. O objeto do cronista (como de qualquer escritor, e por isso crônica é literatura) é o singular, o particular, o pequeno, e não o geral. Ele não é um cientista, mas um ficcionista que decide, armado com os poderes da ficção, enfrentar o real.

E sobre os cronistas atuais? São todos devedores do grande estilo de Braga?

Cada um segue seu caminho. Pense em João Paulo Cuenca, Luis Fernando Veríssimo, Eliane Brum, Humberto Werneck. Aqui no Paraná temos dois cronistas de imenso talento: Rogério Pereira e Luis Henrique Pellanda. Pois bem: para cada um a crônica é uma coisa diferente. Cada um – exatamente como fazem os romancistas – escreve no seu estilo, adota seu caminho. Agora, sem dúvida, ninguém se torna um bom cronista sem ler os grandes cronistas do século 20, em particular o Braga.

Faltam Velhos Bragas hoje em dia na crônica brasileira?

Os tempos atuais não são muito adequados à crônica. Vivemos o tempo da hipervelocidade – e a crônica é o território da lentidão. Vivemos o tempo das imagens – e a crônicas se interessam pela introspecção. Vivemos em um mundo muito agitado e agressivo, e a crônica se interessa pela lentidão e pela contemplação. Mas, pensando bem, talvez a potência da crônica hoje possa ser ainda maior. A crônica e os cronistas, hoje, trafegam na contramão – e por isso, certamente, têm um senso crítico muito aguçado a respeito do presente, têm muita coisa importante a dizer sobre ele.

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Política burra

A reunião finalmente fora marcada: dia 18 de setembro, às 19h10. Só faltava, agora, o apoio necessário dos discentes. E, para surpresa de muitos, alunos do curso de Comunicação Social (Jornalismo e Publicidade e Propaganda), de uma faculdade de Maringá, lotaram a sala e participaram ativamente da assembléia de fundação do Centro Acadêmico de Comunicação Social (CACS). Pelo fato de não haver registros de centros acadêmicos fundados por alunos, os boatos contados pelos corredores eram de que sempre existira uma forte repressão por parte da instituição, que não apóia e nunca apoiou este tipo de organização política na academia.

Mesmo assim, o CACS nasceu. Reclamações a parte, fato é que os alunos devem comemorar esta conquista política. Afinal, reivindicar ou simplesmente se abstrair do processo é fácil. Difícil mesmo é conseguir se organizar e lutar por seus direitos dentro de uma instituição de ensino, ainda mais sendo particular. Como foi bonito ver aqueles estudantes interessados em mudar o que consideram errado no curso. Muitos deles, escolhidos democraticamente por meio do voto, disponibilizaram-se a atuar na gestão provisória do CACS, que ficará no pleito até abril de 2009, período em que haverá eleições para a escolha de uma nova chapa.

Ter consciência política talvez seja um dos maiores desafios do nosso País. Só assim, finalmente escolheremos os candidatos sérios e compromissados em atender as demandas da população, esquecendo-se dos interesses individuais ou de pequenos grupos privilegiados da sociedade. Mas, infelizmente, percebe-se que há, por parte das pessoas, um verdadeiro deboche quando o assunto é política. E a culpa desse descaso vem da maioria dos administradores públicos que, no palanque, é hipócrita, e no cargo, é corrupto.

Esse desinteresse pela política não acontece apenas em classes mais desfavorecidas. Quando do surgimento do CACS, na faculdade, em que grande parte das pessoas tem poder aquisitivo médio ou alto, não foram poucos os alunos que simplesmente ignoraram ou desmereceram o centro acadêmico. Até professores pareciam estar desacreditados com o êxito dessa luta. Seria um reflexo do momento pobre das campanhas políticas exercidas pelos prefeituráveis de Maringá?

A escassez de debates, as propostas utópicas, a lengalenga nos discursos, os “laranjas”, a demagogia, os processos judiciais nas costas, tudo isso não estaria desmotivando de maneira geral a população? Certo estava Bertold Brecht (1898-1956), poeta e dramaturgo alemão, ao escrever o excelente texto “Analfabeto Político”:

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nascem a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”.

*Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 23 de setembro de 2008, na coluna Crônico.

**Até onde sei, o CACS não foi para frente. Houve apenas uma reunião inicial, um entusiasmo inaugural e nada mais naquele projeto que seria inovador para Maringá: um centro acadêmico atuante no curso de Comunicação Social em uma faculdade privada na cidade.

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Inscrições abertas para pós de Mídias Digitais

A partir de semana que vem estará disponível no site do Cesumar a página para a inscrição do curso de pós-graduação para novas turmas de Mídias Digitais, coordenado pela jornalista e professora Ana Paula Machado Velho e que acontecerá entre agosto deste ano e julho de 2013, quando haverá a defesa dos projetos práticos desenvolvidos.

É mais uma opção (na verdade, quase não há opções na cidade) para os jornalistas de Maringá e região se especializarem em alguma área do jornalismo. Com o forte crescimento do webjornalismo, o curso pode ser uma boa pedida para quem pretende trabalhar conciliando jornalismo e internet.

O curso é dirigido a gestores dos departamentos de marketing; profissionais que geram conteúdo por meio das mídias digitais (blogueiros, videomakers, podcasters, animações, dispositivos móveis); profissionais de planejamento, mídia e atendimento nas agências de publicidade, comunicação e marketing; profissionais de veículos de mídia off-line e on-line; jornalistas, relações públicas, executivos, editores, empreendedores, gerentes e estudiosos da comunicação.

As aulas serão oferecidas aos sábados (manhã e tarde). O investimento é de 18 parcelas de R$ 280. Ex-alunos do Cesumar têm desconto de 10%. Convido aos amigos jornalistas a se inscreverem na pós para que não aconteça igual no começo do ano, quando infelizmente a turma não foi fechada por falta de alunos interessados. Eu tô dentro.

Outras informações pelo site do Cesumar ou pelo e-mail: [email protected]

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Sobre leitura, imprensa e outras questões de Borges

“Ele me disse:

– Agora você vai ver uma coisa que nunca viu.

Estendeu-me com cuidado um exemplar da Utopia de More, impresso na Basileia em 1518, no qual faltavam folhas e lâminas.

Não sem fatuidade repliquei:

– É um livro impresso. Em casa haverá mais de dois mil, embora não tão antigos nem tão preciosos.

Li em voz alta o título.

O outro riu.

Ninguém consegue ler dois mil livros. Nos quatro séculos que vivo não terei passado de meia dúzia. Além disso, não é importante ler, mas reler. A imprensa, agora abolida, foi um dos piores males do homem, já que tendeu a multiplicar até a vertigem textos desnecessários.

-No meu curioso ontem – respondi -, prevalecia a superstição de que entre cada tarde e cada manhã acontecem fatos que é uma vergonha ignorar. O planeta estava povoado de espectros coletivos, o Canadá, o Brasil, o Congo Suíço e o Mercado Comum. Quase ninguém conhecia a história prévia daqueles entes platônicos, mas, sim, os mais ínfimos pormenores do último congresso de pedagogos, a iminente ruptura de relações e as mensagens que os presidentes mandavam, elaboradas pelo secretário do secretário com a prudente imprecisão que era própria do gênero.

Tudo isso era lido para o esquecimento, porque em poucas horas era apagado por outras trivialidades”….

…”As imagens e a letra impressa eram mais reais que as coisas. Somente o publicado era verdadeiro. Esse este percipi (ser é ser percebido) era o princípio, o meio e o fim de nosso singular conceito do mundo. No ontem que me tocou, as pessoas eram ingênuas; acreditavam que uma mercadoria era boa porque assim o afirmava e repetia o seu próprio fabricante. Também eram frequentes os roubos, embora ninguém ignorasse que a posse de dinheiro não dá maior felicidade nem maior tranquilidade”.

*Trechos do conto “Utopia de um homem que está cansado”, extraído do “Livro de Areia” (Coleção Folha, página 72), de Jorge Luis Borges. Não dá nem para comentar a lucidez dessas palavras de Borges. O próprio, no epílogo do livro, escreveu: “‘Utopia de um homem que está canasado’ é, a meu ver, a peça mais honesta e melancólica da série”. Um dos melhores contos que já li. Recomendo!

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Santos FC contrata estagiário de Jornalismo

O Santos FC está selecionando um estagiário na área de Jornalismo.

Requisito: frequentar entre o 2º e o 3º anos de curso.

Fluência em idioma estrangeiro e experiências serão diferenciais.

Jornada: 30h semanais.

Benefícios: bolsa auxílio + VT + a experiência de trabalhar em um dos maiores clubes do mundo.

Para tentar a vaga, envie currículo + texto de até 2 mil caracteres para o e-mail: [email protected]

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Cheirando jornalismo*

Ele não aguentava mais viver a loucura diária do telejornalismo. Depois de ganhar os principais prêmios como jornalista investigativo e ainda cobrir meia dúzia de guerras pelo mundo afora, queria um pouco de paz. Ao mesmo tempo, queria também dar conta do recado, já que acabara de conseguir um novo emprego, em uma outra emissora de televisão. Resolveu, então, cheirar umas fileirinhas de pó para se manter ligado.

Conseguir a droga foi fácil, pois sua agenda de contatos perniciosos era extensa. Os marginais achavam chique dar entrevista a ele, que parecia não ter medo de bandido. O jornalista só não esperava, um dia, cair em uma cilada, em um flagrante premeditado. Logo ele – um jornalista de credibilidade.

O fato é que juntamente com o vício estimulante de cheirar cocaína, surgiu na vida do jornalista um caso de amor com a senhora que intermediava seu mundo burguês com o mundo sujo do tráfico. Ambos se divertiam fazendo fileirinhas sobre a mesa transparente de vidro; achavam legal improvisar um tubinho com um dólar lembrando alguns filmes norte-americanos.

Mas a fase boa do casal passou. Embora precisasse da droga para continuar mantendo seu pique de guerra na busca por fontes inimagináveis e entrevistas bombásticas, o jornalista tinha consciência de que seu verdadeiro mundo ainda era o dos burgueses. Consequentemente, teria de manter as aparências e, sendo assim, arranjou uma namorada quinze anos mais nova, com um belo sobrenome pomposo.

Isso bastou para que o amor da companheira de pó do jornalista virasse ódio mortal. Prometeu para ela mesma que mancharia a irretocável imagem de “jornalistazinho modelo”. Ligou para ele e o seduziu com dez papelotes, da “boa”. Armou o flagrante e esperou ver o circo pegar fogo para começar a dar entrevistas reveladoras na grande imprensa. Deixou combinado que esclareceria os fatos no excelente programa televisivo de Luciana Gimenez.

Embora tivesse caído na tentação e ter acreditado que conseguiria gramas de pó facilmente, o jornalista sabia muito bem como se livrar dessa enrascada. Caiu na risada quando recebeu de presente um livro de auto-ajuda de uma senhora que dizia ser sua fã. Embora não tenha conseguido entrar na prisão, ela fez questão de declarar que acreditava na inocência de seu jornalista preferido.

Ele foi solto. Em depoimento, disse ter sido obrigado a cheirar pó para conseguir êxito na busca por fontes. Seu programa, mais do que nunca, é sucesso de audiência. No desespero, a ex-amante do jornalista se queimou na mídia ao armar um barraco no Superpop. Agora, entre uma reportagem e outra, o jornalista arranca as folhas do livro “Minutos de Sabedoria”, único presente recebido na prisão, para fazer tubinho e cheirar carreiras estimulantes de cocaína sobre a mesa transparente de vidro.

*Conto publicado no blog A Poltrona em 23 de abril de 2008.

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Corrida contra relógio para fazer jornalismo*

Despertador tocando parece britadeira trabalhando. Mesmo assim, perco a hora – ela sempre me foge às mãos. Por conta do atraso, cuspe no canto dos olhos, remela tirada com o dedo, balinha de hortelã e um gole de café antes de sair para entrevistar a doutora, que não tem doutorado, apenas residência.

Uma dúvida cruel vem à cabeça: ir de moto ou voando? Fosse São Paulo, poderia pegar engarrafamento de helicópteros; aqui em Maringá, o máximo que pode acontecer é um pequeno choque com pássaros ou macacos voadores do Parque do Ingá. Além do mais, mamãe sempre alerta que andar de moto é perigoso e, ultimamente, motoqueiros têm viajado com certa freqüência ao cemitério.

O exercício tradicional de “esquentar banco de consultório” aconteceu mais uma vez. Soubesse da demora, tinha pelo menos escovado dentes e penteado o cabelo. Ainda bem que jornalista já tem fama de desleixado, o que não deixa de ser verdade, tirando o pessoal da televisão, que se derrete em maquiagem nas entrevistas ao ar livre, em pleno sol do meio-dia.

Recebo uma chuva de conhecimentos vitais ao ser humano, lendo revistonas como Caras e Contigo; entedio-me ainda mais e apelo ao vício: um cigarro, dois cigarros, sete cigarros – adoro ficar contando cigarros que ainda restam na cartela.

Depois de conseguir msn, orkut, telefone e posição sexual preferida da secretária, além de tomar dois copinhos de água mesmo sem ter sede, finalmente fui atendido pela médica. Foi quando percebi que tinha esquecido o gravador. O jeito era apelar para o jornalismo clássico com caderneta e caneta na mão e memória ativada. Ela falou tanto e tão rápido que tive de utilizar uma técnica apelativa, a de desfocar o assunto da entrevista para que, enquanto ela falasse sobre este assunto que não me era importante, anotasse o que havia dito outrora e que poderia ser utilizado na reportagem. Sorte ter lido Caras, pois a médica adora falar do Castelo de Caras.

Na corrida contra relógios chego em último lugar, toda vez. Por isso, de uns tempos para cá, sempre que tenho oportunidade, quebro os relógios que encontro. Esses dias, no Bar do Zé, quase apanhei por tacar uma garrafa de cerveja no charmoso relógio com marca de cigarro e carros de fórmula um. Expliquei que gostaria de ficar mais tempo no bar, mas que se chegasse àquela hora em casa, minha garota ia dar nos nervos.

Tenho de escrever ainda a reportagem. É hora do almoço e preciso comer para agüentar de pé até à noite, período que freqüento a faculdade. Em ritmo de escala de produção, dou três garfadas e escrevo uns 220 caracteres (com espaço), em média meio parágrafo; mais três garfadas e mais 220 caracteres. E assim, termino de almoçar, mas não de escrever. Ainda tenho a madrugada depois da aula, horário em que o silêncio grita e a folha em branco cria vida, obrigando-me a escrever vertiginosamente.

Não entendo certos fenômenos que ocorrem de madrugada. Por que o galo canta, sendo que o sol nem nasceu? Por que os “filhinhos-de-papai” derrapam pneus dos carrões e ainda ficam gritando pela janela do automóvel? Por que a descarga do vizinho de cima é tão barulhenta neste horário? Por que tenho medo de ir lá fora, sendo que, aparentemente, nenhuma pessoa está na rua?

E o relógio continua trabalhando; não pára um minuto; seu ritmo é acelerado e o tic-tac vira harmonia dos desesperados. Dia desses, um jornalista havia me dito que o título da reportagem é a parte mais dolorosa de se criar. É verdade, tanto é que já se passaram horas e meu título, ou não atinge os 36 caracteres obrigatórios ou ultrapassa os 40. O jeito é tentar fazê-lo com duas linhas. Deu certo. Porém, ainda falta algo para concluir meu texto e o tempo que tinha para repor energias e descansar para mais um dia de cão já era.

Sorte que tive uma idéia brilhante. Para quê ser inimigo do tempo, assassinando os pobres relógios que vejo? Viro amigo do funcionário proletariado do tempo e, depois de soltar minha lábia, o bom e velho relógio de casa aceita que eu atrase seus ponteiros. Estranho é que, mais uma vez, cheguei atrasado ao serviço.

Finalmente entrego minha reportagem que vai compor o jornal. O assunto diz respeito à vida corrida de estudantes universitários, que abrem mão de sono e alimentação para conciliar estágios, aulas, trabalhos, provas, festas, garotas. Acho que, no fundo, pela correria, a reportagem não saiu das melhores. Mas, valeu a experiência. Pensando bem, acho que talvez sirva até mesmo para mim.

*Crônica publicada no ano de 2008 em A Poltrona.

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Jesus, negro, feliz com sua moto*

Quando o descarregador e vendedor de verduras Jesus Benício Cardoso, 44, chegou ao prédio de O Diário, na avenida Mauá, o ronco do motor e o som dance que saía de um antigo toca-fitas foram chamarizes para alguns repórteres, editores e fotógrafos, aguçados pela curiosidade, darem uma escapadinha da redação e ver de perto o curioso meio de locomoção que acabara de estacionar em frente.

Uma motocicleta invocada, com mais de 50 acessórios, incluindo cabeças de bonecas, placa de táxi, esporas, chuveiro, alto-falantes e outros penduricalhos mais, que deixam a Motovi, ano de 1977, 125 cilindradas, pesando 150 quilos a mais do que o seu peso comum, é a grande paixão de Jesus, é o que lhe representa liberdade, é um sonho realizado há 24 anos (quando conseguiu comprar a moto), é o meio que o leva a pelo menos seis encontros motociclísticos por mês, realizados em um raio de até 400 quilômetros de distância.

Pode parecer impossível, mas Jesus também consegue pendurar em sua moto réplicas de bichos, como sapos, pererecas e cobras, talvez suas companhias imaginárias, já que ele não segue nenhum grupo de motoqueiros, preferindo pilotar sempre sozinho. Se perguntarem por aí o que é “Animais do Asfalto”, graças aos seus répteis, é bem certo que dirão se tratar daquela moto.

É inevitável, quando Jesus está pilotando, não deixar de olhar para o seu meio de locomoção. Mas, acreditem, a história desse trabalhador, que diz saber ser negro e motociclista o suficiente para se desvencilhar dos preconceituosos, que foi em busca do seu sonho de liberdade por meio da velocidade sobre duas rodas, é mais intrigante do que a própria moto. Quando se conhece um pouco melhor Jesus, o velho e sábio ditado, aquele que diz que as aparências enganam, vem a calhar de uma maneira surpreendente.

*Continue lendo esta matéria, que saiu no caderno de Automotor de O Diário do Norte do Paraná.

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