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Poesia sim, dentro e fora do livro

Laércio Souto Maior, ontem, na UEM: hoje, noite de autógrafos no Sesc (Foto de João Cláudio Fragoso)

Laércio Souto Maior, ontem, na UEM: hoje, noite de autógrafos no Sesc (Foto de João Cláudio Fragoso)

Por Wilame Prado

“Será Que É Poesia?” (Editora Banquinho, 100 páginas, R$ 50), do advogado, jornalista e escritor pernambucano radicado em Curitiba Laércio Souto Maior, 76 anos, é um livro para se apreciar como um todo. Além do conteúdo – poemas escritos entre 1962 e 2014 -, o apuro editorial resultou em uma publicação que vale também pelo que está do “lado de fora”, a começar pela capa, dura revestida em tecido, encadernada artesanalmente e com serigrafia assinada por Júlian Imayuki Duarte.

Sobre o processo como um todo da obra, a reportagem conversou, ontem, com o autor e também com o filho dele, Téo Souto Maior, diretor de redação da Banquinho Publicações. Os dois chegaram há alguns dias na cidade para o lançamento de “Será Que É Poesia?”, marcado para hoje, às 20 horas, no Sesc.

O livro, com tiragem de 200 exemplares numerados, foi lançado, primeiramente, em Curitiba, no ano passado. Na noite de autógrafos desta noite, em Maringá, o violonista clássico Antônio Mendes faz um pocket show. A entrada é franca, e o lucro resultante das vendas dos livros será revertido para o fundo da Associação dos Amigos do Arquivo Manoel Jacinto Correia.

“Eu nunca tinha visto um livro assim”, destaca Souto Maior, demonstrando ter aprovado a edição feita no primeiro livro de poesia dele. Autor de obras da área de Política, História e Sociologia, ele resolveu tirar do baú, pela primeira vez, os versos guardados, por cinco décadas, em cadernetas, guardanapos e rascunhos. “Eu deveria ter sido arquivista. Guardo muita coisa”, ressalta.

Mais do que pedaços de papel escritos, Souto Maior guarda as lembranças de toda uma vida cercada pela luta na militância política contra o regime militar e também os anos em que, antes de iniciar carreira jurídica, foi jornalista, inclusive aqui no jornal O Diário do Norte do Paraná, quando, nos anos 1970, chefiou a redação durante oito meses.

Na entrevista, ele contou histórias de bastidores instigantes envolvendo a prática de um jornalismo que prezava, sobretudo, pela liberdade dos brasileiros, em plena ditadura. “Na época, fui demitido três vezes a pedido de governadores de Estado”, revela. Momentos marcantes e traduzidos também em poesia.

Segundo o poeta Alexei Bueno, que assina uma das apresentações da obra, há, pelo menos três linhas poéticas em “Será Que É Poesia?”. Uma é a política, mas Souto Maior também se aventura na vertente filosófica e ainda na figura feminina, segundo Bueno. “A Literatura é algo maior e é tão importante para mim como toda a minha luta política”, define o escritor, que deixou para transformar em poesia apenas os momentos mais marcantes da vida dele.

Para Ademir Demarchi, escritor e cronista do Diário, Souto Maior traz uma novidade ao revelar as poesias, tal qual o menino da capa do livro, que parece voar enquanto deixa a maleta se abrir para inúmeros papéis se perderem no ar. “… só não é uma novidade total na biografia dele porque nos poemas encontramos impregnado o mesmo sentimento humanista de luta e de indignação com a miséria e a exploração”, opina.

A poeta e professora Norma Shirakura aponta a poesia de Souto Maior como “crônicas em versos”. “Quanto à forma, são apresentadas algumas regularidades que me parecem despontar nelas o nascedouro de seu estilo próprio, com tendência para construção de narrativas em poema longo, tendo como matéria básica a memória. Entrelaçados por esse fio condutor, o poeta e o historiador não se separam”, avalia.

Envaidecido com as palavras dos amigos, Souto Maior, aposentado há dois anos da carreira jurídica no Governo do Estado, ainda tende ao questionamento: “Será que é poesia?” Sendo ou não, comemora o tempo maior que hoje tem para as letras. Alguns dos últimos poemas foram escritos na merecida paz do descanso litorâneo, em Balneário Camboriú e no Pontal do Paraná.

E se, como o próprio diz, talvez não haja um segundo livro de poesia, outros gêneros literários estão garantidos: em primeira mão, Souto Maior anuncia que, no segundo semestre, lança “O Levante Anarquista da Vila de Trancoso”, o primeiro romance dele, também pela Banquinho Publicações.

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SERÁ QUE É POESIA?
Autor: Laércio Souto Maior
Editora: Banquinho Publicações
Noite de autógrafos
Quando: Hoje
Onde: Sesc Maringá, às 20h
Preço do livro: R$ 50

*Reportagem publicada nesta quinta-feira (5) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Lendas de Angelita (ou Agustine)

Ackley Serrano SoaresPor Wilame Prado

Reza a lenda que Agustine Hache nasceu e morreu. E reza a lenda que Angelita Machado, jornalista e escritora astorguense radicada em Maringá, também já tenha nascido e morrido diversas vezes em vida.

Angelita se recompõe em vida principalmente quando gesta seus livros. “Reza a Lenda” (Editora Multi Foco, 84 páginas, R$ 30) é o seu novo renascimento, livro que se propõe alternativo na forma e conteúdo e que tem lançamento marcado para esta noite, a partir das 19h, no Bendito Bistrô Café, Zona 4 de Maringá.

A exemplo de seus mestres literários – Machado de Assis, Olavo Bilac, Fernando Pessoa – Angelita adota o pseudônimo e assina a sua terceira obra com o pseudônimo Agustine Hache. As lendas nem sempre traduzem a realidade e, pelo menos no mundo da escritora e jornalista, Agustine sobrevive em forma de literatura.

“Há registro de quase dois mil pseudônimos de escritores brasileiros. ‘Agustine’ é um nome francês, nasci no mês de agosto. ‘Hache’ é Machado na mesma língua. Esse é o significado que, redundante, significa Angelita Machado”, explica.

“Reza a Lenda” começa com a seguinte frase de Agustine Hache: “Ninguém acredita no que falo, então resolvi escrever.” Angelita confirma que é assim na vida real, mas rechaça: suas palavras – ditas e escritas – são verdade. “Verdade”, aliás, é o nome do primeiro capítulo dos três (os outros dois são “Amor” e “Loucura) contidos no livro que ela lança hoje.

Em uma primeira e rápida visualizada, “Reza a Lenda” parece propor premissas – uma por página – extremamente complexas e que tentam explorar uma angústia existencialista e internalizada entre as indagações de Agustine Hache (autora ou personagem?) para com a vida, para com Deus, para com os demais seres humanos.

Pergunto para Angelita se o livro traz como proposta apresentar uma espécie de pequenas crônicas – uma por página – que se interligam para formar um romance (o livro sai pelo selo Desfecho Romances, da Multi Foco). E ela, ou melhor, Agustine, diz que não. “São crônicas e/ou fragmentos de um romance que ainda pode surgir”, revela, misteriosa. Como são misteriosos os anseios literários e o livro, de maneira geral, que Angelita apresenta hoje à noite.

A jornalista, em suas aventuras pelas palavras escritas, não entrega facilmente a sua ficção arraigada em realidades, parece preferir que os leitores ultrapassem camadas para se chegar à mensagem principal do trabalho escrito. Prefere histórias começadas com os dizeres “reza a lenda”. E anseia pela beleza poética literária, mesmo apresentando, para surpresa de muitos, um livro em formato de prosa.

Angelita Machado mora com os pais no Jardim Novo Horizonte, em Maringá. Vê no jornalismo e na literatura mais que profissões: missões. Aos 11 anos, escreveu “Palco da Vida”, o seu primeiro livro. Aos 12, quis ser filósofa. Aos 14, fez “Vidas de Minha Vida”. Passam-se 23 anos e o silêncio se interrompe com “Reza a Lenda”.

“Escrevo porque me liberta dos meus medos noturnos e matinais. Me liberta do preconceito das pessoas, da subjetividade alheia que é ao mesmo tempo um aplauso e uma vaia. Porque quando escrevo sou eu e Deus”, justifica. “Reza a lenda que (escrever) é um dom divino, e que Agustine aprendeu a escrever antes de andar.”

Desde nova, diz precisar encarar a sombra dos questionamentos acerca do que escreve: muitos duvidavam de que ela fosse a autora dos textos que mostrava. Menos o irmão mais velho, que, não sem espantos, foi o primeiro a acreditar na poesia de Angelita e a estimulá-la a escrever.

“Sou quem sou porque meu irmão mais velho, Claudiney Machado, entrou no meu quarto um dia e leu meus poemas e perguntou ‘você que escreveu isso?’, parecia surpreso. Respondi que sim. E ele, que é extraordinário, me abraçou. Este abraço foi o mais importante para a minha vida literária e jornalística.”

ISTO É AGUSTINE HACHE
Essa liberdade inquietante, boca seca, sentimento de pó. Agora é tão silencioso amadurecer e audacioso falar a verdade daqui para frente. A estúpida verdade de não ser quem eu quero, de não saber o que usar quando estou fora de casa. De não ser gente quando precisar ser. Sinto algo tão vivo e crescendo ao passar dos segundos é mais uma dessas verdades que não sei contar. E compreender que tudo não pode ser do meu jeito, e o que penso nem todos compartilham, e as reações então, não me parecem favoráveis – ao menos alérgicas – isso já é um conforto. Talvez um dos erros seja a esperança que eu tenho na vida. ///Trecho de “Reza a Lenda”, de Agustine Hache

SERVIÇO – HOJE
LANÇAMENTO DE LIVRO
Título: Reza a Lenda
Autora: Agustine Hache
Editora: Multi Foco
Número de páginas: 84
Preço: R$ 30
Onde: Bendito Bistrô Café
Endereço: Avenida Humaitá, 310, Zona 4
Quando: hoje
Horário: 19h

*Reportagem publicada esta quarta-feira (2) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Nelson Alexandre lança livro de poesia no Sesc

Por Wilame Prado

O escritor maringaense Nelson Alexandre lança o livro “Poemas para Quem Não Me Quer” (Editora Multifoco, 120 páginas) às 20h de hoje, no Sesc. A entrada é franca e o livro será vendido a R$ 34 na noite de autógrafos.

O lançamento que estava previsto para acontecer no mês passado na Casa da Vó Bar foi remarcado após a morte do professor Marciano Lopes, que assina a orelha do livro. O professor era também o organizador do evento literário que tinha o lançamento do livro como parte da programação.

À época, Nelson Alexandre lamentou a perda do professor de literatura: “O corpo vai…a poesia fica”, afirmou o ex-aluno e amigo de Lopes.

Em “Poemas Para Quem Não Me Quer”, o autor apresenta 40 poemas, a maioria escritos este ano. “São os meus poemas mais maduros”, disse, em entrevista recente.

O livro de poesia reúne textos inéditos com outros publicados em redes sociais e que serviram de termômetro crítico dos leitores que já acompanham Nelson Alexandre há pelo menos sete anos, desde a época em que o seu blog, o Encruado (nelsonalexandre.zip.net), era um dos locais preferidos para se encontrar literatura local de qualidade.

PARA LER
POEMAS PARA QUEM NÃO ME QUER
Autor: Nelson Alexandre
Preço: R$ 34
Noite de autógrafos
Quando: hoje
Horário: 20h
Onde: Sesc (av. Duque de Caxias,1.517, Zona 7)

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Elton Tada lança “A Cruz do Corpo”

O mestre em Ciências Religiosas, professor universitário e morador do Parque da Gávea, em Maringá, Elton Tada, 25 anos, lança amanhã o livro “A Cruz do Corpo” (Fonte Editorial, 156 páginas, R$ 32,90) nas Livrarias Curitiba, no Catuaí Shopping Maringá, a partir das 19h30.

Na obra, usa conceitos da Teologia da Cultura de Paul Tillich para traçar uma análise do livro de Clarice “A Via Crucis do Corpo” (1974), que reúne 13 contos sobre – segundo a própria autora – o cárcere social que mantém a mulher supostamente distante de seus desejos e fantasias. Ele diz encontrar, principalmente nesse livro, que foi mal recebido pela crítica e considerada obra marginal de Clarice, uma narrativa sem máscaras, cujo âmbito corporal como parte da condição humana é categoricamente trabalhado.

Esse é o destaque de hoje da edição do D+, caderno de entretenimento do Diário de Maringá. Leia abaixo a entrevista completa concedida por Tada:

Conte um pouco da sua história pessoal de vida, Elton. Sempre estudou na Metodista de São Paulo? Mora sozinho em Maringá? Onde mora a família? Quais atividades exercidas na cidade? E sua relação com a religião? Vai à missa ou ao culto? Enfim, conte um pouco da sua rotina.

ELTON TADA – Eu nasci em Fênix e fui criado em Engenheiro Beltrão, onde minha família ainda reside. Sempre que posso vou até lá ver meus pais, minhas irmãs e meus cinco sobrinhos. No ensino médio frequentei o antigo Cefet, hoje Utfpr de Campo Mourão. E esse foi o princípio de minhas constantes mudanças. Fui de Engenheiro Beltrão a Campo Mourão, depois fiz graduação em Maringá e pós-graduação em São Paulo. Aqui em Maringá estudei Teologia e filosofia. Meu mestrado e doutorado na Universidade Metodista de São Paulo são em Ciências da Religião.

Aqui em Maringá sou professor. Tenho lecionado em cursos de graduação e pós-graduação. Mesmo não participando ativamente, tenho proximidade com o GDI- grupo de diálogo inter-religioso de Maringá. Algo que tenho apreciado fazer é reservar algumas tardes para visitar senhores e senhoras japoneses internos do asilo Wajunkai. Tenho aprendido muito sobre cultura japonesa e cuidado com o próximo lá.

Já visitei e aceito convites para visitar igrejas em Maringá. Entretanto, não sou membro frequentador de nenhuma. Aprendi com meu pai a ser um frequentador de igrejas de base, ou seja, aquelas menores e mais simples, nas quais o contato com a comunidade é mais intenso. Fui criado e batizado na Igreja Presbiteriana do Brasil, mas costumo frequentá-la apenas em Engenheiro Beltrão.

Como foi o processo de aceitação da obra na editora? Que editora é?

Meu editor frequenta ambientes acadêmicos e sempre tem conhecimento do que há de mais novo nas pesquisas com a temática da religião ou em diálogo com a mesma. Ele já havia publicado alguns livros do meu orientador, professor Claudio Ribeiro. Quando lhe enviei o texto ele aceitou prontamente. A editora é a Fonte editorial, que apesar de não ser tão velha no mercado é atualmente uma das editoras que mais publica livros escritos por teólogos e cientistas da religião.

Como você classifica o livro? Um livro de religião? De literatura?

Essa é uma questão complicada. Eu classifico o livro como uma crítica, tanto da religião quanto da literatura. Entretanto, cada leitor poderá ler o livro de acordo com seus interesses específicos. Desse modo poderão identificá-lo tanto como um livro teológico, quanto como uma crítica literário ou um ensaio sobre a condição humana.

Quanto tempo demorou para finalizar a obra?

A pesquisa original foi feita no período do meu mestrado. Foram dois anos dedicados quase que exclusivamente a esse estudo. Já no ano passado, reservei cerca de dois meses para adaptar aquilo que tinha pesquisado e que estava em linguagem bastante científica, para o formato atual do livro.

Explique a escolha da arte da capa.

A arte da capa do livro foi um presente de uma amiga minha de São Paulo, Débora Ludwig. Além de ser artista visual, ela é filha de um padre Luterano e freqüenta círculos de militância contra a intolerância religiosa. Quando leu partes do manuscrito do livro, captou imediatamente o sentido da obra, e produziu a capa em poucos dias. Gostei bastante da capa, pois ela traz os elementos que trabalho no livro fugindo do que seria óbvio. O fundo da arte, que possui uma variedade de tons amarelados, nada mais é do que a sobreposição de papéis amassados e rasgados, que bem representa a função da literatura na vida cotidiana do ser humano.

Na sua opinião, que público mais vai apreciar o conteúdo do livro?

Acho que o pessoal de mente aberta em geral deve gostar da reflexão. Isso não implica na aprovação ou concordância. Acredito apenas que quem estiver aberto ao diálogo pode encontrar facilmente um interlocutor através do meu livro.

Você acredita em Deus? De que forma?

Eu iniciei meus estudos em teologia muito jovem, com 17 anos, e desde então tenho respondido a essa questão com certa frequência e sei que várias vezes fui mal interpretado e em outras não consegui explicar exatamente o que queria. Posso dizer certamente que acredito em Deus. Todavia, como teólogo tenho frequentado vários ambientes religiosos e me desagradam alguns adjetivos que dão a Deus. Em especial me desagrada ouvir que Deus é rei e pai. Creio que ambos adjetivos são consequências das carências do ser humano, e que não expressam ou expressam pouco do sentido mais profundo de Deus. Quando explico aos meus alunos a “oração do Pai nosso”, faço questão de salientar que ela só faz sentido quando feita no plural, ou seja, o pai é “nosso”, de nós todos, tanto do teólogo, do sacerdote, quanto do errante.

Costumo dizer que acredito em Deus como o fundamento incondicionado do ser, ou seja, nada do que o ser humano faça pode modificar Deus, mas tudo que somos é consequência daquilo que ele permite que sejamos n’Ele mesmo.

Por que unir literatura e teologia em um estudo de dois anos para o mestrado e, posteriormente, para a composição do livro?

A união desses campos de estudo é algo ainda pouco explorado. Eu gosto dessa característica por permitir que haja um horizonte muito amplo a ser explorado. A relação particular da teologia com a literatura é parte de um processo maior, que é o do diálogo da religião com a cultura em geral. Escolhi a literatura por acreditar ser o âmbito cultural que eu tenho mais domínio, mas admiro muito quem escolhe outros campos da cultura, como política e economia.

Por ser um livro inspirado no estudo do mestrado, é um livro mais técnico, com bastante referência e citações, ou tem um texto mais solto?

O meu livro foi adaptado propositalmente para se apresentar em uma fronteira bastante complexa, mas exatamente do jeito que eu gosto de escrever. O texto seria considerado muito livre para o ambiente acadêmico, mas talvez um pouco difícil para o leitor leigo. Dessa forma pretendo tirar qualquer leitor de sua zona de conforto. Faço com que se imprima no livro algo além dos pensamentos que tive, mas também a forma como tenho pensado.

Por que sentiu a necessidade de publicar o livro?

Inicialmente eu não tinha intenção de publicar livros antes do término do meu doutorado, que ainda está em curso. Entretanto, dois fatores me levaram a buscar a publicação nesse momento. Em primeiro lugar existe a necessidade de compartilhar o conhecimento adquirido. Eu mesmo julgo que a produção brasileira é ainda ridiculamente pequena perto do potencial de produção de nossos escritores. Sei que parte dessa defasagem é culpa do complexo processo mercadológico que envolve a publicação de um livro, mas acredito que muito é por falta de incentivo pessoal para a pesquisa e produção de livros. Desse modo, publico esse livro com intenção de somar a tudo que tem sido feito no âmbito da crítica teológica e literária. Em segundo lugar, sinto uma constante necessidade de melhora e para melhorar sei que preciso ser criticado. Hoje tenho 25 anos, ou seja, muito tempo hábil para a produção de textos na minha área, mas faço questão de ser no futuro um teórico melhor do que hoje. Por isso preciso dar a cara a tapa, e descobrir onde tenho errado e como posso fazer para melhorar.

Por que resolveu estudar as obras de Paul Tillich?

A identificação que tenho com o pensamento de Tillich é muito ampla. A partir do momento que conheci seu pensamento não consegui mais me afastar. Existem vários outros teóricos que gosto e estudo, sobretudo latinoamericanos. Mas é lendo Tillich que acredito estar mais próximo do tipo de teologia que eu mesmo pretendo fazer. Conheci Tillich por meio de um estadunidense que reside em Maringá há muitos anos, o Dr. Robert Newnum, um grande amigo.

Quais obras do autor influenciam o estudo e seu modo de enxergar a vida?

Paul Tillich tem uma autobiografia intitulada “On The Boundaries” (“Nas Fronteiras”), que é algo que me acompanha constantemente. Tillich foi criado em uma cidade com ares medievais, mas posteriormente residiu em Frankfurt, Marburg, Nova York e Chicago. Ele viveu nas trincheiras da primeira guerra mundial e depois freqüentou os mais altos círculos sociais da Alemanha e dos Estados Unidos. Ou seja, Tillich se via sempre entre dois mundos, na linha fronteiriça na qual ele poderia experimentar tanto uma realidade quanto a outra. Eu me identifico com isso em vários aspectos. Sobretudo pelo fato de ser descendente de japoneses. Meus amigos costumam me chamar de japonês, entretanto, os japoneses me consideram um brasileiro. Experimento um pouco de cada realidade por estar nessa linha fronteiriça, não sendo nem completamente uma coisa, nem outra.

Quais são os grandes estudiosos brasileiros de Tillich?

Tillich é pouco estudado no Brasil e sinto muito por isso. Existem teóricos que são amplamente estudados na academia brasileira e que são devedores de Tillich. Como exemplo posso citar T. Adorno, que foi uma espécie de pupilo de Tillich.

Há alguns anos faço parte da Sociedade Paul Tillich do Brasil. É um grupo muito bem organizado e que está em contato direto com as sociedades norte-americana, francesa e alemã de estudos sobre o autor. Nossa sociedade é presidida por um professor belga, Etienne Higuet, que estuda o pensamento tillichiano desde a década de 1960. Outros nomes podem ser citados, como Claudio Ribeiro, Eduardo Gross, Rui Josgrilberg, todos teólogos e membros da Sociedade Tillich.

O que te levou a traçar uma relação entre Tillich e “A Via Crucis do Corpo”, de Clarice Lispector?

“A Via Crucis do Corpo” foi um livro muito mal recebido pela crítica de Clarice Lispector. Ele possui esse caráter marginal. Eu poderia facilmente ter aplicado o pensamento de Tillich a uma das obras mais consagradas da autora, mas acredito que ele mesmo buscaria dar maior atenção àquela obra periférica, que ainda não foi tão bem analisada e que pode oferecer objetos ainda desconhecidos.

Com a preocupação que Tillich tinha no ser e no existir, considera-o um autor existencialista?

Considero Paul Tillich um autor de preocupação existencial. Desse modo, não há como confundi-lo com os pensadores da corrente existencialista protagonizada por Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre. Tillich é anterior à corrente hoje conhecida como existencialista e seu modo de pensar se aproxima mais do pré-existencialismo de Sören Kierkegaard e da filosofia artístico-dramática de Nietzsche.

Qual é a função do corpo para as ideias teológicas de Tillich?

O corpo não chegou a ser uma temática central do pensamento tillichiano. Todavia foi sempre um assunto paralelo, que não podia ser evitado em determinados momentos. Não há no pensamento de Tillich aquela clássica distinção abismal entre corpo e alma. Para ele, tudo que é transcendente é de um modo ou de outro devedor da experiência do corpo.

O corpo seria a perdição para se cometer pecados? O corpo é algo visto de maneira suja, de pouco valor quando comparado à alma?

Não. O corpo é o local no qual se pode cometer pecados justamente por que é nele que se dá toda a religiosidade. O corpo é princípio de toda existência e afeta a mesma diametralmente. Não fosse o corpo simplesmente não viveríamos.

Contou para mim que Tillich se permitiu analisar obras de arte, principalmente no campo das artes plásticas e da arquitetura, mas também na literatura. De que modo, em sua opinião, seria essa análise “tillichiana” no livro citado de Clarice?

Essa análise tillichiana da obra de Clarice é uma das coisas que constam em meu livro. Mas posso afirmar que Tillich iria se ater aos inúmeros questionamentos que Clarice faz sobre a vida e morte, e tentaria identificar nela sinais de coragem, medo e ansiedade.

Poderia citar algumas obras de arte analisadas e apreciadas por Tillich?

O mais famoso exemplo de apreciação artística feita por Tillich é sobre o quadro Guernica, de Pablo Picasso. Nele o autor diz ter identificado a expressão da maior forma de protesto do século XX. Para Tillich, Picasso retratou não apenas no conteúdo, mas principalmente na forma, a capacidade de destruir do ser humano e os rumos desumanos que atormentam as páginas da história do século passado. O autor pensa que sempre que se trata de uma expressão sobre o ser humano há ali também uma forma de expressão daquilo que é religioso.

Para quem é intrinsecamente ligado às artes, assistir a um filme bom ou ler um ótimo livro pode ser algo que substitua a religião, pode ser algo que purifica a alma, que estimula a pessoa a fazer o bem. O que, a seu ver, uma pessoa ligada aos estudos da teologia, assim como Tillich, poderia achar sobre essa “divinização” da cultura?

Tillich certamente aprovaria esse caráter. Entretanto ele não diria que há uma divinização da cultura, mas sim uma simples correlação entre eventos culturais e religiosos. Para Tillich a religião é a substância da cultura, assim como a cultura é a forma da religião. A própria biografia de Tillich nos mostra como funciona esse processo. Tillich diz ter se “convertido” ao ler Nietzsche em uma noite de bombardeios na França, durante a primeira guerra mundial, quando foi capelão militar do exército alemão. Ele conta ainda ter tido uma experiência de êxtase ao se deparar com o quadro “Madonna” de Botticelli.

Questões envolvendo a teologia são amplamente discutidas em obras literárias ou são raros os casos? Cite alguns.

Acredito que as questões teológicas são amplamente discutidas nas obras literárias, mas nem sempre são lidas através de prisma. Um livro que considero importante até para minha forma de fazer teologia é “Jesus a.C.” de Paulo Leminski. Veja a genialidade do autor paranaense de discutir literariamente como foi a vida de Jesus antes de sua jornada messiânica e de seu padecimento a cruz, ou seja, Leminski realmente nos dá a oportunidade de pesar como seria Jesus humano, antes de ser considerado o Cristo. Outros autores que tem sido estudados sob a temática da religião são Dostoievski, Guimarães Rosa, Cecília Meireles, Murilo Mendes, Saramago etc.

Acredita que, na literatura, a visão sobre a teologia é limitada, preconceituosa?

Acredito que a leitura que se faz dessas discussões na literatura é limitada. No Brasil em particular creio que há uma lacuna cultural a ser preenchida sobre a discussão de temáticas teológicas e religiosas. O ambiente universitário brasileiro é herdeiro de um caráter anti-religioso de origem iluminista que não sobrevive nem mesmo nas universidades que deram origem a esse tipo de pensamento.

E na sociedade como um todo? Mesmo sendo grande o número de evangélicos e católicos, acredita haver ainda muita falta de conhecimento relacionado ao estudo das religiões, da Bíblia e das questões metafísicas, transcendentais?

O ensino que se dá na nossa sociedade sobre questões religiosas é estritamente catequético, ou seja, de iniciação na fé. Note que os livros religiosos são produtos de consumo de massa no Brasil. Entretanto, como se ensina apenas para a manutenção dos fiéis, falta o conhecimento que permita o diálogo, o conhecimento daquilo que lhe é estranho, diverso. Nossa sociedade acolhe os mais diversos tipos de expressão religiosa, mas a maioria se mantém na defensiva, com medo de conhecer a tradição que lhe é alheia. Ainda reina o equivocado ditado que diz que sobre política e religião não se discute.

Fique à vontade para comentar o que quiser.

Sempre há música me inspirando em meu trabalho. Respondo a essa entrevista embalado pelo melancólico som de Radiohead.

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Em ‘Cão senso’, biólogo explica como pensa um cão

Em Cão senso, John Bradshaw reúne de forma simples e objetiva as pesquisas mais recentes sobre os cães, desmistificando conceitos do adestramento clássico e esclarecendo minuciosamente cada fato importante descoberto pela ciência moderna.

“Ao descortinar a vida interior dos cães, a nova escola da ciência do comportamento canino tem o potencial de proporcionar aos donos de cachorros novas maneiras de pensar sobre seus animais de estimação e de relacionar-se com eles”, afirma Bradshaw.

O fundador e diretor do renomado Anthrozoology Institute revisita as origens do cão e desconstrói a prática da zoologia comparada em que o comportamento do lobo é a referência para a interpretação das atitudes dos cães. Ele mostra que o primeiro é motivado pela vontade de dominar e o segundo pela ansiedade. John Bradshaw explora o que pode ser chamado de “força cerebral” dos cães e explica que “a nova ciência revela que eles são mais espertos e mais tontos do que sempre pensamos”

John Bradshaw é biólogo, fundador e diretor do renomado Anthrozoology Institute, baseado na Universidade de Bristol. Ele estuda o comportamento dos cães domésticos e seus donos há mais de 25 anos e é autor de vários artigos científicos, pesquisas e resenhas, que não apenas lançaram nova luz sobre as habilidades e necessidades caninas, mas mudaram a maneira pela qual os cachorros são compreendidos e cuidados no mundo todo. (Da assessoria da Editora Record)

Cão senso (Dog sense)

John Bradshaw

Tradução: José Gradel

Editora Record

406 páginas

Formato: 16 x 23 cm

Preço: R$ 49,90

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Maconha em lata jogada no mar é tema de livro

“Acabei de receber uma ligação de Brasília. Nós temos uma informação do DEA a respeito de uma embarcação que está transportando 22 toneladas de maconha. É um barco de bandeira panamenha: algo como Solon Star ou Solomon Star. O informe diz que o barco veio da Austrália e vai parar aqui no Brasil. Daqui o bagulho segue para Miami, em duas embarcações menores. A maconha está acondicionada em latas!”

A editora Barba Negra lança em julho o livro “Verão da Lata” do jornalista Wilson Aquino. O livro conta a história – que não é lorota não – do verão de 1987 em que uma embarcação panamenha despejou 22 toneladas de maconha no litoral brasileiro. E toda essa “materialidade” começou a desembocar nas praias do Rio de Janeiro e do litoral Norte de São Paulo.

A trama toda começou com um simples telefonema da DEA – ou Força Administrativa de Narcóticos, órgão de polícia federal do Departamento de Justiça dos Estados Unidos – para a Polícia Federal brasileira no dia 7 de agosto de 1987, avisando que uma embarcação deveria chegar à costa brasileira com um carregamento de maconha. Depois de dias de buscas, a Marinha e a Polícia Federal desistiram de encontrar o barco, que atracou tranquilamente na Baia de Guanabara com o nome de Solana Star, no dia 3 de setembro de 1987, e de porão vazio. O bagulho todo tinha sumido!

Mas o que os tripulantes não imaginavam ao despejar as latas no mar é que elas iriam boiar até a costa, fazendo a alegria dos banhistas e o desespero dos federais. Foram mais de 15 mil latas com média de 1,3 a 1,5 quilos de cannabis, misturada com mel e fechadas a vácuo que começaram a reluzir em águas brasileiras.

Wilson Aquino reúne neste livro fotos, depoimentos e entrevistas com pessoas que viveram esses dias do Verão da Lata, e algumas que inclusive testaram a “materialidade do delito”. Para muitos foi um fato desastroso, mas analisando com outros olhos – possivelmente vermelhos – foi um verão marcante, e em gírias mais atuais, um verão chapado.

 Ficha Técnica

 Título: Verão da Lata

 Autor: Wilson Aquino

 Formato: 16×23 cm

 Nº de páginas: 240

 Preço: R$ 44,90

Sobre o autor

Wilson Aquino nasceu no Rio de Janeiro, em 1962. Formou-se em Jornalismo pela Universidade Gama Filho, em 1986, e foi repórter dos principais jornais cariocas. Também trabalhou em rádio e no programa “Linha Direta”, da TV Globo. Ganhou, em 1996, o prêmio de Direitos Humanos da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), com uma série de reportagens denunciando o aumento de mortes praticadas pela Polícia Militar do Rio de Janeiro. Atualmente é repórter da revista IstoÉ. Ele não fumou a maconha da lata, mas ficou com vontade de experimentar.

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Como ter Charlene Flanders em suas mãos?

Obrigado a todos que foram ao lançamento do meu livro de estreia, “Charlene Flanders, que voava em seu guarda-chuva roxo, mudou minha vida”, na noite de quinta-feira (15). E peço desculpas pela falta de jeito com as palavras discursadas.

Quem não pôde ir ao lançamento e queira um exemplar, informo que em breve o livro estará sendo vendido nas melhores livrarias de Maringá.

E para quem não mora em Maringá, mande email no [email protected] para adquirir um exemplar do livro via postagem.

Fatos , , , , , , , ,
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Conheça a Charlene Flanders, que voava em seu guarda-chuva roxo

Endereço: Salão de eventos do Sesc. Avenida Lauro Eduardo Werneck, 531, Zona 07, Maringá.

Horário: 20h

Livro: Charlene Flanders, que voava em seu guarda-chuva roxo, mudou minha vida

Editora: LiterArte – um selo da Multi Foco

Número de páginas: 190

Preço especial para o lançamento: R$ 30

Obs*: não tenho maquininha de débito e crédito, tentarei ter, pelo menos, dinheiro trocado.

Obs2*: leve sua família, seu cachorro, sua sogra, seus tios, todo mundo, e ajude este pobre escritor estreante a vender alguns livros!

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