literatura



Vinte minutos, uma vida

Por Wilame Prado

O escritor paulista Daniel Galera contribuiu satisfatoriamente com a história recente do Brasil no romance “Meia-Noite e Vinte” (Companhia das Letras, 208 páginas, R$ 34,90). Como poucos na literatura contemporânea, explorou o contexto online brasileiro, do advento da internet em 1995 até janeiro de 2014, tempo vivido pelos personagens do livro, a partir do assassinato de Andrei Dukelsky, conhecido por Duque.

Na trama, Duque fora um dos criadores do fanzine digital Orangotango (inspirado no verídico Cardosonline, o qual Galera fez parte), vindo a se tornar realmente escritor. Aurora, Emiliano e Antero – amigos dele, também colaboradores do fanzine nos idos de 1999 – são os narradores em primeira pessoa de “Meia-Noite e Vinte”, todos abismados com a morte banal daquele que prometia ser um dos grandes escritores brasileiros.

Em cada capítulo, uma voz diferente. Primeiro, Aurora: doutoranda em Biologia que conheceu o pessoal do fanzine quando fazia Jornalismo e que, principalmente após a morte de Duque e após uma negativa numa apresentação acadêmica, se vê inserida na espiral do pessimismo dos tempos de agora, a qual lhe faz pensar no fim do mundo. Depois, Emiliano, jornalista freelancer mais velho, gay e que está incumbido de escrever uma biografia do amigo escritor morto. Por fim, Antero, um exótico inteligente da área de Humanas que, mais velho, casado e com filho, acaba ficando rico com o passar dos anos após fazer sucesso com a sua agência de publicidade.

Daniel Galera consegue convencer ao propor três modos diferentes de contar uma história cheia de pontos em comum, sempre direcionada à vida e obra de Duque. O contexto do romance se destaca mais que a história principal: a de três amigos que se reencontram numa Porto Alegre real e terrível – verão escabroso, fedida e cheia de greves – para um velório.

“Meia-Noite e Vinte” não é sobre amizade, porém: é sobre internet, hábitos de uma geração que começou com o ICQ e chegou ao WhatsApp e aos chats pornográficos, os perigos da literatura em meio ao que é banal e principalmente sobre o tempo que escorre das mãos, todos ficando velhos e cansados, mas ainda tão próximos e nostálgicos da época da juventude, da virada do milênio, anos 2000.

A história se aproxima do leitor porque, arrisco dizer, o leitor de Galera viveu boa parte daquilo narrado por Aurora, Emiliano e Antero. Ler “Meia-Noite e Vinte” é como ler a sua própria história recente, sentindo saudosismo e ao mesmo tempo refletindo amargamente o quanto tudo parece estar cada vez pior – ainda que com as facilidades flagrantes de uma vida pós-moderna que se esgota quase que inteiramente olhando para uma tela de smartphone.

É como se tivéssemos perdido a noção do tempo e, também, a queima de fogos tradicional da virada de ano, na meia-noite. Passaram-se vinte minutos, uma vida se passou.

ESTANTE
MEIA-NOITE E VINTE
Autor: Daniel Galera
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 208
Preço sugerido: R$ 34,90

*Resenha publicada no caderno Cultura do Diário em 24 de fevereiro de 2017

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Coluna Estante – Sobre Tezza

Por Wilame Prado

EM ALTA Cristovão Tezza, que mora em Curitiba, está com agenda cheia. Ele tem lançado pelo País o seu mais novo romance, “A Tradutora”.PONTE AÉREA O autor do premiadíssimo “O Filho Eterno” estava ontem em SP, mas retornaria hoje a Curitiba.

E MARINGÁ? A última vez que Tezza esteve em Maringá foi em 2010, pela Semana Literária do Sesc, atração que infelizmente não foi realizada este ano na cidade.

BEATRIZ DE VOLTA Em “A Tradutora”, a personagem Beatriz está de volta. Ela é a mulher pelo qual o escritor Paulo Donetti admite que cometeu um chamado erro emocional, o de se apaixonar por ela, no romance “Um Erro Emocional”, de 2010. A personagem também já foi usada em um conto antigo do catarinense e ex-professor da Universidade Federal do Paraná.

IMAGINE NA COPA A nova história de Tezza é passada em Curitiba, onde a tradutora Beatriz topa ser intérprete de um dirigente da Fifa que chega à cidade para a Copa do Mundo de 2014. Ela também está em meio a uma tradução de um livro catalão e, claro, em contato com o persistente Donetti, que, agora, solta uma dessas: “Não me deixe, preciso da minha leitora pela última vez”.

CRÍTICA GOSTOU Ainda não li “A Tradutora”. Preciso, antes, ler “O Professor”, romance de Tezza lançado em 2014. Mas li algumas críticas, como a de Vanessa Ferrari, da Folha, que avaliou “A Tradutora” como “Bom”.

MODERNIDADE LÍQUIDA Este trecho da crítica da Vanessa me instigou ainda mais a ler “A Tradutora”: “Há no romance a modernidade líquida de que fala Zygmunt Bauman, em que tudo evapora, está fragmentado e perde o sentido muito antes de se consolidar.”

NOITE EM CURITIBA Para fechar o papo sobre Tezza, lembro até hoje da expectativa que tinha em ler a obra mais comentada entre as catalogadas para o vestibular da UEM, o tocante “Uma Noite em Curitiba”, romance que estimulou muita gente a se interessar pelo universo literário. Valeu, Tezza!

*Coluna Estante sai às quintas-feiras no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Os sertões de ‘Outros Cantos’

Maria Valéria Rezende em sua casa, em João Pessoa (Foto de Rafael Passos)

Maria Valéria Rezende em sua casa, em João Pessoa (Foto de Rafael Passos)

Por Wilame Prado

A escritora santista radicada em João Pessoa Maria Valéria Rezende, 73 anos, demonstra domínio da linguagem e um olhar diferenciado para com os excluídos do sertão brasileiro no livro “Outros Cantos” (Alfaguara, 152 páginas, R$ 29,90). A publicação se deu graças ao patrocínio da Petrobras Cultural.

Ela, que, além de escritora é também freira, volta a publicar após ter vencido, ano passado, o Prêmio Jabuti na categoria Romance e Melhor Livro de Ficção do Ano com “Quarenta Dias”.

Em “Outros Cantos”, a personagem Maria – deflagradamente inspirada na vida da própria autora – está dentro de um ônibus leito retornando à cidade fictícia de Olho d´Água, no Nordeste brasileiro.

Junto dela, nada além de reminiscências que transportam a história para décadas atrás, quando a personagem foi para o sertão graças ao programa Mobral disposta a auxiliar na alfabetização de um povo que não tinha quase nada, especialmente educação formal.

O relato se dá única e exclusivamente pelo olhar de Maria, ora no presente – com o sacolejar de um ônibus velho e percebendo que o sertão dos tempos de agora mudou radicalmente, como percebido no trecho instigante do livro: “O sertão não é mais sertão e ainda não virou mar. Fecho os olhos e minha memória recupera e estiliza a beleza despojada daquele meu outro sertão. Desde quando, sem que eu me desse conta, as casas sertanejas encheram-se de trastes e abandonaram aquela estética do essencial, minimalista, diriam hoje, que me encantava na minha casinha e em todas as outras de Olho d ´Água?”; ora no passado, descrevendo as suas lembranças que permitem ao leitor imaginar o cotidiano de pessoas simples, que viviam em uma intensa luta de sobrevivência – para comer, beber água e em meio às rezas e festejos para santos pedindo chuva para plantar e colher.

Ela permite que o leitor só aos poucos consiga construir em seu imaginário quem realmente é Maria. Uma simples e jovem professora idealista e disposta a mudar o mundo com suas próprias mãos? Não somente. Há também as lembranças das andanças da personagem pelo mundo, na Argélia e no México, por exemplo, conhecendo povos, costumes e outros tipos de sertões.

E há ainda no romance uma curiosa característica da protagonista: sonhadora em seus pensamentos, ela no fundo busca sempre um olhar perdido de um homem que cruza com ela em diferentes momentos da história. Sempre atenta ao olhar deste ser masculino, ela enxerga os olhos dele em vários lugares, em várias situações. No fim, ao levar em consideração também a própria história de vida da autora, abre-se uma margem para se pensar que, talvez, aquele olhar é a figura de uma entidade protetora para Maria, onde quer que ela esteja, talvez os olhos de Deus.

“Outros Cantos”, conclui-se, é maduro, de uma autora madura e esclarecida quanto à estilística textual, ortografia e gênero. Maria Valéria Rezende emociona, denuncia e propõe reflexões acerca de uma região brasileira, a vibração de gente que ainda sonha com o poder transformador do ensino e também de um período histórico: mais para o fim da trama, percebe-se claramente algo que a autora quer mesmo eternizar com a proposta literária, que é uma relação histórica com os rompantes vividos em meio à ditadura militar no País e movimentos importantes na luta contra a opressão, isso em regiões praticamente esquecidas pela grande mídia, cinema, História e afins.

OutrosCantos_570OUTROS CANTOS
Maria Valéria Rezende
Editora Alfaguara
Número de páginas: 152
Preço sugerido: R$ 29,90
Avaliação: ótimo

*Comentário publicado quarta-feira (11) no caderno Cultura, do Diário do Norte do Paraná

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‘Não sou um autor de best-seller nem de livrinhos de colorir’ – Ademir Assunção

Ademir Assunção: dois livros, dois mundos

Ademir Assunção: dois livros, dois mundos

Por Wilame Prado

O escritor Ademir Assunção lançou recentemente dois livros pela Editora Patuá, “Pig Brother” e “Até Nenhum Lugar”, ambos de poesia. Semana passada, ele lançou os livros no Londrix – Festival Literário de Londrina. Sobre as suas mais recentes obras e sobre o cenário atual da poesia brasileira, o vencedor do Prêmio Jabuti em 2013 concedeu entrevista:

Por que resolveu lançar os dois de uma vez? Tem a ver com os conteúdos: um mais porrada e outro mais lírico?
ADEMIR ASSUNÇÃO – Sim. Pig Brother é um poema longo, muito influenciado por minhas leituras sobre xamanismo, de um lado, e pela brutalidade humana, de outro. Procurei enfocar o lado selvagem, obscuro e violento desse mundo cheio de insensatez. Guerras, chacinas, linchamentos, torturas, tráfico de órgãos, intolerâncias, incitações ao ódio não são experiências agradáveis, mas a arte não pode se furtar de abordá-las. O livro acabou ficando barra-pesada, reconheço. Por isso decidi publicar também Até Nenhum Lugar, que é muito influenciado por minhas experiências com o zen, com uma visão mais sutil sobre a vida. Não diria que é um livro lírico. Diria que é o outro lado da moeda. A espécie humana é capaz das maiores delicadezas e das piores atrocidades. O que leva o pêndulo a oscilar, o tempo todo, para um lado e para o outro? Há motivações políticas, econômicas, religiosas, mas, do ponto de vista, digamos, espiritual, ou ontológico, se quiserem, essa “oscilação” é um mistério para mim. Por que enquanto uns tratam de criar outros tratam de matar?

Explique o criativo título “Pig Brother”.
Em vez de explicação, deixo em aberto para interpretações. Há uma referência clara ao clima de opressão do Big Brother, de George Orwell, e também ao exibicionismo babaca do Big Brother Brasil da TV Globo. Ao mesmo tempo, Pig Brother é a personificação de uma entidade xamânica. O xamanismo nos leva a encarar o lado obscuro, o pavor, a doença, para tentarmos superá-la. Mas que cada um leia e faça sua própria interpretação.

Seria um livro apocalíptico?
Não cabe a mim anunciar nenhum apocalipse. Simplesmente procurei jogar uma lente de aumento sobre situações com as quais convivemos cotidianamente. O cenário do poema é realmente chocante: o trânsito das cidades está paralisado, a Baía da Guanabara é uma crosta de óleo fétido, os rios são esgotos a céu aberto, a violência explode em todo canto. Acrescentei mais alguns pequenos detalhes: o céu é de lata, as árvores são de alumínio, o ar é quase irrespirável, as pessoas não conseguem sentir mais absolutamente nada. Isso torna o livro apocalíptico ou há um apocalipse pairando no horizonte dessa sociedade de consumo desenfreado que estamos vivendo?

Seria um livro que não dá salvação aos seres humanos?
Minha linguagem é a linguagem artística. Não sou pastor nem profeta. Não vendo ilusões. Penso que a arte pode abrir os olhos das pessoas, pode fazê-las enxergar melhor o que não estão enxergando com nitidez. Veja: durante o processo de criação do poema, caminhava muito pela cracolândia de São Paulo e por bairros periféricos da cidade. Não é um cenário que prima pela beleza e pela suavidade. Por outro lado, lia aquelas instrutivas revistas que mostram a frivolidade do mundo das celebridades. De um lado, pessoas se arrastando como zumbis, vivendo em condições precárias, de desespero total. Por outro, celebridades de papelão, vazias, dando opinião sobre tudo, da política ao sexo anal. Achei que deveria trazer esse inferno para dentro da tradição da poesia brasileira. Por que? Bem, porque ele existe e alguém precisa falar dele.

Em “Pig Brother” há claras referências à noite paulistana e carioca. Como é a sua relação com essas cidades, com essas noites?
Minha relação é a de uma pessoa que procura se manter o mais atento possível. Tenho a impressão de que estamos perdendo a noção do que é real, do que é imagem, do que é falsificação. De fato, em Pig Brother há muitas referências a bairros, ruas e inferninhos, principalmente de São Paulo e do Rio de Janeiro, mas também de Porto Alegre, de Buenos Aires e uma ou outra cidade. Isso porque queria deixar o mais concreto possível o ambiente em que os personagens se movimentam, queria trazer esses cenários para bem perto do leitor. Minha intenção era deixar uma dúvida: mas, caramba, tudo isso está se passando no futuro ou neste tempo presente? Se as pessoas saírem da leitura com esta dúvida, sinal de que funcionou.

Parabéns pela capacidade de construção imagética com os versos. Na sua opinião, é preciso muito treino ou muitas vivências para conseguir isso na poesia?
Creio que sim. É preciso muita leitura, muito treino, muita observação e muitas vivências. Eu procurei esse efeito: um fluxo incessante de imagens despejadas na cabeça dos leitores. Não me preocupei tanto com a ação dos personagens. Não existe uma narrativa linear de episódios. Existe esse fluxo de imagens, quase sempre tenebrosas, com uma luz opaca, eu diria, se fosse um cineasta. Mas sou um poeta, minha matéria prima é a palavra. Neste livro, talvez eu me comporte como um poeta querendo fazer cinema.

O leitor que quiser comprar, só no site da Patuá?
Sim, a venda dos dois livros, tanto Pig Brother, quanto Até Nenhum Lugar, está sendo feita somente pelo site da Editora Patuá. Parece que as condições impostas pelas grandes redes de livrarias são desvantajosas para as pequenas editoras. A venda via site está se tornando uma saída viável para editores, autores e leitores interessados. Deve crescer muito mais nos próximos anos.

Como foi esse processo com a editora, e a tiragem curta de 150 exemplares?
É realmente chocante que em um país com 200 milhões de habitantes livros importantes saiam com tiragem inicial de 150 exemplares, não é? Mas é assim que as coisas estão funcionando. Não adianta fazer grandes tiragens se não há locais para colocá-los a venda. Não sou um autor de best-seller nem de livrinhos de colorir. De qualquer modo, a primeira impressão dos dois livros já se esgotou e a gráfica está rodando a segunda. Conforme vai saindo, vai-se imprimindo mais exemplares. As novas técnicas de impressão tornaram esse processo mais barato e evita-se gastos com estocagem. Aos poucos, meus livros vão se tornando tão conhecidos quanto os bons livros das grandes editoras.

O que é ganhar um Jabuti?
Ganhar um Jabuti? É um reconhecimento bacana, importante. Mas não mudou minha vida em nada. Continuo bebendo nos mesmos bares, com os mesmos amigos. Se fosse um Nobel, que está em torno de 1 milhão de euros, se não me engano, eu poderia viver o resto dos meus dias numa praia, me dedicando integralmente à leitura e à escrita.

O que é fazer poesia no Brasil?
Fazer poesia, para mim, é uma necessidade vital, quase como respirar. Acho que não seria diferente se vivesse na Dinamarca, Rússia ou Itália. Não tenho dúvidas que minha vida seria bem mais pobre sem a leitura e a escrita de poesia. É uma poderosa ferramenta de percepção.

Como estamos de poetas?
Muito bem. Há ótimos poetas vivos escrevendo com sangue, com pegada forte, com sutileza, sobre você, leitor, sua irmã, seu vizinho, sua namorada – mesmo que vocês não saibam disso. Viver na mesma época de Geraldo Carneiro, Glauco Mattoso e Alberto Lins Caldas, por exemplo, é um privilégio.

Fale dos próximos projetos.
Passar uma boa temporada na praia, pisando descalço na areia, namorando, de papo pro ar, sem nada pra fazer.

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Todo mundo lê Knausgård

Karl Ove Knausgård: os seis livros da série somam 3,5 mil páginas

Karl Ove Knausgård: os seis livros da série somam 3,5 mil páginas

Por Wilame Prado

A Companhia das Letras continua apostando na série “Minha Luta”, do escritor Karl Ove Knausgård. Depois de “A Morte do Pai” (2013) e “Um Outro Amor” (2014), a editora lançou este ano “A Ilha da Infância”, terceiro volume da série de seis catataus de romances autobiográficos de um dos escritores sérios que fazem mais sucesso atualmente no planeta. O livro recém-chegado investiga a memória, o universo familiar e a construção da identidade do norueguês atualmente radicado na Suécia.

Se no terceiro volume da série foram principalmente os medos da infância o alvo de Knausgård, nos livros anteriores ele tratou com maestria temas importantes de sua própria vida: as consequências trazidas pelo lento suicídio do pai com o consumo excessivo de álcool, e o encontro de um novo amor após conhecer Linda Boström, sua segunda mulher e mãe dos três filhos do escritor. O que tem chamado a atenção é o motivo pelo qual muita gente não tem conseguido parar de virar as intermináveis páginas desta série de livros que não traz nada de novo, a não ser um relato aparentemente honesto da vida do autor.

É como ler diários bem escritos de um ilustre desconhecido e compartilhar de suas lutas cotidianas, que consistem no desafio de ser um bom escritor em meio ao cotidiano de um cidadão comum, que troca fraldas dos filhos pequenos, que briga com a vizinha louca, que tem de lidar com os arroubos depressivos da mulher, que vai ao mercado comprar ingredientes para o jantar, que confessa adorar a sensação de se estar completamente bêbado – e que odeia os arrependimentos causados por ressacas físicas e morais – e que precisa unir forças com o irmão para sepultar o pai.

Não há estilo rebuscado na autoficção do escritor e nem histórias sensacionais reveladas. Não se torce para que o mocinho Knausgård se dê bem no final do livro, tampouco há apelos sexuais, cômicos ou melancólicos em demasia. O autor vai muito mais pela fidelidade da narração dos fatos do que qualquer joguete de ironia ou sarcasmo. Nos romances, o autor mescla uma incansável capacidade de descrição de cenas cotidianas, ensaios sobre arte e literatura e algumas epifanias pontuais, extremamente tocantes no que se refere aos dramas existencialistas que golpeiam qualquer pessoa que pare para pensar na inutilidade humana em meio a uma sociedade vazia e consumista.

Por que todos leem Knausgård? Essa parece ser uma pergunta difícil de responder, assim como é difícil escrever ou dizer o nome do autor. Talvez seja porque, mais do que qualquer ficção mal contada ou produto midiático mal-ajambrado, ele escreva as suas verdades de maneira honesta. Verdades estas que, pensando bem, são as verdades que rodeiam e que tanto assustam aqueles que vivem neste mundo (ocidental, principalmente), nas últimas décadas do século 20 e neste início de século 21.

ISTO É KNAUSGÅRD
“Nos últimos anos eu tinha cada vez mais perdido a fé na literatura. Eu lia e pensava, isso tudo foi inventado. Talvez fosse porque estivéssemos completamente rodeados por ficções e narrativas. Aquilo tinha inflacionado. Não importava para onde olhássemos, sempre encontrávamos ficção. Todos esses milhões de livros pocket, livros em capa dura, filmes em DVD e séries de televisão, tudo dizia respeito a pessoas inventadas num mundo verossímil, mas também inventado. E as notícias do jornal e as notícias da televisão e as notícias do rádio tinham exatamente o mesmo formato, os documentários tinham o mesmo formato, também eram narrativas, e assim não fazia diferença nenhuma se a narrativa que contavam tivesse acontecido de verdade ou não. Havia uma crise, eu sentia em cada parte do meu corpo, algo saturado, como banha de porco, se espalhava em nossa consciência, porque o cerne de toda essa ficção, verdadeiro ou não, era a semelhança, e o fato de que a distância mantida em relação à realidade era constante.”
///Trecho do romance “Um Outro Amor”, de Karl Ove Knausgård

13618_ggESTANTE
A ILHA DA INFÂNCIA
Minha Luta – Volume III
Karl Ove Knausgård
Número de páginas: 440

13089_ggUM OUTRO AMOR
Minha Luta – Volume II
Karl Ove Knausgård
Número de páginas: 592

13088_ggA MORTE DO PAI
Minha Luta – Volume I
Karl Ove Knausgård
Número de páginas: 512

*Reportagem publicada em 27 de maio de 2015 no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Oito livros traduzidos de John Fante

Ilustração inspirada no romance "Pergunte ao Pó"

Ilustração inspirada no romance “Pergunte ao Pó”

Por Wilame Prado

“1933 Foi Um Ano Ruim”: No fundo do estado norte-americano do Colorado, Dominic Molise, 17 anos, filho de um pedreiro e uma dona de casa temente a Deus, ambos imigrantes italianos, sonha em fugir do frio, ir para a Califórnia e tornar-se um grande arremessador de baseball.

“Espere a Primavera, Bandini”: Romance de estreia do autor, nesta obra ele retrata a vida de um adolescente em uma pequena cidade do Meio-Oeste americano, e mergulha na revolta dos que vivem à margem do sonho americano. Filho de imigrantes italianos, o alter ego do escritor, Arturo Bandini, faz-se presente.

“O Caminho de Los Angeles”: Arturo Bandini é um sensível e temperamental ítalo-americano que procura de todas as formas atingir o propósito máximo de sua vida: se tornar um escritor de prestígio. Mas, após a morte do pai, ele precisa sustentar a família e se vê forçado a trabalhar.

“Pergunte ao Pó”: Filho de imigrantes, Arturo Bandini é um jovem pretenso a escritor que se sente excluído da sociedade. Ele quer escrever sobre a vida e o amor, mesmo não tendo muita experiência sobre ambos, e se apaixona por uma linda garota. O romance se passa na Los Angeles da década de 1930.

“Sonhos de Bunker Hill”: Em uma Los Angeles frenética, que vive a explosão de Hollywood, na década de 30, Arturo Bandini ganha a vida como auxiliar de garçom. Com 21 anos, dinheiro nenhum no bolso e uma ingenuidade típica do interior americano, tenta embrenhar-se entre os roteiristas, atores, produtores e agentes do mundo cinematográfico, em busca de um lugar ao sol. O livro, ditado por Fante já cego e escritor por Joyce, sua mulher, fecha o “Quarteto Bandini”

“O Vinho da Juventude”: Nesta coletânea de contos de Fante estão seu pai, sua mãe, os irmãos, a irmã. O colégio católico, o beisebol, os mistérios das freiras, o pecado. Os imigrantes, os Estados Unidos das décadas de 30 e 40

“A Oeste de Roma”: Livro com duas novelas de Fante. Uma delas é sobre um cachorro, de cauda peluda, patas espalmadas, olhos oblíquos, meio akita, meio chow. De hábitos sexuais “muito estranho”, que já causaram confusões ímpares na sua família de humanos. Atende pelo nome de Estúpido. A outra novela é sobre uma mina de ouro desativada, cujo nome, Diabo Vermelho, já diz tudo: cenário e desculpa perfeitos para furtivos encontros etílico-amorosos.

“A Irmandade da Uva”: Personagem Henry Molise, 50 anos, escritor de sucesso, retorna à casa da família para ajudar com o mais recente drama dos pais já idosos: um divórcio. O pai de Henry, tirânico e alcoólatra, ainda desperta o medo em seus filhos, todos já na faixa dos 50 anos. A mãe, doente e devota ao catolicismo, tenta sempre amenizar as situações dramáticas dentro do lar, consolando e até confundindo os filhos.

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Uvas de John Fante

"A Irmandade da Uva", último livro de John Fante publicado no País, foi lançado originalmente em 1977

“A Irmandade da Uva”, último livro de John Fante publicado no País, foi lançado originalmente em 1977

Por Wilame Prado

Em 2012, fez 80 anos que o escritor norte-americano John Fante (1909-1983) publicou seu primeiro conto na revista The American Mercury. E a comemoração veio em forma de livro: a José Olympio Editora publicou, em 2013, o romance “A Irmandade da Uva”, lançado originalmente em 1977 por Fante.

No romance, o personagem Henry Molise, 50 anos, escritor de sucesso, retorna à casa da família para ajudar com o mais recente drama dos pais já idosos: um divórcio. O pai de Henry, tirânico e alcoólatra, ainda desperta o medo em seus filhos, todos já na faixa dos 50 anos. A mãe, doente e devota ao catolicismo, tenta sempre amenizar as situações dramáticas dentro do lar, consolando e até confundindo os filhos.

Costumeiramente revelando uma ponta autobiográfica em seus livros, os seguidores de Fante podem perceber que, em mais esta obra, o escritor continua com as premissas sempre requisitadas e que tanto encantam aos leitores: a vida de quem sai do lar extremamente tradicional e católico para tentar ser escritor, dramas de família, as dificuldades de imigrantes e descendentes italianos nos Estados Unidos, o vinho tomado além da conta, o poder e os questionamentos sobre religião e as manifestações de amor que, para o escritor, ainda resta nas pessoas.

Os finais dos livros de Fante costumam ser tocantes, sempre com uma espécie de salvação oferecida ao errante ser humano.

Mais de Fante
Atualmente, os fãs aqui do Brasil têm em mãos oito obras traduzidas de Fante. Pela José Olympio Editora, o penúltimo livro lançado foi a coletânea de contos “O Vinho da Juventude”, lançado originalmente nos Estados Unidos em 1985 e que chegou traduzido em 2010 nas livrarias do Brasil.

A mesma editora também já lançou “O caminho de Los Angeles”, “Espere a primavera, Bandini” e “Pergunte ao Pó”. Do autor, a editora L&PM Editores lançou por aqui “Sonhos de Bunker Hill” e “1933 foi um ano ruim”.

“A Oeste de Roma”, livro lançado em 1990 pela Editora Brasiliense com duas novelas, é também outra alternativa traduzida no País. O problema é encontrar o livro, esgotado nas livrarias e hoje considerado artigo de luxo em sebos.

A distância que me separava de Oeste de Roma
John Fante que me perdoe, mas faltou-me grana para pagar mais de R$ 40 por “A Oeste de Roma” (Editora Brasiliense, 180 páginas) usado em um dos poucos sebos que ainda têm o exemplar. Para os fãs ardorosos, pode ser a única alternativa. Para quem tem o dinheiro, vale cada centavo investido naquela que considero uma das melhores obras escritas por ele.

Mas tive sorte na busca pela leitura obrigatória de “A Oeste de Roma”. Digo obrigatória porque era o último livro que me faltava para finalizar a leitura de todas as obras de Fante já traduzidas no País. Precisava consumir aquelas páginas tal qual uma criança diz precisar do doce, do brinquedo.

Minha sorte veio em nome de uma até então desconhecida moradora de Osasco-SP. Na busca ensandecida pelo livro, cheguei ao ponto de digitar o nome da obra na rede social de literatura Skoob e comecei a perguntar para cada um que afirmava ter o exemplar se poderia me emprestar a obra.

Claro, muitos ignoraram ou disseram não para o fã louco de Fante. Menos Priscila Costa, que me respondeu: “Será um prazer te emprestar o livro. Passe os dados para que eu possa te enviar via correio”. Antes, porém, de me enviar o seu raro “A Oeste de Roma”, a simpática garota, hoje minha amiga virtual, sugeriu me mandar também uma caixa de lenços tamanha era minha emoção ao agradecer o empréstimo.

Em “Meu Cão Estúpido” – uma das duas novelas do livro, Fante parece estar mais maduro do que em qualquer outro relato. Ele descreve com maestria e de maneira irônica as situações envolvendo uma família típica da Califórnia que se vê diante de um problema quando, sem explicações, um cachorro estúpido, preguiçoso e com hábitos sexuais constrangedores passa a morar em seu quintal.

O cachorro, no texto, acaba mesmo ficando em segundo plano. O que fica evidente é a maneira que Fante enxergava a mediocridade que reina os hábitos familiares de filhos mesquinhos, mimados e folgados, mulheres consumistas e histéricas e homens sempre levemente alcoolizados em uma vida que, às vezes, só mesmo a presença de um inocente bicho de estimação parece dar um pouco de paz de espírito em um lar.

Em “A Orgia”, a outra novela do livro, Fante retoma as velhas questões familiares e autobiográficas de um menino que vive no dilema entre a mãe fervorosamente católica e o pai, que, ainda que trabalhador, acompanhado de um amigo, vai atrás de mulheres e bebidas. Outra texto imperdível de Fante.

É por essas e outras que só tenho a agradecer por tudo o que Fante já escreveu e, claro, à amiga Priscila Costa, que, sabendo do tamanho do valor da literatura feita pelo criador do eterno Arturo Bandini, reconheceu a importância de se propagar isso tudo emprestando um raro e ótimo livro para mim.

*Parte de reportagem publicada em 10 de junho de 2012 no extinto caderno D+, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Contos do futebol

Por Wilame Prado

Júlio Cortázar professorou: no conto se ganha por nocaute e no romance se ganha por pontos. O escritor argentino – que era apaixonado por boxe – dizia que o futebol é “altamente entediante”. O autor do clássico O Jogo da Amarelinha que nos perdoe, mas ele talvez tenha assistido aos jogos errados.

No esporte bretão vale gol de barriga e de bicicleta, vitória por meio a zero e por doze a um. A narrativa do futebol é inenarrável, praticamente ilegível, convém-se apenas assistir, e de preferência torcer por um dos dois times que traçam o duelo dentro das quatro linhas brancas que delimitam o retângulo de gramado verde mais cobiçado do mundo. José Roberto Torero, 51, escritor nascido em Santos (SP) e torcedor famoso do Santos Futebol Clube, sabe muito bem destas coisas: sobre romances, contos e também sobre futebol.

Torero – cerca de 30 livros publicados – esteve por aqui durante a 1ª Festa Literária de Maringá (Flim). Vencedor da primeira edição do Prêmio Paraná Literatura na categoria contos com o livro “Papis et Circenses”, em 2012, foi convocado para uma mesa cujos assuntos debatidos foram o conto, a inspiração e o processo criativo. Nada de futebol…

Dividiu a mesa com o escritor de Jundiaí (SP) André Kondo, 39, espécie de maratonista de concursos literários: após a mesa, dando uma carona para os dois escritores rumando a um bar decente maringaense que servisse comida, bebida e exibição de mais uma rodada de futebol em telas gigantes de TV, o autor de “Contos do Sol Nascente” calculava ter conquistado prêmios em mais de cem concursos literários. “Foi a forma que eu encontrei de me bancar apenas vivendo da literatura”, defendeu o torcedor – hoje não fanático, jura – do Sport Clube Corinthians Paulista.

Diferenças à parte, Kondo, sempre educado, muito polido, tardou em revelar para qual time torcia. Estava diante de dois santistas roxos (eu e Torero) e uma são-paulina (minha mulher) na mesa. A questão envolvendo a preferência por times paulistas em pleno interior paranaense fica para outra história.

Em vez de defender com unhas e dentes – como todo corintiano faz – a trupe atualmente liderada por Paolo Guerreiro no ataque, Elias no meio e Gil na defesa – o contista resolveu contar, já na mesa do bar, sobre a final da Copa do Mundo de 2002 entre Brasil e Alemanha no Japão. Kondo estava no Estádio Internacional de Yokohama no dia em que Ronaldo e Rivaldo deram o pentacampeonato à seleção brasileira, mas curiosamente nem viu os gols, estava mesmo é curtindo a festa. Não há palavras, segundo ele, para explicar a emoção de estar num estádio em final de copa do mundo. Mas pelo menos deixou a experiência registrada em forma de crônica, em algum jornal de cidade pequena, recordou-se.

Torero, já devorando a porção de tilápia no palito e o seu suco de goiaba com água, não conseguia prestar muita atenção na gente: através do smartphone, aguardava notícias sobre o filho recém-nascido passando pela primeira febre alta de sua vida e também sobre alguns quiproquós gerados na produção da próxima entrevista que realizaria para o Super Libris – programa que está desenvolvendo para ser exibido, no ano que vem, no Sesc TV, só entrevistando escritores brasileiros, de variadas localidades.

No lugar privilegiado em que estávamos naquele bar, curtindo um vento que se fazia ainda mais refrescante naquela noite quente graças aos bons ares vindos do Parque do Ingá – bem ali ao lado – uma TV de 50 polegadas, a três metros de distância da mesa, não conseguia chamar a atenção dos santistas, ainda que, como atração principal, jogavam, na Vila Belmiro, Santos x Fluminense, partida válida pela trigésima rodada do Brasileirão. Jogo fraco, mesmo contando com o nosso eterno Pedalada (o Robinho) e o Gabi Gol (a nova esperança criada no celeiro do Alvinegro Praiano) dentro de campo.

Momentos antes, desta vez na mesa literária, a qual mediei, lembro-me de ter tido o atrevimento de perguntar para o Torero se escritor santista costumava ser craque nas linhas, tal qual Pelé, Robinho e Neymar foram e são nos gramados. “Pelé é insuperável, é praxe, e, acredite, não há assim tantos santistas vivos por aí, torcendo ou escrevendo”, brincou o modesto escritor, que considerou como um “golpe de sorte” a conquista do disputado prêmio literário paranaense, há dois anos. Não foi apenas sorte: “Papis et circenses” – um conto para cada papa, de Pedro a Francisco – é uma das maiores críticas já feitas sobre o papado. Ironia fina, sarcasmo puro e a concisão em forma de contos que estamos acostumados a ler em textos de Dalton Trevisan, Sérgio Sant’Anna e Luiz Vilela.

Durante a mesa literária, quase não encontro brechas para falar de futebol. Na verdade, é momento para falar do conto, que, para Kondo, deve ser algo como um abraço no leitor, já para Torero, a depender da ocasião, deve ser sim um murro bem dado no estômago. Criou-se ali, interessantemente, uma espécie de embate saudável entre as diferentes formas de se contar uma breve história: abraço, soco, vitória por pontos, por nocaute, contos com finais felizes e motivadores, contos sobre papas sacanas…

No boteco, sim, encontramos finalmente a descontração necessária para falar das banalidades da vida, futebol, gols e a ‘não literatura’ envolvendo o esporte considerado paixão nacional. Foi quando o Torero – que há alguns anos abandou a crônica esportiva, a coluna na Folha de S. Paulo e até o blog no UOL – admitiu ter ensaiado algumas tentativas futebolísticas in loco, todas frustradas. “Eu ficava muito irritado em campo. Fui um mediano meia”, confessou ele, hoje um crítico do futebol feio – a la Leandro Damião – praticado no País. “Nestes últimos anos, o futebol foi enfeando tanto que me desinteressei. O Santos ainda consegue certos lances de beleza, mas são um tanto raros”, havia afirmado o escritor dias antes, numa entrevista concedida por e-mail.

“Futebol não rende literatura. O futebol fala por si só, não precisa ficar escrevendo muito sobre. A pessoa já consumiu aquilo ali assistindo ao jogo, que muitas vezes é meio mágico, meio literário. Para quê escrever depois sobre?”, filosofou, por fim, na mesa do bar, Torero, autor de “Santos, um time dos céus”, “Futebol é bom pra cachorro”, “Dicionário Santista, de A a Z, mas sem X”, “Uma história de futebol”, “Pelé 70”, “Nove contra o 9”, “Futebologia” etc.

Replico citando “O Drible”, romance elogiado, publicado em 2013 por Sérgio Rodrigues e finalista do Prêmio Jabuti em 2014. “Eu li, é bom. Mas não é um romance especificamente sobre futebol, mas há futebol ali”, explicou o escritor santista, que, em meio ao bate-papo com a gente e com as batalhas no aparelho celular, nem viu que (a velha caixinha de surpresas), aos 45 minutos do segundo tempo, o pouco habilidoso volante Edson empurrou de carrinho (o típico gol feio) a bola para as redes do goleiro Aranha, dando a vitória para o Flu e afastando de vez a chance de o Santos alcançar o G4 no Brasileirão e, consequentemente, obter uma vaga para a Libertadores do ano que vem. Coisas do futebol, e que fazem qualquer escritor deixar a mesa do bar extremamente aborrecido de volta para o seu hotel, em outro bairro de Maringá.

Também retornando para o mesmo hotel, o corintiano Kondo segurou o riso e a comemoração com a derrota de seu rival, mas penso que, por dentro, lavou a alma. O conto que abraça o leitor venceu.

*Texto publicado em dezembro de 2014 no jornal O Duque

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Ana Paula, 14, sonha publicar romance

Ana Paula Fernandes, em casa, no Jardim Imperial II: escreve no smartphone e depois apenas revisa no PC (Foto de Ricardo Lopes)

Ana Paula Fernandes, em casa, no Jardim Imperial II: escreve no smartphone e depois apenas revisa no PC (Foto de Ricardo Lopes)

Por Wilame Prado

Escrever pode até ser um dom, mas requer prática. Como todos sabem, a maior ferramenta de um escritor é a leitura. E isso a estudante Ana Paula Fernandes, 14, faz desde muito pequena. “Um dos primeiros presentes que ela ganhou foi uma coleção de livros. Eu lia para ela. Ela decorava as histórias e, quando chegava visita em casa, fingia ler a história que já estava guardada na memória”, relembra Nice Fernades da Silva, a mãe da jovem que escreveu a obra “Após o Ponto Final”, romance de estreia que aguarda publicação.

Ana Paula, que mora com os pais no bairro Jardim Imperial II e que cursa o primeiro ano do ensino médio, cotou a publicação em algumas editoras, mas se assustou com o preço. Finalmente, fechou negócio na Editora All Print, de São Paulo, para lançar em maio o seu primeiro livro (que terá cerca de 200 páginas), com uma tiragem de 250 exemplares. Falta agora arrumar os R$ 4 mil para acertar as contas. Para isso, amigos da família sugeriram a realização de um bazar com roupas novas e usadas, acessórios e calçados.

“Não deixaremos ir para gaveta o sonho dela”, diz Nice, que se orgulha da elogiável destreza para as letras que tem a filha única. Professores fizeram questão de revisar o texto do romance, elogiaram e apostam no sucesso da jovem escritora.

No livro “Após o Ponto Final”, a adolescente trata de assuntos de gente grande. Alice, a sua protagonista, de 13 anos, sofre com os abusos sexuais do padrasto, em Belém do Pará. A motivação do tema se deu após Ana Paula conhecer uma ONG que auxilia adolescentes e mulheres vítimas de abusos em Maceió, numa viagem que fez com a família.

Mesmo com o tema pesado escolhido, ela garante não ter escrito uma história triste. Há esperança para Alice, há esperança para a humanidade, na opinião da estudante. “Já penso numa possível continuação da história, talvez em um novo romance. Tenho também um livro de poesia praticamente pronto. Poesia é meu hobby. Poesia, para mim, é aquilo que me toca, não precisa de rima necessariamente, mas é algo que me obriga a falar sobre aquilo”, diz.

No romance de estreia, ela sentiu a necessidade de falar do ponto final. “Muita coisa acaba na vida de Alice: a vida do pai, da mãe, a liberdade, mas acaba também a sua ingenuidade.” Para Ana Paula, pelo contrário, a história com a literatura só está começando, e o ponto final não está no horizonte.

AJUDE
BAZAR DE ROUPAS
Quando: 29 de março
Onde: Centro Comunitário do Jardim Alvorada
Informações: 9815-8321/3346-8538

ISTO É ANA PAULA FERNANDES
“Realmente, deixar de ser criança é difícil. Tudo bem eu já iria completar quatorze anos, quando me tornei ‘adulta’. Mas mesmo assim é muito estranho, de um dia para o outro você ver tudo diferente. Eu só não sabia realmente, quem tinha mudado. Eu ou o mundo? Talvez os dois.

Já fazia um ano e meio que minha mãe havia morrido. Minha relação com Geraldo não era das melhores mas dava para levar na água morna, sem discussões. Minhas notas estavam até que boas. Tinha dois amigos, que as vezes iam em casa, a Marcela e o Bruno. Eles me faziam companhia, algumas vezes.

Do mesmo modo como me intitulei “Alice, apenas”. Agora, me coloco como ” A Alice”, por que do ‘A’? Parei de ver o mundo com olhos de criança e me legitimei Mulher.

O cuidado obsessivo de Geraldo por mim, já havia se tornado ofensivo. E de uma hora para outra ele havia se tornado ciumento, proibiu que Bruno entrasse na ‘minha casa’ dizia ele. /// Trecho do romance “Após o Ponto Final”

*Reportagem publicada sábado (21) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Eduardo Siqueira lança ‘Cidade Fantasma’

Eduardo Siqueira andando pelas ruas do Centro: "Ando por aí e vejo as pessoas como gente natimorta"

Eduardo Siqueira andando pelas ruas do Centro: “Ando por aí e vejo as pessoas como gente natimorta” (Foto de Ricardo Lopes)

Por Wilame Prado

Cidades tendem a oprimir os seres que nelas habitam. Muitas vezes, só lhe restam a poesia. O funcionário público e escritor Eduardo Siqueira, 30 anos, prefere chamá-las de cidades fantasmas. Maringá é uma delas. E a poesia foi também a opção contra o vazio existencial por entre ruas e avenidas, prédios e casas, shoppings e parques. Ele lança às 21 horas de hoje, no Badulaque Estúdio Bar, o livro “Cidade Fantasma” (Editora Multi Foco, 80 páginas, R$ 35).

“O título se refere a uma cidade arquetípica, universal, com contradições, desigualdades e aquele vazio existencial que, na minha opinião, jaz sob todas as coisas do mundo. Ando por aí e vejo as pessoas como gente natimorta, sem propósito algum para estarem aqui vivenciando as injustiças e atrocidades da vida urbana. Observo homens e mulheres indo de lá pra cá, com seus ‘importantíssimos’ afazeres e dou risada por dentro, porque, no fim das contas, assim como eu, parecem fantasmas resolvendo problemas pendentes enquanto flutuam pela terra”, explica o autor.

Siqueira lança o livro de estreia reunindo poemas datados a partir de 2007, após publicações esparsas no meio virtual, entre blogs e revistas eletrônicas. Formado em Letras pela UEM, diz estar influenciado pelas vanguardas do começo do século 20. “Dadaísmo, Surrealismo, Expressionismo e Futurismo estão presentes no que escrevo”, define, afirmando ainda que, nos poemas, segue uma linha temática, no entanto fragmentada, com colagens.

“Cidade Fantasma” reúne poemas urbanos e suburbanos, sem definições métricas, aproximados da prosa e que se apropriam do cotidiano contemporâneo, das coisas do cotidiano, dos homens e mulheres do cotidiano, para apenas uma mensagem existencial e um tanto pessimista: somos fantasmas, em uma estúpida cidade fantasma. “Gosto de escrever sobre morte, solidão, tempo, absurdo, relações humanas, trabalho, cidade, ou seja, temas universais. Vou anotando coisas que passam pela cabeça durante o dia. Coisas que vi, ouvi, senti. Geralmente, carrego aqueles blocos de papel reciclado na bolsa. Ou anoto no caderno.”

Não à toa, o poema preferido de Siqueira é “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”, de T. S. Eliot, com versos angustiados, angustiantes, que revelam o medo da existência em meio ao tédio, à impotência, ao envelhecimento, a tudo isso no mundo urbano. Há os mesmos dramas em “Cidade Fantasma”.

ISTO É EDUARDO SIQUEIRA

VITRAIS
olho-me
no espelho
e vejo
Deus

mosaico de todos os homens
eu-estilhaço

inteiro

EVOLUÇÃO
homem-pássaro
desalado

tão coloridinho na gaiola

não sai do facebook
não voa sem motor

LANÇAMENTO
CIDADE FANTASMA
Autor: Eduardo Siqueira
Quando: hoje
Horário: 21 horas
Onde: Badulaque Estúdio Bar
Preço do livro: R$ 35
Entrada franca

*Reportagem publicada na sexta-feira (6) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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