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Todo mundo lê Knausgård

Karl Ove Knausgård: os seis livros da série somam 3,5 mil páginas

Karl Ove Knausgård: os seis livros da série somam 3,5 mil páginas

Por Wilame Prado

A Companhia das Letras continua apostando na série “Minha Luta”, do escritor Karl Ove Knausgård. Depois de “A Morte do Pai” (2013) e “Um Outro Amor” (2014), a editora lançou este ano “A Ilha da Infância”, terceiro volume da série de seis catataus de romances autobiográficos de um dos escritores sérios que fazem mais sucesso atualmente no planeta. O livro recém-chegado investiga a memória, o universo familiar e a construção da identidade do norueguês atualmente radicado na Suécia.

Se no terceiro volume da série foram principalmente os medos da infância o alvo de Knausgård, nos livros anteriores ele tratou com maestria temas importantes de sua própria vida: as consequências trazidas pelo lento suicídio do pai com o consumo excessivo de álcool, e o encontro de um novo amor após conhecer Linda Boström, sua segunda mulher e mãe dos três filhos do escritor. O que tem chamado a atenção é o motivo pelo qual muita gente não tem conseguido parar de virar as intermináveis páginas desta série de livros que não traz nada de novo, a não ser um relato aparentemente honesto da vida do autor.

É como ler diários bem escritos de um ilustre desconhecido e compartilhar de suas lutas cotidianas, que consistem no desafio de ser um bom escritor em meio ao cotidiano de um cidadão comum, que troca fraldas dos filhos pequenos, que briga com a vizinha louca, que tem de lidar com os arroubos depressivos da mulher, que vai ao mercado comprar ingredientes para o jantar, que confessa adorar a sensação de se estar completamente bêbado – e que odeia os arrependimentos causados por ressacas físicas e morais – e que precisa unir forças com o irmão para sepultar o pai.

Não há estilo rebuscado na autoficção do escritor e nem histórias sensacionais reveladas. Não se torce para que o mocinho Knausgård se dê bem no final do livro, tampouco há apelos sexuais, cômicos ou melancólicos em demasia. O autor vai muito mais pela fidelidade da narração dos fatos do que qualquer joguete de ironia ou sarcasmo. Nos romances, o autor mescla uma incansável capacidade de descrição de cenas cotidianas, ensaios sobre arte e literatura e algumas epifanias pontuais, extremamente tocantes no que se refere aos dramas existencialistas que golpeiam qualquer pessoa que pare para pensar na inutilidade humana em meio a uma sociedade vazia e consumista.

Por que todos leem Knausgård? Essa parece ser uma pergunta difícil de responder, assim como é difícil escrever ou dizer o nome do autor. Talvez seja porque, mais do que qualquer ficção mal contada ou produto midiático mal-ajambrado, ele escreva as suas verdades de maneira honesta. Verdades estas que, pensando bem, são as verdades que rodeiam e que tanto assustam aqueles que vivem neste mundo (ocidental, principalmente), nas últimas décadas do século 20 e neste início de século 21.

ISTO É KNAUSGÅRD
“Nos últimos anos eu tinha cada vez mais perdido a fé na literatura. Eu lia e pensava, isso tudo foi inventado. Talvez fosse porque estivéssemos completamente rodeados por ficções e narrativas. Aquilo tinha inflacionado. Não importava para onde olhássemos, sempre encontrávamos ficção. Todos esses milhões de livros pocket, livros em capa dura, filmes em DVD e séries de televisão, tudo dizia respeito a pessoas inventadas num mundo verossímil, mas também inventado. E as notícias do jornal e as notícias da televisão e as notícias do rádio tinham exatamente o mesmo formato, os documentários tinham o mesmo formato, também eram narrativas, e assim não fazia diferença nenhuma se a narrativa que contavam tivesse acontecido de verdade ou não. Havia uma crise, eu sentia em cada parte do meu corpo, algo saturado, como banha de porco, se espalhava em nossa consciência, porque o cerne de toda essa ficção, verdadeiro ou não, era a semelhança, e o fato de que a distância mantida em relação à realidade era constante.”
///Trecho do romance “Um Outro Amor”, de Karl Ove Knausgård

13618_ggESTANTE
A ILHA DA INFÂNCIA
Minha Luta – Volume III
Karl Ove Knausgård
Número de páginas: 440

13089_ggUM OUTRO AMOR
Minha Luta – Volume II
Karl Ove Knausgård
Número de páginas: 592

13088_ggA MORTE DO PAI
Minha Luta – Volume I
Karl Ove Knausgård
Número de páginas: 512

*Reportagem publicada em 27 de maio de 2015 no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Crônicas do Mercadão de Maringá

Rafa, em choperia do Mercadão de Maringá: livro de estreia reúne histórias passadas no Mercadão (foto de Walter Fernandes)

Rafa, em choperia do Mercadão de Maringá: livro de estreia reúne histórias passadas no Mercadão (foto de Walter Fernandes)

Por Wilame Prado

O bar Tio Sam, no Leblon, tinha o João Ubaldo Ribeiro. E os bares do Mercadão de Maringá têm o Rafael Campos Bezerra, o Rafa, 67 anos, morador da Zona 7, professor de Microbiologia na UEM, agitador cultural, escritor e fotógrafo. Conhecido pelas andanças na boemia maringaense e pelo costume de beijar todo mundo e supervalorizar a tudo com um sonoro “genial!” no final da frase, ele bate cartão com assiduidade no chamado “lado molhado” do Mercadão. Saíram de lá todos os textos que compõem o livro “Crônicas e Chamadas do Mercadão de Maringá – Genial!” (publicação independente, 195 páginas, R$ 25), que será lançado a partir das 9 horas deste domingo, logicamente no Mercadão. Com apenas seis anos, o lugar já tem história.

Amigo dos amigos, Rafa tem disposição para mobilizar chamadas culturais que estimulam a reunião, a boa música e a boa cerveja principalmente em manhãs dominicais no Mercadão. Não à toa, os parceiros prometem abrilhantar o lançamento de seu primeiro livro amanhã com samba, blues e MPB. Para a manhã de autógrafos de Rafa, estão confirmados o Novo Trio, Ronaldo Gravino, Walter Thomé, Beto Batera, Wagner Silva e Os Bambas de Maringá, além das canjas de outros amigos. “Será um domingo realmente cultural. E ainda tem um coquetel, oferecido pelo Mercadão”, diz.

As crônicas de Rafa (um leitor de poesia, mas que aprecia as crônicas de Fernando Sabino, Rubem Braga e Luis Fernando Verissimo) são leves, malemolentes, em sua maioria cheias de graça. Mas há também um tantinho de tristeza e saudade, como um bom samba. O primeiro texto – logo após toda uma varredura que ele faz apresentando todos os estabelecimentos gastronômicos e serviços que atuam no Mercadão – trata do dia em que ele diz ter sido abduzido por moças belas num disco voador. Não à toa, as garotas o abduziram, logo ali, no estacionamento do Estádio Willie Davids, justamente no fatídico dia em que o Brasil perdeu de 7×1 para a Alemanha, na Copa do Mundo, ano passado. Coisas inacreditáveis – como uma abdução e até um Mineiraço – podem acontecer.

Os grandes personagens maringaenses também estão nas crônicas de Rafa, que, mesmo tendo nascido em Mirandiba, no sertão pernambucano, já pode ser considerado também protagonista maringaense das grandes histórias que acontecem especialmente pelas “ruas” do Mercadão, ou então em um bar ou outro que oferecem espetinho de carne com qualidade e, claro, uma boa gelada.

Uma das lendas da cidade, o jornalista e Editor de Esportes do Diário, radialista, cantor e compositor e compositor Cláudio Viola, é lembrado em uma das crônicas. Rafa conta quando, em show na antiga Kalahari em Maringá, o músico Taiguara pelo menos “tentou” tocar com o violão do Viola. “De quem é esse violão? E o Cláudio Viola se aproxima do palco e responde:

– É meu seu Taiguara. Todo orgulhoso. E o Taiguara pergunta:

– Como é o seu nome? O Cláudio Viola, que na época era um jovem rapaz e que não usava ainda o Viola no nome respondeu:

– É Cláudio, seu Taiguara, Cláudio de Oliveira. Taiguara olhou bem nos olhos do Viola e disse:

– Seu Cláudio, esse seu violão é uma merda!”

ESTANTE
CRÔNICAS E CHAMADAS DO MERCADÃO DE MARINGÁ – GENIAL!
Autor: Rafael Campos Bezerra
Editora: LB Graf
Número de páginas: 195
Preço: R$ 25

COQUETEL DE LANÇAMENTO
Quando: domingo
Onde: Mercadão de Maringá
Horário: 9 horas
Entrada franca

*Reportagem publicada neste sábado (11) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Ana Paula, 14, sonha publicar romance

Ana Paula Fernandes, em casa, no Jardim Imperial II: escreve no smartphone e depois apenas revisa no PC (Foto de Ricardo Lopes)

Ana Paula Fernandes, em casa, no Jardim Imperial II: escreve no smartphone e depois apenas revisa no PC (Foto de Ricardo Lopes)

Por Wilame Prado

Escrever pode até ser um dom, mas requer prática. Como todos sabem, a maior ferramenta de um escritor é a leitura. E isso a estudante Ana Paula Fernandes, 14, faz desde muito pequena. “Um dos primeiros presentes que ela ganhou foi uma coleção de livros. Eu lia para ela. Ela decorava as histórias e, quando chegava visita em casa, fingia ler a história que já estava guardada na memória”, relembra Nice Fernades da Silva, a mãe da jovem que escreveu a obra “Após o Ponto Final”, romance de estreia que aguarda publicação.

Ana Paula, que mora com os pais no bairro Jardim Imperial II e que cursa o primeiro ano do ensino médio, cotou a publicação em algumas editoras, mas se assustou com o preço. Finalmente, fechou negócio na Editora All Print, de São Paulo, para lançar em maio o seu primeiro livro (que terá cerca de 200 páginas), com uma tiragem de 250 exemplares. Falta agora arrumar os R$ 4 mil para acertar as contas. Para isso, amigos da família sugeriram a realização de um bazar com roupas novas e usadas, acessórios e calçados.

“Não deixaremos ir para gaveta o sonho dela”, diz Nice, que se orgulha da elogiável destreza para as letras que tem a filha única. Professores fizeram questão de revisar o texto do romance, elogiaram e apostam no sucesso da jovem escritora.

No livro “Após o Ponto Final”, a adolescente trata de assuntos de gente grande. Alice, a sua protagonista, de 13 anos, sofre com os abusos sexuais do padrasto, em Belém do Pará. A motivação do tema se deu após Ana Paula conhecer uma ONG que auxilia adolescentes e mulheres vítimas de abusos em Maceió, numa viagem que fez com a família.

Mesmo com o tema pesado escolhido, ela garante não ter escrito uma história triste. Há esperança para Alice, há esperança para a humanidade, na opinião da estudante. “Já penso numa possível continuação da história, talvez em um novo romance. Tenho também um livro de poesia praticamente pronto. Poesia é meu hobby. Poesia, para mim, é aquilo que me toca, não precisa de rima necessariamente, mas é algo que me obriga a falar sobre aquilo”, diz.

No romance de estreia, ela sentiu a necessidade de falar do ponto final. “Muita coisa acaba na vida de Alice: a vida do pai, da mãe, a liberdade, mas acaba também a sua ingenuidade.” Para Ana Paula, pelo contrário, a história com a literatura só está começando, e o ponto final não está no horizonte.

AJUDE
BAZAR DE ROUPAS
Quando: 29 de março
Onde: Centro Comunitário do Jardim Alvorada
Informações: 9815-8321/3346-8538

ISTO É ANA PAULA FERNANDES
“Realmente, deixar de ser criança é difícil. Tudo bem eu já iria completar quatorze anos, quando me tornei ‘adulta’. Mas mesmo assim é muito estranho, de um dia para o outro você ver tudo diferente. Eu só não sabia realmente, quem tinha mudado. Eu ou o mundo? Talvez os dois.

Já fazia um ano e meio que minha mãe havia morrido. Minha relação com Geraldo não era das melhores mas dava para levar na água morna, sem discussões. Minhas notas estavam até que boas. Tinha dois amigos, que as vezes iam em casa, a Marcela e o Bruno. Eles me faziam companhia, algumas vezes.

Do mesmo modo como me intitulei “Alice, apenas”. Agora, me coloco como ” A Alice”, por que do ‘A’? Parei de ver o mundo com olhos de criança e me legitimei Mulher.

O cuidado obsessivo de Geraldo por mim, já havia se tornado ofensivo. E de uma hora para outra ele havia se tornado ciumento, proibiu que Bruno entrasse na ‘minha casa’ dizia ele. /// Trecho do romance “Após o Ponto Final”

*Reportagem publicada sábado (21) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Eduardo Siqueira lança ‘Cidade Fantasma’

Eduardo Siqueira andando pelas ruas do Centro: "Ando por aí e vejo as pessoas como gente natimorta"

Eduardo Siqueira andando pelas ruas do Centro: “Ando por aí e vejo as pessoas como gente natimorta” (Foto de Ricardo Lopes)

Por Wilame Prado

Cidades tendem a oprimir os seres que nelas habitam. Muitas vezes, só lhe restam a poesia. O funcionário público e escritor Eduardo Siqueira, 30 anos, prefere chamá-las de cidades fantasmas. Maringá é uma delas. E a poesia foi também a opção contra o vazio existencial por entre ruas e avenidas, prédios e casas, shoppings e parques. Ele lança às 21 horas de hoje, no Badulaque Estúdio Bar, o livro “Cidade Fantasma” (Editora Multi Foco, 80 páginas, R$ 35).

“O título se refere a uma cidade arquetípica, universal, com contradições, desigualdades e aquele vazio existencial que, na minha opinião, jaz sob todas as coisas do mundo. Ando por aí e vejo as pessoas como gente natimorta, sem propósito algum para estarem aqui vivenciando as injustiças e atrocidades da vida urbana. Observo homens e mulheres indo de lá pra cá, com seus ‘importantíssimos’ afazeres e dou risada por dentro, porque, no fim das contas, assim como eu, parecem fantasmas resolvendo problemas pendentes enquanto flutuam pela terra”, explica o autor.

Siqueira lança o livro de estreia reunindo poemas datados a partir de 2007, após publicações esparsas no meio virtual, entre blogs e revistas eletrônicas. Formado em Letras pela UEM, diz estar influenciado pelas vanguardas do começo do século 20. “Dadaísmo, Surrealismo, Expressionismo e Futurismo estão presentes no que escrevo”, define, afirmando ainda que, nos poemas, segue uma linha temática, no entanto fragmentada, com colagens.

“Cidade Fantasma” reúne poemas urbanos e suburbanos, sem definições métricas, aproximados da prosa e que se apropriam do cotidiano contemporâneo, das coisas do cotidiano, dos homens e mulheres do cotidiano, para apenas uma mensagem existencial e um tanto pessimista: somos fantasmas, em uma estúpida cidade fantasma. “Gosto de escrever sobre morte, solidão, tempo, absurdo, relações humanas, trabalho, cidade, ou seja, temas universais. Vou anotando coisas que passam pela cabeça durante o dia. Coisas que vi, ouvi, senti. Geralmente, carrego aqueles blocos de papel reciclado na bolsa. Ou anoto no caderno.”

Não à toa, o poema preferido de Siqueira é “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”, de T. S. Eliot, com versos angustiados, angustiantes, que revelam o medo da existência em meio ao tédio, à impotência, ao envelhecimento, a tudo isso no mundo urbano. Há os mesmos dramas em “Cidade Fantasma”.

ISTO É EDUARDO SIQUEIRA

VITRAIS
olho-me
no espelho
e vejo
Deus

mosaico de todos os homens
eu-estilhaço

inteiro

EVOLUÇÃO
homem-pássaro
desalado

tão coloridinho na gaiola

não sai do facebook
não voa sem motor

LANÇAMENTO
CIDADE FANTASMA
Autor: Eduardo Siqueira
Quando: hoje
Horário: 21 horas
Onde: Badulaque Estúdio Bar
Preço do livro: R$ 35
Entrada franca

*Reportagem publicada na sexta-feira (6) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Poesia sim, dentro e fora do livro

Laércio Souto Maior, ontem, na UEM: hoje, noite de autógrafos no Sesc (Foto de João Cláudio Fragoso)

Laércio Souto Maior, ontem, na UEM: hoje, noite de autógrafos no Sesc (Foto de João Cláudio Fragoso)

Por Wilame Prado

“Será Que É Poesia?” (Editora Banquinho, 100 páginas, R$ 50), do advogado, jornalista e escritor pernambucano radicado em Curitiba Laércio Souto Maior, 76 anos, é um livro para se apreciar como um todo. Além do conteúdo – poemas escritos entre 1962 e 2014 -, o apuro editorial resultou em uma publicação que vale também pelo que está do “lado de fora”, a começar pela capa, dura revestida em tecido, encadernada artesanalmente e com serigrafia assinada por Júlian Imayuki Duarte.

Sobre o processo como um todo da obra, a reportagem conversou, ontem, com o autor e também com o filho dele, Téo Souto Maior, diretor de redação da Banquinho Publicações. Os dois chegaram há alguns dias na cidade para o lançamento de “Será Que É Poesia?”, marcado para hoje, às 20 horas, no Sesc.

O livro, com tiragem de 200 exemplares numerados, foi lançado, primeiramente, em Curitiba, no ano passado. Na noite de autógrafos desta noite, em Maringá, o violonista clássico Antônio Mendes faz um pocket show. A entrada é franca, e o lucro resultante das vendas dos livros será revertido para o fundo da Associação dos Amigos do Arquivo Manoel Jacinto Correia.

“Eu nunca tinha visto um livro assim”, destaca Souto Maior, demonstrando ter aprovado a edição feita no primeiro livro de poesia dele. Autor de obras da área de Política, História e Sociologia, ele resolveu tirar do baú, pela primeira vez, os versos guardados, por cinco décadas, em cadernetas, guardanapos e rascunhos. “Eu deveria ter sido arquivista. Guardo muita coisa”, ressalta.

Mais do que pedaços de papel escritos, Souto Maior guarda as lembranças de toda uma vida cercada pela luta na militância política contra o regime militar e também os anos em que, antes de iniciar carreira jurídica, foi jornalista, inclusive aqui no jornal O Diário do Norte do Paraná, quando, nos anos 1970, chefiou a redação durante oito meses.

Na entrevista, ele contou histórias de bastidores instigantes envolvendo a prática de um jornalismo que prezava, sobretudo, pela liberdade dos brasileiros, em plena ditadura. “Na época, fui demitido três vezes a pedido de governadores de Estado”, revela. Momentos marcantes e traduzidos também em poesia.

Segundo o poeta Alexei Bueno, que assina uma das apresentações da obra, há, pelo menos três linhas poéticas em “Será Que É Poesia?”. Uma é a política, mas Souto Maior também se aventura na vertente filosófica e ainda na figura feminina, segundo Bueno. “A Literatura é algo maior e é tão importante para mim como toda a minha luta política”, define o escritor, que deixou para transformar em poesia apenas os momentos mais marcantes da vida dele.

Para Ademir Demarchi, escritor e cronista do Diário, Souto Maior traz uma novidade ao revelar as poesias, tal qual o menino da capa do livro, que parece voar enquanto deixa a maleta se abrir para inúmeros papéis se perderem no ar. “… só não é uma novidade total na biografia dele porque nos poemas encontramos impregnado o mesmo sentimento humanista de luta e de indignação com a miséria e a exploração”, opina.

A poeta e professora Norma Shirakura aponta a poesia de Souto Maior como “crônicas em versos”. “Quanto à forma, são apresentadas algumas regularidades que me parecem despontar nelas o nascedouro de seu estilo próprio, com tendência para construção de narrativas em poema longo, tendo como matéria básica a memória. Entrelaçados por esse fio condutor, o poeta e o historiador não se separam”, avalia.

Envaidecido com as palavras dos amigos, Souto Maior, aposentado há dois anos da carreira jurídica no Governo do Estado, ainda tende ao questionamento: “Será que é poesia?” Sendo ou não, comemora o tempo maior que hoje tem para as letras. Alguns dos últimos poemas foram escritos na merecida paz do descanso litorâneo, em Balneário Camboriú e no Pontal do Paraná.

E se, como o próprio diz, talvez não haja um segundo livro de poesia, outros gêneros literários estão garantidos: em primeira mão, Souto Maior anuncia que, no segundo semestre, lança “O Levante Anarquista da Vila de Trancoso”, o primeiro romance dele, também pela Banquinho Publicações.

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SERÁ QUE É POESIA?
Autor: Laércio Souto Maior
Editora: Banquinho Publicações
Noite de autógrafos
Quando: Hoje
Onde: Sesc Maringá, às 20h
Preço do livro: R$ 50

*Reportagem publicada nesta quinta-feira (5) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Sérgio Tavares Filho lança ‘Capricórnia’

Sérgio Tavares Filho: mesmo longe, cidade natal não é esquecida em livro

Sérgio Tavares Filho: mesmo longe, cidade natal não é esquecida em livro

Por Wilame Prado

Sérgio Tavares Filho andava sumido. Maringaense de 32 anos que atuava na área da comunicação por aqui, foi estudar fora do País e acabou conhecendo em Helsinque, na Finlândia, a sua mulher. Por lá ficou e hoje mora com ela em um pequeno apartamento na capital finlandesa, prossegue com os estudos em um doutorado na área da cultura e cumpre expediente, “para o ganha-pão”, numa agência de mídia. Sua forma de reaparecer por aqui vem nas páginas de um livro. Tavares Filho lançou recentemente “Capricórnia” (Patuá, 136 páginas, R$ 32), à venda no site da editora.

O romance de estreia do maringaense conta a história de uma arquiteta que se envolve em um acidente e que, após este acontecimento, convence-se de que é uma outra mulher. Enlouquecida, viaja aos trópicos para descobrir quem realmente é. De maneira indireta (no livro a palavra “Maringá” não aparece), ela vem parar justamente aqui na cidade – local propício, segundo o autor, para refletir com a arte do romance sobre a espécie de bolha que vive a classe média, muito aproximada da pobreza, mas também muito temerosa por aquilo que está do outro lado da margem.

Sobre o livro, inspirações, literatura, personagens femininos e a vida longe da cidade natal, ele falou nesta entrevista:

E a vida em Helsinki?
SÉRGIO TAVARES FILHO – O dia a dia é calmo: o transporte funciona de forma exemplar, a burocracia é reduzida e há uma sensação forte de segurança. Apenas o idioma é que faz sofrer!

Qual é a história do livro?
É a história de uma arquiteta que enlouquece depois de atropelar uma mulher na estrada. Ela se convence de que é outra pessoa e vai atrás de descobrir quem é. Para isso, vai de encontro até “o Trópico” — e é ali que ela encontra os pobres, à beira da estrada e seus próprios limites. Isso é tudo muito inspirado na nossa classe média de Maringá, que vive numa espécie de bolha: clube, igreja, casamento, design de interiores. Existe um medo terrível de tudo que vem do outro: a margem da cidade, o filho da empregada, ou até ficar pobre. Lidei com esses desconhecidos para fazer o livro.

Como foi para você dar voz a uma personagem feminina?
O texto surgiu como ensaio de uma briga entre marido e mulher. Foi se expandindo até virar o livro todo, sempre como uma torrente de pensamento. Acho que isso foi possível porque minha família é muito matriarcal. O livro é também uma coletânea de histórias que ouvia quando criança, algumas delas muito perturbadoras. São histórias desse Paraná mais profundo, e sempre chegaram a mim depois de gerações, através das mulheres da família.

É um romance psicológico?
Sim. Tudo se passa na cabeça da personagem, e o ritmo da narrativa segue muito também as próprias tensões da arquiteta. Queria fazer uma personagem forte, mas vulnerável. Para mim, o drama nunca é ser forte ou fraco, mas sim a transição entre uma coisa e outra.

Acredita que, na literatura, é ajudado por suas bases teóricas, levando em conta os estudos sobre “paratextos”, videoinstalações e tagnovels?
Acho que sim. Em especial os estudos de símbolos e algumas coisas sobre narrativa. O Umberto Eco me ajudou, por exemplo, a não criar efeitos ou sensações, e sim sentido e propósito. Vivemos numa cultura muito cheia de estímulos fáceis, e eles são geralmente de mau gosto. Basta pensar no Big Brother, nas mulheres-objeto que permeiam a TV, e afins. Da mesma forma, os melodramas, os sentimentalismos.

Chamou a atenção a dedicatória à memória de sua mãe e o fato de o livro ser protagonizado por uma mulher. 
Minha família passou, de forma difusa, por eventos narrados no livro. É uma coletânea. Minha mãe sofreu um acidente quando era jovem, por exemplo, e perdeu a irmã. Sempre foi dramático na família, isso. E há outras histórias, também. Dediquei o livro a ela em especial porque, há um ano e meio, ela faleceu, vítima de um aneurisma. Foi súbito e ainda sinto enormemente sua falta. O livro fecha alguns ciclos na nossa vida psíquica também.

A questão do duplo é recorrente na literatura. Como foi a construção dessa personagem?
O duplo é sempre assustador, porque é um estranho que é ao mesmo tempo familiar. Há muita teoria em torno desse conceito. Queria a ideia de que a narradora aos poucos passasse a se tornar a arquiteta em quem “encarnou”. E tinha que ser aos poucos. Foi um processo interessante, em especial porque quando a narradora se refere a “ela”, essa mulher em que ela passou a habitar, o livro passa a ser narrado em terceira pessoa. E ao mesmo tempo, é em primeira pessoa. Então essa confusão acabou sendo uma escolha estilística interessante.

E com relação ao espaço? Essa cidade média brasileira sobre o Trópico de Capricórnio?
Pois é! Não há como negar que é amplamente inspirado em Maringá. E o trópico é apenas um símbolo de tantas divisões que fazemos: nós e a empregada doméstica.

E as negociações com a Patuá?
Foi demorado, mas o importante foi ter paciência. O Eduardo Lacerda está fazendo algo importante. É uma nova maneira de curadoria, livre de hábitos editoriais que ficaram obsoletos ou que não podiam existir antes. Acho que ele está na ponta da inovação. Sinceramente eu fiquei impressionado com a baixa qualidade de livros publicados em editoras menos conhecidas. A Patuá consegue publicar uma quantidade alta de bons livros, que ganham prêmios. É diferente de outros editores tradicionais, como a 7Letras, que publicam poucos e bons. Estou muito feliz.

ISTO É SÉRGIO TAVARES FILHO
“Quando já fazia um ano que brincávamos, minha mãe começou a se incomodar com o tempo que eu passava no corredor. Às vezes só o que eu ouvia era a reclamação dela, ainda que eu ficasse em frente à fresta e tentasse me concentrar na vozinha dele. Eu sabia que ele queria minha companhia, e eu queria a dele, também.
Um dia eu dei a ele um pedaço maior de pão que minha mãe havia acabado de assar. Ele disse que nunca havia experimentado aquele tipo de pão. Era de novo um dia muito azul e ele me confessou uma coisa que ele só dizia a quem confiava: ele estava lá, na fresta, porque ele guardava um tesouro. Eu fiquei surpresa, mas da maneira como as crianças ficam quando surpresas: poderia ser um tesouro ou uma nova conta de vidro, não fazia diferença. O simples fato de que ele tinha algo que não podia deixar de ser guardado já era fascinante e eu estava muito curiosa para saber o que era. Se eu quisesse vê-lo, ele disse, eu precisava trocar de lugar com ele. Será que eu iria conseguir deixar minha mãe e meu pai e meus amigos para viver lá? Não estava claro para mim, mas eu tive, então, pela primeira vez na vida, uma dúvida verdadeira diante de uma escolha. Eu não pude dar para ele uma resposta imediata, e pensei nela por muito tempo.” ///Trecho do romance “Capricórnia”, de Sérgio Tavares Filho

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CAPRICÓRNIO
SÉRGIO TAVARES FILHO
Editora: Patuá
Número de páginas: 136
Preço: R$ 32 + frete
Onde comprar: www.editorapatua.com.br

*Reportagem publicada em 15 de fevereiro no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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A crueza do faroeste

Reedição de "Terra Crua" traz fotos históricas, como a do Hotel Campestre, inaugurado em 1942 na Av. Brasil

Reedição de “Terra Crua” traz fotos históricas, como a do Hotel Campestre, inaugurado em 1942 na Av. Brasil

Por Wilame Prado 

A história de uma Maringá que nascia em um verdadeiro cenário de faroeste entre 1938 e o fim da década de 1950 continuará sendo preservada. Naquele tempo e espaço, cuja “lei dos mais fortes” era predominante, viveu o advogado, dentista, piloto de avião e vereador Jorge Ferreira Duque Estrada, testemunha ocular da história local e autor de “Terra Crua”, um dos livros mais importantes da literatura historiográfica maringaense e que ganha hoje uma edição especial comentada.

O lançamento oficial acontece às 20 horas, na OAB – Subseção Maringá, com entrada franca. Essa versão do livro – que foi originalmente escrito em 1957 e editado em 1961 é organizada pelo professor de História da UEM Reginaldo Dias, pelo especialista em História e Sociedade do Brasil Miguel Fernando Perez e também pelo cientista político Sérgio Gini. A edição comentada de “Terra Crua” sai pela Eduem e tem 270 páginas. O projeto da reedição do livro é do Instituto Museu da Família e conta com o patrocínio cultural da Viapar, que destinou R$ 45 mil via Lei Rouanet.

Com poucos exemplares espalhados na cidade, o livro ganha agora outras três mil unidades, a serem distribuídas gratuitamente nas bibliotecas públicas municipais. Essa edição especial conta com fac-símile da obra original (tratando-o como documento histórico), posfácio de Fernando Duque Estrada (filho do autor), ensaio acadêmico assinado por José Henrique Rollo Gonçalves e Reginaldo Dias e uma seção com imagens que fazem algum tipo de ligação com o texto original.

Um verdadeiro Velho Oeste, ressalta o historiador Reginaldo Dias, era o que viu por aqui Jorge Ferreira Duque Estrada e que, posteriormente, foi documentado no livro. E para a tarefa intelectual de transformar os acontecimentos em fatos históricos, o autor de “Terra Crua” se fez valer de documentos oficiais (Câmara, cartórios, processos, fotos e até propaganda eleitoral), de uma facilidade que o advogado tinha em compor narrativas baseadas em papeis e, mais importante que tudo, um poder de morador observador e crítico que era.

“Ele escreve imerso nos acontecimentos ou com mínima distância. Ele narra tomando partido. Atualmente, chamamos isso de história do tempo presente, escrita no calor da hora”, explica Dias. Para o professor, que também é cronista, às quartas- feiras, deste caderno Cultura, na obra também é visível uma inspiração no cinema de faroeste, muito popular no período. “‘Terra Crua’ não é um lugar, mas um tempo, o tempo em que a civilização está chegando, mas não se instalou completamente. Algo como o Velho Oeste.”

Com a nova versão, ganha a história de Maringá e também a história sobre o importante personagem que foi Duque Estrada, morto em 1983 e que é lembrado no ensaio histórico e ainda no posfácio do livro. “É o livro mais influente da literatura histórica de Maringá. Ele funda essa literatura e influencia, pela qualidade de sua narrativa e por sua interpretação, a bibliografia posterior. Concordando ou não com o autor, é indispensável dialogar com o que ele escreveu. Trata-se de um clássico”, finaliza Dias.

REEDITAR ‘TERRA CRUA’ ERA SONHO ANTIGO

Não vem de hoje o sonho de reeditar o livro “Terra Crua”, de Jorge Ferreira Duque Estrada. Mas agora, passados 57 anos de sua primeira edição, finalmente o projeto sai do papel após a parceria de várias instituições. Essa nova edição, com comentários, fotos e posfácio e ainda o fac-símile da obra original tem patrocínio da Viapar, o Instituto Cultural Ingá como fomentador, o apoio da Acim, do jornal O Duque, Sinergia Mídia e Convergência e Sol Propaganda, além do Museu da Família (MF) como realizador.

“Como museu, entendemos que a história tem que ser contada. Percebendo que não havia sido viabilizado pela instância pública, dessa forma decidimos nos colocar como agentes privados para que pudéssemos, acessando os recursos, viabilizar a reedição. Além do livro, o mesmo projeto viabilizará um documentário e estamos abertos a novos patrocínios. As empresas de Maringá que quiserem apoiar o projeto podem nos procurar”, explica Marcelo Seixas, diretor executivo do MF.

O especialista em História Miguel Fernandes Perez, que agora comemora a reedição do livro após tentativas iniciadas ainda em 2007, considera “Terra Crua” uma obra de difícil definição, mas extremamente saborosa. “Duque Estrada escreveu uma história no olho do furacão dos acontecimentos, e ao mesmo tempo, sem rodeios. A verdade como ela é. É um livro de difícil definição, pois é uma crônica, literatura e outros formatos. Ele relata acontecimentos sangrentos que ocorreram nesta região, como embates entre grileiros e jagunços. Além, é claro, de situações pitorescas, como a surra que Américo Dias Ferraz levou de ‘Santão’, em dezembro de 1956, a mando de Aníbal Goulart Maia. Só por essa passagem, já entendemos que Maringá era bem diferente que muitos livros costumam relatar, como uma região pacata. Em verdade, até usando um termo do autor, aqui era literalmente ‘o velho oeste’.”

ESTANTE
TERRA CRUA
Autor: Jorge Ferreira Duque Estrada
Editora: Eduem
Número de páginas: 270
Lançamento: hoje, 20h, na OAB – Subseção Maringá

*Reportagem publicada terça-feira (18) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Vale bem mais que 2,99

Caricatura de Marcio Renato dos Santos que faz parte do projeto gráfico das Tulipas Negras para "2,99"

Caricatura de Marcio Renato dos Santos que faz parte do projeto gráfico das Tulipas Negras para “2,99”

Por Wilame Prado

O cotidiano das cidades é prato cheio para quem procura histórias a serem contadas por meio dos textos. O difícil é enxergá-las. Nem tanto para Marcio Renato dos Santos, 40 anos, que lançou recentemente em Curitiba “2,99” (Editora Tulipas Negras, R$ 30, 120 páginas). Para o seu terceiro livro de contos, o curitibano se apropriou do olhar treinado de repórter – profissão exercida por vários anos nas redações da revista Ideias (Travessa dos Editores) e no Caderno G (Gazeta do Povo) – para enxergar a ficção literária que o cotidiano revela.

Os 16 contos curtos do livro revelam personagens em práticas cotidianas atípicas, a exemplo dos Gattelli, do conto “Segredo de família”, que sabem da importância de se haver anões se relacionando com as mulheres da família para que haja prosperidade nos negócios; ou então dos bigodudos envolvidos no concurso semanal de imitadores de Paulo Leminski, no conto hilário “A noite está velha”, que, de uma maneira muito sutil, com as aventuras envoltas ao anti-Leminski, critica a cena, a pose, as modinhas literárias. O que dizer do conto tragicômico “O Souza da Ilha”, que narra a história do Souza, vendedor há 20 anos de batidinha no litoral e que diz, para o mesmo cliente, na beira da praia, a mesma frase, dez ou quinze anos depois do primeiro encontro: “A Mega está acumulada. Dessa vez eu ganho.”?

É como se Santos, que atualmente trabalha na equipe editorial da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, incorporasse seu lado repórter apenas para o deslocamento do olhar e, no momento em que finalmente coloca as histórias no papel, se deixasse levar pela liberdade de invenções que a prosa oferece. O resultado disso são contos sucintos, brilhantemente claros graças à facilidade que o autor tem de contar uma história por meio do texto e, em certa medida, engraçados. Certa medida porque, a depender da avaliação que se faz quando se olha um cotidiano aparentemente absurdo, pode-se concluir o quanto de loucura há na vida dos mais comuns dos homens que vivem nas cidades.

Tal qual um simples artigo do cotidiano vendido em lojas a preços fixos e populares – R$ 1,99, R$ 2,99, R$ 3,99 – o autor aparentemente oferece seus contos sem preocupações, sem ambições. E justamente pelo fato de conseguir ser simples ao contar histórias engraçadas envolvendo lugares comuns com pessoas estranhas, ele tem alcançado um grande – senão o maior – objetivo com os contos publicados: leituras. Além dos conhecidos, jornalistas, professores e um público que adquire o livro nos lançamentos e nas livrarias, “2,99” vem sendo recomendado como leitura em colégios da capital e de cidades próximas. Certamente auxiliará para que alguns jovens criem o hábito da leitura.

ISTO É MARCIO RENATO DOS SANTOS
“Enquanto o Alberto, o Bernardo, o César, o Daniel, o Ferdinando, o Gastão, o Hamilton e outros tantos devem ter vindo ao mundo com uma missão, talvez destinados a construir algo, aterrissei por aqui a passeio ou, com mais precisão, a descanso. Vim para beber, me embriagar e viver aquele estado no qual a razão não tem vez.

Beber todo dia, toda noite, me trouxe dor de cabeça. A sensação dos primeiros goles é prazerosa, mas nos minutos, horas, copos e garrafas seguintes o que se entende por raiva toma conta do que sou. Já perdi o controle e me envolvi em conflitos por causa do consumo de álcool. Briguei, bati, apanhei, mais apanhei do que bati, e os efeitos foram irreversíveis. Afastei-me de amigos, desfiz casamentos, inclusive o meu, e escapei de balas disparadas por armas de fogo contra o meu corpo.

O que me trouxe mais problemas foi a minha covardia no mundo físico, que se transformou em uma coragem relativa, na realidade da internet. Apesar de cordial, de sorrisos, bom dia, oi tudo bom? tudo bem? – ao beber, me transformo em um sujeito hostil, talvez o ser agressivo real, que eu camuflo e dissimulo para sobreviver.

Já havia lido, na internet mesmo que, se beber, não tecle; se beber, não entre nas redes sociais. Mas entrei, bêbado, por diversas vezes, na internet, em especial, no facebook.”
///Trecho do conto “O segredo da bem-aventurança de Chuni Kuni”, do livro “2,99”, de Marcio Renato dos Santos

ESTANTE

JPG72 capa 2,99

2,99
Gênero: contos
Autor: Marcio Renato
dos Santos
Editora: Tulipas Negras
Páginas: 120
Preço: R$ 30
Onde comprar: www.livrariascuritiba.com.br

ENTREVISTA

Primeiramente, por que resolveu levar o “2,99” para várias escolas

MARCIO RENATO DOS SANTOS – Meu segundo livro de contos, o “Golegolegolegolegah!”, publicado pela Travessa dos Editores, em 2013, teve leitura em escolas, sobretudo em alguns colégios do Sesi, na unidade do bairro Boqueirão, em Curitiba, e na unidade de Araucária, na região metropolitana de Curitiba. Agora, a Ana Paula Galkowski, coordenadora do Colégio Sesi de Castro, apresentou o “2,99” aos alunos do Colégio Sesi de Castro. Sessenta alunos vão ler o “2,99” nas férias e, em agosto, devo bater um papo com eles. É sensacional, não é? Dia desses, um aluno que leu “Golegolegolegolegah!” me contou, pelo Facebook, que comprou, leu e gostou de “2,99”. Que tal? Isso é uma beleza. Os meus livros circulam entre escritores, jornalistas, professores e, enfim, não sei exatamente quem lê a minha ficção. Mas ter a oportunidade de ser lido por alunos do ensino médio e, em seguida, conversar com os alunos sobre a minha obra literária é algo sensacional. Para mim, é quase um milagre. E penso que a leitura de ficção contemporânea pode ser estimulante para esses alunos do ensino médio.

Uma curiosidade: como é a vida aí na capital plenamente envolvido em trabalhos envolvendo jornalismo e literatura? Produzir o Cândido, trabalhar na Biblioteca Pública do Paraná, tudo isso tem auxiliado ou atrapalhado sua produção de ficção?

Estreei na ficção com “Minda-au”, livro de contos publicado pela Record em 2010. Naquela época, eu trabalhava na Gazeta do Povo, no Caderno G. Os contos de “Minda-au” foram escritos de 2007 a 2008, período no qual eu já estava no jornalismo diário. Escrevo ficção desde 1986, quando comecei mesmo a ler ficção e poesia todo dia. Se teve um marco? Eu passava férias na casa do meu tio Luiz, que morava em Maringá — hoje ele mora em Camboriú. Naquelas férias de 1986, li, na casa dele, em Maringá, “Feliz Ano Velho”, do Marcelo Rubens Paiva. Até então, eu lia os livros na escola, em casa, mas aquele livro do Marcelo Rubens Paiva me tocou muito. A dicção contemporânea, a prosa fluente e trama insinuante me pegaram. Em seguida, procurei outros livros. Continuo até hoje, 2014, em busca de mais livros. Leio todo dia. Mais de um livro ao mesmo tempo. E foi a partir das leituras que comecei a escrever. Em 2000, passei a colaborar, como resenhista, com o Rascunho e até 2010 escrevi uma resenha por mês, isso durante uma década, no Rascunho. Só parei de resenhar por que a Record lançou “Minda-au”, o meu primeiro livro. Demorei para procurar editora. De 1986 até 2008, 2009, escrevia todo dia, lia todo dia, sem pensar em publicar livro. Foi por volta de 2008, 2009, que pensei em enviar um original para uma editora. E escolhi a Record. Enviei “Minda-au” e a Luciana Vilas-Boas, então diretora-editorial, decidiu publicar o livro. Depois, publiquei o segundo livro, também de contos, “Golegolegolegolegah!”, pela Travessa dos Editores, em 2013. Este ano, publiquei, em maio, o “Dicionário Amoroso de Curitiba”, pela editora Casarão do Verbo, da Bahia — é um projeto no qual um escritor de cada uma das cidades-sedes da Copa 2014 escreve um livro com verbetes sobre a cidade. E, em junho, publiquei pela Tulipas Negras esse “2,99”. Tudo isso pra te dizer o seguinte: a vida segue, trabalho e leio e escrevo ficção. Até maio deste ano deu certo. Faço, entre outras atividades, as matérias para o Cândido, trabalho na Biblioteca Pública do Paraná e, em casa, à noite, e de madrugada, acontece a ficção. Pelo menos até maio deste ano. O resto eu conto em outra pergunta, aguarde.

Produz também prosas mais longas ou é um defensor convicto do conto, e por quê?

Somos frutos do meio no qual nascemos? Não sei. Sei que nasci dia 28 de abril de 1974 em Curitiba, a terra do conto. Paraná, terra de Newton Sampaio (1913-1938) – ele nasceu em Tomazina, o primeiro autor moderno do Paraná, contista, a respeito de quem fiz uma dissertação de mestrado, defendida na Universidade Federal do Paraná em 2005. O Dalton Trevisan foi leitor do Newton Sampaio, e fez menção ao autor na revista Joaquim, que o próprio Trevisan editou entre 1946 a 1948. Nasci e moro em Curitiba, cidade do Dalton Trevisan, um mestre do conto. Convivi com Jamil Snege (1939-2003), outro mestre do conto. Também convivi com Wilson Bueno (1949-2010), que foi um excelente contista. Leio romance, poesia, não ficção e leio conto. Talvez eu tenha começado, em 1986, a escrever conto por causa dos livros do Dalton Trevisan. Admiro muito os contos do Machado de Assis, do Antonio Carlos Viana, do Sergio Faraco e do André Sant’Anna. Dizem que conto não vende? Mentira. Claro que vende. Dizem que poucos leem conto? Mentira. Há muito público para o conto. Eu continuo a responder essa pergunta ao longo das próximas respostas, combinado?

O que almeja, ou pelo menos imagina almejar, com os textos publicados em “2,99”?

Eu gostaria que os textos de “2,99” fossem lidos. O livro está à venda nas lojas da Livrarias Curitiba, na Livraria Poetria Livros, em Curitiba, na Livraria Arte & Letra, em Curitiba e no Sebo Kapricho II, em Curitiba. É possível adquirir por meio da internet, é bem fácil. O livro custa R$ 30. Essa matéria que você está fazendo vai proporcionar visibilidade ao “2,99”. O resto, você vai ver, respondo na próxima pergunta.

Pode me explicar o motivo do nome do livro, e peço perdão se essa informação estiver no release (estou longe dele).

O meu primeiro livro se chama “Minda-au”, foi publicado em 2010 pela Record. “Minda-au” teria sido, dizem os meus pais, a primeira palavra que pronunciei, ao olhar para um quadro de um dromedário, obra de minha avó Diva, já falecida. Depois, em 2013, lancei “Golegolegolegolegah!” pela Travessa dos Editores. “Golegolegolegolegah!” trata da incomunicabilidade e pensei num título impronunciável. Segui escrevendo e reuni alguns contos para o que seria o meu terceiro livro, o “2,99”. Nesse meio tempo, fui convidado, pelo Rosel Soares, da Casarão do Verbo, para escrever o livro “Dicionário Amoroso de Curitiba”, com verbetes sobre a capital do Paraná. Durante 2013, escrevi os verbetes para o “Dicionário Amoroso de Curitiba” e também os contos de “2,99”. Se você olhar a contracapa de “2,99”, vai ver o número 3. Esse livro de contos seria o meu terceiro livro, daí o número 3. Mas, também, escolhi “2,99” para fazer alusão às lojas de 1,99 e 2,99: os contos fazem alusão a situações do cotidiano. Às vezes, é um cotidiano no qual uma família prospera no comércio pelo fato de as esposas dos negociantes se entregarem a anões (confira o conto “Segredo de família”). À vezes, é um cotidiano no qual são realizados concursos de imitação do Paulo Leminski e o melhor candidato é o anti-Leminski (veja no conto “A noite está velha”). Às vezes, o sujeito trabalha na profissão mais feliz do mundo, autuário (isso de acordo com pesquisa recente), mas é infeliz (dê uma olhada no conto “Jimi Hendrix”). O cotidiano, mesmo que surreal, está recriado nos contos de 2,99. Por isso o título: para fazer alusão às lojas que vendem produtos do cotidiano.

Leio algumas informações sobre o livro na internet. E me deparo com este parágrafo, a respeito de um dos contos: “… Outros não conseguem sair do itinerário casa-trabalho, trabalho-casa”. Cara, a vida cotidiana, comum a várias pessoas, é algo que o motiva a escrever de maneira irônica, dramática ou escrachada?

O cotidiano pode parecer chato, pode parecer uma prisão, onde nada muda, mas tudo está em transformação, o tempo todo. O cotidiano é o melhor dos mundos. O trecho que você citou pode ser atribuído ao conto “Rastros”, no qual o personagem sua e o cheiro incomoda apenas a ele. O conto mostra um dia na vida do sujeito que se incomoda em suar, apesar de não fazer, em tese, quase nada. Não sei dizer se escrevo de maneira irônica ou dramática. Algumas pessoas que leram, me disseram que os contos de “2,99” são engraçados por causa da ironia, de um efeito de humor. O André Sant’Anna, um escritor brilhante, leu “2,99” e escreveu o texto que está na orelha. O texto dele ajuda a entender o livro. Eu não sei dizer algo sobre o que escrevo. Sei que “2,99” está sendo bem recebido, tem mais leitura dos que os livros anteriores. Já concedi entrevista para uma rádio de Minas Gerais. Pela primeira vez estou sendo entrevistado por um jornal de Maringá. Veja só! O livro circula. É uma alegria imensa tudo isso. Te agradeço, demais, por se interessar pelo meu livro, pela minha ficção. Obrigado, muito obrigado.

Situações cotidianas são inspirações para a literatura? E o que mais?

Um escritor, amigo, que mora em São Paulo leu “2,99” e disse que “2,99” é surreal, que eu flerto com o surrealismo. Será? Não sei. Mas se o escritor disse, talvez possa ser. Será? No conto “O segredo da bem-aventurança de Chuni Kuni”, que foi traduzido para o alemão e está na coletânea Wir sind bereit, publicada na Alemanha no ano passado, e agora em “2,99”, o personagem vivia perdido por causa do consumo de álcool, até que desiste de beber e prospera — esse é o segredo dele. Mas, em seguida, ele está diante de um garçom e pode pedir um drink e, se beber, destruir a vida. Ele vai beber? Não vou contar mais nada, é o desfecho do texto. Esse conto é sobre o cotidiano? Ou surreal? Ou algo que dialoga com o mundo dos sonhos? Nos contos “Uma jornada particular”, “Caminho de Santiago”, “Jobs” e “Fantasmas”, os personagens não sabem mais qual o limite entre realidade, sonho e pesadelo. Nos últimos cinco anos, vejo toda noite um filme, sobretudo do Federido Fellini, mas também vejo e revejo filmes do Roberto Rosselini, do Vittorio De Sica, do Luchino Visconti, do Francis Ford Coppola. Música escuto todo dia desde pequeno. Frequento museus, principalmente o Museu Oscar Niemeyer, almoço em restaurantes por quilo, como em pastelarias, caminho pelas ruas de Curitiba. Isso tudo deve ter impacto no que escrevo.

O que esta Copa do Mundo, morando numa das cidades-sede, auxiliou em seu processo como escritor, jornalista e observador do mundo?

Torço para o Clube Atlético Paranaense. O fato de o estádio da Copa 2014 em Curitiba ser o do CAP é uma maravilha. Ainda não fui ao estádio novo, mas nesse Brasileirão de 2014, agora no segundo semestre, sem dúvida, estarei lá. Gosto muito de futebol. Em 2010, quando eu trabalhava na Gazeta do Povo, tirei férias em junho para acompanhar todos os jogos da Copa, pela televisão, em casa. Esse ano, vejo o que posso. Está sendo uma maravilha viver em Curitiba durante a Copa 2014. Tem turistas nas ruas, as pessoas, os locais, ficam mais leves e alegres, muitos assopram cornetas, tem gente com roupa verde e amarela, caminhar nas ruas em dia de jogo do Brasil é uma experiência única. Surgiram algumas ideias para contos durante esta Copa. Só não vou contar o que é por que acho que se contar, a ideia se esvazia e perde a força. Mas considero essa Copa 2014 muito inspiradora. Vou escrever sobre esse período. No próximo livro.

Quais livros gostaria de ter sido o autor? Quais escritores admira para sempre e quais estão, neste momento, em sua cabeceira, na mesa do computador, enfim…

Em geral, leio 10 ou mais livros ao mesmo tempo. Agora, estou lendo, entre outros, “Poesia Total”, do Waly Salomão; “As coisas de João Flores”, de Marco Aurélio Cremasco; “O beijo de Schiller”, de Cezar Trdapalli; “O Brasil é bom”, do Andre Sant’Anna; “Lado B”, de Sérgio Augusto; “O mais estranho dos países”, de Paulo Mendes Campos e “A origem do gênio”, de Dean Keith Simonton. Tem prosa, romance e conto, tem poesia, tem ensaio e tem crônica. Terminei de ler “Nu, de botas”, do Antonio Prata, uma obra-prima sobre a infância. Acompanho lançamentos, leio clássicos que ainda não li, releio Machado de Assis, Borges, Dalton Trevisan, Swift, Shakespeare, Drummond, Roberto Gomes, Bandeira, Guido Viaro, Guimarães Rosa, Melville, Cervantes etc. Um pouco de tudo, todo dia.

Eu quero escrever os meus próprios livros. Os livros que os outros escreveram, eu quero mesmo é ler.

Esta é uma pergunta que sempre faço, mais por curiosidade mesmo: como é o seu processo criativo? Curte escrever que horas? É cercado por manias? Por brancos criativos? Por necessidades desesperadas de por coisas no papel? Acorda no meio da noite em busca de uma caneta e papel? Enfim…

Desde 1986, quando comecei a ler e a escrever, e li e escrevi praticamente todos os dias, sem interrupção, em qualquer lugar, até abril, maio de 2014. Em casa? No computador. Em viagem? No caderno. Em férias? Caderno. Sem problemas, em qualquer lugar, em qualquer hora. Mas este ano aconteceu, pela primeira vez, um problema. Publiquei dois livros, o “Dicionário Amoroso de Curitiba”, com sessão de autógrafos dia 6 de maio e o “2,99”, lançado dia 3 de junho. Fiz a revisão e o fechamento dos livros quase ao mesmo tempo, desde o fim de abril. Veja só. Eu trabalho durante o dia na Biblioteca Pública do Paraná. Então, à noite, ao chegar em casa, a partir de abril, toda noite, me dediquei a reler e a rever esses dois livros por quase 40 dias. Fiquei e estou esgotado. Sabe o que aconteceu? Travei. Não consigo mais escrever ficção. Pela primeira vez na vida, desde 1986, estou sem escrever ficção. Ideias eu tenho, o tempo todo. Acordo para anotar sonhos. Ando e tenho ideias, paro e anoto. Almoço e tenho ideias. Tomo banho e surge uma ideia para um conto. Vou comer um pastel e tenho outra ideia. Sem parar. Só não estou escrevendo. Estou fraco, debilitado, de tanto trabalhar com os dois livros. Vamos ver se, ainda em 2014, eu consigo escrever ficção. Será? Por enquanto, quero apenas ler, dormir e anotar as ideias.

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (16) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Tezza revisita o passado

AUTOCRÍTICA .Cristovão Tezza, em Curitiba: “Sinto que é o meu melhor livro”. —FOTO: GUILHERME PUPO

AUTOCRÍTICA. Cristovão Tezza, em Curitiba: “Sinto que é o meu melhor livro”. —FOTO: GUILHERME PUPO

Wilame Prado

Antes de discursos em que precisamos falar da gente mesmo, passa um filme na cabeça e ativamos a máquina da memória tentando, num exercício de ordenação e coerência, transformar lembranças em palavras proferidas. No ínterim, tendemos a pensar em fatores externos – família, relacionamentos, profissão, política atual – mas, quase sempre, deixamo-nos comover pelas reminiscências, pelas emoções, que, tal qual uma lágrima que transborda dos olhos e que ofusca o plano da visão, chegam a distorcer os fatos com a exacerbação dos sentimentos em detrimento da realidade pretérita. Nosso passado, que é uma história que nós mesmos construímos para a gente, tende a ser potencializado com a nostalgia.

“O Professor” (Editora Record, 240 páginas, R$ 32), romance lançado recentemente por Cristovão Tezza, 62 anos, tem sua narrativa concentrada nas poucas horas que antecedem o discurso que o professor aposentado de filologia românica Heliseu da Motta e Silva, 71, fará em uma homenagem que está prestes a receber pelos serviços docentes prestados.

Não há limite de tempo para as memórias, e Heliseu rememora, nessas poucas horas, décadas de uma vida dedicada à arte de ensinar, incluindo, nesse pacote de lembranças, fatos importantes da história pessoal e da política brasileira.

Como acontece com a maioria das pessoas, passa um filme na cabeça do professor. E como bem sabe fazer o escritor catarinense radicado em Curitiba, o filme das memórias de Heliseu foi transformado em romance.

Em “Um Erro Emocional” (Record, 2010), Tezza praticou a sua destreza em escrever páginas e mais páginas que concentram, no tempo da obra, apenas horas vividas pelas personagens. Na ocasião, ele narra a ida do escritor renomado Paulo Donetti ao apartamento de uma leitora, Beatriz, para dizer que havia cometido um “erro emocional”, o de ter se apaixonado por ela.

Em “O Professor”, o recorte temporal se limita entre o lento despertar do idoso e o momento em que finalmente coloca o papel do discurso no bolso, olha-se no espelho e vai para a devida homenagem a ser recebida.

Nesse intervalo de quatro anos entre os dois romances, Tezza exercitou o conto em “Beatriz”, o ensaio literário em “O Espírito da Prosa” e a crônica em “Um Operário em Férias”. Agora volta ao romance e, até pelo pouco destaque que teve publicando em outros formatos literários (principalmente quando comparado com o retumbante sucesso de “O Filho Eterno”, de 2008), demonstra mesmo que a prosa mais longa é o seu forte.

Na bibliografia, são 18 obras publicadas, sendo 14 romances, incluindo, além dos supracitados, os elogiados “Uma Noite em Curitiba”, “Trapo” e “O Fotógrafo”.

Comemoração à parte dos leitores que aguardavam um novo romance de Tezza, “O Professor” chega ao País já premiado. Ano passado, o livro foi escolhido pelo Financial Times como um dos melhores estrangeiros publicados no Reino Unido.

Afora isso, o próprio autor considerou, em entrevista concedida por e-mail, tratar-se de seu melhor livro até aqui. “Depois de vários livros publicados, o escritor já consegue ter uma noção de medida de seu trabalho, ainda que não a certeza absoluta, que não existe. Eu sinto que é o meu melhor livro pelo apuro técnico e pela maturidade da visão de mundo, que é algo que só o tempo dá. Mas é preciso lembrar que o autor é sempre suspeito ao falar da própria obra.”

Após a conquista de vários prêmios com “O Filho Eterno”, ele ganhou dinheiro, fato que estimulou a antecipação da aposentadoria nos tablados da Universidade Federal do Paraná, onde lecionou por 20 anos no curso de Letras. Olhando para o currículo de Tezza e todo seu envolvimento com a academia, poder-se-ia imaginar que “O Professor” é mais um romance com traços autobiográficos. Não é, segundo o próprio autor.

“O único livro de fundo autobiográfico que escrevi foi ‘O Filho Eterno’. Personagens professores são recorrentes na minha obra: há professores em ‘A Suavidade do Vento’ e ‘Uma Noite em Curitiba’, por exemplo, e isso não significa que sejam livros autobiográficos. Não há nada de mim em Heliseu, exceto a profissão – já fui professor e convivi no mundo universitário que meu personagem habita”, explica.

TEZZA AGUARDA CONVITES PARA LANÇAR ‘O PROFESSOR’
“O Professor” foi lançado oficialmente em Curitiba no começo de abril. Já no sábado do dia 12 de abril, Tezza estaria na Livraria e Editora Arte & Letra, também na capital paranaense, ao lado dos escritores Rogério Pereira e Mário Araújo, no lançamento de “Entre as Quatro Linhas”, coletânea de 15 contos sobre futebol organizada por Luiz Ruffato.

Dentre os contistas estão, além de Tezza, Pereira e Araújo, Fernando Bonassi, Ronaldo Correia de Brito, Eliane Brum, Flávio Carneiro, André de Leones, Tatiana Salem Levy, Adriana Lisboa, Ana Paula Maia, Tércia Montenegro, Marcelo Moutinho, Carola Saavedra e André Sant’anna.

Em sua última passagem por Maringá, Tezza participou da Semana Literária do Sesc em 2010 e versou sobre a criação literária e importância da leitura. O romance recém-publicado por ele já pode ser encontrado nas principais livrarias da cidade, mas ainda não há previsão de lançamento da obra com noite de autógrafos do autor por aqui.

“Já fui várias vezes a Maringá, em palestras, eventos literários e lançamento do livros, sempre uma ótima recepção. Se surgir uma oportunidade, é claro que irei”, diz Tezza.

o professor, cristovao tezzaESTANTE
O PROFESSOR
Autor: Cristovão Tezza
Gênero: romance
Editora: Record
Número de páginas: 240
Preço sugerido: R$ 32

ISTO É CRISTOVÃO TEZZA
A cadeia de desconcertos deste amanhecer, ele sussurrou, achando bonito, testando a linguagem e vivendo um impulso de entusiasmo — eu poderia ter sido escritor, se tivesse tido a coragem no momento certo. Quase rompi a membrana e passei para o lado de lá. Parecia simples. Therèze uma vez lhe disse: por que você não escreve? Um tropeço de fonemas — cadeia de desconcertos deste. O fonema “d”, repetiu ele milhares de vezes diante de milhares de alunos, seguido da vogal “i”, palataliza-se em algumas regiões do Brasil. Comparem: djia x dia, assim, dia, ele abria bem a boca para a demonstração, alveolar, a língua contra os dentes da arcada superior. Para quem não compartilha a diferença de sotaque, é engraçado. Passou as mãos no rosto, moveu a cabeça de um lado a outro, três vezes, num simulacro de ginástica — é bom contra torcicolo, ele ouviu uma vez e passou décadas repetindo o movimento. Mas o pescoço parece um papo de galinha, assim como os olhos revelam o pé de galinha — é assim que as mulheres dizem. Um símile perfeito. Essa pele despencada grudando-se ao que resta de apoio, para se espraiar em ossos secos que se erguem como raízes de árvores arruinadas. A clássica barba amanhecida, ainda por fazer. Houve um tempo em que era estilo. Minha cabeça é um bulbo, e ele se surpreendeu com a teimosia da conclusão, já diante da plateia: senhoras e senhores, brasileiras e brasileiros, eu fui sim um homem bonito. Eheh. Esticou a perna direita, depois a esquerda. As pernas pareciam doer menos essa manhã. A química funciona.

A verdade é que nem sempre fui um homem antigo, ele argumentou arriscando uma ironia em defesa própria, agora sentado na cama de imbuia envernizada, mais velha ainda que ele, com seus frisos caprichosos. Confira os detalhes da cabeceira. Uma hora de trabalho em cada raminho de madeira, as ranhuras das folhas perfeitas no relevo. No tempo dos artesãos, que não existem mais. Não fabricam mais nada assim, ele ouviu a mulher repetir mil vezes, com irritação legítima, hoje é esse lixo descartável, serragem com cola, a cama desmonta no primeiro dia — na primeira trepada, ele completou uma vez, há muitos e muitos anos, e os dois riram. A Mônica, senhores, de saudosa memória. Talvez a homenagem que vão fazer a ele seja justamente o reconhecimento de sua atualidade. Não. De sua contribuição. Alguém que passou sem traumas (Na verdade, com altruísmo; eles têm de reconhecer pelo menos isso. Se não fosse ele — se não fosse ele o mundo não existia? Sim, de certa forma, e ele riu como quem ouve uma piada de café; o velho e bom solipsismo. Depois de mim, o dilúvio; sem mim, nada! É engraçado.) — que passou sem traumas da velha filologia românica para a linguística moderna — do papel escrito para a língua viva. Dos textos sólidos — desenhados quase que com o punhal há 600 anos, a brutalidade do tempo, e que ele lia com prazer, no púlpito da sua aula, aquilo sim é palpável, a verdadeira gramática universal, nom seria razõ, n˜e dereyto que no processo de nossa lyçam seiam squecidas aquellas moças que som ˜e estado de virgijndade, das quaes homem pode fallar em duas maneyras — daquellas que teem preposito de guardar virgijndade toda sua vyda por amor de Deos e daquellas que ha guardam ho tempo de seu casamento per ordenãça de seus padres. Não é uma maravilha?, ele perguntava aos alunos, o anfiteatro cheio, um bloco granítico de silêncio. ///Trecho do romance “O Professor”, de Cristovão Tezza

*Reportagem publicada em 12 de abril no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Lendas de Angelita (ou Agustine)

Ackley Serrano SoaresPor Wilame Prado

Reza a lenda que Agustine Hache nasceu e morreu. E reza a lenda que Angelita Machado, jornalista e escritora astorguense radicada em Maringá, também já tenha nascido e morrido diversas vezes em vida.

Angelita se recompõe em vida principalmente quando gesta seus livros. “Reza a Lenda” (Editora Multi Foco, 84 páginas, R$ 30) é o seu novo renascimento, livro que se propõe alternativo na forma e conteúdo e que tem lançamento marcado para esta noite, a partir das 19h, no Bendito Bistrô Café, Zona 4 de Maringá.

A exemplo de seus mestres literários – Machado de Assis, Olavo Bilac, Fernando Pessoa – Angelita adota o pseudônimo e assina a sua terceira obra com o pseudônimo Agustine Hache. As lendas nem sempre traduzem a realidade e, pelo menos no mundo da escritora e jornalista, Agustine sobrevive em forma de literatura.

“Há registro de quase dois mil pseudônimos de escritores brasileiros. ‘Agustine’ é um nome francês, nasci no mês de agosto. ‘Hache’ é Machado na mesma língua. Esse é o significado que, redundante, significa Angelita Machado”, explica.

“Reza a Lenda” começa com a seguinte frase de Agustine Hache: “Ninguém acredita no que falo, então resolvi escrever.” Angelita confirma que é assim na vida real, mas rechaça: suas palavras – ditas e escritas – são verdade. “Verdade”, aliás, é o nome do primeiro capítulo dos três (os outros dois são “Amor” e “Loucura) contidos no livro que ela lança hoje.

Em uma primeira e rápida visualizada, “Reza a Lenda” parece propor premissas – uma por página – extremamente complexas e que tentam explorar uma angústia existencialista e internalizada entre as indagações de Agustine Hache (autora ou personagem?) para com a vida, para com Deus, para com os demais seres humanos.

Pergunto para Angelita se o livro traz como proposta apresentar uma espécie de pequenas crônicas – uma por página – que se interligam para formar um romance (o livro sai pelo selo Desfecho Romances, da Multi Foco). E ela, ou melhor, Agustine, diz que não. “São crônicas e/ou fragmentos de um romance que ainda pode surgir”, revela, misteriosa. Como são misteriosos os anseios literários e o livro, de maneira geral, que Angelita apresenta hoje à noite.

A jornalista, em suas aventuras pelas palavras escritas, não entrega facilmente a sua ficção arraigada em realidades, parece preferir que os leitores ultrapassem camadas para se chegar à mensagem principal do trabalho escrito. Prefere histórias começadas com os dizeres “reza a lenda”. E anseia pela beleza poética literária, mesmo apresentando, para surpresa de muitos, um livro em formato de prosa.

Angelita Machado mora com os pais no Jardim Novo Horizonte, em Maringá. Vê no jornalismo e na literatura mais que profissões: missões. Aos 11 anos, escreveu “Palco da Vida”, o seu primeiro livro. Aos 12, quis ser filósofa. Aos 14, fez “Vidas de Minha Vida”. Passam-se 23 anos e o silêncio se interrompe com “Reza a Lenda”.

“Escrevo porque me liberta dos meus medos noturnos e matinais. Me liberta do preconceito das pessoas, da subjetividade alheia que é ao mesmo tempo um aplauso e uma vaia. Porque quando escrevo sou eu e Deus”, justifica. “Reza a lenda que (escrever) é um dom divino, e que Agustine aprendeu a escrever antes de andar.”

Desde nova, diz precisar encarar a sombra dos questionamentos acerca do que escreve: muitos duvidavam de que ela fosse a autora dos textos que mostrava. Menos o irmão mais velho, que, não sem espantos, foi o primeiro a acreditar na poesia de Angelita e a estimulá-la a escrever.

“Sou quem sou porque meu irmão mais velho, Claudiney Machado, entrou no meu quarto um dia e leu meus poemas e perguntou ‘você que escreveu isso?’, parecia surpreso. Respondi que sim. E ele, que é extraordinário, me abraçou. Este abraço foi o mais importante para a minha vida literária e jornalística.”

ISTO É AGUSTINE HACHE
Essa liberdade inquietante, boca seca, sentimento de pó. Agora é tão silencioso amadurecer e audacioso falar a verdade daqui para frente. A estúpida verdade de não ser quem eu quero, de não saber o que usar quando estou fora de casa. De não ser gente quando precisar ser. Sinto algo tão vivo e crescendo ao passar dos segundos é mais uma dessas verdades que não sei contar. E compreender que tudo não pode ser do meu jeito, e o que penso nem todos compartilham, e as reações então, não me parecem favoráveis – ao menos alérgicas – isso já é um conforto. Talvez um dos erros seja a esperança que eu tenho na vida. ///Trecho de “Reza a Lenda”, de Agustine Hache

SERVIÇO – HOJE
LANÇAMENTO DE LIVRO
Título: Reza a Lenda
Autora: Agustine Hache
Editora: Multi Foco
Número de páginas: 84
Preço: R$ 30
Onde: Bendito Bistrô Café
Endereço: Avenida Humaitá, 310, Zona 4
Quando: hoje
Horário: 19h

*Reportagem publicada esta quarta-feira (2) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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