Luca Amberg



Geração Kichute no País do Futebol

Crianças brincam de ferrorama em “Meninos de Kichute”

Crianças brincam de ferrorama em “Meninos de Kichute”

Por Wilame Prado

A espera valeu a pena. Em ano de Copa no Brasil, “Meninos de Kichute” – longa-metragem dirigido por Luca Amberg, baseado no romance homônimo do londrinense Márcio Américo – estreou semana passada em algumas salas de cinema do País, incluindo uma aqui em Maringá, que exibe até semana que vem o longa nacional.

Filme tocante, sensível e que certamente vem emocionando principalmente aqueles que passaram a infância nos anos 70 e ainda aqueles que amam futebol, “Meninos de Kichute” retrata fielmente uma época em que as principais diversões da molecada eram jogar bola no campinho de terra, jogar bafo e trocar figurinhas, ver mulher pelada na revista, ir à matinê do cinema e infernizar os pais com as mais variadas travessuras. No longa, Beto (Lucas Alexandre) sonha em ser goleiro da Seleção Brasileira, mas é atrapalhado pelo rigoroso pai, o pintor evangélico Lázaro (Werner Schünemann), que, no final, acaba sendo o “vilão” da história por ter se encarregado de representar a hipocrisia e o machismo corriqueiras da época.

No filme preferido do público na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é aquela velha história, conhecida pelos meninos brasileiros que hoje são homens barbados: uma partida de futebol é uma batalha, e os inimigos são os moleques da rua de baixo. Na rua Ivaí, Beto e seus amigos têm um time competente e com uma característica marcante: todos usam Kichute. Cria-se, então, o clubinho Meninos de Kichute, e a nostalgia sentida pela melhor época da vida rende comparações a clássicos do tipo como “Os Batutinhas” (Penelope Spheeris, 1994) e “Conta Comigo” (Rob Reiner, 1986).

Na cativante e divertida história que não se limita a contar as coisas que acontecem dentro das quatro linhas do campo – as alegrias e as tristezas vividas por uma família humilde de um bairro do interior do Brasil são brilhantemente interpretadas por Beto, pelo pai, irmãos e pela mãe (Vivianne Pasmanter) – o destaque fica para as crianças em pleno trabalho de atuar. Lucas Alexandre e uma pancada de crianças (a maioria, meninos) dão o toque ingênuo e incrivelmente real às tramas de um tempo em que era normal cantar o Hino Nacional antes das aulas de Educação Moral e Cívica começarem, colecionar figurinhas do álbum Brasil Pátria Amada, ver as “reportagens” ufanistas do programa do Amaral Netto e ter de encarar as gracinhas dos colegas de classe por ter um tio bicha ou um pai alcoólatra, tempos em que ninguém usava palavras como gay ou bullying.

O trabalho de pesquisa para compor a cenografia, figurinos e trilha sonora também é digno de nota. Soou muito natural, em “Meninos de Kichute”, a casa velha de madeira – com fogãozinho vermelho na cozinha, local onde a família precisava improvisar também a beliche para dois irmãos dormirem –, o colégio, o campinho, as roupas simples e curtas e os próprios Kichutes nos pés da meninada. É uma delícia assistir ao filme ao som embalado também daquela época, iniciado por “Fio Maravilha”, de Jorge Ben, e que conta ainda com “Que Fim Levaram Todas as Flores”, dos Secos e Molhados, “Giramundo”, d´Os Incríveis, “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, do gênio Sérgio Sampaio, “Eu Vou Rifar Meu Coração”, de Lindomar Castilho, e “Marcas do Que Se Foi”, dos The Fevers.

Por fim, a história de Beto sonhando em ser apenas um goleiro acaba sendo a história de uma geração brasileira, de garotos que, ainda que pobres, ainda que de família humilde, viveram extremamente felizes a sua infância. Entre os ligeiros cem minutos de duração de “Meninos de Kichute”, ainda cabe pontuar a atuação competente de Arlete Salles no papel de Leonor (vizinha que toca sanfona, toma cachaça e dá dinheiro para Beto comprar figurinhas), as pontas hilárias de Mário Bortolotto, Paulo César Pereio e do próprio Márcio Américo, e ainda uma cena inesquecível, a de quando Beto está internado no hospital após quebrar a perna num atropelamento, momento em que divide quarto com o Velho Goleiro, ex arqueiro do Londrina, Juventus, Vitória e outros times, que tece ensinamentos para o menino do kichute.

“Se você quiser ser goleiro, não pode ter medo e ser diferente. Se quiser ser igual, vai pra linha, tem mais nove feito você. Goleiro tem a sua própria área, uniforme único, número um. E só o goleiro pode voar”, diz o Velho Goleiro, interpretado pelo ator e professor de teatro Luthero de Almeida. Simplesmente um brinde para os amantes do futebol em plena Copa do Mundo.

MENINOS DE KICHUTE
O filme fica em cartaz na cidade até quarta-feira da semana que vem, sempre às 13h45, no Cineflix Cinemas, no Maringá Park Shopping

*Texto publicada quarta-feira (11) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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