Maringá



Urubus na Zona 3

Wilame Prado
Agosto de 2015

Nunca saberemos ao certo de onde viemos e para onde vamos. Talvez seja melhor assim. Somos um pacote mal engendrado de costumes, tradições, culturas, rituais e manias. Viver é colecionar acontecimentos e sentimentos para, depois, no fim, morrer sem tirar muito proveito desta experiência.
Meu pai morreu aos 49 anos, em 2007. Descobri também que não sou pai. Perdi meu filho, que havia completado três semanas de vida dentro da barriga da mãe dele. Voltei para casa enquanto ela realizava um procedimento de curetagem. Uma espécie de colher metálica tirando do útero o resto de vida. Estava na sacada quando voltei a ver aquele enorme urubu pairando no ar. Ele insiste em trafegar pelo meu bairro, distante das zonas rurais, mas próximo de um parque ecológico. Não sei o que leva aquele urubu sobrevoar por entre prédios e casas da Zona 3 de Maringá.
A carniça, no entanto, está em todo lado. No jeito como as pessoas tratam as outras. Na política. Na CBF. E muito provavelmente na Zona 3 de Maringá. O urubu vai embora e preciso voltar ao hospital, onde visitarei uma paciente sem flores nas mãos, sem parabéns a desejar. Perdemos nosso filho, mesmo sem nunca sequer ter ouvido o batimento de seu coração.
Na primeira ultrassonografia, vi no semblante do médico que algo havia dado errado. Massas de cores acinzentadas foram as únicas imagens geradas num vexatório exame cujo outro homem introduz em sua mulher um objeto fálico, devidamente encapado com preservativo.
Naquele dia as temperaturas caíram no fim da tarde. Depois do exame, tive de voltar ao trabalho. Sem conseguir sequer olhar para os lados, com uma enorme pressão que parecia macetar meu cérebro, conclui rapidamente meus compromissos profissionais. No caminho de volta, senti o frio mais horripilante da minha vida: o frio da solidão dos derrotados. As lágrimas jorraram de minha face. Algumas pessoas testemunharam aquela cena grotesca: um homem barbado, em cima de uma moto, chorando copiosamente e seguindo o caminho.
É isso o que fazemos quando perdemos um filho: continuamos caminhando. Não tem o quê fazer. A depressão invade até a mais ínfima teia de aranha que se formou num canto obscuro do apartamento. Nessas horas, todos as pessoas do mundo – menos você – recebem a notícia de que serão pais, todas as propagandas são sobre xampus para bebês lindos que se divertem no banho.
Os conhecidos tentam um consolo. Procuram elencar os vários casos que têm conhecimento sobre gravidez interrompida por amigos, pais, parentes, irmãos, colegas, vizinhos, personagens de televisão. Poxa vida. Não é igual. Obrigado pelo consolo, mas não é igual, não é comum.
Não adianta, senhora obstetra, vir me dizer que, hoje em dia, 20% das gestações sofrem aborto espontâneo. O sofrimento individual não se ameniza com estatísticas.
Que se dane o mundo, a CBF, a Lava Jato, o urubu, a Zona 3. O sofrimento do mundo inteiro é menor que o meu. Eu perdi um filho. Eu perdi um pai. Os dias passam. A gente vai morrer. Todo mundo. Nunca saberemos ao certo de onde viemos e para onde vamos. Somos um pacote mal engendrado de costumes, tradições, culturas, rituais e manias. Talvez seja melhor assim.

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Coluna Estante – Cunha escritor e Temer poeta

ÓCIO CRIATIVO Na cadeia, o político Eduardo Cunha (PMDB-RJ) terá bastante tempo para finalizar o livro que disse estar escrevendo.NOVO IMORTAL? Após ter o mandato cassado por 450 votos, Cunha fez o importante comunicado ao universo literário: está escrevendo um livro sobre o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

LETRAS DE TEMER Poucos sabem, mas o presidente Michel Temer (PMDB) tem vários livros publicados, principalmente na área do Direito. Alunos do curso da UEM, inclusive, já estudaram obras dele.

POESIA ESTÁ NO AR Temer também já se permitiu alguns versos. “Anônima Intimidade”, com poemas do presidente, saiu pela TopBooks em 2012.

IMPEDIDO Quem leu “Anônima Intimidade”, garante: apenas um dos poemas de Temer já seria motivo para o impeachment do paladino das letras.

TÔ PASSADO Tire suas próprias conclusões lendo o poema “Passou”, de Temer:
Quando parei
Para pensar
Todos os pensamentos
Já haviam acontecido.

MOMENTO DE REFLEXÃO Ou, então, o poema “Pensamento”:

Um homem sem causa
Nada causa.

O ÚLTIMO, PROMETO O poema “Saber”, do Temer, foi premonitório se relacionarmos ao episódio do impeachment da Dilma. Leia:

Eu não sabia.
Eu juro que não sabia!

SEJA UM BEST-SELLER Saiu uma pesquisa, a “The Bestseller Code”, com vários passos para escrever um livro de sucesso. Eis alguns: 1-Uma heroína jovem, forte e levemente desajustada; 2-Intimidade sim, sexo não; 3-Evite pontos de exclamação!; 4-Cachorros são melhores do que gatos; 5-Finais tristes estão liberados e são ótimas deixas para uma série. Partiu escrever?

*Coluna Estante sai às quintas no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Estante: Bruna Siena lança livro, concurso literário em PE, João Santana romancista e uma indagação: ‘vale a pena ser escritor?’

Por Wilame Prado

DE VOLTA Bruna Siena, prodigiosa escritora de Maringá, agora é Siena Bruna Naamah, tem um selo editorial chamado Kadosh Publicações e está com o livro “Marduk” em pré-lançamento. À venda, por R$ 25, no site 29969.iluria.com.

LIVRO E DISCO Bruna, 22 anos, fará uma noite de autógrafos do livro em um festival de bandas que acontecerá no mês de março, com data ainda não definida. No mesmo dia, a banda maringaense Stolen Byrds lançará disco novo.

MELHOR QUE RELEASE Na ausência de um release, a escritora usou a criatividade para passar informações a este jornalista que vos escreve: simulou uma entrevista pingue-pongue com o namorado. Informou mais que qualquer release.

MACABRO “A Morte assassina, viola e arrasta, a Morte liberta.” Assim define, em poucas palavras, o seu novo livro, “Marduk”.

ALÉM “Talvez estejam esperando algo mais pornográfico, visto que ingressei na literatura transgressora falando sobre prostituição e questões puramente sociais. Porém, ‘Marduk’ tem um propósito e vai além… falo sobre a imortalidade da alma, a procura de um Deus que pode ter morrido no sétimo dia ou não”, explica a autora.

ESVAZIE A GAVETA O Concurso Literário de Pernambuco está com inscrições abertas. Escritores que tenham originais dentro das gavetas podem participar do concurso.

LIVRO+GRANA Aceita-se romance, livro de contos, poesia e literatura infantojuvenil. Os vencedores ganham a publicação do livro e ainda R$ 20 mil.

INFORME-SE O edital está disponível no site www.cepe.com.br.

POR AQUI… O Prêmio Paraná de Literatura está congelado desde 2014. Os escritores que venceram o concurso naquele ano tiveram de esperar até meados de 2015 para receber.

INDEFINIÇÃO Ainda não se sabe se teremos concurso paranaense em 2016. Aguardemos posição da Biblioteca Pública do Paraná, a coordenadora do prêmio literário.

NÃO VALE A PENA “Existem dezenas de maneiras de se tornar escritor. Talvez existam milhares, não tenho certeza. A única certeza que tenho hoje – depois de velho – é que não vale a pena.” Assim começa um texto o escritor e editor Sebastião Nunes.

LEIA, RECOMENDO O bom texto de Nunes pode ser lido aqui: http://zip.net/bgsWBS.

TEOLOGIA O servidor Renato Cesar Figueiredo, que mora em Centenário do Sul, lança em Maringá o livro “No Limiar dos Tempos”. O lançamento e manhã de autógrafos acontece às 10 horas de sábado, na Livraria Evangélica.

Entre outras experiências teológicas para a escrita da obra, Figueiredo aprofundou suas pesquisas escatológicas a partir de seminários promovidos pelo Ministério Palavra da Fé, da líder evangélica Valnice Milhomens.

ARTE IMITA A VIDA O romance “Aquele Sol Negro Azulado” conta a história de um casal brasileiro que reside em Washington e que retorna ao Brasil. Curiosamente, a ficção de 2003 prenunciou a realidade: esta semana, o seu autor – o publicitário João Santana -, ao lado da mulher, precisou retornar ao País após mandado de prisão temporária.

*Coluna Estante sai todas as quintas-feiras no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Rubros e diretos*

Tirinha de Tiago Silva, disponível em rubrosversos.wordpress.com

Tirinha de Tiago Silva, disponível em rubrosversos.wordpress.com

Por Wilame Prado

De Campo Mourão, Tiago Silva faz sucesso na internet com os Rubros Versos, projeto que mescla arte e crítica social

Muitos preferem o silêncio quando o tema é racismo, igualdade de gêneros, ditadura da beleza ou homossexualidade. Ao contrário da maioria, com o lápis na mão e a ideia na cabeça o cartunista e quadrinista Tiago Silva, 29 anos, costuma ser direto no que tem para dizer por meio de quadrinhos. É assim que os Rubros Versos (www.rubrosversos.wordpress.com) têm atraído milhares de pessoas na internet. Só no Facebook, a página do projeto já conta com mais de 40 mil curtidas. Os quadrinhos postados na rede social chegam a receber duas mil curtidas e uma infinidade de compartilhamentos.

Agora, Silva – que é natural de São João do Ivaí e mora em Campo Mourão – quer transformar os quadrinhos rubros (os tons avermelhados são característicos em todas as artes) em livro. Recentemente, ele começou uma campanha de financiamento coletivo no site Catarse para reunir quadrinhos em um volume impresso.

Os antagonistas e os coadjuvantes ganham vozes, corpos e destaque nos traços do quadrinista. Uma mulher acima do peso clama pela felicidade acima de qualquer padrão determinado pela mídia; uma garota com seu blackpower prega o fim da expressão “cabelo ruim”; e uma simples imagem de um recipiente e três escovas de dente sugere o amor livre entre casais ou mais pessoas.

“As pessoas me inspiram. A nossa diversidade cultural e toda essa complexidade humana que se deriva disso. Essas coisas me deixam sempre instigado a tentar entender tudo e expressar a minha visão”, revela Silva – um confesso seguidor de uma tríplice de respeito nos quadrinhos: Laerte Coutinho, Bill Waterson e Robert Crumb.

Ao evidenciar costumes e o cotidiano daqueles que não seguem o considerado padrão comum numa sociedade machista e autoritária, ele coleciona sim vários elogios, mas também represálias. “É corriqueiro meus quadrinhos serem denunciados pelos defensores da ‘moral e dos bons costumes’. Às vezes as denúncias não dão em nada, porém já tive quadrinhos sumariamente apagados da página e meus perfis no Facebook bloqueados algumas vezes”, lamenta ele, que, além do projeto pessoal, atua na edição gráfica do jornal Correio do Cidadão e já emprestou seus traços para o site Vida Breve e o jornal O Duque.

Do livro, porém, ninguém poderá apagar nada. Restando ainda 40 dias para o término da campanha no Catarse, o artista recolheu até então 9% do valor necessário para a tiragem da primeira impressão do livro “Rubros Versos”, que terá mais de 100 páginas e feito em A5, com ótima impressão gráfica. “O livro será um compilado de tudo o que saiu na página do Facebook, além de algumas páginas inéditas, que serão feitas especialmente para a versão impressa”, garante.

*Matéria publicada em 9 de fevereiro de 2016 no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Woody Allen mais racional do que nunca

Cena de "Homem Irracional", com a bela e talentosa Emma Stone e com o barrigudo Joaquin Phoenix

Cena de “Homem Irracional”, com o barrigudo Joaquin Phoenix e com a bela e talentosa Emma Stone

Por Wilame Prado

Após o desastroso “Magia ao Luar”, exibido ano passado por aqui, Woody Allen volta à velha e boa forma. “Homem Irracional”, em cartaz em Maringá, mostra um diretor atento aos mínimos detalhes em absolutamente todos os diálogos do filme, recheados com filosofia, especialmente com os princípios morais de Kant, a vertigem da liberdade de Kierkegaard e o existencialismo de Sartre e Heidegger. Tudo válido em uma construção narrativa que leva a um desfecho perfeito.

O longa é mais drama que comédia – assim como os melhores filmes do diretor – e, mais uma vez, é cercado pelo universo dostoiévskiano (o diretor é fascinado pelo escritor russo), especialmente ligado à máxima de Raskólnikov, de “Crime e Castigo”: para se destoar dos homens comuns, para haver algum sentido na vida, há que se fazer grandes feitos, até, de repente, quem sabe, cometer assassinatos, para um bem maior.

Abe Lucas (um Joaquin Phoenix propositalmente barrigudo e desgostoso com a vida) é um professor de filosofia famosinho que acaba de chegar a um novo campus para trabalhar, numa pequena cidade dos Estados Unidos. Sua chegada é cercada por boatos envolvendo principalmente o seu uso excessivo de álcool e os seus relacionamentos fugazes com mulheres – especialmente com professoras e alunas. Entre aulas entediantes, goladas generosas em seu cantil de uísque e flertes, um dia ele põe na cabeça que precisa matar um juiz que está sendo injusto com uma mãe humilde, prestes a perder a guarda dos filhos.

Allen tem acertado também nas escolhas de suas musas. Não é a primeira vez que ele aposta no charme e na imensa capacidade cênica de Emma Stone, mais linda do que nunca, em papel irretocável. Ela é a aluna Jill, que, fatalmente, apaixona-se pelo professor tristonho e boêmio de filosofia. Lucas também arranca suspiros de Rita (Parker Posey), uma professora casada que tenta ter um caso com ele. A veia cômica fica reservada a ela, que se debruça em busca de sexo com o professor e em planos indecorosos de fuga com ele para a Europa.

O diretor estadunidense faz um filme por ano e costuma ser lacônico em seus roteiros: o desfecho dos filmes são estreitados para o limite da vida, meio que matar ou morrer. É assim também em “Homem Irracional”, longa que nos faz lembrar que, mesmo com tanta teoria já eternizada nos livros, a filosofia ainda não é capaz de alcançar a irracionalidade que envolve as pessoas, as suas relações pessoais e os seus eternos esforços para sobreviver, para respirar.

*Comentário publicado nesta terça-feira (15) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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O brilho e a simpatia de Aline Luz

Aline Luz: violão é companheiro desde os 12 anos de idade

Aline Luz: violão é companheiro desde os 12 anos de idade

Por Wilame Prado

A cidade terá a chance de ver brilhar pela primeira vez uma nova compositora maringaense a partir das 21 horas deste sábado (30), quando Aline Luz, 26 anos, subirá ao palco do Teatro Barracão para fazer o seu primeiro show. Todo mundo da plateia terá em mãos o primeiro CD dela “Aline Luz”, contendo doze faixas de canções simpáticas, que mesclam pop rock, folk, MPB e uma voz doce, como a própria cantora. Show e disco são de graça.

Contemplada na categoria Artistas Iniciantes do Prêmio Aniceto Matti, Aline tem cinco datas de shows confirmadas em Maringá e a tiragem de mil cópias do álbum, que será distribuído para cada um que for aos shows. Além de sábado, ela cantará no Barracão no domingo, no mesmo horário. Em junho, apresenta-se nos dias 6 no Teatro de Oficina da UEM e 13 e 14, retornando ao Barracão.

Aline deu entrevista quinta-feira, no térreo do Teatro Calil Haddad. Ao seu lado, o inseparável violão, que começou a tocar aos 12, meio que a contragosto da mãe, pianista que sugeria às filhas (Aline tem uma irmã gêmea que também toca e canta)um bom curso de piano. Fez as duas coisas, e ainda participou de grupos de corais. O tempo passou. Todos sempre elogiaram o timbre e a facilidade com que Aline tem quando coloca as mãos nas seis cordas de aço de um violão.

Nos churrascos, não tinha tempo para sequer tomar água, quiçá uma cervejinha. Todos queriam vê-la cantar o cancioneiro consagrado do pop rock anos 1980 e 90, Kid Abelha, Skank, Titãs, Pato Fu e por aí vai. As ambições profissionais nunca a distanciaram da música: hoje, formada em Psicologia na UEM e residente no Observatório Social, os churrascos e as cantorias continuam, até mesmo onde mora,numa república na Zona 7, onde divide apartamento com duas amigas.

Mas algo mudou na vida de Aline há aproximadamente oito anos. Uma tragédia pessoal fez com que ela ultrapassasse a barreira que separa a interpretação da composição. Mais precisamente em 17 de julho de 2007, ela viu na lista das vítimas do fatídico acidente com uma aeronave da TAM, em São Paulo, o nome de sua tia, incentivadora do seu talento, e, curiosamente, dona daquele primeiro violão com que teve contato e que possibilitou a entrada da música em sua vida. Aline precisava compor para pelo menos tentar expulsar a a dor.

“Queria saber fazer um samba pra você/Mas meu coração só quer saber de blues”, são os versos iniciais da canção “Samba Blues”, primeira composição e que foi dedicada à memória da tia. “Não imaginava que levaria em frente a música. Estava na faculdade, recebi a notícia do acidente de avião. Compus pela primeira vez demonstrando ali a minha tristeza e a minha incapacidade de fazer qualquer coisa em meio ao luto. Minha tia era minha mãe também. Três dias antes do acidente, estávamos todos juntos de férias, em Foz. Não dava pra acreditar”.

Apreciadora da poesia, Aline conta que, antes, tentava cometer alguns poemas. E nada mais. A composição veio como luz, sem trocadilhos. Não parou mais. E hoje, ao apresentar o seu primeiro disco, percebe-se uma artista ainda em evolução, mas com duas joias raras em mãos: uma bonita voz, que se assemelha a vozes femininas da moda (Malu Magalhães, Uyara Torrente, Tiê, Clarice Falcão), e uma interessante maturidade nas letras.

Graça e leveza
À primeira vista, pode-se pensar que Aline Luz faz música romântica. Não é bem por aí. Há história de amor sim, mas há leveza e graça. Em “Cicatriz”, primeira faixa do CD e vencedora na categoria Aclamação Popular no 5º Festival Nacional Acorde Universitário, ela fala de um certo João que a deixa “sem chão” enquanto um tal Rafael a deixa só com seu “véu”.

Ela é também “família” na hora de compor. Além da canção dedicada à tia, o avô ganhou música também. A circense “Palhaço Mudo” – outra música premiada em festival – é homenagem ao avô, que a ensinou a ver filmes do Chaplin. “Hoje sou meio cinéfila graças a ele”, diz Aline, que, recentemente, compôs uma música inspirada pelo filme “Selma”, produção indicada ao Oscar e que narra a trajetória do pastor protestante e ativista social Martin Luther King. Percebe-se aqui também o lado social da psicóloga Aline Luz. O trabalho também é inspiração musical, diz ela. “Na música ‘Estação’, falo da alienação do trabalho. ‘Cantiga Urbana’ é a história de um menino de rua.”

Ainda trabalhando sua timidez, ela revela que o palco não a amedronta, mas se trata de experiência nova para quem nunca fez questão de tocar na noite maringaense. Para controlar as provações em meio ao público, as forças de Aline vêm do esporte. “Este ano quero ver se tiro minha faixa preta no karatê. Já joguei futsal, basquete e nadei. A competição esportiva ajuda a aprender lidar com a plateia”, diz.

Hoje, no Barracão, ao lado da banda formada especialmente para o projeto (Ronaldo Gravino no teclado e violão, Walter Batera na bateria, Luciano Blues nos solos de guitarra e na gaita, Ribeiro no contrabaixo e Luane Pedroso na percussão), Aline Luz pegará em seu violão e talvez se lembrará de muita coisa vivida desde que escreveu a sua primeira canção. Nada em vão, a estrada só está começando para uma jovem que já começa a ficar atenta aos editais do Convite à Música e da Virada Cultural. “Quero que a minha música tenha o poder de inspirar as pessoas e que as faça refletir, como qualquer tipo de arte.”

*Reportagem publicada sexta-feira (29) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Plantações sonoras de Miguel Proença

Miguel Proença está em Maringá desde terça-feira: hoje o pianista encerra o projeto Piano Brasil com um recital no Calil (Foto de Dudu Leal)

Miguel Proença está em Maringá desde terça-feira: hoje o pianista encerra o projeto Piano Brasil com um recital no Calil (Foto de Dudu Leal)

Por Wilame Prado

Mais do que executar disputados recitais, o renomado pianista Miguel Proença, 76 anos, hoje tem como principal meta plantar sementes. É assim que ele metaforiza o trabalho que realiza com o projeto Piano Brasil, que teve na terça-feira, no Teatro Calil Haddad, a abertura de sua sétima edição, patrocinada pelo BNDES e Caixa Econômica Federal e que faz parte da programação da 2ª Semana Cultural de Maringá.

Por telefone, Proença revela ter ficado encantado com a cidade. “Organizada, limpa e com moradores que a amam. Quase não dá para ver o sol por causa da imensidão do verde”, diz ele, que espera colher também por aqui os bons frutos que só a música pode oferecer ao ser humano, de qualquer idade.

As crianças foram seu primeiro “alvo”. Quase 500 alunos da rede de ensino público tiveram o privilégio de receber das mãos, da voz e do piano do gaúcho radicado no Rio de Janeiro uma aula-show baseada em cartilha escrita pelo maestro Ricardo Prado e belamente ilustrada por Bruna Assis Brasil.

Na tarde de ontem, foi a vez dos estudantes e professores da área de música conhecerem o pianista e ainda participarem de uma master class, também com entrada franca.

Mas o ato principal da vinda de Proença a Maringá está marcado para hoje, às 20h30, também no Calil. É lá que ele executará recital com programa escolhido a dedo. “O programa, eu escolho as que eu toco bem; bom, pelo menos as que eu acho que faço bem. Toco aquilo que gosto, aquilo que consigo comunicar melhor com o público, aquilo que também faz me sentir melhor, com mais confiança tecnicamente e sonoramente.”

Com a proposta nacionalista do projeto – feita pelo pianista que executou toda a famosa coletânea “Piano Brasileiro” (2005), considerada pela Unesco como Patrimônio da Música Brasileira –, Proença não deixa de tocar no recital algo de Alberto Nepomuceno e Heitor Villa-Lobos. Mas diz ser um confesso apreciador dos românticos. Por isso, há também na apresentação interpretações de peças assinadas por Frédéric Chopin, além de canções de Gluck-Kempff, Debussy e Nazareth.

Com o Piano Brasil, diz ele, a intenção é pelo menos uma aproximação do que ocorre, por exemplo, na Alemanha, país onde morou por muito tempo e que a educação musical é uma realidade. “Não existe uma tradição de ensinar música clássica, de se ouvir música clássica, está tudo muito voltado para a televisão e o computador. É um alívio para os pais deixarem as crianças brincando com os tablets. Eu carrego pedra com esse projeto, mas não desisto. Sonho com o dia em que ele se oficialize, que se institucionalize, que eu possa ir para 40 e não somente para 15 cidades por ano. Mas para isso dependo do apoio político.”

Educação da alma
Tal qual Villa-Lobos – na opinião do pianista, o compositor mais importante da história da música brasileira e que percorreu Brasil afora levando a sua música durante oito anos –, Proença (com o projeto, já chegou a quase 150 municípios), quer levar música para o máximo de gente possível, sonhando com fartas colheitas musicais, que, para ele, consiste em algo aparentemente simples, mas ainda muito distante da realidade brasileira: o ensino da audição para a música de qualidade.

“Quem já gosta de música clássica, aprecia o projeto. Quem descobre a música clássica depois do projeto, tende a agradecer. Interpretação, pesquisa e imaginação sonora é educação para a alma, aprender a ouvir música é poder sentir o prazer de uma manifestação fantástica, que emociona, que transporta a outras atmosferas, que tira a pessoa dos problemas mais sérios, e não como fuga, não como o álcool ou as drogas, mas como uma forma de cultivar a sensibilidade”, reflete o pianista.

Sem roupa e sem um Steinway
O pianista Miguel Proença chegou ontem a Maringá considerando tudo muito bonito, tudo muito charmoso, mas não poupou algumas críticas por dois motivos: o extravio da mala no aeroporto – que o obrigaria a comprar roupas novas para executar as atividades durante os três dias de estada na cidade – e o mal conservado piano Essenfelder do Teatro Calil Haddad.

“Ter um enorme e bonito teatro como esse sem um bom e competente piano é como investir numa mansão sem colocar móveis dentro da casa. O piano Essenfelder, no Calil, ideal para apresentação de concertos, está bastante usado e com perda de qualidade sonora. Mas faço essa ressalva oferecendo o meu intermédio junto aos órgãos competentes caso queiram investir em um bom piano de nível internacional Steinway, vindo diretamente de Hamburgo, na Alemanha”, diz Proença, que, não sem méritos, hoje figura no “Wall of Fame” da Steinway&Sons junto aos maiores pianistas de todos os tempos.

Ironicamente , se as atividades do projeto Piano Brasil tivessem sido marcadas no Auditório Luzamor – mais acanhado, com capacidade para 400 pessoas sentadas, contra as mais de 700 do Calil -, o pianista teria ao seu dispor um legítimo piano Steinway, sempre requisitado por músicos que se apresentam na casa.

Pianos à parte, o intérprete se recorda com saudades do projeto que fez com Bibi Ferreira, os dois interpretando bons tangos, para afirmar que pianista clássico também costuma gostar de música popular, mas desde que tenha qualidade. “Gosto e toco música popular brasileira, a verdadeira, aquela feita com melodia, ritmo e inspiração dos nossos grandes compositores brasileiros. As canções eternas de Tom Jobim e das grandes vozes brasileiras. Sertanejo eu gosto também, do sertanejo bonito, vivo, aquilo que por tanto lutou a Inezita Barroso e outros nomes. Agora, o funk eu detesto. E o que é aquele Rock in Rio? Um bando de cabeludo escutando e fazendo barulho.”


RECITAL DE PIANO
COM MIGUEL PROENÇA
Quando: hoje
Onde: Teatro Calil Haddad
Horário: 20h30
Entrada franca

*Reportagem publicada quarta-feira (25) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Ana Paula, 14, sonha publicar romance

Ana Paula Fernandes, em casa, no Jardim Imperial II: escreve no smartphone e depois apenas revisa no PC (Foto de Ricardo Lopes)

Ana Paula Fernandes, em casa, no Jardim Imperial II: escreve no smartphone e depois apenas revisa no PC (Foto de Ricardo Lopes)

Por Wilame Prado

Escrever pode até ser um dom, mas requer prática. Como todos sabem, a maior ferramenta de um escritor é a leitura. E isso a estudante Ana Paula Fernandes, 14, faz desde muito pequena. “Um dos primeiros presentes que ela ganhou foi uma coleção de livros. Eu lia para ela. Ela decorava as histórias e, quando chegava visita em casa, fingia ler a história que já estava guardada na memória”, relembra Nice Fernades da Silva, a mãe da jovem que escreveu a obra “Após o Ponto Final”, romance de estreia que aguarda publicação.

Ana Paula, que mora com os pais no bairro Jardim Imperial II e que cursa o primeiro ano do ensino médio, cotou a publicação em algumas editoras, mas se assustou com o preço. Finalmente, fechou negócio na Editora All Print, de São Paulo, para lançar em maio o seu primeiro livro (que terá cerca de 200 páginas), com uma tiragem de 250 exemplares. Falta agora arrumar os R$ 4 mil para acertar as contas. Para isso, amigos da família sugeriram a realização de um bazar com roupas novas e usadas, acessórios e calçados.

“Não deixaremos ir para gaveta o sonho dela”, diz Nice, que se orgulha da elogiável destreza para as letras que tem a filha única. Professores fizeram questão de revisar o texto do romance, elogiaram e apostam no sucesso da jovem escritora.

No livro “Após o Ponto Final”, a adolescente trata de assuntos de gente grande. Alice, a sua protagonista, de 13 anos, sofre com os abusos sexuais do padrasto, em Belém do Pará. A motivação do tema se deu após Ana Paula conhecer uma ONG que auxilia adolescentes e mulheres vítimas de abusos em Maceió, numa viagem que fez com a família.

Mesmo com o tema pesado escolhido, ela garante não ter escrito uma história triste. Há esperança para Alice, há esperança para a humanidade, na opinião da estudante. “Já penso numa possível continuação da história, talvez em um novo romance. Tenho também um livro de poesia praticamente pronto. Poesia é meu hobby. Poesia, para mim, é aquilo que me toca, não precisa de rima necessariamente, mas é algo que me obriga a falar sobre aquilo”, diz.

No romance de estreia, ela sentiu a necessidade de falar do ponto final. “Muita coisa acaba na vida de Alice: a vida do pai, da mãe, a liberdade, mas acaba também a sua ingenuidade.” Para Ana Paula, pelo contrário, a história com a literatura só está começando, e o ponto final não está no horizonte.

AJUDE
BAZAR DE ROUPAS
Quando: 29 de março
Onde: Centro Comunitário do Jardim Alvorada
Informações: 9815-8321/3346-8538

ISTO É ANA PAULA FERNANDES
“Realmente, deixar de ser criança é difícil. Tudo bem eu já iria completar quatorze anos, quando me tornei ‘adulta’. Mas mesmo assim é muito estranho, de um dia para o outro você ver tudo diferente. Eu só não sabia realmente, quem tinha mudado. Eu ou o mundo? Talvez os dois.

Já fazia um ano e meio que minha mãe havia morrido. Minha relação com Geraldo não era das melhores mas dava para levar na água morna, sem discussões. Minhas notas estavam até que boas. Tinha dois amigos, que as vezes iam em casa, a Marcela e o Bruno. Eles me faziam companhia, algumas vezes.

Do mesmo modo como me intitulei “Alice, apenas”. Agora, me coloco como ” A Alice”, por que do ‘A’? Parei de ver o mundo com olhos de criança e me legitimei Mulher.

O cuidado obsessivo de Geraldo por mim, já havia se tornado ofensivo. E de uma hora para outra ele havia se tornado ciumento, proibiu que Bruno entrasse na ‘minha casa’ dizia ele. /// Trecho do romance “Após o Ponto Final”

*Reportagem publicada sábado (21) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Chico Xavier cai na dança

"Entre Dois Muros Marchemos": no palco, tango e ballet (Foto de Marquinhos Oliveira)

“Entre Dois Muros Marchemos”: no palco, tango e ballet (Foto de Marquinhos Oliveira)

Por Wilame Prado

“Há mistérios peregrinos/Nos mistérios dos destinos/Que nos mandam renascer:/Da luz do Criador nascemos,/Múltiplas vidas vivemos,/Para a mesma luz volver.” Assim começa o poema “Marchemos”, psicografado pelo falecido médium Francisco Cândido Xavier e atribuído ao espírito de Castro Alves. A professora e coreógrafa Nara Dutra diz ter sido tocada pela mensagem de força existencial que há em todos os versos do poema. E, então, transformou poesia em dança.

“Entre Dois Muros, Marchemos”, espetáculo do Ballet Nara Dutra livremente inspirado no poema, tem a sua estreia oficial hoje, a partir das 20h30, no Teatro Reviver. Atração do Convite à Dança, a entrada é franca. Nara Dutra assina a coreografia que será executada por sete bailarinos: Anderson Assumpção, Beatriz Scabora, Bruna Vieira, Isadora Prado, Loraine Dutra, Natália Almeida e Tainara Bizoto.

O espetáculo, que usa trilha sonora de Astor Piazzolla, não é apenas um ballet, e também não é apenas um tango. “Astor Piazzolla é uma preciosidade, desde o estudo de sua metodologia para composição até a maneira singular de interpretação e desenvolvimento do trabalho. ‘Entre Dois Muros, Marchemos’ é um tango no ballet, e um ballet no tango. Até mesmo por ter uma influência da dança contemporânea fortíssima no trabalho, mesmo com o uso de sapatilhas de pontas, algo associado por muita gente unicamente ao ballet clássico “, explica Nara.

A concepção da dança – alicerçada na mensagem do espiritismo e da poesia psicografada – é uma clara mensagem de esperança, ainda que em meio às dificuldades da luta, da marcha habitual da vida. Os desafios da arte, ou, mais especificamente, as barreiras comuns na vida de um bailarino, são representadas pelos muros, pelas dificuldades existenciais como um todo na relação entre as pessoas e o mundo.

Para traduzir tudo isso em dança, a coreógrafa desenvolveu seis cenas, ou seis passos intrínsecos à caminhada humana. Há, nessas etapas, o peso da existência, o conflito com os pensamentos negativos, o desejo de luta, as indecisões pelos caminhos a seguir e, finalmente, o progresso, a marcha para o infinito. Afinal, diz Nara, é preciso sempre seguir, na dança e na vida.

“Se não for assim, de que adianta marchar?”

CARTAZ
ENTRE DOIS MUROS, MARCHEMOS
Ballet Nara Dutra
Pelo Convite à Dança
Quando: hoje
Onde: Teatro Reviver (Avenida Cerro Azul, Zona 2)
Horário: 20h30
Entrada franca

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (18) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Para jamais esquecer Juliane Moore

Juliane Moore, em "Para Sempre Alice": Oscar demorou mas chegou, para coroar grande atuação da carreira

Juliane Moore, em “Para Sempre Alice”: Oscar demorou mas chegou, para coroar grande atuação da carreira

Por Wilame Prado

Personagens acometidos por doenças dão trabalho em dobro para os atores. Mas, quando bem compostos, geralmente são reconhecidos e recompensados.

Além de Eddie Redmayne – premiado ao fazer o cientista Stephen Hawking em “A Teoria de Tudo” – a bela Juliane Moore ganhou, pela primeira vez, o Oscar de Melhor Atriz pelo papel da linguista Alice Howland, no filme “Para Sempre Alice” (Richard Glatzer e Wash Westmoreland, 1h39min.), em cartaz em Maringá. O desafio foi interpretar uma mulher que passa a sofrer do Mal de Alzheimer precocemente, já aos 50 anos de idade. Pelo feito, foi reconhecida também no Globo de Ouro e na Bafta.

O peso da contradição é um dos pontos altos do filme. Logo a Dra. Howland, conhecida pela inteligência e perspicácia na pesquisa na área da linguística, vê-se surpreendida por repentinos golpes de esquecimentos, a começar de maneira mais corriqueira, em meio a uma palestra ou se perdendo pelas ruas de Manhattan, e se agravando quando esquece atos cotidianos que acabam de acontecer, como quando é apresentada à sua mais nova nora na cozinha e, já na mesa do jantar, demonstra nunca ter visto a moça. Até mesmo aquela receita predileta, até então muito bem guardada na memória da protagonista, deve ser revista na internet para, assim, evitar constrangimentos culinários.

Os conflitos familiares são fatalmente jogados em primeiro plano em “Para Sempre Alice”. Mãe de três filhos adultos e com um casamento aparentemente em ordem, Alice vira pivô de relações extremamente embaraçosas. No elenco, destaque também para o trabalho de Alec Baldwin como o Dr. John Howland, o marido de Alice; e também para a jovem Kristen Stewart, que vive Lydia Howland, filha caçula do casal e peça chave do longa-metragem já que representa a figura rebelde que acaba cedendo aos caprichos e desejos por conta de dilemas familiares.

No drama, a rotina familiar precisa ser revista. E no plano profissional, o que resta para a doutora é a aposentadoria precoce. As pessoas ao redor vivem situações delimitantes entre a vontade de ajudar, o desespero ao ver os rompantes de uma amnésia ingrata e gradualmente aumentada e a consequente lástima por ver um ser adulto brilhante e exemplar se tornar, aos poucos, uma simples criança dependente, esquecida, muitas vezes, até mesmo de que deve se lembrar de segurar a vontade de urinar.

Juliane Moore esperou tanto pela estatueta dourada – chegou perto em “Boogie Nights – Prazer sem Limites” (1998) e em “Fim de Caso” (2000) – mas fez valer a pena ao dar vida a um filme duro, tenso e que, como poucos, retrata a força que as pessoas acabam por encontrar somente na família. Ao vencer o Oscar, a atriz dedicou a estatueta aos portadores da doença degenerativa. Nada mais apropriado.

CARTAZ
PARA SEMPRE ALICE
Direção: Richard Glatzer e Wash Westmoreland
Gênero: drama
Duração: 1h39min.
Classificação: 12 anos
Confira no Viva Maringá a programação dos filmes em cartaz na cidade

*Comentário publicado em 12 de março no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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