maringaense



O brilho e a simpatia de Aline Luz

Aline Luz: violão é companheiro desde os 12 anos de idade

Aline Luz: violão é companheiro desde os 12 anos de idade

Por Wilame Prado

A cidade terá a chance de ver brilhar pela primeira vez uma nova compositora maringaense a partir das 21 horas deste sábado (30), quando Aline Luz, 26 anos, subirá ao palco do Teatro Barracão para fazer o seu primeiro show. Todo mundo da plateia terá em mãos o primeiro CD dela “Aline Luz”, contendo doze faixas de canções simpáticas, que mesclam pop rock, folk, MPB e uma voz doce, como a própria cantora. Show e disco são de graça.

Contemplada na categoria Artistas Iniciantes do Prêmio Aniceto Matti, Aline tem cinco datas de shows confirmadas em Maringá e a tiragem de mil cópias do álbum, que será distribuído para cada um que for aos shows. Além de sábado, ela cantará no Barracão no domingo, no mesmo horário. Em junho, apresenta-se nos dias 6 no Teatro de Oficina da UEM e 13 e 14, retornando ao Barracão.

Aline deu entrevista quinta-feira, no térreo do Teatro Calil Haddad. Ao seu lado, o inseparável violão, que começou a tocar aos 12, meio que a contragosto da mãe, pianista que sugeria às filhas (Aline tem uma irmã gêmea que também toca e canta)um bom curso de piano. Fez as duas coisas, e ainda participou de grupos de corais. O tempo passou. Todos sempre elogiaram o timbre e a facilidade com que Aline tem quando coloca as mãos nas seis cordas de aço de um violão.

Nos churrascos, não tinha tempo para sequer tomar água, quiçá uma cervejinha. Todos queriam vê-la cantar o cancioneiro consagrado do pop rock anos 1980 e 90, Kid Abelha, Skank, Titãs, Pato Fu e por aí vai. As ambições profissionais nunca a distanciaram da música: hoje, formada em Psicologia na UEM e residente no Observatório Social, os churrascos e as cantorias continuam, até mesmo onde mora,numa república na Zona 7, onde divide apartamento com duas amigas.

Mas algo mudou na vida de Aline há aproximadamente oito anos. Uma tragédia pessoal fez com que ela ultrapassasse a barreira que separa a interpretação da composição. Mais precisamente em 17 de julho de 2007, ela viu na lista das vítimas do fatídico acidente com uma aeronave da TAM, em São Paulo, o nome de sua tia, incentivadora do seu talento, e, curiosamente, dona daquele primeiro violão com que teve contato e que possibilitou a entrada da música em sua vida. Aline precisava compor para pelo menos tentar expulsar a a dor.

“Queria saber fazer um samba pra você/Mas meu coração só quer saber de blues”, são os versos iniciais da canção “Samba Blues”, primeira composição e que foi dedicada à memória da tia. “Não imaginava que levaria em frente a música. Estava na faculdade, recebi a notícia do acidente de avião. Compus pela primeira vez demonstrando ali a minha tristeza e a minha incapacidade de fazer qualquer coisa em meio ao luto. Minha tia era minha mãe também. Três dias antes do acidente, estávamos todos juntos de férias, em Foz. Não dava pra acreditar”.

Apreciadora da poesia, Aline conta que, antes, tentava cometer alguns poemas. E nada mais. A composição veio como luz, sem trocadilhos. Não parou mais. E hoje, ao apresentar o seu primeiro disco, percebe-se uma artista ainda em evolução, mas com duas joias raras em mãos: uma bonita voz, que se assemelha a vozes femininas da moda (Malu Magalhães, Uyara Torrente, Tiê, Clarice Falcão), e uma interessante maturidade nas letras.

Graça e leveza
À primeira vista, pode-se pensar que Aline Luz faz música romântica. Não é bem por aí. Há história de amor sim, mas há leveza e graça. Em “Cicatriz”, primeira faixa do CD e vencedora na categoria Aclamação Popular no 5º Festival Nacional Acorde Universitário, ela fala de um certo João que a deixa “sem chão” enquanto um tal Rafael a deixa só com seu “véu”.

Ela é também “família” na hora de compor. Além da canção dedicada à tia, o avô ganhou música também. A circense “Palhaço Mudo” – outra música premiada em festival – é homenagem ao avô, que a ensinou a ver filmes do Chaplin. “Hoje sou meio cinéfila graças a ele”, diz Aline, que, recentemente, compôs uma música inspirada pelo filme “Selma”, produção indicada ao Oscar e que narra a trajetória do pastor protestante e ativista social Martin Luther King. Percebe-se aqui também o lado social da psicóloga Aline Luz. O trabalho também é inspiração musical, diz ela. “Na música ‘Estação’, falo da alienação do trabalho. ‘Cantiga Urbana’ é a história de um menino de rua.”

Ainda trabalhando sua timidez, ela revela que o palco não a amedronta, mas se trata de experiência nova para quem nunca fez questão de tocar na noite maringaense. Para controlar as provações em meio ao público, as forças de Aline vêm do esporte. “Este ano quero ver se tiro minha faixa preta no karatê. Já joguei futsal, basquete e nadei. A competição esportiva ajuda a aprender lidar com a plateia”, diz.

Hoje, no Barracão, ao lado da banda formada especialmente para o projeto (Ronaldo Gravino no teclado e violão, Walter Batera na bateria, Luciano Blues nos solos de guitarra e na gaita, Ribeiro no contrabaixo e Luane Pedroso na percussão), Aline Luz pegará em seu violão e talvez se lembrará de muita coisa vivida desde que escreveu a sua primeira canção. Nada em vão, a estrada só está começando para uma jovem que já começa a ficar atenta aos editais do Convite à Música e da Virada Cultural. “Quero que a minha música tenha o poder de inspirar as pessoas e que as faça refletir, como qualquer tipo de arte.”

*Reportagem publicada sexta-feira (29) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Entrevistão com Laurentino Gomes

Laurentino Gomes, em Itu (SP): "A escravidão é um fantasma que nos assombra até hoje porque nos recusamos a estudá-lo e  encará-lo mais a fundo"

Laurentino Gomes, em Itu (SP): “A escravidão é um fantasma que nos assombra até hoje”

Por Wilame Prado

A história que começa com a transferência da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, e que culmina com a Proclamação da República Brasileira, em 1889, também desperta imenso interesse ao público leitor de Portugal. Foi do país-irmão que, gentilmente, o escritor maringaense radicado em Itu (SP) Laurentino Gomes – best-seller com a trilogia que narra boa parte do século derradeiro de colonização portuguesa – concedeu entrevista contando sobre o seu novo e ousado projeto: dissecar a escravidão no Brasil em uma nova trilogia de livros-reportagem, a ser publicada a partir de 2019.

Entre um lançamento e outro, uma palestra e outra, percorrendo por Lisboa, Vila Real, Porto e Belmonte, Gomes encerrará a sua expedição lusitana em 28 de maio, retornando ao País no dia 30. Pretende começar imediatamente o seu novo projeto literário. E pode parecer um tempo longo (quatro anos) para lançar o primeiro dos três livros sobre escravidão, mas quando o escritor e jornalista comenta sobre o seu processo criativo e de pesquisa, há de se entender o motivo pelo prazo esticado.

“Começarei pela vasta bibliografia sobre o assunto. São centenas de livros já publicados, no Brasil e no exterior, o que me obriga a ser muito seletivo para não correr o risco de passar o resto da vida só na pesquisa, sem nunca escrever nada. Depois vem a fase da reportagem, com visitas aos locais relacionados à história da escravidão, o que inclui os portos negreiros na África e os pontos de desembarque, comercialização e trabalho dos escravos no Brasil. Também pretendo entrevistar historiadores e outros estudiosos em museus e centros de pesquisas sobre o tema”, explica ele.

Para o maringaense, que confirmou a sua presença na 2ª Festa Literária de Maringá (Flim) em outubro – quando será um dos homenageados – a escravidão é o acontecimento mais marcante da história brasileira, mas ainda mal explorado pela historiografia. Por meio da linguagem acessível e do aprofundamento dos fatos permitidos pelo livro-reportagem, Gomes pretende, mais uma vez, fazer jus aos fatos históricos desse capítulo que explica consideravelmente as injustiças irrecuperáveis para com os negros no País.

Como está sendo a recepção de “1889” aí em Portugal, país totalmente envolvido nesta história? Lançou o livro em quais cidades e quando retornará ao País?

LAURENTINO GOMES – A repercussão tem sido a melhor possível. Já havia lançado aqui os dois primeiros livros, “1808” e “1822”, mas nunca a acolhida tinha sido tão calorosa quanto agora, com “1889”. Tenho observado muito entusiasmo e uma torcida muito grande entre os leitores portugueses com os quais me relaciono nas redes sociais. O circuito de lançamentos inclui palestras, entrevistas e bate-papos com leitores em quatro cidades portuguesas: Lisboa, Vila Real, Porto e Belmonte. Começa com um evento de apresentação na Casa da América Latina, em Lisboa, e termina também em Lisboa com uma sessão de autógrafos na Feira do Livro, no dia 28 de maio. Retorno ao Brasil no dia 30.

Por que escolheu Itu para morar?
Moro em Itu há seis anos. Escolhi essa cidade pela localização, próxima a São Paulo, Campinas e Sorocaba, e também pela qualidade de vida. Minha casa fica em um condomínio muito bonito e arborizado, na zona rural do município. É uma paisagem que, em muitos aspectos, me lembra a região de Maringá, onde nasci. Além disso, Itu é uma cidade histórica, com mais de quatrocentos anos de fundação e papel decisivo em alguns episódios como a Independência e a Proclamação da República. É, portanto, um bom lugar para viver e escrever.

Por que resolveu investir, agora, em reportagens sobre a escravidão?
Essa é uma ideia que foi crescendo ao longo da trilogia “1808”, “1822” e “1889”. Nos três livros eu tratei bastante da escravidão. Quando a corte de Dom João chegou ao Rio de Janeiro, em 1808, de cada três brasileiros um era escravo. O tráfico negreiro era na época o maior negócio do Brasil e, talvez, até de Portugal, mobilizando milhares de pessoas e centenas de navios nas costas nos dois lados do Oceano Atlântico. Os homens mais ricos do Rio de Janeiro eram todos traficantes de escravos e foram os que mais deram contribuições à corte portuguesa, tanto com dinheiro quanto com apoio político. Na Independência, o Brasil rompeu os vínculos com Portugal mas manteve inalterada a situação social até então vigente. Uma tentativa de José Bonifácio de Andrada e Silva de acabar com o tráfico negreiro foi um dos motivos para o fechamento da Constituinte, em 1823. Há uma sensação de orfandade da Independência brasileira porque os escravos viram que as ideias libertárias defendidas pelos brancos na época não os incluíam. O Brasil foi o último País do hemisfério ocidental a acabar com o tráfico, em 1850, e o também o último a abolir a escravidão, em 1888. A principal consequência foi a queda da monarquia e a Proclamação da República no ano seguinte. Tudo isso foi me convencendo de que era preciso escrever uma nova trilogia tratando a escravidão.

Em seu ponto de vista, a historiografia brasileira peca nas pesquisas sobre escravidão?
Acredito que sim. Esse é um tema ainda muito mal tratado na historiografia brasileira, repleto de preconceitos e distorções. Eu acredito que esse seja o tema mais importante de toda a História do Brasil. Tudo o que nós já fomos, somos hoje e seremos no futuro gira em torno das nossas raízes africanas e do uso da mão de obra cativa. Sem a escravidão o Brasil de hoje simplesmente não existiria. Foi a maneira encontrada por Portugal para ocupar e explorar uma colônia 91 vezes maior, em extensão geográfica, do que a pequenina metrópole. As consequências são profundas. Joaquim Nabuco dizia que não bastava abolir a escravidão, era preciso também educar, dar terras e oportunidades para os ex-escravos, de modo a incorporá-los na sociedade brasileira como cidadãos de plenos direitos. Isso jamais aconteceu. Basta ver as estatísticas atuais sobre as diferenças de tratamento e oportunidade entre negros e brancos em todos os níveis e aspectos da sociedade brasileira, e também a polêmica que envolve políticas públicas como as cotas para estudantes negros nas escolas e universidades. A escravidão é, portanto, um fantasma que nos assombra até hoje porque nos recusamos a estudá-lo e encará-lo mais a fundo.

O que poderia citar da bibliografia e mesmo de filmes que tratam este tema?
O Brasil foi o maior território escravagista do hemisfério ocidental. Recebeu entre 40% e 45% de todos os doze milhões de escravos que, segundo as melhores estimativas, foram trazidos para a América nos primeiros 350 anos da colonização. Apesar disso, a produção cultural brasileira relacionada a escravidão é ainda relativamente modesta quando comparada, por exemplo, com a dos Estados Unidos. O número de filmes, minisséries, documentários e obras literárias sobre a escravidão no mercado norte-americano é enorme, embora os Estados Unidos tenham recebido somente 7% dos cativos africanos. É hora de tentar corrigir essa desproporção. Há uma produção acadêmica razoável no Brasil sobre o tema, e também cultural – como o celebrado filme “Chica da Silva”, com Zezé Mota – mas ainda há muito o que fazer. Meu objetivo, com essa nova trilogia, é menos abrir novas frentes de pesquisas e mais tornar esse assunto mais popular e acessível a leitores que nunca se interessaram muito por ele.

Assistiu “Doze Anos de Escravidão”? Gostou? Acredita encontrar histórias interessantes como aquelas em sua pesquisa?
Gostei muito de “Doze Anos de Escravidão”, mas no Brasil nós temos histórias ainda melhores, que poderiam ter rendido bons filmes e, quem sabe, até um Oscar. Um exemplo é a biografia do abolicionista Luis Gama. Filho de uma negra livre com um fidalgo português, o mulato Luiz Gama viveu na pele as injustiças da escravidão. Era ainda uma criança de dez anos quando seu pai, às voltas com dificuldades financeiras, não teve pudores de vendê-lo como escravo para um comerciante do Rio de Janeiro. Levado mais tarde para Campinas, interior de São Paulo, fugiu do cativeiro, estudou Letras como um autodidata e tornou-se um rábula – praticante da advocacia sem diploma universitário. Era um homem ousado e corajoso. Sozinho conseguiu libertar mais de mil escravos. Em um famoso processo de 1870, defendeu um escravo que matara o seu senhor. Seu argumento assustou os fazendeiros: todo cativo que mata o seu dono age em legítima defesa. Por defender posições como essa, Gama recebia ameaças de morte e andava armado. Faleceu vítima de diabetes em 1882, aos 52 anos, sem ver a sua obra coroada. Para mim, essa história é melhor do que a do personagem de “Doze Anos de Escravidão”.

Você é a favor de cotas raciais? O que pensa sobre o argumento de quem é a favor das cotas, afirmando de que se trata de uma dívida do País para com os negros?
Sou a favor das cotas raciais, ainda que não sejam a solução ideal nem a mais popular para o problema. Acredito que a escravidão é um passivo que o Brasil não conseguiu até hoje corrigir. A escravidão foi oficialmente abolida em pela Lei Áurea de 13 de maio de 1888, mas os ex-cativos acabaram abandonados à própria sorte. O Brasil nada fez para promovê-los à condição de cidadãos. O resultado é uma tragédia humana e social de dimensões gigantescas. O cinturão de pobreza e de violência que hoje se observa na periferia das metrópoles brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, é ainda herança do nosso passado escravocrata. Uma sociedade nacional é um pacto que se projeta no futuro. Se uma geração não faz o que deve ser feito, as gerações seguintes terão de assumir a tarefa de corrigir os problemas. Portanto, mesmo hoje, mais de um século após a Lei Áurea, está em nossas mãos enfrentar a tarefa de corrigir esse passivo. A política das cotas raciais pode ser polêmica e até injusta em muitos aspectos, mas é talvez a primeira tentativa séria e concreta que o Brasil faz para enfrentar essa herança mal resolvida.

Sobre terminologia, qual a correta ou qual prefere: negro, preto, afrodescendente?
Para mim, tanto faz. Tenho certa aversão aos modismos politicamente corretos que tentam resolver passivos históricos por meio da semântica e do vocabulário em lugar de políticas públicas concretas. O que adianta ser bacaninha no vocabulário e chamar os negros de afrodescendentes se, na prática, eles continuam a ser discriminados e violentados todos os dias? Eu uso nos meus textos a expressão negros, que, acredito, seja de aceitação mais geral, mas realmente não me preocupo muito com terminologias, desde que elas tenham significado real para os meus leitores.

Pretende focar na macro-história ou na micro-história da escravidão?
As duas coisas. Nos três livros vou explicar como nasceu o tráfico de escravos da África para as Américas no Século 16, qual a diferença da escravidão no período colonial dos tempos antigos em Roma e na Grécia, também vou descrever como era o negócio do tráfico, as viagens dentro de um navio negreiro e o trabalho dos escravos nas lavouras de açúcar e café. Tudo isso é macro-história. Mas, obviamente, vou jogar luz em personagens e acontecimentos muito particulares, como a história de Zumbi dos Palmares, e contribuição dos africanos para as nossas raízes culturais, como o Carnaval, o Samba e o Candomblé, com seus astros da música pop e seus pais de santo, o que já resvala na micro-história. A fórmula é, portanto, muito semelhante aquela que já usei nos três livros anteriores.

É verdade que nos brindará com a sua presença na 2ª Festa Literária de Maringá (Flim), a ser realizada em outubro na cidade?

Sim, estou muito honrado com a decisão dos organizadores da Flim de me incluir entre os escritores homenageados da edição deste ano. Existe um velho ditado, extraído das Escrituras, segundo o qual ninguém faz sucesso na própria terra em que nasceu. Felizmente, isso não acontece comigo. Desde que lancei o livro “1808”, Maringá tem me prestado todas as homenagens possíveis, incluindo o título de Cidadão Benemérito do Município. Então, nada tenho que reclamar. Estarei aqui todos os dias da Flim 2015 e procurarei participar com alegria e gratidão de todos os eventos programados pelos organizadores.

Vem muita a Maringá, ou é difícil?
Vou sempre que posso a Maringá. Dois dos meus quatro irmãos ainda moram aí. Geralmente passo o Natal na casa de um deles. Meu programa favorito, quando estou na cidade, é caminhar de manhã em volta ao Parque do Ingá. É onde aproveito para rever amigos e ex-colegas de escola ou de trabalho.

Pretende escrever ficção um dia?
Por enquanto, não me animei a escrever ficção. Maringá tem excelentes romancistas, como os premiados Marcos Peres e Oscar Nakasato. Eu não sei se teria talento para me aventurar nesse gênero literário. Prefiro ficar nos livros-reportagem, um termo que eu conheço e domino relativamente bem.

E voltar ao jornalismo, em revistas, impressos?
Eu já trabalhei mais de trinta anos em redações de jornais e revistas e fiz quase tudo que era possível experimentar nesse ambiente. Aprendi muito como repórter e editor. O que sei fazer isso no mundo dos livros vem dessa época. Agora prefiro continuar sendo escritor. Na verdade, eu não deixei de ser jornalista. Apenas mudei de formatos. Antes fazia jornais e revistas. Agora, faço livro-reportagens. Mas a profissão e também o meu amor por ela continuam os mesmos.

O sucesso ensina alguma coisa aos escritores? Pergunto isso fazendo referência ao tremendo sucesso que a sua primeira trilogia fez e continua fazendo.
Sim, hoje eu encaro o meu trabalho com um senso de humildade que não tinha antes. Quando o primeiro livro entrou na lista dos best-sellers e começou a vender centenas de milhares de exemplares, confesso que fui tomado por uma mistura de susto e vaidade. Isso felizmente passou. Agora entendo que todos nós temos vocações e missões que precisam ser assumidas e exercitadas com respeito, dedicação e também gratidão. Ser escritor é, para mim, uma grande graça recebida de Deus. Continuar a escrever é uma forma de me curvar a sua vontade, em benefício dos outros seres humanos que me acompanham nessa jornada. Não por acaso, os livros têm tido um papel importante na área de educação. Portanto, já não me assusto nem me envaideço mais. Apenas caminho.

Há algum fundamento nas críticas partidas principalmente de historiadores, que dizem haver pouca profundidade em suas propostas de livro-reportagem?
Essa crítica já foi mais forte no passado. Hoje, uma boa parte dos historiadores, especialmente aqueles que eu mais admiro, já entenderam que o meu papel não é banalizar ou desqualificar o estudo de História, mas contribuir para o aumento do interesse por essa disciplina. Acredito também (e acho que já disse isso em uma entrevista ao Diário) que historiadores e jornalistas têm muito a aprender uns com os outros. Historiadores podem ensinar aos jornalistas método e disciplina na pesquisa. Os jornalistas, por sua vez, tem contribuição de linguagem e estilo a dar no ensino e na divulgação do conhecimento da história. O Brasil está mudando rapidamente, para melhor, em quase todas as áreas – e isso não é mérito individual de nenhum governo. É resultado do exercício continuado da democracia por quase três décadas, uma experiência inédita em nossa história. Estamos colhendo, finalmente, os frutos da participação de todos os brasileiros na construção da nossa própria história. Hoje temos, entre outras melhorias, mais renda, mais empregos, mais educação e oportunidades do que trinta anos atrás. Uma das consequências é o aumento no número de leitores e o crescimento do mercado editorial brasileiro. Há novos leitores entrando nesse mercado, o que impõe novas responsabilidades para nós, escritores, editores e distribuidores de livros. Temos de ser generosos com esse novo leitor, de modo a atrai-lo definitivamente para o fascinante mundo dos livros. O grande desafio é ampliar o interesse do público pela História sem banalizar o conteúdo. Essa é uma linha tênue e perigosa. Se o autor ficar só na superfície e na banalidade, o livro não oferecerá contribuição alguma, será irrelevante. Se, ao contrário, der um mergulho muito profundo, não conseguirá prender a atender desse leitor menos especializado. Mas entendo também que esse é o desafio permanente do bom jornalista.

Após pesquisar tanto o nosso Brasil, consegue encontrar algumas respostas para o que acontece hoje especialmente na política e no modo como a corrupção parece ser sistêmica no País?
Basta ler o noticiário todos os dias para perceber que o Brasil tem uma república mal-amada. Os brasileiros não se reconhecem na sua república porque o regime, ao longo de mais de um século, falhou em cumprir muitas de suas promessas, incluindo o combate à corrupção. Muito do que ocorre hoje no Brasil, incluindo as manifestações de rua, tem raízes nessa distância entre as promessas e os sonhos republicanos. O brasileiro participou pouco da construção do Estado Nacional. Por isso, essa sensação de estranheza entre Estado e sociedade que se observa hoje. Os brasileiros não se reconhecem no que está em Brasília. Querem um País melhor, mais eficiente, mais ético e menos corrupto. Acredito que isso seja também resultado de uma experiência inédita na nossa história, que são os quase trinta anos de democracia, sem rupturas. A Campanha das Diretas de 1984 poderia ser considerada uma segunda Proclamação da República, promovida não pelos quartéis mas pelas ruas. As manifestações de rua fazem parte dessa nova equação política em que o povo brasileiro reivindica, finalmente, o direito de participar ativamente da organização do futuro, incluindo o combate à corrupção. É uma jornada difícil e tortuosa, às vezes até assustadora, mas não existe outra forma de construir um País no qual todos os seus cidadãos se reconheçam.

Após conhecer tanto do nosso passado, consegue encontrar algumas possíveis respostas para a resolução de nossos problemas?
Acho que não devemos perder as esperanças em um Brasil melhor. As pessoas estão, de fato, muito frustradas e chateadas com os rumos atuais da política brasileira. Duas grandes tentações nos ameaçam no futuro próximo. A primeira é o cinismo que diz ‘tudo mundo rouba, então eu também posso roubar’ ou, em outra versão, ‘no passado todos roubaram, por que eu não posso roubar agora?’ Esse tipo de argumento é inaceitável porque nos leva a segunda tentação, segundo a qual ‘o Brasil seria ruim por natureza, corrupto, violento e desigual. Por isso, não adianta lutar porque o País não tem jeito’. Então, o melhor seria nos acomodarmos na situação atual e seguir em frente. Isso seria jogar a toalha e abrir mão dos nossos próprios sonhos. Não podemos desistir. A jornada rumo a um Brasil melhor, mais justo e mais honesto será longo e difícil, mas nós temos de fazer parte dela com todas as nossas forças e convicções. Esse esforço começa dentro de casa, nas escolas, nas empresas, nos relacionamentos pessoais e em todos os aspectos das nossas vidas públicas e privadas. Acredito que o Brasil tem jeito, sim, e pode melhorar. A maioria das pessoas que conheço são honestas, corretas, trabalhadoras e bem intencionadas. Se somos assim na maioria por que o País também não poderia ser?

*Parte da entrevista publicada nesta terça-feira no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Sérgio Tavares Filho lança ‘Capricórnia’

Sérgio Tavares Filho: mesmo longe, cidade natal não é esquecida em livro

Sérgio Tavares Filho: mesmo longe, cidade natal não é esquecida em livro

Por Wilame Prado

Sérgio Tavares Filho andava sumido. Maringaense de 32 anos que atuava na área da comunicação por aqui, foi estudar fora do País e acabou conhecendo em Helsinque, na Finlândia, a sua mulher. Por lá ficou e hoje mora com ela em um pequeno apartamento na capital finlandesa, prossegue com os estudos em um doutorado na área da cultura e cumpre expediente, “para o ganha-pão”, numa agência de mídia. Sua forma de reaparecer por aqui vem nas páginas de um livro. Tavares Filho lançou recentemente “Capricórnia” (Patuá, 136 páginas, R$ 32), à venda no site da editora.

O romance de estreia do maringaense conta a história de uma arquiteta que se envolve em um acidente e que, após este acontecimento, convence-se de que é uma outra mulher. Enlouquecida, viaja aos trópicos para descobrir quem realmente é. De maneira indireta (no livro a palavra “Maringá” não aparece), ela vem parar justamente aqui na cidade – local propício, segundo o autor, para refletir com a arte do romance sobre a espécie de bolha que vive a classe média, muito aproximada da pobreza, mas também muito temerosa por aquilo que está do outro lado da margem.

Sobre o livro, inspirações, literatura, personagens femininos e a vida longe da cidade natal, ele falou nesta entrevista:

E a vida em Helsinki?
SÉRGIO TAVARES FILHO – O dia a dia é calmo: o transporte funciona de forma exemplar, a burocracia é reduzida e há uma sensação forte de segurança. Apenas o idioma é que faz sofrer!

Qual é a história do livro?
É a história de uma arquiteta que enlouquece depois de atropelar uma mulher na estrada. Ela se convence de que é outra pessoa e vai atrás de descobrir quem é. Para isso, vai de encontro até “o Trópico” — e é ali que ela encontra os pobres, à beira da estrada e seus próprios limites. Isso é tudo muito inspirado na nossa classe média de Maringá, que vive numa espécie de bolha: clube, igreja, casamento, design de interiores. Existe um medo terrível de tudo que vem do outro: a margem da cidade, o filho da empregada, ou até ficar pobre. Lidei com esses desconhecidos para fazer o livro.

Como foi para você dar voz a uma personagem feminina?
O texto surgiu como ensaio de uma briga entre marido e mulher. Foi se expandindo até virar o livro todo, sempre como uma torrente de pensamento. Acho que isso foi possível porque minha família é muito matriarcal. O livro é também uma coletânea de histórias que ouvia quando criança, algumas delas muito perturbadoras. São histórias desse Paraná mais profundo, e sempre chegaram a mim depois de gerações, através das mulheres da família.

É um romance psicológico?
Sim. Tudo se passa na cabeça da personagem, e o ritmo da narrativa segue muito também as próprias tensões da arquiteta. Queria fazer uma personagem forte, mas vulnerável. Para mim, o drama nunca é ser forte ou fraco, mas sim a transição entre uma coisa e outra.

Acredita que, na literatura, é ajudado por suas bases teóricas, levando em conta os estudos sobre “paratextos”, videoinstalações e tagnovels?
Acho que sim. Em especial os estudos de símbolos e algumas coisas sobre narrativa. O Umberto Eco me ajudou, por exemplo, a não criar efeitos ou sensações, e sim sentido e propósito. Vivemos numa cultura muito cheia de estímulos fáceis, e eles são geralmente de mau gosto. Basta pensar no Big Brother, nas mulheres-objeto que permeiam a TV, e afins. Da mesma forma, os melodramas, os sentimentalismos.

Chamou a atenção a dedicatória à memória de sua mãe e o fato de o livro ser protagonizado por uma mulher. 
Minha família passou, de forma difusa, por eventos narrados no livro. É uma coletânea. Minha mãe sofreu um acidente quando era jovem, por exemplo, e perdeu a irmã. Sempre foi dramático na família, isso. E há outras histórias, também. Dediquei o livro a ela em especial porque, há um ano e meio, ela faleceu, vítima de um aneurisma. Foi súbito e ainda sinto enormemente sua falta. O livro fecha alguns ciclos na nossa vida psíquica também.

A questão do duplo é recorrente na literatura. Como foi a construção dessa personagem?
O duplo é sempre assustador, porque é um estranho que é ao mesmo tempo familiar. Há muita teoria em torno desse conceito. Queria a ideia de que a narradora aos poucos passasse a se tornar a arquiteta em quem “encarnou”. E tinha que ser aos poucos. Foi um processo interessante, em especial porque quando a narradora se refere a “ela”, essa mulher em que ela passou a habitar, o livro passa a ser narrado em terceira pessoa. E ao mesmo tempo, é em primeira pessoa. Então essa confusão acabou sendo uma escolha estilística interessante.

E com relação ao espaço? Essa cidade média brasileira sobre o Trópico de Capricórnio?
Pois é! Não há como negar que é amplamente inspirado em Maringá. E o trópico é apenas um símbolo de tantas divisões que fazemos: nós e a empregada doméstica.

E as negociações com a Patuá?
Foi demorado, mas o importante foi ter paciência. O Eduardo Lacerda está fazendo algo importante. É uma nova maneira de curadoria, livre de hábitos editoriais que ficaram obsoletos ou que não podiam existir antes. Acho que ele está na ponta da inovação. Sinceramente eu fiquei impressionado com a baixa qualidade de livros publicados em editoras menos conhecidas. A Patuá consegue publicar uma quantidade alta de bons livros, que ganham prêmios. É diferente de outros editores tradicionais, como a 7Letras, que publicam poucos e bons. Estou muito feliz.

ISTO É SÉRGIO TAVARES FILHO
“Quando já fazia um ano que brincávamos, minha mãe começou a se incomodar com o tempo que eu passava no corredor. Às vezes só o que eu ouvia era a reclamação dela, ainda que eu ficasse em frente à fresta e tentasse me concentrar na vozinha dele. Eu sabia que ele queria minha companhia, e eu queria a dele, também.
Um dia eu dei a ele um pedaço maior de pão que minha mãe havia acabado de assar. Ele disse que nunca havia experimentado aquele tipo de pão. Era de novo um dia muito azul e ele me confessou uma coisa que ele só dizia a quem confiava: ele estava lá, na fresta, porque ele guardava um tesouro. Eu fiquei surpresa, mas da maneira como as crianças ficam quando surpresas: poderia ser um tesouro ou uma nova conta de vidro, não fazia diferença. O simples fato de que ele tinha algo que não podia deixar de ser guardado já era fascinante e eu estava muito curiosa para saber o que era. Se eu quisesse vê-lo, ele disse, eu precisava trocar de lugar com ele. Será que eu iria conseguir deixar minha mãe e meu pai e meus amigos para viver lá? Não estava claro para mim, mas eu tive, então, pela primeira vez na vida, uma dúvida verdadeira diante de uma escolha. Eu não pude dar para ele uma resposta imediata, e pensei nela por muito tempo.” ///Trecho do romance “Capricórnia”, de Sérgio Tavares Filho

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CAPRICÓRNIO
SÉRGIO TAVARES FILHO
Editora: Patuá
Número de páginas: 136
Preço: R$ 32 + frete
Onde comprar: www.editorapatua.com.br

*Reportagem publicada em 15 de fevereiro no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Os louros de Marcos Peres

Marcos Peres na cerimônia do Prêmio SP de Literatura: autor maringaense lança segundo romance ano que vem

Marcos Peres na cerimônia do Prêmio SP de Literatura: escritor maringaense lança segundo romance pela Record ano que vem

Por Wilame Prado

Ao conquistar o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Melhores livros do ano – autores estreantes com menos de 40 anos, o escritor Marcos Peres, 30, torna-se um dos escritores maringaenses de ficção mais laureados de toda a história da cidade. Com o romance “O Evangelho Segundo Hitler” (Editora Record), ele também venceu o Prêmio Sesc de Literatura no ano passado e foi finalista do Jabuti este ano. Na “disputa”, segue empatado Oscar Nakasato, escritor e professor maringaense radicado em Apucarana que, com o romance “Nihonjin” (Benvirá), conquistou o Prêmio Benvirá e o Jabuti em 2012, além do Prêmio Bunkyo de Literatura em Língua Portuguesa.

Foram anunciados, na noite de segunda-feira, no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo (SP), os melhores romances brasileiros na opinião dos jurados do Prêmio São Paulo de Literatura. Além de Peres – que leva R$ 100 mil em premiação –, a escritora paulistana Ana Luísa Escorel ganhou na principal categoria, Melhor livro do ano, com “Anel de vidro” (Editora Ouro Sobre Azul), faturando R$ 200 mil. A porto-alegrense Veronica Stigger venceu com “Opisanie swiata” (Cosac Naify) na categoria Melhores livros do ano – autores estreantes com mais de 40 anos, e também leva R$ 100 mil.

O SP de Literatura, promovido desde 2008 pelo Governo do Estado de São Paulo e exclusivo para o gênero romance, é o maior prêmio do País levando-se em consideração o dinheiro pago. Todos os anos são R$ 400 mil em premiações, divididos nas três categorias. Este ano, 153 obras entraram na competição. Dessas, foram escritas por 67 autores “veteranos” e 86 estreantes. Entre os autores premiados em outras edições, destacam-se Cristóvão Tezza, com “O filho eterno”, Ronaldo Correia de Brito, com “Galiéia” e Raimundo Carrero, com “Minha alma é irmã de Deus”.

TRÊS PERGUNTAS A MARCOS PERES

‘Este prêmio é de Maringá’

Prestes a embarcar para o vôo de volta a Maringá, na manhã de terça-feira, Marcos Peres respondeu por e-mail a algumas perguntas referentes à conquista do Prêmio São Paulo de Literatura. Em pouco tempo hospedado na maior cidade do País, ele revelou ter sentido os desafios da escassez da água, problema enfrentado em SP, mas, claro, tudo valeu a pena. Agora, volta para casa com mais uma conquista literária e R$ 100 mil no bolso. Com novo romance pronto, a ser lançado pela Record, Peres tem uma certeza: 2015 será ainda melhor que 2014.

1 O que fará com os R$ 100 mil?
— Ainda não pensei no dinheiro, a ficha não caiu completamente. O justo, penso, seria reinvesti-lo na literatura, que é o que me proporcionou toda essa alegria. No momento, só penso em voltar a Maringá e comemorar. Fico sempre muito feliz com o progresso da literatura na cidade, vibro com o lançamento de amigos, comemorei as vitórias do Oscar (Nakasato) como se fossem minhas. Este prêmio é de Maringá, portanto.

2 Qual é o tamanho dessa conquista?
— O prêmio SP é completamente diferente do Sesc, que é para autores inéditos – como todo o processo é sigiloso e todos concorrem com pseudônimo, não há a sensação da concorrência, não é possível saber os outros que estão no páreo. O Prêmio SP é entregue no Museu da Língua Portuguesa, dos 20 finalistas, 18 ou 17 estavam presentes, e senti um frio na barriga ao ver aqueles caras todos, alguns deles presentes em forma de livro na minha cabeceira. A quantia vultosa do prêmio é dada para legitimar a qualidade do romance vencedor, para mostrar que literatura pode ser exercida de uma maneira profissional no Brasil.

3 Há uma data de lançamento para o novo romance pela Record?
— Imagino que o romance “Que fim levou Juliana Klein?” será lançado no primeiro semestre de 2015. Mas não há uma data certa definida. Vou sentar com meus editores e dialogar sobre o processo de lançamento. O ano de 2014 acabou hoje para mim, com chave de ouro. Amanhã já começo a pensar em 2015. Tenho certeza que será outro ano maravilhoso.

ISTO É MARCOS PERES
Juliana sorriu e deu de ombros.
“Não sei bem. Há coisas incompreensíveis, mesmo dentro de nossa família”.
Sabia, mas não queria falar. Não desejava mencionar nada que os ligasse aos Koch, em outras épocas. Tinha 34 anos, a cintura fina, o quadril largo, os lábios carnudos vermelhos em contraste com sua pele e seus olhos claros. Guardava o viço e os arroubos da juventude que encantaram Salvador Scaciotto, e tantos estudantes, de tantos anos. E que, a cada segundo, parecia encantar mais o delegado de polícia maringaense. ///Trecho do romance inédito “Que fim levou Juliana Klein?”, que Marcos Peres pretende lançar em 2015 pela Record

*Reportagem publicada quarta-feira (12) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Entrevista com o presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Marcos Cordiolli

Por Wilame Prado

No início deste ano, o historiador e educador de Maringá Marcos Cordiolli, 49 anos, assumiu a presidência da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) com a missão de coordenar a política cultural da capital paranaense na gestão do prefeito Gustavo Fruet. Na bagagem, o maringaense, que se mudou para Curitiba em 1979, leva a experiência como produtor de cinema, assessor da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados e da Agência Nacional do Cinema.

Via e-mail, ele concedeu uma longa entrevista comentando, dentre vários outros assuntos, sobre a descentralização dos projetos culturais curitibanos e que poderá estimular a vinda de mais espetáculos da capital para Maringá, e vice-versa.

Cordiolli também contou sobre as memórias afetivas que nutre pela sua cidade natal, onde hoje vivem toda sua família, de pais à filha. Hip Hop, cinema, Vale-Cultura e características aconselháveis para se gerir pastas culturais também foram temas abordados na entrevista. Para ele, que reafirma a todo momento a importância do setor cultural para a comunidade, “ser secretário de Cultura é assumir as responsabilidades como um dos artífices da alma da cidade.”

Durante exposição no Palladium Shopping Center, em Curitiba, Marcos Cordiolli segura caneca personalizada do artista plástico Rogério Dias

Leio que mora em Curitiba desde 1979, mas nasceu em Maringá. Qual sua relação com a cidade e o que ficou guardado em sua memória dos tempos em que morou aqui, principalmente.

MARCOS CORDIOLLI – Maringá é a minha referência afetiva. A minha família continua morando na cidade: meu pai, minha mãe, meus cinco irmãos, cunhados e sobrinhos. Além de dezenas de tios e primos. E, por estas coincidências da vida, a minha filha, que nasceu em Curitiba, também mudou para Maringá junto com a mãe.

Estudei nos colégios Santo Inácio, Gastão Vidigal e Osvaldo Cruz, instituições importantes na minha formação cultural. Frequentava assiduamente a biblioteca pública municipal. No Colégio Santo Inácio, fui muito estimulado à leitura pela Mirian Ramalho e ao conhecimento da história pela Marta Ramalho. Duas professoras de referência na minha vida.

No Gastão Vidigal fui aluno do mestre Galdino Andrade, que descortinou para mim o mundo maravilhoso da literatura. Até hoje guardo com carinho uma obra de sua autoria, o “Poeira Vermelha”, bela coletânea de contos ambientados à época da colonização.

No que consistirá, ou já está consistindo, esse aprimoramento dos mecanismos de fomento cultural e a criação de instrumentos para dar mais visibilidade às produções locais fora de Curitiba, que o senhor disse ser uma das metas na gestão?

Curitiba produz excelentes obras culturais em todos os segmentos. No entanto, estas obras não conseguem obter a circulação merecida. Tanto na cidade como fora dela. Atuamos, na perspectiva da economia da cultura, em duas linhas, ampliação do público e dos locais de exibição de espetáculos e venda de produtos culturais em Curitiba; e complementarmente estimularemos a circulação de obras curitibanas em outras cidades.

Nesta perspectiva reestruturaremos os nossos mecanismos de fomento fortalecendo o estimulo à circulação da produção cultural. Combinado a essas mudanças criaremos instrumentos para financiar a circulação de obras culturais em outras cidades do Brasil e do exterior; Instituiremos mecanismos de fomento plurianual para grupos culturais de pesquisa e produções de longo prazo. Também estudamos a formatação de um fundo de investimentos com recursos retornáveis para investir em projetos de maior viabilidade comercial.

Além disso, adotamos ações de estímulo, como o conveniamento com cidades brasileiras e do exterior que forneçam apoio logístico e de mídia para os artistas curitibanos.

Com a meta de estimular a ida de espetáculos curitibanos para além da capital, isso significa dizer que há chances de esses espetáculos virem inclusive para Maringá?

Sim. Maringá e outras cidades do Paraná estão em nossos planos, tanto de enviar como receber espetáculos. Temos sempre a preocupação de atuação em mão dupla. As cidades que abrem espaço para os nossos espetáculos podem enviar as suas produções para Curitiba, onde serão muito bem recebidas. Já estamos trabalhando em protocolos de cooperação com diversas cidades, algumas delas do exterior.

O senhor reconhece tantos bons eventos culturais consagrados em Curitiba, como o Festival de Teatro e o Lupaluna, mas diz ser importante descentralizar a programação cultural. Segundo alguns produtores culturais daqui da cidade, também seria preciso haver uma maior descentralização dos projetos culturais em Maringá. Com o conhecimento que tem da cidade, o senhor concorda com isso?

Não conheço adequadamente os circuitos culturais de Maringá para emitir uma opinião. Mas toda cidade precisa desenvolver ações para três campos culturais básicos: a formação, a produção e a circulação de obras dos artistas locais estabelecidos, como uma dimensão da economia da cultura que precisam de apoio para criação, espaços de exibição e reconhecimento social; a atração de espetáculos e artistas de outras localidades, pois a convivência cultural garante o aprimoramento e a renovação da produção local; e o reconhecimento e fortalecimento do que denominamos de cultura viva: os artistas e fazedores de cultura espalhados pela cidade, que geralmente são invisibilizados pelos mecanismos de fomento cultural e desconhecidos da população.

Um levantamento sumário realizado em Curitiba, há cinco anos, indicou a existência de 3.500 agentes culturais na cidade. No entanto, estimamos que o número atual de agentes da culturais do campo da cultura viva possa ser até três vezes superior. A cultura viva é um universo a ser desvelado e reconhecido urgentemente.

Também deve ser desafio de qualquer política pública de cultura propiciar eventos culturais nos diversos espaços da cidade, ampliando a democratização do acesso aos bens culturais e promovendo a cidadania cultural. Para isto, é preciso ações permanentes e estruturantes com focos descentralizados, mas articulados com toda a cidade.

Outra dimensão deste processo é o reconhecimento de toda a diversidade cultural apoiando a cultura de migrantes, de afrodescendentes, de ciganos, de indígenas, da população LGBT, da juventude e da terceira idade.

A promoção da cidadania cultural nas comunidades das grandes cidades é uma ação estratégica de recomposição do tecido social destroçado pelo modelo urbano e midiático contemporâneo. O estímulo da produção e circulação cultural nas comunidades estimula o religamento dos laços sociais e a promoção das relações sociais necessárias para que as pessoas possam construir formas de convívio comunitário. As comunidades que dispõem destes laços sociais conseguem identificar e reduzir a violência contra crianças, idosos e mulheres; combater a pedofilia; inibir a ação do narcotráfico e dispor de mais condições para recompor os ambientes familiares. As comunidades organizadas podem estabelecer um novo modelo de democracia participativa e estimular o controle social sobre as politicas públicas de saúde, educação, proteção social e segurança.

Portanto, descentralização e desconcentração das ações culturais devem orientar as políticas públicas culturais contemporâneas como uma dimensão da cidadania cultural e como uma estratégia para recompor as bases de convívio social.

A ideia do senhor, de viabilizar um cineclube para cada escola estadual de Curitiba, parece ser muito boa. Está esperançoso de que vai dar certo?

Sim. Esta é uma das minhas grandes esperanças. Os cineclubes têm características peculiares e são eixos estratégicos de toda gestão cultural, pois podem ser a base da estruturação das redes culturais colaborativas da juventude. Constituídos como grupos auto organizados, os cineclubes são a porta de entrada para a formação de diversos outros movimentos culturais de música, teatro, dança, audiovisual, leitura e literatura. Além disso, estimulam a produção e a expansão da cultura digital.

Os cineclubes possibilitam todas estas situações pois reúnem pessoas para a fruição cultural combinada aos debates e às experimentações estéticas. Os investimentos são relativamente pequenos, basta um bom acervo de filmes e a combinação de diversas atividades de estímulo.

Em Maringá, assim como em Curitiba, principalmente em bairros e cidades da região metropolitana, há também uma cena interessante do Hip Hop. Por que é tão difícil para as secretarias culturais traçar um diálogo maior com essas manifestações culturais?

O Hip Hop é talvez o segmento mais visível da cultura viva. Eles têm uma força maior pelas características de militância associada a este movimento cultural. Em Curitiba, estamos avançando na relação do Hip Hop, como também estamos abrindo interlocução com o heavy metal, o punk, a arte urbana e outros. Todas as tribos precisam ter direito à cidadania cultural. Estes movimentos possuem características muito peculiares que requerem ações compartilhadas e instrumentos flexíveis de políticas públicas. A gestão pública ainda tem dificuldade para respeitar e reconhecer as necessidades destes segmentos. Em alguns governos conservadores, a situação é ainda mais complexa, pois são tratados até com preconceito.

Qual a sua relação com a fundação antes de assumir o cargo e, na opinião do senhor, o que levou o prefeito Gustavo Fruet a indicar seu nome para a presidência?

Eu atuei com produção executiva de cinema de longa-metragem aqui em Curitiba. Depois atuei na assessoria técnica no Congresso Nacional acompanhando a tramitação de diversos projetos fundamentais, como os do Pró-cultura, do Vale-Cultura, do Plano Nacional de Cultura, do Sistema Nacional de Cultura e a PEC que determina dotações orçamentárias mínimas para cultura em todos os entes da Federação.

Depois, trabalhei na Ancine, Agência Nacional do Cinema, que é uma das maiores agências públicas de fomento cultural da Ibero-América.

Esta experiência com políticas culturais deve ter influenciado o prefeito na escolha do meu nome para presidir a Fundação Cultural de Curitiba.

O senhor afirmou, em entrevista recente, que o próprio prefeito Fruet é um ávido consumidor da cultura local. Considera isso importante para que as coisas aconteçam na pasta ou na fundação?

Um prefeito que é consumidor da cultura local faz a diferença quanto à compreensão da natureza das políticas públicas de Cultura. O prefeito de Curitiba, por conhecer a cena local, tem apoiado irrestritamente nossas ações. O secretariado também tem compreensão muito apurada do modelo de política cultural que estamos desenvolvendo. Eu tenho dito que sou um secretário de cultura privilegiado pelos apoios que disponho no governo municipal.

Digo isso porque, pelo menos em Maringá, o secretario de Cultura, Jovi Barboza, e a diretora de Cultura e presidente do Conselho Cultural, Edith Dias, são pouco conhecidos dos artistas e, conforme seus currículos, nunca atuaram na linha de frente da cultura local. Considera isso um problema ou, como o próprio secretário daqui afirmou, “toda indicação é política” e a experiência dele como gestor pode ser suficiente para o cargo?

Esta é uma pergunta difícil de responder, pois cada situação é peculiar, e, como disse, desconheço o cenário cultural em Maringá. No entanto, assumi recentemente a presidência do Fórum dos Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais, que reúne cidades com mais de meio milhão de habitantes. Nossa intenção é constituir uma entidade forte, que congregue os secretários municipais de todos os municípios brasileiros. Fiquei muito honrado com a missão de liderar este processo.

Assim, acredito que, embora o perfil do secretário municipal tenha importância, é necessário a disposição de construir instrumentos republicanos de gestão, como o reconhecimento e estímulo a circuitos culturais diversificados, a instituição de instrumentos flexíveis de fomento cultural, a consolidação de um quadro de servidores qualificado, a disponibilidade de recursos públicos e funcionamento regular e efetivo mecanismo de controle social, como conselhos e conferências de cultura e audiências e consultas públicas.

Além disso, é preciso que todos os setores da sociedade – como empresários, associações, imprensa – reconheçam a cultura como política pública, assumindo obrigações com o setor que não podem ficar restritas a artistas e produtores culturais.

Vamos falar um pouco de cinema, área que o senhor gosta. Conte como foram os trabalhos na produção de “O Sal da Terra” e “Curitiba Zero Grau”.

Os dois filmes permitiram adquirir grande experiência profissional, pois foram produções muito complexas. Quase todas as sequências foram filmadas fora de estúdios e a maioria delas em estradas e ruas. Para isso, foi preciso um intenso trabalho de planejamento, logística apurada e equipe qualificada. Os filmes também adotaram estratégias de financiamento e circulação inovadoras. Os resultados de qualidade de produto e estética foram excelentes. Os dois filmes foram reconhecidos em premiações importantes no Brasil e no exterior.

Tem algo na gaveta?

Como produtor executivo, normalmente desenvolvo projetos de outras pessoas. Tenho diversos projetos em mente, alguns em parceria, para depois que deixar o governo. No momento, estou participando da formatação de um programa de TV com minha namorada, que é atriz. Um projeto muito interessante e que já está bastante adiantado.

Como avalia a produção de cinema em Curitiba e no Estado?

Curitiba tem uma produção cinematográfica de alta qualidade e em expansão. Está em processo de renovação com uma nova geração, liderada pelo Aly Muritiba, que já conquista reconhecimento crescente no mercado e na crítica. Na Fundação Cultural, estamos atuando no foco da Economia da Cultura para fortalecer toda a cadeia produtiva com a formação e qualificação de técnicos, fomento à formação de especialistas e produtos em diversas áreas e o fortalecimento da Film Comission para apoiar a produção audiovisual na cidade.

Na área de fomento, apoiamos a realização de filmes de curta-metragem e de filmes digitais e estamos incluindo o estimulo à produção de roteiros, de formatos de programas de televisão e o desenvolvimento de projetos. Curitiba caminha a passos largos para se tornar um dos mais importantes polos de produção audiovisual no Brasil.

Quando se assumem cargos de gestão fica difícil produzir cultura?

Fica sim. A FCC tem mais de 500 ações diferentes. Cerca de 100 equipamentos culturais espalhados por mais de 50 pontos da cidade. Centenas de servidores. E orçamento anual superior a 50 milhões de reais. Administra dois fundos de milhões de reais, um de renúncia fiscal e outro de fomento direto. Realiza mais de uma dezena de eventos culturais por dia. Além disso, também acumulo as funções de presidente do Fórum dos Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais e de membro do Conselho Nacional de Políticas Culturais. Além de uma série de outras funções no governo e na sociedade.

Também não abro mão da minha vida pessoal. Frequento diversas atividades culturais. Sou pai de uma garota de 16 anos, a Paula, e tenho um namoro consolidado com a Isadora (Ribeiro), que também tem duas filhas, Maria e Valentine, às quais dedico atenção e afeto. Assim, o tempo é bastante restrito.

Como falei, estou desenvolvendo um projeto de programa de televisão. Realizo com alguma regularidade conferências sobre educação e políticas culturais. Estou publicando crônicas com alguma regularidade e pretendo voltar a escrever sobre cinema. Recebi convites para publicar um volume com textos sobre cinema e para escrever um livro sobre o Plano Nacional de Educação. Não é tanto quanto gostaria, mas é o possível.

Mas ser secretário de cultura é um privilégio. A gestão da política cultural é intervenção na alma da cidade (no sentido junguiano do termo). É articular a produção artística, com a ebulição intelectual, com as mediações da comunicação, convergindo desejos, angústias, sonhos e frustrações. Isto é mais importante quando as cidades perderam as suas ágoras, seus pontos de referência identitárias e loccus de pertencimento. Trabalho muito para que Curitiba volte a recompor o seu sentimento de pertencimento, recontextualize os seus ícones de identidade e volte a ter uma ágora simbólica no centro da cidade. Por isso, estou empenhado em recuperar o Passeio Público, o parque mais central da cidade, como espaço de sociabilidade de todos os curitibanos, sem distinções. E vamos convergir para o Memorial da Cidade, no centro histórico, os grandes debates estéticos e intelectuais. O objetivo é que este dois componham um trio com a Boca Maldita, na Rua XV, um tradicional espaço de efervescência política. Ser secretário de Cultura é assumir as responsabilidades como um dos artífices da alma da cidade.

O que pensa sobre o setor cultural do Estado de modo geral?

Os governos estaduais de maneira geral têm limitações sérias. No Paraná, esta situação é agravada por um antigo modelo que concentrou a grande maioria do equipamentos na capital. Mas creio que, com a nova lei estadual de fomento à cultura, este cenário possa mudar gradualmente.

E de Maringá?

Maringá tem potenciais culturais imensos. Como uma cidade de migrantes, é um caldeirão social que produziu um patrimônio cultural, embora recente, de riquezas e diversidade de alta qualidade. A cidade deveria valorizar e demostrar orgulho dessa característica.

Também é uma cidade que dispõe de empresas fortes, que poderiam fomentar mais intensamente a produção local. Tem bons espaços culturais e uma Lei muito interessante de apoio aos museus.

Conheço alguns projetos de alta qualidade de maringaenses. A cidade tem tudo para acontecer no cenário cultural, basta desenvolver políticas sérias, participativas e estruturantes.

O que pensa sobre o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Instituto Memória e Vida (IMV), na figura do Edson Pereira e do Marcelos Seixas? Eles sempre falam muito bem do senhor, principalmente dos trabalhos desenvolvidos na Ancine.

Os dois são muito competentes, criativos e têm grande disposição para o trabalho. Compreenderam o potencial de Maringá e resolveram investir na promoção de projetos culturais. A cidade tem sorte de tê-los e deveria reconhecer esta sorte, apoiando-os intensamente. O Captart é uma experiência exitosa e já é referência nacional. Estamos conversando com os dois para nos ajudar a montar um mecanismo similar em Curitiba. Também estamos discutindo a possibilidade de Curitiba aderir ao Museu da Família, outro projeto de grande importância e que deverá, também, ser referência nacional e internacional. E como maringaense, gostaria muito de ver o Museu da Agricultura funcionando.

Leio em seu currículo que o senhor teve também uma grande atuação na área da Educação. Em sua opinião, de que forma é possível ganhar pontos culturais investindo na Educação de uma cidade? Acha que é válida a unção das pastas ou pelo menos diálogo frequente?

Cultura e educação, em particular nos governos municipais, precisam caminhar juntas, embora resguardando as suas respectivas autonomias. Aqui em Curitiba, temos uma situação ideal de articulação entre estas duas secretarias.

A ação cultural nas escolas é uma de nossas linhas principais de atuação. Inclusive estou estruturando toda uma área específica para tratar das ações articuladas entre cultura e educação.

Estamos ampliando a oferta de cultura na escola direcionando diversos eventos e apoiando a ampliação da jornada escolar. Mas temos alertado que há uma diferença entre as obras de arte utilizadas com função didática e as ações culturais para livre fruição. Os espetáculos de teatro, dança, música e cinema, e as ações de leitura, em museus e outros centros culturais, devem ser de livre fruição, sem obrigações ou avaliações.

Estamos ofertando o EduCultura, um programa que visa disponibilizar espetáculo e obras culturais para os professores, pois entendemos que a formação cultural dos estudantes corresponde à proporção desta mesma formação nos professores.

Todos os nossos equipamentos – salas de exibição, museus, o conservatório de música – assim como a Camerata, os coros e as orquestras, terão atividades direcionadas para o público escolar, tanto nas categorias didáticas como de livre fruição.

Na comissão cultural do Congresso Nacional, trabalhou com Ana Hollanda, né? Aprecia o trabalho que vem sendo desenvolvido por Marta Suplicy?

Quando trabalhei no Congresso Nacional, o ministro era o Juca Ferreira. O período que trabalhei na Ancine coincidiu com a gestão da Ana de Hollanda. Aprecio muito o trabalho da Marta Suplicy no Ministério da Cultura. Quando foi prefeita de São Paulo mostrou grande sensibilidade e apreço pela cultura é também uma gestora muito competente. Responde de forma eficiente e rápida às demandas do Ministério.

A Marta demonstrou muito apreço por nosso trabalho e nossos projetos para Curitiba e tem se mostrado uma importante parceira, tanto na FCC como no Fórum dos Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais.

O senhor ajudou na criação do Vale-Cultura, que deverá virar realidade no meio deste ano. O que pensa sobre este projeto?

O Vale-Cultura é um mecanismo fundamental. Enquanto nossos programas de fomento estimulam a produção, o Vale Cultura vai estimular o consumo cultural, a outra ponta do processo.

Em Curitiba estamos trabalhando bastante para que os produtores e artistas da cidade possam usufruir destes recursos. Já estamos estruturando um guia de oferta para circular entre os usuários do programa e preparando os produtores culturais para usufruir da melhor e maior maneira possível.

Alguns criticam o Vale-Cultura porque não contemplará alguns gostos como por games e TV a cabo. Mas, isso é cultura, em sua avaliação?

O Vale-Cultura é um mecanismo novo. Acho bom que ele comece atendendo um rol menor de produtos e serviços, para que possa ser testado e para verificar e compreender o comportamento dos usuários. Num futuro breve, poderá ser reavaliado e poderá incluir outros segmentos de consumo cultural.

Acha que a Lei Rouanet precisa melhorar ou com a criação do Pro-Cultura as questões envolvendo captação via isenção fiscal para apoiar a cultura já estão bem acertadas?

Acredito que precisamos de diversos tipos de financiamento ao fomento cultural. A renúncia fiscal, regulado pela Lei Rouanet e pela Lei do Audiovisual no âmbito do governo federal, e por diversas leis estaduais e municipais, é uma peculiaridade das políticas culturais no Brasil. São mecanismos que precisam de ajustes regulatórios mais flexíveis e que os aproximem dos focos das políticas públicas, em particular nos municípios.

O segundo tipo são os fundos de fomento direto, que financiam a cultura disponibilizando diretamente verba dos orçamentos governamentais. O modelo do Fundo Municipal de Cultura de Curitiba é um dos melhores, pois dispõe de recursos para dezenas de linhas de ação cultural, disponibilizados através de editais regulares. Os modelos do PAR, PAQ e os editais de coprodução internacional mantidos pela Agência Nacional do Cinema, a Ancine, são também modelos eficientes de fundo de fomento direto.

O terceiro tipo é o do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), mantido também pela Ancine, um fundo retornável, que transforma o governo numa espécie de sócio dos produtores de cinema.

Eu também defendo um novo modelo de regulação dos recursos da cultura flexibilizando os formatos de fomento e financiamento para os agentes da cultura viva. É preciso aprimorar os modelos atuais de editais que dificultam e até inviabilizam a realização de eventos com artistas populares. Penso numa forma de fomento direto, com supervisão, semelhante aos modelos de bolsas de pesquisa e pós-graduação da Capes e do CNPq.

Acredito que é necessário, também, a criação de uma instituição financeira específica para gerenciar os recursos da cultura. Uma financiadora que administre os contratos e investimentos dos recursos culturais aprovados por todos os órgãos e instituições vinculadas ao Ministério da Cultura.

Acha que é por meio da Lei Rouanet que definitivamente pode haver mais apoio cultural partindo da iniciativa privada ou há também outras alternativas de parcerias entre o público e o privado?

Eu creio em três modelos de fomentos. O primeiro é o fomento direto, com recurso do tesouro, que possa financiar tanto obras autorais, experimentais e de iniciantes, centrado na formação e renovação estética. Ele é também para estimular a autonomia crescente dos produtores e artistas, para que consigam a auto sustentação financeira pelo trabalho cultural. Por outro lado, os governos municipais devem ofertar espaços de exibição e mecanismo de circulação e apoiar o consumo cultural.

Defendo enfaticamente que o fomento cultural é para o estímulo à criatividade do artista e que devemos superar o preconceito que o artista não pode ganhar dinheiro com um produto cultural financiado com recursos públicos. O produto cultural é uma propriedade do artista que deve dispor dele para gerar trabalho e renda. Os artistas e os produtores devem, no entanto, oferecer contrapartidas à sociedade e disponibilizar os produtos criados como recursos educacionais abertos.

O segundo modelo é o mecanismo de renúncia fiscal, em que os apoios à arte são retirados de impostos e tributos devidos pelos empresários fomentadores. Acho que este mecanismo é importante em alguns setores, que podem ampliar os recursos públicos disponibilizados via renúncia fiscal com contrapartidas efetivas dos fomentadores. E insisto que o foco deles deve estar articulados às políticas culturais vigentes, em particular, nos municípios.

O terceiro modelo é o estímulo a outras formas de investimentos provenientes da inciativa privada, ampliando a participação destes recursos na produção cultural brasileira, sem intermediação dos governos.

O senhor também disse considerar o hábito da leitura ainda pouco difundido em Curitiba. Pensa em algo para melhorar essa questão, que certamente não é só da capital?

O hábito de leitura é pouco difundido em todo o Brasil. Temos pelo menos quatro grandes obstáculos para superar esta situação. O primeiro é que, até recentemente, as políticas de incentivo à leitura nas escolas não eram eficientes. O segundo é o preço do livro, ainda alto em relação ao poder aquisitivo da população. O terceiro corresponde ao fato de que as bibliotecas são em número insuficiente e, de forma geral, mal localizadas, dificultando o acesso dos potenciais leitores ao livros. O quarto é que as bibliotecas ainda são muito burocratizadas, exigindo cadastros, determinando o tempo de empréstimo dos livros e, em alguns casos, constrangem os leitores, publicando listas daqueles que estão em atraso.

Em Curitiba, estamos ampliando o acesso aos livros com as Estações da Leitura, que são pequenas bibliotecas em terminais de ônibus e outros pontos. Também temos as Casas de Leitura, que promovem, por ano, milhares de rodas de leituras em diversos pontos da cidade, um dos programas mais eficientes de estímulo à leitura em curso no Brasil.

Mas o grande impulso para a mudança desta situação, e que está mudando os hábitos de leitura, são as Tubotecas. Trata-se de uma ideia simples e de baixo custo, mas de alta eficiência. Colocamos livros de literatura em estantes nas estações tubo de ônibus: à altura dos olhos, ao alcance das mãos e sem nenhuma burocracia. A pessoa pode ler enquanto espera o ônibus. Se preferir, continua lendo no transporte e até em casa. Pode devolver quando quiser em qualquer uma das estações vinculadas ao projeto.

A procura pelos livros foi muito superior ao projetado e o retorno dos leitores é extraordinário. E o melhor: além de estimularmos pessoas que nunca tinham lido um único livro, que não têm poder aquisitivo, que não frequentam bibliotecas, ganhamos diversos agentes de leitura, com os novos leitores estimulando pessoas do seu convívio à leitura. Diversos dos livros retirados são repassados para outros leitores por estímulo daqueles que o leram.

Chega a ser emocionante a mobilização dos doadores de livros que fazem coletas entre amigos, em escolas e locais de trabalho. A Tuboteca poderá virar um ícone da cidade baseada na educação e no voluntariado.

Curitiba já está lendo mais. Esta é uma ótima notícia, pois a pessoa que lê mais está aberta a frequentar outras linguagens artísticas, como espetáculos musicais e cênicos, exibição de filmes, exposições de diversos tipos e proteger o patrimônio cultural .

Em Curitiba, qual a função da Fundação Cultural, já que também há uma secretaria de Cultura?

Em Curitiba, o presidente da Fundação Cultural tem o status de Secretário Municipal. O regime jurídico da fundação facilita a execução de projetos com maior flexibilidade na gestão de equipamentos, pessoal e recursos.

Acha que Maringá necessita de uma fundação cultural?

Como disse, não conheço o modelo de gestão de Maringá, mas via de regra a criação de uma fundação cultural pode facilitar a execução de projetos com maior flexibilidade. Mas é importante manter a autonomia da gestão da cultura, pois este é um requisito do Sistema Nacional de Cultura e uma necessidade política. Também é importante blindar o orçamento da cultura para que não tenha utilização em eventos religiosos, festas cívicas etc. Atividades constantemente atribuídas a cultura e que, de fato, não o são.

Por fim, se neste momento estivesse conversando com o secretário de Cultura de Maringá, quais conselhos o atual presidente da FCC daria a ele para que seja possível na cidade uma melhora no setor?

Conheci o Jovi Barboza rapidamente num evento em Curitiba. Eu não teria conselho para ele. Mas gostaria muito de encontrá-lo para trocarmos experiências e discutirmos algumas parcerias.

*Parte desta entrevista foi publicada na edição impressa desta quinta-feira (16), no D+, do Diário de Maringá

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Entrevista na íntegra de Oscar Nakasato, vencedor do Jabuti com ‘Nihonjin’

Oscar Fussato Nakasato, 49 anos, é o primeiro maringaense a vencer o Prêmio Jabuti em uma categoria de ficção. Na noite de quinta-feira (18), a Câmara Brasileira do Livro (CBL) anunciou os vencedores das 29 categorias da 54ª edição de um dos prêmios literários mais tradicionais do País. Seu livro “Nihonjin” (Benvirá, 2011, R$ 19,90) foi considerado pelo júri o melhor livro na categoria Romance, desbancando Domingos Pellegrini, Wilson Bueno e outros nomes consagrados da literatura nacional.

Escritor maringaense Oscar Nakasato vence o Prêmio Jabuti de 2012 com “Nihonjin”

Quando soube que era um dos finalistas na categoria Romance, Nakasato, atenciosamente, concedeu uma longa entrevista para mim, que objetivava publicá-la no D+, caderno de cultura do Diário de Maringá. Por falta de espaço, precisei resumir a publicação da entrevista, mas agora o leitor pode ler na íntegra e conhecer um pouco mais sobre a vida desse grande escritor. Leia:

-Primeiramente, nome completo, idade, cidade de nascimento, cidade e bairro atual onde mora, formação acadêmica e profissão.

OSCAR NAKASATO – Meu nome é Oscar Fussato Nakasato, completei 49 anos este mês (setembro). Nasci em Maringá, mas meus pais tinham um sítio em Floresta – PR, onde morei até completar 8 anos. A partir de então, passei a residir em Maringá. Atualmente resido em Apucarana, na Vila Agari, e sou professor na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Graduei-me em Letras na Universidade Estadual de Maringá depois de uma dolorosa experiência de dois anos e meio no curso de Direito. Também sou mestre em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual Paulista.

-Breve histórico da sua biografia ligada à literatura.

Em 1999 fui premiado com os contos “Olhos de Peri” e “Alô” no Festival Universitário de Literatura, promovido pela Xerox do Brasil e Editora Cone Sul, que os publicou com outros três num volume que se chamou “Contos”. Em 2003, fui vencedor do Concurso Literário da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, Prêmio Especial Paraná, com o conto “Menino na árvore”, que também foi publicado com outros contos e poemas premiados no mesmo concurso. Em 2011, meu romance “Nihonjin” venceu o Prêmio Benvirá de Literatura e foi publicado pela Editora Saraiva. No mesmo ano, o romance dividiu o Prêmio Bunkyô de Literatura em língua portuguesa com “Contos do Sol Nascente”, de André Kondo, e “Retratos Japoneses no Brasil”, organizado por Marília Kubota.

-Conte em detalhes como é seu dia a dia. O que faz durante a manhã, tarde e noite. É casado, tem filhos? Quanto tempo trabalha?

Ano passado, logo após ser anunciado como vencedor do Prêmio Benvirá, eu disse que minha prioridade é a docência, e em entrevista recente, mais de um ano após o prêmio e com uma vendagem expressiva de “Nihonjin”, reiterei essa condição. Minha rotina inclui as atividades da universidade, onde trabalho em regime de dedicação exclusiva, e as obrigações como esposo de uma mulher tão bonita quanto exigente e pai de dois filhos adolescentes e modernos. Além disso, atualmente dedico grande parte do meu tempo e da minha disposição para construir a minha casa, tarefa muito árdua para alguém com pouco talento para lidar com questões práticas. Pretendo escrever outros livros, mas construir outra casa, jamais.

-Como é o seu processo de escrita? Quantas horas escreve por dia, de que jeito, no computador mesmo, no silêncio, com a luz apagada, bebendo, fumando, longe do barulho, com a janela aberta, atolado de papeis de pesquisa, atolado de anotações feitas num caderninho etc?

Já tentei estabelecer uma rotina para escrever, mas não deu certo, pois não tenho disciplina. Como nunca entendi o ato de escrever como trabalho, não me sinto responsável para cumprir horários e metas. Por isso, às vezes passo um mês sem escrever, o que, contraditoriamente, me enche de culpa. Então corro até o computador e procuro me redimir teclando algumas linhas ou páginas. Às vezes interrompo a escritura para ler um parágrafo de Clarice Lispector ou de Guimarães Rosa, é uma necessidade de me iluminar. Gosto de escrever em computador com internet, pois quando tenho alguma dúvida, mesmo em relação a um vocábulo, faço a pesquisa imediatamente.

 -O que te obriga a escrever? O que te incomoda ou surpreende a ponto de não resistir à feitura de um texto?

Às vezes o que me obriga a escrever é a sensação de culpa por estar há muito tempo sem escrever, outras vezes escrevo porque preciso logo traduzir uma sensação em palavras para de algum modo represá-la, pois tenho medo de perdê-la para sempre. Em geral escrevo porque tenho prazer no ato.

 -De onde tirou a ideia do romance ‘Nihonjin’ e quanto tempo demorou para escrevê-lo?

“Nihonjin” nasceu de uma decepção. Quando iniciei a minha pesquisa sobre personagens nipo-brasileiros na ficção para a minha tese de doutorado, já sabia que não encontraria muito material, mas não imaginava que esses personagens fossem tão escassos. Então, antes de terminar a minha tese, já comecei a esboçar o romance, aproveitando as pesquisas que havia feito sobre a imigração dos japoneses no Brasil e o seu processo de aculturação. Passei por períodos de intensa produção e outros de absoluto recesso, levando cerca de quatro anos para terminar o romance.

– Para compor o personagem Hideo Inabata, inspirou-se em algum amigo ou familiar?

Hideo é, antes de tudo, um personagem de ficção, fruto de pesquisa em livros de História, Sociologia e Antropologia, mas vejo nele traços de alguns tios.

– Como é sua relação com o Japão? Seus pais nasceram lá, já foi para lá, aprecia a cultura?

Sou sansei, ou seja, sou neto de japoneses. A minha relação com o Japão ou com a cultura japonesa foi conflituosa na adolescência, quando passei por uma fase de negação das minhas origens. Nesse período procurava fazer amizade com quem não tinha ascendência japonesa e me interessava pela cultura ocidental. Depois me dei conta de quão ignorante eu era em manter tal postura e do quanto eu perdia em me afastar da cultura japonesa, descobri que o grande barato era exatamente ser essa mescla, esse ser híbrido. Então estudei língua japonesa no Instituto de Língua Japonesa da Universidade Estadual de Maringá durante dois anos, depois escolhi a análise de personagens nipo-brasileiros para a minha tese de doutorado. Espero, um dia, como o narrador de “Nihonjin”, ir ao Japão e sentir essa “ida” como um “retorno”.

-Você foi o vencedor do 1º Prêmio Benvirá de Literatura, tendo um livro considerado melhor do que outros escritos por 1.932 concorrentes de todo o Brasil com obras inéditas. Espera vencer? Como ficou sabendo do prêmio? Antes disso, ‘Nihonjin’ foi rejeitado por editoras?

Sempre acreditei em “Nihonjin”, por isso o enviei somente para grandes editoras, pois sei que as pequenas têm dificuldades em dar visibilidade às obras que publicam. O romance foi rejeitado por todas, e também não ganhou o Prêmio Sesc de Literatura, do qual participei. Por isso, enviei os originais para o Prêmio Benvirá evitando criar grandes expectativas, mas ninguém participa de um concurso pensando que não tem nenhuma chance de ganhar. Um dia, ao chegar a Maringá após uma viagem a Goioerê, abri minha caixa postal e li duas mensagens, um do Thales Guaracy e outro do Luís Colombini, editores da Saraiva, ambos dizendo que tentaram entrar em contato comigo por telefone e que gostariam de falar sobre o Prêmio Benvirá. Meu coração começou a bater mais forte, disse à minha esposa que algo de bom estava acontecendo, que “Nihonjin” talvez tivesse sido premiado. Como era tarde, entrei em contato com eles por telefone no dia seguinte, e então anunciaram o prêmio. Abracei a minha esposa, senti uma paz muito grande, mas não pulei, não gritei. Fiquei feliz, simplesmente.

-Dentre seus concorrentes está ‘Herança de Maria’, de Domingos Pellegrini, que também foi vencido no Benvirá. Sabendo disso, acha que suas chances são maiores para vencer o Jabuti de melhor Romance?

De forma nenhuma. Após o anúncio do prêmio Benvirá, o Pellegrini entrou em contato comigo e humildemente me parabenizou. Mas veja, “Herança de Maria” também está entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura, do qual também participei, sem resultado positivo. Isso somente confirma que há um grau de subjetividade muito grande nos prêmios de literatura.

-Quais suas apostas, além da torcida para o próprio livro, tanto no romance como no conto e no infantil?

Há muitos autores que não conheço, mas os favoritos sempre são os nomes já consagrados. Espero que haja surpresas. Se fosse o “Oscar”, eu apostaria no meu concorrente Wilson Bueno, outro paranaense, pois seria uma forma de realizar uma homenagem póstuma, já que ele faleceu em 2010. Entre os contistas/cronistas, estou torcendo pelo Luís Henrique Pellanda, cujas crônicas acompanho no site “Vida Breve” (vale a pena conferir), mas o quase invisível Dalton Trevisan e a simpática senhora Lygia Fagundes Telles são grandes candidatos. Gosto do Fabrício Carpinejar (outro que escreve em “Vida Breve”), que concorre na categoria de Literatura Infantil, mas o Ziraldo também é candidato… De qualquer forma, cito esses nomes pelo conjunto da obra, pois ainda não li os livros que participam do prêmio.

-Ouvi uma história dizendo que você talvez pararia de escrever. Por que?

É uma estória, como diria o Guimarães Rosa. A Lygia Fagundes Telles, que está com 89 anos, diz que escreve todos os dias, e o Ignácio de Loyola Brandão, com 76, afirma que o ato de escrever o mantém vivo. Eu escrevo pouco, mas quero escrever até os cem anos.

 -Só escreve romance ou gosta de contos, crônicas?

Sempre escrevi contos, pois sou conciso. Imaginava que jamais escreveria um romance. “Nihonjin”, ainda que seja breve, foi uma grande conquista. Tomei gosto, preparo um novo.

 -Como é sua rotina dando aulas, o que sente, quais são os grandes desafios de se ensinar literatura?

Ensinar leitura e literatura em tempos de ditadura da imagem é um grande desafio. Recentemente li no jornal Rascunho a Márcia Tiburi dizendo: “As pessoas que lêem são mais interessantes, mais inteligentes, mais bonitas, mais bacanas, mais poderosas — são tudo. Quem não lê é um otário.” Achei espetacular o exagero! Mas logo me lembrei de várias pessoas que não leem e não são otárias. Ocorre que sempre julgamos sob um ponto de vista muito particular. De qualquer forma, tenho plena convicção de que a leitura, principalmente a boa ficção, torna as pessoas mais inteligentes, mais sensíveis e mais educadas. A leitura nos afasta da barbárie. E ter o texto, o romance, a poesia, como objetos de trabalho é um grande privilégio. Ser professor é um barato, um verdadeiro exercício de cidadania, pois, tendo concluído a Licenciatura em Letras e estudado tanto Literatura, é um dever partilhar o que penso que sei com os outros.

-Qual sua opinião a respeito dos prêmios literários?

Nunca houve no Brasil tantos prêmios, bienais, feiras e semanas dedicados à literatura. E os balanços das editoras demonstram que nunca o país vendeu tantos livros como agora. Faltam os leitores. É paradoxal, mas milhares de pessoas vão a esses eventos, milhões de livros são vendidos, e ainda há poucos leitores. Os prêmios literários, como essas outras atividades, promovem a visibilidade do produto livro, mas ainda se esforçam para promover a leitura. Não vejo, porém, que o caminho esteja errado. Aqui cabe o ditado: água mole em pedra dura bate tanto até que fura.

-Quais suas referências literárias? O que gosta de ler? Da sua leitura, o que te influencia na hora de escrever? Qual seu livro de cabeceira?

O meu livro de cabeceira é aquele que estou lendo, e ele está, agora, literalmente, sobre a mesinha de cabeceira, mas me acompanha aonde eu vou. É “Cidade de Deus”, de Paulo Lins, uma leitura tardia de um romance que foi publicado em 1997. Não o escolhi, a Universidade Estadual de Maringá o elegeu como uma das obras do Vestibular, e me vi obrigado a lê-lo. É uma daquelas obrigações que se tornam prazer. Daqui a uma ou duas semanas, outro livro estará sobre a minha mesa de cabeceira, talvez um desses indicados para o Prêmio Jabuti. Leio muito, mas não somente ficção. Gosto muito de ler revistas e jornais, levo-os ao banheiro e me demoro mais que o necessário. A vida é mais que fazer necessidades. Gosto dos clássicos, de Machado de Assis a Guimarães Rosa, e de alguns mais novos, como o Luiz Rufatto, cujo romance (que não é romance) “Eles eram muitos cavalos” me deixou perplexo. É assim, as influências vêm de diversas páginas.

-Quem, ultimamente, no Brasil e no mundo, estão fazendo literatura de respeito?

Não tenho autoridade nem condições para fazer essa indicação. Seria uma leviandade, pois não tenho lido suficientemente os escritores da atualidade, principalmente os estrangeiros.

-Morar no interior do PR atrapalha no sucesso de um escritor, mesmo ele tendo feito um livro premiado como o seu?

Atores e cantores que querem fazer sucesso geralmente vão a São Paulo ou ao Rio de Janeiro para ficar sob os holofotes, mas os escritores não precisam se projetar dessa forma, embora o comentarista de literatura Afonso Borges tenha observado recentemente em seu boletim Mondolivro, na rádio CBN, que os escritores, ultimamente, não podem ficar reclusos, pois precisam participar de mesas redondas e seminários nos diversos eventos literários que ocorrem no país. Rubem Fonseca e Dalton Trevisan precisam ser avisados dessa nova “revolução na vida dos escritores brasileiros”, como qualifica Borges. Manuel de Barros, festejado pela crítica, pela academia e por leitores fieis, segue vivendo muito bem no Mato Grosso do Sul. Hoje há escritores que vivem, sim, sob holofotes, mas não creio que essa condição seja essencial. No meu caso, eu pude participar do Prêmio Benvirá e realizar toda a negociação da edição do livro, incluindo a revisão que antecedeu a publicação, sem sair de Apucarana. Fui a São Paulo somente para receber o prêmio. Se eu morasse lá, daria mais entrevistas, participaria de mais eventos e, assim, “Nihonjin” teria maior visibilidade, mas creio que eu e meu romance podemos viver bem em Apucarana ou Maringá.

-Já viajou para onde divulgando ‘Nihonjin’?

Lancei o romance somente em São Paulo, na ocasião da premiação, em Maringá e em Apucarana.

-O que sua família acha da sua ascensão como escritor?

Logo após receber o meu prêmio, um tio de São Paulo veio a Maringá e trouxe um recorte de jornal com uma entrevista e uma fotografia. Esse fato revela a relação que se estabeleceu entre a minha família e a repercussão do prêmio e da publicação de “Nihonjin”. Todos sentem esse orgulho ingênuo de ver o nome de um familiar impresso nas páginas dos jornais, e isso me emociona. A minha esposa, que acompanhou mais de perto a minha trajetória e sempre me incentivou, agora compartilha as alegrias que “Nihonjin” me trouxe.

 -O que espera para o futuro? O que ter feito uma boa história representou para sua vida? Acha que vai conseguir superar Nihonjin ou está com a síndrome de Raduan Nassar, que disse ter parado de escrever por achar não ter capacidade de escrever nada melhor do que Lavoura Arcaica.

Espero não ter o destino de Raduan Nassar, que, realmente, não escreveu nada de interessante após o belíssimo “Lavoura arcaica”. Há pouco tempo o Paulo Lins justificou os quinze anos que separam “Cidade de Deus” e “Desde que o samba é samba”, lançado este ano, dizendo que o seu primeiro romance lhe custou tanto tempo e causou tanta tensão e desequilíbrio emocional que ele precisava descansar. “Nihonjin” não me cansou e não me desequilibrou emocionalmente, pelo contrário, me estimulou a escrever mais. Espero não entrar na paranoia de ter a responsabilidade de escrever algo melhor que “Nihonjin”.

-Fique à vontade para comentar o que quiser.

Já “falei” demais. Obrigado.

Trecho do romance “Nihonjin”

“_ Haruo, não seja impertinente! O espírito não conhece distâncias! E o nosso espírito é japonês!

Era isso que ensinava naquela noite aos vinte e poucos alunos amontoados num velho galpão de madeira. Meninos e meninas reunidos ao redor de mesas improvisadas com tábuas e cavaletes, sentados em longos bancos, com os cadernos repletos de hiraganas, katakanas e ideogramas. Hideo propusera-se a ser professor voluntário porque aquelas crianças, impedidas pelo governo de ir ao nihongakkō, não poderiam crescer como se fossem gaijins.

Os policiais chegaram sorrateiramente e, antes de invadirem o galpão, espiaram pelas frestas e viram as crianças sentadas, em silêncio absoluto, atentas ao que dizia sensei.

_ Esses japoneses fazem lavagem cerebral”, comentou um deles. “Crianças não se comportam dessa maneira.

Quando os homens entraram, Hideo não ofereceu resistência. Disse somente para que deixassem as crianças em paz e quis saber quem havia feito a denúncia. Os policiais, obviamente, não responderam. Recolheram todos os cadernos e dois livros do professor. Um menino tentou resistir, segurou firme o seu caderno, na outra ponta o policial, e os dois mediram forças, e cada um tinha a sua, a do braço e a da alma, e esta alimentava aquele, por isso a criança era quase homem, olhava o adversário como um igual, e o homem, que tinha a malícia que o menino ainda não alcançara, soltou de repente o caderno, e o menino foi ao chão. Hideo, que assistia à luta e via, orgulhoso, a força do menino, aproximou-se, então, disse-lhe em voz baixa que era verdadeiramente um súdito do imperador, ajudou-o a se levantar, pegou o caderno e o entregou ao policial, pois não adiantava resistir. Os alunos se encolheram num canto do galpão, algumas meninas choravam, todos emudecidos pelo medo.”

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