Milton Hatoum



‘O leitor é um grande mistério’, diz Hatoum

Estreia segunda-feira (9) a minissérie da Globo “Dois Irmãos”, inspirada em romance homônimo de Milton Hatoum. Um dos autores em atividade mais respeitados do País respondeu três perguntas sobre a série, o livro e leitores:

Por que “Dois Irmãos” tem atraído tantos projetos artísticos que extrapolam as páginas do livro?
Não sei dizer o que motivou adaptações para o teatro, HQ e minissérie, mas deve ter algo a ver com a trama do romance, o modo de narrar e a linguagem. Um drama familiar em contraponto com a decadência de Manaus num período de brutalidade da história brasileira recente. O mais relevante numa ficção é a forma de narrar. E o narrador do “Dois irmãos” não pertence à família de imigrantes libaneses. Nael é um agregado, um personagem que veio de baixo, filho de uma empregada, uma índia que trabalha para sobreviver. Ele consegue estudar graças ao avô (Halim) e os estudos dão a ele a capacidade de refletir e escrever sobre o passado. O narrador não sabe quem é seu pai. Talvez esse drama moral, a paixão de Zana (mãe dos dois irmãos) por um dos filhos e outros conflitos tenham atraído a atenção dos leitores. Mas o leitor é também um grande mistério.

Essas possibilidades que cercam a literatura aproximam as pessoas dos livros?
Acho que aproximam. Sei que vários leitores da adaptação do Fábio Moon e do Gabriel Bá leram também o “Dois irmãos”. Certamente isso está acontecendo ou vai acontecer com os espectadores da minissérie.

Como o senhor se sente quando vê a sua obra sendo utilizada em outras artes, como a dos quadrinhos e da teledramaturgia?
Foi um golpe de sorte ou uma feliz fatalidade. Os artistas gráficos são excelentes, assim como a direção de Luiz Fernando Carvalho, o roteiro da Maria Camargo, os atores, figurinistas e toda a equipe da minissérie. Fico contente em compartilhar com esses artistas a história e a linguagem de um romance a que dediquei quase dez anos da minha vida. Na verdade, eles não adaptaram, e sim recriaram a essência do romance em outra linguagem. Penso que meus leitores gostaram dos quadrinhos e vão apreciar a beleza visual da minissérie.

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