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O pai, o filho, a moça e o camaro amarelo*

Por Leandro Veras*

Um rapaz, cuja idade não foi divulgada, está andando pela cidade e tirando a maior onda com um carrão de duzentos mil reais que comprou recentemente só para impressionar uma moça que, aparentemente, não queria nada com ele até bem pouco tempo atrás. Segundo pudemos apurar, a moça teria desprezado o coitado só porque ele andava com uma CG Titan, provavelmente de 125 cilindradas, que não chama a atenção de ninguém (exceto de alguns trombadinhas).

Agora, o que impressiona mesmo nessa história, é como ele ganhou o dinheiro para comprar o carrão. De acordo com as palavras do próprio rapaz: “Aí veio a herança do meu ‘véio’,/ Resolveu os meus problemas, minha situação/ E do dia pra noite fiquei rico/ Tô na grife, tô bonito/ Tô andando igual patrão.”

Como podemos ver, o pai dele MORREU e o insensato em vez de ter ficado triste com isso, não, se apressou logo em, “do dia pra noite”, meter a mão na grana do “véio” (que talvez tenha batalhado a vida inteira para construir um patrimônio).

Mas a história não termina aí e é cheia de mistérios.

Primeiro, não sabemos se o “véio” morreu de fato ou se apenas adiantou a herança para o filho, como naquela história bíblica. Segundo, por que será que um sujeito cheio da grana (afinal, não é qualquer um que deixa ou adianta uma herança dessas para um filho) permitia que o seu moleque andasse por aí de CG? Por que será que ele não dava logo uma Kawasaki pro garoto tirar onda com as “mina”? Ou quem sabe uma Hayabusa? Certamente a moça não o teria esnobado!

Temos algumas hipóteses: como vimos, o “véio” até podia bancar a vida boa do filho, mas não o fazia. Por quê? Talvez porque esse pai fosse daquele tipo de empresário de classe média que saiu de baixo, comeu o pão que o diabo amassou, lutou, batalhou 10, 12, 16 horas por dia para construir seu patrimônio e não concordava com o estilo de vida do filho. Aliás, é isso que nos faz crer que o “véio” tenha mesmo batido as botas.

E que estilo de vida seria esse? Ao que tudo indica, o moleque é um desses boyzinhos mauricinhos, mimados pela mãe, que não tem nada na cabeça e não faz a menor ideia do que seja dar valor ao trabalho (muito menos o trabalho dos outros!). Afinal, que ideia podemos fazer de um sujeito que anda por aí dizendo coisas do tipo:

“Agora eu fiquei doce, doce, doce, doce/ Agora eu fiquei dododododoce, doce [2x]/ Agora eu fiquei doce igual caramelo/ Tô tirando onda de camaro amarelo/ Agora você diz: ‘Vem cá que eu te quero!’ Quando eu passo no camaro amarelo”?

É possível também que o pai fosse um tirano malvado, desses que fazem questão de que o filho assuma os negócios da família enquanto o garoto quer tocar violão e passear de moto com a namorada, sentindo o vento na cara como forma de liberdade. Daí viria, então, sua rebeldia, só para contrariar o “véio”.

Mas isso são só conjecturas que não encontram respaldo no relato conhecido e difundido pela mídia.

Também não podemos esquecer da tal moça. Considerando as palavras do rapaz, e é só com base nisso que podemos afirmar qualquer coisa (como, aliás, aconteceu com aquela Capitu), ela não passa de uma interesseira esperando algum novo rico para dar o bote. Senão, “Quando eu passava por você na minha CG/ Você nem me olhava/ Fazia de tudo pra me ver, pra me perceber/ Mas nem me olhava”

Hoje, após a provável morte do pai e o lance da herança e do carrão, nos conta o “Sr. agora eu fiquei doce” a respeito da moça: “Agora você vem, né?/ E agora você quer, né?/ Só que agora vou escolher, ta sobrando mulher.”

Mas ela se deu mal! É óbvio que o rapaz não ia querer compromisso agora que “tá sobrando mulher”.

A história ficou famosa, mas parece que ninguém ainda se deu conta dos detalhes absurdos (e sórdidos, inclusive, podemos afirmar) nos meandros deste enredo aparentemente tão leve e inocente.

*O texto de Leandro Veras foi publicado no D+, caderno do Diário de Maringá, em 7 de julho de 2013

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