morte



A morte ronda a literatura

Escritor Ariano Suassuna se foi em 23 de julho; obra magnífica fica

Escritor Ariano Suassuna se foi em 23 de julho; obra magnífica fica

Por Wilame Prado

Nos últimos três meses, a literatura se enfraqueceu. O mundo perdeu nomes como o do colombiano Gabriel García Márquez, Nobel da Literatura em 1982, e Ariano Suassuna. O recriador do Sertão brasileiro nas páginas de livros e nos palcos foi enterrado no Recife na tarde do dia 24 de julho. Além deles, morreram nesse curto espaço de tempo o poeta carioca Ivan Junqueira, a romancista sul-africana Nadine Gordimer, o baiano radicado no Rio João Ubaldo Ribeiro e o educador mineiro radicado em Campinas (SP) Rubem Alves. Pelo menos, as obras ficam. E esse fato seja talvez o que de maior valor as artes podem propiciar para o mundo. A boa literatura nunca morre. Há todo momento, jovens e velhos leitores descobrem novas leituras, novos mundos imaginários por meio das páginas dos livros.

Até mesmo aqueles que já leram tudo o que foi escrito por García Márquez, por exemplo, ganharão e muito ao reler a obra de um dos principais nomes do realismo mágico. Quem quer informações sobre o que ocorreu na África do Sul durante o Apartheid, pode muito bem iniciar a leitura dos romances deixados por Nadine Gordimer, que ressaltou com maestria a deterioração social ocorrida naquele país após o regime de segregação social tão fortemente combatido por Nelson Mandela.

A morte é algo inesperado, como todos sabem. Inclusive para o mercado editoral. Quando os escritores morrem – a depender da sua importância e reconhecimento mundial –, ocorrem reviravoltas editoriais. Em abril, quem encontrou algum exemplar à venda de “Cem Anos de Solidão”, do escritor colombiano, poderia ser considerado um sujeito de sorte. Quem estava deixando, por exemplo, sempre para depois a leitura de “Sargento Getúlio”, obra-prima de João Ubaldo Ribeiro, agora poderá ter mais dificuldade para encontrar um exemplar em qualquer livraria.

Após a morte de Ubaldo, a editora Objetiva precisou fazer reposições emergenciais de suas obras em grandes livrarias paulistas. Na semana que passou, o ebook do romance “Viva o Povo Brasileiro”, de Ubaldo, foi o mais vendido pela editora (433 unidades), seguido de “A Casa dos Budas Ditosos” (200). “‘Viva o Povo Brasileiro’, e isso já se disse muito por aí, talvez tenha sido a última tentativa do grande romance de identidade nacional, e numa forma épica”, considerou Leandro Sarmatz, editor da Companhia das Letras. “Ubaldo foi um grande. E foi o último de uma linhagem”, disse.

No caso de Ariano Suassuna, o maior lamento é saber que o autor parecia estar escrevendo e reescrevendo uma espécie de continuação sem fim do seu grande romance, o “Romance d´A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”. Quem ainda não leu o épico romance autobiográfico narrado por Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, o auto-proclamado “Rei do Quinto Império e do Quinto Naipe, Profeta da Igreja Católico-Sertaneja e pretendente ao trono do Império do Brasil”, precisará gastar um bom dinheiro. Na Livrarias Saraiva, um exemplar novo custa R$ 70, fora o frete. Na Estante Virtual – que reúne livros de centenas de sebos por todo o País – um exemplar usado custa entre R$ 50 e R$ 250.

Para Anco Márcio Tenório Vieira, professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco, a obra “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, é “impregnada de verdade”, desde a descrição da terra e dos que lá habitam, até as cenas de Guerra de Canudos e seus protagonistas. Mas a verdade sobre o Sertão de Ariano Suassuna é mais “literária”, menos “científica”.

“Há um Sertão antes e depois de Ariano Suassuna e do Movimento Armorial. Afora muitas das suas posições polêmicas e não raras vezes reacionárias sobre arte e cultura, creio que é esse Sertão ‘fantasioso’, lúdico, mágico, maravilhoso, colorido e alegre, como se fosse um eterno espetáculo circense, que foi a maior contribuição de Suassuna para a literatura de língua portuguesa. A imagem do Sertão dilatou-se e se enriqueceu com a sua obra e, principalmente, se coloriu no ‘Reino Encantado da Literatura’, escreveu Vieira, em artigo publicado recentemente no portal UOL.

*Reportagem publicada no domingo (27) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Última viagem

Por Wilame Prado

De que adiantam os sermões? Os aconselhamentos? As propagandas? O respeito com as leis de trânsito? Em muitos casos, de nada adiantam. O asfalto é palco para as mortes, é como marchar em cinzas fúnebres daqueles que morrem diuturnamente, é se aventurar numa metralhadora automobilística, numa roleta russa sobre rodas.

Não bastam as curvas e o perigo da ultrapassagem na faixa contínua. Quando se propõe a ir para guerra, ou seja, conduzir um veículo pelas nossas rodovias federais, estaduais, mortais, corre-se o risco até mesmo de se ter a vida tomada por um “carro perdido”, uma versão da bala perdida substituída por um trambolho de metal, vidro e plástico que pesa toneladas e que pode atingir a sua cara, corajoso motorista das nossas estradas quase sempre esburacadas.

Diante de um volante, antes da partida, a sugestão é válida para os homens de fé e até para os homens de pouca ou nenhuma fé: reze, ore, acenda velas, destrinche terços, faça a oração que o próprio pai nos ensinou, agradeça por tudo e peça para viver mais, ainda que, a partir daquele momento, ligando o carro, ajeitando o retrovisor e engatando a marcha, a sorte estará lançada e a morte pode infelizmente acompanhá-lo naquela que poderá ser a última viagem em terra.

Todas as histórias envolvendo mortes no trânsito respigam no drama. A morte é dramática, eu sei, mas as mortes no asfalto quente ou no asfalto molhado pela chuva sempre são piores. As pessoas que pegam as rodovias para se locomoverem de um ponto a outro quase sempre estavam topando aquele risco em prol de algo melhor: um trabalho a se fazer em outra cidade, um final de semana no resort, o início de umas férias na casa de cunhados que moram próximo ao litoral, uma ida até o país vizinho para as compras ou uma visita pontual ao amigo, ao irmão, ao tio, que, deitado numa cama de hospital, precisa da sua companhia, nem que for por poucos instantes.

Mãe e pai deixam filhos. Ciclista perde a mão, que desaparece em meio à leve correnteza do córrego sujo da cidade grande. Bêbado estraçalha pedreiro e bicicleta e percorre quilômetros com o pobre coitado preso no vidro estourado da frente do carro. Famílias inteiras se vão. Homem que faria aniversário amanhã perde a vida um dia antes após ser mais uma vítima do violento trânsito.

Moça que ia para a lua de mel deixa marido viúvo no primeiro dia de casamento após colisão frontal com um caminhão em ultrapassagem perigosa. Após entregar convite de casamento para amigos que moram em cidade vizinha, homem perde a direção do veículo numa curva e o casal não se salva a tempo de dizer sim no altar.

Isso sem dizer nos sobreviventes, sem uma perna, sem um braço, sequelado, que têm pesadelos todos os dias com lembranças terríveis do barulho da batida, da dor, do susto, da luz forte na cara, do conhecido morto no banco ao lado.

Quem aí está pronto para a guerra? Quem se sujeita a talvez fazer a última viagem? O sangue vermelho que escorre no asfalto cinza será rapidamente lavado. Os destroços automotores serão recolhidos. Corpos passam pelo Instituto Médico-Legal antes do enterro para as últimas lágrimas de parentes e amigos. Mas a guerra continuará: os carros estarão cada vez mais potentes, as propagandas de cerveja cada vez mais atraentes e mais frágeis serão as nossas vidas.

*Crônica publicada nesta terça-feira (11) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Novembro

Por Wilame Prado

Aprecio os meses de novembro. Pelo menos aqui pelos lados do norte do Estado, os ventos noturnos acalmam a alma e refrescam aqueles que enfrentaram um intenso calor durante o dia.

Lembro-me que era novembro porque conversava com minha mãe sobre o aumento das temperaturas, a aproximação do verão e as dificuldades com os climatizadores que quebram justamente nesta época. “Entra o calor, e então as geladeiras e os aparelhos de ar-condicionado dão pau. No frio, é a vez de quebrar as máquinas de lavar”, replicava para ela as palavras ditas por um assistente técnico que havia consertado há alguns dias minha geladeira.

Havia voltado para casa, naquele novembro, na cidade interiorana onde minha mãe mora. Fazia calor, mas o sábado amanhecera chuvoso e então todos se sentiram um pouco melhor, podendo respirar melhor. De madrugada, os três climatizadores de ar daquela imensa casa pararam de funcionar com a queda da energia elétrica após anúncio da chuvarada feito por um raio que se fez estrondoso pelo barulho do trovão.

Na cidadela, a história se repetia nos últimos meses do ano: mais calor, mais seca, uma chuva exagerada de vez em quando, quedas de energia frequentes e a falta de água nas casas. Como em cidades litorâneas que não suportam – logisticamente falando – a invasão de turistas nas temporadas veraneias, aquela cidade pequena do interior sofria carência de serviços a partir de novembro – mais pelas condições climáticas do que pelo aumento de pessoas que chegam até a cidade para visitar os parentes, ir a casamentos e velórios.

“O ar está parado agora, mas tenho certeza que a noite será fresca”, pensava comigo mesmo andando pela cidade de minha mãe um dia antes daquela chuva boa que caiu no sábado. Mesmo com tanto calor, não me permiti vestir uma bermuda naquele dia. Julguei mais adequado vestir calça jeans para acompanhar o velório e enterro de uma tia que morreu dormindo. Era principalmente por causa da morte dela que havia regressado à cidade onde vivi boa parte de minha adolescência e que agora tanto sofria com a falta de água e com climatizadores pifando.

“Banho agora só depois das oito. A água volta de manhã e depois das oito”, explicava-me um velho amigo de infância que encontrei no sepultamento.

E finalmente a noite havia caído. E os ventos haviam chegado. E era chegada a hora em que as pessoas, naquela pequena cidade, colocam as cadeiras de área nas calçadas para conversar sobre tudo e sobre nada, sobre climatizadores que pifam e uma tia que finalmente descansa após 55 anos de uma vida meio deslocada. Almas que se acalmam em noites de novembro. Acho que nunca mais me esquecerei daqueles dias quentes e daquelas noites amenas em que passei na cidade pequena. Por lá, o tempo passa modorrento.

Jamais esquecerei. Era novembro. Enterramos a tia na tarde daquela sexta-feira de altas temperaturas. O suor escorrendo atrevidamente do rosto do coveiro lidando habilmente com tijolos e argamassa no lacre do túmulo. No sábado, a chuva limpando o ar para alegria de todos e, ao fundo, ao longe, ouvia-se o som de uma fanfarra que executava, na avenida da pequena cidade, uma música pop que havia feito sucesso há alguns anos. Naquela pequena cidade, de tempo modorrento, com tardes quentes e com ventos noturnos, climatizadores quebravam e parentes morriam. Era novembro, e disso eu me lembro bem.

*Conto publicado terça-feira (19) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Socorro nunca foi Maria

Socorro nunca foi dado.
Ela nunca deixou.
Quis e soube andar
– ainda que por caminhos tortos –
desde muita nova,
em ritmo embalado.

Deixa a mãezinha, filhas e netos
Deixa parte da família
para se reencontrar
com outros lá em cima

Ninguém socorreu
E foi-se sozinha, dormindo.
Em uma noite que não estava fria.
14 ou 15 de novembro de 2013?
Qual a data da ausência de socorro?
Qual o dia ou a noite da escuridão maior,
da solidão incomparável?
Morrer é um ato solitário.

Ela nunca quis socorro,
gostava de andar sozinha.
Sempre em vielas, em becos,
entrando numa fria.
A verdade é que Socorro nunca foi Maria.
Adeus, tia.
Manda um beijo pro pai e pro vô.
E saiba que nunca estará sozinha.

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Maringá perde Marciano Lopes

Por Wilame Prado e Mariana Kateivas

“Não permita Deus que eu morra/sem comer um Big-Mac”, assim escreveu Marciano Lopes e Silva, em tom irônico, na poesia “Adeus Vidinha Besta”, publicada em seu último livro “A Contrapelo” (2007). Infelizmente, não deu tempo de perguntar para ele, também na brincadeira, se finalmente havia comido o tal junk food. Marciano Lopes, escritor e professor doutor que lecionava no Departamento de Letras da UEM desde 1997, morreu aos 48 anos, às 19h da última quinta-feira, no Hospital Metropolitano, em Sarandi, após complicações decorrentes de uma pneumonia.

O velório, sexta-feira passada, na Capela do Prever, reuniu vários amigos, familiares e principalmente professores e alunos da UEM . A cremação do corpo estava marcada para as 11h de sábado, no Cemitério Park. Sem filhos biológicos e já tendo pai e mãe falecidos, Marciano deixa mulher, Fabiana Silva.

Natural de Porto Alegre (RS) e torcedor apaixonado pelo Grêmio, Marciano se destacou principalmente com os seus poemas – os quais resultaram em duas obras -, pelos programas de rádio sobre literatura que comandava na Rádio Universitária da UEM e com a idealização e organização da Jornada Interartes Outras Palavras (Jiop), eventos que mesclavam vários tipos de arte.

Desses encontros e também na sala de aula, o professor encontrava material literário para a publicação dos números da revista eletrônica No Meio do Caminho.

A colega Marisa Correa Silva, também professora de Literatura na UEM, diz que Marciano Lopes fará falta pela sua criatividade e vontade de ajudar os colegas das letras. “Escrevia, estimulava os outros a escrever, publicava textos de alunos e de ex-alunos no blog e na revista. O curso de Letras da UEM sofrerá com a falta dele.”

Para Ademir Demarchi, escritor, amigo e cronista do caderno Cultura do Diário, é uma pena ter perdido Marciano Lopes justamente quando ele se encontrava em sua melhor forma literária. “Marciano estava num momento criativo muito bom, de maturidade, que se refletia na sua poesia. Ele estava sendo uma pessoa valiosa por sua capacidade de aglutinar pessoas e de projetos distintos, numa cidade que tende à entropia, ao recolhimento de cada um aos projetos individuais.”

“O corpo vai…a poesia fica”, disse o escritor Nelson Alexandre, ex-aluno e amigo do professor. Ele revela que, como homenagem ao grande entusiasta das letras maringaenses, amigos se reunirão hoje, em local e horário a definir, para fazer o sarau da Jiop e lançar o livro “Poemas Para Quem Não Me Quer”, de Nelson Alexandre e que tem orelha assinada por Marciano Lopes, que deixa saudades. (não foi possível realizar o sarau e nem o lançamento do livro, que será remarcado)

+ MARCIANO

META-ARTE: Leia críticas, poemas, contos e outros textos do professor e escritor Marciano Lopes no blog Meta-Arte:

marcianolopes.blogspot.com.br

*Matéria publicada sábado no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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Estrelinha de Jesus Cristo

O telefone toca de madrugada. A notícia ruim que vem em meio à escuridão de um quarto cheio de fantasmas. A voz é firme e parece de gente que tem o dever de anunciar a morte. A morte anunciada. A vida que pode se transformar na crônica de uma morte anunciada. Os bons morrem jovens, é o que diz a música, ou o ditado, ou sei lá o quê. Tenho minhas dúvidas. Os bons morrem a toda hora. Todo mundo morre a todo instante. A morte que resulta em lágrimas, nostalgia, saudade daquilo que ainda nem foi vivido, corpo judiado pelo impacto, alma que se esvai, corpo que fica, debaixo da terra.

Além de todas as lembranças com aquele que morreu, o barulho do caixão sendo arrastado no chão e os punhados de terra arremessados para dentro da cova costumam ficar guardados na memória para sempre. O beijo da filha no corpo que se despede, a mesma criança que acredita que o pai se tornou uma estrelinha de Jesus Cristo, também é uma imagem marcante. Os seres humanos, incapazes de lidar friamente com despedidas eternas, costumam ficar marcados com os cercamentos da morte e de todos seus rituais.

É como um filme de terror, só que de verdade. As imagens, em flashes de pensamentos turvos, são intermitentes na cabeça. A imaginação do inimaginável. A colisão violenta, vida que se vai como um sopro, metais retorcidos, vidros quebrados, roupas rasgadas e ensanguentadas, ossos quebrando, peles gastando e uma dor incalculável para quem não morreu e que agora precisa velar e enterrar um corpo maltratado pela insanidade resultante dos mais absurdos dos acontecimentos: um trágico acidente de trânsito.

Ninguém nasceu para morrer em um acidente. Carros e motos são armas de destruição em massa na guerra violenta do trânsito em rodovias, estradas, ruas e avenidas. Ninguém nasceu para viver tão pouco. Ninguém merece as complicações psicológicas acontecidas depois da morte trágica do filho, do pai, do amigo. Olha o que fizeram com o menino! Olha como deixaram o menino! Para quê, meu Deus, tamanha violência com aquele que ainda tinha a existência?

Fizeram a barba dele para o velório. Colocaram uma camisa listrada bonita. E ele descansa deitado, confortavelmente em meio às flores, em meio aos entes queridos. Nunca mais vamos saber da existência dele, pelo menos não aqui na Terra. Ele não comemorou o Natal. Não vai brindar na virada de ano. Fazia um vento estranho somente na rua da capela mortuária. Na manhã do enterro, um dia exageradamente claro, fez sol e calor. Rosas foram jogadas. O caixão foi enterrado. Todos deram as costas e se dirigiram rumo ao grande portão do cemitério. Quem não morreu ainda precisa continuar vivendo. Os anos vão se passar e só em datas especiais algumas pessoas vão retornar ao cemitério para ver o jazigo. Isso pouco importa. Para ela (o seu maior feito em vida), agora seu pai é uma estrelinha de Jesus Cristo. E ninguém aqui na Terra pode mudar isso.

*Crônica publicada nesta quinta-feira (27), no caderno D+, do Diário de Maringá

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Com belo texto, Chico Buarque faz homenagem a Niemeyer

Por Chico Buarque

“A casa do Oscar era o sonho da família. Havia um terreno para os lados da Iguatemi, havia o anteprojeto, presente do próprio, havia a promessa de que um belo dia iríamos morar na casa do Oscar. Cresci cheio de impaciência porque meu pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava dinheiro para construir a casa do Oscar.

Mais tarde, em um aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o terreno da Iguatemi. Desse modo a casa do Oscar, antes de existir, foi demolida. Ou ficou intacta, suspensa no ar, como a casa no beco de Manuel Bandeira.

Senti-me traído, tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o braço contra minha mãe e saí batendo a porta da nossa casa velha e normanda: só volto para casa quando for a casa do Oscar!

Pois bem, internaram-me em um ginásio em Cataguases, projeto do Oscar. Vivi seis meses naquele casarão do Oscar, achei pouco, decidi-me a ser Oscar eu mesmo.

Regressei a São Paulo, estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o pior aluno da classe. Mas ao professor de topografia, que me reprovou no exame oral, respondi calado: lá em casa tenho um canudo com a casa do Oscar.

Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim. Quando minha música sai boa, penso que parece música do Tom Jobim. Música do Tom, na minha cabeça, é casa do Oscar”. – texto de Chico Buarque, em homenagem ao arquiteto Oscar Niemeyer.

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Quis não ficar triste nesse Dia dos Pais *

Ontem, domingo, Dia dos Pais, como não fazia há muito tempo, trabalhei. Em uma época amarga da minha vida, tinha de trabalhar quase todos os sábados e domingos fazendo atendimento por telefone para o corpo técnico de uma operadora de telefonia.

Foram naqueles dias, quando tinha de trabalhar no domingo, voltar para a casa e ficar sozinho esperando a segunda-feira chegar, sem crédito no celular, sem telefone fixo, sem internet e sem companhia, extremamente só em um apartamento sujo, com um carpete mais que sujo, que, exatamente em uma noite de domingo, meio fria, meio quente, olhei para uma estrela e quis acreditar que, conversando com ela, poderia perfeitamente traçar uma comunicação com o meu velho e distante pai.

Acho que foi em 2006. O velho ainda não tinha morrido, mas era como se estivesse morto, já que ele, perdido nas noites sujas da grande São Paulo, quase não dava notícias suas. E como eu queria, naquela noite de domingo, dizer para o meu pai que eu odiava ficar sozinho enquanto passava o Fantástico na TV. Como eu queria convidá-lo para irmos a um bar qualquer e, como nos velhos tempos, ele pedir uma cerveja e eu, uma coca-coca bem gelada e um Suflair para mais tarde. Como eu queria vê-lo abrir a porta da sala, ir para a cozinha, cortar fatias de salame, jogar um limãozinho em cima e dizer assim: “come Jr., que tá gostoso”.

Neste último Dia dos Pais, neste último domingo, quando finalmente voltei a trabalhar em um domingo, quase não me lembrei do velho. Estava feliz por estar aprendendo coisas novas, um tipo de trabalho novo. Neste domingo, indo para o trabalho, percebi que estava quente, clima agradável, sol amigo, crianças brincando no parque, pais e filhos andando juntos, atletas jogando bola na quadra e uma Avenida Brasil absolutamente vazia.

Neste domingo, indo para o trabalho, vendo os filhos de Maringá comemorando a data festiva com os pais de Maringá, não fiquei triste, pelo menos não quis ficar triste. É que, justamente por estar trabalhando, pensei que, talvez, da onde estivesse, meu pai devia estar orgulhoso de mim, um cara indo indo trabalhar em pleno horário de jogo de domingo.

Quis não ficar triste no último Dia dos Pais porque sei que, mesmo aquelas pessoas que sempre destacaram os defeitos do meu velho, mesmo seus inimigos ou aqueles que acabaram sofrendo com algumas atitudes dele, absolutamente todos sempre disseram que uma de suas maiores virtudes era a sua plena disposição para o trabalho – podia ser sábado, domingo, feriado, na semana, qualquer dia que fosse, se tivesse trabalho, meu pai trabalhava, e isso ele fez dos 11 ou 12 anos até os 49, quando veio a falecer, curiosamente no Dia do Trabalho, em primeiro de maio de 2007.

Por isso mesmo, quis não ficar triste no Dia dos Pais, em que passei trabalhando e tentando, pelo menos nesse aspecto, seguir os passos do meu velho, sempre trabalhando. Afinal, é isso o que me resta: trabalhar e, graças a Deus, trabalhar com aquilo que realmente gosto de fazer, que é escrever. E, vez ou outra, também olhar para a estrela e tentar conversar com as pessoas que eu amo tanto, mas que insistem em viver a anos-luz de distância de mim.

*Crônica publicada dia 9 de agosto de 2010.

**E estou cá no trabalho em mais um domingo, em mais um Dia dos Pais, graças a Deus.

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Lamentações dos dois irmãos no dia de Páscoa

Conversavam como velhos amigos embora fossem irmãos, tão velhos como as feridas de suas pernas, que não os deixam em paz. Coçam, chamam a atenção e pedem até mesmo para que eles às vezes manquem. O sentido da Páscoa não foi tema recorrente, pareciam que viviam naquelas poucas horas de uma tarde abafada de domingo entre o céu e a terra, quase que crucificados pelo tédio da vida. E pelas coceiras das pernas.

Ninguém se lembrou de Jesus Cristo em um raio de 500 quilômetros da onde os dois estavam. Mas, de repente, talvez pela força da mídia, talvez pela embriaguez de tanto chocolate derretido e Kaiser quente, os que se foram, e não ressuscitaram como Ele, invadiram o pensamento dos dois.

E aquilo tudo era uma injustiça das mais sujas possíveis: dois velhos com feridas nas pernas sozinhos porque os queridos já se foram e eles simplesmente não tinham coragem de apontar uma arma para a testa. Nem arma e nem força nos dedos tinham para puxar o gatilho também.

Ao final da tarde, quando finalmente uma chuva de se criar fungos nos pés refrescou um pouco aquele fim de tarde de um domingo deprimente de Páscoa, o telefone verde, antigo e pouco usado da sala tocou: eram notícias ruins de São Paulo. Mas isso eles já sabiam quando ouviram o som produzido pelo maldito telefone, que só tocava quando do outro da linha alguém com a voz baixa e encabulada iria anunciar mais uma morte anunciada.

Paulo morreu exatamente ao meio-dia daquele domingo de Páscoa, talvez no exato momento em que um dos seus irmãos velhos coçava algumas das feridas nas pernas debaixo de um teto de amianto quente e nada convidativo. E mais uma vez um ente querido iria embora do mundo e não ressuscitaria.

Graças a Deus, o sono veio rápido  e os velhos morreram algumas horas também, só que ainda podendo sonhar ou ter pesadelos. O início da manhã daquela segunda-feira só não foi mais triste e totalmente pesado porque os irmãos pelo menos ainda tinham um ao outro. E a vida continuava: um coava o café e o outro dava ração para o vira-lata. Mas precisavam ser rápidos: o ônibus para São Paulo sairia às 10h da rodoviária daquele lugarejo onde, em milhares de anos, os dois tinham a certeza de que poucos deixariam de pensar no feriado e no chocolate no dia de Páscoa e que nenhum dos seus entes queridos poderia renascer depois da morte.

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O sol é que salva*

O silêncio da madrugada é uma companhia ingrata. Ele abre a janela para deixar que o vento frio do outono lhe dê tapas em sua cara. É uma forma de se sentir menos sozinho. Do alto, ele pode ver muita coisa, mesmo estando tão para baixo. Está no quinto andar de um prédio pintado de verde e cinza. Às 4h da manhã, todos dormem e, por isso, ninguém vai reclamar das cinzas de um cigarro que flutuam no ar.

Um homem solitário sorri quando ouve a descarga de um apartamento vizinho. O céu está negro. Nem as estrelas te acompanham nesta jornada solitária pela madrugada. É inevitável: ele acaba se lembrando do pai morto, mesmo com a distância das estrelas mortas. O jeito é olhar para o infinito e concluir que pensar no futuro não é algo que lhe fará sorrir.

Ele ouve um blues e torce para que, nesta vida, não lhe reste apenas um tango argentino. Frio. Solidão. Tristeza. Depressão. Simples palavras que, justamente pela simplicidade, não conseguem traduzir o que é olhar para os lados e ver somente a branquidão das paredes frias. A televisão está no mudo. A partida de futebol reprisada fica mais bela quando quieta. Um time italiano de que tanto gosta vem perdendo mais uma partida. Perdas. E os danos.

Perdemos, a cada dia, um dia de vida. A morte se aproxima. E os vícios fazem com que nos aproximemos ainda mais dela. Mas está tudo bem, está tudo certo. A sociedade capitalista e consumista nos conforta com o poder de compra. A lata de cerveja é barata e o maço de cigarro que se esvai é algo que as notas de dinheiro contidas dentro de sua carteira podem pagar.

Uma ponta de esperança invade o ser daquele homem justamente quando as badaladas de uma igreja localizada há mais de cinquenta quilômetros de distância batem. Se tem alguém acordado naquela pequena cidadezinha às 4h da manhã deve ter ouvido as quatro badaladas. Ele não ouviu, mas, justamente neste horário, quando deveria estar dormindo há algumas horas, um fio de esperança bateu em seu peito e mandou deixar recado. Ligeira, a esperança disse: “volto logo”.

Ele olha um prédio que, há alguns meses, não existia. A construção em Maringá acontece com a rapidez da velocidade da luz. Se aquele prédio foi erguido em tão pouco tempo, pensa, a arquitetura do seu crescimento pode também ser projetado. O problema é que quanto mais perto do céu, no quinto ou no vigésimo andar, ele se sente cada vez mais distante da vida. Aquele prédio luxuoso tapou sua visão, escondeu a estrela distante e deixou, mais do que nunca, suas estrelas apagadas e seus mortos saudosos ainda mais longínquos.

É hora de fechar a janela, interromper os tapas dos ventos outonais e se entregar à quietude de uma insônia pré-fabricada. E não vai ter livro, fone de ouvido ou cobertor que possam amenizar a dor de um homem que sobrevive na madrugada sem carinho, sem mulher, sem mãe, sem irmã, sem amiga, sem luz que não seja artificial, sem a estrela morta que outrora brilhava a lembrança dos seus mortos. Ele está no quinto andar, sozinho e totalmente entregue a uma tristeza incalculável. Ele olha para baixo, mas decide não se jogar porque sabe que, em menos de três horas, o sol vai aparecer, vai aquecê-lo e transformar toda aquela quietude fantasmagórica da madrugada em mais um dia de labuta.

*Conto publicado dia 24 de maio de 2011 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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