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Temporada triste de Helio Flanders

Hélio Flanders: álbum solo mostra força do líder da banda Vanguart

Helio Flanders: álbum solo mostra força do líder da banda Vanguart

Por Wilame Prado

Helio Flanders marcou 2015. Em um dos melhores trabalhos musicais lançados este ano no País, com o álbum “Uma Temporada Fora de Mim” ele apresenta pela primeira vez um trabalho solo, longe dos meninos e das meninas da boa banda cuiabana radicada em SP Vanguart.

Algumas vezes é preciso se desnudar para mostrar quem realmente é. Flanders parece estar completamente nu nas nove canções de “Uma Temporada Fora de Mim”. Sonoridade e letras do disco, intimista, permitem algumas revelações, dentre as quais pelo menos uma envolvendo o seu passado como frontman da banda de rock: a parte mais sensível e poética da Vanguart é mesmo gestada pelo jovem músico.

Flanders produziu o disco ao lado de Arthur de Faria (que também tocou piano na faixa “Cuyaba Tango”). No estúdio, mais que cantar tocou piano, trompete, violão e acordeon. E contou com o entrosamento de bons músicos: Bruno Serroni (violoncelo), Ignacio Varchausky (contrabaixo), Leo Mattos (bateria e percussão) e Martín Sued (bandoneon).

É importante destacar: no disco solo – sem uma música alegre sequer – ele demonstrou uma evolução sonora na voz. Em sua trajetória com a banda, ao longo dos anos ele se mostrou muitas vezes displicente, principalmente quando canta ao vivo.

Claro, há sim toda a licença poética e o lado cênico característico que o músico emplaca em suas apresentações, mas há que se ter mais zelo na cantoria, há que se deixar para trás a adolescência de um Vanguart que, nos becos alternativos, em idos de 2007, fez muita gente se esgoelar por aí cantando e gritando que acreditava no semáforo e no avião.

Alguns dizem que ele parece um bêbado desafinado cantando. Mas a verdade é que ele acaba exagerando nos falsetes, muitas vezes vexatórios.

Isso tudo parece fazer parte do passado.

Se ele viveu mesmo uma temporada em off, como cantado na faixa de abertura homônima ao disco, isso tudo fez muito bem. Exemplo disso é a canção “Dentro do Tempo que Eu Sou”, que talvez seja uma das coisas mais emocionantes para se escutar no Brasil neste 2015. Ao lado da ótima e tocante cantora Cida Moreira, Flanders ressuscita toda aquela tristeza necessária cantada por Antônio Marcos (das imperdíveis “Gaivotas” e “Como Vai Você”) no século passado.

Na faixa, os dois cantam sobre o desconforto de quem está sozinho nesta vida, mas com saudades de alguém. E então tudo fica deslocado. E, pela janela do automóvel, a gente olha para os lugares e sente nostalgia do que nem sequer viveu, parecendo já ter vivido ali.

Mas há esperança: se o velho lugar é ao lado dela ou dele, Flanders acertou num refrão de arrepiar: “Nada vai durar para sempre/eu tenho pressa em te ver/Nada vai durar pra sempre/Mas talvez eu e você/Ainda há tempo/Nós temos tempo”.

Em “Uma Temporada Fora de Mim”, tudo soa muito triste, mas amplamente acertado. É triste o piano em “Romeo” (composta por Thiago Pethit e Flanders), em letra cerebral, com um achado destes: “Baby, quando eu te vi eu não soube dizer/Se queria matar ou se queria meter.”

É triste também a milonga de “Cuyaba Tango”, com o choro do acordeon. E é triste, muito triste, a história que ele conta na canção “Um Grito”: um homem ouviu um grito de “amor!” em sua direção, mas depois percebeu que, ao lado dele, estava ali um outro rapaz, supostamente namorado da moça, situação que o fez lembrar do jeito que uma pessoa do passado o chamava.

No final da canção, o sufoco: “hoje a vida é olhar a janela e esperar”. Para quem se identificou com “Uma Temporada Fora de Mim”, a vida é sim olhar pela janela e esperar, mas pelo menos ouvindo Helio Flanders tocar e cantar.

*Texto publicado no caderno Cultura do Diário em 14 de outubro de 2015

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Elza Soares canta, até no fim do mundo

Elza Soares em show no Psicodália 2016: histórico

Elza Soares em show no Psicodália 2016: histórico

Por Wilame Prado

Elza Soares foi ao fim do mundo e voltou com um de seus melhores trabalhos em seis décadas de carreira e quase oitenta de vida. “A Mulher do Fim do Mundo” é um grito rouco e sensual da voz feminina mais marcante da música brasileira ainda na ativa.

Pelo projeto Natura Musical, o disco novo de Elza é composto somente por músicas inéditas, todas compostas especialmente para a sua voz marcante. O seu 34º álbum foi idealizado e montado pelo produtor e baterista Guilherme Kastrup.

Ao lado dele, um time de primeira e que, cada um a seu modo, tem marcado a música contemporânea brasileira: Kiko Dinucci (guitarra), Marcelo Cabral (baixo), Rodrigo Campos (guitarra), Felipe Roseno (percussão), Celso Sim (direção artística) e Romulo Fróes (direção artística), nomes conhecidos na cena paulista.

“A Mulher do Fim do Mundo” tem onze faixas. É difícil defini-lo. Samba? MPB? Samba rock? A diversidade de gêneros chama a atenção. Pronta para o que der e vier, Elza vai de samba, rock, rap e eletrônico, no mínimo.

Ao lado da sua voz, que já é uma distorção perfeita por natureza, o trabalho conta com arranjos arrojados e ousados, com ruídos que nos lembram e muito também as marcas dos vários músicos envolvidos no projeto. É ouvir Elza e recordar de Passo Torto e principalmente dos “barulhos feios” que Fróes vem fazendo em sua meia dúzia de álbuns já lançados. A diferença é que essa beleza de música vem acompanhada do melhor brinde de todos: a voz forte daquela mulher.

É preciso sempre deixar Elza Soares cantar, deixá-la ir ao fim do mundo e soltar aquela rouquidão toda mais vezes. Os grandes artistas brasileiros envelhecem e muitos, infelizmente, vão sumindo, sumindo, resumindo-se, ao fim, em apenas uma citação no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

Os meninos liderados por Kastrup não deixaram isso acontecer com Elza, que já não demonstra a mesma agilidade, por exemplo, em grandes entrevistas, como a concedida recentemente no Jô Soares. Ao contrário do que ocorre nos estúdios: bem assessorado e muito bem planejado, “A Mulher do Fim do Mundo” proporciona à cantora carioca a dignidade que ela sempre mereceu.

Graças a esse belo e tocante registro, ninguém cala mais Elza Soares. Ela pede e o Brasil atende: deixemos ela cantar, para sempre.

*Texto publicado no caderno Cultura no dia 20 de outubro de 2015

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Filó Machado canta no Femucic

Filó Machado apresenta a sua canção "A Índia e o Atirador de Facas"

Filó Machado apresenta a sua canção “A Índia e o Atirador de Facas”

Por Wilame Prado

Músicos do Recife, Goiânia, Curitiba, Aracaju, Londrina, São Paulo e Maceió se apresentam na noite deste sábado (6), a partir das 20h30, no Teatro Calil Haddad, pela última noite do 37º Festival de Música Cidade Canção (Femucic), realizado pelo Sesc em parceria com a Prefeitura de Maringá e RPC. A entrada é franca.

Um dos selecionados é o experiente cantor, compositor, multi-instrumentista e arranjador Filó Machado, de SP. Nesta noite, o músico com mais de 50 anos de experiência apresenta a canção “A Índia e o Atirador de Facas”. Filó está por aqui desde quarta, quando ministrou um workshop de improvisação. Ele tem onze CDs gravados, uma indicação ao Grammy Latin Jazz e recebeu o título de “mestre da música”.

Outra atração imperdível da noite é a participação da cantora e compositora Kátia Teixeira, também de SP. Ela, que no ano passado fez bonito cantando “Maria Estrela e Geraes” (de Chico Branco e Amauri Falabella), este ano mostra ao público a canção “Pega-Pega”, de sua autoria.

Set list da noite

1.Sertão Ibérico – Cavalgada (Recife/PE)
2. Chico Aafa – Setembro (Goiania/GO)
3. Viola Quebrada – Viola de palha (Curitiba/PR)
4. Viola Quebrada – Meus retalhos (Curitiba/PR)
5. Duo Ricardo Vieira e João Liberato – Eçaúna de mel (Aracaju/SE)
6. Duo Ricardo Vieira e João Liberato – Livre prá chorar (Aracaju/SE)
7. Fabio Brinholi e a Entropia – Jaboticaba (Londrina/PR)
8. Fabio Brinholi e a Entropia – O medo (Londrina/PR)
9. Kátya Teixeira – Pega-pega (São Paulo/SP)
10. Ell Gênio Duo – Canoa grande (Recife/PE)
11. Filó Machado – A índia e o atirador de facas (São Paulo/SP)
12. João Pereira Lima – Coisas difíceis (Maceió/AL)

DE GRAÇA
37º FEMUCIC
Última noite do festival
Quando: hoje, às 20h30
Onde: Teatro Calil Haddad
Entrada franca
*Retire ingressos até 20h na bilheteria do teatro

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O brilho e a simpatia de Aline Luz

Aline Luz: violão é companheiro desde os 12 anos de idade

Aline Luz: violão é companheiro desde os 12 anos de idade

Por Wilame Prado

A cidade terá a chance de ver brilhar pela primeira vez uma nova compositora maringaense a partir das 21 horas deste sábado (30), quando Aline Luz, 26 anos, subirá ao palco do Teatro Barracão para fazer o seu primeiro show. Todo mundo da plateia terá em mãos o primeiro CD dela “Aline Luz”, contendo doze faixas de canções simpáticas, que mesclam pop rock, folk, MPB e uma voz doce, como a própria cantora. Show e disco são de graça.

Contemplada na categoria Artistas Iniciantes do Prêmio Aniceto Matti, Aline tem cinco datas de shows confirmadas em Maringá e a tiragem de mil cópias do álbum, que será distribuído para cada um que for aos shows. Além de sábado, ela cantará no Barracão no domingo, no mesmo horário. Em junho, apresenta-se nos dias 6 no Teatro de Oficina da UEM e 13 e 14, retornando ao Barracão.

Aline deu entrevista quinta-feira, no térreo do Teatro Calil Haddad. Ao seu lado, o inseparável violão, que começou a tocar aos 12, meio que a contragosto da mãe, pianista que sugeria às filhas (Aline tem uma irmã gêmea que também toca e canta)um bom curso de piano. Fez as duas coisas, e ainda participou de grupos de corais. O tempo passou. Todos sempre elogiaram o timbre e a facilidade com que Aline tem quando coloca as mãos nas seis cordas de aço de um violão.

Nos churrascos, não tinha tempo para sequer tomar água, quiçá uma cervejinha. Todos queriam vê-la cantar o cancioneiro consagrado do pop rock anos 1980 e 90, Kid Abelha, Skank, Titãs, Pato Fu e por aí vai. As ambições profissionais nunca a distanciaram da música: hoje, formada em Psicologia na UEM e residente no Observatório Social, os churrascos e as cantorias continuam, até mesmo onde mora,numa república na Zona 7, onde divide apartamento com duas amigas.

Mas algo mudou na vida de Aline há aproximadamente oito anos. Uma tragédia pessoal fez com que ela ultrapassasse a barreira que separa a interpretação da composição. Mais precisamente em 17 de julho de 2007, ela viu na lista das vítimas do fatídico acidente com uma aeronave da TAM, em São Paulo, o nome de sua tia, incentivadora do seu talento, e, curiosamente, dona daquele primeiro violão com que teve contato e que possibilitou a entrada da música em sua vida. Aline precisava compor para pelo menos tentar expulsar a a dor.

“Queria saber fazer um samba pra você/Mas meu coração só quer saber de blues”, são os versos iniciais da canção “Samba Blues”, primeira composição e que foi dedicada à memória da tia. “Não imaginava que levaria em frente a música. Estava na faculdade, recebi a notícia do acidente de avião. Compus pela primeira vez demonstrando ali a minha tristeza e a minha incapacidade de fazer qualquer coisa em meio ao luto. Minha tia era minha mãe também. Três dias antes do acidente, estávamos todos juntos de férias, em Foz. Não dava pra acreditar”.

Apreciadora da poesia, Aline conta que, antes, tentava cometer alguns poemas. E nada mais. A composição veio como luz, sem trocadilhos. Não parou mais. E hoje, ao apresentar o seu primeiro disco, percebe-se uma artista ainda em evolução, mas com duas joias raras em mãos: uma bonita voz, que se assemelha a vozes femininas da moda (Malu Magalhães, Uyara Torrente, Tiê, Clarice Falcão), e uma interessante maturidade nas letras.

Graça e leveza
À primeira vista, pode-se pensar que Aline Luz faz música romântica. Não é bem por aí. Há história de amor sim, mas há leveza e graça. Em “Cicatriz”, primeira faixa do CD e vencedora na categoria Aclamação Popular no 5º Festival Nacional Acorde Universitário, ela fala de um certo João que a deixa “sem chão” enquanto um tal Rafael a deixa só com seu “véu”.

Ela é também “família” na hora de compor. Além da canção dedicada à tia, o avô ganhou música também. A circense “Palhaço Mudo” – outra música premiada em festival – é homenagem ao avô, que a ensinou a ver filmes do Chaplin. “Hoje sou meio cinéfila graças a ele”, diz Aline, que, recentemente, compôs uma música inspirada pelo filme “Selma”, produção indicada ao Oscar e que narra a trajetória do pastor protestante e ativista social Martin Luther King. Percebe-se aqui também o lado social da psicóloga Aline Luz. O trabalho também é inspiração musical, diz ela. “Na música ‘Estação’, falo da alienação do trabalho. ‘Cantiga Urbana’ é a história de um menino de rua.”

Ainda trabalhando sua timidez, ela revela que o palco não a amedronta, mas se trata de experiência nova para quem nunca fez questão de tocar na noite maringaense. Para controlar as provações em meio ao público, as forças de Aline vêm do esporte. “Este ano quero ver se tiro minha faixa preta no karatê. Já joguei futsal, basquete e nadei. A competição esportiva ajuda a aprender lidar com a plateia”, diz.

Hoje, no Barracão, ao lado da banda formada especialmente para o projeto (Ronaldo Gravino no teclado e violão, Walter Batera na bateria, Luciano Blues nos solos de guitarra e na gaita, Ribeiro no contrabaixo e Luane Pedroso na percussão), Aline Luz pegará em seu violão e talvez se lembrará de muita coisa vivida desde que escreveu a sua primeira canção. Nada em vão, a estrada só está começando para uma jovem que já começa a ficar atenta aos editais do Convite à Música e da Virada Cultural. “Quero que a minha música tenha o poder de inspirar as pessoas e que as faça refletir, como qualquer tipo de arte.”

*Reportagem publicada sexta-feira (29) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Causos do cantador Boldrin

Rolando Boldrin, em momento do show "Causos & Canto": ingressos esgotados em Maringá

Rolando Boldrin, em momento do show “Causos & Canto”: ingressos esgotados em Maringá

Por Wilame Prado

A vinda de Rolando Boldrin a Maringá para a apresentação do show “Causos & Canto” (ingressos esgotados), às 21 horas de amanhã, no Teatro Calil Haddad, destoa da maioria dos shows ditos sertanejos e tão em voga na cidade. O Sr. Brasil despreza esse suposto estilo musical. Informado sobre a contabilidade de mais de 300 duplas sertanejas por essas redondezas, ele prontamente interrompe a pergunta e clama: “Vamos falar de Brasil”.

“Eu não trabalho com esse tipo de produto, meu trabalho é brasileiro. Além do que, se trata de um título mentiroso: sertanejo, pra começar, é música nordestina, portanto essa nomenclatura está errada. Eu não gosto desse tipo de trabalho, ele sofre muita influência do country norte-americano, e eu trabalho com Brasil. É uma pena que o Paraná esteja infestado de música sertaneja, não considero isso como um produto nacional, respeito os intérpretes e os grandes cantores, mas não me agrada nenhum pouco o ritmo, a temática e o visual”, diz, ao telefone, Boldrin, 78 anos, ator, contador de “causos”, músico, compositor e apresentador de televisão.

Para o show de amanhã, como faz há vários anos percorrendo em várias regiões do País, ele vem só. As histórias que coleciona desde menino, em São Joaquim da Barra, interior de São Paulo, o acompanham, falam por si. “Como digo na canção: sou eu, a viola e Deus. Para o show de amanhã, vou só, mas com Deus e com um violão. Chego para contar e cantar causos, para cantar o Brasil. E fico muito contente de saber que há um público grande no Paraná, é gostoso saber que sou reconhecido por meu trabalho. Venho cantando esse meu País há muito tempo, e essa é a nossa recompensa”, diz.

Sobre a preferência por cantar ou contar, Boldrin esclarece: não se considera um cantor e sim um cantador. Tem diferença. “Cantor é Cauby Peixoto. Eu sou um ator que canta. Eu faço com muito carinho, mas não sou cantor, sou cantador, um ator que canta. Cantar é também um ato de representar. Sou um cantador.”

Não será a primeira vez do artista na cidade. Entre idas e vindas, ele se recorda de um festival do qual participou em Maringá nos anos 1960 e de um detalhe que o tocou intensamente. “De Maringá, não tenho nenhum causo para contar, infelizmente. Mas me referencio sempre à cidade com a música de mesmo nome (de Joubert de Carvalho). Lembro-me, inclusive, de um show em um clube na cidade, acho que em 1967, em que fiquei profundamente tocado quando o Poly – um artista que já foi embora deste plano – pegou a sua guitarra havaiana (novidade, à época) e tocou ‘Maringá’. Foi uma comoção geral.”

Não é só samba
Em meio à entrevista, concedida pelo telefone fixo, Boldrin precisava de pausas a todo o momento. Era o telefone celular tocando. Para poder vir a Maringá, conta ele, antecipara gravações do programa “Sr. Brasil”, que está comemorando dez anos de TV Cultura. “Vim da Globo e estamos prestes a fazer um especial sobre os dez anos de TV Cultura. É lá que eu realizo meu sonho, o sonho de mostrar a nossa brasilidade através da música. No começo, queria provar que o Brasil não era só samba, futebol e mulata. Achava injusto com outros ritmos, com as coisas de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Caymmi, João do Vale, Chico Maranhão, Dércio Marques”, conta.

Sobre o programa, explica como hoje consegue encontrar tanta coisa boa para ser mostrada e apreciada. “Minha equipe é pequena, trabalho praticamente sozinho nessa busca pela brasilidade, mas é que venho de um trabalho antigo. E se no começo procurava principalmente os amigos da música, hoje recebo material do País todo, assim como ocorreu, por exemplo, com Almir Sater, Quinteto Violado, Caju e Castanha, todo esse tipo de trabalho começou a vir naturalmente.”

‘Credita’ no Brasil
O trocadilho é conhecido: Rolando Boldrin, assim como no mote de uma campanha publicitária protagonizada por ele em 1989 para um grande banco, continua “creditando” no Brasil e no brasileiro. Sobre os políticos, como o caboclo diz, ele se diz “desacorçoado”. “Nos políticos, continuo desacreditando, nem mexo muito com política, não. Acredito fazer minha parte com meu trabalho artístico. Não dá para se ter ânimo e nem enaltecer político, a corrupção está generalizada.”

Boldrin, por fim, mostra-se um otimista. “O brasileiro é bom, a índole do brasileiro é muito boa, é um povo maravilhoso. Para representá-lo, cito sempre Érico Verissimo: ‘E vendo e ouvindo este campeiro tão íntimo da terra e da vida tão iluminado pela sabedoria do coração, você compreenderá que o homem brasileiro é milagrosamente um só de Norte a Sul de Leste a Oeste, a despeito de suas distâncias geográficas, um só no que possui de essencial: a cordialidade, o horror à violência, a capacidade de dar-se e também de rir da vida dos outros e de si mesmo.'”

Esgotados
O cantador, que lotou um Guairão (Curitiba) no domingo passado, em pleno Dia das Mães, chega a Maringá de maneira gratuita graças a esforços coletivos. Sabendo do prestígio que Boldrin tem com o público daqui, como presente à cidade no mês de seu aniversário, a Ben-Hur Produções Artísticas e o Instituto Cultural Ingá (ICI) viabilizaram o show “Causos & Canto” com recursos do Ministério da Cultura (MinC), via isenção fiscal das empresas Fertipar e Ferrari & Zagatto, com mecanismos da Lei Rouanet.

Além da cidade, Boldrin ainda percorrerá com seu show neste mês as cidades de Londrina, Toledo e Ponta Grossa. Para o show de amanhã no Calil, o empresário e artista Ben-Hur Prado lamenta o fato de não haver mais ingressos para algum dos mais de 750 lugares que o teatro dispõe. Mas dá uma dica para quem não quer perder de jeito nenhum os causos e a cantoria de Boldrin: “Mesmo sem ingressos, dê uma passada no Calil meia hora antes de começar o show. Após o terceiro sinal, se houver lugares vagos no teatro, vamos liberar para quem está esperando lá fora.”

*Reportagem publicada nesta sexta-feira (15) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

 

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Femucic, agora também pelo YouTube

Apresentação no Femucic do ano passado, no Calil: este ano, em duas noites, serão 25 músicas (Foto de Ademilson Cardoso)

Apresentação no Femucic do ano passado, no Calil: este ano, em duas noites, serão 25 músicas (Foto de Ademilson Cardoso)

Por Wilame Prado

O 37º Festival de Música Cidade Canção (Femucic), marcado para as noites do dia 5 e 6 de junho, no Teatro Calil Haddad, será diferente de todos os outros. Uma das principais novidades será a possibilidade de assistir, ao vivo, o festival em streaming (ao vivo) por meio de link a ser aberto no YouTube.

As novas estratégias envolvendo a próxima edição do festival mais tradicional da cidade foram reveladas pelo gerente executivo do Sesc Maringá, Antônio Vieira, e por Érico Bondezan, técnico de atividades do setor de Música do Sesc. Em visita ao Diário, eles deram entrevista e contaram as novidades.

De acordo com Vieira, uma série de mudanças ocorre a partir deste ano no Femucic. A intenção, afirma ele, é fazer com que a comunidade maringaense se reaproxime do festival. “Em pouco tempo, o festival alcançou um nível de excelência e estrutura suficientes para ser considerado um festival nacional de música. Mas creio que, nesse processo, ele acabou se afastando da própria cidade. E isso não pode ocorrer: o Femucic é um festival genuinamente maringaense”, diz.

Com a aposta da transmissão ao vivo, os organizadores almejam que um número maior de pessoas, de todos os lugares – logo na hora do festival, ou depois – conheçam o festival e os compositores participantes. Portanto, este ano não serão feitas gravações de DVDs e CDs, que, em edições anteriores, eram distribuídos gratuitamente.

O Femucic mais moderninho, no entanto, não deverá afetar a participação, principalmente dos maringaenses, in loco. “Esperamos, como em outros anos, a casa cheia. Não há nada como ouvir de perto, ali no teatro, o músico executando sua obra”, considera o gerente do Sesc.

A outra novidade do festival deste ano – a redução de dias – também tende a estimular o registro de um bom público. “Encurtamos para duas noites de festival. Em vez de 52 canções selecionadas, teremos 25. Ou seja, serão canções ainda mais seletas e que serão tocadas numa sexta e num sábado, dias melhores para se sair de casa.”

Vieira comunica por fim duas outras mudanças do Femucic e que, em sua opinião, estimularão uma qualidade musical ainda maior durante as apresentações: cada intérprete apresentará a composição com grupo musical próprio e a ajuda de custo, dividida em três categorias, será mais justa, oferecendo mais recursos àqueles que moram em regiões mais distantes de Maringá.

Inscrições
Quem ainda pretende inscrever composições tem até 17 de abril para enviá-las. Até o momento (29 de março), os organizadores já haviam contabilizado mais de de 250 inscritos.

Oficinas com André Marques e João Omar
Com a proposta de reaproximar o festival dos maringaenses, os organizadores programam para este ano uma semana toda de atividades envolvendo músicos e estudantes de música locais. O técnico de atividades Érico Bondezan anuncia a vinda ao Femucic do André Marques Sexteto, liderado pelo pianista que integra a banda principal de Hermeto Pascoal, e também do violonista, violoncelista e maestro João Omar, que acompanha o pai – o grande músico baiano Elomar Figueira – desde os 9 anos de idade.

Os músicos convidados ficarão durante a semana na cidade, ministrando oficinas e também para participarem com shows na noite de estreia do Femucic, no dia 4 de junho.

ANOTE
37º FEMUCIC
Inscrições até 17 de abril
Quando: 5 e 6 de junho
Onde: Teatro Calil Haddad
Entrada franca
Informações:
sescpr.com.br/femucic/

*Reportagem publicada em 29 de março no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Plantações sonoras de Miguel Proença

Miguel Proença está em Maringá desde terça-feira: hoje o pianista encerra o projeto Piano Brasil com um recital no Calil (Foto de Dudu Leal)

Miguel Proença está em Maringá desde terça-feira: hoje o pianista encerra o projeto Piano Brasil com um recital no Calil (Foto de Dudu Leal)

Por Wilame Prado

Mais do que executar disputados recitais, o renomado pianista Miguel Proença, 76 anos, hoje tem como principal meta plantar sementes. É assim que ele metaforiza o trabalho que realiza com o projeto Piano Brasil, que teve na terça-feira, no Teatro Calil Haddad, a abertura de sua sétima edição, patrocinada pelo BNDES e Caixa Econômica Federal e que faz parte da programação da 2ª Semana Cultural de Maringá.

Por telefone, Proença revela ter ficado encantado com a cidade. “Organizada, limpa e com moradores que a amam. Quase não dá para ver o sol por causa da imensidão do verde”, diz ele, que espera colher também por aqui os bons frutos que só a música pode oferecer ao ser humano, de qualquer idade.

As crianças foram seu primeiro “alvo”. Quase 500 alunos da rede de ensino público tiveram o privilégio de receber das mãos, da voz e do piano do gaúcho radicado no Rio de Janeiro uma aula-show baseada em cartilha escrita pelo maestro Ricardo Prado e belamente ilustrada por Bruna Assis Brasil.

Na tarde de ontem, foi a vez dos estudantes e professores da área de música conhecerem o pianista e ainda participarem de uma master class, também com entrada franca.

Mas o ato principal da vinda de Proença a Maringá está marcado para hoje, às 20h30, também no Calil. É lá que ele executará recital com programa escolhido a dedo. “O programa, eu escolho as que eu toco bem; bom, pelo menos as que eu acho que faço bem. Toco aquilo que gosto, aquilo que consigo comunicar melhor com o público, aquilo que também faz me sentir melhor, com mais confiança tecnicamente e sonoramente.”

Com a proposta nacionalista do projeto – feita pelo pianista que executou toda a famosa coletânea “Piano Brasileiro” (2005), considerada pela Unesco como Patrimônio da Música Brasileira –, Proença não deixa de tocar no recital algo de Alberto Nepomuceno e Heitor Villa-Lobos. Mas diz ser um confesso apreciador dos românticos. Por isso, há também na apresentação interpretações de peças assinadas por Frédéric Chopin, além de canções de Gluck-Kempff, Debussy e Nazareth.

Com o Piano Brasil, diz ele, a intenção é pelo menos uma aproximação do que ocorre, por exemplo, na Alemanha, país onde morou por muito tempo e que a educação musical é uma realidade. “Não existe uma tradição de ensinar música clássica, de se ouvir música clássica, está tudo muito voltado para a televisão e o computador. É um alívio para os pais deixarem as crianças brincando com os tablets. Eu carrego pedra com esse projeto, mas não desisto. Sonho com o dia em que ele se oficialize, que se institucionalize, que eu possa ir para 40 e não somente para 15 cidades por ano. Mas para isso dependo do apoio político.”

Educação da alma
Tal qual Villa-Lobos – na opinião do pianista, o compositor mais importante da história da música brasileira e que percorreu Brasil afora levando a sua música durante oito anos –, Proença (com o projeto, já chegou a quase 150 municípios), quer levar música para o máximo de gente possível, sonhando com fartas colheitas musicais, que, para ele, consiste em algo aparentemente simples, mas ainda muito distante da realidade brasileira: o ensino da audição para a música de qualidade.

“Quem já gosta de música clássica, aprecia o projeto. Quem descobre a música clássica depois do projeto, tende a agradecer. Interpretação, pesquisa e imaginação sonora é educação para a alma, aprender a ouvir música é poder sentir o prazer de uma manifestação fantástica, que emociona, que transporta a outras atmosferas, que tira a pessoa dos problemas mais sérios, e não como fuga, não como o álcool ou as drogas, mas como uma forma de cultivar a sensibilidade”, reflete o pianista.

Sem roupa e sem um Steinway
O pianista Miguel Proença chegou ontem a Maringá considerando tudo muito bonito, tudo muito charmoso, mas não poupou algumas críticas por dois motivos: o extravio da mala no aeroporto – que o obrigaria a comprar roupas novas para executar as atividades durante os três dias de estada na cidade – e o mal conservado piano Essenfelder do Teatro Calil Haddad.

“Ter um enorme e bonito teatro como esse sem um bom e competente piano é como investir numa mansão sem colocar móveis dentro da casa. O piano Essenfelder, no Calil, ideal para apresentação de concertos, está bastante usado e com perda de qualidade sonora. Mas faço essa ressalva oferecendo o meu intermédio junto aos órgãos competentes caso queiram investir em um bom piano de nível internacional Steinway, vindo diretamente de Hamburgo, na Alemanha”, diz Proença, que, não sem méritos, hoje figura no “Wall of Fame” da Steinway&Sons junto aos maiores pianistas de todos os tempos.

Ironicamente , se as atividades do projeto Piano Brasil tivessem sido marcadas no Auditório Luzamor – mais acanhado, com capacidade para 400 pessoas sentadas, contra as mais de 700 do Calil -, o pianista teria ao seu dispor um legítimo piano Steinway, sempre requisitado por músicos que se apresentam na casa.

Pianos à parte, o intérprete se recorda com saudades do projeto que fez com Bibi Ferreira, os dois interpretando bons tangos, para afirmar que pianista clássico também costuma gostar de música popular, mas desde que tenha qualidade. “Gosto e toco música popular brasileira, a verdadeira, aquela feita com melodia, ritmo e inspiração dos nossos grandes compositores brasileiros. As canções eternas de Tom Jobim e das grandes vozes brasileiras. Sertanejo eu gosto também, do sertanejo bonito, vivo, aquilo que por tanto lutou a Inezita Barroso e outros nomes. Agora, o funk eu detesto. E o que é aquele Rock in Rio? Um bando de cabeludo escutando e fazendo barulho.”


RECITAL DE PIANO
COM MIGUEL PROENÇA
Quando: hoje
Onde: Teatro Calil Haddad
Horário: 20h30
Entrada franca

*Reportagem publicada quarta-feira (25) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Shopping Cidade recebe feira de vinil

Colecionadores conferem as opções de discos dos expositores na última Feira do Vinil; feira de hoje é no Shopping Cidade (Foto de Andye Iore)

Colecionadores conferem as opções de discos dos expositores na última Feira do Vinil; feira de hoje é no Shopping Cidade (Foto de Andye Iore)

Por Wilame Prado

No mês passado, durante a Sacola Alternativa – feira que reuniu 18 selos musicais independentes em São Paulo –, provou-se o seguinte fato: com a queda vertiginosa do faturamento da indústria fonográfica (de US$ 27,8 bilhões em 1999 para US$ 15 bilhões em 2013), é preciso seguir por outros caminhos. Além da proposta independente, com lançamentos de álbuns para downloads se tornando a cada dia mais comuns, o discos de vinil, que crescem em vendas nos últimos anos, também é outra saída para as bandas. Somente em 2014 foram comercializados 8,3 milhões de discos de vinil nos Estados Unidos, o que representou um aumento de 38% em relação a 2013.

As feiras que reúnem colecionadores dispostos a trocar, comprar e vender os famosos bolachões são exemplos da força que tem o vinil atualmente, e não apenas nos grandes centros. O Clube do Vinil de Maringá, um grupo do Facebook que já tem 150 membros, realiza neste sábado a quinta edição da Feira do Vinil, no Shopping Cidade, a partir das 10 horas, com entrada franca. Serão 20 expositores (de Maringá, Londrina, Cianorte e Santo Anastácio-SP) abrindo a tampa de suas caixas repletas de discos e oferecendo aos amantes da música um acervo de milhares de títulos de rock, MPB, reggae, eletrônico, rap, entre outros, além de acessórios ligados à cultura do vinil.

Para o jornalista Andye Iore, colecionador de discos e idealizador do projeto cultural Zombilly, os números demonstram um crescimento da Feira do Vinil, que já pode ser considerada regional. “Temos feito contato com colecionadores de discos da região e sempre tem gente pedindo para participar do Clube do Vinil”, diz ele. Bruno Gehring, responsável pela Vila Cultural Kinoarte, é um dos representantes londrinenses na feira. Ele chega a Maringá, ao lado de Gustavo Veiga (Na Agulha Discos) e Lucas Ricardo Silva (Lucas Discos), com cerca de 600 discos vindos diretamente de Londrina para o público maringaense.

“É a nossa primeira participação na feira do vinil em Maringá. Não sabemos ao certo o gosto do público, mas ouvimos dizer que vinis de rock têm bastante saída. Mas somos ecléticos: da minha coleção, ofereço mais groove e black music, tenho uns raros do Michael Jackson; o Gustavo mostra a sua coleção de MPB e o Lucas aposta mesmo no rock”, diz Gehring.

Já em sua quinta edição em apenas um semestre, a Feira do Clube do Vinil de Maringá também tem mexido com gente da cidade. O produtor cultural e colecionador Paulo Petrini faz a sua estreia neste sábado. “O Clube do Vinil é a criação de um espaço cultural importante na cidade. Fiquei emocionado logo na primeira feira realizada e, desde então, não parei de pensar em minha participação”, afirma.

Com as participações na feira de vinil, o empresário Robespierre Tosatti, que mantém o atuante sebo Fonte do Livro na área central de Maringá, também repensou o seu relacionamento com os LP´s. “Antes, só vendia e comprava, pensando no sebo. Depois da feira, me tornei também um colecionador. Adquiri uma vitrola usada – uma Sanyo muito boa, toda automatizada – e hoje tenho uma coleção pequena, de uns 400 discos. Aqui no sebo, tenho um espaço reservado para ouvir meus discos, os quais não coloco à venda de jeito nenhum.”

Desenhos de Agostini no vinil
A popularidade da Feira do Vinil maringaense extrapolou as fronteiras paranaenses e chegou ao Estado de São Paulo, mais precisamente a Santo Anastácio. É lá que mora o artista plástico Zeca Agostini, 52, que utiliza o spray de grafite e a tinta acrílica para criar desenhos em cima da mídia do vinil. “Fica a critério das pessoas, mas muitos enquadram ou penduram o próprio vinil na parede”, conta Agostini, que participa hoje da quinta edição da Feira do Vinil apresentando a sua arte.

Para esta edição, ele programava trazer uns 20 trabalhos, alguns pensados especialmente para a feira. “Levarei quatro discos, cada qual com o retrato pintado de cada um dos quatro integrantes dos Beatles”, exemplifica.

PARTICIPE
5ª FEIRA DO VINIL
Onde: Shopping Cidade (Avenida Tuiuti, 710)
Horário: das 10h às 18h
Participam 20 expositores para compra, venda e troca
Entrada franca

*Reportagem publicada neste sábado (14) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Flávio Apro reencontra Maringá

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Após temporada na Europa, músico volta ao País em turnê no Paraná, SP e Rio

Por Wilame Prado

A sonoridade do violão de Flávio Apro, 41, é suave, contundente, séria e aprazível. Mas raramente pode ser apreciada ao vivo, pelo menos não aqui no Brasil. O músico paulistano que se mudou para Maringá e que, atualmente – além de instrumentista e pesquisador –, é professor adjunto da UEM, vem de uma longa temporada de concertos na Europa e Estados Unidos.

Apro se reencontrou ontem com Maringá. Na Loja Maçônica, fez recital de violão, com programa baseado no álbum “O Violão Brasileiro”, vendido no local pelo preço promocional de R$ 20, graças a recursos viabilizados pela Lei Rouanet, do Ministério da Cultura (MinC). Hoje, o músico se apresenta em Mandaguari e encerra, na sexta, a turnê paranaense em Rolândia.

O violonista aproveita o retorno à cidade para lançar outros três discos (R$ 50 cada): “Doce Estudios Para Guitarra de Francisco Mignone”, “The Brazilian Guitar” e “Nocturne, Romantic Guitar Miniatures”, este último o preferido do músico.

“Pessoalmente, ‘Nocturne’ é o disco do qual mais gosto. Faço uma homenagem póstuma à professora e violonista Monina Távora, que morreu há três anos. O repertório desse disco seria trabalhado com ela, numa turnê argentina que faria. ‘Nocturne’ tem peças lentas e meditativas, um repertório sem concessões, com peças difíceis”, diz Apro, que faz o pré-lançamento de “Nocturne” em Maringá, mas terá o lançamento oficial do disco só no mês que vem, nos EUA.

O músico comemora o recital desta noite não apenas pelo fato de poder reencontrar amigos, professores e alunos de música, mas também por gostar do auditório da loja maçônica. “Esse disco (‘Nocturne’) foi gravado à luz de velas, nessa sala do templo da loja de Maringá, um dos auditórios de melhor acústica de todos os lugares que eu já toquei no mundo.”

O mais novo disco de Flávio Apro, “O Violão Brasileiro”, transita por um amplo repertório de música brasileira para violão, unindo a qualidade das obras com a sofisticação da execução do concertista internacional, premiado e considerado como sendo dono da “mais aveludada sonoridade do violão brasileiro”.

Estão reunidos no CD, autores como Ary Barroso e Sérgio Assad. Entre tantos clássicos brasileiros, o músico interpreta em “O Violão Brasileiro” “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso), “Garoto” (Alvino Argollo), “Jongo” (Paulo Bellinati), “Suite Aquarelle: Divertimento” (Sérgio Assad), “Abismo de Rosas” (Canhoto), “Porto” (Dori Caymmi), “Num Pagode em Planaltina” (Marco Pereira) e outras.

*Reportagem publicada quarta-feira (19) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Wanderléa canta na Virada Cultural

Wanderléa, feliz por voltar a cantar aqui: no show da virada, sucessos garantidos.

Wanderléa, feliz por voltar a cantar aqui: no show da virada, sucessos garantidos

Por Wilame Prado

Hoje e domingo são dias de ver bons shows musicais sem pagar nada por isso. Em via pública, acontece a Virada Cultural Paraná – promoção do Governo do Estado em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura –, que este ano traz a Maringá shows da cantora mineira radicada em São Paulo Wanderléa, do músico e compositor maranhense também radicado em SP Zeca Baleiro e ainda outras atrações locais, regionais e estaduais.

Não comparável às viradas culturais paulistanas – verdadeiras epopeias culturais com música ligada horas a fio sem parar noite, madrugada, manhã e tarde adentro – a virada paranaense este ano será, simultaneamente, em oito municípios do Estado. Em Maringá, dois palcos começaram a ser instalados quinta-feira, na Avenida Horácio Racanello e na Travessa Jorge Amado, ao lado do Mercadão Municipal.

No Palco Conexões, a atração principal de hoje sobe ao palco às 22h30. Wanderléa, a nossa eterna Ternurinha e dona de uma das vozes mais marcantes do País, retorna a Maringá após 14 anos. Em sua última passagem por aqui, em 2000, fez show em clube fechado no aniversário de 50 anos de um empresário local, data marcante para a cantora.

“Lembro até hoje do dia 17 de junho de 2000, quando um industrial chamado José Carlos dos Santos me chamou para cantar aí. Fã declarado, o que mais me chamou a atenção foram as surpresas que ele preparou para mim: tapete vermelho já no avião, banda tocando minhas canções no aeroporto e até carreata comigo em cima do carro do Corpo de Bombeiros, além dos fogos de artifício. Toda essa homenagem foi marcante porque me fez lembrar da época da Jovem Guarda, quando, em cada lugar por onde passávamos, a cidade inteira fazia uma festa”, conta Wanderléa, que, em mais de 50 anos de carreira, eternizou sucessos nacionais como “Ternura”, “Foi Assim”, “Para o Casamento” e “Prova de Fogo”.

De sua casa, no Jardim Paulista, ela concedeu entrevista por telefone, comentou sobre o que pensa das viradas culturais, disse que fará questão de rememorar os sucessos da carreira no show de amanhã e revelou algumas novidades: música em novela da Globo, autobiografia e, futuramente, um filme sobre a sua marcante história de vida.

Com ela e com a banda, conta a mãe orgulhosa, trará também a Maringá a artista plástica e compositora Jadd Flores, uma de suas duas filhas e que, por aqui, fará o backing vocal durante o show.

Wanderléa, o que pensa sobre esse formato de shows, o da Virada Cultural?
WANDERLÉA – Acho maravilhoso. É a possibilidade de trazer vários estilos e artistas para um mesmo local, sem falar da chance de estar mais próxima do grande público, pois é de graça. Enfim, uma ideia maravilhosa. Tenho feito bastante viradas por aqui em São Paulo, na capital e no interior.

Quais músicas cantará por aqui?
Foi justamente em outra virada, a de SP, em 2002, que fui convidada a reeditar em um show ao vivo o álbum “Wanderléa Maravilhosa”, de 1972, que, com a sua pegada mais pop, num momento pós-tropicália, algo totalmente diferente para a época, não foi muito bem aceito, mas que, hoje, é cultuado e considerado moderno. Esse show resultou num CD e DVD pelo Canal Brasil e compõe boa parte do repertório que levarei a Maringá. Além disso, logicamente, não faltarão os sucessos, pois sei que o público quer e sei também que não é todo dia que podemos tocar na cidade, assim como fazemos em SP, por exemplo. Eu particularmente adoro resgatar os sucessos porque tenho muito carinho por eles. Já é difícil marcar com uma música quatro anos, imagine então marcar durante 40 anos.

Embora tenha uma carreira longa, com experimentações de vários estilos, você ainda é mais conhecida pelas canções do tempo da Jovem Guarda. O que ficou musicalmente daquela época?
Uma infinidade de sucessos e que as vezes nem está no setlist, mas o público começa a cantar para mim. “Ternura”, “Para o Casamento”, “Prova de Fogo”, “É o Tempo do Amor”, “Foi Assim”, “Te amo”, “Eu Já Nem sei” etc. Fico muito feliz com isso, o show ao vivo para mim é fundamental, é para o alimento da minha alma. Na televisão, diante das câmeras, a gente sabe que está chegando nos lares, mas ao vivo é pensar que todas aquelas pessoas saíram de casa por sua causa, é uma comemoração. E sobre os sucessos, fiquei contente também porque recentemente regravei “Sentado à Beira do Caminho”, do Roberto e do Erasmo, para a novela “Alto Astral”, da Globo. Foi um convite do Silvio de Abreu e do Jorge Fernando. A música ficou maravilhosa. Penso que talvez seja a gravação mais bonita que eu já fiz em minha vida.

E o cinema? Tem feito algo? Em 1968, esteve em “Juventude e Ternura” e “Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa”.
Tenho tido convite para fazer um filme com a minha história, mas queria que o roteiro fosse baseado no livro que escrevi há dez anos. Este ano, finalmente, entreguei essa espécie de autobiografia para a Editora Record e já tenho produtora, um bom diretor e bom roteirista. Quando comecei a escrevê-lo, era terapia revisitar os fatos passados. Hoje, relendo, choro a cada capítulo. Ficou forte.

VIRADA CULTURAL
Palco Conexões – Avenida Horácio Racanello

Hoje
18h – Stone Ferrari
19h30 – Novo Trio
21h – Lemoskine
22h30 – Wanderléa
0h30 – Cadillac Dinossauros

Amanhã
17h – Grupo Celebrate Jazz Combo
18h30 – Gustavo Proença
20h – Zeca Baleiro

*Reportagem publicada sexta-feira (14) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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