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Programa Primeiro Museu está com inscrições abertas em todo o País

Lançamento do Programa Primeiro Museu em Campo Bonito, município localizado na região de Cascavel. Foto: Fortunato Fávero

Lançamento do Programa Primeiro Museu em Campo Bonito, município localizado na região de Cascavel. Foto: Fortunato Fávero

Por Wilame Prado

O Museu da Família (MF) e o Instituto Cultural Ingá (ICI) abriram nacionalmente as inscrições para o Programa Primeiro Museu, que viabiliza a implantação nas localidades interessadas de um museu comunitário de tipologia virtual e ainda um projeto cultural para implantação de um museu físico enquadrado nos instrumentos de renúncia fiscal existentes. As inscrições vão até 15 de dezembro, pelo site: www.primeiromuseu.org.br/site/inscricao.

No site, os interessados poderão preencher uma ficha de inscrição com dados básicos, contrato, ata ou estatuto social da instituição (prefeitura, associações, câmaras municipais, empresas privadas etc), comprovante de endereço e documentos pessoais. As dúvidas podem ser sanadas por telefone ou e-mail: (44) 3025-1666 e [email protected]

Há dois meses, o Programa Primeiro Museu começou a ser implantado em diversas cidades localizadas nas regiões norte, noroeste e centro-oeste do Estado do Paraná. De lá para cá, diversas famílias moradoras destes municípios – encorajadas pelas secretarias culturais e de educação – estão resgatando suas fotos e documentos pessoais importantes para alimentar as páginas de cada família e que vão ajudar a compor o museu comunitário destas localidades.

Entendendo que a carência de museus e até mesmo de dados históricos não é exclusividade apenas das pequenas cidades paranaenses, o Programa estende o serviço para qualquer município brasileiro que ainda não tenha museu e que se interesse por um. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), os municípios brasileiros com menos de dez mil habitantes, de maneira geral, continuam perdendo moradores e, consequentemente, parte de sua história.

Pertencimento
Para o geógrafo e presidente do MF, Edson Pereira, isso se deve ao suposto sonho de uma vida melhor na cidade grande, fato comprovado pelo aumento populacional em municípios com população entre 200 e 500 mil habitantes. “O Programa Primeiro Museu atua não apenas no resgate e conservação da memória local. Mais que isso, estimula o sentimento de pertencimento nos moradores, que, ao se sentirem representados na história do local onde moram, recuperam a autoestima e encontram mais sentido em continuar morando lá”, explica.

A preocupação do MF está relacionada também à ausência de museus na maioria dos pequenos e médios municípios brasileiros. No Paraná, 95% das cidades com menos de 100 mil habitantes não possuem museus ou mesmo salas de memória. O Plano Nacional Setorial de Museus (PNSM) trás como meta o estímulo à criação de um museu em cada município brasileiro até 2020, o que totalizaria a criação de mais 4.295 museus até lá.

Direito à memória
Marcelo Seixas, diretor de projetos do MF, ressalta que, conforme previsto na Constituição Federal, o direito à memória é algo que deve ser garantido pelo Estado, com a cooperação da comunidade. “Museus comunitários devem se comprometer na garantia deste direito, o que certamente age não só nessa preservação da memória, mas também na integração maior entre moradores, elevação da autoestima da população e uma necessidade automática de preservação dos bens públicos daquele local.”

Entenda
O Programa Primeiro Museu prevê a viabilização de um museu comunitário de tipologia virtual implantado; um projeto cultural para implantação de museu físico, enquadrado nos instrumentos de renúncia fiscal existentes; e a capacitação de agentes locais na gestão das unidades museológicas do projeto.

Com isso a comunidade recebe um museu virtual contendo informações textuais e fotográficas da história local, que pode inclusive ser implantado no site da prefeitura, dependendo do caso. Depois, inicia-se um processo de capacitação de pessoas que morem na cidade e que se interessem pela memória local para atuarem, sob coordenação de profissionais da museologia contratados pelo MF, na efetivação do primeiro museu físico do município.

Com a contrapartida de R$ 6.300 para custear gastos logísticos iniciais, podem participar do Programa Primeiro Museu prefeituras, câmaras municipais, associações civis sem fins lucrativos, entidades filantrópicas, instituições de ensino, clubes esportivos, igrejas e cooperativas vinculadas à comunidade a ser beneficiada.

O projeto do futuro museu físico será modelado de acordo com as exigências do Fundo Nacional de Cultura do Ministério da Cultura (MinC). Assim, a ideia é que, até 2015, o programa viabilize o primeiro museu para pelo menos 60 municípios, nos quais os recursos via Lei Rouanet podem chegar até R$ 600 mil para cada um deles.

Visite o site do Programa Primeiro Museu: primeiromuseu.org.br
E a página do Museu da Família no Face: facebook.com/museudafamilia

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‘Riocorrente’: SP (ou o mundo) em chamas

Carlos, Exu, o abismo e SP em cena de "Riocorrente": niilista e provocador

Carlos, Exu, o abismo e SP em cena de “Riocorrente”: niilista e provocador

Por Wilame Prado

São Paulo (SP), século 21. Um rio enegrecido segue lentamente o seu caminho. A imensidão traduzida em vidro, concreto e metal. Asfaltos quilométricos parecem levar para além do horizonte. Madrugada quieta. Um garoto negro avaria um veículo luxuoso estacionado na rua. Uma jam session rola solta em uma casa noturna quase vazia. Som maravilhoso. Homens solitários, devidamente armados com suas long necks em mãos, apenas escutam. Um desses sujeitos – com cara de mal –, entoja-se facilmente e sai acelerando a sua potente motocicleta pelas ruas paulistanas, até finalmente recolher o moleque solitário e descalço que, há pouco, riscara a lataria do carro preto estacionado.

É assim, como um conto bem escrito, que começa o filme “Riocorrente”. Em apenas uma hora e dezenove minutos, Paulo Sacramento, que dirigiu e escreveu o longa-metragem, traçou um retrato fidedigno da maior cidade brasileira com uma competente fotografia e tendo como enredo os encontros e desencontros de um triângulo amoroso encenado pelos atores Lee Taylor, Simone Iliescu e Roberto Audio, todos desconhecidos do cinema, porém elogiados nos palcos do teatro. Personagens todos – cada qual a seu modo – asfixiados na metrópole.

Exu (Vinicius dos Anjos) é só mais um (como tantos outros) menino órfão de São Paulo. Ele chama Carlos (Lee Taylor) de pai. Carlos, no entanto, é um típico paulistano fulo da vida, descontente com o que vê pelas ruas da cidade grande, completamente embrutecido e autocrítico com as alternativas que encontrou para ganhar dinheiro – roubando carros para o desmanche, por exemplo. Em cima da sua moto, a câmera vai seguindo o olhar dele pelas ruas de São Paulo, tal qual um Travis Bickle (Robert de Niro) com seu táxi amarelo em Nova York, em “Taxi Driver” (Martin Scorsese).

Carlos apenas segue vivendo – ou seguindo o seu caminho, como um rio corrente –, mas percebe uma chama se aquecer em seu pensamento após Renata (Simone Iliescu) – com quem tem um caso amoroso – ler para ele um trecho de um livro. A ideia de que tudo está errado, e que apenas as pessoas é quem pode fazer algo para mudar o mundo, gruda na cabeça do motociclista até o desfecho do conto urbano cinematográfico. O pensamento humano, filosofa os personagens com livro em mão ou após uma sessão de cinema, é como uma bomba atômica, que se expande somente depois de explodir.

Do outro lado da cidade, Marcelo (Roberto Audio) é a representação do cabeça pensante, figura fácil paulistana. Entendido de artes plásticas, ele é colunista de um famoso jornal impresso que tem circulação nacional, guia turístico em cemitérios paulistanos – onde palestra sobre arquitetura e arte – e, como também grande parte dos chamados “entendidos” de alguma coisa, extremamente pacífico, sujeito que vive no mundo das abstrações, teorias, livro e jornais. Marcelo também tem um caso com Renata.

Renata é o personagem que representa a figura feminina nos tempos de hoje. Cada vez mais resolvida com seus desejos sexuais, independente financeiramente e culta. Mulher que, entendendo os anseios de se envolver com homens extremados – Marcelo é calmaria, Carlos é explosão – não se intimida em, por exemplo, após dormir na casa de um, acordar e ir diretamente para a casa do outro, em busca de sexo. Mas, assim como seus dois homens, ela também padece de incertezas, também sofre a pressão da cidade grande, a pressão da vida contemporânea e suas fugacidades, e chora copiosamente numa das cenas mais belas do filme, na plateia de um concerto intimista de Arnaldo Baptista, ex-Mutantes, cantando desafinada e lindamente atrás de um piano de caldas.

“Riocorrente” demonstra a maturidade de Paulo Sacramento, que foi elogiado com o documentário “Prisioneiro da Grade de Ferro” e que coleciona trabalhos como montador em filmes importantes, a exemplo de “Quanto Vale ou é Por Quilo” e “Amarelo Manga”. Não à toa, “Riocorrente” foi selecionado para o Festival de Rotterdam (Holanda), venceu o Prêmio Abbracine na Mostra Internacional de São Paulo e ainda nas categorias Melhor Fotografia e Melhor Montagem no Festival de Brasília.

Em seu último longa, Sacramento mistura drama e suspense e tem capacidade de criar situações em que a cena não se esgota por ela apenas, autorizando o espectador a pensar sobre ou completá-la. É o caso de cenas memoráveis, como a da ninhada de ratos que destrói pilhas e mais pilhas de jornais impressos dispostos em um galpão; o flagra da briga do casal com a câmera se aproximando devagar até enquadrar a tela exatamente na janela do apartamento; ou ainda quando Exu se encanta, mas não se espanta, com o leão dentro de uma jaula, chega pertinho e, com toda a calma do mundo, tira da boca um dente que estava mole.

O filme “Riocorrente”, extremamente crítico, perturbador, niilista, estimula o choque, o atrito, é mais Carlos (inconsequente e prático) e menos Marcelo (consciente e estagnado), trata da loucura que é São Paulo, que é o mundo, e faz um alerta: a bomba pode explodir a qualquer momento. Homens incendiários podem finalmente entender que, assim como a frase do ativista Zack de la Rocha e incorporada em voz over no filme, “Tem que começar em algum lugar. Tem que começar em alguma hora. Que lugar melhor que esse? Que momento melhor que agora?” No longa, a hora para agir é sim agora. E a destruição pode ser disseminada com a velocidade da correnteza de um rio sujo, ou no simples pedido feito por um menino após jogar seu dente que acabou de cair.

EM CARTAZ
SEMANA TUPINIQUIM
Assista “Riocorrente”
no Cineflix Cinemas,
no Maringá Park Shopping,
domingo (28) às 14 horas,
segunda-feira (29) às 21h40
e terça-feira (30) às 16h30

Trailer:

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