O Diário de Maringá



Dinheiro não compra a metafísica do futebol

Por Wilame Prado

Futebol tem dessas coisas. E é por isso que é mágico. É por isso que deve ser respeitado, goste-se ou não do esporte bretão responsável pela emoção de milhões de torcedores pelo mundo afora, e duelado, em média, duas vezes por semana, ou, como diz o técnico Muricy Ramalho, jogado quarta e domingo quarta e domingo quarta e domingo.

O Figueirense é um horrível time, um “catado” de Santa Catarina e que fatalmente cairá para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro no final deste 2014. Sei disso. Sei da ausência de qualidade do time catarinense. Vi, com meus próprios olhos, Figueirense 0 x 2 Santos domingo retrasado, em jogo disputado no péssimo gramado do Estádio do Café, em Londrina. Admitamos, pois: o Peixe está devendo futebol desde que perdeu o estadual para o Ituano, mas perder para o fraquíssimo Figueira, aí seria demais.

O time de Florianópolis colecionava quatro derrotas e zero gol, em quatro jogos, quando chegou, anteontem, à monumental Arena Corinthians para enfrentar o dono do estádio Padrão Fifa em jogo válido pela quinta rodada do nacional. Os barriga-verdes foram para não perder de W.O. Foram para cumprir tabela. Foram para evitar, ao menos, um vexame maior. E saíram vitoriosos. Um a zero para o azarão. E fim de papo, ficou para história: lembraremos para sempre que, na inauguração do estádio de abertura da Copa do Mundo Fifa 2014, plantado graças a muita grana vinda nem sei de onde na zona leste de São Paulo-SP, o Corinthians perdeu.

Mas, que loucura: era derrota na certa para o Figueira. Por lá, o primeiro jogo de um time que, por mais de 100 anos, esperou para ter um estádio. Mas futebol tem dessas coisas, como sabemos. No mundo futebolístico, não há cavalo premiado para apostar. Não tem bilhete marcado, salvo exceções, quando resolvem comprar os juízes ou quando um time se presta a perder de propósito só para azucrinar rivais. Caso contrário – talvez tirando também aquele desastroso e arranjado França 3 x 0 Brasil na final da Copa do Mundo de 1998 –, futebol é imprevisível, é mágico e nos atiça a dizer o famoso slogan do cartão de crédito: “Existem coisas que o dinheiro não compra”.

Dinheiro não paga uma vitória e os gols de uma partida bem jogada. Dinheiro não paga o toque metafísico que há em diversas disputas entre as quatro linhas do gramado, quando Davi vence Golias, quando o mais fraco surpreende o mais forte, quando um jogador retorna de lesão, chega a sonhar com o tento da vitória e sacramenta o êxito para o seu time marcando um gol em chute cruzado nas redes de Cássio, no começo do segundo tempo. Estamos falando de Giovanni Augusto, o “craque da camisa número 10” do alvinegro catarinense, e que merecia uma placa. E, ainda que, com a arrecadação recorde no jogo graças aos 36.694 pagantes e o rendimento de R$ 3.029.801,70, dinheiro não paga o Figueirense vencendo o Corinthians em plena inauguração de seu estádio, após angustiante espera de 104 anos de um time por uma casa própria.

Mas, fora tudo isso, no fim das contas, passada a euforia envolvendo o jogo atípico, todos sabemos que muitas vitórias corintianas acontecerão naquele belo estádio e que, mais do que no Pacaembu, aquele bando de loucos gritará mais forte que nunca e continuará estimulando os jogadores a buscarem a vitória, custe o que custar. E como bem conheço tantos amigos corintianos, tenho certeza de que a derrota na inauguração da Arena Corinthians, no fundo, já era aguardada. Afinal, confessam-se sempre como sendo os maiores sofredores do futebol planetário.

*Crônica publicada terça-feira (20) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Pesos do passado

Por Wilame Prado

Mais da metade do Brasil está acima do peso. Maringá também, segundo pesquisa realizada pela JGV em parceria com o Diário sobre o famoso Índice de Massa Corpórea (IMC). Na pesquisa, 54,2% dos entrevistados maringaenses apresentam sobrepeso ou obesidade. Eu estou acima do peso. Por baixo, uns sete quilos que precisam sumir de minha existência física para que eu não seja mais enquadrado como alguém pesado em excesso. Hora, então, de falar sobre o meu pai.

Era ele quem dizia que eu precisava comer mais, quando criança, para deixar de ser esquelético. Quando ele morreu, há sete anos, eu ainda era magro. O oposto de agora. Certamente, se tivesse medido meu IMC em 2007, o índice seria de magreza ou má-nutrição. Eu era um ser humano com a mesma altura, só que com 20 quilos a menos. Muitos desafios diários envolvendo estágio, faculdade, transporte coletivo e caminhadas. Não havia moto, não havia carro, não havia casamento e, sobretudo, não havia sequer dinheiro para almoçar direito.

Meu pai era gordo. Tinha as pernas finas e uma barriga enorme. Quando a vida ficou bem mais difícil para ele, emagreceu bastante. Mas a barriga nunca sumiu completamente. É estranho pensar sobre a imagem de um pai. Acho que sempre veremos nossos pais como fôssemos crianças e eles uns adultos enormes, cheios de razão, cheios de direitos para com você. Gigantescos. Mas como se apequenam os velhos pais deitados numa cama de hospital… a imagem das mais difíceis para um filho ver.

Ayrton Senna era magrinho. Pudemos ver diversas imagens dele nesses últimos dias. Chorei com rúculas (não estou de regime) na boca enquanto almoçava e assistia, ao mesmo tempo, imagens de um documentário sobre o piloto de Fórmula 1 que nos deixou há 20 anos. Senna parecia ser uma pessoa um tanto especial. Parecia ter urgência de viver, parecia saber que era um missionário e que a sua missão teria um prazo curto de validade. Ele morreu aos 34 anos sem deixar filhos, mas deixando inúmeros fãs e um enorme legado.

Em 1º de maio de 1994, com 8 anos de idade, dei uma dica para a minha família do que seria quando crescesse: jornalista. Sabia o quanto meu pai gostava do Ayrton Senna, e a minha grande missão naquele dia, pelo menos em minha cabeça, seria dar a notícia em primeira mão para ele. Ficaria contente, independentemente da morte do ídolo, quando revelasse a trágica notícia para o meu pai. Corri, então, rapidamente, as quadras que separavam minha casa da de um amigo, local onde havia ficado sabendo do desastre envolvendo o piloto. E, como sempre, meu pai não estava em casa. Nem me lembro do que aconteceu depois, se realmente cheguei a dar a notícia da morte do Ayrton Senna para alguém.

O tempo passou. O tempo passa bem rápido. E, tirando os pesos que costumam se acumular em nosso corpo, as coisas tendem a desaparecer. Os amigos, os ídolos e os nossos pais costumam ir embora, muitos deles para sempre. Há 20 anos, Senna morreu. Há sete anos, meu pai morreu, também em 1º de maio. As lágrimas, no final das contas, sempre cairão no prato de rúcula, assistindo a um documentário ou sentindo a ausência do pai, estando ele vivo ou não. Só que este ano fiz diferente, ou pelo menos quis pensar diferente: sete é um número forte, sete anos é tempo demais, e a data pode pressagiar (tudo depende do seu próprio pensar) novos tempos.

Inicio, então, as despedidas das sombras. A morte do pai fica no passado (essa história que escrevemos todos os dias, para nós mesmos), opto apenas pela vida dele, pela lembrança boa, pela saudade gostosa. Assim, quem sabe, consiga até me reencontrar com as vitórias seguindo os exemplos de determinação e força do nosso querido Ayrton Senna. A primeira batalha? Contra a balança.

*Crônica publicada nesta terça-feira (7) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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A tíbia por uma aposentadoria

Por Wilame Prado

De um dia para o outro, virou modinha acompanhar vida e obra dos lutadores de Artes Marciais Mistas (MMA), modalidade que antes tinha um nome mais sincero: vale-tudo. Anderson Silva é o novo brasileiro que não desiste nunca e, após perder o cinturão de maneira vexatória – tomando um socão na cara de Chris Weidman ao se distrair fazendo micagens (como sempre fez) – marcou revanche após pressão de público e patrocinadores. Novamente, deu-se mal ao quebrar a perna dando de canela bem no joelho do outro rapaz.

No caso das lutas do UFC (principal marca que intermedeia socos, pontapés e fraturas nas tíbias pelo mundo afora), assim como no futebol a pulga permanece atrás da orelha e todo mundo desconfia de marmelada quanto aos resultados. Na primeira luta entre os pesos-médios, em julho, foi tão banal a derrota do atleta patrocinado pelo Corinthians que a massa passou a conspirar suspeitando da veracidade dos fatos ocorridos dentro do octógono. Mas ficou difícil agora, na revanche ocorrida na madruga de domingo em Las Vegas, dar coro às vozes da teoria da conspiração: como diria Arnaldo Cezar Coelho e São Tomé, a regra ou a imagem é clara e servem para aqueles que só acreditam vendo.

Passo a acreditar ainda mais fortemente, com a imagem, o que nunca saiu de minha cabeça: vale-tudo é um “esporte” violento demais. O que salva a prática – e aí sim podemos chamar de esporte – é a possibilidade que os interessados têm em manter uma vida mais saudável indo até uma academia para aprender técnicas do jiu-jítsu e muay thai. Só de olhar uma aula de MMA proferida por um professor primo meu (pensem duas vezes antes de mexerem comigo!), suei em bicas. Recomendo, portanto, aos que não se importam de ficar levando pancadas, a prática de lutas como esporte. Filho meu nenhum, no entanto, jamais entrará na gaiola (aprendi no horripilante filme exibido antes da luta do Anderson Silva que o apelido do octógono é “gaiola”, nada mais apropriado) para se digladiar com outro sujeito vestido só de cueca. Nem que o prêmio for uma medalha de honra ao mérito ou um saco cheio de dólares. Dignidade e uma tíbia em seu devido lugar não têm preço. Ou então tirem as armas de perto, pois ser vítima de pacote de socos bem no meio da cara é, sem dúvida alguma, caso de morte.

Exageros de lado e gaiolas bem distantes, façamos, pois, uma análise da derrota de Anderson Silva, esse sujeito simpático, de voz fina mas cordial, com talento ímpar para duetos musicais na MPB e pontas marcantes em comédias de sucesso no cinema, um pai de uma família linda, cidadão que poderia estar matando, roubando, advogando, medicando, mas, não, preferiu ser uma estrela do MMA, mais um brasileirinho que acaba sendo exemplo de perseverança (assim como o seu empresário, o Ronaldo) e case para livros de autoajuda: perdeu porque queria ganhar demais. Como diz o velho ditado, foi com muita sede ao pote, exagerou na força e não esperava tamanha dureza em um joelho só.

Anderson Silva é um campeão. Mas todo mundo vinha percebendo que ele já não estava mais completamente afim de lutar, distanciava-se aos poucos dessa gaiola de loucos. Só que os caras querem sempre mais e mais, o circo não pode parar, e o atleta, perto dos seus 40 anos, ainda não tem o “direito” de simplesmente se aposentar, sair por cima, como vencedor de tudo e de todos, curtir uma onda com os artistas e continuar tirando uns trocos como comentarista esportivo na TV. A indústria do entretenimento exige sangue, lama e tíbias fraturadas. Mas agora sim. Acho que depois desse episódio lamentável (horrível a imagem da perna do Anderson Silva entortando), o ídolo brasileiro conquista a almejada aposentadoria, ainda que pelo caminho mais doloroso.

*Crônica publicada na terça-feira (31) na coluna Crônico, do Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Bonequinha de luxo

Por Wilame Prado

Viu que dirigia um Audi TT conversível. Sorria. A mulher ao lado era bela. Conversava com ela. Sorriam. Viu a felicidade, um sujeito feliz.

“Isso é felicidade, pai?”

“As posses. Os carros. Mulheres.” Só pensou.

“Vou te contar uma história: antigamente, pior do que hoje, não se tinha muita noção do que é felicidade, do que precisamos para ser felizes. Aí, para muita gente lá em casa e nas outras famílias também, felicidade era tomar tubaína quente no Natal”, contou o pai.

“Mas o que estou querendo dizer, pai, é que eu tenho uma forte impressão de que vi a felicidade plena no rosto de um sujeito ontem, trafegando com seu conversível na Avenida Laguna, ali na Operária, perto do Senadinho Pastel, sabe?”

“Sei.”

“Então. O carro dele estava limpo e, como o senhor deve se lembrar, ontem o clima estava agradável; aquela tarde de sábado parecia ser propícia para um sujeito, em seu carro bom, ao lado de uma mulher bonita, ser feliz”, continuou argumentando o filho.

“Interessante você dizer isso. É o imediatismo da sua geração, filho. Com um recorte, com uma imagem, com uma foto, com uma cena de um filme, vocês conseguem decretar a felicidade de um homem.”

O filho tomou um gole de tereré. E refletiu em voz alta: “Tá parecendo que sou um baita de um invejoso.”

Continuou: “E tem razão: fui imediatista. Mas veja só, pai: acredita em pressentimento?”

“Coisa de mulher.”

No que ele respondeu, rapidamente: “Usei a palavra errada. Enfim. Deixa pra lá esse papo. Você viu que o seu Palmeiras meteu goleada ontem e ergueu o troféu? Bi campeão. Parabéns velho! Agora vocês retornam à elite, de onde meu time nunca saiu”, alfinetou, dando risada sarcástica.

“Esquece isso, esquece o circo. Fiquei é intrigado com esse seu papo de felicidade. Poxa vida, filho: que educação que eu te dei? Você vê um cara com um carro que pode ser muito bem financiado ou roubado, com uma mulher linda ao lado, mas que pode ter sido alugada somente para aquela tarde, e me diz que isso é felicidade? Aquele sorriso que você descreve pode, inclusive, ter sido bem fugaz: sob efeito de droga ou após uma quantidade de cerveja ingerida em um boteco por aí. E, digo mais: se tudo isso ainda não for verdade, devo lembrá-lo que ‘por trás de toda grande fortuna há um crime’, como disse tão bem Balzac. É o preço que se paga, e caras como você e eu nunca estaremos dispostos a pagar tão caro para andar de conversível ao lado de uma bonequinha de luxo, filho.”

Algumas horas se passaram. O pai, ao lado da mãe, aproveitou o resto daquele domingo para ir à casa de parentes em uma cidade próxima a Maringá. E o filho passou o tempo todo sentado, sozinho e com uma sensação esquisita mesclando tristeza, solidão e serenidade. Não conseguia esquecer a cena do sábado ensolarado, um homem feliz, com seu carro limpo e bonito, com uma bela mulher ao lado, dirigindo ao léu, sem compromisso, sem precisar bater ponto, curtindo a vida e contente por saber que ainda faria daquele sábado mais um dia como se não houvesse amanhã; o mundo ainda presentearia aquele feliz rapaz com uma noite de sábado, saindo e entrando do seu Audi TT conversível, abrindo e fechando portas para uma (s) mulher (es).

“Quem era aquele cara?”, não conseguia parar de pensar.

“E quem ele pensava que era para ser ‘tão’ feliz ao lado de Emilly?”, questionava, um tanto raivoso.

Na conversa que tivera horas atrás com o pai não teve coragem de contar que conhecia aquela garota e que, um dia, o cara feliz ao lado daquela “bonequinha de luxo” tinha sido ele.

*Conto publicado nesta terça-feira (26) na coluna Crônico, do Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Novembro

Por Wilame Prado

Aprecio os meses de novembro. Pelo menos aqui pelos lados do norte do Estado, os ventos noturnos acalmam a alma e refrescam aqueles que enfrentaram um intenso calor durante o dia.

Lembro-me que era novembro porque conversava com minha mãe sobre o aumento das temperaturas, a aproximação do verão e as dificuldades com os climatizadores que quebram justamente nesta época. “Entra o calor, e então as geladeiras e os aparelhos de ar-condicionado dão pau. No frio, é a vez de quebrar as máquinas de lavar”, replicava para ela as palavras ditas por um assistente técnico que havia consertado há alguns dias minha geladeira.

Havia voltado para casa, naquele novembro, na cidade interiorana onde minha mãe mora. Fazia calor, mas o sábado amanhecera chuvoso e então todos se sentiram um pouco melhor, podendo respirar melhor. De madrugada, os três climatizadores de ar daquela imensa casa pararam de funcionar com a queda da energia elétrica após anúncio da chuvarada feito por um raio que se fez estrondoso pelo barulho do trovão.

Na cidadela, a história se repetia nos últimos meses do ano: mais calor, mais seca, uma chuva exagerada de vez em quando, quedas de energia frequentes e a falta de água nas casas. Como em cidades litorâneas que não suportam – logisticamente falando – a invasão de turistas nas temporadas veraneias, aquela cidade pequena do interior sofria carência de serviços a partir de novembro – mais pelas condições climáticas do que pelo aumento de pessoas que chegam até a cidade para visitar os parentes, ir a casamentos e velórios.

“O ar está parado agora, mas tenho certeza que a noite será fresca”, pensava comigo mesmo andando pela cidade de minha mãe um dia antes daquela chuva boa que caiu no sábado. Mesmo com tanto calor, não me permiti vestir uma bermuda naquele dia. Julguei mais adequado vestir calça jeans para acompanhar o velório e enterro de uma tia que morreu dormindo. Era principalmente por causa da morte dela que havia regressado à cidade onde vivi boa parte de minha adolescência e que agora tanto sofria com a falta de água e com climatizadores pifando.

“Banho agora só depois das oito. A água volta de manhã e depois das oito”, explicava-me um velho amigo de infância que encontrei no sepultamento.

E finalmente a noite havia caído. E os ventos haviam chegado. E era chegada a hora em que as pessoas, naquela pequena cidade, colocam as cadeiras de área nas calçadas para conversar sobre tudo e sobre nada, sobre climatizadores que pifam e uma tia que finalmente descansa após 55 anos de uma vida meio deslocada. Almas que se acalmam em noites de novembro. Acho que nunca mais me esquecerei daqueles dias quentes e daquelas noites amenas em que passei na cidade pequena. Por lá, o tempo passa modorrento.

Jamais esquecerei. Era novembro. Enterramos a tia na tarde daquela sexta-feira de altas temperaturas. O suor escorrendo atrevidamente do rosto do coveiro lidando habilmente com tijolos e argamassa no lacre do túmulo. No sábado, a chuva limpando o ar para alegria de todos e, ao fundo, ao longe, ouvia-se o som de uma fanfarra que executava, na avenida da pequena cidade, uma música pop que havia feito sucesso há alguns anos. Naquela pequena cidade, de tempo modorrento, com tardes quentes e com ventos noturnos, climatizadores quebravam e parentes morriam. Era novembro, e disso eu me lembro bem.

*Conto publicado terça-feira (19) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Cavalo

Por Wilame Prado

Faz alguns meses que a palavra “cavalo” não sai de minha cabeça. Culpa de “Cavalo”, tão aguardado disco solo de estreia de Rodrigo Amarante, lançado recentemente. Um dos barbudos de Los Hermanos, amado e odiado pela inconsistência vocal e pela emoção transbordada em canções e dancinhas em cima do palco, voltou cheio de vazios, letras e sons que pegam a gente de jeito: estamos mais reflexivos com as coisas do amor e da vida, e isso é culpa de “Cavalo”.

Pensar na palavra “cavalo” com mais frequência é culpa também de meia dúzia de afirmações consideráveis dadas por Amarante, que, com seu jeito nonsense e metafísico, acaba sempre dizendo algumas coisas que ficam, depois, martelando na cabeça. Sim, estamos mais reflexivos. O compositor, multi-instrumentista e cantor deu para falar com jornalistas e explicar sobre o porquê do nome “Cavalo” e tantos outros porquês. Quem ganha é o fã. Ou não: estamos pensando muito na palavra “cavalo” e também sobre as canções deste novo trabalho.

Quero falar sobre cavalos – não só do disco, mas também do animal. Posso neste momento estar meio que plagiando Rodrigo Amarante. Li algumas coisas e assisti a algumas de suas entrevistas. Não importa. Gostaria apenas de convidar o leitor para que imagine um belo e lustroso cavalo. Nobre, como se traduz a estética do cancioneiro de Amarante. Um bicho cheio de significações – para o bem e para o mal –, tal qual este disco que tocará talvez eternamente em minha vitrola imaginária traduzida em arquivos de MP3 com pouca qualidade.

Chamar alguém de cavalo pode ser xingamento ou elogio. No futebol, cavalo é aquele que comete muitas faltas. No trabalho, um cavalo pode ser aquela pessoa que encara os desafios com a força de um cavalo, com energia extravasada. Um carro veloz tem bastantes cavalos. Um marido que enche a sua mulher de pancadas é chamado de cavalo covarde. Uma das cenas mais marcantes da trilogia The Godfather é composta por uma cabeça de cavalo ensanguentada posta sobre os lençóis caros de seda, em cima da cama de seu dono. Cavalos marinhos, cavalos no jogo de xadrez e cavalos mitológicos: unicórnios, pegasus e centauros. Cavalo do culto afro-brasileiro.

O cavalo é a continuação do cavaleiro e, posto assim, torna-se um dos animais mais humanos que se tem notícia. Um cavalo pode tornar um homem milionário. Um homem que tem quase nenhum dinheiro por vezes conta com a ajuda e amizade do cavalo na lida com os papelões entre as lixeiras ou então transportando lavagens para o chiqueiro dos porcos. Ali, estará o homem. Ao seu lado, um cavalo. E assim se conta boa parte da história das civilizações. O homem ao lado de seu cavalo. Rodrigo Amarante é um cavalo da música brasileira. “No olho do cavalo/Espelho imaculado/O duplo e eu”, afirma o próprio na letra da música “Cavalo”. Um cavalo da MPB no bom sentido, claro: relincha Tom Zé (“Cometa”), Caetano Veloso (“Irene”), Vinicius e Baden Powell (“Maná”).

Muitos podem utilizar “Tardei”, uma de suas belas canções, para exemplificar a demora do músico para finalmente se lançar em carreira solo. Talvez ele tenha visto os tombos nos trotes acelerados em que muitos têm se arriscado na carreira musical. É difícil não cair do cavalo. Por isso, vem em galope suave e sereno para com as suas propostas artísticas. Montado no cavalo, olha o horizonte distante e talvez nem saiba aonde quer chegar, apenas que precisa continuar a caminhar. Amarante é um estrangeiro vindo de um canteiro, onde as berinjelas se roxeiam ao amanhecer, segundo a deliciosa canção “Mon Nom”.

Nas galopadas, canta em inglês, francês e português. A língua não importa. O que vale é a poesia. E a amizade com o cavalo, já que los hermanos ficaram para trás.

*Crônica publicada nesta terça-feira (12) na coluna Crônico do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Paraíba faz a vontade de Brecht

Por Wilame Prado

O dramaturgo alemão Bertolt Brecht argumentou em seus diários de trabalho que tinha interesse em escrever uma peça sobre Zhao Gongming, o Deus da Fortuna da mitologia chinesa. Fato mais que suficiente para que o Coletivo de Teatro Alfenim (João Pessoa-PB) resolvesse criar uma parábola cômica utilizando os anseios de Brecht como ponto de partida para “O Deus da Fortuna”, espetáculo deste domingo (10 da 3ª Mostra de Teatro Contemporâneo – Maringá que será apresentado na Oficina de Teatro da UEM, às 20h30.

A peça, que tem texto de Márcio Marciano criado em processo colaborativo com os atores do grupo, mostra alegoricamente o Deus da Fortuna, entidade totalmente identificada ao capital especulativo e que surge na propriedade de um capitalista à moda antiga, o Senhor Wang.

Afundado em dívidas, Senhor Wang ergue um altar em honra ao Deus da Fortuna, mas, para evitar a falência, vê-se obrigado a ofertar a própria filha para amortizar dívidas. “O Deus da Fortuna” ironiza o capital especulativo e as relações humanas completamente dependentes – inclusive metafisicamente – com as coisas do dinheiro.

No elenco estão Adriano Cabral, Daniel Araújo, Lara Torrezan, Paula Coelho, Vitor Blam e Wilame AC. Ingressos custam R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). A classificação é para 10 anos.

SAIBA+
Programação completa da 3ª Mostra de Teatro Contemporâneo – Maringá no site: mtcontemporaneo.art.br

*Reportagem publicada neste domingo (10) no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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Repertório contemporâneo na mostra de teatro

Por Wilame Prado

Ainda restam ingressos para o espetáculo “Nada de Novo”, do grupo paulistano Parlapatões, que abre a 3ª Mostra de Teatro Contemporâneo – Maringá hoje no Teatro Marista, às 20h30. A bilheteria fica aberta do meio-dia às 19h no 4º piso do Maringá Park Shopping. Os ingressos custam R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

A procura pelos espetáculos e os elogios feitos em redes sociais após a divulgação oficial da programação da mostra têm animado o coordenador Marcio Alex Pereira, da Teatro & Ponto Produções Artísticas – companhia que realiza a o evento com apoio do Ministério da Cultura. Até o dia 17 de novembro, a mostra principal ocupará vários teatros da cidade, além das atividades formativas (mesas redondas, palestras, leituras dramáticas, exibição de filmes e oficinas) e extensões com espetáculos em Londrina e Campo Mourão.

“Além dessa abertura elogiável com a comédia dos Parlapatões, a expectativa é grande para ver a reação do público nas peças que estamos trazendo do Coletivo de Teatro Alfenim, de João Pessoa-PB, e também nas seis peças do projeto ‘Peep Classic Ésquilo’, do Club Noir (São Paulo-SP), com espetáculos durante os três dias da mostra”, revela Pereira.

Segundo Pereira, há muitos curiosos também para ver o que as companhias de teatro de Maringá, Mandaguari, Londrina e Campo Mourão farão nos palcos maringaenses durante a Mostra de Teatro Contemporâneo deste ano. A exemplo do espetáculo “O Primeiro Golpe”, da mandaguariense Saindo da Coxia – capitaneada pelo dramaturgo, diretor e ator Paulo Campagnolo –, que, pela mostra e em parceria com o Convite ao Teatro, é atração amanhã, 20h30, no Teatro Barracão. A entrada é franca.

Teatro de repertório
Mesmo com novidades, Pereira diz que não muda a principal característica da Mostra de Teatro Contemporâneo: o oferecimento ao público local de teatro de repertório. “Estamos proporcionando teatro de repertório com grupos de fora do eixo Rio-SP, com o pessoal da Paraíba, com os curitibanos, enfim. Esse ano foi possível também fazer uma espécie de proposta temática com alguns espetáculos, de diferentes lugares, que tratam temas sobre a velhice, como a solidão e o Mal de Alzheimer. É o caso de ‘Brevidades’, do Coletivo de Teatro Alfenim, ‘Correntes’, dos maringaenses da LC Produções Cênicas, e ‘Yolanda Calaboca’, dos londrinenses da Casa das Fases”, diz.

*Reportagem publicada nesta quinta-feira (7) no caderno Cultura, do Diário de Maringá
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Parlapatões abrem Mostra de Teatro Contemporâneo

Por Wilame Prado

A ironia fina dos Parlapatões (São Paulo-SP) transcendeu os palcos e contaminou a própria história desse que é considerado um dos mais importantes grupos de teatro em atividade no País. Pode parecer mentira, mas “Nada de Novo”, com suas sempre elogiadas ácidas palhaçadas, está em cartaz há 22 anos, mesmo tempo de fundação do grupo. A comédia política é a atração de abertura da 3ª Mostra de Teatro Contemporâneo – Maringá amanhã, às 20h30, no Teatro Marista (ingressos a R$ 10 e R$ 5 no Maringá Park Shopping).

“Apesar do nome, sempre estamos encontrando algo novo nesse espetáculo que vem prevalecendo no tempo graças às suas constantes mutações e também pela resposta do público. Se fôssemos colocar todos os quadros que já fizemos para a peça, seria um espetáculo de mais de cinco horas”, anuncia Hugo Possolo, dramaturgo, ator e um dos fundadores dos Parlapatões.

Realizada pela Teatro & Ponto Produções Artísticas e apresentada pelo Ministério da Cultura, Sanepar e Zacarias Veículos, a terceira edição da Mostra de Teatro Contemporâneo ousa ao propor uma comédia na abertura. Uma comédia contemporânea, segundo o coordenador da mostra Marcio Alex Pereira. “O espetáculo de abertura é diferente, é uma comédia que está dentro de uma estética de assuntos contemporâneos, uma comédia política, não deixa de ser teatro contemporâneo”, diz ele.

Possolo divide palco com Raul Barretto, Fabek Capreri e Hélio Pottes em “Nada de Novo”, espetáculo com linguagem clown que reúne brincadeiras, números circenses e quadros debochados. O espírito do grupo se revela com o rompimento dos limites de comunicação entre atores e plateia. Em meio a tudo isso, a comédia tem declarada inspiração no humor categórico de grandes mestres como Karl Valentin e Groucho Marx ou nos quadros clássicos dos Três Patetas e o Gordo e o Magro.

Dos 50 espetáculos já realizados pelos Parlapatões, “Nada de Novo” é recordista de longevidade. Um dos segredos é a aceitação do papel de ridículo em meio ao picadeiro imaginário, diz ele. “Para trazer o público para a história, a gente aceita o nosso papel de ridículo, compartilha esse ridículo e então tudo fica mais fácil.”

Talvez como ironia do destino, na opinião de Possolo infelizmente nada de novo – ou pelo menos nada que mereça destaque – aconteceu na comédia nacional e internacional durante essas duas últimas décadas. Por essas e outras, para a constante manutenção de “Nada de Novo”, as inspirações humorísticas continuam sendo as mesmas.

“Nos anos 90, a figura do palhaço se massificou e, então, multiplicaram-se os palhaços muito ruins. Depois disso, veio a safra do stand up, e a moda acaba arrastando também gente muito fraca para os palcos. Nesse meio tempo, tirando talvez trabalhos de Sacha Baron Cohen, do filme ‘Borat’, não visualizo nada de mais”, diz ele.

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (6) no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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Nelson Alexandre lança livro de poesia no Sesc

Por Wilame Prado

O escritor maringaense Nelson Alexandre lança o livro “Poemas para Quem Não Me Quer” (Editora Multifoco, 120 páginas) às 20h de hoje, no Sesc. A entrada é franca e o livro será vendido a R$ 34 na noite de autógrafos.

O lançamento que estava previsto para acontecer no mês passado na Casa da Vó Bar foi remarcado após a morte do professor Marciano Lopes, que assina a orelha do livro. O professor era também o organizador do evento literário que tinha o lançamento do livro como parte da programação.

À época, Nelson Alexandre lamentou a perda do professor de literatura: “O corpo vai…a poesia fica”, afirmou o ex-aluno e amigo de Lopes.

Em “Poemas Para Quem Não Me Quer”, o autor apresenta 40 poemas, a maioria escritos este ano. “São os meus poemas mais maduros”, disse, em entrevista recente.

O livro de poesia reúne textos inéditos com outros publicados em redes sociais e que serviram de termômetro crítico dos leitores que já acompanham Nelson Alexandre há pelo menos sete anos, desde a época em que o seu blog, o Encruado (nelsonalexandre.zip.net), era um dos locais preferidos para se encontrar literatura local de qualidade.

PARA LER
POEMAS PARA QUEM NÃO ME QUER
Autor: Nelson Alexandre
Preço: R$ 34
Noite de autógrafos
Quando: hoje
Horário: 20h
Onde: Sesc (av. Duque de Caxias,1.517, Zona 7)

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