O Professor



Tezza revisita o passado

AUTOCRÍTICA .Cristovão Tezza, em Curitiba: “Sinto que é o meu melhor livro”. —FOTO: GUILHERME PUPO

AUTOCRÍTICA. Cristovão Tezza, em Curitiba: “Sinto que é o meu melhor livro”. —FOTO: GUILHERME PUPO

Wilame Prado

Antes de discursos em que precisamos falar da gente mesmo, passa um filme na cabeça e ativamos a máquina da memória tentando, num exercício de ordenação e coerência, transformar lembranças em palavras proferidas. No ínterim, tendemos a pensar em fatores externos – família, relacionamentos, profissão, política atual – mas, quase sempre, deixamo-nos comover pelas reminiscências, pelas emoções, que, tal qual uma lágrima que transborda dos olhos e que ofusca o plano da visão, chegam a distorcer os fatos com a exacerbação dos sentimentos em detrimento da realidade pretérita. Nosso passado, que é uma história que nós mesmos construímos para a gente, tende a ser potencializado com a nostalgia.

“O Professor” (Editora Record, 240 páginas, R$ 32), romance lançado recentemente por Cristovão Tezza, 62 anos, tem sua narrativa concentrada nas poucas horas que antecedem o discurso que o professor aposentado de filologia românica Heliseu da Motta e Silva, 71, fará em uma homenagem que está prestes a receber pelos serviços docentes prestados.

Não há limite de tempo para as memórias, e Heliseu rememora, nessas poucas horas, décadas de uma vida dedicada à arte de ensinar, incluindo, nesse pacote de lembranças, fatos importantes da história pessoal e da política brasileira.

Como acontece com a maioria das pessoas, passa um filme na cabeça do professor. E como bem sabe fazer o escritor catarinense radicado em Curitiba, o filme das memórias de Heliseu foi transformado em romance.

Em “Um Erro Emocional” (Record, 2010), Tezza praticou a sua destreza em escrever páginas e mais páginas que concentram, no tempo da obra, apenas horas vividas pelas personagens. Na ocasião, ele narra a ida do escritor renomado Paulo Donetti ao apartamento de uma leitora, Beatriz, para dizer que havia cometido um “erro emocional”, o de ter se apaixonado por ela.

Em “O Professor”, o recorte temporal se limita entre o lento despertar do idoso e o momento em que finalmente coloca o papel do discurso no bolso, olha-se no espelho e vai para a devida homenagem a ser recebida.

Nesse intervalo de quatro anos entre os dois romances, Tezza exercitou o conto em “Beatriz”, o ensaio literário em “O Espírito da Prosa” e a crônica em “Um Operário em Férias”. Agora volta ao romance e, até pelo pouco destaque que teve publicando em outros formatos literários (principalmente quando comparado com o retumbante sucesso de “O Filho Eterno”, de 2008), demonstra mesmo que a prosa mais longa é o seu forte.

Na bibliografia, são 18 obras publicadas, sendo 14 romances, incluindo, além dos supracitados, os elogiados “Uma Noite em Curitiba”, “Trapo” e “O Fotógrafo”.

Comemoração à parte dos leitores que aguardavam um novo romance de Tezza, “O Professor” chega ao País já premiado. Ano passado, o livro foi escolhido pelo Financial Times como um dos melhores estrangeiros publicados no Reino Unido.

Afora isso, o próprio autor considerou, em entrevista concedida por e-mail, tratar-se de seu melhor livro até aqui. “Depois de vários livros publicados, o escritor já consegue ter uma noção de medida de seu trabalho, ainda que não a certeza absoluta, que não existe. Eu sinto que é o meu melhor livro pelo apuro técnico e pela maturidade da visão de mundo, que é algo que só o tempo dá. Mas é preciso lembrar que o autor é sempre suspeito ao falar da própria obra.”

Após a conquista de vários prêmios com “O Filho Eterno”, ele ganhou dinheiro, fato que estimulou a antecipação da aposentadoria nos tablados da Universidade Federal do Paraná, onde lecionou por 20 anos no curso de Letras. Olhando para o currículo de Tezza e todo seu envolvimento com a academia, poder-se-ia imaginar que “O Professor” é mais um romance com traços autobiográficos. Não é, segundo o próprio autor.

“O único livro de fundo autobiográfico que escrevi foi ‘O Filho Eterno’. Personagens professores são recorrentes na minha obra: há professores em ‘A Suavidade do Vento’ e ‘Uma Noite em Curitiba’, por exemplo, e isso não significa que sejam livros autobiográficos. Não há nada de mim em Heliseu, exceto a profissão – já fui professor e convivi no mundo universitário que meu personagem habita”, explica.

TEZZA AGUARDA CONVITES PARA LANÇAR ‘O PROFESSOR’
“O Professor” foi lançado oficialmente em Curitiba no começo de abril. Já no sábado do dia 12 de abril, Tezza estaria na Livraria e Editora Arte & Letra, também na capital paranaense, ao lado dos escritores Rogério Pereira e Mário Araújo, no lançamento de “Entre as Quatro Linhas”, coletânea de 15 contos sobre futebol organizada por Luiz Ruffato.

Dentre os contistas estão, além de Tezza, Pereira e Araújo, Fernando Bonassi, Ronaldo Correia de Brito, Eliane Brum, Flávio Carneiro, André de Leones, Tatiana Salem Levy, Adriana Lisboa, Ana Paula Maia, Tércia Montenegro, Marcelo Moutinho, Carola Saavedra e André Sant’anna.

Em sua última passagem por Maringá, Tezza participou da Semana Literária do Sesc em 2010 e versou sobre a criação literária e importância da leitura. O romance recém-publicado por ele já pode ser encontrado nas principais livrarias da cidade, mas ainda não há previsão de lançamento da obra com noite de autógrafos do autor por aqui.

“Já fui várias vezes a Maringá, em palestras, eventos literários e lançamento do livros, sempre uma ótima recepção. Se surgir uma oportunidade, é claro que irei”, diz Tezza.

o professor, cristovao tezzaESTANTE
O PROFESSOR
Autor: Cristovão Tezza
Gênero: romance
Editora: Record
Número de páginas: 240
Preço sugerido: R$ 32

ISTO É CRISTOVÃO TEZZA
A cadeia de desconcertos deste amanhecer, ele sussurrou, achando bonito, testando a linguagem e vivendo um impulso de entusiasmo — eu poderia ter sido escritor, se tivesse tido a coragem no momento certo. Quase rompi a membrana e passei para o lado de lá. Parecia simples. Therèze uma vez lhe disse: por que você não escreve? Um tropeço de fonemas — cadeia de desconcertos deste. O fonema “d”, repetiu ele milhares de vezes diante de milhares de alunos, seguido da vogal “i”, palataliza-se em algumas regiões do Brasil. Comparem: djia x dia, assim, dia, ele abria bem a boca para a demonstração, alveolar, a língua contra os dentes da arcada superior. Para quem não compartilha a diferença de sotaque, é engraçado. Passou as mãos no rosto, moveu a cabeça de um lado a outro, três vezes, num simulacro de ginástica — é bom contra torcicolo, ele ouviu uma vez e passou décadas repetindo o movimento. Mas o pescoço parece um papo de galinha, assim como os olhos revelam o pé de galinha — é assim que as mulheres dizem. Um símile perfeito. Essa pele despencada grudando-se ao que resta de apoio, para se espraiar em ossos secos que se erguem como raízes de árvores arruinadas. A clássica barba amanhecida, ainda por fazer. Houve um tempo em que era estilo. Minha cabeça é um bulbo, e ele se surpreendeu com a teimosia da conclusão, já diante da plateia: senhoras e senhores, brasileiras e brasileiros, eu fui sim um homem bonito. Eheh. Esticou a perna direita, depois a esquerda. As pernas pareciam doer menos essa manhã. A química funciona.

A verdade é que nem sempre fui um homem antigo, ele argumentou arriscando uma ironia em defesa própria, agora sentado na cama de imbuia envernizada, mais velha ainda que ele, com seus frisos caprichosos. Confira os detalhes da cabeceira. Uma hora de trabalho em cada raminho de madeira, as ranhuras das folhas perfeitas no relevo. No tempo dos artesãos, que não existem mais. Não fabricam mais nada assim, ele ouviu a mulher repetir mil vezes, com irritação legítima, hoje é esse lixo descartável, serragem com cola, a cama desmonta no primeiro dia — na primeira trepada, ele completou uma vez, há muitos e muitos anos, e os dois riram. A Mônica, senhores, de saudosa memória. Talvez a homenagem que vão fazer a ele seja justamente o reconhecimento de sua atualidade. Não. De sua contribuição. Alguém que passou sem traumas (Na verdade, com altruísmo; eles têm de reconhecer pelo menos isso. Se não fosse ele — se não fosse ele o mundo não existia? Sim, de certa forma, e ele riu como quem ouve uma piada de café; o velho e bom solipsismo. Depois de mim, o dilúvio; sem mim, nada! É engraçado.) — que passou sem traumas da velha filologia românica para a linguística moderna — do papel escrito para a língua viva. Dos textos sólidos — desenhados quase que com o punhal há 600 anos, a brutalidade do tempo, e que ele lia com prazer, no púlpito da sua aula, aquilo sim é palpável, a verdadeira gramática universal, nom seria razõ, n˜e dereyto que no processo de nossa lyçam seiam squecidas aquellas moças que som ˜e estado de virgijndade, das quaes homem pode fallar em duas maneyras — daquellas que teem preposito de guardar virgijndade toda sua vyda por amor de Deos e daquellas que ha guardam ho tempo de seu casamento per ordenãça de seus padres. Não é uma maravilha?, ele perguntava aos alunos, o anfiteatro cheio, um bloco granítico de silêncio. ///Trecho do romance “O Professor”, de Cristovão Tezza

*Reportagem publicada em 12 de abril no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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