Oftalmologista



O inesquecível Detran

O Detran e seus serviços conseguem ser inesquecíveis na vida de um ser humano, pelo menos o humano brasileiro. Maringá, cidade que aniversaria, não merece o Detran que tem. Ninguém merece, afinal de contas.

Quer sentir a impotência diante da burocracia burra? É la no Detran. Sabem do que estou falando quem precisou renovar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) ou resolver algum perrengue com o órgão que trata das coisas do trânsito – esse ingrato.

Como eu, muitos esperam até o última migalha do tempo hábil para renovar a carteira. Para tal, não basta apenas chegar a data de vencimento do documento mas sim esperar os 30 dias restantes da prorrogação. É no último dia que se costuma renovar a bendita. Por ser o último, é agora ou nunca, é viver ou morrer. E não adianta olhar para a fila, desanimar e ‘deixe estar’. Já era o tempo, amigo. É você e o leão dentro da jaula 2 x 2m.

É quando o cidadão que precisa de permissão para sair pilotando motos ou dirigir carros 1.0 comprados em 60x respira fundo e pede pra mocinha bonita uma senha. 47. Só pode ser brincadeira! Cheguei às 9h. Como, em menos de uma hora, 47 pessoas já conseguiram pegar uma senha antes de mim? Só pode ser aleatório. Sendo ou não, só Borges mesmo para consolar na leitura que acalenta um pouco a ansiedade da espera sentado em uma cadeirinha desconfortável do Detran.

Poderia descer parágrafos adoidados só falando de fila hoje. É que isso nem os amigos costumam acreditar. Só vendo pra crer, pode dizer alguns. Mas, pasmem: são umas quatro, cinco filas antes de o processo para a renovação da CNH ser finalizado. É a fila para dizer que você quer renovar, a fila para pagar a taxa que ultrapassa R$ 100, a fila para tirar a foto e passar as digitais num treco que marca as digitais, fila para marcar um horário com uma clínica especializada que fará exame de vista e finalmente fila para fazer o exame de vista. Um dia pode ser pouco para tal. Tem gente que deixa para renovar carteira nas férias. Não tive esse luxo. Precisei chegar atrasado no trabalho. E sair mais cedo também, naquele dia.

Bom: pelo menos a foto até que ficou decente. E desta vez o médico oftalmologista (dizem que em algumas cidades um ortopedista é quem faz o exame) do Detran não me considerou um sujeito de visão monocular. Quem é que enxerga naquela parafernalha velha, suja e enferrujada do Detran que dizem medir sua capacidade de visão? Enfim. Agora já não é mais no Detran que se faz o teste da visão. São em clínicas autorizadas. Para mim, amigo do amigo do amigo que resolve abrir uma pseudo-clínica só para também mamar na teta do Detran. No fim, farinha do mesmo saco: horrível prestação de serviço.

A noite caía e a fila aumentava naquela pseudo-clínica autorizada que fica na zona 02 de Maringá. A atendente, que demonstrava não ter noções básicas de informática, debatia-se com o programa do Detran na tela. O dr. precisou parar de ‘doutorar’ para ver se conseguia ‘operar’ a máquina do PC. Que nada. Apelou-se para a canetada. Próximo: sou eu! Ufa! Finalmente a novela do Detran acabou. Vou enxergar as letrinhas no maquinário e garantir cinco anos de direção segura e defensiva. Lorota. Dia errado. O Detran é mesmo inesquecível.

O dotô disse para mim que preciso ir ao médico e que não enxergo nada. Foi quando fiquei bravo. O Detran não vai me passar para trás de novo, pensei, cheio de razão. Assim como o valente que tira para fora da bainha a faca, tirei violentamente do meu bolso uma carta-recomendação do meu dr. oficial, o grande e honesto oftalmologista Valdir Ishida, confirmando que o paciente “W…” tinha se consultado recentemente e atualizado o grau dos óculos. Esperto que só, o dr. autorizado do Detran imediatamente fez alguma mágica no maquinário e, de uma hora para outra, o cara aqui passa a enxergar as letrinhas no maquinário maldito. “Você que não encostou o rosto direito, patrão. Se cuida hein. Em uma semana sua carteira chega no endereço”, disse o sem-vergonha. Corri dali. Agora, Detran e eu só daqui cinco anos.

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