Olipmíada Rio 2016



Germanizar, jamais

Por Wilame Prado

O futebol continua nos dando lições, veja só. A Alemanha, seleção de futebol que mais viveu intensamente a Copa do Mundo, sagrou-se tetracampeã mundial em solos brasileiros. Os baianos das redondezas de Santa Cruz de Cabrália, que adoraram a presença dos alemães durante o torneio, devem ter comemorado esse título tal qual um hexacampeonato do Brasil, projeto brecado após uma derrota acachapante nas semifinais justamente para eles, os germanos, e cujo resultado não preciso ficar aqui repetindo, não é mesmo?

A Alemanha demonstrou que é possível vencer sorrindo fora de campo e sério pisando no gramado, simples assim. Não precisamos fazer cara feia, chorar para mamar, tentar ludibriar, entrar para quebrar. Basta jogar. Em dias de folga, por exemplo, dois dos grandes atletas da seleção alemã – Neuer e Schweinsteiger – se deixavam ser flagrados nas areias das praias baianas, aprendendo danças típicas, dando autógrafos, curtindo, por que não, um turismo no País. Dentro de campo, não perderam o foco um minuto sequer das partidas que disputaram do mundial.

Os alemães se abrasileiraram e, sem dúvida, se aproveitaram disso também dentro de campo: jogaram como se estivessem em casa. Lukas Podolski, a partir de agora, será nome lembrado em cartórios daqui. Mario Götze fez o gol mais brasileiro na história da Alemanha de todos os tempos: habilidade de Neymar, matando a redonda no peito no tempo certo, e precisão de Pelé, enfiando a bola para a rede argentina. Gostaram tanto do País, esses alemães, que se recusaram a entregar a Copa do Mundo dentro de nossa casa para o nosso maior rival no futebol. Somos eternamente gratos, portanto.

Além de toda essa simpatia que foi capaz inclusive de quebrar o paradigma reinante – o de que alemão é antipático –, muitos agora aproveitam a conquista do título da Alemanha para sugerir à Seleção Brasileira um possível jeito de se voltar a jogar bola de maneira convincente. Erramos nessa tentativa, a meu ver. Tudo bem: elogiemos, sim, o comportamento deles fora de campo e aplaudamos, e muito, o comportamento tático dos capitaneados pelo polivalente Philipp Lahm. Reconheçamos que a frieza, a obediência tática e a determinação da Alemanha em campo resultaram na conquista do título mais importante para o futebol. Ressaltemos também que é muito melhor ter um time de bons jogadores do que ter um apanhado de jogadores medianos com uma estrela brilhante solitária. Agora, germanizar o futebol brasileiro e suas marcantes características, aí acho demais.

Precisamos de um bom técnico e de um bom time. Precisamos de mais atenção dentro de campo e mais estudo sobre os adversários fora de campo. Mas não precisamos deixar de chorar e sentir menos as coisas do nosso Brasil, assim como muitos sugeriram após o aperto passado na vitória, nos pênaltis, contra o Chile, nas oitavas de final da Copa do Mundo. Não podemos só ter isso, mas temos de respeitar e ver a importância de talentos individuais, porque um talento individual brasileiro – essas coisas de Neymar, Ronaldo, Rivaldo, Romário, Zico, Pelé e Garrincha – vale mais que mil palavras, é coisa que o dinheiro não compra.

Não somos imbatíveis, e isso, aos poucos, o País onde nasceu e vive o rei do futebol vai entendendo. Mas temos um futebol diferente, difícil de explicar. É aquela velha história envolvendo quem é esforçado e quem é talentoso nato. O talento, para nós, é natural. Precisamos é nos esforçar um pouco mais, aceitar algumas reciclagens, ter um pouco mais de humildade para também aprender e admirar outros “futebóis”, e não apenas ficar esperando a admiração alheia por nossa genialidade, fintas, golaços, impossibilidades que só são possíveis dentro de campo com a bola nos pés brasileiros.

Se tudo isso acontecer, meu amigo, aí sim será “Rumo ao Hexa”, tudo voltará ao normal, o Brasil voltará a jogar futebol para alemão ver e, finalmente, poderemos ter o mínimo de chances de ganharmos novamente uma Copa do Mundo, lá na Rússia, em 2018.

Ademais, Olimpíada Rio 2016 está logo aí também.

*Crônica publicada nesta terça-feira (15) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

1 Comentário