Pai



Tristeza no jantar

Por Wilame Prado

O pai ficou triste na hora do jantar. Não era a primeira vez que a sua mulher e a sua filha desrespeitavam a mesa sem sequer perceberem tal atitude. Naquela noite de sábado em especial, veja só, ele estava se sentindo confortável com uma felicidade passageira que chegou como a poeira levada pelo vento e que também se vai ao primeiro olhar. Estava gostando do clima, da calmaria. Sentia vontade de agradecer a Deus por poder, em mais um final de semana, estar próximo da família, com comida na mesa, televisão para assistir mais tarde, uma boa cama para se deitar finalmente. Sensações desmanchadas quando notou o desdém que as duas dedicaram às esfihas de carne, queijo, frango e chocolate compradas por ele no disque entrega do bairro, com preço mais acessível que os praticados no centro, nos shoppings e nos restaurantes chiques.

Havia contas a pagar, afinal. A situação financeira da família estava difícil de ser controlada porque ele havia retornado ao mercado e se sujeitado – regras do jogo – a ganhar muito menos do que ganhava na empresa anterior, onde cumpriu expediente religiosamente ordeiro por mais de dez anos antes de ser dispensado. Sentia-se culpado. Percebia (ou seria paranoia?) o olhar de cobrança da mulher e o ar de desprezo da filha quando anunciou a “boa nova”: o fim do desemprego, o cargo de vendedor na loja de departamento e a necessidade de se acostumar a receber ordens e não o contrário, como fazia anteriormente quando era gerente de setor.

Na madrugada, sozinho na sala, permitindo-se uma dose ou duas, colocou em perspectiva tudo aquilo que aconteceu nas horas recentes e que o deixou para baixo: esfihas entregues, mesa posta, comida em cima da mesa, ele tardando alguns minutos para se sentar, a mulher e a filha já devorando pedaços de massa de farinha e água com carne e cebola em cima, as duas falando meio que com a boca cheia, criticando o gosto, a temperatura, a gordura, a imensa quantidade de cebola, a pouca quantidade de carne, e ele ali, ainda de pé, sem sequer ter se sentado à mesa para o jantar de sábado com a sua família, e ouvindo, “a esfiha lá de não sei onde é bem melhor”, “essa esfiha é horrível”, “está fria”, “pega o refrigerante para mim?”, “vou comer a doce já, porque não quero mais dessa salgada ruim”, “credo, que chocolate podre”, “parece manteiga”, “pai, não dá nem pra comer”, “pelo amor de Deus, por que inventou de comprar esfiha neste lugar?” etc.

Em dez ou quinze minutos, a filha foi escapando rapidamente em direção ao quarto, ao encontro do smartphone ou do computador (ele não sabe) e justificando a necessidade de prosseguir com os estudos para o vestibular que estava próximo. E a mulher, alegando cansaço e dor em algum lugar do corpo, foi para o sofá e até que se distraiu um pouco com o humorístico da TV antes de finalmente ir para a cama. E ele, ia perdendo a fome diante da mesa, solitário, esfihas espalhadas nos pratinhos de papelão, copos sujos, uma mancha de molho de pimenta bem ao lado da sua mão direita, na toalha quadriculada, e o fim, por completo, daquela breve sensação confortável de felicidade que havia sentido antes daquele jantar malfadado de sábado à noite.

Antes de se deitar, o triste pai pensou que não era assim que as coisas deveriam acontecer em um jantar de sábado à noite com a família. Antes das críticas, deveria haver agradecimentos, sorrisos fraternos e a reunião de todos iniciando e terminando juntos a nobre tarefa de saciar a fome, de receber os alimentos que propiciam forças e energias para se continuar vivendo e, mais que isso, prazer pelo ato de comer. Elas nem perceberam a tristeza do pai. E ele preferiu não fazer comentário algum, estava cansado. Ao fim da bebida, na calada da noite, prestes a encostar a cabeça no travesseiro, ele finalmente se lembrou do motivo que o fizera comprar esfihas para o jantar daquele sábado em família, em vez de requentar as sobras do almoço.

Caso elas tivessem esperado para que todos jantassem juntos diante da mesa, ele iria dizer para a sua mulher e para a sua filha que estava se esforçando muito no novo emprego, que havia sim dificuldades, que havia sim, por ora, menos dinheiro entrando como remuneração, mas que ele, pelo contrário, não havia perdido as forças, sequer as esperanças de que, com a ajuda da família, conseguiria sim superar as dificuldades, conseguiria crescer na nova empresa e que, não tenha dúvidas, voltaria a ser um gerente de setor, para que pudessem, ele, a mulher e a filha, retomarem rapidamente a qualidade de vida de outrora dentro daquele lar.

Às oito horas da manhã de segunda-feira, à espera dos clientes dentro da loja, ele já não tinha tanta certeza assim de que conseguiria se reerguer profissionalmente.

*Conto publicado terça-feira (22) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Pesos do passado

Por Wilame Prado

Mais da metade do Brasil está acima do peso. Maringá também, segundo pesquisa realizada pela JGV em parceria com o Diário sobre o famoso Índice de Massa Corpórea (IMC). Na pesquisa, 54,2% dos entrevistados maringaenses apresentam sobrepeso ou obesidade. Eu estou acima do peso. Por baixo, uns sete quilos que precisam sumir de minha existência física para que eu não seja mais enquadrado como alguém pesado em excesso. Hora, então, de falar sobre o meu pai.

Era ele quem dizia que eu precisava comer mais, quando criança, para deixar de ser esquelético. Quando ele morreu, há sete anos, eu ainda era magro. O oposto de agora. Certamente, se tivesse medido meu IMC em 2007, o índice seria de magreza ou má-nutrição. Eu era um ser humano com a mesma altura, só que com 20 quilos a menos. Muitos desafios diários envolvendo estágio, faculdade, transporte coletivo e caminhadas. Não havia moto, não havia carro, não havia casamento e, sobretudo, não havia sequer dinheiro para almoçar direito.

Meu pai era gordo. Tinha as pernas finas e uma barriga enorme. Quando a vida ficou bem mais difícil para ele, emagreceu bastante. Mas a barriga nunca sumiu completamente. É estranho pensar sobre a imagem de um pai. Acho que sempre veremos nossos pais como fôssemos crianças e eles uns adultos enormes, cheios de razão, cheios de direitos para com você. Gigantescos. Mas como se apequenam os velhos pais deitados numa cama de hospital… a imagem das mais difíceis para um filho ver.

Ayrton Senna era magrinho. Pudemos ver diversas imagens dele nesses últimos dias. Chorei com rúculas (não estou de regime) na boca enquanto almoçava e assistia, ao mesmo tempo, imagens de um documentário sobre o piloto de Fórmula 1 que nos deixou há 20 anos. Senna parecia ser uma pessoa um tanto especial. Parecia ter urgência de viver, parecia saber que era um missionário e que a sua missão teria um prazo curto de validade. Ele morreu aos 34 anos sem deixar filhos, mas deixando inúmeros fãs e um enorme legado.

Em 1º de maio de 1994, com 8 anos de idade, dei uma dica para a minha família do que seria quando crescesse: jornalista. Sabia o quanto meu pai gostava do Ayrton Senna, e a minha grande missão naquele dia, pelo menos em minha cabeça, seria dar a notícia em primeira mão para ele. Ficaria contente, independentemente da morte do ídolo, quando revelasse a trágica notícia para o meu pai. Corri, então, rapidamente, as quadras que separavam minha casa da de um amigo, local onde havia ficado sabendo do desastre envolvendo o piloto. E, como sempre, meu pai não estava em casa. Nem me lembro do que aconteceu depois, se realmente cheguei a dar a notícia da morte do Ayrton Senna para alguém.

O tempo passou. O tempo passa bem rápido. E, tirando os pesos que costumam se acumular em nosso corpo, as coisas tendem a desaparecer. Os amigos, os ídolos e os nossos pais costumam ir embora, muitos deles para sempre. Há 20 anos, Senna morreu. Há sete anos, meu pai morreu, também em 1º de maio. As lágrimas, no final das contas, sempre cairão no prato de rúcula, assistindo a um documentário ou sentindo a ausência do pai, estando ele vivo ou não. Só que este ano fiz diferente, ou pelo menos quis pensar diferente: sete é um número forte, sete anos é tempo demais, e a data pode pressagiar (tudo depende do seu próprio pensar) novos tempos.

Inicio, então, as despedidas das sombras. A morte do pai fica no passado (essa história que escrevemos todos os dias, para nós mesmos), opto apenas pela vida dele, pela lembrança boa, pela saudade gostosa. Assim, quem sabe, consiga até me reencontrar com as vitórias seguindo os exemplos de determinação e força do nosso querido Ayrton Senna. A primeira batalha? Contra a balança.

*Crônica publicada nesta terça-feira (7) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Não vá embora

Por Wilame Prado

Pai, entre em nossa casa. Deixe esta malinha aí de lado e fique à vontade. Não trouxe shorts? Eu pego uma bermuda minha para você vestir. Sente-se aqui no sofá. Mas, por favor, não repare a bagunça.

Hoje quero te contar sobre as coisas que temos vivido. É uma correria grande, mas feita com muita vontade e carinho. Finalmente nos mudados para o nosso apartamento. Corremos todos os dias, mas com energia, por saber que estamos correndo ao encontro da nossa felicidade. Estamos cansados, mas contentes. A maciez da nossa cama é como um gole de água no deserto. Não tenho tido, ultimamente, energia nem mesmo para sonhar. Minhas noites de sono são utilizadas exclusivamente para descansar.

Aí então acordo, pai, e fico algum tempo olhando ao meu redor. Fico com vontade de agradecer por tudo, por todos, fico feliz por ser teu filho, por ser irmão da minha irmã, por ser filho da minha mãe, por ser marido da minha mulher e por ser amigo dos meus amigos. Vivo momentos de deslumbres, mas que duram pouco. Há sempre alguma coisa para resolver, para ser feita. Dedico poucos, mas preciosos, minutos para pensar em tanta gente que já me ajudou, que passaram em minha vida e que deixaram marcas positivas no meu viver. Penso muito em você, pai.

E lamento o fato de, aliando fobia social com a falta de tempo, não ter visto e nem sequer falado ultimamente com as pessoas que eu amo. Vivo momentos em que a praticidade deve predominar. A máquina não pode parar. Só que as engrenagens precisam de manutenção. O ser humano precisa dos outros, precisa amar e viver momentos felizes compartilhados. Vivemos um tanto isolados, só que a ilha, agora, mudou de endereço.

Sei que essa fase vai passar e que teremos calmaria. Mas há que se ter cuidado, pai. As ondas do mar podem esticar demasiadamente uma reta que liga dois pontos. O senhor sabe bem disso. E preferiu se isolar. É um milagre, na verdade, o senhor estar hoje aqui do meu lado, sentado neste sofá, conhecendo minha casa nova e se divertindo com a minha falta de jeito, com a minha ânsia de querer contar tanta coisa de uma vez só. Logo eu, que nem sou muito de falar. Só pode ser um milagre.

Fique tranquilo, não vá embora tão já. Eu pego um par de chinelos para o senhor se sentir mais confortavelmente bem, assim como fazia quando eu era pequeno e você chegava cansado do trabalho. Não tenha medo. Não contarei para ninguém que o senhor me visitou, mas, por favor, não vá embora novamente. Sei que as suas despedidas costumam ser para sempre, para a eternidade. Não vá embora, eu te imploro: aprendi a cozinhar, gosta de strogonoff? Tome um banho, as toalhas são novas e macias, descanse na minha cama, se precisar usar o computador, a internet já foi instalada. Pagamos um absurdo, mas olha quantos canais nessa televisão, vários em HD. Não vá embora, fique mais, podemos fazer um churrasquinho na área social do prédio amanhã quando eu voltar do trabalho, compro carne de primeira e cerveja gelada. Na mesa de sinuca, a gente duela mesmo sabendo que, mais uma vez, não terá coragem de vencer o próprio filho e fará corpo mole com o taco na mão. Podemos fazer várias coisas ainda, pai. Não vá embora. Não vá embora.

*Crônica publicada nesta terça-feira (21) na Coluna Crônico, do Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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New York, Curitiba

Por Wilame Prado

Lembro-me do meu velho pai todas as vezes em que piso em um hotel. Aliás, posso dizer que, quando estou em hotéis, mais do que lembranças paternas, permito-me reencarnar na figura dele, que morreu há seis anos, naquele inesquecível 1º de maio de 2007. Sou seu único filho homem (reconhecido em cartório), tenho este direito.

A reencarnação começa logo na recepção, quando ouço as atendentes me chamarem pelo sobrenome (que nunca uso, diga-se) e com uma cordialidade incomum em meu dia a dia: “Sr. Elias, queira me acompanhar até o quinto andar, onde fica a sua exclusiva suíte M…”, diz Maíra, simpática moça curitibana, com um suave problema de dicção na voz que a obriga trocar sutil e graciosamente o r pelo l quando conversa.

Em bancos, corretoras de seguro e concessionárias de veículos onde trabalhou em São Paulo (SP), meu pai sempre foi o Elias. Em redações de jornais no interior paranaense, nunca deixei de ser o Wilame Prado, o cara do nome esquisito. No hotel, viro o jovem senhor Elias. Tenho 27 anos. Meu pai morreu aos 49 após Acidente Vascular Cerebral (AVC). Estou pensando seriamente em oficializar a troca de nome; gostei da sonoridade de “Sr. Elias”.

Estou em Curitiba, região central da capital do Paraná, próximo a um shopping que já foi estação de trem. Sou um paulistano natural de Maringá que ganhou um final de semana na suíte exclusiva do hotel com ares nova-iorquinos. Nunca fui aos Estados Unidos, mas assisti a bastantes filmes de Woody Allen. No aposento provisório, em nenhum momento sequer o Sr. Elias se permitiu imaginar-se um estrangeiro. Quartos de hotel são iguais, afinal.

A previsão do tempo havia nos assustado: voltaria a fazer frio. Mas nem deu para apreciar o frio curitibano não. Do avião para o táxi, do táxi para o hotel. Ar-condicionado no quente. Cobertas, travesseiros e cama macia. O conforto de uma Manhattan fictícia e uma vontade de rever algum longa de Woody Allen (dizem que “Blue Jasmine”, filme a estrear este mês no País, promete).

O que mais me emociona em quartos de hotel são as potentes duchas quentes no banheiro. Estar em um hotel é estar fora de casa. Isso já é fator suficiente para ficar pensando mais profundamente na vida. Faço isso debaixo do chuveiro, percebendo a vermelhidão aparecer em meu corpo por causa da quentura da água. As veias que saltam no peito do meu pé, já inchado após quarenta minutos de banho, relembram-me que não sou mais quem eu era antes. Agora sou o Sr. Elias. Tenho os pés inchados do meu pai, mas torço para não sofrer o que ele sofreu (em silêncio) com a pressão alta e dores nas pernas.

Eu calço 41. Sem inchaços, um par de sapatos do número 39 servia perfeitamente bem nos pés do meu pai.

Dizem que muitos escolhem os quartos de hotéis como local para cometer suicídios. Fiquei pensando nessas coisas ruins antes de terminar meu banho e acabei por me recordar de uma noite solitária e triste que passei no 23º andar de um hotel paulistano, há alguns anos. Olhando para baixo, da janela do quarto, a imensidão de toda aquela visão fazia dicotomia com o vazio inexplicável que atingia o meu peito naquele instante, em minha cidade natal, tão perto de mim e tão longe de todo mundo. Naquela noite, após uma ducha quente e demorada, não tardei a dormir confortavelmente em cima de uma cama que mais parecia uma jangada espaçosa.

Dificilmente alguém vai se matar após um revigorante banho quente.

Nessa última viagem, havíamos planejado restaurantes bem conceituados, passeios a céu aberto, guloseimas, presentes, caminhadas, fotos, sorrisos e abraços em praça pública. Queríamos uma Curitiba de peito aberto só para nós, local onde pretendíamos reinventar uma lua de mel que nunca existiu. O Sr. Elias e a sua mulher, confortavelmente instalados na suíte 502, mereciam mais do que os ovos mexidos e o bacon no café da manhã, o café expresso à vontade no andar do quarto e a champagne no cair da tarde. Mas nada disso foi possível. Deixamos Curitiba para mais tarde, para outros finais de semana. É que somos exibidos e desdenhamos da capital. Preferimos ficar na Manhattan fictícia consumindo duchas e travesseiros tão distantes dos nossos.

Trancafiado em um quarto de hotel, em suas muitas horas de sono deitado em cama confortável de hotel, o Sr. Elias pensou que teria sido legal ter sonhado com o pai já falecido. Mas não sonhou com ninguém e nem mesmo com lugares, como o Central Park ou o Jardim Botânico. E então se despediu da cidade grande rumando a Maringá em uma noite chuvosa de domingo. New York, New York. Curitiba, Curitiba.

*Crônica publicada nesta terça-feira (8) na coluna Crônico do caderno Cultura, do jornal O Diário de Maringá

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O pai, o filho, a moça e o camaro amarelo*

Por Leandro Veras*

Um rapaz, cuja idade não foi divulgada, está andando pela cidade e tirando a maior onda com um carrão de duzentos mil reais que comprou recentemente só para impressionar uma moça que, aparentemente, não queria nada com ele até bem pouco tempo atrás. Segundo pudemos apurar, a moça teria desprezado o coitado só porque ele andava com uma CG Titan, provavelmente de 125 cilindradas, que não chama a atenção de ninguém (exceto de alguns trombadinhas).

Agora, o que impressiona mesmo nessa história, é como ele ganhou o dinheiro para comprar o carrão. De acordo com as palavras do próprio rapaz: “Aí veio a herança do meu ‘véio’,/ Resolveu os meus problemas, minha situação/ E do dia pra noite fiquei rico/ Tô na grife, tô bonito/ Tô andando igual patrão.”

Como podemos ver, o pai dele MORREU e o insensato em vez de ter ficado triste com isso, não, se apressou logo em, “do dia pra noite”, meter a mão na grana do “véio” (que talvez tenha batalhado a vida inteira para construir um patrimônio).

Mas a história não termina aí e é cheia de mistérios.

Primeiro, não sabemos se o “véio” morreu de fato ou se apenas adiantou a herança para o filho, como naquela história bíblica. Segundo, por que será que um sujeito cheio da grana (afinal, não é qualquer um que deixa ou adianta uma herança dessas para um filho) permitia que o seu moleque andasse por aí de CG? Por que será que ele não dava logo uma Kawasaki pro garoto tirar onda com as “mina”? Ou quem sabe uma Hayabusa? Certamente a moça não o teria esnobado!

Temos algumas hipóteses: como vimos, o “véio” até podia bancar a vida boa do filho, mas não o fazia. Por quê? Talvez porque esse pai fosse daquele tipo de empresário de classe média que saiu de baixo, comeu o pão que o diabo amassou, lutou, batalhou 10, 12, 16 horas por dia para construir seu patrimônio e não concordava com o estilo de vida do filho. Aliás, é isso que nos faz crer que o “véio” tenha mesmo batido as botas.

E que estilo de vida seria esse? Ao que tudo indica, o moleque é um desses boyzinhos mauricinhos, mimados pela mãe, que não tem nada na cabeça e não faz a menor ideia do que seja dar valor ao trabalho (muito menos o trabalho dos outros!). Afinal, que ideia podemos fazer de um sujeito que anda por aí dizendo coisas do tipo:

“Agora eu fiquei doce, doce, doce, doce/ Agora eu fiquei dododododoce, doce [2x]/ Agora eu fiquei doce igual caramelo/ Tô tirando onda de camaro amarelo/ Agora você diz: ‘Vem cá que eu te quero!’ Quando eu passo no camaro amarelo”?

É possível também que o pai fosse um tirano malvado, desses que fazem questão de que o filho assuma os negócios da família enquanto o garoto quer tocar violão e passear de moto com a namorada, sentindo o vento na cara como forma de liberdade. Daí viria, então, sua rebeldia, só para contrariar o “véio”.

Mas isso são só conjecturas que não encontram respaldo no relato conhecido e difundido pela mídia.

Também não podemos esquecer da tal moça. Considerando as palavras do rapaz, e é só com base nisso que podemos afirmar qualquer coisa (como, aliás, aconteceu com aquela Capitu), ela não passa de uma interesseira esperando algum novo rico para dar o bote. Senão, “Quando eu passava por você na minha CG/ Você nem me olhava/ Fazia de tudo pra me ver, pra me perceber/ Mas nem me olhava”

Hoje, após a provável morte do pai e o lance da herança e do carrão, nos conta o “Sr. agora eu fiquei doce” a respeito da moça: “Agora você vem, né?/ E agora você quer, né?/ Só que agora vou escolher, ta sobrando mulher.”

Mas ela se deu mal! É óbvio que o rapaz não ia querer compromisso agora que “tá sobrando mulher”.

A história ficou famosa, mas parece que ninguém ainda se deu conta dos detalhes absurdos (e sórdidos, inclusive, podemos afirmar) nos meandros deste enredo aparentemente tão leve e inocente.

*O texto de Leandro Veras foi publicado no D+, caderno do Diário de Maringá, em 7 de julho de 2013

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Estrelinha de Jesus Cristo

O telefone toca de madrugada. A notícia ruim que vem em meio à escuridão de um quarto cheio de fantasmas. A voz é firme e parece de gente que tem o dever de anunciar a morte. A morte anunciada. A vida que pode se transformar na crônica de uma morte anunciada. Os bons morrem jovens, é o que diz a música, ou o ditado, ou sei lá o quê. Tenho minhas dúvidas. Os bons morrem a toda hora. Todo mundo morre a todo instante. A morte que resulta em lágrimas, nostalgia, saudade daquilo que ainda nem foi vivido, corpo judiado pelo impacto, alma que se esvai, corpo que fica, debaixo da terra.

Além de todas as lembranças com aquele que morreu, o barulho do caixão sendo arrastado no chão e os punhados de terra arremessados para dentro da cova costumam ficar guardados na memória para sempre. O beijo da filha no corpo que se despede, a mesma criança que acredita que o pai se tornou uma estrelinha de Jesus Cristo, também é uma imagem marcante. Os seres humanos, incapazes de lidar friamente com despedidas eternas, costumam ficar marcados com os cercamentos da morte e de todos seus rituais.

É como um filme de terror, só que de verdade. As imagens, em flashes de pensamentos turvos, são intermitentes na cabeça. A imaginação do inimaginável. A colisão violenta, vida que se vai como um sopro, metais retorcidos, vidros quebrados, roupas rasgadas e ensanguentadas, ossos quebrando, peles gastando e uma dor incalculável para quem não morreu e que agora precisa velar e enterrar um corpo maltratado pela insanidade resultante dos mais absurdos dos acontecimentos: um trágico acidente de trânsito.

Ninguém nasceu para morrer em um acidente. Carros e motos são armas de destruição em massa na guerra violenta do trânsito em rodovias, estradas, ruas e avenidas. Ninguém nasceu para viver tão pouco. Ninguém merece as complicações psicológicas acontecidas depois da morte trágica do filho, do pai, do amigo. Olha o que fizeram com o menino! Olha como deixaram o menino! Para quê, meu Deus, tamanha violência com aquele que ainda tinha a existência?

Fizeram a barba dele para o velório. Colocaram uma camisa listrada bonita. E ele descansa deitado, confortavelmente em meio às flores, em meio aos entes queridos. Nunca mais vamos saber da existência dele, pelo menos não aqui na Terra. Ele não comemorou o Natal. Não vai brindar na virada de ano. Fazia um vento estranho somente na rua da capela mortuária. Na manhã do enterro, um dia exageradamente claro, fez sol e calor. Rosas foram jogadas. O caixão foi enterrado. Todos deram as costas e se dirigiram rumo ao grande portão do cemitério. Quem não morreu ainda precisa continuar vivendo. Os anos vão se passar e só em datas especiais algumas pessoas vão retornar ao cemitério para ver o jazigo. Isso pouco importa. Para ela (o seu maior feito em vida), agora seu pai é uma estrelinha de Jesus Cristo. E ninguém aqui na Terra pode mudar isso.

*Crônica publicada nesta quinta-feira (27), no caderno D+, do Diário de Maringá

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Quis não ficar triste nesse Dia dos Pais *

Ontem, domingo, Dia dos Pais, como não fazia há muito tempo, trabalhei. Em uma época amarga da minha vida, tinha de trabalhar quase todos os sábados e domingos fazendo atendimento por telefone para o corpo técnico de uma operadora de telefonia.

Foram naqueles dias, quando tinha de trabalhar no domingo, voltar para a casa e ficar sozinho esperando a segunda-feira chegar, sem crédito no celular, sem telefone fixo, sem internet e sem companhia, extremamente só em um apartamento sujo, com um carpete mais que sujo, que, exatamente em uma noite de domingo, meio fria, meio quente, olhei para uma estrela e quis acreditar que, conversando com ela, poderia perfeitamente traçar uma comunicação com o meu velho e distante pai.

Acho que foi em 2006. O velho ainda não tinha morrido, mas era como se estivesse morto, já que ele, perdido nas noites sujas da grande São Paulo, quase não dava notícias suas. E como eu queria, naquela noite de domingo, dizer para o meu pai que eu odiava ficar sozinho enquanto passava o Fantástico na TV. Como eu queria convidá-lo para irmos a um bar qualquer e, como nos velhos tempos, ele pedir uma cerveja e eu, uma coca-coca bem gelada e um Suflair para mais tarde. Como eu queria vê-lo abrir a porta da sala, ir para a cozinha, cortar fatias de salame, jogar um limãozinho em cima e dizer assim: “come Jr., que tá gostoso”.

Neste último Dia dos Pais, neste último domingo, quando finalmente voltei a trabalhar em um domingo, quase não me lembrei do velho. Estava feliz por estar aprendendo coisas novas, um tipo de trabalho novo. Neste domingo, indo para o trabalho, percebi que estava quente, clima agradável, sol amigo, crianças brincando no parque, pais e filhos andando juntos, atletas jogando bola na quadra e uma Avenida Brasil absolutamente vazia.

Neste domingo, indo para o trabalho, vendo os filhos de Maringá comemorando a data festiva com os pais de Maringá, não fiquei triste, pelo menos não quis ficar triste. É que, justamente por estar trabalhando, pensei que, talvez, da onde estivesse, meu pai devia estar orgulhoso de mim, um cara indo indo trabalhar em pleno horário de jogo de domingo.

Quis não ficar triste no último Dia dos Pais porque sei que, mesmo aquelas pessoas que sempre destacaram os defeitos do meu velho, mesmo seus inimigos ou aqueles que acabaram sofrendo com algumas atitudes dele, absolutamente todos sempre disseram que uma de suas maiores virtudes era a sua plena disposição para o trabalho – podia ser sábado, domingo, feriado, na semana, qualquer dia que fosse, se tivesse trabalho, meu pai trabalhava, e isso ele fez dos 11 ou 12 anos até os 49, quando veio a falecer, curiosamente no Dia do Trabalho, em primeiro de maio de 2007.

Por isso mesmo, quis não ficar triste no Dia dos Pais, em que passei trabalhando e tentando, pelo menos nesse aspecto, seguir os passos do meu velho, sempre trabalhando. Afinal, é isso o que me resta: trabalhar e, graças a Deus, trabalhar com aquilo que realmente gosto de fazer, que é escrever. E, vez ou outra, também olhar para a estrela e tentar conversar com as pessoas que eu amo tanto, mas que insistem em viver a anos-luz de distância de mim.

*Crônica publicada dia 9 de agosto de 2010.

**E estou cá no trabalho em mais um domingo, em mais um Dia dos Pais, graças a Deus.

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O mar, o homem e o filho*

O homem andou por andar, andou. E parou na beira do mar. Um assovio, os pés descalços na areia. O barulho das ondas. Um aquário gigante e infinito que permite pescar a vida toda. Ele andou por andar e, de tanto andar, encontrou o mar. E de perto dele não quer mais sair. Dorival Caymmi sempre está certo. Um assovio. A bela canção vai começar. O músico está certo: quem vem pra beira do mar nunca mais quer voltar.

E é perto do mar que o homem faz sua história, sua vida. Ao interior, onde o mar é roxo e tem gosto de terra e de soja, palco de sua criação e de seu espichar, voltou só para buscar um amor e logo a levou bem pra perto do mar. Um homem precisa do mar, mas precisa de um amor também para mostrar a beleza do mar.

Vendo boniteza em tudo é que o homem sai para trabalhar. E como é lindo, para ele, acordar e ver o topo de uma serra, lá no alto, que o faz lembrar que o mar está perto. São poucos quilômetros, de carro alguns minutos, uma considerável caminhada a pé, e o mar aponta no horizonte de águas salgadas. O cheiro e a maresia não respeitam fronteiras e chegam a sua casa como marca registrada.

Casa, animais de estimação, amor e trabalho. É isso o que tem na vida. E ele é feliz por tanto andar e finalmente encontrar a paz do viver bem perto do mar. Talvez ainda não saiba, mas é Caymmi quem diz: todo caminho dá no mar.

Para muita gente, a vida é como a onda do mar. Leva. Traz. E um dia o homem que foi pra beira do mar e que nunca mais voltou para o sertão mostrou aos seus amigos uma avenida que a chamam de Atlântica. Da avenida, dá pra ver areia, dá pra ver o mar de Santa Catarina. E dá pra ver o sorriso da moça bonita que passa. E dá pra ver a vida que pulsa em tons de jovialidade naquela turma de rapazes. Dá pra ver, da avenida Atlântica, na beira do mar, que todos nunca mais querem voltar.

O homem, quando se está perto da beleza litorânea, perto do mar que quando quebra na praia é bonito é bonito, começa a sonhar mais alto. Ele olha pra imensidão aquática, olha pra liberdade existente só naquele aquário de Deus e fica sonhando acordado com um barco. Mas logo se lembra dos dois amores que tem o pescador. Ah, grande Caymmi. Ele quer pescar (uma forma de estar conectado com o mar), mas quer ficar juntinho também com o bem da terra, que fica na beira da praia, chorando baixinho de saudade fingindo não chorar.

Nessas idas e vindas, nesse leva e traz das ondas, ora estando mais perto dela ora estando mais perto dele, do mar, ele segue a vida e, mesmo com as dificuldades que parecem querer provar que nada ainda está ganho, ele não sente dificuldades em sorrir.

O mar é doce. Mas deixa saudades. E, ainda que perto, às vezes pode ficar muito longe. É por uma boa causa. Neste mês de julho, completam-se nove meses que ele não vai pra beira do mar. Mas há dois amores (ou agora seriam três?)! Noites frescas em uma casa que fica bem perto do mar, o doce mar. E a vida também é doce. E pode ser sempre melhor. E é isso o que pensa o homem. A vida pode ser sempre melhor, ainda mais na beira do mar. Ele não desistiu do barco, continua sonhando acordado. Talvez mande pintar nele o nome do seu primeiro filho e futuro parceiro de pescaria: Lorenzo.

*Crônica publicada dia 5 de julho na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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O sol é que salva*

O silêncio da madrugada é uma companhia ingrata. Ele abre a janela para deixar que o vento frio do outono lhe dê tapas em sua cara. É uma forma de se sentir menos sozinho. Do alto, ele pode ver muita coisa, mesmo estando tão para baixo. Está no quinto andar de um prédio pintado de verde e cinza. Às 4h da manhã, todos dormem e, por isso, ninguém vai reclamar das cinzas de um cigarro que flutuam no ar.

Um homem solitário sorri quando ouve a descarga de um apartamento vizinho. O céu está negro. Nem as estrelas te acompanham nesta jornada solitária pela madrugada. É inevitável: ele acaba se lembrando do pai morto, mesmo com a distância das estrelas mortas. O jeito é olhar para o infinito e concluir que pensar no futuro não é algo que lhe fará sorrir.

Ele ouve um blues e torce para que, nesta vida, não lhe reste apenas um tango argentino. Frio. Solidão. Tristeza. Depressão. Simples palavras que, justamente pela simplicidade, não conseguem traduzir o que é olhar para os lados e ver somente a branquidão das paredes frias. A televisão está no mudo. A partida de futebol reprisada fica mais bela quando quieta. Um time italiano de que tanto gosta vem perdendo mais uma partida. Perdas. E os danos.

Perdemos, a cada dia, um dia de vida. A morte se aproxima. E os vícios fazem com que nos aproximemos ainda mais dela. Mas está tudo bem, está tudo certo. A sociedade capitalista e consumista nos conforta com o poder de compra. A lata de cerveja é barata e o maço de cigarro que se esvai é algo que as notas de dinheiro contidas dentro de sua carteira podem pagar.

Uma ponta de esperança invade o ser daquele homem justamente quando as badaladas de uma igreja localizada há mais de cinquenta quilômetros de distância batem. Se tem alguém acordado naquela pequena cidadezinha às 4h da manhã deve ter ouvido as quatro badaladas. Ele não ouviu, mas, justamente neste horário, quando deveria estar dormindo há algumas horas, um fio de esperança bateu em seu peito e mandou deixar recado. Ligeira, a esperança disse: “volto logo”.

Ele olha um prédio que, há alguns meses, não existia. A construção em Maringá acontece com a rapidez da velocidade da luz. Se aquele prédio foi erguido em tão pouco tempo, pensa, a arquitetura do seu crescimento pode também ser projetado. O problema é que quanto mais perto do céu, no quinto ou no vigésimo andar, ele se sente cada vez mais distante da vida. Aquele prédio luxuoso tapou sua visão, escondeu a estrela distante e deixou, mais do que nunca, suas estrelas apagadas e seus mortos saudosos ainda mais longínquos.

É hora de fechar a janela, interromper os tapas dos ventos outonais e se entregar à quietude de uma insônia pré-fabricada. E não vai ter livro, fone de ouvido ou cobertor que possam amenizar a dor de um homem que sobrevive na madrugada sem carinho, sem mulher, sem mãe, sem irmã, sem amiga, sem luz que não seja artificial, sem a estrela morta que outrora brilhava a lembrança dos seus mortos. Ele está no quinto andar, sozinho e totalmente entregue a uma tristeza incalculável. Ele olha para baixo, mas decide não se jogar porque sabe que, em menos de três horas, o sol vai aparecer, vai aquecê-lo e transformar toda aquela quietude fantasmagórica da madrugada em mais um dia de labuta.

*Conto publicado dia 24 de maio de 2011 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Homem frio*

Então o homem voltou a sentir frio. É engraçado, pensa, o fato de poder ver o sol raiando e, mesmo assim, sentir frio. É como se o sol estivesse preso dentro de uma televisão: nós conseguimos visualizar a sua beleza clareadora, mas não podemos senti-la. Culpando-se por ter duvidado da capacidade daquelas temperaturas e dispensando o par de luvas, o homem segue o seu caminho, sentindo muito frio e ressentimento. O sol da manhã iluminou um trecho pequeno no chão. Ele fica naquele quadrado amarelado pelo sol. Mas não tem jeito. O frio venceu em uma daquelas primeiras manhãs do mês de maio.

Um homem, quando está com frio, sente o corpo reagindo às baixas temperaturas e, por isso mesmo, recorda-se de que está vivo. Acostumado às mangas curtas, aquele vento que parece lhe atravessar a alma o obriga a vestir blusas acolhedoras. Neste frio, pessoas cheiram à naftalina misturada com perfumes. É uma evidência de que quase todos resgataram blusas de outros invernos, até então enterradas em um guarda-roupa qualquer. Quando sentindo frio, um homem parece ficar diminuído, contraído, com expressões estáticas que demonstram inquietação perante aquela temperatura.

Mesmo com tanto incômodo causado pelo frio, uma reflexão invade o pensamento daquele homem. Se frio é psicológico ele não sabe, mas, por causa daquele intrínseco pensamento que tinha se afundado, aqueles pouco mais de três minutos de dialética interna não foram interrompidos por queixas relacionadas à temperatura, ao clima que resseca a pele pálida e frágil dele. O homem reflete sobre as diferenças de alguém que sente frio com alguém frio. Um homem que sente frio é mais frágil e defensivo do que o homem frio, que parece se aquecer com a sua capacidade de se abster de toda e qualquer situação envolvendo as coisas do coração.

Um homem frio não quer nem mesmo demonstrar que, mesmo com aquelas baixas temperaturas, teria sido mais reconfortante estar usando um par de luvas que agora repousa na gaveta. Um homem frio perdeu seu pai há exatamente quatro anos. Um homem morto deve não sentir frio. Um homem vivo sente frio nas mãos e se entrega às lembranças de uma infância ao lado de um pai que sempre demonstrou sentir pouco frio. O homem queria ser mais frio e não um homem que sente frio. Uma frase do tempo de criança o faz chorar: “põe a blusa, Juninho”. Algumas lágrimas aquecem seu rosto castigado pelo vento frio. Mas homem não chora nem por dor e nem por amor. Chora sim pela morte do pai. “Por que me abandonaste, ó pai?”, recorda-se de outra frase.

O pai dele morreu no dia do trabalho. O pai dele morreu no mesmo dia da morte de Ayrton Senna. O piloto ganhou documentário que foi para as telas do cinema. Dizem que todo mundo chora ao assistir ao filme. Até mesmo os homens frios, que costumam adorar Fórmula 1. Homem nenhum fez documentário sobre a vida do seu pai. Aliás, homem e nem ninguém foi ao cemitério visitar seu pai, que descansa ao lado do seu avô. Fez frio naquela manhã de domingo. Seu pai não gostava muito de cinema, mas gostava de Fórmula 1. Se vivo estivesse, seria um homem frio a mais tentando esconder as lágrimas após assistir ao documentário do Senna.

*Crônica publicada dia 3 de maio de 2011 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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