Pig Brother



Coluna Estante – Nakasato no Enem, Drummond, Assunção, Rebinski e prêmios literários

Por Wilame Prado

NAKASATO NO ENEM Quer ir bem no Enem? Leia mais! Uma das questões da prova aplicada no último fim de semana foi referente à “Nihonjin”, romance do maringaense Oscar Nakasato.

PAI O jornalista da CBN Maringá Victor Simião descobriu que a própria filha do Nakasato, a Tama, 15, fez o Enem e achou a questão envolvendo o livro do pai um tanto complexa. Na questão, havia um generoso trecho de “Nihonjin”.

DRUMMOND DEU AVAL O escritor de Londrina e radicado em São Paulo Ademir Assunção mostrou antigo cartão esta semana em seu Face. Nele, Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores poetas brasileiros, elogiava material literário de Assunção. O cartão é de 30/11/1983: relíquia.

PIG BROTHER Por falar em poesia e por falar em Ademir Assunção, o seu ótimo “Pig Brother” (Patuá) é finalista do Prêmio Jabuti na categoria Poesia. Li e recomendo.

CÁLCULO POÉTICO E ainda sobre Drummond, vale a leitura da reportagem da revista piauí de outubro sobre Manolo, genro argentino do poeta que deixou livro inédito sobre as rimas e métricas drummondianas. Nos cálculos de Manolo, Drummond escreveu 38 mil versos, dos quais apenas 13,66% eram rimados.

ESTREIA O jornalista curitibano Luiz Rebinski Junior, da Biblioteca Pública do Paraná, estreará na literatura. O romance “Um Pouco Mais ao Sul” (edição própria) será lançado em Curitiba no dia 19 de novembro.

PRÊMIOS Até 30 de novembro, estão abertas as inscrições para o Prêmio Kindle de Literatura, na categoria Ficção/Romance. Vencedores receberão R$ 20 mil. Mais informações: www.amazon.com.br.

PRÊMIOS II E nas categorias Conto, Poesia e Literatura Infantojuvenil, estão abertas – até 12 de dezembro – as inscrições para o Prêmio Off Flip, que oferta aos escribas agraciados R$ 30 mil em dinheiro, além de residência literária em Paraty. Regulamento: www.premio-offflip.net.

*Coluna Estante sai às quintas-feiras no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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‘Não sou um autor de best-seller nem de livrinhos de colorir’ – Ademir Assunção

Ademir Assunção: dois livros, dois mundos

Ademir Assunção: dois livros, dois mundos

Por Wilame Prado

O escritor Ademir Assunção lançou recentemente dois livros pela Editora Patuá, “Pig Brother” e “Até Nenhum Lugar”, ambos de poesia. Semana passada, ele lançou os livros no Londrix – Festival Literário de Londrina. Sobre as suas mais recentes obras e sobre o cenário atual da poesia brasileira, o vencedor do Prêmio Jabuti em 2013 concedeu entrevista:

Por que resolveu lançar os dois de uma vez? Tem a ver com os conteúdos: um mais porrada e outro mais lírico?
ADEMIR ASSUNÇÃO – Sim. Pig Brother é um poema longo, muito influenciado por minhas leituras sobre xamanismo, de um lado, e pela brutalidade humana, de outro. Procurei enfocar o lado selvagem, obscuro e violento desse mundo cheio de insensatez. Guerras, chacinas, linchamentos, torturas, tráfico de órgãos, intolerâncias, incitações ao ódio não são experiências agradáveis, mas a arte não pode se furtar de abordá-las. O livro acabou ficando barra-pesada, reconheço. Por isso decidi publicar também Até Nenhum Lugar, que é muito influenciado por minhas experiências com o zen, com uma visão mais sutil sobre a vida. Não diria que é um livro lírico. Diria que é o outro lado da moeda. A espécie humana é capaz das maiores delicadezas e das piores atrocidades. O que leva o pêndulo a oscilar, o tempo todo, para um lado e para o outro? Há motivações políticas, econômicas, religiosas, mas, do ponto de vista, digamos, espiritual, ou ontológico, se quiserem, essa “oscilação” é um mistério para mim. Por que enquanto uns tratam de criar outros tratam de matar?

Explique o criativo título “Pig Brother”.
Em vez de explicação, deixo em aberto para interpretações. Há uma referência clara ao clima de opressão do Big Brother, de George Orwell, e também ao exibicionismo babaca do Big Brother Brasil da TV Globo. Ao mesmo tempo, Pig Brother é a personificação de uma entidade xamânica. O xamanismo nos leva a encarar o lado obscuro, o pavor, a doença, para tentarmos superá-la. Mas que cada um leia e faça sua própria interpretação.

Seria um livro apocalíptico?
Não cabe a mim anunciar nenhum apocalipse. Simplesmente procurei jogar uma lente de aumento sobre situações com as quais convivemos cotidianamente. O cenário do poema é realmente chocante: o trânsito das cidades está paralisado, a Baía da Guanabara é uma crosta de óleo fétido, os rios são esgotos a céu aberto, a violência explode em todo canto. Acrescentei mais alguns pequenos detalhes: o céu é de lata, as árvores são de alumínio, o ar é quase irrespirável, as pessoas não conseguem sentir mais absolutamente nada. Isso torna o livro apocalíptico ou há um apocalipse pairando no horizonte dessa sociedade de consumo desenfreado que estamos vivendo?

Seria um livro que não dá salvação aos seres humanos?
Minha linguagem é a linguagem artística. Não sou pastor nem profeta. Não vendo ilusões. Penso que a arte pode abrir os olhos das pessoas, pode fazê-las enxergar melhor o que não estão enxergando com nitidez. Veja: durante o processo de criação do poema, caminhava muito pela cracolândia de São Paulo e por bairros periféricos da cidade. Não é um cenário que prima pela beleza e pela suavidade. Por outro lado, lia aquelas instrutivas revistas que mostram a frivolidade do mundo das celebridades. De um lado, pessoas se arrastando como zumbis, vivendo em condições precárias, de desespero total. Por outro, celebridades de papelão, vazias, dando opinião sobre tudo, da política ao sexo anal. Achei que deveria trazer esse inferno para dentro da tradição da poesia brasileira. Por que? Bem, porque ele existe e alguém precisa falar dele.

Em “Pig Brother” há claras referências à noite paulistana e carioca. Como é a sua relação com essas cidades, com essas noites?
Minha relação é a de uma pessoa que procura se manter o mais atento possível. Tenho a impressão de que estamos perdendo a noção do que é real, do que é imagem, do que é falsificação. De fato, em Pig Brother há muitas referências a bairros, ruas e inferninhos, principalmente de São Paulo e do Rio de Janeiro, mas também de Porto Alegre, de Buenos Aires e uma ou outra cidade. Isso porque queria deixar o mais concreto possível o ambiente em que os personagens se movimentam, queria trazer esses cenários para bem perto do leitor. Minha intenção era deixar uma dúvida: mas, caramba, tudo isso está se passando no futuro ou neste tempo presente? Se as pessoas saírem da leitura com esta dúvida, sinal de que funcionou.

Parabéns pela capacidade de construção imagética com os versos. Na sua opinião, é preciso muito treino ou muitas vivências para conseguir isso na poesia?
Creio que sim. É preciso muita leitura, muito treino, muita observação e muitas vivências. Eu procurei esse efeito: um fluxo incessante de imagens despejadas na cabeça dos leitores. Não me preocupei tanto com a ação dos personagens. Não existe uma narrativa linear de episódios. Existe esse fluxo de imagens, quase sempre tenebrosas, com uma luz opaca, eu diria, se fosse um cineasta. Mas sou um poeta, minha matéria prima é a palavra. Neste livro, talvez eu me comporte como um poeta querendo fazer cinema.

O leitor que quiser comprar, só no site da Patuá?
Sim, a venda dos dois livros, tanto Pig Brother, quanto Até Nenhum Lugar, está sendo feita somente pelo site da Editora Patuá. Parece que as condições impostas pelas grandes redes de livrarias são desvantajosas para as pequenas editoras. A venda via site está se tornando uma saída viável para editores, autores e leitores interessados. Deve crescer muito mais nos próximos anos.

Como foi esse processo com a editora, e a tiragem curta de 150 exemplares?
É realmente chocante que em um país com 200 milhões de habitantes livros importantes saiam com tiragem inicial de 150 exemplares, não é? Mas é assim que as coisas estão funcionando. Não adianta fazer grandes tiragens se não há locais para colocá-los a venda. Não sou um autor de best-seller nem de livrinhos de colorir. De qualquer modo, a primeira impressão dos dois livros já se esgotou e a gráfica está rodando a segunda. Conforme vai saindo, vai-se imprimindo mais exemplares. As novas técnicas de impressão tornaram esse processo mais barato e evita-se gastos com estocagem. Aos poucos, meus livros vão se tornando tão conhecidos quanto os bons livros das grandes editoras.

O que é ganhar um Jabuti?
Ganhar um Jabuti? É um reconhecimento bacana, importante. Mas não mudou minha vida em nada. Continuo bebendo nos mesmos bares, com os mesmos amigos. Se fosse um Nobel, que está em torno de 1 milhão de euros, se não me engano, eu poderia viver o resto dos meus dias numa praia, me dedicando integralmente à leitura e à escrita.

O que é fazer poesia no Brasil?
Fazer poesia, para mim, é uma necessidade vital, quase como respirar. Acho que não seria diferente se vivesse na Dinamarca, Rússia ou Itália. Não tenho dúvidas que minha vida seria bem mais pobre sem a leitura e a escrita de poesia. É uma poderosa ferramenta de percepção.

Como estamos de poetas?
Muito bem. Há ótimos poetas vivos escrevendo com sangue, com pegada forte, com sutileza, sobre você, leitor, sua irmã, seu vizinho, sua namorada – mesmo que vocês não saibam disso. Viver na mesma época de Geraldo Carneiro, Glauco Mattoso e Alberto Lins Caldas, por exemplo, é um privilégio.

Fale dos próximos projetos.
Passar uma boa temporada na praia, pisando descalço na areia, namorando, de papo pro ar, sem nada pra fazer.

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