Poesia



Coluna Estante – Nakasato no Enem, Drummond, Assunção, Rebinski e prêmios literários

Por Wilame Prado

NAKASATO NO ENEM Quer ir bem no Enem? Leia mais! Uma das questões da prova aplicada no último fim de semana foi referente à “Nihonjin”, romance do maringaense Oscar Nakasato.

PAI O jornalista da CBN Maringá Victor Simião descobriu que a própria filha do Nakasato, a Tama, 15, fez o Enem e achou a questão envolvendo o livro do pai um tanto complexa. Na questão, havia um generoso trecho de “Nihonjin”.

DRUMMOND DEU AVAL O escritor de Londrina e radicado em São Paulo Ademir Assunção mostrou antigo cartão esta semana em seu Face. Nele, Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores poetas brasileiros, elogiava material literário de Assunção. O cartão é de 30/11/1983: relíquia.

PIG BROTHER Por falar em poesia e por falar em Ademir Assunção, o seu ótimo “Pig Brother” (Patuá) é finalista do Prêmio Jabuti na categoria Poesia. Li e recomendo.

CÁLCULO POÉTICO E ainda sobre Drummond, vale a leitura da reportagem da revista piauí de outubro sobre Manolo, genro argentino do poeta que deixou livro inédito sobre as rimas e métricas drummondianas. Nos cálculos de Manolo, Drummond escreveu 38 mil versos, dos quais apenas 13,66% eram rimados.

ESTREIA O jornalista curitibano Luiz Rebinski Junior, da Biblioteca Pública do Paraná, estreará na literatura. O romance “Um Pouco Mais ao Sul” (edição própria) será lançado em Curitiba no dia 19 de novembro.

PRÊMIOS Até 30 de novembro, estão abertas as inscrições para o Prêmio Kindle de Literatura, na categoria Ficção/Romance. Vencedores receberão R$ 20 mil. Mais informações: www.amazon.com.br.

PRÊMIOS II E nas categorias Conto, Poesia e Literatura Infantojuvenil, estão abertas – até 12 de dezembro – as inscrições para o Prêmio Off Flip, que oferta aos escribas agraciados R$ 30 mil em dinheiro, além de residência literária em Paraty. Regulamento: www.premio-offflip.net.

*Coluna Estante sai às quintas-feiras no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

1 Comentário


‘Não sou um autor de best-seller nem de livrinhos de colorir’ – Ademir Assunção

Ademir Assunção: dois livros, dois mundos

Ademir Assunção: dois livros, dois mundos

Por Wilame Prado

O escritor Ademir Assunção lançou recentemente dois livros pela Editora Patuá, “Pig Brother” e “Até Nenhum Lugar”, ambos de poesia. Semana passada, ele lançou os livros no Londrix – Festival Literário de Londrina. Sobre as suas mais recentes obras e sobre o cenário atual da poesia brasileira, o vencedor do Prêmio Jabuti em 2013 concedeu entrevista:

Por que resolveu lançar os dois de uma vez? Tem a ver com os conteúdos: um mais porrada e outro mais lírico?
ADEMIR ASSUNÇÃO – Sim. Pig Brother é um poema longo, muito influenciado por minhas leituras sobre xamanismo, de um lado, e pela brutalidade humana, de outro. Procurei enfocar o lado selvagem, obscuro e violento desse mundo cheio de insensatez. Guerras, chacinas, linchamentos, torturas, tráfico de órgãos, intolerâncias, incitações ao ódio não são experiências agradáveis, mas a arte não pode se furtar de abordá-las. O livro acabou ficando barra-pesada, reconheço. Por isso decidi publicar também Até Nenhum Lugar, que é muito influenciado por minhas experiências com o zen, com uma visão mais sutil sobre a vida. Não diria que é um livro lírico. Diria que é o outro lado da moeda. A espécie humana é capaz das maiores delicadezas e das piores atrocidades. O que leva o pêndulo a oscilar, o tempo todo, para um lado e para o outro? Há motivações políticas, econômicas, religiosas, mas, do ponto de vista, digamos, espiritual, ou ontológico, se quiserem, essa “oscilação” é um mistério para mim. Por que enquanto uns tratam de criar outros tratam de matar?

Explique o criativo título “Pig Brother”.
Em vez de explicação, deixo em aberto para interpretações. Há uma referência clara ao clima de opressão do Big Brother, de George Orwell, e também ao exibicionismo babaca do Big Brother Brasil da TV Globo. Ao mesmo tempo, Pig Brother é a personificação de uma entidade xamânica. O xamanismo nos leva a encarar o lado obscuro, o pavor, a doença, para tentarmos superá-la. Mas que cada um leia e faça sua própria interpretação.

Seria um livro apocalíptico?
Não cabe a mim anunciar nenhum apocalipse. Simplesmente procurei jogar uma lente de aumento sobre situações com as quais convivemos cotidianamente. O cenário do poema é realmente chocante: o trânsito das cidades está paralisado, a Baía da Guanabara é uma crosta de óleo fétido, os rios são esgotos a céu aberto, a violência explode em todo canto. Acrescentei mais alguns pequenos detalhes: o céu é de lata, as árvores são de alumínio, o ar é quase irrespirável, as pessoas não conseguem sentir mais absolutamente nada. Isso torna o livro apocalíptico ou há um apocalipse pairando no horizonte dessa sociedade de consumo desenfreado que estamos vivendo?

Seria um livro que não dá salvação aos seres humanos?
Minha linguagem é a linguagem artística. Não sou pastor nem profeta. Não vendo ilusões. Penso que a arte pode abrir os olhos das pessoas, pode fazê-las enxergar melhor o que não estão enxergando com nitidez. Veja: durante o processo de criação do poema, caminhava muito pela cracolândia de São Paulo e por bairros periféricos da cidade. Não é um cenário que prima pela beleza e pela suavidade. Por outro lado, lia aquelas instrutivas revistas que mostram a frivolidade do mundo das celebridades. De um lado, pessoas se arrastando como zumbis, vivendo em condições precárias, de desespero total. Por outro, celebridades de papelão, vazias, dando opinião sobre tudo, da política ao sexo anal. Achei que deveria trazer esse inferno para dentro da tradição da poesia brasileira. Por que? Bem, porque ele existe e alguém precisa falar dele.

Em “Pig Brother” há claras referências à noite paulistana e carioca. Como é a sua relação com essas cidades, com essas noites?
Minha relação é a de uma pessoa que procura se manter o mais atento possível. Tenho a impressão de que estamos perdendo a noção do que é real, do que é imagem, do que é falsificação. De fato, em Pig Brother há muitas referências a bairros, ruas e inferninhos, principalmente de São Paulo e do Rio de Janeiro, mas também de Porto Alegre, de Buenos Aires e uma ou outra cidade. Isso porque queria deixar o mais concreto possível o ambiente em que os personagens se movimentam, queria trazer esses cenários para bem perto do leitor. Minha intenção era deixar uma dúvida: mas, caramba, tudo isso está se passando no futuro ou neste tempo presente? Se as pessoas saírem da leitura com esta dúvida, sinal de que funcionou.

Parabéns pela capacidade de construção imagética com os versos. Na sua opinião, é preciso muito treino ou muitas vivências para conseguir isso na poesia?
Creio que sim. É preciso muita leitura, muito treino, muita observação e muitas vivências. Eu procurei esse efeito: um fluxo incessante de imagens despejadas na cabeça dos leitores. Não me preocupei tanto com a ação dos personagens. Não existe uma narrativa linear de episódios. Existe esse fluxo de imagens, quase sempre tenebrosas, com uma luz opaca, eu diria, se fosse um cineasta. Mas sou um poeta, minha matéria prima é a palavra. Neste livro, talvez eu me comporte como um poeta querendo fazer cinema.

O leitor que quiser comprar, só no site da Patuá?
Sim, a venda dos dois livros, tanto Pig Brother, quanto Até Nenhum Lugar, está sendo feita somente pelo site da Editora Patuá. Parece que as condições impostas pelas grandes redes de livrarias são desvantajosas para as pequenas editoras. A venda via site está se tornando uma saída viável para editores, autores e leitores interessados. Deve crescer muito mais nos próximos anos.

Como foi esse processo com a editora, e a tiragem curta de 150 exemplares?
É realmente chocante que em um país com 200 milhões de habitantes livros importantes saiam com tiragem inicial de 150 exemplares, não é? Mas é assim que as coisas estão funcionando. Não adianta fazer grandes tiragens se não há locais para colocá-los a venda. Não sou um autor de best-seller nem de livrinhos de colorir. De qualquer modo, a primeira impressão dos dois livros já se esgotou e a gráfica está rodando a segunda. Conforme vai saindo, vai-se imprimindo mais exemplares. As novas técnicas de impressão tornaram esse processo mais barato e evita-se gastos com estocagem. Aos poucos, meus livros vão se tornando tão conhecidos quanto os bons livros das grandes editoras.

O que é ganhar um Jabuti?
Ganhar um Jabuti? É um reconhecimento bacana, importante. Mas não mudou minha vida em nada. Continuo bebendo nos mesmos bares, com os mesmos amigos. Se fosse um Nobel, que está em torno de 1 milhão de euros, se não me engano, eu poderia viver o resto dos meus dias numa praia, me dedicando integralmente à leitura e à escrita.

O que é fazer poesia no Brasil?
Fazer poesia, para mim, é uma necessidade vital, quase como respirar. Acho que não seria diferente se vivesse na Dinamarca, Rússia ou Itália. Não tenho dúvidas que minha vida seria bem mais pobre sem a leitura e a escrita de poesia. É uma poderosa ferramenta de percepção.

Como estamos de poetas?
Muito bem. Há ótimos poetas vivos escrevendo com sangue, com pegada forte, com sutileza, sobre você, leitor, sua irmã, seu vizinho, sua namorada – mesmo que vocês não saibam disso. Viver na mesma época de Geraldo Carneiro, Glauco Mattoso e Alberto Lins Caldas, por exemplo, é um privilégio.

Fale dos próximos projetos.
Passar uma boa temporada na praia, pisando descalço na areia, namorando, de papo pro ar, sem nada pra fazer.

Comente aqui


Eduardo Siqueira lança ‘Cidade Fantasma’

Eduardo Siqueira andando pelas ruas do Centro: "Ando por aí e vejo as pessoas como gente natimorta"

Eduardo Siqueira andando pelas ruas do Centro: “Ando por aí e vejo as pessoas como gente natimorta” (Foto de Ricardo Lopes)

Por Wilame Prado

Cidades tendem a oprimir os seres que nelas habitam. Muitas vezes, só lhe restam a poesia. O funcionário público e escritor Eduardo Siqueira, 30 anos, prefere chamá-las de cidades fantasmas. Maringá é uma delas. E a poesia foi também a opção contra o vazio existencial por entre ruas e avenidas, prédios e casas, shoppings e parques. Ele lança às 21 horas de hoje, no Badulaque Estúdio Bar, o livro “Cidade Fantasma” (Editora Multi Foco, 80 páginas, R$ 35).

“O título se refere a uma cidade arquetípica, universal, com contradições, desigualdades e aquele vazio existencial que, na minha opinião, jaz sob todas as coisas do mundo. Ando por aí e vejo as pessoas como gente natimorta, sem propósito algum para estarem aqui vivenciando as injustiças e atrocidades da vida urbana. Observo homens e mulheres indo de lá pra cá, com seus ‘importantíssimos’ afazeres e dou risada por dentro, porque, no fim das contas, assim como eu, parecem fantasmas resolvendo problemas pendentes enquanto flutuam pela terra”, explica o autor.

Siqueira lança o livro de estreia reunindo poemas datados a partir de 2007, após publicações esparsas no meio virtual, entre blogs e revistas eletrônicas. Formado em Letras pela UEM, diz estar influenciado pelas vanguardas do começo do século 20. “Dadaísmo, Surrealismo, Expressionismo e Futurismo estão presentes no que escrevo”, define, afirmando ainda que, nos poemas, segue uma linha temática, no entanto fragmentada, com colagens.

“Cidade Fantasma” reúne poemas urbanos e suburbanos, sem definições métricas, aproximados da prosa e que se apropriam do cotidiano contemporâneo, das coisas do cotidiano, dos homens e mulheres do cotidiano, para apenas uma mensagem existencial e um tanto pessimista: somos fantasmas, em uma estúpida cidade fantasma. “Gosto de escrever sobre morte, solidão, tempo, absurdo, relações humanas, trabalho, cidade, ou seja, temas universais. Vou anotando coisas que passam pela cabeça durante o dia. Coisas que vi, ouvi, senti. Geralmente, carrego aqueles blocos de papel reciclado na bolsa. Ou anoto no caderno.”

Não à toa, o poema preferido de Siqueira é “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”, de T. S. Eliot, com versos angustiados, angustiantes, que revelam o medo da existência em meio ao tédio, à impotência, ao envelhecimento, a tudo isso no mundo urbano. Há os mesmos dramas em “Cidade Fantasma”.

ISTO É EDUARDO SIQUEIRA

VITRAIS
olho-me
no espelho
e vejo
Deus

mosaico de todos os homens
eu-estilhaço

inteiro

EVOLUÇÃO
homem-pássaro
desalado

tão coloridinho na gaiola

não sai do facebook
não voa sem motor

LANÇAMENTO
CIDADE FANTASMA
Autor: Eduardo Siqueira
Quando: hoje
Horário: 21 horas
Onde: Badulaque Estúdio Bar
Preço do livro: R$ 35
Entrada franca

*Reportagem publicada na sexta-feira (6) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

1 Comentário


Poesia sim, dentro e fora do livro

Laércio Souto Maior, ontem, na UEM: hoje, noite de autógrafos no Sesc (Foto de João Cláudio Fragoso)

Laércio Souto Maior, ontem, na UEM: hoje, noite de autógrafos no Sesc (Foto de João Cláudio Fragoso)

Por Wilame Prado

“Será Que É Poesia?” (Editora Banquinho, 100 páginas, R$ 50), do advogado, jornalista e escritor pernambucano radicado em Curitiba Laércio Souto Maior, 76 anos, é um livro para se apreciar como um todo. Além do conteúdo – poemas escritos entre 1962 e 2014 -, o apuro editorial resultou em uma publicação que vale também pelo que está do “lado de fora”, a começar pela capa, dura revestida em tecido, encadernada artesanalmente e com serigrafia assinada por Júlian Imayuki Duarte.

Sobre o processo como um todo da obra, a reportagem conversou, ontem, com o autor e também com o filho dele, Téo Souto Maior, diretor de redação da Banquinho Publicações. Os dois chegaram há alguns dias na cidade para o lançamento de “Será Que É Poesia?”, marcado para hoje, às 20 horas, no Sesc.

O livro, com tiragem de 200 exemplares numerados, foi lançado, primeiramente, em Curitiba, no ano passado. Na noite de autógrafos desta noite, em Maringá, o violonista clássico Antônio Mendes faz um pocket show. A entrada é franca, e o lucro resultante das vendas dos livros será revertido para o fundo da Associação dos Amigos do Arquivo Manoel Jacinto Correia.

“Eu nunca tinha visto um livro assim”, destaca Souto Maior, demonstrando ter aprovado a edição feita no primeiro livro de poesia dele. Autor de obras da área de Política, História e Sociologia, ele resolveu tirar do baú, pela primeira vez, os versos guardados, por cinco décadas, em cadernetas, guardanapos e rascunhos. “Eu deveria ter sido arquivista. Guardo muita coisa”, ressalta.

Mais do que pedaços de papel escritos, Souto Maior guarda as lembranças de toda uma vida cercada pela luta na militância política contra o regime militar e também os anos em que, antes de iniciar carreira jurídica, foi jornalista, inclusive aqui no jornal O Diário do Norte do Paraná, quando, nos anos 1970, chefiou a redação durante oito meses.

Na entrevista, ele contou histórias de bastidores instigantes envolvendo a prática de um jornalismo que prezava, sobretudo, pela liberdade dos brasileiros, em plena ditadura. “Na época, fui demitido três vezes a pedido de governadores de Estado”, revela. Momentos marcantes e traduzidos também em poesia.

Segundo o poeta Alexei Bueno, que assina uma das apresentações da obra, há, pelo menos três linhas poéticas em “Será Que É Poesia?”. Uma é a política, mas Souto Maior também se aventura na vertente filosófica e ainda na figura feminina, segundo Bueno. “A Literatura é algo maior e é tão importante para mim como toda a minha luta política”, define o escritor, que deixou para transformar em poesia apenas os momentos mais marcantes da vida dele.

Para Ademir Demarchi, escritor e cronista do Diário, Souto Maior traz uma novidade ao revelar as poesias, tal qual o menino da capa do livro, que parece voar enquanto deixa a maleta se abrir para inúmeros papéis se perderem no ar. “… só não é uma novidade total na biografia dele porque nos poemas encontramos impregnado o mesmo sentimento humanista de luta e de indignação com a miséria e a exploração”, opina.

A poeta e professora Norma Shirakura aponta a poesia de Souto Maior como “crônicas em versos”. “Quanto à forma, são apresentadas algumas regularidades que me parecem despontar nelas o nascedouro de seu estilo próprio, com tendência para construção de narrativas em poema longo, tendo como matéria básica a memória. Entrelaçados por esse fio condutor, o poeta e o historiador não se separam”, avalia.

Envaidecido com as palavras dos amigos, Souto Maior, aposentado há dois anos da carreira jurídica no Governo do Estado, ainda tende ao questionamento: “Será que é poesia?” Sendo ou não, comemora o tempo maior que hoje tem para as letras. Alguns dos últimos poemas foram escritos na merecida paz do descanso litorâneo, em Balneário Camboriú e no Pontal do Paraná.

E se, como o próprio diz, talvez não haja um segundo livro de poesia, outros gêneros literários estão garantidos: em primeira mão, Souto Maior anuncia que, no segundo semestre, lança “O Levante Anarquista da Vila de Trancoso”, o primeiro romance dele, também pela Banquinho Publicações.

banq_capaESTANTE
SERÁ QUE É POESIA?
Autor: Laércio Souto Maior
Editora: Banquinho Publicações
Noite de autógrafos
Quando: Hoje
Onde: Sesc Maringá, às 20h
Preço do livro: R$ 50

*Reportagem publicada nesta quinta-feira (5) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Comente aqui


Elas têm a palavra, e os prêmios também

À esquerda, Vanessa Barbara; acima, Sônia Barros; e embaixo, Adriana Griner: só deu elas no PR de Literatura. —FOTOS: DIVULGAÇÃO E RAFAEL ROCHA CARDOZO

À esquerda, Vanessa Barbara; acima, Sônia Barros; e embaixo, Adriana Griner: só deu elas no PR de Literatura. —FOTOS: DIVULGAÇÃO E RAFAEL ROCHA CARDOZO

Por Wilame Prado

É de se destacar a boa literatura que vem sendo produzida por escritoras brasileiras. Anunciado ontem pela Biblioteca Pública do Paraná, o resultado do Prêmio Paraná de Literatura 2014 revelou a superioridade delas em todas as categorias: a paulistana Vanessa Barbara venceu o prêmio Manoel Carlos Karam com o romance “Operação Impensável”; a carioca Adriana Griner é a vencedora do prêmio Newton Sampaio com a coletânea de contos “No Início”; e a paulista Sônia Barros venceu o prêmio Helena Kolody com os poemas do livro “Fios”.

Sem nem citar as muitas escritoras em atividade no País que vêm publicando livros elogiáveis mas sem receberem premiações, ressalte-se que, recentemente, o Prêmio São Paulo de Literatura teve, pela primeira vez, uma mulher como grande vencedora: Ana Luísa Escorel recebeu R$ 200 mil ao vencer na categoria Melhor Livro do Ano de 2013 com o romance “Anel de Vidro” (Editora Ouro Azul). Já no último Prêmio Sesc de Literatura, foi escrito por uma jovem de 27 anos o melhor romance na opinião dos jurados. “Enquanto Deus Não Está Olhando” é de autoria da pernambucana Débora Ferraz.

As três mulheres que terão direito a R$ 40 mil e uma tiragem de mil exemplares de seus livros graças à conquista do PR de Literatura não são fracas não: Vanessa, Adriana e Sônia deixaram para trás um total de 630 obras inéditas de autores de todo o País, inscritas sob pseudônimo, e que foram avaliadas por um júri com outras escritoras de prestígio, como Elvira Vigna, Regina Zilberman, Cíntia Moscovich e Luci Collin.

Elas também são persistentes. Em entrevista por e-mail, Sônia Barros – conhecida pela vasta obra de infanto-juvenis – diz que foi o segundo ano a tentar, com o mesmo “Fios”, o PR de Literatura. Para adultos ou crianças, os versos precisam existir, na opinião dela. “A poesia nos torna mais humanos, mais sensíveis. E é com essa sensibilidade que tento escrever, alcançar o leitor, tenha ele a idade que tiver.”

Estrategistas, sem dúvida alguma, elas também são. Vanessa Barbara, em entrevista para o Estadão, diz que pensou no concurso literário como forma de se “obrigar” a escrever tendo um objetivo – o romance – e um prazo a cumprir – a data limite das inscrições. “É um incentivo tremendo para a produção literária”, opina.

E, por fim, por que não, ousadas em suas propostas literárias? Também para o Estadão, a professora de inglês e estreante na literatura Adriana Griner comenta sobre os diferenciais dos contos reunidos em “No Início”: “Para mim, o livro é, antes de tudo, sobre o amor. Em termos de linguagem, brinco com o primeiro capítulo do ‘Mimesis’, de Auerbach, quando ele compara a linguagem da Bíblia com a da Odisseia.”

Vai vendo!

3 perguntas para Vanessa Barbara

Mesmo autores já conhecidos como você ainda “precisam” dos concursos literários para alavancar a carreira e ganhar dinheiro?
Sim, principalmente pela parte financeira. Viver de literatura é bem difícil (eu, por exemplo, vivo de jornalismo), então um prêmio desses é muito bem-vindo até para quem tem algum reconhecimento na área. Em edições anteriores do prêmio, o José Roberto Torero, o Alexandre Vidal Porto e o Caetano Galindo foram vencedores. Isso diz muito sobre a pindaíba em que vivemos! :p

Conte o que puder contar sobre o processo de criação do romance “Operação Impensável”, sobre a história que o livro traz e também sobre o que pensa desse livro ainda inédito teu.
Já escrevi o romance pensando em mandar para o prêmio – queria submeter esse livro por outros caminhos, sob pseudônimo, para ver se ele realmente valia algo. Também queria ter um objetivo claro e um prazo que servissem de incentivo para trabalhar. O livro conta a história de amor entre uma historiadora especialista em Segunda Guerra Mundial (daí o título) e um programador de computadores que esconde segredos.

Sua versatilidade é invejável. Na crônica e nas reportagens, tem ótimas publicações. Para você, mais conhecida com as crônicas, quais são os desafios na hora de encarar um romance ficcional?
Acho bem difícil escrever ficção, acho que porque não tenho tanta prática… Também porque é um trabalho que exige fôlego, paciência, senso de estrutura… Enfim, é um desafio tremendo.

3 perguntas para Adriana Griner

Trabalha com literatura mesmo?
Trabalho como professora no ensino médio, e só indiretamente estou na área de literatura, através do ensino. Nunca publiquei um livro. Escrevi muito na vida, li mais ainda. Eu era daquelas crianças que atravessam a rua lendo um livro, vêm TV lendo, almoçam lendo. Aos quinze anos diminuí o ritmo de leitura, aos trinta me tornei semi-analfabeta e assim passei a ler bem menos.

O que pode nos contar sobre os contos de “No Início”?
É um livro de contos porque o livro pedia um livro de contos. Como eu reconto histórias do primeiro livro da Bíblia, não haveria outra forma de fazê-lo. Mas apesar de ser um livro de contos, é um livro em que diversos temas perpassam todas as histórias, então são contos independentes, mas que remetem uns aos outros.
O que faço no livro é criar ou recriar as histórias. Algumas histórias são apenas a reprodução da história original, mas com um ponto de vista distinto, pois tento dar voz às personagens femininas que eram tratadas apenas como paisagem ou como objeto da narração. Procuro ver como elas se sentiram ao passar por aquela situação. Em outras histórias a Bíblia é apenas o ponto de partida para eu narrar uma história que não foi contada.

Esperava vencer tão disputado prêmio?
Não, não esperava vencer. Fiquei com o maior jeito de boba ao saber do resultado. Acho que ninguém acredita muito que vai vencer um prêmio como esse, considerado um dos mais importantes do país. O reconhecimento tem um gosto bom.

3 perguntas para Sônia Barros

Atualmente vive só da literatura?
Sim, mas não vivo apenas dos direitos autorais dos meus livros (tenho 17 títulos infanto-juvenis publicados), também visito escolas e participo de feiras literárias, converso com alunos, pais e educadores.

De que maneira os versos e a poesia ajudam ou ajudaram em sua carreira como escritor de livros infanto-juvenis?
Eu não vivo sem poesia. Já na infância, me encantavam os poemas da Cecília Meireles, Mário Quintana, José Paulo Paes… Dos meus 17 títulos infanto-juvenis, vários são de poesia ou prosa poética. A poesia nos torna mais humanos, mais sensíveis. E é com essa sensibilidade que tento escrever, alcançar o leitor, tenha ele a idade que tiver.

O que pode nos contar sobre os poemas de “Fios”?
Foram escritos ao longo dos últimos sete anos, de 2008 a 2014. O título acabou se impondo depois que percebi os muitos poemas retratando “fios” aparentemente distintos, mas, de certa forma, entrelaçados: do ofício, da infância, da velhice, da maternidade, do amor, da memória, da solidão, da morte, da própria poesia, da arte… enfim, os caminhos internos e externos da existência humana. Quem me mostrou isso foi o poeta Donizete Galvão, com quem conversava muito sobre poesia, e a quem o livro é dedicado. Infelizmente, o Doni faleceu em janeiro deste ano. Aliás, um grande poeta, que ainda não teve o merecido reconhecimento no País.

*Reportagem publicada nesta terça-feira (25) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

 

Comente aqui


Nelson Alexandre lança livro de poesia no Sesc

Por Wilame Prado

O escritor maringaense Nelson Alexandre lança o livro “Poemas para Quem Não Me Quer” (Editora Multifoco, 120 páginas) às 20h de hoje, no Sesc. A entrada é franca e o livro será vendido a R$ 34 na noite de autógrafos.

O lançamento que estava previsto para acontecer no mês passado na Casa da Vó Bar foi remarcado após a morte do professor Marciano Lopes, que assina a orelha do livro. O professor era também o organizador do evento literário que tinha o lançamento do livro como parte da programação.

À época, Nelson Alexandre lamentou a perda do professor de literatura: “O corpo vai…a poesia fica”, afirmou o ex-aluno e amigo de Lopes.

Em “Poemas Para Quem Não Me Quer”, o autor apresenta 40 poemas, a maioria escritos este ano. “São os meus poemas mais maduros”, disse, em entrevista recente.

O livro de poesia reúne textos inéditos com outros publicados em redes sociais e que serviram de termômetro crítico dos leitores que já acompanham Nelson Alexandre há pelo menos sete anos, desde a época em que o seu blog, o Encruado (nelsonalexandre.zip.net), era um dos locais preferidos para se encontrar literatura local de qualidade.

PARA LER
POEMAS PARA QUEM NÃO ME QUER
Autor: Nelson Alexandre
Preço: R$ 34
Noite de autógrafos
Quando: hoje
Horário: 20h
Onde: Sesc (av. Duque de Caxias,1.517, Zona 7)

Comente aqui


Poesia com vinagre

Por Wilame Prado

O maior poema de toda história brasileira. É assim como define a onda de protestos e manifestações registradas em todo o País (inclusive em Maringá) o paulistano Fabiano Calixto, 40 anos, um dos organizadores de “Vinagre – Uma Antologia dos Poetas Neobarracos”, publicação online de 93 páginas que reuniu inúmeros poemas e algumas ilustrações inspirados no sentimento de revolta e na ânsia por mudanças – características primeiras dos jovens que estão mas ruas em protesto nos últimos dias.

Fabiano Calixto em protesto da quinta-feira da semana passada, em SP: escritor é um dos organizadores da “Vinagre…” (Foto de Eduardo Sterzi)

Calixto, escritor e mestre em teoria literária e literatura comparada pela Universidade de São Paulo (USP), há algum tempo, juntamente com outros amigos, almejava criar um zine com o formato de antologia digital.

Quando percebeu a “contaminação” vinda dos protestos das ruas chegando até o âmago dos poetas, muitos já fazendo literatura engajada por meio de publicações nas redes sociais, sentiu que havia encontrado o tema para a antologia. Após o convite, em poucos dias estava pronta “Vinagre…”, disponibilizada no começo desta semana, gratuitamente, pelo link: http://migre.me/f5Ddx.

Sem muitas preocupações relacionadas à estética da publicação, “Vinagre…” é um arquivo em pdf com textos distribuídos pelas páginas, aparentemente sem edição. A capa é ilustrada pela famosa arte do grafiteiro britânico Banksy em que um homem atira flores ao invés de uma bomba incendiária. De modo geral, os poemas são revoltosos e acalorados.

Tem-se a impressão de que alguns dos escritores, inconsolados após ferimento por bala de borracha, por exemplo, foram rapidamente para o teclado fazer poesia. Tal qual uma manifestação em massa, a antologia é quente. Os organizadores foram felizes ao não tardar na disponibilização da publicação, que funciona e certamente será lida por muita gente, em especial nesses dias cercados por protestos em todo o País.

“A ideia, desde o princípio, foi de um gesto de solidariedade. Não deixei minhas preferências estéticas interferirem no processo. A ideia era fazer uma antologia que, na verdade, tivesse a cara de um único poema com muitas vozes.

A preocupação poética, neste gesto de solidariedade, é inteiramente política”, explica Calixto, que, além de organizar a antologia, também publicou um poema de sua lavra, “Dark Medieval Times”, que exalta o gesto corajoso de sair às ruas para o enfrentamento e que também critica aqueles que não abrem mão da segurança do sofá e TV. “Apenas tentei fazer um poema sobre o que eu estava sentindo, após a manifestação do dia 13 de junho, quando a polícia atuou com uma brutalidade sem tamanho.”

Segunda edição

Com o sucesso da primeira antologia, Calixto resolveu abrir espaço para outros escritores convidando-os, pelas redes sociais, a enviarem seus poemas por e-mail cujo tema são as manifestações que acontecem em todo o País. Essa segunda antologia, que deverá ficar pronta também rapidamente e ser disponibilizada na rede dentro de alguns dias, contará com capa ilustrada por Diego de Sousa.

“Estou fazendo, a pedidos de pessoas e por conta também de sugestão de amigos e da capa linda que Diego de Sousa fez para o projeto, uma segunda edição. Só isso. Apenas para aumentar o volume do grito. Depois, me volto para a luta nas ruas apenas”, informa.

Os escritores de Maringá e região que quiserem participar da antologia devem mandar seus textos, em documento de Word, até amanhã, para o e-mail: fabianocalixto@yahoo.com.br.

Escritores do PR também em ‘Vinagre…’

Para o escritor maringaense radicado em Santos (SP) Ademir Demarchi, 53, “Vinagre – Uma Antologia dos Poetas Neobarracos” é como uma bomba: “foi uma antologia no calor da hora, a grande maioria daqueles poetas ali é ótima, estão na lida com a linguagem há anos, portanto mesmo que um dado poema ali não seja ótimo, pode haver ótimos em sua obra.

No calor da hora não dá para refletir muito, escolher, essa é a marca da antologia, como uma bomba que se joga, é preciso jogar, não dá pra pensar. Jogamos, e você agora, n’O Diário, está interessado nisso. Os estilhaços se espalham, está circulando amplamente no Facebook.”

Cronista do D+ às quintas-feiras e autor de “Pirão de Sereia” e “Os Mortos na Sala de Jantar”, Demarchi participa na antologia com uma espécie de haikai conciso e ácido. Fala sobre bombas que acabam, mais que estimulando passeatas, favorecendo ainda os festejos da juventude que protesta.

“A festa é própria da juventude. Daí que, tendo bomba, teremos mais passeatas e mais festas. É delicioso lutar contra o poder instituído, ele sempre existe, ele sempre está aí, normatizando as vidas, enquadrando-as e tornando-as previsíveis e disfarçando as formas de controle e de autoritarismo”, diz.

Ricardo Pedrosa Alves, 40, de Guarapuava (PR), é outro paranaense que contribuiu com “Vinagre…”. Ainda que longe das principais manifestações que vem acontecendo nas capitais, em “Estado de Exceção” questiona a língua e o poder. “Este poema nasceu de uma inquietação com a linguagem oficial. Trata-se de um elenco (que poderia ser ampliado, em tese) de termos do senso comum. Como a função da poesia é também a do questionamento da linguagem, nada melhor que tentar realizar isso num momento de acirramento social e político nacional”, considera.

A artista visual e poeta Jussara Salazar vive entre Recife, Curitiba e São Paulo. Em “Vinagre…”, contribuiu com uma ilustração poética. “A observação e a crítica aos 20 centavos demonstram maturidade por parte da população brasileira, a sutileza inaugura um novo momento, tudo passará a ser importante a partir de agora. A imagem da moeda e o provérbio popular me pareceram adequados para expressar um sentimento de ironia e humor, quase uma brincadeira, considerando também a informalidade e o pouco tempo com que o Fabiano Calixto organizou tudo, praticamente em dois dias. O resultado foi uma surpresa, o conjunto reunido tem força e coerência.”

Beatriz Azevedo, moradora do Rio

A poeta, cantora e compositora carioca Beatriz Azevedo diz que a antologia é mais uma expressão da inquietação geral que movimenta o País. Para participar da antologia, levou para a poesia o que vem sentindo com o “calor da hora” das manifestações literárias nas redes sociais.

“A própria agilidade da edição da antologia me inspirou a entrar no fluxo dos acontecimentos e experimentar usar essas ferramentas virtuais, e não o tempo de maturação da feitura de um livro de poemas, por exemplo”, diz ela, autora, em “Vinagre…”, de rajadas poéticas que dialogam com os acontecimentos. “Quando vi a declaração do governador de SP sobre as manifestações, incitando a violência da polícia, comecei instantaneamente a digitar.”

*Reportagem publicada nesta quinta-feira (20) no D+, caderno do Diário de Maringá

Comente aqui


De Ka, de Gran Torino ou com o Chevrolet emprestado

Em um Ford Ka 1.0, em um Gran Torino ou até mesmo a caminho de Sintra em um Chevrolet emprestado, sempre nos pegaremos sozinhos em meio a um turbilhão de pensamentos, pensando em como a vida nada mais é do que as pequenas coisas que deixamos para trás, imaginando que seria melhor estar em Lisboa e não em Sintra ou então imaginando que a criança no casebre olhando para a estrada, esta sim é que é feliz. A vida lá,  e não aqui, é que é feliz, como não poderia ser diferente. Abaixo, mais um belo texto, e que traduz uma essência muito peculiar da vida, de Fernando Pessoa:

Álvaro de Campos

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,

Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,

Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco

Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,

Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,

Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,

Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?

Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,

Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.

Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,

Sempre, sempre, sempre,

Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,

Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida…

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,

Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.

Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.

Em quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!

Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.

À direita o campo aberto, com a lua ao longe.

O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,

É agora uma coisa onde estou fechado,

Que só posso conduzir se nele estiver fechado,

Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.

A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.

Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.

Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima

Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.

Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha

No pavimento térreo,

Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,

E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.

Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?

Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,

Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,

Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,

E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,

Acelero…

Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,

À porta do casebre,

O meu coração vazio,

O meu coração insatisfeito,

O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,

Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,

Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,

Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim…

Comente aqui


A prosa mais que poética de A Balestra – Eu recomendo

Quando, em janeiro de 2008, resolvi me adentrar no mundo cabuloso da blogosfera maringaense, sentia-me como um garoto recém-chegado à sala de aula lotada, sem amigos, sem proteção, extremamente tímido e sem jeito.

Esse jeito meninice de ser durou menos de um dia, já que, muito gentilmente, o caro blogueiro e advogado José Roberto Balestra me ajudou a mexer nas ferramentas do blog e me passou dicas de como se relacionar no mundo virtual.

É por isso que até hoje chamo de mestre o meu amigo virtual Balestra. Digo virtual porque, oh vida corrida sô, nunca conseguimos marcar um chopp, um almoço, quiçá um rápido bate-papo em pé mesmo, tomando cafezinho na padaria Açukapê.

De todo jeito, Balestra sempre acompanhou meu trabalho, da mesma forma que sempre estou de olho em seu blog A Balestra. Sobre seus escritos, posso dizer, sem querer engrandecer demais o nobre amigo, já engrandecendo merecidamente, que o Balestra é o Guimarães Rosa de Maringá.

Seus textos exalam poesia pura, nostalgia gostosa e, inevitavelmente, saudade de tempos de outrora, momentos talvez em que nossa mente nos transporta para quando tomávamos iogurte feito pela vó, comíamos bolo de milho da tia e andávamos de carroça, faceiros, juntamente com o vô.

Balestra é rural em seus sentimentos. Ou seja, extremamente tradicional, rústico e, por isso mesmo, sincero. Balestra também é extremamente urbano, pois conhece seus direitos e deveres, fruto de anos de experiência na lida advocatícia, e esbraveja quando percebe algo de errado acontecendo na sociedade.

Amigos de todos que se propõem a fazer um algo mais por este mundo, Balestra, vira e mexe, oferece aos amigos um espaço no blog para publicação de artigos, crônicas e poesias.

Mas chega de conversinha molenga e diz que não diz. O que quero mesmo é que vocês, caros leitores, conheçam a prosa poética do meu amigo Balestra. Façam uma visita ao blog do Balestra e deixem seus comentários!

3 Comentários