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Fim do Projeto Um Outro Olhar: ‘Estou cansado’, desabafa Campagnolo

Campagnolo em cena: mesmo com os trabalhos nos palcos, revela poder voltar com projeto de cinema

Campagnolo: 2015 será teatral, mas ele revela poder voltar com projeto de cinema (Foto de Ademir Kimura)

Por Wilame Prado

Mesmo longuíssimo, o filme “Satantango” (exibido em Maringá em 2011 graças ao Projeto Um Outro Olhar), do húngaro Bela Tárr e que tem sete horas e meia de duração, tem um fim.

Uma das iniciativas envolvendo cinema mais marcantes de toda a história da cidade, o Projeto Um Outro Olhar, foi assim também: longo, mas com começo, meio e fim. No último dia 8 de novembro, quando o projeto completava 14 anos, no Sítio Kimura, o idealizador Paulo Campagnolo, 50, natural de Cascavel e radicado há alguns anos na Zona 7 de Maringá, abaladamente emocionado, comunicou o fim daquele que foi um dos programas mais “cabeças” que Maringá já viu nos últimos anos, por sábados a fio.

Ver a mais um cultuado filme na sessão noturna do projeto – que já percorreu por cinemas de shoppings e que, nos últimos anos, era exibido no Auditório Hélio Moreira – sempre sob curadoria de Campagnolo – amante da sétima arte, ator, diretor e escritor – era programa certo para um bom público. Após a exibição, que procurava ser pontual (poderia até ser filho do prefeito, mas, se chegasse atrasado, simplesmente não entrava), havia uma palestra do próprio coordenador do projeto, que, após optar por este ou aquele filme, munia-se de muito estudo acerca da obra e do autor, não sem antes ter assistido a uma infinidade de filmes para a sua escolha.

O cansaço pelo árduo trabalho com o projeto por anos ininterruptos, aliado a uma declarada decepção com o cinema contemporâneo, foram alguns dos principais motivos pelos quais Campagnolo, em quase uma semana de bate-papo via e-mail, declarou ter encerrado o Projeto Um Outro Olhar. No total, calcula ele, foram mais de 100 mil participantes, cerca de 1.200 filmes exibidos, centenas de resenhas publicadas neste caderno Cultura, algumas amizades alicerçadas e a honra de ter exibido verdadeiras preciosidades cinematográficas: “Cito dois filmes que me arrebentam emocionalmente: o clássico ‘Dois Destinos’, de 1962 (do italiano Valerio Zurlini), e o contemporâneo ‘Bom Dia, Noite’, de 2005 (também do italiano Marco Bellocchio).”

Na entrevista, a reportagem aproveitou para indagá-lo sobre os projetos que certamente consumirão a maior parte de seu tempo em 2015, quase todos relacionados à labuta teatral. E ao público que ficou órfão de cinema de qualidade com o fim do projeto, uma notícia boa e outra ruim. Primeiro, a boa: Campagnolo pode voltar com novos projetos de cinema; e agora a ruim: ele não divide por nada a sua invejável coleção de seletos quatro mil filmes devidamente guardados dentro de casa. Abaixo, a entrevista:

Após 14 anos, por que resolveu encerrar o projeto de cinema Um Outro Olhar?
PAULO CAMPAGNOLO – O Projeto Um Outro Olhar começou, no ano 2000, de uma forma muito inesperada para mim. Nem se tratava de um sonho, porque na verdade jamais sonhei com a possibilidade de que pudesse acontecer. Mas aconteceu, graças ao empenho do Gilmar Leal Santos (na época, um dos sócios dos cinemas do Shopping Aspen Park, que, depois, se transformou no Cinesystem e, enfim, no Cineflix hoje). E ele me pediu um projeto de exibição de filmes “alternativos” e a coisa toda aconteceu de uma maneira muito rápida e, devo dizer, profundamente transformadora para a minha vida. De repente, vi-me cercado de latas de película (portanto, verdadeiras, palpáveis, concretas) de filmes que fizeram parte da minha infância e adolescência e que, ainda por cima, fazem parte da história do cinema. Filmes como “Gritos e Sussurros”, do Bergman (o filme inaugural do Projeto, com uma sala lotada por mais de 200 pessoas que, é claro, jamais voltaram – com a exceção de algumas poucas); “O Leopardo” e “Rocco e Seus Irmãos”, do Visconti; “A Malvada”, do Joseph L. Mankiewicz; “Casablanca”, do Michael Curtiz; “Noites de Cabiria” e “Ensaio de Orquestra”, do Fellini; “O Morro dos Ventos Uivantes” (numa cópia péssima, mas que arrebatou todo mundo), no William Wyler; “Saló”, do Pasolini (que fez muita gente sair correndo da sessão), e tantos outros. E sem contar os filmes contemporâneos, distribuídos bravamente por pequenas empresas e que, aqui em Maringá, pouca gente viu, lamentavelmente. Quer dizer, era uma coisa de louco. E o louco era eu. Eu mal me aguentava nas pernas ao fazer os debates. Mal sabia do que estava falando. Achava mesmo que nem era preciso falar. Mas a proposta assim era. Então, os tempos mudaram. E quando penso nessas mudanças, a impressão que tenho é que foram tão violentas e abruptas que mal tive tempo de assimilá-las. E o cinema mudou tanto. Hoje creio ser possível contar nos dedos os cineastas que realmente realizam obras de relevância. Então o tempo foi passando e essa perspectiva nada agradável de que o cinema “incorporava” alguns desses sintomas tão precários da “experiência contemporânea” foi me dando nos nervos. E isso provocou um cansaço enorme porque, em alguns momentos (muitos, na verdade), eu acabava por assistir a uma penca de filmes (uns 40 ou 50, por vezes) para escolher apenas um para ser exibido. Esse trabalho foi ficando árduo principalmente porque com o tempo o Projeto foi assumindo um caráter muito político e ficava difícil, ou impossível, exibir qualquer coisa. E, depois, a vida, os outros projetos (teatro, literatura), acabaram por pedir mais a minha participação e, enfim… O cansaço. O Projeto acabou por tomar por demais o meu tempo. E como já não sou mais jovem, acabei por pedir “um tempo” nessa relação tão conturbada, tão difícil e, ao mesmo tempo, que me deu tantos momentos absolutamente loucos e maravilhosos.

Em todo esse tempo, tem ideia de quantas pessoas passaram por suas sessões? E o público mais fiel, aquele que você chegou a marcar rostos e nomes, era formado por quantos bravos?
Sempre fiz cálculos arredondando para menos. Porque o Projeto passou por fases bem complicadas. Mas, segundo esses cálculos, penso que mais de 100 mil pessoas frequentaram o Projeto. Quanto ao público fiel é muito difícil precisar o número. O Projeto sempre teve fluxos e muita gente frequentou durante muito tempo, depois sumiram e vieram outros. Porém, alguns muito loucos tiveram uma frequência mais regular. Alguns tornaram-se meus amigos em vida, muitos outros tornaram-se afetos conquistados e pelos quais tenho uma tremenda admiração e respeito.

Ainda sobre números, tem ideia de quantos filmes no total foram exibidos? Consegue imaginar a quantidade de horas dedicadas à apreciação e discussão fílmica?
No total, foram quase 1.200 filmes – alguns, hoje, eu nem exibiria. Não por serem ruins, mas trata-se desse caráter que o Projeto assumiu ao longo dos anos. Quanto ao tempo dedicado a isso tudo, é melhor que eu nem saiba mesmo. Muito tempo. Mas os debates, por mais que em muitos momentos eu quisesse “tomar conta”, sempre foram muito divertidos e muitas coisas alucinantes aconteceram nesses debates. Creio que daria um belo livro essa coisa dos “bastidores do Projeto”. Estou pensando nisso.

Qual o melhor e o pior filme exibidos durante o projeto, em seu ponto de vista?
Essa é uma pergunta muito complicada. Como você elege uma coisa como sendo a melhor ou a pior assim, de supetão? Como você compara filmes como “Aurora”, do Murnau, “O Ano Passado em Marienbad”, do Resnais, “A Marca da Maldade”, do Orson Welles, e mesmo um contemporâneo fabuloso como o gigantesco (7 horas e meia de duração) “Satantango”, do húngaro Bela Tárr, ou o “Berlin Alexanderplatz” (com mais de 15 horas), do Fassbinder, e o “Decálogo” (com quase dez horas) do Kieslówski? Talvez uma maneira de responder a essa pergunta seja apelando para questões como “honestidade”, importância histórica, relevância formal e tantas outras coisas. Em alguns momentos, é claro, tive de fazer certas concessões, mas não saberia dizer realmente qual foi o pior filme. Quanto ao melhor, tudo não passa de uma questão pessoal e muito emocional, penso. Então cito dois filmes que me arrebentam emocionalmente: o clássico “Dois Destinos”, de 1962 (do italiano Valerio Zurlini), e o contemporâneo “Bom Dia, Noite”, de 2005 (também do italiano Marco Bellocchio).

Nesse tempo, algo lhe aborreceu? Se arrepende de alguma coisa?
Todo aborrecimento acabou se transformando em mitologia. Aconteceram coisas muito estranhas. Pessoas que reagiram muito mal a alguns filmes e que, até mesmo, quiseram me bater. Acho isso tão engraçado hoje. Sobre arrependimentos, talvez se eu tivesse feito de outra forma… talvez se tivesse exibido tal e tal filme… talvez se não tivesse tanta insegurança. E assim vai. Mas, no fundo, é aquela velha história: você tem de tentar fazer o seu melhor.

Qual a lembrança mais bonita de algum acontecimento durante todos esses anos de projeto?
Tantas lembranças incríveis e que eu considero muito loucas. Por exemplo: quando eu fazia a programação e colocava alguns filmes eu pensava “porra, nesse aqui não vai ninguém!” E, então, acabava acontecendo justamente o contrário. Era uma coisa muito estranha e eu nunca entendi ao certo. Tenho as mais lindas emoções guardadas para certas exibições que eu julgava que não “funcionariam”. Eis que programo “O Atalante”, de Jean Vigo – um filme de 1934, uma maravilha para o qual as palavras talvez resultem em tremendas bobagens. E, naquela noite, não para de chegar gente. A sala ficou lotada e aquilo foi me dando uma coisa e eu queria perguntar pra cada uma daquelas pessoas (muitas eu jamais havia visto no Projeto): por que você veio ver este filme, justo este filme? E assim foi com a primeira exibição, também, do descomunal “A Palavra”, do Carl Dreyer. Talvez esse tenha me dado o maior dos arrepios que já senti na minha vida e quem conhece o filme vai me entender. Quando está chegando o final do filme e teremos, então, uma das cenas mais belas e emocionantes de toda a história do cinema, eu entrei na sala. E pude, assim, “sentir” a reação do público a essa tão milagrosa cena. Foi uma das coisas mais belas da minha vida. Aquele “ahhhh” em uníssono, na sala lotada. Senti um orgulho tão grande de pertencer a essa raça, a humana, capaz de tantos horrores, mas capaz de tantas coisas belas que podem mesmo nos dar uma dimensão do nosso lugar no mundo. Mas foram tantos momentos bonitos que minha vontade, agora, é curvar-me ao público para agradecer pelo mais elementar dos gestos: esse, de se fazer humano na sua inegável possibilidade de ser gentil, afetuoso, apto para o humanismo e a ética num mundo tão devastado pelo egoísmo.

Qual o legado deixado pelo Projeto Um Outro Olhar a Maringá?
Penso que, em primeiro lugar, foi uma oportunidade das pessoas darem uma “bisbilhotada” nas cinematografias chamadas “periféricas” e de assistirem alguns dos maiores clássicos do cinema. Alguns não sabiam exatamente o que estavam fazendo ali e jamais voltaram – esses eu tenho de considerar uns imbecis, lamentavelmente. Os outros, de alguma forma, foram “percebendo” coisas e, quando se deram conta, já estavam “entregues”, ou “debruçados” sobre este “novo” universo cinematográfico que se mostrava diante deles. Muita gente, com o tempo, chegou pra mim e disse: “Paulo, não consigo mais ver esses filmes comerciais que eu assistia antes”. E eu ficava apavorado, é claro. Pensava: “Cara, o que você está fazendo com essas pessoas?” Mas, depois, me tranquilizava: “não é você, são os filmes”.
Mas creio que quem deva falar mesmo sobre o legado do Projeto tenha de ser o público.

Mesmo com tantos projetos engatilhados ou sendo executados na área do teatro, o cinema continua sendo a grande paixão?
O cinema nunca foi uma paixão. O cinema é um AMOR imenso. É a minha primeira referência, na infância quando eu via na TV (vejam, eu tenho 50 anos) os filmes com a Greta Garbo, o Marlon Brando, a Bette Davis (eu adorava a Bette Davis), e o Hitchcock, o Sean Connery, o Errol Flynn (meu deus, que homem lindo! Eu pensava), o Clark Gable, os westerns, os melodramas do Douglas Sirk. Depois veio a literatura. Quando eu tinha 14 anos eu li “Crime e Castigo” e juro que pensei: que m… é essa? Tão louco eu fiquei. E no cinema fui pela primeira vez aos 6 anos de idade ver “Era Uma Vez no Oeste”, do Leone. Aquilo me deixou louco. Tinha um cinema na minha cidade que exibia, em matinée, os clássicos. Eu ficava encantado com aquilo, com os filmes em preto e branco, com a Ingrid Bergman e o Humphrey Bogart em “Casablanca”, o James Stewart e a Kim Novak em “Um Corpo Que Cai” – cheguei a ver “Lolita”, do Kubrick, e “Psicose”, do Hitchcock no cinema… quem poderia imaginar isso hoje? Então, é uma coisa sobre a qual nem posso falar direito. Claro que vi muita besteira. Eu vivia no cinema. Assistia tudo. Minha mãe achava estranho, mas mesmo assim eu insistia. Fiquei numa fila quilométrica para ver o “Guerra nas Estrelas”, do George Lucas, e “Tubarão”, do Spielberg, e “Lúcio Flávio”, do Babenco. E, quando a ditadura militar arrefeceu e pudemos ver, finalmente, os “filmes proibidos”, quase enlouqueci. Imagina ver, no cinema “O Último Tango em Paris”, do Bertolucci, “O Império dos Sentidos”, do Oshima, os filmes políticos do Costa-Gravas, o “Saló” do Pasolini, “O Porteiro da Noite” da Liliana Cavani, o maravilhoso “Iracema, Uma Transa Amazônica” do Jorge Bodanzky e Orlando Senna e “Laranja Mecânica” do Kubrick (com as infames bolinhas pretas nas genitálias dos atores, num primeiro momento), entre tantos outros. Que festa! Depois vieram os filmes de sexo explícito. E eu e algumas amigas do colégio de freiras onde estudávamos, pulávamos os muros e íamos nos “divertir”. Aquela “abertura” foi tão libertária. O cinema passava a ser “a liberdade”. Foi um momento lindo da minha vida. Um momento que só posso mesmo comparar com o Projeto Um Outro Olhar. Porque com o Projeto pude compartilhar dessa “experiência” tão devastadora e bela – a de ver filmes que nos colocam numa posição diante do mundo. E não há como fugir disso. É preciso estabelecer essa posição. Quem não faz isso eu só posso mesmo chamar de imbecil.

Almeja um dia participar de algum projeto na área do cinema, seja como ator, diretor ou roteirista?
Isso não passa pela minha cabeça. O cinema é uma coisa muito complicada, difícil.

O que gostaria de ver retratado nas cenas de um filme e que ainda não viu?
Se analisarmos bem, toda a condição humana já está presente em filmes extraordinários. Toda a percepção desse “estar no mundo” e de “pertencer” a este mundo já foi trabalhada de forma magistral por inúmeros cineastas.Tanto na forma quanto no conteúdo. Tenho, é claro, minhas predileções. Mas não desprezo o trabalho daqueles que, porventura, ainda tentam se aventurar nesse dilema. Quando penso em cineastas como o tailandês Apichatpong Weerasethakul (de “Mal dos Tropicos”, “Síndromes e Um Século” e “Tio Boonmee”), no húngaro Bela Tárr (de “Danação”, “Satantango”, “Werckmeister Hamóniák e “O Cavalo de Turim” – que encerrou sua carreira como diretor) e no português Pedro Costa (de “O Quarto de Vanda”, “Juventude em Marcha” e “Cavalo Dinheiro) – só para citar três -, então penso que eles trilharam um caminho tão prodigioso que faz com que eu pense: bem, nem tudo está perdido. Eu, seguramente, deixo a “bola” com eles.

Tem ideia de quantos filmes já assistiu em toda a sua vida?
Não tenho a menor ideia. Mas parece que foram muitos.

O que pode nos adiantar sobre os projetos para 2015, e aqui eu cito o possível Convite ao Cinema, ou então uma espécie de continuidade do Um Outro Olhar.
Creio que há uma possibilidade com o Convite ao Cinema, projeto da Secretaria de Cultura. Seria um projeto de cunho muito social, levando cinema para os bairros de Maringá. Mas nada ainda está “finalizado” quanto a isso. Sobre uma volta do Projeto Um Outro Olhar, creio que pode ser possível, mas num outro formato. Não tenho condições de pensar nisso agora. Ainda estou na ressaca do término do Projeto e isso é uma coisa que me dá muita tristeza.

Quais projetos no teatro serão executados em 2015?
Ah, os projetos… Toda vez que penso nos projetos logo em seguida me vem essa tenebrosa indagação: pra que tudo isso? Mas, enfim, deve ser, talvez, um desejo de falar sobre as coisas, as pessoas, essas inerências apavorantes que dizem respeito a todos nós. Tenho encontrado no teatro uma via de acesso a esses desconfortos, às dificuldades, ao que mais me aflige. Então eu tento. É um processo deveras difícil, principalmente quando você não pode depender disso para “movimentar” a sua vida. Porém, devo dizer, que tudo no qual me empenho em relação ao teatro vem de uma vontade de transformar em “prática”, em concretude de corpos e vozes, a “literatura” dos meus textos. E quando coloco a palavra literatura entre aspas é porque ainda não tenho certeza de nada… se aquele amontoado de palavras (das quais eu gosto, de uma forma geral – chego a ficar espantado com algumas coisas e penso: “porra, eu escrevi isso?”) significam algo que deva mesmo ser nomeado como literatura. Talvez, ainda, porque não tenho certeza de que as pessoas chegam mesmo a apreender, da maneira como “eu penso que deve ser apreendido” (que fique bem claro isso) tudo o que quero dizer. Bem, mas falávamos sobre os projetos.
Há uma coisa linda acontecendo comigo lá em Mandaguari, no trabalho de teatro que desenvolvo na Comunidade Social Cristã Beneficente. Num mundo de absurdo cinismo, lá encontro, com quatro garotas adolescentes, um “lugar” que eu julgava perdido, um “lugar” onde o afeto tem um papel predominante e, mais ainda, um “lugar” onde eu aprendo – porque essa convivência com as meninas (a Bruna, a Andressa, a Vanessa Lara e a Vanessa Carolina) faz eu me sentir melhor como pessoa, como artista. E elas, num despojamento assombroso, devolvem a emoção que sinto ao estar com elas com sagacidade, vontade e muito talento. Em 2015 vamos apresentar o “Barricada”, texto que eu já montei anteriormente e, ainda, um trabalho novo com as quatro e que deverá ter um humor negro daqueles que sempre pensei com adolescentes. Uma mistura de Godard com “South Park”. Creio que pode ficar bem politicamente incorreto.
Com o Teatro de Câmera, vamos montar “Puta!”, um trabalho que eu penso ser de ruptura do grupo e que terá Jucélia Cadamuro, Joaquim dos Santos, Fabrício Machado, Elizabety Barbosa, Mariana Scalassara e Amanda Podanoscki no elenco.
Em Campo Mourão estou dirigindo outro trabalho, “Desaparecimentos”, que é um texto meu com um grupo de lá. Estamos começando, mas a ideia é apresentar no segundo semestre de 2015. Um trabalho, no mais, bem difícil e que trata de um questionamento sobre o próprio ato de encenar, de fazer teatro, e do papel do ator.
Também quero montar um trabalho baseado na breve vida do tcheco Jan Palach que, em 1969, contra a invasão dos soviéticos na antiga Tchecoslováquia, se auto imolou em praça pública, em Praga, aos 20 anos de idade. A peça fará parte de uma trilogia sobre personagens históricos do Leste Europeu em tempos de autoritarismo político. Outro trabalho será sobre o ator polonês Zbigniew Cybulski (que fez o clássico “Cinzas e Diamantes”, do Andrzej Wajda, e era considerado o James Dean da Polônia). Nesse trabalho vou dirigir Donizeti Mazonas que este ano fez muito sucesso em São Paulo com a peça “Osmo”, baseado em Hilda Hilst. Mas não sei se conseguiremos finalizar para o próximo ano. Vamos começar, ao menos.
Portanto, muito trabalho pela frente e muita chicotada nos atores – essa é a parte que eu mais gosto.

Por que lutou tanto tempo pela vida do projeto Um Outro Olhar? Chegou a ganhar dinheiro, fama, amigos, amores ou, pelo menos, uma coleção de filmes (quantos? É um acervo físico? Virtual?)
Agora, pensando com tanto distanciamento sobre o Projeto, imagino que a “luta” tenha sido apenas porque eu achava bonito isso de compartilhar um gosto adquirido. E tinha um público e as coisas foram acontecendo. Esse “dar-se conta” de como tudo ocorreu é estranho e, ao mesmo tempo, tremendamente delicado. Eu nunca parei pra pensar que “se eu fizer assim“ ou “se eu fizer assado” isso poderia ser mais “interessante”. As coisas simplesmente aconteceram. Nunca ganhei dinheiro (ao menos nada que pudesse “solucionar” algumas questões elementares da vida cotidiana. E com isso não estou desprezando, é claro, dois patrocinadores corajosos que ajudaram o Projeto nos últimos anos), nunca foi meu foco – aliás, sou péssimo nisso de ganhar dinheiro.
Sobre a fama, creio que aconteceu alguma coisa. Algo que me faz rir hoje em dia porque isso é uma tremenda bobagem.
Amigos foram muitos e continuam sendo. Isso é o tipo de coisa que a gente costuma chamar de “impagável”.
Amores, nenhum… infelizmente. Porque no fundo o Projeto, como eu já disse publicamente, sempre foi uma tentativa de “arranjar” um namorado. Mas isso nunca deu certo. Acho que os rapazes tinham medo de mim.
Já a coleção de filmes (físicos, todos eles) bem razoável. Creio que uns 4 mil.
Sem contar os que já joguei fora – nossa, quantas bobagens são feitas!

Qual é a sua cidade natal e qual o bairro onde mora em Maringá? A idade já revelou, né? 50 anos bem vividos!
Eu nasci em Cascavel, mas saí de lá aos 20 anos e perambulei por aí. Moro, aqui em Maringá, na Zona 7, perto do Teatro Barracão. Lamentavelmente, 50 anos. Isso porque sou absolutamente incompetente no quesito suicídio. Tentei três vezes. Depois, tive que me conformar. Mas como muitos casos famosos, creio que ainda é uma possibilidade. Nunca esqueço a emoção que senti quando o diretor italiano Mario Monicelli (de filmes como “A Grande Guerra” e “Os Companheiros”) se atirou do quarto andar do hospital onde estava internado para tratar de um câncer na próstata. E isso aos 95 anos de idade. Pra mim, foi uma grande demonstração de que ele tinha direito à liberdade. Parece-me, na verdade, um tremendo gesto político, se pensarmos que a única maneira, hoje, de encararmos essa palavra é como um gesto absolutamente político. O meu corpo é político. A minha vida é política. O que eu faço dele, do corpo, e dela, da vida, é de interesse meu e apenas meu. Eu, inevitavelmente, sou um ser político. Como diria o Kirilov, em “Os Demônios”, do Dostoiévski: “suicidar-se é dar provas da própria liberdade”. Há quem não concorde, e eu sou muito compreensivo quanto a isso, na medida em que cada um cuida do que é seu e faz de sua vida o que bem entender. Adoro o Maiakóvski quando ele diz: “Para o júbilo, o planeta está imaturo. É preciso arrancar alegria ao futuro. Nesta vida, morrer não é difícil. Difícil é a vida e seu ofício”.

Como era a sua relação com as distribuidoras de filmes e como você encarou a mudança radical do 35mm (película) para o digital?
Quando o Projeto começou, as coisas eram bem complicadas. Por mais que as distribuidoras de filmes de arte soubessem que seu produto não iria vender como um blockbuster, queriam um retorno razoável. E nem sempre isso foi possível, devido ao público inicial bastante escasso. Depois, com o tempo – e tanta vontade de desistir – as coisas foram mudando e a relação basicamente se inverteu: era a própria distribuidora que pedia para que exibíssemos seus filmes. Chegamos a deixar em cartaz o “Nossa Música”, do Godard, durante quatro semanas – mais tempo do que em São Paulo. E chegamos mesmo a exibir a cópia restaurada do “Passion”, também do meu querido Godard, antes mesmo de São Paulo. Foram muitas coisas lindas que aconteceram e das quais tenho muita saudade.
A mudança para o digital foi uma coisa triste, para mim. Como eu disse, a emoção de receber aquelas latas de filmes era inigualável. Quando chegaram as dez latas (três horas de duração) do “Rocco e Seus Irmãos”, do Visconti, eu juro: beijei todas as latas. Apalpei a película. Queria sequestrar o filme. Foi quase um orgasmo.

Na entrevista também comentou o lado divertido dos debates, mas já ouvimos casos de pessoas que se sentiram constrangidas durante as discussões pelo fato de ter demonstrado autoritarismo quanto aos seus pontos de vista. Isso tudo fazia parte de uma cena, do jogo, ou realmente, como também afirmou na entrevista, teve gente que quis acertar as contas no braço?
Essa questão do autoritarismo, eu penso agora, sempre foi uma defesa. Era o meu jeito de me defender de algumas coisas, de algumas pessoas, de algumas colocações que eu, por vezes, pensava serem ingênuas demais, tolas demais e, ainda, imbecis demais. E era, ainda, uma maneira de me defender daquilo que eu ainda não compreendia, das coisas que eu ainda não detinha (e, talvez, ainda não detenho). Mas é a velha história: o Projeto era eu, ficava difícil fugir de alguns “princípios”, digamos assim, adquiridos com o tempo. De qualquer forma, jamais disse que eu era o dono da verdade. Aqueles que se sentiram vilipendiados pelo meu autoritarismo, na verdade, talvez, não tiveram culhões para encarar de forma mais ostensiva a minha argumentação. Inclusive, uma dessas pessoas, algum tempo depois de um “arranco rabo”, num debate, chegou a vir a óbito. E eu pensei: “tá vendo Paulo, pra que tanto estresse?” Achei engraçado. O meu pensamento, não a morte do cara, por favor! A morte é uma coisa natural, não é mesmo? Considero a morte uma beleza. A última beleza. Calma (caro leitor), cuidado para não simplificar as coisas.
E depois, se pensarmos bem, tudo é cena, tudo é jogo de controle – não há como escapar disso. Contudo, teve gente que, julgando que eu era “culpado” por aquilo que (ele) havia acabado de assistir, chegou mesmo a dar de dedo na minha cara dizendo coisas do tipo: “você não tinha o direito de fazer isso”. Ora, se isso não é engraçado, então eu devo mesmo ser louco. Eu acho muito divertido quando lembro de certas coisas, de certas cenas bizarras – como, por exemplo, pessoas chegando até a bilheteria do cinema e apontando para um cartaz de um filme do Projeto e perguntando: “aquele filme é pra pensar?” Ou então o cara que entrou nada sala exatamente no momento de uma cena de sexo oral explícita, entre dois homens, no polêmico “O Fantasma” (2001), do português João Pedro Rodrigues. Foi muito engraçado, porque eu estava assistindo também ao filme, junto com o público. E ele se sentou na mesma fileira de poltronas que eu, só que do lado oposto. E ele começou a se masturbar, tranquilamente, como se estivesse na sua própria casa. E dava pra ouvir o barulho do cinto dele. Quando terminou a cena, ele se levantou, fechou o zíper da calça e o cinto e foi embora. Eis o mundo, eis o ser humano. Como diria o Melville, no “Bartleby”: “Oh, humanidade!”

Já pensou em disponibilizar essa sua coleção (4 mil títulos!) para o público de alguma maneira? Fazendo empréstimos remunerados, de repente…Assim como já existe em sebos de SP, você poderia ser uma espécie de locador-guia, sugerindo os filmes certos para cada um…
Acho que teria de abrir uma empresa. Acho que daria muito trabalho. Acho que teria de dizer não para muitas pessoas com as quais não tenho a menor afinidade. Acho que acabariam estragando os filmes. Acho que as pessoas são muito mal-educadas e não cuidam direito das coisas dos outros. Acho que não quero não. Acho até que vou vender os meus filmes e me tornar mendigo. Eu e meus três cachorros, que eu amo mais do que tudo neste mundo. Mais até, inclusive, que o cinema. E viveríamos até o dinheiro acabar. Depois, a escuridão e o silêncio da floresta. “E ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos”. Sempre amei isso do Pessoa. Ou, então: “Vivi, amei, estudei e até cri. E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu”. O Pessoa ainda é o cara.

*Parte desta entrevista foi publicada nesta terça-feira (16) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Para alimentar a alma

Na sexta-feira passada, em pronunciamento exibido em rede nacional, a presidenta Dilma Rousseff anunciou a desoneração de todos os produtos da cesta básica, que passarão a ser isentos de impostos federais. O governo aproveitou a oportunidade para também ampliar o número de itens que compõem a cesta básica, que passará a ter: carnes (bovina, suína, aves e peixe), arroz, feijão, ovo, leite integral, café, açúcar, farinhas, pão, óleo, manteiga, frutas, legumes, sabonete, papel higiênico e pasta de dentes.

Para os idealizadores da campanha Leitura Alimenta, lançada oficialmente em São Paul (SP) há cerca de 15 dias, faltou um item básico e essencial na cesta básica brasileira: livros.

Olhando para o lastimável e sempre pouco lembrado setor da educação no País e amparados em estatísticas que revelam a falta do hábito da leitura por parte da maioria dos brasileiros, eles resolveram não esperar por um decreto ou projeto de lei para arregaçar as mangas e fazer algo para que os livros cheguem até as famílias brasileiras. Em parceria com a Livraria da Vila e com a empresa Cesta Nobre, a agência de propaganda Leo Burnett Tailor Made vem encabeçando essa campanha, que consiste em inserir um livro para cada cesta básica entregue.

Inicialmente, serão dois meses de campanha. Para conseguir acoplar um conservado livro dentro de cada uma das três milhões de cestas básicas entregues anualmente pela Cesta Nobre em vários Estados brasileiros, há sete pontos de coletas espalhados por lojas da Livraria da Vila, todas em São Paulo. Mas o Leitura Alimenta espera contar também com doações vindas de outras cidades. Para isso, disponibiliza no site do projeto duas alternativas para quem está longe e queira doar livros: a caixa postal para o envio das obras ou a compra simbólica de ebooks no valor de R$ 1 a R$ 200 e que será totalmente revertida na compra de livros novos (com 30% de desconto na Livraria da Vila) para a campanha.

Conheça o projeto no site: www.leituraalimenta.com.br

E leia matéria completa no D+, do Diário de Maringá.

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