quem vem pra beira do mar nunca mais quer voltar



O mar, o homem e o filho*

O homem andou por andar, andou. E parou na beira do mar. Um assovio, os pés descalços na areia. O barulho das ondas. Um aquário gigante e infinito que permite pescar a vida toda. Ele andou por andar e, de tanto andar, encontrou o mar. E de perto dele não quer mais sair. Dorival Caymmi sempre está certo. Um assovio. A bela canção vai começar. O músico está certo: quem vem pra beira do mar nunca mais quer voltar.

E é perto do mar que o homem faz sua história, sua vida. Ao interior, onde o mar é roxo e tem gosto de terra e de soja, palco de sua criação e de seu espichar, voltou só para buscar um amor e logo a levou bem pra perto do mar. Um homem precisa do mar, mas precisa de um amor também para mostrar a beleza do mar.

Vendo boniteza em tudo é que o homem sai para trabalhar. E como é lindo, para ele, acordar e ver o topo de uma serra, lá no alto, que o faz lembrar que o mar está perto. São poucos quilômetros, de carro alguns minutos, uma considerável caminhada a pé, e o mar aponta no horizonte de águas salgadas. O cheiro e a maresia não respeitam fronteiras e chegam a sua casa como marca registrada.

Casa, animais de estimação, amor e trabalho. É isso o que tem na vida. E ele é feliz por tanto andar e finalmente encontrar a paz do viver bem perto do mar. Talvez ainda não saiba, mas é Caymmi quem diz: todo caminho dá no mar.

Para muita gente, a vida é como a onda do mar. Leva. Traz. E um dia o homem que foi pra beira do mar e que nunca mais voltou para o sertão mostrou aos seus amigos uma avenida que a chamam de Atlântica. Da avenida, dá pra ver areia, dá pra ver o mar de Santa Catarina. E dá pra ver o sorriso da moça bonita que passa. E dá pra ver a vida que pulsa em tons de jovialidade naquela turma de rapazes. Dá pra ver, da avenida Atlântica, na beira do mar, que todos nunca mais querem voltar.

O homem, quando se está perto da beleza litorânea, perto do mar que quando quebra na praia é bonito é bonito, começa a sonhar mais alto. Ele olha pra imensidão aquática, olha pra liberdade existente só naquele aquário de Deus e fica sonhando acordado com um barco. Mas logo se lembra dos dois amores que tem o pescador. Ah, grande Caymmi. Ele quer pescar (uma forma de estar conectado com o mar), mas quer ficar juntinho também com o bem da terra, que fica na beira da praia, chorando baixinho de saudade fingindo não chorar.

Nessas idas e vindas, nesse leva e traz das ondas, ora estando mais perto dela ora estando mais perto dele, do mar, ele segue a vida e, mesmo com as dificuldades que parecem querer provar que nada ainda está ganho, ele não sente dificuldades em sorrir.

O mar é doce. Mas deixa saudades. E, ainda que perto, às vezes pode ficar muito longe. É por uma boa causa. Neste mês de julho, completam-se nove meses que ele não vai pra beira do mar. Mas há dois amores (ou agora seriam três?)! Noites frescas em uma casa que fica bem perto do mar, o doce mar. E a vida também é doce. E pode ser sempre melhor. E é isso o que pensa o homem. A vida pode ser sempre melhor, ainda mais na beira do mar. Ele não desistiu do barco, continua sonhando acordado. Talvez mande pintar nele o nome do seu primeiro filho e futuro parceiro de pescaria: Lorenzo.

*Crônica publicada dia 5 de julho na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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