reportagem



Refúgio de sorriso e paz

Hudson Zanoni e Alexandre Penha em Burkina Faso, no continente africano, em novembro de 2014

Hudson Zanoni e Alexandre Penha em Burkina Faso, no continente africano, em novembro de 2014

Por Wilame Prado

O governo da Jordânia foi elogiado recentemente pela ONU ao anunciar que poderá ajudar até 78 mil sírios refugiados a conseguir trabalho legalmente no país. O que o governo talvez não consiga é propiciar momentos descontraídos para este povo a ponto de até, quem sabe, fazer refugiado voltar a sorrir.

Fazer sorrir, talvez até gargalhar: esta será a missão dos atores e palhaços profissionais maringaenses Alexandre Penha e Hudson Zanoni, da Cia Teatro Expressão de Amor. Eles têm viagem marcada no dia 25 de maio sentido a Aman, capital da Jordânia, onde realizarão apresentações para crianças e adultos refugiados da Síria.

Os palhaços foram convidados pela Missão Desafio, instituição que atua no Brasil e em diversos países de alto risco ao redor do mundo com o objetivo de levar dignidade e melhor qualidade de vida às pessoas dessas regiões por meio de construção de poços artesianos, escolas, estruturas de trabalho, igrejas e, também, viabilizando apresentações artísticas.

Jordânia é considerada um reino árabe e faz fronteira com a Arábia Saudita, Iraque, Síria, Israel e Palestina. Há meses, o país tem recebido refugiados sírios: pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados da Jordânia, já são 640 mil refugiados sírios registrados.

Durante a expedição, Alexandre Penha garante que estarão em áreas protegidas, mas próximos de países onde há, atualmente, confrontos armados. A motivação vai além de qualquer perigo, no entanto. “Observamos que nossos problemas são graves, mas perto de alguns povos são pura vaidade. Os brasileiros lutam por dignidade e melhora de vida; alguns lugares lutam, ainda e apenas, por sobreviver, por água ou comida”, diz ele.

Com a missão de colecionar sorrisos raros, Penha e outros atores da Cia Expressão de Amor já percorreram mais de dez países, entre eles Haiti, Burkina Faso, Peru e Nepal, todos vivendo a extrema miséria e carentes de comida, água, dignidade e momentos descontraídos, como aqueles proporcionados quando jovens atores vestem suas roupas coloridas, transformam-se em palhaços e fazem de tudo para que – pelo menos durante aquele momento – todas as mazelas da vida (e que nenhum ser humano merecia sofrer) sejam esquecidas.

Com uma experiência de 13 anos como médicos-palhaços percorrendo hospitais e asilos de Maringá e região, Penha e Hudson Zanoni estão acostumados a visitarem àqueles que nem sempre são lembrados. “Aprendemos de maneira prática como a vida deve ser simples e como podemos sempre dividir.”

E se poucos estão dispostos a visitarem um enfermo na cama do hospital ou mesmo um velhinho no asilo, que dirá se encontrar com um refugiado sírio buscando acima de tudo a sobrevivência? É justamente aí que entra o trabalho voluntariado dos palhaços maringaenses.

“Nosso objetivo é estar presente onde ninguém quer ir e assim levar, através da arte, alegria, amor e nossa cultura para essas populações”, diz Penha. “Acreditando que a ética do encontro pode mudar um dia ou uma vida de uma pessoa”, reforça.

E se cada um ajuda como pode, é com a arte clownesca que os palhaços não deixam de acreditar que rir, afinal, pode ser também um santo remédio. “A arte ajuda a salvar quando é feita de maneira responsável e está sustentada por uma estrutura maior que cuida das pessoas. Acreditamos que todo ser humano precisa de alimentação, moradia, saúde, segurança e muita arte (palhaço, dança, música, teatro, circo) para viver bem”, considera.

AJUDE
MISSÃO DESAFIO
Com os palhaços e atores Alexandre Penha e Hudson Zanoni
*A missão ainda recolhe recursos para a viagem; portanto, quem quiser ajudar e ainda conhecer melhor o projeto pode entrar em contato pelo e-mail [email protected]sao deamor.com.br ou WhatsApp: (44) 9930-7230

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (4) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Rubros e diretos*

Tirinha de Tiago Silva, disponível em rubrosversos.wordpress.com

Tirinha de Tiago Silva, disponível em rubrosversos.wordpress.com

Por Wilame Prado

De Campo Mourão, Tiago Silva faz sucesso na internet com os Rubros Versos, projeto que mescla arte e crítica social

Muitos preferem o silêncio quando o tema é racismo, igualdade de gêneros, ditadura da beleza ou homossexualidade. Ao contrário da maioria, com o lápis na mão e a ideia na cabeça o cartunista e quadrinista Tiago Silva, 29 anos, costuma ser direto no que tem para dizer por meio de quadrinhos. É assim que os Rubros Versos (www.rubrosversos.wordpress.com) têm atraído milhares de pessoas na internet. Só no Facebook, a página do projeto já conta com mais de 40 mil curtidas. Os quadrinhos postados na rede social chegam a receber duas mil curtidas e uma infinidade de compartilhamentos.

Agora, Silva – que é natural de São João do Ivaí e mora em Campo Mourão – quer transformar os quadrinhos rubros (os tons avermelhados são característicos em todas as artes) em livro. Recentemente, ele começou uma campanha de financiamento coletivo no site Catarse para reunir quadrinhos em um volume impresso.

Os antagonistas e os coadjuvantes ganham vozes, corpos e destaque nos traços do quadrinista. Uma mulher acima do peso clama pela felicidade acima de qualquer padrão determinado pela mídia; uma garota com seu blackpower prega o fim da expressão “cabelo ruim”; e uma simples imagem de um recipiente e três escovas de dente sugere o amor livre entre casais ou mais pessoas.

“As pessoas me inspiram. A nossa diversidade cultural e toda essa complexidade humana que se deriva disso. Essas coisas me deixam sempre instigado a tentar entender tudo e expressar a minha visão”, revela Silva – um confesso seguidor de uma tríplice de respeito nos quadrinhos: Laerte Coutinho, Bill Waterson e Robert Crumb.

Ao evidenciar costumes e o cotidiano daqueles que não seguem o considerado padrão comum numa sociedade machista e autoritária, ele coleciona sim vários elogios, mas também represálias. “É corriqueiro meus quadrinhos serem denunciados pelos defensores da ‘moral e dos bons costumes’. Às vezes as denúncias não dão em nada, porém já tive quadrinhos sumariamente apagados da página e meus perfis no Facebook bloqueados algumas vezes”, lamenta ele, que, além do projeto pessoal, atua na edição gráfica do jornal Correio do Cidadão e já emprestou seus traços para o site Vida Breve e o jornal O Duque.

Do livro, porém, ninguém poderá apagar nada. Restando ainda 40 dias para o término da campanha no Catarse, o artista recolheu até então 9% do valor necessário para a tiragem da primeira impressão do livro “Rubros Versos”, que terá mais de 100 páginas e feito em A5, com ótima impressão gráfica. “O livro será um compilado de tudo o que saiu na página do Facebook, além de algumas páginas inéditas, que serão feitas especialmente para a versão impressa”, garante.

*Matéria publicada em 9 de fevereiro de 2016 no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Filó Machado canta no Femucic

Filó Machado apresenta a sua canção "A Índia e o Atirador de Facas"

Filó Machado apresenta a sua canção “A Índia e o Atirador de Facas”

Por Wilame Prado

Músicos do Recife, Goiânia, Curitiba, Aracaju, Londrina, São Paulo e Maceió se apresentam na noite deste sábado (6), a partir das 20h30, no Teatro Calil Haddad, pela última noite do 37º Festival de Música Cidade Canção (Femucic), realizado pelo Sesc em parceria com a Prefeitura de Maringá e RPC. A entrada é franca.

Um dos selecionados é o experiente cantor, compositor, multi-instrumentista e arranjador Filó Machado, de SP. Nesta noite, o músico com mais de 50 anos de experiência apresenta a canção “A Índia e o Atirador de Facas”. Filó está por aqui desde quarta, quando ministrou um workshop de improvisação. Ele tem onze CDs gravados, uma indicação ao Grammy Latin Jazz e recebeu o título de “mestre da música”.

Outra atração imperdível da noite é a participação da cantora e compositora Kátia Teixeira, também de SP. Ela, que no ano passado fez bonito cantando “Maria Estrela e Geraes” (de Chico Branco e Amauri Falabella), este ano mostra ao público a canção “Pega-Pega”, de sua autoria.

Set list da noite

1.Sertão Ibérico – Cavalgada (Recife/PE)
2. Chico Aafa – Setembro (Goiania/GO)
3. Viola Quebrada – Viola de palha (Curitiba/PR)
4. Viola Quebrada – Meus retalhos (Curitiba/PR)
5. Duo Ricardo Vieira e João Liberato – Eçaúna de mel (Aracaju/SE)
6. Duo Ricardo Vieira e João Liberato – Livre prá chorar (Aracaju/SE)
7. Fabio Brinholi e a Entropia – Jaboticaba (Londrina/PR)
8. Fabio Brinholi e a Entropia – O medo (Londrina/PR)
9. Kátya Teixeira – Pega-pega (São Paulo/SP)
10. Ell Gênio Duo – Canoa grande (Recife/PE)
11. Filó Machado – A índia e o atirador de facas (São Paulo/SP)
12. João Pereira Lima – Coisas difíceis (Maceió/AL)

DE GRAÇA
37º FEMUCIC
Última noite do festival
Quando: hoje, às 20h30
Onde: Teatro Calil Haddad
Entrada franca
*Retire ingressos até 20h na bilheteria do teatro

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O brilho e a simpatia de Aline Luz

Aline Luz: violão é companheiro desde os 12 anos de idade

Aline Luz: violão é companheiro desde os 12 anos de idade

Por Wilame Prado

A cidade terá a chance de ver brilhar pela primeira vez uma nova compositora maringaense a partir das 21 horas deste sábado (30), quando Aline Luz, 26 anos, subirá ao palco do Teatro Barracão para fazer o seu primeiro show. Todo mundo da plateia terá em mãos o primeiro CD dela “Aline Luz”, contendo doze faixas de canções simpáticas, que mesclam pop rock, folk, MPB e uma voz doce, como a própria cantora. Show e disco são de graça.

Contemplada na categoria Artistas Iniciantes do Prêmio Aniceto Matti, Aline tem cinco datas de shows confirmadas em Maringá e a tiragem de mil cópias do álbum, que será distribuído para cada um que for aos shows. Além de sábado, ela cantará no Barracão no domingo, no mesmo horário. Em junho, apresenta-se nos dias 6 no Teatro de Oficina da UEM e 13 e 14, retornando ao Barracão.

Aline deu entrevista quinta-feira, no térreo do Teatro Calil Haddad. Ao seu lado, o inseparável violão, que começou a tocar aos 12, meio que a contragosto da mãe, pianista que sugeria às filhas (Aline tem uma irmã gêmea que também toca e canta)um bom curso de piano. Fez as duas coisas, e ainda participou de grupos de corais. O tempo passou. Todos sempre elogiaram o timbre e a facilidade com que Aline tem quando coloca as mãos nas seis cordas de aço de um violão.

Nos churrascos, não tinha tempo para sequer tomar água, quiçá uma cervejinha. Todos queriam vê-la cantar o cancioneiro consagrado do pop rock anos 1980 e 90, Kid Abelha, Skank, Titãs, Pato Fu e por aí vai. As ambições profissionais nunca a distanciaram da música: hoje, formada em Psicologia na UEM e residente no Observatório Social, os churrascos e as cantorias continuam, até mesmo onde mora,numa república na Zona 7, onde divide apartamento com duas amigas.

Mas algo mudou na vida de Aline há aproximadamente oito anos. Uma tragédia pessoal fez com que ela ultrapassasse a barreira que separa a interpretação da composição. Mais precisamente em 17 de julho de 2007, ela viu na lista das vítimas do fatídico acidente com uma aeronave da TAM, em São Paulo, o nome de sua tia, incentivadora do seu talento, e, curiosamente, dona daquele primeiro violão com que teve contato e que possibilitou a entrada da música em sua vida. Aline precisava compor para pelo menos tentar expulsar a a dor.

“Queria saber fazer um samba pra você/Mas meu coração só quer saber de blues”, são os versos iniciais da canção “Samba Blues”, primeira composição e que foi dedicada à memória da tia. “Não imaginava que levaria em frente a música. Estava na faculdade, recebi a notícia do acidente de avião. Compus pela primeira vez demonstrando ali a minha tristeza e a minha incapacidade de fazer qualquer coisa em meio ao luto. Minha tia era minha mãe também. Três dias antes do acidente, estávamos todos juntos de férias, em Foz. Não dava pra acreditar”.

Apreciadora da poesia, Aline conta que, antes, tentava cometer alguns poemas. E nada mais. A composição veio como luz, sem trocadilhos. Não parou mais. E hoje, ao apresentar o seu primeiro disco, percebe-se uma artista ainda em evolução, mas com duas joias raras em mãos: uma bonita voz, que se assemelha a vozes femininas da moda (Malu Magalhães, Uyara Torrente, Tiê, Clarice Falcão), e uma interessante maturidade nas letras.

Graça e leveza
À primeira vista, pode-se pensar que Aline Luz faz música romântica. Não é bem por aí. Há história de amor sim, mas há leveza e graça. Em “Cicatriz”, primeira faixa do CD e vencedora na categoria Aclamação Popular no 5º Festival Nacional Acorde Universitário, ela fala de um certo João que a deixa “sem chão” enquanto um tal Rafael a deixa só com seu “véu”.

Ela é também “família” na hora de compor. Além da canção dedicada à tia, o avô ganhou música também. A circense “Palhaço Mudo” – outra música premiada em festival – é homenagem ao avô, que a ensinou a ver filmes do Chaplin. “Hoje sou meio cinéfila graças a ele”, diz Aline, que, recentemente, compôs uma música inspirada pelo filme “Selma”, produção indicada ao Oscar e que narra a trajetória do pastor protestante e ativista social Martin Luther King. Percebe-se aqui também o lado social da psicóloga Aline Luz. O trabalho também é inspiração musical, diz ela. “Na música ‘Estação’, falo da alienação do trabalho. ‘Cantiga Urbana’ é a história de um menino de rua.”

Ainda trabalhando sua timidez, ela revela que o palco não a amedronta, mas se trata de experiência nova para quem nunca fez questão de tocar na noite maringaense. Para controlar as provações em meio ao público, as forças de Aline vêm do esporte. “Este ano quero ver se tiro minha faixa preta no karatê. Já joguei futsal, basquete e nadei. A competição esportiva ajuda a aprender lidar com a plateia”, diz.

Hoje, no Barracão, ao lado da banda formada especialmente para o projeto (Ronaldo Gravino no teclado e violão, Walter Batera na bateria, Luciano Blues nos solos de guitarra e na gaita, Ribeiro no contrabaixo e Luane Pedroso na percussão), Aline Luz pegará em seu violão e talvez se lembrará de muita coisa vivida desde que escreveu a sua primeira canção. Nada em vão, a estrada só está começando para uma jovem que já começa a ficar atenta aos editais do Convite à Música e da Virada Cultural. “Quero que a minha música tenha o poder de inspirar as pessoas e que as faça refletir, como qualquer tipo de arte.”

*Reportagem publicada sexta-feira (29) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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John Fante não era um cara legal

John Fante: segundo o filho, resumia-se a roteiros de cinema, literatura e muito álcool

John Fante: segundo o filho, resumia-se a roteiros de cinema, literatura e muito álcool

Por Wilame Prado

Com uma trajetória inicial de pouco sucesso e poucas publicações, o que se dizia é que Fante passou a ser mais reconhecido quando o escritor Charles Bukowski (1920-1994) se declarou fã da saga de Arturo Bandini, o alter ego de Fante que quase sempre aparece em seus livros. Em “Mulheres” (1978), Henry Chinaski, alter-ego de Bukowski, diz que seu ator preferido se chama “John Fante”, “F-A-N-T-E”, enfatiza o personagem.

No entanto, Dan Fante, 68, filho de John Fante, em entrevista concedida à Folha de S. Paulo, disse que não foi Bukowski quem redescobriu a literatura produzida por seu pai. Quem recuperou as obras de Fante na década de 70, segundo Dan, foi Ben Pleasants, editor de poesia do jornal Los Angeles Times.

Dan Fante, escritor igual ao pai e autor de 11 obras publicadas, revela que a relação com o pai nunca foi das melhores. Suas memórias foram publicadas em “Fante – A Family´s Legacy of Writing, Drinking and Surviving” (“Legado de Escrita, Bebida e Sobrevivência”, em tradução livre), ainda inédito no País.

Na obra, o filho revela um John Fante que mesclava a rotina como roteirista de cinema (o que lhe dava retorno financeiro) e as tentativas literárias, tudo isso em meio a um consumo excessivo de álcool, algo menos glamoroso e mais triste do que as histórias vividas por Arturo Bandini nas páginas de seus romances.

Dan Fante, que só veio a ter uma relação de amizade com o pai após os 30 anos de idade, afirma à reportagem da Folha de S. Paulo: “John Fante não era um cara legal”.

Em 1955, Fante descobre a diabetes, que o tornaria cego em 1978. Antes de morrer, aos 74 anos em 1983, dita sua última obra literária, “Sonhos de Bunker Hill”, para Joyce, sua mulher. Boa parte de sua obra foi publicada postumamente. Dan Fante, filho dele, escreveu um romance sobre a morte do pai: “Chump Change”, ainda inédito no Brasil. Em 2000, Stephen Cooper publicou “Full of Life” – biografia de John Fante, também inédita no País.

Em 2006 foi lançado no Brasil o filme “Pergunte ao Pó”, uma adaptação do romance mais famoso de Fante, publicado originalmente em 1939. Curiosamente, na época do lançamento foram vendidos apenas cerca de três mil exemplares do livro.

Só na década de 80, quando Charles Bukowski assina o prefácio da reedição de “Pergunte ao Pó”, é que o livro se torna um grande sucesso de venda e críticas pelo mundo. O filme mostra a paixão do aspirante a escritor Arturo Bandini (Colin Farrell) pela garçonete Camilla (Salma Hayek). Enquanto ela tem o sonho de arrumar um bom marido e sair da vida de garçonete, ele vive num quarto de hotel barato sonhando com a vida de escritor.

*Parte de reportagem publicada no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná em 10 de junho de 2012

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Causos do cantador Boldrin

Rolando Boldrin, em momento do show "Causos & Canto": ingressos esgotados em Maringá

Rolando Boldrin, em momento do show “Causos & Canto”: ingressos esgotados em Maringá

Por Wilame Prado

A vinda de Rolando Boldrin a Maringá para a apresentação do show “Causos & Canto” (ingressos esgotados), às 21 horas de amanhã, no Teatro Calil Haddad, destoa da maioria dos shows ditos sertanejos e tão em voga na cidade. O Sr. Brasil despreza esse suposto estilo musical. Informado sobre a contabilidade de mais de 300 duplas sertanejas por essas redondezas, ele prontamente interrompe a pergunta e clama: “Vamos falar de Brasil”.

“Eu não trabalho com esse tipo de produto, meu trabalho é brasileiro. Além do que, se trata de um título mentiroso: sertanejo, pra começar, é música nordestina, portanto essa nomenclatura está errada. Eu não gosto desse tipo de trabalho, ele sofre muita influência do country norte-americano, e eu trabalho com Brasil. É uma pena que o Paraná esteja infestado de música sertaneja, não considero isso como um produto nacional, respeito os intérpretes e os grandes cantores, mas não me agrada nenhum pouco o ritmo, a temática e o visual”, diz, ao telefone, Boldrin, 78 anos, ator, contador de “causos”, músico, compositor e apresentador de televisão.

Para o show de amanhã, como faz há vários anos percorrendo em várias regiões do País, ele vem só. As histórias que coleciona desde menino, em São Joaquim da Barra, interior de São Paulo, o acompanham, falam por si. “Como digo na canção: sou eu, a viola e Deus. Para o show de amanhã, vou só, mas com Deus e com um violão. Chego para contar e cantar causos, para cantar o Brasil. E fico muito contente de saber que há um público grande no Paraná, é gostoso saber que sou reconhecido por meu trabalho. Venho cantando esse meu País há muito tempo, e essa é a nossa recompensa”, diz.

Sobre a preferência por cantar ou contar, Boldrin esclarece: não se considera um cantor e sim um cantador. Tem diferença. “Cantor é Cauby Peixoto. Eu sou um ator que canta. Eu faço com muito carinho, mas não sou cantor, sou cantador, um ator que canta. Cantar é também um ato de representar. Sou um cantador.”

Não será a primeira vez do artista na cidade. Entre idas e vindas, ele se recorda de um festival do qual participou em Maringá nos anos 1960 e de um detalhe que o tocou intensamente. “De Maringá, não tenho nenhum causo para contar, infelizmente. Mas me referencio sempre à cidade com a música de mesmo nome (de Joubert de Carvalho). Lembro-me, inclusive, de um show em um clube na cidade, acho que em 1967, em que fiquei profundamente tocado quando o Poly – um artista que já foi embora deste plano – pegou a sua guitarra havaiana (novidade, à época) e tocou ‘Maringá’. Foi uma comoção geral.”

Não é só samba
Em meio à entrevista, concedida pelo telefone fixo, Boldrin precisava de pausas a todo o momento. Era o telefone celular tocando. Para poder vir a Maringá, conta ele, antecipara gravações do programa “Sr. Brasil”, que está comemorando dez anos de TV Cultura. “Vim da Globo e estamos prestes a fazer um especial sobre os dez anos de TV Cultura. É lá que eu realizo meu sonho, o sonho de mostrar a nossa brasilidade através da música. No começo, queria provar que o Brasil não era só samba, futebol e mulata. Achava injusto com outros ritmos, com as coisas de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Caymmi, João do Vale, Chico Maranhão, Dércio Marques”, conta.

Sobre o programa, explica como hoje consegue encontrar tanta coisa boa para ser mostrada e apreciada. “Minha equipe é pequena, trabalho praticamente sozinho nessa busca pela brasilidade, mas é que venho de um trabalho antigo. E se no começo procurava principalmente os amigos da música, hoje recebo material do País todo, assim como ocorreu, por exemplo, com Almir Sater, Quinteto Violado, Caju e Castanha, todo esse tipo de trabalho começou a vir naturalmente.”

‘Credita’ no Brasil
O trocadilho é conhecido: Rolando Boldrin, assim como no mote de uma campanha publicitária protagonizada por ele em 1989 para um grande banco, continua “creditando” no Brasil e no brasileiro. Sobre os políticos, como o caboclo diz, ele se diz “desacorçoado”. “Nos políticos, continuo desacreditando, nem mexo muito com política, não. Acredito fazer minha parte com meu trabalho artístico. Não dá para se ter ânimo e nem enaltecer político, a corrupção está generalizada.”

Boldrin, por fim, mostra-se um otimista. “O brasileiro é bom, a índole do brasileiro é muito boa, é um povo maravilhoso. Para representá-lo, cito sempre Érico Verissimo: ‘E vendo e ouvindo este campeiro tão íntimo da terra e da vida tão iluminado pela sabedoria do coração, você compreenderá que o homem brasileiro é milagrosamente um só de Norte a Sul de Leste a Oeste, a despeito de suas distâncias geográficas, um só no que possui de essencial: a cordialidade, o horror à violência, a capacidade de dar-se e também de rir da vida dos outros e de si mesmo.'”

Esgotados
O cantador, que lotou um Guairão (Curitiba) no domingo passado, em pleno Dia das Mães, chega a Maringá de maneira gratuita graças a esforços coletivos. Sabendo do prestígio que Boldrin tem com o público daqui, como presente à cidade no mês de seu aniversário, a Ben-Hur Produções Artísticas e o Instituto Cultural Ingá (ICI) viabilizaram o show “Causos & Canto” com recursos do Ministério da Cultura (MinC), via isenção fiscal das empresas Fertipar e Ferrari & Zagatto, com mecanismos da Lei Rouanet.

Além da cidade, Boldrin ainda percorrerá com seu show neste mês as cidades de Londrina, Toledo e Ponta Grossa. Para o show de amanhã no Calil, o empresário e artista Ben-Hur Prado lamenta o fato de não haver mais ingressos para algum dos mais de 750 lugares que o teatro dispõe. Mas dá uma dica para quem não quer perder de jeito nenhum os causos e a cantoria de Boldrin: “Mesmo sem ingressos, dê uma passada no Calil meia hora antes de começar o show. Após o terceiro sinal, se houver lugares vagos no teatro, vamos liberar para quem está esperando lá fora.”

*Reportagem publicada nesta sexta-feira (15) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

 

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Femucic, agora também pelo YouTube

Apresentação no Femucic do ano passado, no Calil: este ano, em duas noites, serão 25 músicas (Foto de Ademilson Cardoso)

Apresentação no Femucic do ano passado, no Calil: este ano, em duas noites, serão 25 músicas (Foto de Ademilson Cardoso)

Por Wilame Prado

O 37º Festival de Música Cidade Canção (Femucic), marcado para as noites do dia 5 e 6 de junho, no Teatro Calil Haddad, será diferente de todos os outros. Uma das principais novidades será a possibilidade de assistir, ao vivo, o festival em streaming (ao vivo) por meio de link a ser aberto no YouTube.

As novas estratégias envolvendo a próxima edição do festival mais tradicional da cidade foram reveladas pelo gerente executivo do Sesc Maringá, Antônio Vieira, e por Érico Bondezan, técnico de atividades do setor de Música do Sesc. Em visita ao Diário, eles deram entrevista e contaram as novidades.

De acordo com Vieira, uma série de mudanças ocorre a partir deste ano no Femucic. A intenção, afirma ele, é fazer com que a comunidade maringaense se reaproxime do festival. “Em pouco tempo, o festival alcançou um nível de excelência e estrutura suficientes para ser considerado um festival nacional de música. Mas creio que, nesse processo, ele acabou se afastando da própria cidade. E isso não pode ocorrer: o Femucic é um festival genuinamente maringaense”, diz.

Com a aposta da transmissão ao vivo, os organizadores almejam que um número maior de pessoas, de todos os lugares – logo na hora do festival, ou depois – conheçam o festival e os compositores participantes. Portanto, este ano não serão feitas gravações de DVDs e CDs, que, em edições anteriores, eram distribuídos gratuitamente.

O Femucic mais moderninho, no entanto, não deverá afetar a participação, principalmente dos maringaenses, in loco. “Esperamos, como em outros anos, a casa cheia. Não há nada como ouvir de perto, ali no teatro, o músico executando sua obra”, considera o gerente do Sesc.

A outra novidade do festival deste ano – a redução de dias – também tende a estimular o registro de um bom público. “Encurtamos para duas noites de festival. Em vez de 52 canções selecionadas, teremos 25. Ou seja, serão canções ainda mais seletas e que serão tocadas numa sexta e num sábado, dias melhores para se sair de casa.”

Vieira comunica por fim duas outras mudanças do Femucic e que, em sua opinião, estimularão uma qualidade musical ainda maior durante as apresentações: cada intérprete apresentará a composição com grupo musical próprio e a ajuda de custo, dividida em três categorias, será mais justa, oferecendo mais recursos àqueles que moram em regiões mais distantes de Maringá.

Inscrições
Quem ainda pretende inscrever composições tem até 17 de abril para enviá-las. Até o momento (29 de março), os organizadores já haviam contabilizado mais de de 250 inscritos.

Oficinas com André Marques e João Omar
Com a proposta de reaproximar o festival dos maringaenses, os organizadores programam para este ano uma semana toda de atividades envolvendo músicos e estudantes de música locais. O técnico de atividades Érico Bondezan anuncia a vinda ao Femucic do André Marques Sexteto, liderado pelo pianista que integra a banda principal de Hermeto Pascoal, e também do violonista, violoncelista e maestro João Omar, que acompanha o pai – o grande músico baiano Elomar Figueira – desde os 9 anos de idade.

Os músicos convidados ficarão durante a semana na cidade, ministrando oficinas e também para participarem com shows na noite de estreia do Femucic, no dia 4 de junho.

ANOTE
37º FEMUCIC
Inscrições até 17 de abril
Quando: 5 e 6 de junho
Onde: Teatro Calil Haddad
Entrada franca
Informações:
sescpr.com.br/femucic/

*Reportagem publicada em 29 de março no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Crônicas do Mercadão de Maringá

Rafa, em choperia do Mercadão de Maringá: livro de estreia reúne histórias passadas no Mercadão (foto de Walter Fernandes)

Rafa, em choperia do Mercadão de Maringá: livro de estreia reúne histórias passadas no Mercadão (foto de Walter Fernandes)

Por Wilame Prado

O bar Tio Sam, no Leblon, tinha o João Ubaldo Ribeiro. E os bares do Mercadão de Maringá têm o Rafael Campos Bezerra, o Rafa, 67 anos, morador da Zona 7, professor de Microbiologia na UEM, agitador cultural, escritor e fotógrafo. Conhecido pelas andanças na boemia maringaense e pelo costume de beijar todo mundo e supervalorizar a tudo com um sonoro “genial!” no final da frase, ele bate cartão com assiduidade no chamado “lado molhado” do Mercadão. Saíram de lá todos os textos que compõem o livro “Crônicas e Chamadas do Mercadão de Maringá – Genial!” (publicação independente, 195 páginas, R$ 25), que será lançado a partir das 9 horas deste domingo, logicamente no Mercadão. Com apenas seis anos, o lugar já tem história.

Amigo dos amigos, Rafa tem disposição para mobilizar chamadas culturais que estimulam a reunião, a boa música e a boa cerveja principalmente em manhãs dominicais no Mercadão. Não à toa, os parceiros prometem abrilhantar o lançamento de seu primeiro livro amanhã com samba, blues e MPB. Para a manhã de autógrafos de Rafa, estão confirmados o Novo Trio, Ronaldo Gravino, Walter Thomé, Beto Batera, Wagner Silva e Os Bambas de Maringá, além das canjas de outros amigos. “Será um domingo realmente cultural. E ainda tem um coquetel, oferecido pelo Mercadão”, diz.

As crônicas de Rafa (um leitor de poesia, mas que aprecia as crônicas de Fernando Sabino, Rubem Braga e Luis Fernando Verissimo) são leves, malemolentes, em sua maioria cheias de graça. Mas há também um tantinho de tristeza e saudade, como um bom samba. O primeiro texto – logo após toda uma varredura que ele faz apresentando todos os estabelecimentos gastronômicos e serviços que atuam no Mercadão – trata do dia em que ele diz ter sido abduzido por moças belas num disco voador. Não à toa, as garotas o abduziram, logo ali, no estacionamento do Estádio Willie Davids, justamente no fatídico dia em que o Brasil perdeu de 7×1 para a Alemanha, na Copa do Mundo, ano passado. Coisas inacreditáveis – como uma abdução e até um Mineiraço – podem acontecer.

Os grandes personagens maringaenses também estão nas crônicas de Rafa, que, mesmo tendo nascido em Mirandiba, no sertão pernambucano, já pode ser considerado também protagonista maringaense das grandes histórias que acontecem especialmente pelas “ruas” do Mercadão, ou então em um bar ou outro que oferecem espetinho de carne com qualidade e, claro, uma boa gelada.

Uma das lendas da cidade, o jornalista e Editor de Esportes do Diário, radialista, cantor e compositor e compositor Cláudio Viola, é lembrado em uma das crônicas. Rafa conta quando, em show na antiga Kalahari em Maringá, o músico Taiguara pelo menos “tentou” tocar com o violão do Viola. “De quem é esse violão? E o Cláudio Viola se aproxima do palco e responde:

– É meu seu Taiguara. Todo orgulhoso. E o Taiguara pergunta:

– Como é o seu nome? O Cláudio Viola, que na época era um jovem rapaz e que não usava ainda o Viola no nome respondeu:

– É Cláudio, seu Taiguara, Cláudio de Oliveira. Taiguara olhou bem nos olhos do Viola e disse:

– Seu Cláudio, esse seu violão é uma merda!”

ESTANTE
CRÔNICAS E CHAMADAS DO MERCADÃO DE MARINGÁ – GENIAL!
Autor: Rafael Campos Bezerra
Editora: LB Graf
Número de páginas: 195
Preço: R$ 25

COQUETEL DE LANÇAMENTO
Quando: domingo
Onde: Mercadão de Maringá
Horário: 9 horas
Entrada franca

*Reportagem publicada neste sábado (11) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Plantações sonoras de Miguel Proença

Miguel Proença está em Maringá desde terça-feira: hoje o pianista encerra o projeto Piano Brasil com um recital no Calil (Foto de Dudu Leal)

Miguel Proença está em Maringá desde terça-feira: hoje o pianista encerra o projeto Piano Brasil com um recital no Calil (Foto de Dudu Leal)

Por Wilame Prado

Mais do que executar disputados recitais, o renomado pianista Miguel Proença, 76 anos, hoje tem como principal meta plantar sementes. É assim que ele metaforiza o trabalho que realiza com o projeto Piano Brasil, que teve na terça-feira, no Teatro Calil Haddad, a abertura de sua sétima edição, patrocinada pelo BNDES e Caixa Econômica Federal e que faz parte da programação da 2ª Semana Cultural de Maringá.

Por telefone, Proença revela ter ficado encantado com a cidade. “Organizada, limpa e com moradores que a amam. Quase não dá para ver o sol por causa da imensidão do verde”, diz ele, que espera colher também por aqui os bons frutos que só a música pode oferecer ao ser humano, de qualquer idade.

As crianças foram seu primeiro “alvo”. Quase 500 alunos da rede de ensino público tiveram o privilégio de receber das mãos, da voz e do piano do gaúcho radicado no Rio de Janeiro uma aula-show baseada em cartilha escrita pelo maestro Ricardo Prado e belamente ilustrada por Bruna Assis Brasil.

Na tarde de ontem, foi a vez dos estudantes e professores da área de música conhecerem o pianista e ainda participarem de uma master class, também com entrada franca.

Mas o ato principal da vinda de Proença a Maringá está marcado para hoje, às 20h30, também no Calil. É lá que ele executará recital com programa escolhido a dedo. “O programa, eu escolho as que eu toco bem; bom, pelo menos as que eu acho que faço bem. Toco aquilo que gosto, aquilo que consigo comunicar melhor com o público, aquilo que também faz me sentir melhor, com mais confiança tecnicamente e sonoramente.”

Com a proposta nacionalista do projeto – feita pelo pianista que executou toda a famosa coletânea “Piano Brasileiro” (2005), considerada pela Unesco como Patrimônio da Música Brasileira –, Proença não deixa de tocar no recital algo de Alberto Nepomuceno e Heitor Villa-Lobos. Mas diz ser um confesso apreciador dos românticos. Por isso, há também na apresentação interpretações de peças assinadas por Frédéric Chopin, além de canções de Gluck-Kempff, Debussy e Nazareth.

Com o Piano Brasil, diz ele, a intenção é pelo menos uma aproximação do que ocorre, por exemplo, na Alemanha, país onde morou por muito tempo e que a educação musical é uma realidade. “Não existe uma tradição de ensinar música clássica, de se ouvir música clássica, está tudo muito voltado para a televisão e o computador. É um alívio para os pais deixarem as crianças brincando com os tablets. Eu carrego pedra com esse projeto, mas não desisto. Sonho com o dia em que ele se oficialize, que se institucionalize, que eu possa ir para 40 e não somente para 15 cidades por ano. Mas para isso dependo do apoio político.”

Educação da alma
Tal qual Villa-Lobos – na opinião do pianista, o compositor mais importante da história da música brasileira e que percorreu Brasil afora levando a sua música durante oito anos –, Proença (com o projeto, já chegou a quase 150 municípios), quer levar música para o máximo de gente possível, sonhando com fartas colheitas musicais, que, para ele, consiste em algo aparentemente simples, mas ainda muito distante da realidade brasileira: o ensino da audição para a música de qualidade.

“Quem já gosta de música clássica, aprecia o projeto. Quem descobre a música clássica depois do projeto, tende a agradecer. Interpretação, pesquisa e imaginação sonora é educação para a alma, aprender a ouvir música é poder sentir o prazer de uma manifestação fantástica, que emociona, que transporta a outras atmosferas, que tira a pessoa dos problemas mais sérios, e não como fuga, não como o álcool ou as drogas, mas como uma forma de cultivar a sensibilidade”, reflete o pianista.

Sem roupa e sem um Steinway
O pianista Miguel Proença chegou ontem a Maringá considerando tudo muito bonito, tudo muito charmoso, mas não poupou algumas críticas por dois motivos: o extravio da mala no aeroporto – que o obrigaria a comprar roupas novas para executar as atividades durante os três dias de estada na cidade – e o mal conservado piano Essenfelder do Teatro Calil Haddad.

“Ter um enorme e bonito teatro como esse sem um bom e competente piano é como investir numa mansão sem colocar móveis dentro da casa. O piano Essenfelder, no Calil, ideal para apresentação de concertos, está bastante usado e com perda de qualidade sonora. Mas faço essa ressalva oferecendo o meu intermédio junto aos órgãos competentes caso queiram investir em um bom piano de nível internacional Steinway, vindo diretamente de Hamburgo, na Alemanha”, diz Proença, que, não sem méritos, hoje figura no “Wall of Fame” da Steinway&Sons junto aos maiores pianistas de todos os tempos.

Ironicamente , se as atividades do projeto Piano Brasil tivessem sido marcadas no Auditório Luzamor – mais acanhado, com capacidade para 400 pessoas sentadas, contra as mais de 700 do Calil -, o pianista teria ao seu dispor um legítimo piano Steinway, sempre requisitado por músicos que se apresentam na casa.

Pianos à parte, o intérprete se recorda com saudades do projeto que fez com Bibi Ferreira, os dois interpretando bons tangos, para afirmar que pianista clássico também costuma gostar de música popular, mas desde que tenha qualidade. “Gosto e toco música popular brasileira, a verdadeira, aquela feita com melodia, ritmo e inspiração dos nossos grandes compositores brasileiros. As canções eternas de Tom Jobim e das grandes vozes brasileiras. Sertanejo eu gosto também, do sertanejo bonito, vivo, aquilo que por tanto lutou a Inezita Barroso e outros nomes. Agora, o funk eu detesto. E o que é aquele Rock in Rio? Um bando de cabeludo escutando e fazendo barulho.”


RECITAL DE PIANO
COM MIGUEL PROENÇA
Quando: hoje
Onde: Teatro Calil Haddad
Horário: 20h30
Entrada franca

*Reportagem publicada quarta-feira (25) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Chico Xavier cai na dança

"Entre Dois Muros Marchemos": no palco, tango e ballet (Foto de Marquinhos Oliveira)

“Entre Dois Muros Marchemos”: no palco, tango e ballet (Foto de Marquinhos Oliveira)

Por Wilame Prado

“Há mistérios peregrinos/Nos mistérios dos destinos/Que nos mandam renascer:/Da luz do Criador nascemos,/Múltiplas vidas vivemos,/Para a mesma luz volver.” Assim começa o poema “Marchemos”, psicografado pelo falecido médium Francisco Cândido Xavier e atribuído ao espírito de Castro Alves. A professora e coreógrafa Nara Dutra diz ter sido tocada pela mensagem de força existencial que há em todos os versos do poema. E, então, transformou poesia em dança.

“Entre Dois Muros, Marchemos”, espetáculo do Ballet Nara Dutra livremente inspirado no poema, tem a sua estreia oficial hoje, a partir das 20h30, no Teatro Reviver. Atração do Convite à Dança, a entrada é franca. Nara Dutra assina a coreografia que será executada por sete bailarinos: Anderson Assumpção, Beatriz Scabora, Bruna Vieira, Isadora Prado, Loraine Dutra, Natália Almeida e Tainara Bizoto.

O espetáculo, que usa trilha sonora de Astor Piazzolla, não é apenas um ballet, e também não é apenas um tango. “Astor Piazzolla é uma preciosidade, desde o estudo de sua metodologia para composição até a maneira singular de interpretação e desenvolvimento do trabalho. ‘Entre Dois Muros, Marchemos’ é um tango no ballet, e um ballet no tango. Até mesmo por ter uma influência da dança contemporânea fortíssima no trabalho, mesmo com o uso de sapatilhas de pontas, algo associado por muita gente unicamente ao ballet clássico “, explica Nara.

A concepção da dança – alicerçada na mensagem do espiritismo e da poesia psicografada – é uma clara mensagem de esperança, ainda que em meio às dificuldades da luta, da marcha habitual da vida. Os desafios da arte, ou, mais especificamente, as barreiras comuns na vida de um bailarino, são representadas pelos muros, pelas dificuldades existenciais como um todo na relação entre as pessoas e o mundo.

Para traduzir tudo isso em dança, a coreógrafa desenvolveu seis cenas, ou seis passos intrínsecos à caminhada humana. Há, nessas etapas, o peso da existência, o conflito com os pensamentos negativos, o desejo de luta, as indecisões pelos caminhos a seguir e, finalmente, o progresso, a marcha para o infinito. Afinal, diz Nara, é preciso sempre seguir, na dança e na vida.

“Se não for assim, de que adianta marchar?”

CARTAZ
ENTRE DOIS MUROS, MARCHEMOS
Ballet Nara Dutra
Pelo Convite à Dança
Quando: hoje
Onde: Teatro Reviver (Avenida Cerro Azul, Zona 2)
Horário: 20h30
Entrada franca

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (18) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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