Resenha



Vinte minutos, uma vida

Por Wilame Prado

O escritor paulista Daniel Galera contribuiu satisfatoriamente com a história recente do Brasil no romance “Meia-Noite e Vinte” (Companhia das Letras, 208 páginas, R$ 34,90). Como poucos na literatura contemporânea, explorou o contexto online brasileiro, do advento da internet em 1995 até janeiro de 2014, tempo vivido pelos personagens do livro, a partir do assassinato de Andrei Dukelsky, conhecido por Duque.

Na trama, Duque fora um dos criadores do fanzine digital Orangotango (inspirado no verídico Cardosonline, o qual Galera fez parte), vindo a se tornar realmente escritor. Aurora, Emiliano e Antero – amigos dele, também colaboradores do fanzine nos idos de 1999 – são os narradores em primeira pessoa de “Meia-Noite e Vinte”, todos abismados com a morte banal daquele que prometia ser um dos grandes escritores brasileiros.

Em cada capítulo, uma voz diferente. Primeiro, Aurora: doutoranda em Biologia que conheceu o pessoal do fanzine quando fazia Jornalismo e que, principalmente após a morte de Duque e após uma negativa numa apresentação acadêmica, se vê inserida na espiral do pessimismo dos tempos de agora, a qual lhe faz pensar no fim do mundo. Depois, Emiliano, jornalista freelancer mais velho, gay e que está incumbido de escrever uma biografia do amigo escritor morto. Por fim, Antero, um exótico inteligente da área de Humanas que, mais velho, casado e com filho, acaba ficando rico com o passar dos anos após fazer sucesso com a sua agência de publicidade.

Daniel Galera consegue convencer ao propor três modos diferentes de contar uma história cheia de pontos em comum, sempre direcionada à vida e obra de Duque. O contexto do romance se destaca mais que a história principal: a de três amigos que se reencontram numa Porto Alegre real e terrível – verão escabroso, fedida e cheia de greves – para um velório.

“Meia-Noite e Vinte” não é sobre amizade, porém: é sobre internet, hábitos de uma geração que começou com o ICQ e chegou ao WhatsApp e aos chats pornográficos, os perigos da literatura em meio ao que é banal e principalmente sobre o tempo que escorre das mãos, todos ficando velhos e cansados, mas ainda tão próximos e nostálgicos da época da juventude, da virada do milênio, anos 2000.

A história se aproxima do leitor porque, arrisco dizer, o leitor de Galera viveu boa parte daquilo narrado por Aurora, Emiliano e Antero. Ler “Meia-Noite e Vinte” é como ler a sua própria história recente, sentindo saudosismo e ao mesmo tempo refletindo amargamente o quanto tudo parece estar cada vez pior – ainda que com as facilidades flagrantes de uma vida pós-moderna que se esgota quase que inteiramente olhando para uma tela de smartphone.

É como se tivéssemos perdido a noção do tempo e, também, a queima de fogos tradicional da virada de ano, na meia-noite. Passaram-se vinte minutos, uma vida se passou.

ESTANTE
MEIA-NOITE E VINTE
Autor: Daniel Galera
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 208
Preço sugerido: R$ 34,90

*Resenha publicada no caderno Cultura do Diário em 24 de fevereiro de 2017

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Os sertões de ‘Outros Cantos’

Maria Valéria Rezende em sua casa, em João Pessoa (Foto de Rafael Passos)

Maria Valéria Rezende em sua casa, em João Pessoa (Foto de Rafael Passos)

Por Wilame Prado

A escritora santista radicada em João Pessoa Maria Valéria Rezende, 73 anos, demonstra domínio da linguagem e um olhar diferenciado para com os excluídos do sertão brasileiro no livro “Outros Cantos” (Alfaguara, 152 páginas, R$ 29,90). A publicação se deu graças ao patrocínio da Petrobras Cultural.

Ela, que, além de escritora é também freira, volta a publicar após ter vencido, ano passado, o Prêmio Jabuti na categoria Romance e Melhor Livro de Ficção do Ano com “Quarenta Dias”.

Em “Outros Cantos”, a personagem Maria – deflagradamente inspirada na vida da própria autora – está dentro de um ônibus leito retornando à cidade fictícia de Olho d´Água, no Nordeste brasileiro.

Junto dela, nada além de reminiscências que transportam a história para décadas atrás, quando a personagem foi para o sertão graças ao programa Mobral disposta a auxiliar na alfabetização de um povo que não tinha quase nada, especialmente educação formal.

O relato se dá única e exclusivamente pelo olhar de Maria, ora no presente – com o sacolejar de um ônibus velho e percebendo que o sertão dos tempos de agora mudou radicalmente, como percebido no trecho instigante do livro: “O sertão não é mais sertão e ainda não virou mar. Fecho os olhos e minha memória recupera e estiliza a beleza despojada daquele meu outro sertão. Desde quando, sem que eu me desse conta, as casas sertanejas encheram-se de trastes e abandonaram aquela estética do essencial, minimalista, diriam hoje, que me encantava na minha casinha e em todas as outras de Olho d ´Água?”; ora no passado, descrevendo as suas lembranças que permitem ao leitor imaginar o cotidiano de pessoas simples, que viviam em uma intensa luta de sobrevivência – para comer, beber água e em meio às rezas e festejos para santos pedindo chuva para plantar e colher.

Ela permite que o leitor só aos poucos consiga construir em seu imaginário quem realmente é Maria. Uma simples e jovem professora idealista e disposta a mudar o mundo com suas próprias mãos? Não somente. Há também as lembranças das andanças da personagem pelo mundo, na Argélia e no México, por exemplo, conhecendo povos, costumes e outros tipos de sertões.

E há ainda no romance uma curiosa característica da protagonista: sonhadora em seus pensamentos, ela no fundo busca sempre um olhar perdido de um homem que cruza com ela em diferentes momentos da história. Sempre atenta ao olhar deste ser masculino, ela enxerga os olhos dele em vários lugares, em várias situações. No fim, ao levar em consideração também a própria história de vida da autora, abre-se uma margem para se pensar que, talvez, aquele olhar é a figura de uma entidade protetora para Maria, onde quer que ela esteja, talvez os olhos de Deus.

“Outros Cantos”, conclui-se, é maduro, de uma autora madura e esclarecida quanto à estilística textual, ortografia e gênero. Maria Valéria Rezende emociona, denuncia e propõe reflexões acerca de uma região brasileira, a vibração de gente que ainda sonha com o poder transformador do ensino e também de um período histórico: mais para o fim da trama, percebe-se claramente algo que a autora quer mesmo eternizar com a proposta literária, que é uma relação histórica com os rompantes vividos em meio à ditadura militar no País e movimentos importantes na luta contra a opressão, isso em regiões praticamente esquecidas pela grande mídia, cinema, História e afins.

OutrosCantos_570OUTROS CANTOS
Maria Valéria Rezende
Editora Alfaguara
Número de páginas: 152
Preço sugerido: R$ 29,90
Avaliação: ótimo

*Comentário publicado quarta-feira (11) no caderno Cultura, do Diário do Norte do Paraná

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Silencioso Pereira

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Por Wilame Prado

Como em suas crônicas que eram publicadas semanalmente no site Vida Breve, o silêncio predomina “na escuridão, amanhã” (Editora Cosac Naify, 128 páginas, R$ 32), livro de estreia de Rogério Pereira, 41 anos, catarinense radicado em Curitiba conhecido principalmente por seu trabalho como idealizador e editor do jornal literário Rascunho. Atualmente, Pereira também é diretor da Biblioteca Pública do Paraná.

Com inspirações autobiográficas, Pereira precisou de dez anos para compor seu primeiro livro. Ele se inspira na saga silenciosa e lastimável da família que, quando ele ainda era pequeno, se mudou da zona rural de uma pequena cidade em Santa Catarina para Curitiba, nos anos 1970. Lastimável pelo menos aos olhos do menino que demoniza o pai e suas atitudes autoritárias e deploráveis – chegando ao fato de abusar sexualmente da filha – e, sem antagonismos, não santificar a mãe, culpando-a também pela complacência, idiotice e catolicismo exacerbado.

Os personagens de Pereira não falam. Parecem apenas sussurrar em eternas lamentações em um cotidiano sufocante, cujos laços de família em nada ajudam na convivência humana, pelo contrário, prejudicam a vida do casal, da filha menina e dos dois filhos moleques, que, pelo menos, conseguem se distrair vez ou outra jogando futebol ou paquerando em festinhas de aniversário e após as aulas de catequese. O sofrimento de cada membro daquela família mata-os sem alarde, apenas mata-os. Deus não tem piedade alguma em “na escuridão, amanhã”. Pereira, a todo momento, mostra-se um sujeito ressentido, amargurado e que encontra na literatura uma alternativa para não definhar tão rapidamente tal qual os personagens inspirados na vida real.

O livro, ainda que curtíssimo – 128 páginas, em formato que se parece um pocket e com as propostas gráficas caprichadas da Cosac Naify que deixam grandes espaços em branco nas páginas do livro – estende-se numa leitura aflita, sufocante e perturbadora. Mas quem acompanhou principalmente a saga literária de Pereira, com suas crônicas moribundas que revelaram a cruz de uma mãe acometida por um câncer em seus últimos anos de vida, sabe e está até acostumado: literatura, para ele, é sofrimento puro. Dá-se a impressão que, para o autor, é escrever tudo aquilo sobre os dramas de sua família ou morrer. Para o leitor, há duas escolhas: repúdio ou fazer associações que remetem a dramas também próximos vividos no seio familiar. Todas famílias são cercadas por histórias tristes e dramáticas, afinal.

O autor surpreende pela maturidade com o livro de estreia. Em tempos de jovens apressados para publicar seus livros, os muitos anos acompanhando o andar dos lançamentos literários no País em razão dos trabalhos com o jornal Rascunho fizeram bem para Pereira e para seu texto de ficção, há tanto postergado sob forma de livro.

Não há objetividade tampouco estilo rebuscado no texto dele. Mas, intimista, Pereira conseguiu apresentar, logo no primeiro livro, seriedade e dotes existencialistas que fazem do livro de estreia um retrato cru de uma geração – essa que participou do chamado êxodo rural – que sofreu com a ausência de valores éticos, educacionais, culturais e – ainda que com os costumes católicos – o abandono de Deus. O destino daquela família, amanhã, é a escuridão, a morte.

Não é simples acordo de cavaleiros aquilo que escreveu Luiz Ruffatto na orelha de “na escuridão, amanhã”: a escrita de Pereira se aproxima da poesia, emula os arroubos dostoievskianos e faz lembrar da pequena obra deixada, até então, por Raduan Nassar. Vale a pena acompanhar, daqui para frente, o que escreverá o silencioso Rogério Pereira.

ISTO É ROGÉRIO PEREIRA

Nascemos amaldiçoados. Uma maldição caseira. A tapera de fendas obscenas insinuava que ali a felicidade demoraria a chegar. Ou nunca ousaria ultrapassar os limites dos pés de milho, mandioca e feijão. A velha não nos olhava, preferia os porcos que engordavam com dificuldade soltos no terreiro. A cada parto, nas ranhuras da terra esquecida, ouvia-se a maldição: “Nasceu mais um diabinho”. Fomos três pequenos demônios a rasgar a carne tenra, saudável e sagrada da mãe.

Quando o pai disse que a avó viria passar uns dias em C., senti medo e raiva. Após a chegada, sentiria também pena e desejo de vingança. Até o dia em que ela seria depositada no caixão e lançada à terra para sempre. Tínhamos a companhia de samambaias e azaleias. Estropiávamos os dedos chutando a bola de plástico no terreiro. Não éramos vermelhos, não tínhamos rabo, tampouco chifres. A maldição parecia ter falhado. No fim, acredito, ainda tentará nos alcançar. Eu nunca quis encará-la. Durante três dias, revirei-me na escuridão. Lá fora, uma tempestade. Minha queria dar-me à luz. Cheguei em meio a trovões, relâmpagos e um maldizer. Da parteira, não sei o nome. Não havia energia elétrica, a água vinha da serra ou do açude. Espíritos nos rondavam. Quando, enfim, abandonei o corpo lasso da mãe, a voz estridente da avó paterna me amaldiçoava. Às vezes, ainda rezo antes de dormir. ///Trecho do livro “na escuridão, amanhã”, de Rogério Pereira

PARA LER
NA ESCURIDÃO, AMANHÃ
Autor: Rogério Pereira
Editora: Cosac Naify
Gênero: ficção brasileira
Número de páginas: 128
Preço: R$ 32

*Comentário publicado domingo (12) no Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Comédia romântica para toda família

Por Wilame Prado

“Questão de Tempo”, filme em cartaz do diretor e roteirista neozelandês Richard Curtis, 56 anos, é uma espécie de comédia romântica com acabamentos mais cuidadosamente pensados. O longa é divertido, principalmente por causa dos diálogos dos personagens, e também tocante, porque traz à tona a importância da família acima de qualquer coisa. Isso tudo sem deixar de explorar os macetes fílmicos do amor, os quais costumam ajudar na bilheteria ao atrair casais para as salas de cinemas.

CARTAZ. Em “Questão de Tempo”, Tim se esconde no armário para voltar no tempo. —FOTO: DIVULGAÇÃO

CARTAZ. Em “Questão de Tempo”, Tim se esconde no armário para voltar no tempo. —FOTO: DIVULGAÇÃO

Abordar o fantasioso é arriscado no cinema. Curtis, cineasta que parece ter mão boa para as comédias românticas – ficou conhecido por roteirizar “Quatro Casamentos e Um Funeral” (1994) e “Um Lugar Chamado Notting Hill” (1999) – resolveu se arriscar em “Questão de Tempo” apostando em algo impensável na vida real: voltar no tempo. No longa, o protagonista, Tim (Domhnall Gleeson), herda dos homens da família a capacidade de voltar no tempo quando quiser, poder revelado pelo pai (Bill Nighy) no aniversário de 21 anos dele.

Com a habilidade, o jovem romântico e recém-formado em Direito não pensa duas vezes em voltar no tempo quando, por exemplo, sente que a primeira vez com a namorada não foi lá essas coisas. Cena engraçada a do espertinho voltando pelo menos quatro vezes para o quarto da bela Mary (Rachel McAdams) até se dar por satisfeito.

Como em tudo na vida, paga-se um preço para se ficar voltando no tempo. Em determinado momento, mesmo já tendo conseguido o contato daquela que seria a mulher da vida dele, Tom se arrisca ao voltar no tempo para ajudar Harry (Tom Hollander) – dramaturgo que o deixa morar em sua casa em Londres e que tinha encarado mais um fracasso na carreira ao ver um dos atores da peça escrita por ele tendo um branco acachapante na cena final do espetáculo, sendo assistido por um grande público. No final, porém, dá tudo certo, como em qualquer comédia romântica.

Curtis deixa para os coadjuvantes a missão do fazer rir em “Questão de Tempo”. Além de Harry – com todo seu mau humor ácido – as falas do Tio D (Richard Cordery) são impagáveis e arrancam facilmente gargalhadas da plateia. A epopeia ligeira e quase utópica vivida pelo jovem casal e os filhos pequenos que chegam ao mundo em uma velocidade alucinante também se faz engraçada principalmente pelo modo sensual e descontraído de viver de Mary e pelo jeitão desengonçado – mas exemplarmente correto, o típico menino bom – de Tim.

A questão que norteia o longa, mas que o diretor prefere tratar de maneira mais suave, menos existencialista e mais no tom do conto de fadas, é mesmo as implicações do tempo para qualquer pessoa. Tim tem a chance – e a executa na história – de ser feliz. Descobre a “fórmula mágica” para uma vida menos “pesada” justamente por conseguir voltar no tempo quantas vezes for preciso, podendo até mesmo analisar em até que ponto ele pode ir com essa “brincadeira”.

O breque da fantasia em “Questão de Tempo” é quando a morte se aproxima, seja da eminente perda do pai, seja dos “perigos de morte” corridos pela sapeca Kit Kat (Lydia Wilson), irmã de Tim.

Com essas amenizações, o longa retorna à classificação de comédia romântica. Ainda assim, com a decisão de focar a atenção para o valor da família e nem tanto para o valor de uma história de amor, “Questão de Tempo” não é qualquer comédia romântica. É comédia romântica boa, que faz rir, mas também faz pensar.

*Comentário publicado neste sábado (4) no Caderno Cultura, do Diário do Norte do Paraná

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Tristezas paulistanas

Por Wilame Prado

A cidade de São Paulo retorna às páginas de ficção. O escritor Joca Reiners Terron, 45 anos, cuiabano radicado em São Paulo, não fez da megalópole inspiração para poemas ácidos e irônicos, como Mário de Andrade em “Paulicéia Desvairada” (1922), mas um pano de fundo obscuro para o romance “A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves” (Editora Companhia das Letras, 176 páginas, R$ 36), lançado recentemente.

E não se trata apenas de cenário. Os personagens do livro são figuras típicas encontradas nos bairros paulistanos, em especial o Bom Retiro. Entre bolivianos, coreanos, judeus e usuários de crack, neste bairro tradicional também vivem a Sra. X, enfermeira especializada em pacientes terminais, e sua paciente – uma pessoa com tamanho de criança chamada por “criatura” e que se protege da luz com suas galochas e capa de chuva vermelha com capuz. É por lá também que, entre doses de uísque misturadas com anfetaminas, perambula um escrivão insone que divide seus dias e suas noites entre os plantões na delegacia, o zelo com o pai judeu e senil em casa e suas memórias de infância a todo momento.

Joca Reiners Terron: escritor radicado em São Paulo utiliza histórias tristes e dramáticas para construir trama de suspense

O romance é separado por capítulos ora narrados em primeira pessoa, com as andanças meio desrumadas do escrivão, ora narrados em terceira pessoa, mostrando relações entre pessoas e bichos, entre a criatura e o leopardo-das-neves, entre um taxista psicopata e seus rottweilers sanguinolentos e finalmente entre uma turma que resolve participar do Nocturama, um passeio noturno dentro de um zoológico, e as feras daquele lugar.

As histórias entre os vários personagens principais e secundários de “A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves” tardam a se entrelaçar. Isso torna o livro, só no início, desamarrado. Terron despeja pistas no decorrer dos fatos, almejando atiçar o leitor em uma trama de suspense que, aos poucos, vai se revelando mais dramática e menos paródica – o autor correu os riscos sempre iminentes da ficção que dedica olhares para a realidade brutal de acontecimentos absurdos mas extremamente possíveis.

Assim como São Paulo, sempre tão acinzentada e obscura, os personagens do romance vão se revelando donos de histórias fantasticamente infelizes. Mesmo com o humor ácido do escrivão – uma voz real de Terron em suas inúmeras críticas ao modo de viver das pessoas na cidade nos dias de hoje – é difícil ver graça em qualquer uma das situações do romance, que é escatológico. Juntamente com o final da história, vai se findando também a existência dos próprios personagens. É como se todos fossem derretendo e sucumbindo violentamente ao pesado ato de existir.

Na lenda inserida no romance e confabulada brilhantemente por Terron, em que um leopardo-das-neves fica eternamente entristecido por não encontrar a voz humana que persegue errante pelo mundo, o bicho não vê saída a não ser iniciar um processo de autoflagelação devorando as próprias patas. Mesmo desconsolado, o felino encontra soluções para a falta de sentido da vida. Diferentemente dos personagens humanos do livro, velhos, solitários, deformados, loucos, imigrantes, viciados, segregados e assassinos. Estes sim, são tristes e ocupantes de uma cidade mais triste ainda.

Em “A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves”, não dá para saber se as pessoas é que deixam São Paulo uma cidade triste, ou se São Paulo é que entristece as pessoas.

ISTO É JOCA REINERS TERRON

Todo dia a sra. X desinfetava a criatura. O trabalho era muito delicado, e se iniciava na tentativa de convencê-la a se despir. Envergonhada de sua aparência, a criatura sempre vestia capa de chuva vermelha com capuz, calças largas e galochas dentro de casa. Primeiro, a governanta limpava a pele da criatura com água boricada e algodão. As feridas se esparramavam por todo o corpo, tendo ela contato com a luz diurna ou não.Eram inflamações purulentas que surgiam de um dia para o outro como se o corpo dela estivesse em constante estado de erupção. Apareciam nos pontos de contato da pele com a cama quando a criatura se deitava ou com a cadeira quando se sentava, mas também no rosto e até mesmo na delicada penugem que lhe encobria as córneas. As mutilações em suas mãos eram terríveis, e ela relutava em tirar as luvas de couro. A maior parte do tempo a criatura estava coberta por feridas de diferentes tonalidades de cor, do vermelho mais vivo das feridas recém-surgidas às cascas quase negras de sangue coagulado dos machucados de três dias ou mais. Parecia uma pintura abstrata cujo pintor tinha desistido a meio caminho, colocando-a de lado…”

“…Devido talvez a um efeito das bolhas de sono que começavam a flutuar diante dos meus olhos, coreanos e bolivianos começaram a se multiplicar, e adolescentes coreanas de minissaia com livros escolares nos braços sumiam no buraco escuro do metrô, homens bolivianos com bebês de colo paravam nas esquinas enquanto suas mulheres trabalhavam nas oficinas clandestinas de costura dos velhos coreanos que escarravam nos meio-fios, bolhas de sono saíam de bueiros, explodiam na minha cara que nem bolhas de sabão, bolhas de luz encobriam a esquina da Prates com a Três Rios, eu precisava de meus Inibex, será que o frasco estava esquecido lá em casa? Era bem provável, pois antes de seguir para o plantão eu tinha cochilado uns instantes abraçado ao bisonte na sala de estar, cheguei até a ter um princípio de sonho em que montava o bisonte e ele voava sobre o bairro e eu via lá embaixo a reunião dominical de judeus na antiga pletzel e podia ver minha mãe de braço dado com meu pai e com o dr. Glass e era de manhã e eles riam e cantavam a Internacional Socialista bem alto…Quando vi, estava parado diante de casa. Os bolivianos como sempre tinham se atrasado para o serviço e não abriram as portas de correr da loja. Senti uma fisgada no peito. A luz da escadaria continuava acessa e tudo parecia normal. Outra, mais forte. Podia ser mais um ataque de paranoia ou só o começo de um infarto. Trechos do romance “A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves”, de Joca Reiners Terron

ESTANTE

A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves

Gênero: romance

Autor: Joca Reiners Terron

Editora: Companhia das Letras

Número de páginas: 176

Preço: R$ 36

 *Comentário publicado na edição deste domingo (9) do D+, no Diário de Maringá

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Kadaré prepara o jantar

Por Wilame Prado

Como já visto em outras obras suas, em “O Jantar Errado” (Companhia das Letras, 168 páginas, R$ 36) o escritor albanês Ismail Kadaré, 77 anos, continua dono de uma prosa refinada para se utilizar eficazmente de lugares, vilarejos e nações como personagens marcantes no romance. Como se sabe, para ele, figuras inanimadas como pontes, vilas e até povoados ganham tanta relevância na obra que, muitas vezes, roubam, brilhantemente, o protagonismo de personagens humanos. No último livro do autor lançado no País, isso também acontece.

Na obra, Kadaré narra os acontecimentos posteriores a um jantar estranho e que supostamente teria acontecido na casa do Dr. Gurameto Grande, em Girokastra (cidade pequena na Albânia de 20 mil habitantes), cujo convidado principal é o coronel das tropas alemãs Fritz von Schawabe. Isso em setembro de 1943, quando as tropas do Terceiro Reich invadem a Albânia. Em Girokastra, comunistas, nacionalistas e monarquistas dividem o espaço em meio ao falatório das pessoas em um período crítico de guerra.

Ismail Kadaré, 77 anos: escritor albanês é sempre relacionado em listas de possíveis candidatos ao Prêmio Nobel de Literatura

A capacidade de fantasiar do autor é colocada à prova neste livro. O jantar descrito e que desencadeia uma série de acontecimentos nos primeiros capítulos será questionado nas páginas finais. Leitor e talvez até o próprio Dr. Gurameto Grande vai começar a colocar em dúvida os fatos envolvendo o jantar, se é que o jantar realmente aconteceu.

Kadaré brinca com verdade oficial, fatos verdadeiros e lendas que se transformam em verdade em uma trama desconfortável em razão das reviravoltas e mudanças de foco a cada capítulo. O poder da informação e da percepção do sentido de um fato são questionados no livro, que evidencia o exagero que a “língua do povo” traz para os falatórios.

Nesse jogo de incertezas, as fofocas dos moradores do vilarejo sacrificam ou santificam o protagonista; Dr. Gurameto passa de vilão a merecedor de cargo de governador da Albânia, dependendo da “notícia dos fatos” que chega até eles.

Como já se disse ser característica de Kadaré, percebe-se no romance poucas atenções dedicadas ao protagonista e uma dose grande de sarcasmo e ousadia literária dedicada a contar a história do pensamento comunista na Albânia. Partindo de um simples acontecimento, no caso um jantar, Kadaré se propõe a contar a história da dominação comunista naquele país e faz uma autópsia reveladora do modo como os comunistas pensavam e o constante sentimento de conspiração que costuma confundir e distorcer a informação, principalmente em períodos críticos que marcaram aquela região europeia após a 2ª Guerra Mundial.

A forma única que só Kadaré tem de escrever também presenteia os leitores em “O Jantar Errado”. Sua prosa, não importa qual assunto seja, aproxima-se da poesia e da oralidade, tal qual um contador de histórias rodeado por ouvintes em volta de uma fogueira. Para isso, além desse roteiro mirabolante que traduz o modo de pensar de um país, de uma época, de um povo, ele traz recortes de histórias albanesas antigas, lendas, cantigas populares entoadas por um velho cego e outros temperos a mais que, irrevogavelmente, reafirmam a premissa de que Kadaré é um escritor preso ao local mas que consegue escrever para o mundo todo ler.

“O Jantar Errado” pode até ser vista como obra menor quando comparada a outro livros grandiosos do autor, como “A Ponte dos Três Arcos” ou “Três Cantos Fúnebres para Kosovo”. Talvez este romance seja mais descompromissado. Mais engraçado, sem dúvida. Ainda assim, principalmente com o desfecho brilhante dado pelo autor (incluindo um novo personagem e que levantará questões na história envolvendo desafios profissionais, derrotas pessoais e fidelidade máxima a Stálin), Kadaré continua sendo um dos maiores escritores vivos do planeta e sempre candidato forte ao Prêmio Nobel de Literatura.

ESTANTE

Livro: O Jantar Errado

Autor: Ismail Kadaré

Tradução: Bernardo Joffily

Gênero: romance

Editora: Companhia das Letras

Número de páginas: 168

Preço: R$ 36

*Comentário publicado no D+, do jornal O Diário de Maringá

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Terapia de Risco: 2 em 1 que vale meio

Cena de Rooney Mara em “Terapia de Risco”: atriz desempenha bem o papel de jovem depressiva

Por Wilame Prado

“Terapia de Risco”, em cartaz no Cineflix Cinemas em Maringá, do diretor Steven Soderbergh (de “Onze Homens e Um Segredo” e “Contágio”), é um filme dois em um.

A primeira parte, chamando a atenção para os riscos da indústria farmacêutica que “vende” a cura da depressão via medicamentos, é ótima. A segunda parte, envolvendo assassinato e investigação de uma suposta paciente de depressão, é péssima.

Soderbergh conseguiu fazer – pela metade – um ótimo filme de drama e – também pela metade – um péssimo thriller psicológico.

A bela e boa atriz Rooney Mara é Emily Hawkins, jovem designer com histórico de problemas psiquiátricos e que precisa enfrentar as dificuldades da vida após esperar por quatro anos a volta do marido, Martin Taylor (Channing Tatum), preso por obter informações privilegiadas na bolsa de valores.

Jonathan Banks (Jude Law) é o atual médico psiquiatra de Emly; Victoria Silbert é sua ex-doutora, interpretada por uma Catherine Zeta-Jones que continua fazendo valer a pena pagar pelo ingresso.

A reviravolta do roteiro no meio do longa-metragem causa estranheza em quem está assistindo. É desastrosa a provável intenção do diretor em provocar frisson com o desenrolar da história e com o mistério que ronda os surtos ou as farsas de Emily.

Pior do que qualquer série televisiva de investigação, as peças são muito facilmente encaixadas no plano de vingança de Jonathan Banks, que começa a endoidecer ao ver sua vida profissional e pessoal indo pelo ralo após escândalos envolvendo um assassinato supostamente praticado em estado de sonambulismo causado por efeitos colaterais de um remédio para depressão receitado por ele.

O motivo maior para se lamentar é que, vendo “Terapia de Risco” e se recordando que Soderbergh já assinou bons trabalhos como “sexo, mentiras e videotape” (1989) e “Che” (2008), chega-se a imaginar que teremos um filme crítico e revelador sobre assuntos envolvendo testes de medicamentos novos em pacientes que lotam os consultórios e ainda sobre alternativas esdrúxulas que a classe médica tem de enriquecer quando resolve dar as mãos para a máfia das indústrias farmacêuticas.

Mas não.

No fundo, o diretor só faz paródia sobre os temas sérios para dar pano de fundo ao que realmente quis mostrar no filme: uma história mirabolante demais, envolvendo a busca a qualquer custo pela riqueza.

*Comentário publicado no último domingo, no D+, caderno do Diário de Maringá.

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A magia d’O Teatro Mágico

Por Wilame Prado

Em dez anos de carreira, a proposta d’O Teatro Mágico de “juntar tudo numa coisa só” continua dando certo. Os fãs maringaenses comprovaram isso no espetáculo do grupo que aconteceu no domingo do dia 14 de abril, no Clube Olímpico de Maringá.

No palco, a competência do líder Fernando Anitelli – com sua caracterização de palhaço já conhecida – ao lado de grandes instrumentistas, como o violonista Luis Galdino e o guitarrista e produtor Daniel Santiago, foi ressaltada pela vertente musical, cênica e literária. Mais uma vez, O Teatro Mágico presenteou a cidade com um show memorável sonora e esteticamente.

Para um público que soube cantar absolutamente todas as músicas que compuseram o set list do show, a emoção intensamente aflorada não se limitava quando grandes sucessos, como “O Anjo Mais Velho” ou “Camarada D’Água”, eram entoados tal qual hinos sagrados.

Entregues a uma espécie de catarse já comumente vista em shows d’O Teatro Mágico, o encantamento na performance artística do grupo também acontecia quando as gêmeas bailarinas se penduravam em cordas, dançavam e executavam técnicas circenses em meio às canções, ou ainda quando Anitelli dedicava o espaço só para a sua voz: ora declamando poesia, ora defendendo o movimento da música livre ou ainda ressaltando a importância de se ocupar espaços nobres na televisão emplacando temas na trilha sonora da novela.

Musicalmente falando, o momento solo de Anitelli no palco – quando os músicos fazem uma pausa para tomar uma água e quando o vocalista inevitavelmente acaba ressaltando o fato de que ele é “dono” do projeto – serviu também como respiro para tantas luzes, danças, peripécias, caras e bocas da trupe.

O músico demonstrou intimidade com o violão e com a arte do cantar quando executou baladas mais românticas e recheadas com letras extremamente poéticas mas válidas, nada melosas. “Sonho de Uma Flauta”, baseada em trechos de livros de Mário Quintana e Hermann Hesse, talvez a mais bela canção do show, senão d’O Teatro Mágico, demonstra ainda a grande capacidade de Anitelli como letrista.

O Teatro Mágico já é conhecido em Maringá como um grupo que se propõe a fazer belos espetáculos, com uma boa energia totalmente voltada para a arte.

Prova disso é a presença de um público também mais velho e famílias inteiras, de crianças a avós, juntas, sentadas em cadeiras próximas ao palco, comendo pizza e tomando chopp ou refrigerante (ponto para os organizadores do show, que escolheram um cardápio ideal para oferecer em uma noite de domingo), esperando o show começar enquanto a banda maringaense Trafford iniciava os trabalhos cantando em inglês.

Essa talvez seja a grande magia que O Teatro Mágico consegue fazer: estimular as pessoas a se permitirem ser feliz consumindo arte, nem que se isso se limite às duas horas do espetáculo.

*Comentário publicado no D+, do Diário de Maringá.

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Dilemas de uma ‘paixão’ a céu aberto

Por Wilame Prado

A encenação da Paixão de Cristo conta uma história que todo mundo já sabe: momentos anteriores e posteriores à crucificação e morte de Jesus de Nazaré. História conhecida, mas que costuma arrastar multidões. Nas duas sessões deste ano em Maringá, quarta e sexta-feira passadas, não foi diferente: organizadores estimam um público de cerca de 40 mil pessoas.

Se, por um lado, deve-se saudar como bastante positiva a atração de tamanho público, que por sinal lotou o estacionamento da Catedral, lamenta-se que, pelo mesmo fator, muita gente não conseguiu ter um mínimo de visão do palco. O espetáculo, encenado a céu aberto, foi transmitido ainda por dois telões com imagens escuras e que fazia o cidadão pensar que talvez tivesse sido melhor ter ficado em casa vendo a encenação pela transmissão ao vivo na TV 3º Milênio.

Quem chegou 40 minutos antes de o espetáculo começar, por exemplo, já não conseguia lugar na frente. Nem houve cadeiras em número suficiente para os idosos. Quem ficou atrás, com exceção de pessoas com estatura considerável, não conseguia ver nada. Isso porque, ironicamente, faltou compaixão, talvez, a grande parte dos fieis, que não titubeou em levar banquetas e cadeiras para subir e assim ter visão privilegiada.

As crianças são lindas e, vivenciando o espírito da Páscoa intensamente ao prestigiar desde cedo a Paixão de Cristo, acabaram também sendo obstáculo à visão de muitos, já que os zelosos pais também não fizeram menos do que enganchar os pimpolhos em cima dos ombros, como a dizer: também faço minha forcinha.

Mesmo em eventos religiosos, chega-se à conclusão de que as atitudes das pessoas nem sempre condizem com o espírito que deveria ser o da ocasião. É estranho, por exemplo, ver um motorista exibindo um adesivo com o dístico (slogan talvez seja mais apropriado) “Jesus is the King” no carro e estacionando descaradamente em local proibido.

O que acabou salvando a noite foi mesmo a trilha sonora da “Paixão de Cristo” maringaense. Com canções tocantes e muito bem interpretadas por grupos musicais católicos da cidade, a trilha original foi composta por Diego Contiero, que, na remasterização, explorou o universo sacro e apostou em músicas católicas conhecidas, músicas em latim e em hebraico, no canto gregoriano e nos instrumentos de corda e percussão.

Tudo isso teria ficado ainda melhor se os diretores tivessem optado por diálogos ao vivo e não gravados. Fatalmente, o som alto e gravado de falas em situações calamitosas, como a de um Jesus Cristo gemendo de dores ou a de um soldado exaltado pela sede de violência, propiciou tons pitorescos na interpretação e semelhanças com os dramalhões das novelas mexicanas que chegam de quando em quando ao País, com dublagens que são um martírio à parte .

É de se registrar o zelo no figurino do time de atores e ainda a imensidão do cenário (as duas estruturas ligadas por uma rampa mediam mais de 700m). Isso permitiu movimentação e respiros na encenação, tudo bem calculado, com a multiplicação de “palcos” a partir de um simples direcionamento de luz.

Mesmo com as dificuldades para o público todo conseguir ver a encenação, o fato de a “Paixão de Cristo” ter sido a céu aberto possibilitou um leque de opções cenográficas interessantes para o grupo de voluntários da Renovação Carismática de Maringá trabalhar. Por exemplo, a conquista de uma grande comoção do público com as cenas do Anjo Gabriel descendo à Terra e Jesus Cristo, ressuscitado, subindo aos céus graças ao suporte de um imenso guindaste.

Ou ainda o trabalho de iluminação feito por LEDs que, em meio à encenação, também ressaltou a beleza da Catedral maringaense, que acabou fazendo parte do cenário do espetáculo.

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Escuridão demasiada: resenha de ‘A Hora Mais Escura’

Cena de “A Hora Mais Escura, no momento em que soldados norte-americanos invadem a fortaleza onde Bin Laden estava escondido: foi assim?

Continua em cartaz em Maringá o filme “A Hora Mais Escura”, da diretora Kathryn Bigelow. O longa-metragem (longa mesmo: são 2h47 minutos de projeção), que mescla ficção e fatos reais para contar a caçada da CIA a Osama Bin Laden, recebeu cinco indicações ao Oscar mas, desmerecidamente, não levou nenhuma estatueta. A ousadia da cineasta em colocar em pratos limpos as práticas de tortura utilizadas pela inteligência dos Estados Unidos para conseguir informações sobre o terrorismo após o atentado nas torres gêmeas em 11 de setembro de 2001 pode ter enfraquecido politicamente o longa, que chegou a receber lobby negativo partindo do Senado norte-americano.

As práticas de tortura compõem só a primeira e menos interessante parte de um filme praticamente perfeito tecnicamente falando e que mereceria prêmios coroando o trabalho de direção, edição e atuação. Pareceu não haver preguiça nos profissionais que botaram a mão na massa, certamente motivados pelo desafio de contar em detalhes uma história que o mundo tentou acompanhar de todas as formas, mas pouco ou quase nada até então havia sido contado . O espectador foi respeitado.

É neste começo, meio repetitivo e previsível, que se começa a perceber, suavemente, o quanto a atriz Jessica Chastain vai mergulhar em seu personagem: a novata Maya, que chega na CIA com asco de ver detento suspeito de terrorismo recebendo afogamento simulado com toalha molhada na cara e que termina o longa falando alto com seus chefes e batendo firme o pé no chão apostando em suas pistas que apontavam a aproximação do encontro com Bin Laden.

Chastain honra o papel que lhe coube de mostrar a importância da figura da mulher na longa caçada a Bin Laden. Suspeito que, principalmente pelo fato de a diretora ser mulher, o filme é também uma homenagem às mulheres, à ascensão delas em ambientes de trabalho outrora pouco alcançáveis e à inegável intuição feminina. O filme não é só sobre o terrorismo e investigações. Revela, ainda que de maneira secundária, o quanto as pessoas nos dias de hoje se deixam envolver em seus afazeres profissionais a ponto de anularem inteiramente a vida pessoal. Isso fica marcado na cena em que Maya revela para uma amiga, em um restaurante, entre um gole e outro de vinho, que já não faz sexo há muito tempo.

Momentos depois de revelar a abstinência sexual, uma bomba explode no restaurante onde as duas agentes da CIA estão. É como se Kathryn Bigelow estivesse dando um aviso: “A caça a Bin Laden deve continuar, meninas. Por favor, pelo menos por ora, esqueçam o sexo.” Mas a parte humana dos personagens se resume a esse momento. Ok: os agentes da CIA querem salvar o mundo, mas seus laços com o mundo não são mostrados, o que faz com que “A Hora Mais Escura” seja um filme interessante, como uma ótima história contada de modo ágil, mas com personagens fracos, mesmo recebendo atuações impecáveis. Ponto negativo para o roteiro, que chegou a ser indicado ao Oscar.

O melhor do filme, assim como neste texto, foi deixado para o final. Mesmo revelando a todo momento as horas enegrecidas que envolvem as situações calamitosas retratadas – milhares de mortos no atentado às Torres Gêmeas; a tortura que acaba torturando não só o torturado mas o torturador também; a pressão governamental interferindo em uma complexa investigação em território inimigo; a solidão; a perda de amigos em outros atentados etc – a verdadeira “hora mais escura” invade as cenas finais em mais de meia hora de puro suspense, emoção e total envolvimento do espectador com oque é mostrado às escuras pelo filme.

Abrindo mão de efeitos de luz, a escuridão que se passa na chegada dos soldados em helicópteros no casarão onde Osama Bin Laden estava escondido é de arrepiar e faz ter valido a pena atravessar as mais de duas horas do longa.

Logicamente que quase todo mundo sabe o final de “A Hora Mais Escura” porque o desfecho da caça a Osama Bin Laden foi amplamente noticiado pela imprensa do mundo inteiro. Mas ver aquela simulação dos fatos “reais” em cenas construídas e pensadas exclusivamente para entreter o espectador é algo fascinante. É como se relembrássemos que somos parte desta história mundial recente. É como se tivéssemos um pouco de culpa em todo o mal que assola o mundo. O longa-metragem de Kathryn Bigelow nos faz lembrar que o homem é cruel e que o mundo é um lugar muito perigoso de se viver. Lembramos que, diferentemente dos filmes, na vida não tem bandido nem mocinho com papeis equivocadamente bem definidos. Há sim argumentos, aspectos culturais, pontos de vistas e um milhão de verdades e mentiras.

Ótimo filme, recomendadíssimo, mas só uma última e lamentável ressalva: “A Hora Mais Escura” está correndo o risco de ser renegado como não confiável representação histórica por uma inacreditável dubiedade de Kathryn Bigelow: enquanto peitou os EUA colocando cenas de tortura no início do filme, finalizou o longa comprando o discurso oficial da CIA e do governo e que, invariavelmente, foi aceito pela mídia. Pelo fato de o filme ter começado dando a informação que é baseado em fatos reais, deveria ter terminado também dizendo que as cenas da captura de Bin Laden atendem ao discurso oficial norte-americano. Na página do jornal ou no cinema, toda aquela invasão exitosa a uma suposta fortaleza do homem acusado de liderar o maior atentado terrorista da história recente ainda não cheira bem, ainda gera margem para contestações. Ou não?

*Resenha publicada no D+, do Diário de Maringá

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