Riocorrente



‘Riocorrente’: SP (ou o mundo) em chamas

Carlos, Exu, o abismo e SP em cena de "Riocorrente": niilista e provocador

Carlos, Exu, o abismo e SP em cena de “Riocorrente”: niilista e provocador

Por Wilame Prado

São Paulo (SP), século 21. Um rio enegrecido segue lentamente o seu caminho. A imensidão traduzida em vidro, concreto e metal. Asfaltos quilométricos parecem levar para além do horizonte. Madrugada quieta. Um garoto negro avaria um veículo luxuoso estacionado na rua. Uma jam session rola solta em uma casa noturna quase vazia. Som maravilhoso. Homens solitários, devidamente armados com suas long necks em mãos, apenas escutam. Um desses sujeitos – com cara de mal –, entoja-se facilmente e sai acelerando a sua potente motocicleta pelas ruas paulistanas, até finalmente recolher o moleque solitário e descalço que, há pouco, riscara a lataria do carro preto estacionado.

É assim, como um conto bem escrito, que começa o filme “Riocorrente”. Em apenas uma hora e dezenove minutos, Paulo Sacramento, que dirigiu e escreveu o longa-metragem, traçou um retrato fidedigno da maior cidade brasileira com uma competente fotografia e tendo como enredo os encontros e desencontros de um triângulo amoroso encenado pelos atores Lee Taylor, Simone Iliescu e Roberto Audio, todos desconhecidos do cinema, porém elogiados nos palcos do teatro. Personagens todos – cada qual a seu modo – asfixiados na metrópole.

Exu (Vinicius dos Anjos) é só mais um (como tantos outros) menino órfão de São Paulo. Ele chama Carlos (Lee Taylor) de pai. Carlos, no entanto, é um típico paulistano fulo da vida, descontente com o que vê pelas ruas da cidade grande, completamente embrutecido e autocrítico com as alternativas que encontrou para ganhar dinheiro – roubando carros para o desmanche, por exemplo. Em cima da sua moto, a câmera vai seguindo o olhar dele pelas ruas de São Paulo, tal qual um Travis Bickle (Robert de Niro) com seu táxi amarelo em Nova York, em “Taxi Driver” (Martin Scorsese).

Carlos apenas segue vivendo – ou seguindo o seu caminho, como um rio corrente –, mas percebe uma chama se aquecer em seu pensamento após Renata (Simone Iliescu) – com quem tem um caso amoroso – ler para ele um trecho de um livro. A ideia de que tudo está errado, e que apenas as pessoas é quem pode fazer algo para mudar o mundo, gruda na cabeça do motociclista até o desfecho do conto urbano cinematográfico. O pensamento humano, filosofa os personagens com livro em mão ou após uma sessão de cinema, é como uma bomba atômica, que se expande somente depois de explodir.

Do outro lado da cidade, Marcelo (Roberto Audio) é a representação do cabeça pensante, figura fácil paulistana. Entendido de artes plásticas, ele é colunista de um famoso jornal impresso que tem circulação nacional, guia turístico em cemitérios paulistanos – onde palestra sobre arquitetura e arte – e, como também grande parte dos chamados “entendidos” de alguma coisa, extremamente pacífico, sujeito que vive no mundo das abstrações, teorias, livro e jornais. Marcelo também tem um caso com Renata.

Renata é o personagem que representa a figura feminina nos tempos de hoje. Cada vez mais resolvida com seus desejos sexuais, independente financeiramente e culta. Mulher que, entendendo os anseios de se envolver com homens extremados – Marcelo é calmaria, Carlos é explosão – não se intimida em, por exemplo, após dormir na casa de um, acordar e ir diretamente para a casa do outro, em busca de sexo. Mas, assim como seus dois homens, ela também padece de incertezas, também sofre a pressão da cidade grande, a pressão da vida contemporânea e suas fugacidades, e chora copiosamente numa das cenas mais belas do filme, na plateia de um concerto intimista de Arnaldo Baptista, ex-Mutantes, cantando desafinada e lindamente atrás de um piano de caldas.

“Riocorrente” demonstra a maturidade de Paulo Sacramento, que foi elogiado com o documentário “Prisioneiro da Grade de Ferro” e que coleciona trabalhos como montador em filmes importantes, a exemplo de “Quanto Vale ou é Por Quilo” e “Amarelo Manga”. Não à toa, “Riocorrente” foi selecionado para o Festival de Rotterdam (Holanda), venceu o Prêmio Abbracine na Mostra Internacional de São Paulo e ainda nas categorias Melhor Fotografia e Melhor Montagem no Festival de Brasília.

Em seu último longa, Sacramento mistura drama e suspense e tem capacidade de criar situações em que a cena não se esgota por ela apenas, autorizando o espectador a pensar sobre ou completá-la. É o caso de cenas memoráveis, como a da ninhada de ratos que destrói pilhas e mais pilhas de jornais impressos dispostos em um galpão; o flagra da briga do casal com a câmera se aproximando devagar até enquadrar a tela exatamente na janela do apartamento; ou ainda quando Exu se encanta, mas não se espanta, com o leão dentro de uma jaula, chega pertinho e, com toda a calma do mundo, tira da boca um dente que estava mole.

O filme “Riocorrente”, extremamente crítico, perturbador, niilista, estimula o choque, o atrito, é mais Carlos (inconsequente e prático) e menos Marcelo (consciente e estagnado), trata da loucura que é São Paulo, que é o mundo, e faz um alerta: a bomba pode explodir a qualquer momento. Homens incendiários podem finalmente entender que, assim como a frase do ativista Zack de la Rocha e incorporada em voz over no filme, “Tem que começar em algum lugar. Tem que começar em alguma hora. Que lugar melhor que esse? Que momento melhor que agora?” No longa, a hora para agir é sim agora. E a destruição pode ser disseminada com a velocidade da correnteza de um rio sujo, ou no simples pedido feito por um menino após jogar seu dente que acabou de cair.

EM CARTAZ
SEMANA TUPINIQUIM
Assista “Riocorrente”
no Cineflix Cinemas,
no Maringá Park Shopping,
domingo (28) às 14 horas,
segunda-feira (29) às 21h40
e terça-feira (30) às 16h30

Trailer:

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