Romance



Vinte minutos, uma vida

Por Wilame Prado

O escritor paulista Daniel Galera contribuiu satisfatoriamente com a história recente do Brasil no romance “Meia-Noite e Vinte” (Companhia das Letras, 208 páginas, R$ 34,90). Como poucos na literatura contemporânea, explorou o contexto online brasileiro, do advento da internet em 1995 até janeiro de 2014, tempo vivido pelos personagens do livro, a partir do assassinato de Andrei Dukelsky, conhecido por Duque.

Na trama, Duque fora um dos criadores do fanzine digital Orangotango (inspirado no verídico Cardosonline, o qual Galera fez parte), vindo a se tornar realmente escritor. Aurora, Emiliano e Antero – amigos dele, também colaboradores do fanzine nos idos de 1999 – são os narradores em primeira pessoa de “Meia-Noite e Vinte”, todos abismados com a morte banal daquele que prometia ser um dos grandes escritores brasileiros.

Em cada capítulo, uma voz diferente. Primeiro, Aurora: doutoranda em Biologia que conheceu o pessoal do fanzine quando fazia Jornalismo e que, principalmente após a morte de Duque e após uma negativa numa apresentação acadêmica, se vê inserida na espiral do pessimismo dos tempos de agora, a qual lhe faz pensar no fim do mundo. Depois, Emiliano, jornalista freelancer mais velho, gay e que está incumbido de escrever uma biografia do amigo escritor morto. Por fim, Antero, um exótico inteligente da área de Humanas que, mais velho, casado e com filho, acaba ficando rico com o passar dos anos após fazer sucesso com a sua agência de publicidade.

Daniel Galera consegue convencer ao propor três modos diferentes de contar uma história cheia de pontos em comum, sempre direcionada à vida e obra de Duque. O contexto do romance se destaca mais que a história principal: a de três amigos que se reencontram numa Porto Alegre real e terrível – verão escabroso, fedida e cheia de greves – para um velório.

“Meia-Noite e Vinte” não é sobre amizade, porém: é sobre internet, hábitos de uma geração que começou com o ICQ e chegou ao WhatsApp e aos chats pornográficos, os perigos da literatura em meio ao que é banal e principalmente sobre o tempo que escorre das mãos, todos ficando velhos e cansados, mas ainda tão próximos e nostálgicos da época da juventude, da virada do milênio, anos 2000.

A história se aproxima do leitor porque, arrisco dizer, o leitor de Galera viveu boa parte daquilo narrado por Aurora, Emiliano e Antero. Ler “Meia-Noite e Vinte” é como ler a sua própria história recente, sentindo saudosismo e ao mesmo tempo refletindo amargamente o quanto tudo parece estar cada vez pior – ainda que com as facilidades flagrantes de uma vida pós-moderna que se esgota quase que inteiramente olhando para uma tela de smartphone.

É como se tivéssemos perdido a noção do tempo e, também, a queima de fogos tradicional da virada de ano, na meia-noite. Passaram-se vinte minutos, uma vida se passou.

ESTANTE
MEIA-NOITE E VINTE
Autor: Daniel Galera
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 208
Preço sugerido: R$ 34,90

*Resenha publicada no caderno Cultura do Diário em 24 de fevereiro de 2017

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‘O leitor é um grande mistério’, diz Hatoum

Estreia segunda-feira (9) a minissérie da Globo “Dois Irmãos”, inspirada em romance homônimo de Milton Hatoum. Um dos autores em atividade mais respeitados do País respondeu três perguntas sobre a série, o livro e leitores:

Por que “Dois Irmãos” tem atraído tantos projetos artísticos que extrapolam as páginas do livro?
Não sei dizer o que motivou adaptações para o teatro, HQ e minissérie, mas deve ter algo a ver com a trama do romance, o modo de narrar e a linguagem. Um drama familiar em contraponto com a decadência de Manaus num período de brutalidade da história brasileira recente. O mais relevante numa ficção é a forma de narrar. E o narrador do “Dois irmãos” não pertence à família de imigrantes libaneses. Nael é um agregado, um personagem que veio de baixo, filho de uma empregada, uma índia que trabalha para sobreviver. Ele consegue estudar graças ao avô (Halim) e os estudos dão a ele a capacidade de refletir e escrever sobre o passado. O narrador não sabe quem é seu pai. Talvez esse drama moral, a paixão de Zana (mãe dos dois irmãos) por um dos filhos e outros conflitos tenham atraído a atenção dos leitores. Mas o leitor é também um grande mistério.

Essas possibilidades que cercam a literatura aproximam as pessoas dos livros?
Acho que aproximam. Sei que vários leitores da adaptação do Fábio Moon e do Gabriel Bá leram também o “Dois irmãos”. Certamente isso está acontecendo ou vai acontecer com os espectadores da minissérie.

Como o senhor se sente quando vê a sua obra sendo utilizada em outras artes, como a dos quadrinhos e da teledramaturgia?
Foi um golpe de sorte ou uma feliz fatalidade. Os artistas gráficos são excelentes, assim como a direção de Luiz Fernando Carvalho, o roteiro da Maria Camargo, os atores, figurinistas e toda a equipe da minissérie. Fico contente em compartilhar com esses artistas a história e a linguagem de um romance a que dediquei quase dez anos da minha vida. Na verdade, eles não adaptaram, e sim recriaram a essência do romance em outra linguagem. Penso que meus leitores gostaram dos quadrinhos e vão apreciar a beleza visual da minissérie.

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Ana Paula, 14, sonha publicar romance

Ana Paula Fernandes, em casa, no Jardim Imperial II: escreve no smartphone e depois apenas revisa no PC (Foto de Ricardo Lopes)

Ana Paula Fernandes, em casa, no Jardim Imperial II: escreve no smartphone e depois apenas revisa no PC (Foto de Ricardo Lopes)

Por Wilame Prado

Escrever pode até ser um dom, mas requer prática. Como todos sabem, a maior ferramenta de um escritor é a leitura. E isso a estudante Ana Paula Fernandes, 14, faz desde muito pequena. “Um dos primeiros presentes que ela ganhou foi uma coleção de livros. Eu lia para ela. Ela decorava as histórias e, quando chegava visita em casa, fingia ler a história que já estava guardada na memória”, relembra Nice Fernades da Silva, a mãe da jovem que escreveu a obra “Após o Ponto Final”, romance de estreia que aguarda publicação.

Ana Paula, que mora com os pais no bairro Jardim Imperial II e que cursa o primeiro ano do ensino médio, cotou a publicação em algumas editoras, mas se assustou com o preço. Finalmente, fechou negócio na Editora All Print, de São Paulo, para lançar em maio o seu primeiro livro (que terá cerca de 200 páginas), com uma tiragem de 250 exemplares. Falta agora arrumar os R$ 4 mil para acertar as contas. Para isso, amigos da família sugeriram a realização de um bazar com roupas novas e usadas, acessórios e calçados.

“Não deixaremos ir para gaveta o sonho dela”, diz Nice, que se orgulha da elogiável destreza para as letras que tem a filha única. Professores fizeram questão de revisar o texto do romance, elogiaram e apostam no sucesso da jovem escritora.

No livro “Após o Ponto Final”, a adolescente trata de assuntos de gente grande. Alice, a sua protagonista, de 13 anos, sofre com os abusos sexuais do padrasto, em Belém do Pará. A motivação do tema se deu após Ana Paula conhecer uma ONG que auxilia adolescentes e mulheres vítimas de abusos em Maceió, numa viagem que fez com a família.

Mesmo com o tema pesado escolhido, ela garante não ter escrito uma história triste. Há esperança para Alice, há esperança para a humanidade, na opinião da estudante. “Já penso numa possível continuação da história, talvez em um novo romance. Tenho também um livro de poesia praticamente pronto. Poesia é meu hobby. Poesia, para mim, é aquilo que me toca, não precisa de rima necessariamente, mas é algo que me obriga a falar sobre aquilo”, diz.

No romance de estreia, ela sentiu a necessidade de falar do ponto final. “Muita coisa acaba na vida de Alice: a vida do pai, da mãe, a liberdade, mas acaba também a sua ingenuidade.” Para Ana Paula, pelo contrário, a história com a literatura só está começando, e o ponto final não está no horizonte.

AJUDE
BAZAR DE ROUPAS
Quando: 29 de março
Onde: Centro Comunitário do Jardim Alvorada
Informações: 9815-8321/3346-8538

ISTO É ANA PAULA FERNANDES
“Realmente, deixar de ser criança é difícil. Tudo bem eu já iria completar quatorze anos, quando me tornei ‘adulta’. Mas mesmo assim é muito estranho, de um dia para o outro você ver tudo diferente. Eu só não sabia realmente, quem tinha mudado. Eu ou o mundo? Talvez os dois.

Já fazia um ano e meio que minha mãe havia morrido. Minha relação com Geraldo não era das melhores mas dava para levar na água morna, sem discussões. Minhas notas estavam até que boas. Tinha dois amigos, que as vezes iam em casa, a Marcela e o Bruno. Eles me faziam companhia, algumas vezes.

Do mesmo modo como me intitulei “Alice, apenas”. Agora, me coloco como ” A Alice”, por que do ‘A’? Parei de ver o mundo com olhos de criança e me legitimei Mulher.

O cuidado obsessivo de Geraldo por mim, já havia se tornado ofensivo. E de uma hora para outra ele havia se tornado ciumento, proibiu que Bruno entrasse na ‘minha casa’ dizia ele. /// Trecho do romance “Após o Ponto Final”

*Reportagem publicada sábado (21) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Sérgio Tavares Filho lança ‘Capricórnia’

Sérgio Tavares Filho: mesmo longe, cidade natal não é esquecida em livro

Sérgio Tavares Filho: mesmo longe, cidade natal não é esquecida em livro

Por Wilame Prado

Sérgio Tavares Filho andava sumido. Maringaense de 32 anos que atuava na área da comunicação por aqui, foi estudar fora do País e acabou conhecendo em Helsinque, na Finlândia, a sua mulher. Por lá ficou e hoje mora com ela em um pequeno apartamento na capital finlandesa, prossegue com os estudos em um doutorado na área da cultura e cumpre expediente, “para o ganha-pão”, numa agência de mídia. Sua forma de reaparecer por aqui vem nas páginas de um livro. Tavares Filho lançou recentemente “Capricórnia” (Patuá, 136 páginas, R$ 32), à venda no site da editora.

O romance de estreia do maringaense conta a história de uma arquiteta que se envolve em um acidente e que, após este acontecimento, convence-se de que é uma outra mulher. Enlouquecida, viaja aos trópicos para descobrir quem realmente é. De maneira indireta (no livro a palavra “Maringá” não aparece), ela vem parar justamente aqui na cidade – local propício, segundo o autor, para refletir com a arte do romance sobre a espécie de bolha que vive a classe média, muito aproximada da pobreza, mas também muito temerosa por aquilo que está do outro lado da margem.

Sobre o livro, inspirações, literatura, personagens femininos e a vida longe da cidade natal, ele falou nesta entrevista:

E a vida em Helsinki?
SÉRGIO TAVARES FILHO – O dia a dia é calmo: o transporte funciona de forma exemplar, a burocracia é reduzida e há uma sensação forte de segurança. Apenas o idioma é que faz sofrer!

Qual é a história do livro?
É a história de uma arquiteta que enlouquece depois de atropelar uma mulher na estrada. Ela se convence de que é outra pessoa e vai atrás de descobrir quem é. Para isso, vai de encontro até “o Trópico” — e é ali que ela encontra os pobres, à beira da estrada e seus próprios limites. Isso é tudo muito inspirado na nossa classe média de Maringá, que vive numa espécie de bolha: clube, igreja, casamento, design de interiores. Existe um medo terrível de tudo que vem do outro: a margem da cidade, o filho da empregada, ou até ficar pobre. Lidei com esses desconhecidos para fazer o livro.

Como foi para você dar voz a uma personagem feminina?
O texto surgiu como ensaio de uma briga entre marido e mulher. Foi se expandindo até virar o livro todo, sempre como uma torrente de pensamento. Acho que isso foi possível porque minha família é muito matriarcal. O livro é também uma coletânea de histórias que ouvia quando criança, algumas delas muito perturbadoras. São histórias desse Paraná mais profundo, e sempre chegaram a mim depois de gerações, através das mulheres da família.

É um romance psicológico?
Sim. Tudo se passa na cabeça da personagem, e o ritmo da narrativa segue muito também as próprias tensões da arquiteta. Queria fazer uma personagem forte, mas vulnerável. Para mim, o drama nunca é ser forte ou fraco, mas sim a transição entre uma coisa e outra.

Acredita que, na literatura, é ajudado por suas bases teóricas, levando em conta os estudos sobre “paratextos”, videoinstalações e tagnovels?
Acho que sim. Em especial os estudos de símbolos e algumas coisas sobre narrativa. O Umberto Eco me ajudou, por exemplo, a não criar efeitos ou sensações, e sim sentido e propósito. Vivemos numa cultura muito cheia de estímulos fáceis, e eles são geralmente de mau gosto. Basta pensar no Big Brother, nas mulheres-objeto que permeiam a TV, e afins. Da mesma forma, os melodramas, os sentimentalismos.

Chamou a atenção a dedicatória à memória de sua mãe e o fato de o livro ser protagonizado por uma mulher. 
Minha família passou, de forma difusa, por eventos narrados no livro. É uma coletânea. Minha mãe sofreu um acidente quando era jovem, por exemplo, e perdeu a irmã. Sempre foi dramático na família, isso. E há outras histórias, também. Dediquei o livro a ela em especial porque, há um ano e meio, ela faleceu, vítima de um aneurisma. Foi súbito e ainda sinto enormemente sua falta. O livro fecha alguns ciclos na nossa vida psíquica também.

A questão do duplo é recorrente na literatura. Como foi a construção dessa personagem?
O duplo é sempre assustador, porque é um estranho que é ao mesmo tempo familiar. Há muita teoria em torno desse conceito. Queria a ideia de que a narradora aos poucos passasse a se tornar a arquiteta em quem “encarnou”. E tinha que ser aos poucos. Foi um processo interessante, em especial porque quando a narradora se refere a “ela”, essa mulher em que ela passou a habitar, o livro passa a ser narrado em terceira pessoa. E ao mesmo tempo, é em primeira pessoa. Então essa confusão acabou sendo uma escolha estilística interessante.

E com relação ao espaço? Essa cidade média brasileira sobre o Trópico de Capricórnio?
Pois é! Não há como negar que é amplamente inspirado em Maringá. E o trópico é apenas um símbolo de tantas divisões que fazemos: nós e a empregada doméstica.

E as negociações com a Patuá?
Foi demorado, mas o importante foi ter paciência. O Eduardo Lacerda está fazendo algo importante. É uma nova maneira de curadoria, livre de hábitos editoriais que ficaram obsoletos ou que não podiam existir antes. Acho que ele está na ponta da inovação. Sinceramente eu fiquei impressionado com a baixa qualidade de livros publicados em editoras menos conhecidas. A Patuá consegue publicar uma quantidade alta de bons livros, que ganham prêmios. É diferente de outros editores tradicionais, como a 7Letras, que publicam poucos e bons. Estou muito feliz.

ISTO É SÉRGIO TAVARES FILHO
“Quando já fazia um ano que brincávamos, minha mãe começou a se incomodar com o tempo que eu passava no corredor. Às vezes só o que eu ouvia era a reclamação dela, ainda que eu ficasse em frente à fresta e tentasse me concentrar na vozinha dele. Eu sabia que ele queria minha companhia, e eu queria a dele, também.
Um dia eu dei a ele um pedaço maior de pão que minha mãe havia acabado de assar. Ele disse que nunca havia experimentado aquele tipo de pão. Era de novo um dia muito azul e ele me confessou uma coisa que ele só dizia a quem confiava: ele estava lá, na fresta, porque ele guardava um tesouro. Eu fiquei surpresa, mas da maneira como as crianças ficam quando surpresas: poderia ser um tesouro ou uma nova conta de vidro, não fazia diferença. O simples fato de que ele tinha algo que não podia deixar de ser guardado já era fascinante e eu estava muito curiosa para saber o que era. Se eu quisesse vê-lo, ele disse, eu precisava trocar de lugar com ele. Será que eu iria conseguir deixar minha mãe e meu pai e meus amigos para viver lá? Não estava claro para mim, mas eu tive, então, pela primeira vez na vida, uma dúvida verdadeira diante de uma escolha. Eu não pude dar para ele uma resposta imediata, e pensei nela por muito tempo.” ///Trecho do romance “Capricórnia”, de Sérgio Tavares Filho

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CAPRICÓRNIO
SÉRGIO TAVARES FILHO
Editora: Patuá
Número de páginas: 136
Preço: R$ 32 + frete
Onde comprar: www.editorapatua.com.br

*Reportagem publicada em 15 de fevereiro no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Elas têm a palavra, e os prêmios também

À esquerda, Vanessa Barbara; acima, Sônia Barros; e embaixo, Adriana Griner: só deu elas no PR de Literatura. —FOTOS: DIVULGAÇÃO E RAFAEL ROCHA CARDOZO

À esquerda, Vanessa Barbara; acima, Sônia Barros; e embaixo, Adriana Griner: só deu elas no PR de Literatura. —FOTOS: DIVULGAÇÃO E RAFAEL ROCHA CARDOZO

Por Wilame Prado

É de se destacar a boa literatura que vem sendo produzida por escritoras brasileiras. Anunciado ontem pela Biblioteca Pública do Paraná, o resultado do Prêmio Paraná de Literatura 2014 revelou a superioridade delas em todas as categorias: a paulistana Vanessa Barbara venceu o prêmio Manoel Carlos Karam com o romance “Operação Impensável”; a carioca Adriana Griner é a vencedora do prêmio Newton Sampaio com a coletânea de contos “No Início”; e a paulista Sônia Barros venceu o prêmio Helena Kolody com os poemas do livro “Fios”.

Sem nem citar as muitas escritoras em atividade no País que vêm publicando livros elogiáveis mas sem receberem premiações, ressalte-se que, recentemente, o Prêmio São Paulo de Literatura teve, pela primeira vez, uma mulher como grande vencedora: Ana Luísa Escorel recebeu R$ 200 mil ao vencer na categoria Melhor Livro do Ano de 2013 com o romance “Anel de Vidro” (Editora Ouro Azul). Já no último Prêmio Sesc de Literatura, foi escrito por uma jovem de 27 anos o melhor romance na opinião dos jurados. “Enquanto Deus Não Está Olhando” é de autoria da pernambucana Débora Ferraz.

As três mulheres que terão direito a R$ 40 mil e uma tiragem de mil exemplares de seus livros graças à conquista do PR de Literatura não são fracas não: Vanessa, Adriana e Sônia deixaram para trás um total de 630 obras inéditas de autores de todo o País, inscritas sob pseudônimo, e que foram avaliadas por um júri com outras escritoras de prestígio, como Elvira Vigna, Regina Zilberman, Cíntia Moscovich e Luci Collin.

Elas também são persistentes. Em entrevista por e-mail, Sônia Barros – conhecida pela vasta obra de infanto-juvenis – diz que foi o segundo ano a tentar, com o mesmo “Fios”, o PR de Literatura. Para adultos ou crianças, os versos precisam existir, na opinião dela. “A poesia nos torna mais humanos, mais sensíveis. E é com essa sensibilidade que tento escrever, alcançar o leitor, tenha ele a idade que tiver.”

Estrategistas, sem dúvida alguma, elas também são. Vanessa Barbara, em entrevista para o Estadão, diz que pensou no concurso literário como forma de se “obrigar” a escrever tendo um objetivo – o romance – e um prazo a cumprir – a data limite das inscrições. “É um incentivo tremendo para a produção literária”, opina.

E, por fim, por que não, ousadas em suas propostas literárias? Também para o Estadão, a professora de inglês e estreante na literatura Adriana Griner comenta sobre os diferenciais dos contos reunidos em “No Início”: “Para mim, o livro é, antes de tudo, sobre o amor. Em termos de linguagem, brinco com o primeiro capítulo do ‘Mimesis’, de Auerbach, quando ele compara a linguagem da Bíblia com a da Odisseia.”

Vai vendo!

3 perguntas para Vanessa Barbara

Mesmo autores já conhecidos como você ainda “precisam” dos concursos literários para alavancar a carreira e ganhar dinheiro?
Sim, principalmente pela parte financeira. Viver de literatura é bem difícil (eu, por exemplo, vivo de jornalismo), então um prêmio desses é muito bem-vindo até para quem tem algum reconhecimento na área. Em edições anteriores do prêmio, o José Roberto Torero, o Alexandre Vidal Porto e o Caetano Galindo foram vencedores. Isso diz muito sobre a pindaíba em que vivemos! :p

Conte o que puder contar sobre o processo de criação do romance “Operação Impensável”, sobre a história que o livro traz e também sobre o que pensa desse livro ainda inédito teu.
Já escrevi o romance pensando em mandar para o prêmio – queria submeter esse livro por outros caminhos, sob pseudônimo, para ver se ele realmente valia algo. Também queria ter um objetivo claro e um prazo que servissem de incentivo para trabalhar. O livro conta a história de amor entre uma historiadora especialista em Segunda Guerra Mundial (daí o título) e um programador de computadores que esconde segredos.

Sua versatilidade é invejável. Na crônica e nas reportagens, tem ótimas publicações. Para você, mais conhecida com as crônicas, quais são os desafios na hora de encarar um romance ficcional?
Acho bem difícil escrever ficção, acho que porque não tenho tanta prática… Também porque é um trabalho que exige fôlego, paciência, senso de estrutura… Enfim, é um desafio tremendo.

3 perguntas para Adriana Griner

Trabalha com literatura mesmo?
Trabalho como professora no ensino médio, e só indiretamente estou na área de literatura, através do ensino. Nunca publiquei um livro. Escrevi muito na vida, li mais ainda. Eu era daquelas crianças que atravessam a rua lendo um livro, vêm TV lendo, almoçam lendo. Aos quinze anos diminuí o ritmo de leitura, aos trinta me tornei semi-analfabeta e assim passei a ler bem menos.

O que pode nos contar sobre os contos de “No Início”?
É um livro de contos porque o livro pedia um livro de contos. Como eu reconto histórias do primeiro livro da Bíblia, não haveria outra forma de fazê-lo. Mas apesar de ser um livro de contos, é um livro em que diversos temas perpassam todas as histórias, então são contos independentes, mas que remetem uns aos outros.
O que faço no livro é criar ou recriar as histórias. Algumas histórias são apenas a reprodução da história original, mas com um ponto de vista distinto, pois tento dar voz às personagens femininas que eram tratadas apenas como paisagem ou como objeto da narração. Procuro ver como elas se sentiram ao passar por aquela situação. Em outras histórias a Bíblia é apenas o ponto de partida para eu narrar uma história que não foi contada.

Esperava vencer tão disputado prêmio?
Não, não esperava vencer. Fiquei com o maior jeito de boba ao saber do resultado. Acho que ninguém acredita muito que vai vencer um prêmio como esse, considerado um dos mais importantes do país. O reconhecimento tem um gosto bom.

3 perguntas para Sônia Barros

Atualmente vive só da literatura?
Sim, mas não vivo apenas dos direitos autorais dos meus livros (tenho 17 títulos infanto-juvenis publicados), também visito escolas e participo de feiras literárias, converso com alunos, pais e educadores.

De que maneira os versos e a poesia ajudam ou ajudaram em sua carreira como escritor de livros infanto-juvenis?
Eu não vivo sem poesia. Já na infância, me encantavam os poemas da Cecília Meireles, Mário Quintana, José Paulo Paes… Dos meus 17 títulos infanto-juvenis, vários são de poesia ou prosa poética. A poesia nos torna mais humanos, mais sensíveis. E é com essa sensibilidade que tento escrever, alcançar o leitor, tenha ele a idade que tiver.

O que pode nos contar sobre os poemas de “Fios”?
Foram escritos ao longo dos últimos sete anos, de 2008 a 2014. O título acabou se impondo depois que percebi os muitos poemas retratando “fios” aparentemente distintos, mas, de certa forma, entrelaçados: do ofício, da infância, da velhice, da maternidade, do amor, da memória, da solidão, da morte, da própria poesia, da arte… enfim, os caminhos internos e externos da existência humana. Quem me mostrou isso foi o poeta Donizete Galvão, com quem conversava muito sobre poesia, e a quem o livro é dedicado. Infelizmente, o Doni faleceu em janeiro deste ano. Aliás, um grande poeta, que ainda não teve o merecido reconhecimento no País.

*Reportagem publicada nesta terça-feira (25) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

 

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Os louros de Marcos Peres

Marcos Peres na cerimônia do Prêmio SP de Literatura: autor maringaense lança segundo romance ano que vem

Marcos Peres na cerimônia do Prêmio SP de Literatura: escritor maringaense lança segundo romance pela Record ano que vem

Por Wilame Prado

Ao conquistar o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Melhores livros do ano – autores estreantes com menos de 40 anos, o escritor Marcos Peres, 30, torna-se um dos escritores maringaenses de ficção mais laureados de toda a história da cidade. Com o romance “O Evangelho Segundo Hitler” (Editora Record), ele também venceu o Prêmio Sesc de Literatura no ano passado e foi finalista do Jabuti este ano. Na “disputa”, segue empatado Oscar Nakasato, escritor e professor maringaense radicado em Apucarana que, com o romance “Nihonjin” (Benvirá), conquistou o Prêmio Benvirá e o Jabuti em 2012, além do Prêmio Bunkyo de Literatura em Língua Portuguesa.

Foram anunciados, na noite de segunda-feira, no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo (SP), os melhores romances brasileiros na opinião dos jurados do Prêmio São Paulo de Literatura. Além de Peres – que leva R$ 100 mil em premiação –, a escritora paulistana Ana Luísa Escorel ganhou na principal categoria, Melhor livro do ano, com “Anel de vidro” (Editora Ouro Sobre Azul), faturando R$ 200 mil. A porto-alegrense Veronica Stigger venceu com “Opisanie swiata” (Cosac Naify) na categoria Melhores livros do ano – autores estreantes com mais de 40 anos, e também leva R$ 100 mil.

O SP de Literatura, promovido desde 2008 pelo Governo do Estado de São Paulo e exclusivo para o gênero romance, é o maior prêmio do País levando-se em consideração o dinheiro pago. Todos os anos são R$ 400 mil em premiações, divididos nas três categorias. Este ano, 153 obras entraram na competição. Dessas, foram escritas por 67 autores “veteranos” e 86 estreantes. Entre os autores premiados em outras edições, destacam-se Cristóvão Tezza, com “O filho eterno”, Ronaldo Correia de Brito, com “Galiéia” e Raimundo Carrero, com “Minha alma é irmã de Deus”.

TRÊS PERGUNTAS A MARCOS PERES

‘Este prêmio é de Maringá’

Prestes a embarcar para o vôo de volta a Maringá, na manhã de terça-feira, Marcos Peres respondeu por e-mail a algumas perguntas referentes à conquista do Prêmio São Paulo de Literatura. Em pouco tempo hospedado na maior cidade do País, ele revelou ter sentido os desafios da escassez da água, problema enfrentado em SP, mas, claro, tudo valeu a pena. Agora, volta para casa com mais uma conquista literária e R$ 100 mil no bolso. Com novo romance pronto, a ser lançado pela Record, Peres tem uma certeza: 2015 será ainda melhor que 2014.

1 O que fará com os R$ 100 mil?
— Ainda não pensei no dinheiro, a ficha não caiu completamente. O justo, penso, seria reinvesti-lo na literatura, que é o que me proporcionou toda essa alegria. No momento, só penso em voltar a Maringá e comemorar. Fico sempre muito feliz com o progresso da literatura na cidade, vibro com o lançamento de amigos, comemorei as vitórias do Oscar (Nakasato) como se fossem minhas. Este prêmio é de Maringá, portanto.

2 Qual é o tamanho dessa conquista?
— O prêmio SP é completamente diferente do Sesc, que é para autores inéditos – como todo o processo é sigiloso e todos concorrem com pseudônimo, não há a sensação da concorrência, não é possível saber os outros que estão no páreo. O Prêmio SP é entregue no Museu da Língua Portuguesa, dos 20 finalistas, 18 ou 17 estavam presentes, e senti um frio na barriga ao ver aqueles caras todos, alguns deles presentes em forma de livro na minha cabeceira. A quantia vultosa do prêmio é dada para legitimar a qualidade do romance vencedor, para mostrar que literatura pode ser exercida de uma maneira profissional no Brasil.

3 Há uma data de lançamento para o novo romance pela Record?
— Imagino que o romance “Que fim levou Juliana Klein?” será lançado no primeiro semestre de 2015. Mas não há uma data certa definida. Vou sentar com meus editores e dialogar sobre o processo de lançamento. O ano de 2014 acabou hoje para mim, com chave de ouro. Amanhã já começo a pensar em 2015. Tenho certeza que será outro ano maravilhoso.

ISTO É MARCOS PERES
Juliana sorriu e deu de ombros.
“Não sei bem. Há coisas incompreensíveis, mesmo dentro de nossa família”.
Sabia, mas não queria falar. Não desejava mencionar nada que os ligasse aos Koch, em outras épocas. Tinha 34 anos, a cintura fina, o quadril largo, os lábios carnudos vermelhos em contraste com sua pele e seus olhos claros. Guardava o viço e os arroubos da juventude que encantaram Salvador Scaciotto, e tantos estudantes, de tantos anos. E que, a cada segundo, parecia encantar mais o delegado de polícia maringaense. ///Trecho do romance inédito “Que fim levou Juliana Klein?”, que Marcos Peres pretende lançar em 2015 pela Record

*Reportagem publicada quarta-feira (12) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Tezza revisita o passado

AUTOCRÍTICA .Cristovão Tezza, em Curitiba: “Sinto que é o meu melhor livro”. —FOTO: GUILHERME PUPO

AUTOCRÍTICA. Cristovão Tezza, em Curitiba: “Sinto que é o meu melhor livro”. —FOTO: GUILHERME PUPO

Wilame Prado

Antes de discursos em que precisamos falar da gente mesmo, passa um filme na cabeça e ativamos a máquina da memória tentando, num exercício de ordenação e coerência, transformar lembranças em palavras proferidas. No ínterim, tendemos a pensar em fatores externos – família, relacionamentos, profissão, política atual – mas, quase sempre, deixamo-nos comover pelas reminiscências, pelas emoções, que, tal qual uma lágrima que transborda dos olhos e que ofusca o plano da visão, chegam a distorcer os fatos com a exacerbação dos sentimentos em detrimento da realidade pretérita. Nosso passado, que é uma história que nós mesmos construímos para a gente, tende a ser potencializado com a nostalgia.

“O Professor” (Editora Record, 240 páginas, R$ 32), romance lançado recentemente por Cristovão Tezza, 62 anos, tem sua narrativa concentrada nas poucas horas que antecedem o discurso que o professor aposentado de filologia românica Heliseu da Motta e Silva, 71, fará em uma homenagem que está prestes a receber pelos serviços docentes prestados.

Não há limite de tempo para as memórias, e Heliseu rememora, nessas poucas horas, décadas de uma vida dedicada à arte de ensinar, incluindo, nesse pacote de lembranças, fatos importantes da história pessoal e da política brasileira.

Como acontece com a maioria das pessoas, passa um filme na cabeça do professor. E como bem sabe fazer o escritor catarinense radicado em Curitiba, o filme das memórias de Heliseu foi transformado em romance.

Em “Um Erro Emocional” (Record, 2010), Tezza praticou a sua destreza em escrever páginas e mais páginas que concentram, no tempo da obra, apenas horas vividas pelas personagens. Na ocasião, ele narra a ida do escritor renomado Paulo Donetti ao apartamento de uma leitora, Beatriz, para dizer que havia cometido um “erro emocional”, o de ter se apaixonado por ela.

Em “O Professor”, o recorte temporal se limita entre o lento despertar do idoso e o momento em que finalmente coloca o papel do discurso no bolso, olha-se no espelho e vai para a devida homenagem a ser recebida.

Nesse intervalo de quatro anos entre os dois romances, Tezza exercitou o conto em “Beatriz”, o ensaio literário em “O Espírito da Prosa” e a crônica em “Um Operário em Férias”. Agora volta ao romance e, até pelo pouco destaque que teve publicando em outros formatos literários (principalmente quando comparado com o retumbante sucesso de “O Filho Eterno”, de 2008), demonstra mesmo que a prosa mais longa é o seu forte.

Na bibliografia, são 18 obras publicadas, sendo 14 romances, incluindo, além dos supracitados, os elogiados “Uma Noite em Curitiba”, “Trapo” e “O Fotógrafo”.

Comemoração à parte dos leitores que aguardavam um novo romance de Tezza, “O Professor” chega ao País já premiado. Ano passado, o livro foi escolhido pelo Financial Times como um dos melhores estrangeiros publicados no Reino Unido.

Afora isso, o próprio autor considerou, em entrevista concedida por e-mail, tratar-se de seu melhor livro até aqui. “Depois de vários livros publicados, o escritor já consegue ter uma noção de medida de seu trabalho, ainda que não a certeza absoluta, que não existe. Eu sinto que é o meu melhor livro pelo apuro técnico e pela maturidade da visão de mundo, que é algo que só o tempo dá. Mas é preciso lembrar que o autor é sempre suspeito ao falar da própria obra.”

Após a conquista de vários prêmios com “O Filho Eterno”, ele ganhou dinheiro, fato que estimulou a antecipação da aposentadoria nos tablados da Universidade Federal do Paraná, onde lecionou por 20 anos no curso de Letras. Olhando para o currículo de Tezza e todo seu envolvimento com a academia, poder-se-ia imaginar que “O Professor” é mais um romance com traços autobiográficos. Não é, segundo o próprio autor.

“O único livro de fundo autobiográfico que escrevi foi ‘O Filho Eterno’. Personagens professores são recorrentes na minha obra: há professores em ‘A Suavidade do Vento’ e ‘Uma Noite em Curitiba’, por exemplo, e isso não significa que sejam livros autobiográficos. Não há nada de mim em Heliseu, exceto a profissão – já fui professor e convivi no mundo universitário que meu personagem habita”, explica.

TEZZA AGUARDA CONVITES PARA LANÇAR ‘O PROFESSOR’
“O Professor” foi lançado oficialmente em Curitiba no começo de abril. Já no sábado do dia 12 de abril, Tezza estaria na Livraria e Editora Arte & Letra, também na capital paranaense, ao lado dos escritores Rogério Pereira e Mário Araújo, no lançamento de “Entre as Quatro Linhas”, coletânea de 15 contos sobre futebol organizada por Luiz Ruffato.

Dentre os contistas estão, além de Tezza, Pereira e Araújo, Fernando Bonassi, Ronaldo Correia de Brito, Eliane Brum, Flávio Carneiro, André de Leones, Tatiana Salem Levy, Adriana Lisboa, Ana Paula Maia, Tércia Montenegro, Marcelo Moutinho, Carola Saavedra e André Sant’anna.

Em sua última passagem por Maringá, Tezza participou da Semana Literária do Sesc em 2010 e versou sobre a criação literária e importância da leitura. O romance recém-publicado por ele já pode ser encontrado nas principais livrarias da cidade, mas ainda não há previsão de lançamento da obra com noite de autógrafos do autor por aqui.

“Já fui várias vezes a Maringá, em palestras, eventos literários e lançamento do livros, sempre uma ótima recepção. Se surgir uma oportunidade, é claro que irei”, diz Tezza.

o professor, cristovao tezzaESTANTE
O PROFESSOR
Autor: Cristovão Tezza
Gênero: romance
Editora: Record
Número de páginas: 240
Preço sugerido: R$ 32

ISTO É CRISTOVÃO TEZZA
A cadeia de desconcertos deste amanhecer, ele sussurrou, achando bonito, testando a linguagem e vivendo um impulso de entusiasmo — eu poderia ter sido escritor, se tivesse tido a coragem no momento certo. Quase rompi a membrana e passei para o lado de lá. Parecia simples. Therèze uma vez lhe disse: por que você não escreve? Um tropeço de fonemas — cadeia de desconcertos deste. O fonema “d”, repetiu ele milhares de vezes diante de milhares de alunos, seguido da vogal “i”, palataliza-se em algumas regiões do Brasil. Comparem: djia x dia, assim, dia, ele abria bem a boca para a demonstração, alveolar, a língua contra os dentes da arcada superior. Para quem não compartilha a diferença de sotaque, é engraçado. Passou as mãos no rosto, moveu a cabeça de um lado a outro, três vezes, num simulacro de ginástica — é bom contra torcicolo, ele ouviu uma vez e passou décadas repetindo o movimento. Mas o pescoço parece um papo de galinha, assim como os olhos revelam o pé de galinha — é assim que as mulheres dizem. Um símile perfeito. Essa pele despencada grudando-se ao que resta de apoio, para se espraiar em ossos secos que se erguem como raízes de árvores arruinadas. A clássica barba amanhecida, ainda por fazer. Houve um tempo em que era estilo. Minha cabeça é um bulbo, e ele se surpreendeu com a teimosia da conclusão, já diante da plateia: senhoras e senhores, brasileiras e brasileiros, eu fui sim um homem bonito. Eheh. Esticou a perna direita, depois a esquerda. As pernas pareciam doer menos essa manhã. A química funciona.

A verdade é que nem sempre fui um homem antigo, ele argumentou arriscando uma ironia em defesa própria, agora sentado na cama de imbuia envernizada, mais velha ainda que ele, com seus frisos caprichosos. Confira os detalhes da cabeceira. Uma hora de trabalho em cada raminho de madeira, as ranhuras das folhas perfeitas no relevo. No tempo dos artesãos, que não existem mais. Não fabricam mais nada assim, ele ouviu a mulher repetir mil vezes, com irritação legítima, hoje é esse lixo descartável, serragem com cola, a cama desmonta no primeiro dia — na primeira trepada, ele completou uma vez, há muitos e muitos anos, e os dois riram. A Mônica, senhores, de saudosa memória. Talvez a homenagem que vão fazer a ele seja justamente o reconhecimento de sua atualidade. Não. De sua contribuição. Alguém que passou sem traumas (Na verdade, com altruísmo; eles têm de reconhecer pelo menos isso. Se não fosse ele — se não fosse ele o mundo não existia? Sim, de certa forma, e ele riu como quem ouve uma piada de café; o velho e bom solipsismo. Depois de mim, o dilúvio; sem mim, nada! É engraçado.) — que passou sem traumas da velha filologia românica para a linguística moderna — do papel escrito para a língua viva. Dos textos sólidos — desenhados quase que com o punhal há 600 anos, a brutalidade do tempo, e que ele lia com prazer, no púlpito da sua aula, aquilo sim é palpável, a verdadeira gramática universal, nom seria razõ, n˜e dereyto que no processo de nossa lyçam seiam squecidas aquellas moças que som ˜e estado de virgijndade, das quaes homem pode fallar em duas maneyras — daquellas que teem preposito de guardar virgijndade toda sua vyda por amor de Deos e daquellas que ha guardam ho tempo de seu casamento per ordenãça de seus padres. Não é uma maravilha?, ele perguntava aos alunos, o anfiteatro cheio, um bloco granítico de silêncio. ///Trecho do romance “O Professor”, de Cristovão Tezza

*Reportagem publicada em 12 de abril no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Tristezas paulistanas

Por Wilame Prado

A cidade de São Paulo retorna às páginas de ficção. O escritor Joca Reiners Terron, 45 anos, cuiabano radicado em São Paulo, não fez da megalópole inspiração para poemas ácidos e irônicos, como Mário de Andrade em “Paulicéia Desvairada” (1922), mas um pano de fundo obscuro para o romance “A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves” (Editora Companhia das Letras, 176 páginas, R$ 36), lançado recentemente.

E não se trata apenas de cenário. Os personagens do livro são figuras típicas encontradas nos bairros paulistanos, em especial o Bom Retiro. Entre bolivianos, coreanos, judeus e usuários de crack, neste bairro tradicional também vivem a Sra. X, enfermeira especializada em pacientes terminais, e sua paciente – uma pessoa com tamanho de criança chamada por “criatura” e que se protege da luz com suas galochas e capa de chuva vermelha com capuz. É por lá também que, entre doses de uísque misturadas com anfetaminas, perambula um escrivão insone que divide seus dias e suas noites entre os plantões na delegacia, o zelo com o pai judeu e senil em casa e suas memórias de infância a todo momento.

Joca Reiners Terron: escritor radicado em São Paulo utiliza histórias tristes e dramáticas para construir trama de suspense

O romance é separado por capítulos ora narrados em primeira pessoa, com as andanças meio desrumadas do escrivão, ora narrados em terceira pessoa, mostrando relações entre pessoas e bichos, entre a criatura e o leopardo-das-neves, entre um taxista psicopata e seus rottweilers sanguinolentos e finalmente entre uma turma que resolve participar do Nocturama, um passeio noturno dentro de um zoológico, e as feras daquele lugar.

As histórias entre os vários personagens principais e secundários de “A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves” tardam a se entrelaçar. Isso torna o livro, só no início, desamarrado. Terron despeja pistas no decorrer dos fatos, almejando atiçar o leitor em uma trama de suspense que, aos poucos, vai se revelando mais dramática e menos paródica – o autor correu os riscos sempre iminentes da ficção que dedica olhares para a realidade brutal de acontecimentos absurdos mas extremamente possíveis.

Assim como São Paulo, sempre tão acinzentada e obscura, os personagens do romance vão se revelando donos de histórias fantasticamente infelizes. Mesmo com o humor ácido do escrivão – uma voz real de Terron em suas inúmeras críticas ao modo de viver das pessoas na cidade nos dias de hoje – é difícil ver graça em qualquer uma das situações do romance, que é escatológico. Juntamente com o final da história, vai se findando também a existência dos próprios personagens. É como se todos fossem derretendo e sucumbindo violentamente ao pesado ato de existir.

Na lenda inserida no romance e confabulada brilhantemente por Terron, em que um leopardo-das-neves fica eternamente entristecido por não encontrar a voz humana que persegue errante pelo mundo, o bicho não vê saída a não ser iniciar um processo de autoflagelação devorando as próprias patas. Mesmo desconsolado, o felino encontra soluções para a falta de sentido da vida. Diferentemente dos personagens humanos do livro, velhos, solitários, deformados, loucos, imigrantes, viciados, segregados e assassinos. Estes sim, são tristes e ocupantes de uma cidade mais triste ainda.

Em “A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves”, não dá para saber se as pessoas é que deixam São Paulo uma cidade triste, ou se São Paulo é que entristece as pessoas.

ISTO É JOCA REINERS TERRON

Todo dia a sra. X desinfetava a criatura. O trabalho era muito delicado, e se iniciava na tentativa de convencê-la a se despir. Envergonhada de sua aparência, a criatura sempre vestia capa de chuva vermelha com capuz, calças largas e galochas dentro de casa. Primeiro, a governanta limpava a pele da criatura com água boricada e algodão. As feridas se esparramavam por todo o corpo, tendo ela contato com a luz diurna ou não.Eram inflamações purulentas que surgiam de um dia para o outro como se o corpo dela estivesse em constante estado de erupção. Apareciam nos pontos de contato da pele com a cama quando a criatura se deitava ou com a cadeira quando se sentava, mas também no rosto e até mesmo na delicada penugem que lhe encobria as córneas. As mutilações em suas mãos eram terríveis, e ela relutava em tirar as luvas de couro. A maior parte do tempo a criatura estava coberta por feridas de diferentes tonalidades de cor, do vermelho mais vivo das feridas recém-surgidas às cascas quase negras de sangue coagulado dos machucados de três dias ou mais. Parecia uma pintura abstrata cujo pintor tinha desistido a meio caminho, colocando-a de lado…”

“…Devido talvez a um efeito das bolhas de sono que começavam a flutuar diante dos meus olhos, coreanos e bolivianos começaram a se multiplicar, e adolescentes coreanas de minissaia com livros escolares nos braços sumiam no buraco escuro do metrô, homens bolivianos com bebês de colo paravam nas esquinas enquanto suas mulheres trabalhavam nas oficinas clandestinas de costura dos velhos coreanos que escarravam nos meio-fios, bolhas de sono saíam de bueiros, explodiam na minha cara que nem bolhas de sabão, bolhas de luz encobriam a esquina da Prates com a Três Rios, eu precisava de meus Inibex, será que o frasco estava esquecido lá em casa? Era bem provável, pois antes de seguir para o plantão eu tinha cochilado uns instantes abraçado ao bisonte na sala de estar, cheguei até a ter um princípio de sonho em que montava o bisonte e ele voava sobre o bairro e eu via lá embaixo a reunião dominical de judeus na antiga pletzel e podia ver minha mãe de braço dado com meu pai e com o dr. Glass e era de manhã e eles riam e cantavam a Internacional Socialista bem alto…Quando vi, estava parado diante de casa. Os bolivianos como sempre tinham se atrasado para o serviço e não abriram as portas de correr da loja. Senti uma fisgada no peito. A luz da escadaria continuava acessa e tudo parecia normal. Outra, mais forte. Podia ser mais um ataque de paranoia ou só o começo de um infarto. Trechos do romance “A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves”, de Joca Reiners Terron

ESTANTE

A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves

Gênero: romance

Autor: Joca Reiners Terron

Editora: Companhia das Letras

Número de páginas: 176

Preço: R$ 36

 *Comentário publicado na edição deste domingo (9) do D+, no Diário de Maringá

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O porquê não devemos abandonar os cães, em ‘Barba Ensopada de Sangue’

“O ruído de uma moto passando na estrada é acompanhado pelos latidos do Bagre, roucos como berros de um fumante inveterado. O pai franze a testa. Não atura esse vira‑lata insolente e barulhento e o mantém somente por senso de responsabilidade. Tu pode deixar pra trás um filho, um irmão, um pai, com certeza uma mulher, há circunstâncias em que tudo isso é justificável, mas não tem o direito de deixar pra trás um cachorro depois de cuidar dele por um certo tempo, disse‑lhe uma vez quando ainda era criança e a família completa vivia numa casa em Ipanema pela qual passaram meia dúzia de cães. Os cachorros abdicam pra sempre de parte do instinto pra viver com as pessoas e nunca mais podem recuperá‑lo por completo. Um cachorro fiel é um animal aleijado. É um pacto que não pode ser desfeito por nós. O cachorro pode desfazê‑lo, embora seja raro. Mas o homem não tem esse direito, dizia o pai. A tosse seca do Bagre devia ser aturada, portanto. É o que fazem agora os dois, o pai e Beta, a velha pastora australiana deitada a seu lado, uma cadela de fato admirável, inteligente e circunspecta, forte e parruda como um javali.” – trecho do romance “Barba Ensopada de Sangue”, de Daniel Galera.

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Vidas que se resumem a carvão animal

Encerrando a “Saga dos Brutos”, Ana Paula Maia demonstra maturidade na construção e economia de diálogos e faz reflexão sobre aos resquícios da morte dos homens

Wilame Prado

A escritora Ana Paula Maia sente admiração é pelos brutos. As histórias dos brutos são as que precisa e quer contar. Ou melhor, já contou. Com a publicação de “Carvão animal” (Editora Record, 158 páginas), ela encerra a “Saga dos Brutos”, formada pelas novelas “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos” e “O trabalho sujo dos outros”, que foram reunidas em seu penúltimo livro, lançado em 2009.

Algumas características marcantes da autora permanecem vivas em “Carvão animal”. Nomes compostos e peculiares, por exemplo, continuam sendo os preferidos por Ana Paula na hora de batizar seus personagens. Quem já conheceu Edgar Wilson e Erasmo Wagner de novelas passadas dela, agora é apresentado ao valente bombeiro Ernesto Wesley e ao seu irmão que trabalha no crematório Ronivon.

Não é todos os dias que abrimos um livro e nos deparamos com histórias de bombeiros que se arriscam em altas temperaturas e que estão acostumados em verem o fogo transformar homens em carvão. Também é raro ouvirmos as histórias daqueles que atuam no subsolo de salas crematórias, colocando os mortos em fornos para que, ao final, virem apenas cinzas que ou serão guardadas em um pote para que a família guarde de lembrança ou simplesmente serão jogadas em um jardim de rosas cultivado nos fundos do crematório.

Trabalho dos brutos

É o trabalho destes homens brutos que dá fôlego à literatura de Ana Paula. Ela parece levar a sério a premissa de que o trabalho dignifica o homem, mesmo sendo este trabalho muitas vezes desumano, sem nenhum reconhecimento por parte da sociedade e, paradoxalmente, tão crucial como o de um médico ou de um advogado. A autora constrói a personalidade e a identidade de seus personagens de acordo com o que fazem para ganhar dinheiro e sobreviver. Até porque, pouco ou nada resta para eles além do trabalho, seja abatendo porcos, serrando latarias em acidentes de carros, cremando corpos ou colhendo carvão em minas subterrâneas.

Na apresentação de “Carvão Animal”, Ana Paula deixa claro uma de suas pretensões ao escrever a saga dessas pessoas: “Carvão animal é um romance que se passa dez anos antes das duas primeiras histórias, e assim encerra uma saga que teve por fundamento expor como o caráter do ser humano pode ser moldado pelo trabalho que executa, como o meio intervém na construção das identidades e como essas identidades modificam o meio”.

A autora parece respeitar a integridade e a importância dos trabalhos executados por homens brutos. É como se fosse uma tentativa de jogar luz aos olhos da humanidade, que parece não enxergar essas pessoas, tal qual nossa cegueira pré-fabricada perante, muitas vezes, aos moradores de rua e outros tantos marginalizados. Com uma certa inocência proposital, até porque parece ser algo impossível homens brutos terem um mínimo de dignidade tamanha a rudeza da vida, Ana Paula descreve a saga de seus personagens os presenteando com uma dignidade e uma força de tocar a vida sem muitas reclamações, tampouco ambições. Tristes, sim, esses brutos, porém, não fraquejam e parecem realmente viver um dia de cada vez, sem pestanejar, mas não sorrindo jamais.

Menos diálogos

Sendo a sua quarta obra, em “Carvão animal” a autora demonstra maturidade e se supera principalmente na construção do texto. Seguindo a mesma fórmula de “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos”, a prosa ligeira e visual (a autora já revelou em seu blog que grande parte de sua inspiração literária vem do cinema) transforma o leitor em um ser ansioso para chegar às últimas páginas do livro, assim como quando assistimos a um bom filme. Só que desta vez Ana Paula resolve, de maneira inteligente, não se prender tanto aos diálogos dos personagens e consegue desenvolver melhor parágrafos narrativos.

Isso não significa dizer que ela abandonou de vez os travessões, mas deixou só mesmo o essencial na boca dos brutos para que se possa provar o “jeitão” deles viverem e pensarem. Aliás, existem momentos em que só mesmo um bom e velho diálogo consegue repassar ao leitor a atmosfera do local e do que está ocorrendo por ali. Assim como quando Ronivon e o seu Palmiro conversam sobre a demanda de trabalho no crematório, sobre o tempo que a cremação pode demorar e sobre o carteado de logo mais à noite:

“- Ronivon, como vão esses aí?

– Mais ou menos. Tem um velho seco feito um graveto.

– Esses são os piores.

– Sim. E ainda era fumante.

– Me lembro desse tipo no meu tempo de cremador. O corpo já está acostumado ao fogo e ao calor. Resistem por muito tempo.

– Infelizmente ainda tenho mais seis corpos, acho que não vou poder ir hoje à noite.

– Mas o carteado sem você fica desfalcado. Olha, são seis corpos, mas apenas três queimadas.

– Acho que esse velho seco vai me atrasar o dia.

– Teve pouca gente no velório dele. Não estavam nem abatidos.

– Pelo visto alguém vai ter que despejar o velho no córrego lá de trás…

– Mas o carteado é religioso.

– Eu sei, Palmiro. Tudo depende da hora que conseguir sair.

– Tudo o que eu posso desejar neste momento é que este forno arda mais que o inferno.”

Abalurdes: lugarejo frio e semirrural

No lugarejo onde os homens de “Carvão animal” sobrevivem está fazendo muito frio nos últimos dias, um inverno rigoroso está anunciado e as nuvens são encrespadas por conta dos carvoeiros da região. Não se sabe ao certo se Abalurdes é uma cidade grande ou pequena. Apenas que está localizada em uma região carbonífera, em que já se perdura por 50 anos o período de exploração de milhares de toneladas de carvão mineral, fato que torna o céu carvoento em todos os fins de tarde.

Quando Ernesto Wesley se dirige, com sua lambreta 1974, ao sítio de seu Gervásio no intuito de comprar esterco para seu minhocário, a autora revela algumas características do espaço em que escolheu para a ficção. Em um trajeto silencioso, oito quilômetros separam a casa dele com a zona rural, caminho em que o aspecto é desolador, como Ana Paula escreve, “com depressões na estrada e cercado de morros… é uma região cortada por rios contaminados e pequenos pastos. A paisagem humana mistura-se à paisagem semirrural. A cada três quilômetros, um novo bairro. São pequenos bairros, de movimentação confusa, comércio espalhado e pouca sinalização. Pessoas, carros, bicicletas, bêbados, crianças, porcos e gaiolas de galinhas são cortados pela mesma estrada, que em pontos perigosos possui uma placa com uma caveira sinalizando o alto índice de acidentes fatais”.

“Tu és pó e ao pó tornarás”

“Carvão animal” é uma novela curta e envolvente dividida em dez capítulos. Ao longo da leitura, Ana Paula Maia escreve sobre coisas fortes e difíceis, mas que, pela naturalidade com que é apresentada por meio da prosa, faz com que nos acostumemos facilmente com homens que viram cinzas em escombros e que só poderão ser identificados caso seus dentes sejam encontrados. A escritora parece querer provar o quanto é frágil e banal o corpo humano, a vida humana, pelo menos quando se morre.

A importância do dente, mais do que a trajetória da vida, é assunto trazido logo no primeiro parágrafo da obra: “No fim tudo o que resta são os dentes. Eles permitem identificar quem você é. O melhor conselho é que o indivíduo preserve os dentes mais que a própria dignidade, pois a dignidade não dirá quem você é, ou melhor, era. Sua profissão, dinheiro, documentos, memória, amores não servirão para nada. Quando o corpo carboniza, os dentes preservam o indivíduo, sua verdadeira história. Aqueles que não possuem dentes se tornam menos que miseráveis. Tornam-se apenas cinzas e pedaços de carvão. Nada mais”, escreve Ana Paula.

Um dos personagens principais do livro, Ernesto Wesley, entende a importância dos dentes. Como bombeiro, sabe que a lambida cruel das labaredas pode reduzir a cinzas o ser humano, que terá sorte se conseguir ser identificado por meio da arcada dentária. Preocupado com isso, “…limpa cuidadosamente todos os vãos e conclui a limpeza com um enxágüe bucal sabor menta. Seus dentes são limpos. Poucas obturações. Um molar possui uma jaqueta de ouro. Derreteu a aliança de casamento da mãe morta e revestiu o dente. Isto é para identificação, caso morra trabalhando ou em outras circunstâncias. Ter um dente de ouro é peculiar, e isto fará com que o reconheçam com maior facilidade” (página 11).

Ana Paula escolheu, brilhantemente, a citação de Gênesis 3:19 como epígrafe do livro: “Tu és pó e ao pó tornarás.” Talvez seja mesmo o pó um dos grandes temas centrais de “Carvão animal”, obra em que autora consegue interligar histórias de homens que têm em comum principalmente o fato de trabalharem em áreas pouco atraentes para a maior parte da sociedade. Mesmo sendo irmãos, não é o laço sanguíneo a maior semelhança entre Ernesto Wesley e Ronivon. É sim o pó, as cinzas e o carvão, seja mineral ou animal. O bombeiro vê o homem reduzido a carvão nos incêndios. O cremador transforma corpos mortos e vazios em carvão animal, cinzas que reduzem a vida a ponto de não ter mais origem, de não se saber se realmente aqueles restos de cinzas são do José, do João ou de um animal qualquer.

Tal qual a cor da capa do livro, cinza é o tom de toda a obra de Ana Paula. É difícil enxergar o sol em meio ao céu cinzento. Tampouco traços de brilhantismo em seus personagens, que não são nem heróis nem anti-heróis. Todos parecem viver naquele lugarejo já acostumados com a sombra, sentindo frio, temendo o inferno e sabendo que o céu não existe. Em “Carvão animal”, tudo é cinza e a vida se resume a pó, carvão e cinzas.

A morte abastece os vivos

Talvez uma das considerações mais válidas na obra da autora carioca seja a capacidade de argumentar, ainda que de maneira funesta, sobre a importância que se tem a morte transformada em carvão animal, em cinzas nos fornos crematórios. Em um dos capítulos, Ana Paula deixa um pouco de lado a narração dos movimentos de seus personagens brutos para dizer que, assim como o espaço para armazenar lixo está se findando, também fica escasso os lugares para se enterrar corpos humanos.

A autora diz que, com o passar dos anos, haverá mais corpos embaixo da terra do que em cima dela, com solo e água completamente contaminados por necrochorume (um líquido que sai dos corpos em decomposição e possui substâncias tóxicas). Em brilhante passagem na página 59, ela escreve: “A morte ainda pode gerar morte. Ela se espalha até quando não é percebida”. É esse argumento que acaba convencendo Ronivon a aceitar mais dignamente o seu trabalho nos fornos crematórios, que são, no mínimo, mais assépticos.

Finalizando o seu arsenal de justificativas para a importância da morte queimada e não da morte enterrada, a autora ainda explica que o calor gerado pelos fornos crematórios, passando por um conversor termoelétrico, transforma-se em energia elétrica que ajuda a suprir parte da energia usada tanto no crematório quanto no hospital da cidade, além de outros estabelecimentos próximos. A morte é encarada como moeda de troca para abastecer os vivos com energia elétrica. Os mortos indigentes do hospital são doados ao crematório, que gera energia elétrica para boa parte da população por meio do carvão animal.

Entrevista – “Acho que a soberania masculina se manterá”

1-Quanto tempo demorou para escrever “Carvão animal” e como faz para pesquisar a vida de homens que trabalham em resgates de acidentes e incêndios, em crematórios e em fornos de carvão?

Ana Paula Maia – Demorei seis meses com a maior parte do texto, porém eu já havia iniciado meses antes, sem avançar com a história. A pesquisa é através de artigos de jornais e vídeos de reportagens principalmente, mas a imaginação é a parte principal nisso tudo. Uso uma parte pequena da pesquisa, só mesmo a informação que terá relevância dentro da história que estou contando.

2-Agora, com o fim da “Saga dos Brutos”, imagina como serão seus novos livros, seus novos personagens?

O meu universo se manterá no próximo livro, com personagens semelhantes. Dificilmente conseguirei me desprender do que criei, ao menos não neste momento. Escritores têm fases, eles podem mudar o tema ou o modo como abordam um tema recorrente em sua obra. Ainda me interessa escrever sobre o mesmo tema: a condição do homem e seus horrores.

3-Sei que prefere escrever histórias mais pesadas, sem tanto romantismo. Quando for desenvolver personagens femininas (já que em seus últimos livros foca mais em histórias de homens), acha que estas também serão seres um tanto quanto embrutecidos pelo trabalho, pela vida?

Não faço ideia. Ainda não tenho nenhuma personagem feminina relevante. No próximo livro, acho que a soberania masculina se manterá.

Para ler

Título: Carvão animal

Editora: Record

Número de páginas: 158

Preço: R$ 29,90

Trecho do primeiro capítulo de “Carvão animal”

Luzes vermelhas e amarelas brilham no meio da auto-estrada. Dois policiais sinalizam para os carros seguirem por uma única faixa. O carro pára e eles descem. O asfalto ainda está quente, reflexo do intenso calor do dia.

A distância, Ernesto Wesley percebe o emaranhado da lataria esmagada. Dois carros e um caminhão colidiram. Fundiram-se. Trabalhará mais do que havia imaginado. Coloca um macacão especial, luvas de aço, um capacete para soldar e apanha a motosserra para libertar as vítimas das ferragens. Espera ser acionado. Outra equipe de socorro já havia chegado ao local. Ernesto Wesley só precisará derrubar as árvores. É o que costuma dizer quando separa as ferragens.

– São cinco vítimas, ou melhor, seis. Três estão presas nas ferragens, incluindo um cachorro. As outras duas já foram levadas pro hospital – diz um dos bombeiros da outra equipe.

Ernesto Wesley verifica o estado dos carros e do caminhão. O motorista do caminhão foi o único que não sofreu nenhum dano. Está de pé, próximo aos bombeiros, tentando ajudar. Este é o seu quinto acidente e de todos escapou. A placa quadrada pregada no caminhão preocupa os bombeiros. É líquido inflamável. Explosão química seguida de fogo é uma das coisas mais difíceis de se escapar. Um dos bombeiros fez a checagem e constatou que não há risco de vazamento. Ernesto Wesley liga a motosserra e já não ouve nenhum gemido, sirene ou coisa que o valha. Está imerso no anestésico impacto da serra e no barulho estridente provocado pelo atrito da lâmina contra os nós de ferro.

A única coisa que agrada Ernesto Wesley neste árduo trabalho de serrar ferragens são as fagulhas que se lançam no ar, ao léu, dançando nervosamente. Algumas delas não se espalham no ar, elas descem e tocam o chão.

Uma menina de cinco anos está presa e acordada. Seu cachorro labrador está esmagado sobre seu colo. O sangue do animal cobriu o rosto da menina e ela durante todo o tempo chama pelo cão. Será preciso serrá-lo junto com as partes do carro; o problema será o trauma para a menina. Primeiro será necessário remover a cabeça e depois os outros membros. Se não fosse o cachorro, a menina estaria morta. Ernesto Wesley não pode se comover. Ele precisa derrubar as árvores. Ainda que sinta arder o coração sempre que resgata alguma criança, não importam para os outros seus acidentes pessoais. Nesta profissão não é possível remoer as próprias tragédias. Não é permitido nenhum tipo de emoção. É sobremaneira uma atividade que enrijece o caráter e que o coloca de frente para as piores situações. Tudo se torna pequeno quando deparado com a morte. Não uma morte calma, sonolenta, mas a morte que espedaça, desfigura e transforma seres humanos em pedaços desconjuntados. Crânios esfarelados, membros esmagados e decepados. Quando alguém em estado de choque percebe que seu pé está a dois metros de distância ou que sua perna caiu no vão que separa as pistas, nunca mais se esquecerá. Podem-se perder: amor, dinheiro, respeito, dignidade, família, títulos e posição social. Isso tudo pode ser reconquistado, mas um membro decepado, nada o trará de volta a seu lugar.

Serra a cabeça do cachorro e parte do painel do carro. Sangue e resíduos de ferro se estilhaçam. A menina está em choque. Duas horas e ela resiste e sai das ferragens segurando uma pata. O mais comovente foi o resgate da menina, mas o pior seria o de seus pais.

O pai perderia algum membro, caso Ernesto não se concentrasse muito. O que dificultou ainda mais foi a chuva forte que durou cerca de quarenta minutos e encharcou seu macacão. Todos os homens parecem fatigados. Restam poucos curiosos no local.

O mais cansado de todos é Ernesto Wesley, e isto fica evidente quando a serra trepida entre as engrenagens do veículo, bambeia em sua mão e atinge a panturrilha do homem. Ele pára um pouco. Respira fundo. Olha para os lados. Está serrando faz cinco horas.

– Este homem deve ser substituído – ordena o oficial responsável pela operação.

O outro bombeiro, que foi juntamente designado para o trabalho com Ernesto Wesley, assume o controle da motosserra. Após vestir o uniforme de proteção, ele dá dois tapinhas nas costas de Ernesto Wesley.

– Agora é comigo. Vá descansar um pouco. Você está horrível, homem.

– Eu te disse que odeio serrar. Estou com muita dor de cabeça.

O bombeiro, quando tenta remover a mãe, ela já está morta. É possível verificar seus batimentos, pois a cabeça está reclinada sobre o banco traseiro, ao lado da janela aberta. Ele precisa serrar por mais uma hora. Fagulhas são lançadas vez ou outra. E, quando se tem líquido inflamável vazando sem que ninguém perceba, isto é fatal. O pior nesta profissão é que o erro de um atinge a todos os outros. Não é possível cometer erros. Mas, quando acontece, geralmente é fatal. O bombeiro que serrava foi lançado para o outro lado da pista enquanto Ernesto Wesley engolia um analgésico ao lado da ambulância. O corpo do homem em chamas cruzou alto o céu da madrugada. Ele sentiu a pele enrugar, os cabelos encarapinhar e, ao bater no asfalto, ainda vivo, escutou os ossos estalarem em choque com as chamas que inflamavam rápido até as entranhas. Tornava-se carvão animal e podia sentir o forte cheiro queimado de sua pele, músculos, nervos e ossos.

Seus dentes estavam intactos e até os legistas concordaram: eram os melhores incisivos que viram num morto.

*Resenha publicada no caderno D+, dia desses atrás, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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