São Paulo



‘Riocorrente’: SP (ou o mundo) em chamas

Carlos, Exu, o abismo e SP em cena de "Riocorrente": niilista e provocador

Carlos, Exu, o abismo e SP em cena de “Riocorrente”: niilista e provocador

Por Wilame Prado

São Paulo (SP), século 21. Um rio enegrecido segue lentamente o seu caminho. A imensidão traduzida em vidro, concreto e metal. Asfaltos quilométricos parecem levar para além do horizonte. Madrugada quieta. Um garoto negro avaria um veículo luxuoso estacionado na rua. Uma jam session rola solta em uma casa noturna quase vazia. Som maravilhoso. Homens solitários, devidamente armados com suas long necks em mãos, apenas escutam. Um desses sujeitos – com cara de mal –, entoja-se facilmente e sai acelerando a sua potente motocicleta pelas ruas paulistanas, até finalmente recolher o moleque solitário e descalço que, há pouco, riscara a lataria do carro preto estacionado.

É assim, como um conto bem escrito, que começa o filme “Riocorrente”. Em apenas uma hora e dezenove minutos, Paulo Sacramento, que dirigiu e escreveu o longa-metragem, traçou um retrato fidedigno da maior cidade brasileira com uma competente fotografia e tendo como enredo os encontros e desencontros de um triângulo amoroso encenado pelos atores Lee Taylor, Simone Iliescu e Roberto Audio, todos desconhecidos do cinema, porém elogiados nos palcos do teatro. Personagens todos – cada qual a seu modo – asfixiados na metrópole.

Exu (Vinicius dos Anjos) é só mais um (como tantos outros) menino órfão de São Paulo. Ele chama Carlos (Lee Taylor) de pai. Carlos, no entanto, é um típico paulistano fulo da vida, descontente com o que vê pelas ruas da cidade grande, completamente embrutecido e autocrítico com as alternativas que encontrou para ganhar dinheiro – roubando carros para o desmanche, por exemplo. Em cima da sua moto, a câmera vai seguindo o olhar dele pelas ruas de São Paulo, tal qual um Travis Bickle (Robert de Niro) com seu táxi amarelo em Nova York, em “Taxi Driver” (Martin Scorsese).

Carlos apenas segue vivendo – ou seguindo o seu caminho, como um rio corrente –, mas percebe uma chama se aquecer em seu pensamento após Renata (Simone Iliescu) – com quem tem um caso amoroso – ler para ele um trecho de um livro. A ideia de que tudo está errado, e que apenas as pessoas é quem pode fazer algo para mudar o mundo, gruda na cabeça do motociclista até o desfecho do conto urbano cinematográfico. O pensamento humano, filosofa os personagens com livro em mão ou após uma sessão de cinema, é como uma bomba atômica, que se expande somente depois de explodir.

Do outro lado da cidade, Marcelo (Roberto Audio) é a representação do cabeça pensante, figura fácil paulistana. Entendido de artes plásticas, ele é colunista de um famoso jornal impresso que tem circulação nacional, guia turístico em cemitérios paulistanos – onde palestra sobre arquitetura e arte – e, como também grande parte dos chamados “entendidos” de alguma coisa, extremamente pacífico, sujeito que vive no mundo das abstrações, teorias, livro e jornais. Marcelo também tem um caso com Renata.

Renata é o personagem que representa a figura feminina nos tempos de hoje. Cada vez mais resolvida com seus desejos sexuais, independente financeiramente e culta. Mulher que, entendendo os anseios de se envolver com homens extremados – Marcelo é calmaria, Carlos é explosão – não se intimida em, por exemplo, após dormir na casa de um, acordar e ir diretamente para a casa do outro, em busca de sexo. Mas, assim como seus dois homens, ela também padece de incertezas, também sofre a pressão da cidade grande, a pressão da vida contemporânea e suas fugacidades, e chora copiosamente numa das cenas mais belas do filme, na plateia de um concerto intimista de Arnaldo Baptista, ex-Mutantes, cantando desafinada e lindamente atrás de um piano de caldas.

“Riocorrente” demonstra a maturidade de Paulo Sacramento, que foi elogiado com o documentário “Prisioneiro da Grade de Ferro” e que coleciona trabalhos como montador em filmes importantes, a exemplo de “Quanto Vale ou é Por Quilo” e “Amarelo Manga”. Não à toa, “Riocorrente” foi selecionado para o Festival de Rotterdam (Holanda), venceu o Prêmio Abbracine na Mostra Internacional de São Paulo e ainda nas categorias Melhor Fotografia e Melhor Montagem no Festival de Brasília.

Em seu último longa, Sacramento mistura drama e suspense e tem capacidade de criar situações em que a cena não se esgota por ela apenas, autorizando o espectador a pensar sobre ou completá-la. É o caso de cenas memoráveis, como a da ninhada de ratos que destrói pilhas e mais pilhas de jornais impressos dispostos em um galpão; o flagra da briga do casal com a câmera se aproximando devagar até enquadrar a tela exatamente na janela do apartamento; ou ainda quando Exu se encanta, mas não se espanta, com o leão dentro de uma jaula, chega pertinho e, com toda a calma do mundo, tira da boca um dente que estava mole.

O filme “Riocorrente”, extremamente crítico, perturbador, niilista, estimula o choque, o atrito, é mais Carlos (inconsequente e prático) e menos Marcelo (consciente e estagnado), trata da loucura que é São Paulo, que é o mundo, e faz um alerta: a bomba pode explodir a qualquer momento. Homens incendiários podem finalmente entender que, assim como a frase do ativista Zack de la Rocha e incorporada em voz over no filme, “Tem que começar em algum lugar. Tem que começar em alguma hora. Que lugar melhor que esse? Que momento melhor que agora?” No longa, a hora para agir é sim agora. E a destruição pode ser disseminada com a velocidade da correnteza de um rio sujo, ou no simples pedido feito por um menino após jogar seu dente que acabou de cair.

EM CARTAZ
SEMANA TUPINIQUIM
Assista “Riocorrente”
no Cineflix Cinemas,
no Maringá Park Shopping,
domingo (28) às 14 horas,
segunda-feira (29) às 21h40
e terça-feira (30) às 16h30

Trailer:

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O lado leste da cidade grande

Bem que eu queria rumar para o lado leste da cidade grande. Lá, tenho de tudo, sou amigo dos melhores amigos, irmão dos irmãos, mano de todos os manos. É, mano. No lado leste, todo mundo é mano, todo mundo me chama de mano.

Eu posso sentir que, no lado leste daquela metrópole, estou mais próximo da minha raiz, daquele hospital que um dia, há algumas décadas, recebeu uma moça no auge dos seus 26 anos, a idade que hoje tenho, com cesariana marcada para o meio-dia daquele dia de todos os santos, inclusive o anjo torto aqui.

Alguns quilômetros precisam ser superados para que o sol que nasce só lá no leste bata em minhas costas. Até de moto vou, se deixarem. Mas pode ser de ônibus, mesmo, para que, com um mundo todo a ser conquistado ainda, um dia me lembre daquele início de manhã fria, naquela rodoviária que tanto já serviu como palco de emoções fraternas envolvendo pais e filhos, amigos e irmãos. Motor desligado do ônibus; descida sonolenta para fora do veículo; vento gelado na cara; abraços que esquentam, assim como um bom café preto. A Barra Funda velha de guerra e todos seus milhões de habitantes segurando malas, com mochilas dependuradas nos ombros, em meio a plataformas enumeradas, escadas rolantes e destinos distintos.

E aí, mano, é só olhar para frente, ter o passo firme e entender que Deus ajuda sim quem cedo madruga. Pelo menos lá no lado leste daquela cidade, a madrugada, assim como as manhãs, tardes e noites, é habitada por muita gente, que chega, que vai, que entra, que sai.

Os homens, por lá, não são cavaleiros, mas, em meio à guerra do concreto, vidro, asfalto e metal, inebriados pela neblina, pelo ar cor de cinza e pela intermitente garoa, trocaram os cavalos pelos carros e as bicicletas pelas motocicletas buzinadoras e quebradoras de retrovisor. Trocaram as armaduras por camiseta, calça jeans e moletom, jeito largado e moleque de ser. E alguns usam até terno, mas não porque se importam com o que os outros vão falar sobre a sua vestimenta. No leste, meu querido, ninguém nem olha para você direito e pouco se importam se estão com um tênis de cada cor nos pés.

Sem pisar no calo de ninguém, sem precisar cuidar da vida de ninguém, quero andar em um caminho reto e honesto lá no lado leste daquela grande cidade. Quero que o texto escrito meu entre pela porta da frente das casas para ser lido pelos manos, pelas minas. Quero tentar traduzir para eles que, em meio a tanto asfalto, um dia eu vi, juro, flores nascendo e plantas crescendo a olho nu. Quero que acreditem nas minhas mentiras realistas, em minhas verdades ficcionais.

Lá no lado leste, posso ter muita coisa. Uma visão de um horizonte gigantesco intermediado por prédios, antenas e, veja só, uma ou outra árvore, uma ou outra mancha verde de uma mata destoante do estilo sombreado da paisagem. Posso ter a companhia de milhões de pessoas, cada um no seu quadrado, cada qual com sua solidão, todos em seu devido lugar, claro. Posso ter ainda a companhia dos aviões que transmitem barulhos a cada punhado de minutos, atrapalhando, de maneira engraçada, as pessoas que querem dar mais atenção à novela da TV.

Posso, enfim, lá no leste, saber que tudo está tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe de mim, a ponto de animar em deixar o carro financiado na garagem e, por que não, pegar um metrô, uma lotação, um bonde dos tempos de agora para ir no estádio-café-teatro-cinema-museu-livraria-sebo-espetinho-ópera-samba-rock-templo-cátedra-vinte e cinco de março-etc. Posso tudo, cara. Sei que só no leste vencerei, mano. É a terra prometida. Das oportunidades, dos negócios, local hospitaleiro com quem tem inteligência para os trampos e quase medo nenhum da correria do dia a dia.

Por mim, neste momento já estaria vivendo lá no leste, acreditando em um amanhã ‘da hora’ e promissor. Mas ainda não posso, mano. Lá no lado leste daquela grande cidade, tenho tudo e, ao mesmo tempo, nada. Afinal, ainda que embora municiado de chances para vencer e ladeado pelo sossego aconchegante do barulho da cidade grande, não tenho meu amor ao lado. A minha mina é do interior, mano! E, após breve visita no lar de alguns iguais nativos lá do leste, chegou a hora de voltar para os braços dela e continuar com a ladainha de sempre: insistindo para ela me acompanhar em uma viagem sem volta para o lado lesta lá da cidade grande.

*Crônica publicada domingo (22 de julho de 2012) no caderno D+, do Diário de Maringá.

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Crônica de uma viagem via SMS

Tem TV e tudo aqui dentro do ônibus. O troço parece ser chique. O cara do meu lado quer puxar conversa, disse que faz tempo que não anda de “jardineira” e disse também que já tomou uma. Vou abrir logo meu livro. Mas, pensando bem, não seria nada ruim se o busão fosse open bar. As viagens seriam mais agradáveis.
Primeira parada. Dormi o caminho todo até agora, umas três horas da madruga. Acabo de comer um pedaço de pizza e de tomar uma lata de coca-cola. As férias, finalmente, estão começando! Bjos, boa noite!
A pizza é boa. R$ 5,50 o pedaço. Margherita. Pau a pau com as pizzas de Maringá. Perde pra pizza do Casarão. Mas destrói aquela pizinha que pedimos esses dias na, na… como se chama a pizzaria? Donk Kong? Pizza Tudo?
Entramos no busão. Faltou um doce pra completar a refeição madrugadeira. Tenho bis chocolate branco, mas deu preguiça de pegar na mochila e medo de sentir sede depois. Olhei para trás mas não achei o compartimento contendo copinhos de água mineral.
Tudo volta a ficar escuro. O vidro do busão fica sempre embaçado. O tio do meu lado as vezes mete a mão no vidro na tentativa de desembaçar, e assim também desrespeita o meu espaço. A janela é minha, porra! Mas isso foi só no começo da viagem, antes de começar a roncar, e alto!
Todos estávamos com medo desse frio que chegou! Mas, pela primeira vez viajando de busão, o motorista ajustou bem o ar-condicionado. Minha jaqueta grossa começa a incomodar.
Após essa primeira parada, perco o sono. Olho pra fora. Só vejo a cor preta de uma noite escura. Bem lá no fundo, acabo flagrando a lua minguante.
A melhor compra feita nos últimos anos foi um Ipod da Apple lá no Shopping China, no Salto Del Guairá (Paraguai). Paguei 350 pila e tá durando bem. A bateria também é guerreira e me acompanha a viagem toda. Antes disso, já comprei uns sete aparelhos tocadores de mp3 falsos. Todos não duraram mais do que seis meses. Baixei uns sons novos, agradáveis, ótima companhia.
Só perde pro mini game do japa que está no banco da minha frente. Duas telas e resolução perfeita! Ele joga Sonic, empolgado, e eu aqui, no meu celular capenga, destruindo sua noite de sono.
Você não responde porque são quatro da manhã e não ouve o toque das mensagens em sono profundo ou aconteceu alguma coisa? Dá só um sinal de vida.
Agora, com insônia, sinto vontade de me embrenhar novamente nas aventuras de Espártaco pai e Lamartine filho naquele ótimo livro emprestado por meu editor (“Que Pensam Vocês Que Eles Fez”, Carlos Sussekind, 1994, Companhia das Letras). Mas tá tão escuro dentro do busão, e a ótima luz branca oferecida em meu assento poderia atrapalhar o sono dos justos em plena quatro da matina. Se bem que hoje é sábado!
Ao som de Romulo Fróes, vou tentar tirar um cochilo. Mas a pizza tá me dando uma queimação no estômago! Não sou mais o mesmo. No auge dos meus quase trinta, já não tenho mais aquele invejável estômago de avestruz de outrora. Paciência.
Daqui poucas horas vou pegar um metrô no terminal rodoviário da Barra Funda, em SP, sentido Zona Leste. Descerei na Vila Matilde. Minha irmã me esperará lá. E rapidamente o rio da memória me faz lembrar de episódios de minha infância mais ou menos feliz…
Quase todas as noites dos dias de semana íamos, eu e meu pai, esperar minha mãe chegar do seu serviço no metrô da Vila Matilde. Ela dava aulas de corte e costura em uma escola técnica na Vila Mariana. Entrava três da tarde e só saía dez da noite. Toda noite havia expectativa para vê-la descendo a escada rolante. Na época, não conseguia perceber, mas hoje sei: minha mãe era sempre a mulher mais bonita que descia aquelas escadas, mesmo cansada, sempre linda. Talvez por isso meu pai tenha sido sempre doentemente ciumento.
Vixe. Muitas lembranças. Pouco espaço na caixa de texto da mensagem do celular. Vou parar por aqui. Preciso da bateria do celular pra me comunicar quando chegar na cidade grande. Além do que, com Bach que invadiu meu Ipod, acho que agora fica mais fácil relaxar, pegar no sono. Boa noite. Espero que, pela manhã, quando finalmente ler minhas mensagens, possa conseguir até sorrir, mesmo estando sozinha enquanto passeio um pouco nas férias. Dorme com Deus.
Por entre prédios e pontes, um sol enorme e laranja dá bom dia a todos. São Paulo-SP, sábado, 14 de junho de 2012, 7h da manhã.

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Futebol meio calabreza meio mozarela

O poder de decisão na escolha de qual jogo assistir é algo crucificante, difícil. TV à cabo ficou barato e chegou, veja só, inclusive lá no meu barraco. A pilha do controle está boa, a mulher ao lado se entregou ao cochilo e já não pede mais pra deixar no canal que vai passar alguma série sobre médicos geniais como o House.

Afinal, o que assistir? Argentina x Colômbia na Sportv 1 ou na ESPN? A Sportv 2 está fora da jogada: compacto do jogo de vôlei do Brasil não me atrai. Na Globo, Kleber Machado se encanta com os passe do Ronaldinho Gaúcho – um craque que parece ter desistido dos dribles e da genialidade individual. Seria falta de explosão ou tesão?

Na Band lá de casa, embora seja um confesso adorador das pérolas humorísticas do filósofo da bola Neto, prefiro nem zapear por aquelas bandas porque a imagem é muito ruim. O jeito é mesclar, fazer um blend futebolístico. Assim como pedir a pizza meio calabreza meio mozarela, reparto a minha audiência entre Globo e ESPN.

E como o Juan, ex-flamengo e hoje lateral do São Paulo, joga mal! Parece que se arrependeu de sair do rubro-negro e só dá botinada no seu ex-colega de clube Leo Moura. O SPFC é um desastre. Time ruim, com técnico ruim. O único que tenta fazer alguma coisa, na base do desespero, na base da correria, é o Fernandinho. Coitado. Foi substituído pelo camisa 10 Rivaldo, que se atrasa em mais ou menos sete segundos por lance.

Recordo-me da dancinha do “Armeration” e me lembro também que domingo tem clássico Santos e Palmeiras. É que Armero joga na lateral esquerda da seleção colombiana e está dando um baile na zaga argentina – outro time mais ou menos. O Messi parece sentir raiva de vestir a camisa do seu País. Não joga nada, como sempre, na Argentina. O sonho dele, creio, era ter se naturalizado espanhol. Não deu Messi. E agora não adianta ficar declarando que quer se aposentar em um clube argentino e que Maradona é melhor que Pelé. Ele não consegue mais cair nas graças da torcida, que prefere muito mais o monstrinho Tevez, que, assim como todo o ataque argentino, individualiza demais os lances no ataque.

Mais uma quarta com rodada se vai. Sinto, como toda vez, uma predisposição flamenguista da transmissão global. Bato palmas de novo para os profissionais do esporte e do jornalismo da ESPN. Meu sogro é um sábio são-paulino das antigas que já acompanhou muito futebol. Ele aposta no Flamengo como campeão brasileiro deste ano e teme até mesmo o rebaixamento do seu clube caso a diretoria continue pensando mais no valor da multa do Carpegiani do que nos torcedores tricolores. Ah, quase ia me esquecendo: assisti aos dois golaços de Montillo pra cima do Grêmio. Verdadeiro camisa 10 aquele cara. Sorte que o escalei no Cartola. Agora é conferir os resultados dos jogos desta quinta-feira e começar o pré-jogo para o clássico de domingo. Final de semana tem mais!

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Noites esquecidas de Natal*

Vindo lá de fora, escuto o barulho do motor de um caminhão, ligado há alguns minutos. Os barulhos, não tanto quanto os cheiros, é verdade, aquecem as turbinas da minha memória. Ainda ouvindo o caminhão lá fora, impossível é não me recordar da semelhança com os sons do Terminal Rodoviário da Barra Funda, em São Paulo.

Quantas foram as vezes em que, sentindo um friozinho quase aconchegante dentro de um ônibus e olhando pela janela uma quantidade enorme de muros pichados e um céu cinza, deparei-me com o som de outros ônibus ligados, já dentro da rodoviária?

Garoava em minha cidade natal e eu descia, sozinho, talvez na plataforma 18, talvez na 17, bem ao lado da lanchonete que vendia Donuts. Míseros vinte minutos (a mesma quantidade de tempo em que o caminhão lá fora está ligado ao lado da construção) pareciam mais demorados do que os meus, na época, quase 20 anos de idade.

Mas séculos esperando compensavam a sensação de ver chegar, engravatado e perfumado, pronto para a guerra do trabalho, o meu pai vindo buscar um filho que, mesmo tendo nascido na maior cidade do Brasil, não passava de um caipira que tinha medo de se aventurar sozinho por entre metrôs, trens e ônibus na Cidade da Garoa.

Ainda ouço o caminhão lá fora. Ao contrário de São Paulo, não cai garoa neste exato instante aqui em Maringá. Às 9h da manhã, faz um calor com a mesma intensidade de quentura que fazia na rua 25 de março lotada, em pleno meio dia. Nostalgia é a palavra que melhor traduz o que eu sinto em todos os finais de ano. Um simples barulho de um motor, cheiros, garoas ou um sol de rachar me fazem viajar para trás.

Mais um Natal está aí. Em outras épocas, passei os dias de final de ano em outros lugares. Ouvi os sons do terminal rodoviário, senti a sola do tênis esquentar andando pelas galerias das ruas do centro da cidade, não comi Donuts porque não iria me cair bem às 6h da manhã, tive medo de andar de metrô sozinho e também senti o cheiro de vida que ainda restava naquele cara que me buscou um dia na rodoviária, com o intuito de passar uma virada de Natal com o filho.

Lembro-me de tanta coisa. Detalhes. Futilidades. Até da fisionomia das milhares de pessoas que aguardavam seus ônibus em uma rodoviária pouco simpática. Lembro-me das bugigangas que comprei, dos muros pichados, do cinza do céu e até do barulho do motor do ônibus ligado e pronto para seguir viagem logo depois que os passageiros acoplassem suas malas no bagageiro.

Lembro-me o quanto era doloroso o silêncio que se fazia protagonista nas tentativas de diálogo entre eu e o velho. Lembro do seu sofá-cama desconfortável e da sua mini geladeira, só com água e talvez com um pedaço de goiabada.

Recordo-me bem de tudo isso, mas simplesmente não me lembro mais da noite de Natal. Teria passado com ele? Provavelmente não. Sempre fui egoísta e a companhia de amigos, sem silêncios gritantes no diálogo, era o que eu mais queria. Mesmo assim, o Natal daquele ano se apagou da minha memória. O que será que o meu pai fez naquele dia? Dormiu antes da meia noite, assim como em anos anteriores?

O barulho do caminhão lá fora continua. E eu continuarei me recordando dos pequenos detalhes daquele final de ano, principalmente do momento em que meu pai chegou, engravatado e perfumado, naquela rodoviária velha. E continuarei não me lembrando da noite de Natal, que acabou ficando em segundo plano em minha memória seletiva.

Aliás, já nem me lembro mais do Natal do ano passado. No Natal deste ano, tentarei dormir antes da meia noite. Pode ser que eu sonhe com o velho. Pode ser que eu sonhe com o barulho do motor do ônibus ligado na rodoviária, enquanto esperava eternos vinte minutos passar.

*Crônica publicada dia 21 de dezembro de 2010 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Jogo do Brasil é um ótimo sonífero

Estou apreensivo. Pausa do Brasileirão e início de Copa do Mundo Fifa. Dá medo de não poder assistir mais a jogos com futebol de qualidade. Neste ano, tive o privilégio de acompanhar a muitos jogos memoráveis. E não somente eu, que sou santista e vivencio um dos melhores anos da história do meu clube.

Mesmo os palmeirenses, que veem o seu time sofrer uma crise interna tacanha, puderam dançar o “Armeration” na bela vitória contra o meu Santos e estão esperançosos com a vinda do Kleber, o gladiador. Os corintianos também tiveram o gostinho da vingança contra o alvinegro praiano, com direito à pescaria na comemoração e tudo. O São Paulo se reencontrou graças ao futebol decente apresentado por Fernandão e, inegavelmente, é favorito para mais uma conquista da Libertadores.

Até os torcedores do Ceará estão felizes da vida com uma campanha inédita do clube nordestino na primeira divisão do campeonato nacional. Torcedores do Botafogo, este ano, puderam gritar um grito de campeão estadual que estava entalado na garganta há muito tempo. O Grêmio fez uma das melhores campanhas do país no começo do ano, venceu o Gauchão e merecia mais do que o Vitória estar na final da Copa do Brasil.

O Coritiba, campeão paranaense, vem dando mostras de que quer porque quer retornar aonde nunca deveria ter saído: a primeira divisão. O Atlético Mineiro, tirando o defeito de se ter um técnico-empresário, o Luxa, conta com jogadores de nível de seleção, como o matador Tardelli. O Fluminense, do vitorioso Muricy e do maduro Fred, surpreendeu neste começo de campeonato.

Agora, toda esta festa do futebol brasileiro foi interrompida. De maneira muito esquisita, teremos somente a final da Copa do Brasil logo depois da final da copa do mundo e também as semifinais da Libertadores. Praticamente, outro Campeonato Brasileiro se iniciará, com times voltando de uma segunda pré-temporada – esses dias de férias podem interferir de maneira positiva e negativa aos times (confira aqui o que o seu time vai fazer nesse período).

Como disse no começo deste texto, estou apreensivo. Hoje, bem que tentei assistir a reprise do amistoso entre a Seleção Brasileira e a Tanzânia. Cochilei no meio de um ataque “fulminante” comandado por um Kaká remediado, um Luis Fabiano revoltado e um Robinho atrapalhado. Nada anormal. Acho que na final da Copa das Confederações, ano passado, entre Brasil e EUA, peguei num sono gostoso, do fim do primeiro do tempo até a metade do segundo.

Jogo de futebol desta seleção comandada pelo Dunga, para mim, é igual àqueles jogos de vôlei masculino que passam de madrugada e àqueles treinos de Fórmula 1. Ótimos soníferos. O barulho dos carros passando nas pistas, o barulho dos chiados dos tênis dos atletas de vôlei na quadra e o toque de bola sem projeção para o ataque da seleção de futebol, neste friozinho, estimulam um sono gostoso. Peguem as cobertas e ajeitem os travesseiros no sofá: a copa vai começar!

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Viaje na maionese

Feliz é o homem que viaja. Alegria deviam estar sentindo aqueles que lotaram o terminal rodoviário ontem (veja em reportagem da jornalista Rosângela Gris) e se adentraram nos grandes e confortáveis ônibus rumo a não sei onde. Poderiam estar visitando a mãe, moradora de São Paulo, que não viam desde o Natal; ou talvez a namorada, que mora em Curitiba; ou, ainda, quem sabe, simplesmente dando um pulo em Campinas ou em Ribeirão Preto para curtir o feriado prolongado.

Na reportagem, a jornalista me conta que os destinos mais procurados pelos maringaenses são justamente os quatro citados acima e que, por causa do intenso movimento de ontem, foi preciso disponibilizar mais 23 carros extras. Feliz é o homem que viaja.

Depois de uma viagem, é bem certo que a gente volta mais leve. A carteira fica mais leve também, é verdade, o dinheiro some, o cartão de crédito estoura, mas, na realidade, pouco importa para nós. O que a gente quer mesmo é viajar, distrair a cabeça, esquecer o trampo, a faculdade, a rotina, desligar-se.

Em feriados prolongados, o pessoal acessa menos a internet, confere menos as caixas de email, liga menos a TV, ouve menos a rádio que só toca notícia e aproveita para curtir as pessoas que estão ao seu redor, seja viajando ou não.

Mas se você está na mesma situação que este pobre cronista, que só queria (não pode porque tem de trabalhar amanhã) poder pegar um busão daqueles na rodoviária e chegar na grande São Paulo, dar um abraço na sobrinha, na irmã, no cunhado, nos amigos, nos tios e curtir a vida numa boa, pelo menos tente viajar no lugar em que estiver. Viaje na maionese mesmo!

Explico: em vez de ficar a tarde toda se preocupando com o dia de amanhã, com a poeira da casa ou com as contas espalhadas em cima da mesa, aproveite este feriado e olhe com mais atenção as flores do seu jardim, visite o parquinho do seu prédio só para ver o sorriso sincero das crianças, caminhe no bosque sem se esquecer de dar aquela respirada forte para sentir o cheiro do mato, pegue aquela máquina digital e fotografe qualquer coisa, pode ser o seu pé, surpreenda seu parceiro ou parceira e, em vez de esperar que ela (e) faça a comida, chegue com uma caixinha de comida chinesa, coloque aquele filme asiático no dvd e tente aprender a respeitar culturas diferentes etc.

Enfim. Sei lá. Viaje aí na maionese do jeito que achar melhor, só não se esqueça do quanto é importante para nós sabermos aproveitar o nosso tempo de maneira prazerosa e feliz. A vida passa rápido demais. E feliz é o homem que viaja.

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Se os Meninos da Vila dançam, os adversários dançam

Finalmente, o nosso Brasileirão já começou. Estava cansado da paradeira e mesmice dos fracos campeonatos estaduais, em que, como sempre, os primeiros sempre serão os primeiros. Mas, infelizmente, teremos apenas sete rodadas até que a Copa do Mundo da África do Sul se inicie e, então, as rodadas do campeonato nacional sejam paralisadas.

Os corintianos, com duas vitórias em dois jogos no Brasileirão, tentam fingir que estão felizes com a liderança, quando, na verdade, estão aborrecidos até os dentes com mais uma desclassificação na Libertadores da América. Nem um possível título nacional em 2010 trará de volta qualquer brilhantismo na comemoração do centenário do Corinthians.

O São Paulo, como acontece nos últimos cinco anos, é um time fingidor. Quer enganar a todos, com seu ar blasé em campo, reafirmando a premissa de que não dá a mínima para o campeonato nacional e que o que realmente importa é mais uma conquista sul-americana pela Libertadores.

Não sei até quando os são-paulinos vão continuar com essa mentira – a de não jogar nada e, mesmo assim, seguir vencendo seus jogos pelo torneio internacional. Quando finalmente a justiça se valer em campo, o São Paulo será eliminado da Libertadores e finalmente estará entre os favoritos do Brasileirão, mesmo continuando sem jogar muito futebol.

Não gostaria de comentar sobre a Sociedade Esportiva Palmeiras, clube vencedor num passado bem distante. É que tenho muitos amigos palmeirenses e sei o grau de fanatismo doente deles a ponto de não admitir que, nos últimos nove ou dez anos, o Palmeiras se mostra medíocre em campo e extra-campo, forçando o rebaixamento, a ausência de títulos, incapacidade de formação de elenco e, consequentemente, de caixa. Vamos torcer para que o Verdão não seja rebaixado novamente. O Marcão não merece isso.

Sobre o glorioso Santos Futebol Clube, não há muito o quê se dizer. Assistir é bem mais prazeroso do que ler quando estamos falando de futebol bonito. É preciso garra e seriedade contra o Grêmio na semifinal da Copa do Brasil, nesta quarta-feira! Mas, enquanto o jogo mais importante do ano não chega, os Meninos da Vila podem dançar. E se eles dançam, os adversários dançam!

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