segunda-feira



Noite do casal

Por Wilame Prado

Prédio um tanto antigo, daqueles de cômodos maiores, zona 3 de Maringá, Rua Neo Alves Martins, lua cheia, leve chuva fina. O casal é casal pelo que se pode ver na visão dos dois na janela do alto do quarto andar. Faz alguns minutos, parecem preparar algo na cozinha. Um risoto suculento? Um rápido strogonoff? Alguma massa saborosa, quem sabe acompanhada de um bom tinto?

O casal se faz casal. Os dois se beijam, ficam abraçados, se mexem, se tocam, se dispõem ao contato físico e amoroso. Já passa das onze da noite e apostam na gastronomia, em plena segunda-feira. Mas é que é tão bela a lua cheia! Mesmo em fevereiro, o calor deu trégua, pelo menos à noite, e uns ventos batem obrigando-os a recorrer a um lençol fino, no sofá, após o vinho e a comida, juntinhos, assistindo a mais uma tola tela que se diz quente, não importa o filme, o importante é a companhia.

Recém-casados? Ou uma recém-formada em Farmácia – que ainda conta com mesada dos pais – recebendo a visita do namorado em plena segunda-feira simplesmente pelo fato de terem quase morrido de saudades após menos de 24 horas longe um do outro?

Tinham passado o domingo inteiro juntos, shopping, cinema, sorvete, champanhe e motel. Mas nada disso importa mais. O importante é que ela finalmente conseguiu o ponto certo do macarrão – al dente – e ele trouxe aquele vinho maravilhoso.

E ela pensa: deixe as 7h15 só para a manhã de amanhã, para depois o retrabalho levado para casa, para outra segunda a faxina do apê e para outra noite aquela boa pesquisa na internet em busca de uma pós-graduação decente.

E ele reflete: nesta noite, nada de academia, treino de Muay thai, programas na TV de discussões tolas sobre a última rodada do campeonato, futebol society com a turma de colegas do tio, pôquer com os amigos, Pro Evolution Soccer no videogame dos primos, cachorro-quente prensado na Colombo, conversa com pais e avós todos sentados em cadeiras de área ou, não menos importante, aulas chatas de Cálculo II na universidade.

O clima está gostoso, a lua está no céu e, ainda que recatada, ela até que gosta de se ver assediada por ele, que nem quer esperar o jantar para levantar a blusinha dela, na janela da cozinha mesmo, do alto do quarto andar, enquanto gente na sacada dos prédios ao redor vê tudo isso. E de tudo isso, nada importa. Afinal, acho que eles se amam.

Naquela noite choveu uma leve chuva fina em Maringá. E o casal de namorados nem imaginava, mas, por entre o fino lençol, no sofá da sala, sem nem perceber que o filme já tinha acabado, estavam os dois gerando aquele que seria o primeiro filho de uma linda família.

*Conto publicado nesta terça-feira (25) na coluna Crônico, do caderno Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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