Seleção Brasileira



Germanizar, jamais

Por Wilame Prado

O futebol continua nos dando lições, veja só. A Alemanha, seleção de futebol que mais viveu intensamente a Copa do Mundo, sagrou-se tetracampeã mundial em solos brasileiros. Os baianos das redondezas de Santa Cruz de Cabrália, que adoraram a presença dos alemães durante o torneio, devem ter comemorado esse título tal qual um hexacampeonato do Brasil, projeto brecado após uma derrota acachapante nas semifinais justamente para eles, os germanos, e cujo resultado não preciso ficar aqui repetindo, não é mesmo?

A Alemanha demonstrou que é possível vencer sorrindo fora de campo e sério pisando no gramado, simples assim. Não precisamos fazer cara feia, chorar para mamar, tentar ludibriar, entrar para quebrar. Basta jogar. Em dias de folga, por exemplo, dois dos grandes atletas da seleção alemã – Neuer e Schweinsteiger – se deixavam ser flagrados nas areias das praias baianas, aprendendo danças típicas, dando autógrafos, curtindo, por que não, um turismo no País. Dentro de campo, não perderam o foco um minuto sequer das partidas que disputaram do mundial.

Os alemães se abrasileiraram e, sem dúvida, se aproveitaram disso também dentro de campo: jogaram como se estivessem em casa. Lukas Podolski, a partir de agora, será nome lembrado em cartórios daqui. Mario Götze fez o gol mais brasileiro na história da Alemanha de todos os tempos: habilidade de Neymar, matando a redonda no peito no tempo certo, e precisão de Pelé, enfiando a bola para a rede argentina. Gostaram tanto do País, esses alemães, que se recusaram a entregar a Copa do Mundo dentro de nossa casa para o nosso maior rival no futebol. Somos eternamente gratos, portanto.

Além de toda essa simpatia que foi capaz inclusive de quebrar o paradigma reinante – o de que alemão é antipático –, muitos agora aproveitam a conquista do título da Alemanha para sugerir à Seleção Brasileira um possível jeito de se voltar a jogar bola de maneira convincente. Erramos nessa tentativa, a meu ver. Tudo bem: elogiemos, sim, o comportamento deles fora de campo e aplaudamos, e muito, o comportamento tático dos capitaneados pelo polivalente Philipp Lahm. Reconheçamos que a frieza, a obediência tática e a determinação da Alemanha em campo resultaram na conquista do título mais importante para o futebol. Ressaltemos também que é muito melhor ter um time de bons jogadores do que ter um apanhado de jogadores medianos com uma estrela brilhante solitária. Agora, germanizar o futebol brasileiro e suas marcantes características, aí acho demais.

Precisamos de um bom técnico e de um bom time. Precisamos de mais atenção dentro de campo e mais estudo sobre os adversários fora de campo. Mas não precisamos deixar de chorar e sentir menos as coisas do nosso Brasil, assim como muitos sugeriram após o aperto passado na vitória, nos pênaltis, contra o Chile, nas oitavas de final da Copa do Mundo. Não podemos só ter isso, mas temos de respeitar e ver a importância de talentos individuais, porque um talento individual brasileiro – essas coisas de Neymar, Ronaldo, Rivaldo, Romário, Zico, Pelé e Garrincha – vale mais que mil palavras, é coisa que o dinheiro não compra.

Não somos imbatíveis, e isso, aos poucos, o País onde nasceu e vive o rei do futebol vai entendendo. Mas temos um futebol diferente, difícil de explicar. É aquela velha história envolvendo quem é esforçado e quem é talentoso nato. O talento, para nós, é natural. Precisamos é nos esforçar um pouco mais, aceitar algumas reciclagens, ter um pouco mais de humildade para também aprender e admirar outros “futebóis”, e não apenas ficar esperando a admiração alheia por nossa genialidade, fintas, golaços, impossibilidades que só são possíveis dentro de campo com a bola nos pés brasileiros.

Se tudo isso acontecer, meu amigo, aí sim será “Rumo ao Hexa”, tudo voltará ao normal, o Brasil voltará a jogar futebol para alemão ver e, finalmente, poderemos ter o mínimo de chances de ganharmos novamente uma Copa do Mundo, lá na Rússia, em 2018.

Ademais, Olimpíada Rio 2016 está logo aí também.

*Crônica publicada nesta terça-feira (15) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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O meu amigo Barba

Por Wilame Prado

Vi um cara parecido com o Barba. Será que o Barba entraria assim naquele bar? Será que ele paqueraria a moça bonita das pernas magrelas, sentada a quatro mesas, 23 cadeiras e aproximadamente três metros de distância de mim? Será que teria comemorado os dois gols do Neymar, um de Oscar, tacando cerveja pra cima, tal qual certamente fez o cidadão levemente alcoolizado, com camisa amarela falsa do Brasil, boné descaindo pelas orelhas, horroroso, na mesa 43, a mesma mesa que já pediu mais de doze vezes novas garrafas de cerveja, uma porção de batata frita com muito queijo e bacon jogados por cima e ainda algumas rosetas de sal e limão porque as duas moças gostam de misturar a bebida levemente salgada e azeda com goles generosos de bebida alcoólica enquanto não entendem muito bem porque houve tão rapidamente um gol contra do Marcelo, e também porque se deve colocar a bola na marca branca próxima ao gol quando alguém do Brasil cai na grande área?

Pego-me a imaginar o Barba dentro daquele bar que mais se parece uma jaula suja, lotada de animais que precisam de cerveja como uma espécie de água e comida vitais para as energias juvenis de gente que só quer ter a coragem de olhar por mais de três segundos para os olhos amendoados da menina que revela tristeza até mesmo quando sorri, ou então a ousadia de tecer comentários com começo, meio e fim para a roda de amigos, sempre com uma pitada de humor, sempre com uma pitada de sensualidade no ato de revelar os contos cotidianos da vida regados a mais mentiras ou superlativos do que a verdade propriamente dita.

Barba perceberia que a loira que chegou com o cara da corneta gosta mesmo é do amigo do cara da corneta – tamanho foi o beijo tascado no rosto desse amigo, beijo que quase chegou na boca do amigo, beijo que revela segredos, intimidades, vontades e desejos da loira acompanhada do cara da corneta? Estaria ele incomodado com tanto barulho, irritações, braços que se tocam, gente que se empurra, banheiros sujos, vômito, urina e fezes, calor e frio, carros que sobem a avenida, motocicletas que aceleram de propósito na avenida e que, pela execução de seus devidos motociclistas, produzem sons que se assemelham ao estourar de rojões (comemoremos, é o Brasil ganhando jogo de copa do mundo!)?

Gostaria de saber onde estava o Barba no exato momento em que, após uma abertura muito criticada e chata (valeu ver apenas o rebolado da Jennifer Lopez e a sua beleza que chega a nos agredir fisicamente), finalmente a bola começou a rolar numa das copas mais aguardadas de toda a minha vida. Estaria em Maringá, no Jardim Alvorada de Santa Fé, em Londres, Nova York, Pantanal ou mesmo lá dentro da Arena Corinthians, vaiando a Dilma ou torcendo para que aqueles rapidíssimos 90 minutos não se esgotassem jamais, tamanha é a festa, tamanha é a alegria representada pelo futebol, tamanha é a emoção de viver, estar vivo e ter alguns dinheiros a mais a ponto de poder sim, o próprio Barba, hoje estar vendo com os próprios olhos da cara, sem filtros, sem televisões, sem replays, sem a voz do Galvão Bueno, o primeiro jogo da seleção em plena Copa do Mundo Fifa – Brasil 2014.

Lembro-me da última vez em que vi o Barba. Ele estava daquele jeito de sempre, lento caminhar, olhar distante, mão no ombro da mãe, bengala na outra mão, dando passos nas calçadas daquela pequena cidade como forma de exercício fisioterápico para, a conta-gotas, ir recuperando os movimentos da perna, perdidos após um trágico e besta acidente de moto. Se não fosse uma imensa placa que o impediu de continuar acelerando a sua moto, e que, por pouco, não gerou uma tragédia ainda maior para toda a sua família, Barba poderia estar aqui neste bar, comemorando feito idiota, assim como eu, mais uma “vitória” da Seleção Brasileira. Poderia, quem sabe, até chutar um placar para o próximo jogo, para o próximo espetáculo de circo, para a próxima palhaçada, cujos atores em cima do palco estariam uns vestidos com o amarelo do Brasil e outros vestidos com o verde do México. Viva o futebol. Viva o bar. Viva a cerveja, a festa e viva as pessoas que podem usufruir disso tudo sem precisar escorar numa bengala e no ombro de uma forte e guerreira mãe, assim como o meu amigo Barba precisa.

*Crônica publicada nesta terça-feira (17) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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O gigante veste a amarelinha

Por Wilame Prado

Antes de tudo, devo relembrar aos leitores que futebol é diversão e arte. Aquele velho e bom entretenimento que nos faz esquecer um pouco das agruras da nossa vidinha mais ou menos. Eis que estava, então, deixando-me distrair com mais um espetáculo futebolístico por esses dias. E não foi qualquer sonífero Palmeiras x Asa não; não foi um sem graça Atlético Paranaense x J. Malucelli; não se tratava de mais uma rodada morna de um campeonato francês, por exemplo. Estava me ocupando com arte de qualidade, algo como desligar os ouvidos para o som das ruas maringaenses que exalam sertanejo universitário e prestar atenção no que Django fazia com o violão ou descobrindo que “Antes que Tu Conte Outra”, último álbum do Apanhador Só, é contundente e aprazivelmente experimentalista. Enfim: recordo-me bem que estava me deleitando com uma final da Copa das Confederações entre Brasil x Espanha.

Antes de o espetáculo começar, os cartazes informaram que se tratava do jogo mais aguardado por toda uma nação, um verdadeiro clássico tardio do futebol mundial, já que os brasileiros, desde sempre, são considerados os melhores e os espanhóis haviam descoberto nos jogos de videogame uma tática de toque de bola rápido e que vinha enganando seus adversários há meia década, fato que incrivelmente resultou na conquista de alguns bons torneios pelo mundão afora. Enfim, a sinopse do show de bola dizia que teríamos uma guerra épica entre a equipe vestida de amarelo contra os mocinhos de vermelho. Conversa para lotar Maracanã.

Para os que não puderam ver a performance artística no gramado verde – seja na arquibancada pagando doze pilas numa lata de cerveja ou no sofá de casa pagando pouco mais de doze pilas em uma caixinha de lata de cerveja –, venho em nobre missão remissiva contar os pormenores daquilo que vi, além, é claro, de apontar alguns posicionamentos críticos sobre o espetáculo em tela. A começar: se, claramente, só o Brasil jogou, penso que deveríamos devolver o dinheiro aos torcedores espanhóis enganados, que se calaram na vã esperança de ver o seu time de salão jogar bola. O tique-taque do relógio catalão pifou e se esqueceram de contar para a turma da Paella que, em terra de caipirinhas “fredianas” e de samba dos desafinados da bola – vide Dante, Marcelo e Lucas, a ousadia e a alegria de uma família orquestrada pelo gaúcho de bigode costuma resultar em massacres futebolísticos.

O Brasil venceu na habilidade, na vontade e no gingado; no movimento antropofágico a la Neymar com todo seu repertório de dribles jamais ousados por Messi – o espanhol que faltou naquele time de piás de apartamento que aprenderam a jogar bola no Playstation; com um Fred, o mais avante central dos jogadores no ataque, escrevendo livreto de instruções de goleador com a máxima em epígrafe: “não existe gol feio; feio é não fazer o gol”, de MARAVILHA, Dadá; com trilha sonora de 70 mil vocalistas maracanãenses, iniciada com a canja no Hino Nacional, passando pelos refrãos “O campeão voltou” e “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” e finalizando com o humilhante “Olé” em plenos quatro minutos da etapa final da partida.

Após partida retumbante no sentido de finalizar uma falsa fase de brilhantismo futebolístico espanhol, a “fúria” de atletas senso comum, como Piqué e Arbeloa (considerados desaparecidos após massacre e não comparecimento à entrega de medalhas), transforma-se em moderação. Fica na lembrança dos ex-furiosos apenas a memória afetiva de um uso indevido via débito em conta de algumas mulheres brasileiras curiosas e a trabalho. Para a Espanha em crise, voltam os contidos espanhóis de avião para não ter perigo de alguém do elenco resolver amenizar a vergonha e amainar o ardor nas bochechas jogando-se do navio em alto-mar. Enquanto isso, por aqui, nas ruas, estão dizendo que o gigante estava acordando. Se isto for mesmo verdade, é quase certo que despertou de um sono profundo para, entre uma manifestação ou outra, ligar a TV ou ir aos estádios para ver um outro gigante vestido com a amarelinha reconquistando o topo – lugar de onde jamais deveria ter saído.

*Crônica publicada nesta terça-feira (2) na coluna Crônico, no Diário de Maringá.

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Mais uma partida do ‘Selê-Santos’ é adiada

Atendendo ao pedido do Santos FC, a CBF adiou a partida entre o Peixe e o Botafogo, pela 21ª rodada do Campeonato Brasileiro. Anteriormente previsto para o domingo, 4 de setembro, o confronto ainda terá a nova data divulgada pela CBF.

O adiamento foi concedido devido à convocação dos atletas santistas Neymar, PH Ganso e Danilo para compor a Seleção Brasileira, que enfrentará Gana na segunda-feira (05), em Londres. (informações do site oficial do Santos FC).

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O prazer de se assistir futebol voltou

Em se tratando de futebol, finalmente as coisas voltam a ficar legais. Campeonato Brasileiro acirrado, clássicos que dão mais emoção do que os chatos jogos da Copa do Mundo e, para surpresa de muitos, o convite aceito por Mano Menezes para comandar a Seleção Brasileira. Agora, a cereja do bolo: a primeira convocação do gaúcho, que, graças ao seu ótimo desempenho como técnico, fez com que o Corinthians, mesmo com um elenco limitado, vencesse alguns campeonatos nos últimos anos.

E que escalação, amigo! Rapaz, o homem, o gaúcho, o Mano, escalou uma galera que sabe e, ainda, gosta de jogar bola. Tirando o Neymar, que, na minha opinião, ainda não merecia vestir a amarelinha, os demais jogadores demonstram  apetite quando estão no gramado e, oxalá, podem sim representar muito bem a nação brasileira.

De Lucas para Hernanes, que toca para Ganso, que, de primeira, enfia um passe de gaveta para Robinho, que, com maestria, pedala algumas vezes, finta o adversário e clareia para Diego Tardelli, que, com todo o seu faro de gol, estufa a rede do adversário. Estou até vendo!

Desejo toda a sorte do mundo para quem ainda sente prazer no ato de jogar futebol e, pelo menos nos 180 minutos, esquece a quantidade de dinheiro que está entrando em sua conta bancária naquele momento.

Desejo também serenidade para Mano Menezes na hora de aplicar suas estratégias futebolísticas e, principalmente, muita paciência para lidar com as agruras, desejos obscuros e mandados obscenos que, com certeza, partirão lá de cima, mais precisamente da sala luxuosa do presidente da CBF, o Godfather Ricardo Teixeira.

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Sai Dunga, entra Ganso*

Mesmo tendo descendência espanhola, torci pelo Paraguai feito louco, no jogo que aconteceu sábado em que a Espanha venceu na marra os hermanos moradores logo ao lado. Estive em Salto Del Guairá semana passada. E pude presenciar o quanto os paraguaios são fanáticos por futebol. Todos os carros de lá estavam enfeitados pelo patriotismo, com uma bandeira enorme pousada no vidro de trás. Sem falar nas bandeirinhas estiradas nas laterais dos carros, hábito também comum aqui no Brasil.

Muitos são os brasileiros em Salto, é verdade. De todo modo, era espantoso de ver o tanto de bandeiras também em verde e amarelo, que enfeitavam ruas e lojas. Alguns estabelecimentos faziam questão de deixar à mostra as duas bandeiras, uma do Paraguai e outra do Brasil, na fachada do lugar. Em uma loja, percebi que o uniforme dos funcionários tinha o símbolo da seleção paraguaia de um lado e, de outro, o símbolo da seleção brasileira.

Quando cheguei na sala do inspetor da Polícia Federal, havia, em uma parede, uma bandeira do Brasil e também uma bandeira do Paraguai, mas que prontamente foram arrancadas. Ele não queria deixar isso aparecer na foto. Refletindo sobre tudo isso, indago: o que a copa não faz com povos e nações, não? Guerra do Paraguai ficou no esquecimento. Ciúmes das paraguaias que paqueram brasileiros, idem.

Mas, para esses dois países, a copa já acabou. E para quem estava apostando numa copa do mundo com força total da América do Sul, hoje precisa torcer pelo último representante latino-americano, os aguerridos da seleção uruguaia. A disputa agora é de um país de terceiro mundo, com apenas três milhões de habitantes, versus três potências europeias, pelo menos no futebol, que são os holandeses, os alemães e os espanhóis.

Infelizmente, esse nosso sempre falso patriotismo aqui do Brasil se limita, na grande maioria, a abraçar causas da nação e não de um continente. Ou alguém aí viu bandeiras uruguaias dependuradas em prédios e casas? A bem da verdade, estamos pouco nos lixando para os uruguaios, assim como também rimos até perder o ar da derrota humilhante que a Argentina sofreu para a Alemanha.

A vida é assim, pelo menos aqui no Brasil. A gente vira patriota de quatro em quatro anos, reaprende a vestir o verde e amarelo e sempre acha que nossa seleção (mesmo com Felipe Melo no meio, Kaká machucado no ataque e o Dunga como técnico) pode sim vencer seleções muito melhores que a nossa.

Quando vamos aprender que o grande diferencial do futebol brasileiro é o jogo individual, é o drible, é a ofensividade, é a ousadia, é o chapéu, é a pedalada, é a finta de futsal, é a embaixadinha na beira do campo para gastar o tempo, é a tabelinha, é o entrar com bola e tudo para as redes do gol? Agora é tarde, mas, se isso serve de consolo, é certo que, na copa de 2014, aqui no Brasil, teremos a bem-vinda não participação de Dunga na delegação técnica e, pelo meio de campo, os passes geniais de Paulo Henrique Ganso, o mais novo camisa 10 da seleção brasileira.

*Crônica publicada dia 6 de julho na coluna Crônico, no caderno D+ do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Lúcio é Deus*

Na final da Copa das Confederações, não estava torcendo por nenhuma seleção. Nunca gostei de nada que viesse dos Estados Unidos, mas também não botava fé no futebol do Brasil, comandado por um técnico inexperiente. O final desta história vocês já sabem, e o meu objetivo, nesta crônica, é escrever sobre o zagueiro Lúcio e não sobre o título da seleção.

Criticado por um entre um brasileiro, o estilo de jogo do Lúcio, no mínimo desengonçado, não agrada a gregos e troianos, tampouco comedores de feijoadas e apreciadores de samba. A espinha de muitos se arrepia quando ele, num verdadeiro galope, corre rumo ao gol adversário, desafiando a lógica de que zagueiro deve defender e não atacar.

Nessas investidas repentinas ao ataque, suas passadas largas e desconexas se parecem com as de um cavalo doido. Devemos reconhecer nossa implicância com este zagueiro, que, em muitos jogos do Brasil, é verdade, nos fez temer um contra-ataque mortal do time adversário, e finalmente homenageá-lo. Pois foi ele quem salvou o Brasil na decisão do último domingo; foi ele quem chorou e recebeu abraços e até beijos de todos da delegação brasileira.

Lúcio é aquele cara que, com certeza, nem se importa tanto com a farra movida a álcool e a pandeiro dos outros jogadores. Talvez nem participe das festas particulares em mansões, em que prostitutas são convidadas para descontrair o ambiente. Ele é aquele cara que vai chegar em casa, dar um beijo na mulher e nos filhos e prontamente assistir à reprise do jogo. Vai analisar seus erros e provavelmente dar um murro na parede quando rever aquele lance em que quase deixou o jogador da seleção adversária fazer um gol. Depois da sessão replay, é quase certo que o zagueirão brasileiro vai ao quintal treinar uns carrinhos certeiros e uns chutes precisos.

Lúcio é o brasileiro-mor. É aquele que chora e ri ao mesmo tempo; aquele que não desiste nunca; aquele que liga para o tio Zé depois do título; é o pedreiro, que vai, de Maringá a Mandaguari, dentro do ônibus coletivo, comentando em voz alta os pormenores do jogo do Brasil. Lúcio é o pobre, que não desperdiça a bolsa do Prouni e se forma na faculdade como um dos melhores da turma; é o ganhador da Mega-Sena, que doa metade da fortuna para seus milhares de parentes, amigos e novos amigos.

Lúcio é o padeiro, que acorda às 3h da manhã para trabalhar; é o pequeno produtor rural, que bate palmas de felicidade quando sente que a chuva está por vir; é o proletário, que trabalha, de segunda à sábado, dez horas por dia, e, no domingo, faz um churrasquinho e ainda chama a sogra para tomar cerveja.

O presidente Lula pode até ser o cara. Mas o Lúcio, meus amigos, é Deus, que foi crucificado, ressuscitado e, hoje, com a faixa de capitão da seleção no braço, louvado por todos os brasileiros, amém.

*Crônica publicada dia 30 de junho de 2009 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Chuva de alegria com o jogo do Brasil

Segundo notícias recentes, a previsão é que a chuva vai continuar caindo em diversas áreas do Nordeste, podendo, assim, oferecer novos riscos à população. Agora, eu pergunto: para quê tanta água, meu Deus?!

Sei que o clima hoje, pelo menos por aqui, no Sul do País, mais especificamente em Maringá, é de puro alto astral em razão de mais um jogo do Brasil. Pessoas trabalhando de verde e amarelo, contando os minutos para que as duas horas da tarde chegue, período no qual grande parte dos trabalhadores será dispensada dos afazeres proletariados, para, justamente, assistir a mais um jogo da seleção brasileira, às 15h30.

É inevitável, por esses dias, não falar de copa do mundo. Mesmo assim, não podemos nos esquecer dos problemas que estão acontecendo lá em cima. Torço para que, pelo menos os gols do Brasil e uma possível vitória, possa alegrar o povo. E que, mesmo com toda a desgraça que está acontecendo lá no Nordeste, todos possam dar um jeito de assistir ao jogo de hoje e, assim, tentar amenizar a dor do sofrimento e do sentimento de perda com toda esse mar de lama.

E que, se realmente somos a melhor seleção do mundo, assim como Robinho escreveu no quadro após a última vitória conquistada contra o Chile, conquistemos mais uma vez o campeonato mundial para que todos nós possamos reunir amigos e parentes em volta de uma churrasqueira, ou de uma marmita, que seja, para conversar sobre futebol, emocionar-nos vendo o Lúcio (um cavalo, um doido, um deus) erguer mais uma taça e, pelo menos por alguns instantes, esquecermos as dores da vida e, talvez, até acreditarmos sim que amanhã será um novo dia, e possivelmente melhor.

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A minha bola de capotão

Na entrevista exclusiva concedida pelo presidente Lula ao programa Esporte Espetacular deste último domingo, ele afirmou que só conseguiu comprar uma bola quando tinha 20 anos. Recordei-me, no exato instante, do dia em que, mesmo sendo muito caro para o baixíssimo orçamento contido dentro da bolsa da minha mãe, ela me deixou levar para casa uma bola de capotão com as bandeiras dos países participantes da copa do mundo de 1994.

Compramos também, naquele felicíssimo dia de compras na 25 de março, em São Paulo, uma camiseta azul, falsificada, da Seleção Brasileira de futebol. Meu quite torcedor estava completo, naquele ano de copa. Nos intervalos dos jogos, assim como no restante do dia, eu jogava o meu futebol imaginário com aquela belíssima bola. Sempre, é claro, vestido com minha estilosa camisa azul do Brasil. Todos da minha rua tinham camisas amarelas. Eu tinha uma camisa azul. Sentia-me muito feliz por isso.

Como é bom ser moleque em ano de copa. E como é bom ganhar a copa, quando moleque. Era uma festa muito grande, uma alegria sincera, o peito lotado de emoção. Reuníamos, todos da rua, na casa do menino que tinha a maior sala e aparelho televisor. A vibração era genuína. Éramos brasileiros em campo, juntamente com o Romário, Bebeto e companhia.

Naquela final contra a Itália, na casa do meu melhor amigo, mais de 40 pessoas esperavam, ansiosos, pelo início do jogo. O maior dilema meu e do meu grande amigo, naquela tarde quente, em que os adultos se refrescavam com as bebedeiras e eu e as outras crianças nos entupíamos de coca-cola, era se ficávamos assistindo aquele jogo chato ou se voltávamos ao jogo de verdade, o nosso, o legal, o de verdadeiros craques imaginários, e, claro, chutando minha bola nova. Se me lembro bem, acho que só prestamos atenção de verdade nos pênaltis daquela final da copa de 1994.

Não sei o por quê, mas, naquele instante, quando o Roberto Baggio perdeu sua cobrança, fiquei triste. Eu gostava daquele jogador por causa da sua trancinha marota que escorria pela nuca. Eu gostava do uniforme azul da Itália. E foi esquisito, para mim, ver minha mãe e a mãe do meu amigo apreensivas, suspirando a cada cobrança e dando pulos de alegria quando o Brasil sagrou-se tetracampeão. Logo elas, que nunca demonstraram gostar de jogo de futebol. Estranho.

Já era de noite quando me vi completamente esgotado, quase dormindo, no banco de trás do carro, voltando à realidade, voltando ao meu quintal menor, ao mundo solitário da minha casa, onde me via obrigado a fazer amizades com as paredes para poder fazer tabelinhas com elas e, assim, deixá-las menos brancas. A copa tinha acabado e, sinceramente falando, estava pouco me importando com a conquista da Seleção Brasileira.

Naquele dia, o que eu queria mesmo é fazer uma mágica para que, dali pra frente, todos os dias da minha vida fossem dias de final de copa do mundo com o Brasil jogando. Pelo menos assim, teria ao meu lado um milhão de pessoas felizes e o meu velho e bom amigo, que faria questão de chutar a minha bola de capotão, com a bandeira dos países participantes da copa, comprada na 25 de março.

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Jogo do Brasil é um ótimo sonífero

Estou apreensivo. Pausa do Brasileirão e início de Copa do Mundo Fifa. Dá medo de não poder assistir mais a jogos com futebol de qualidade. Neste ano, tive o privilégio de acompanhar a muitos jogos memoráveis. E não somente eu, que sou santista e vivencio um dos melhores anos da história do meu clube.

Mesmo os palmeirenses, que veem o seu time sofrer uma crise interna tacanha, puderam dançar o “Armeration” na bela vitória contra o meu Santos e estão esperançosos com a vinda do Kleber, o gladiador. Os corintianos também tiveram o gostinho da vingança contra o alvinegro praiano, com direito à pescaria na comemoração e tudo. O São Paulo se reencontrou graças ao futebol decente apresentado por Fernandão e, inegavelmente, é favorito para mais uma conquista da Libertadores.

Até os torcedores do Ceará estão felizes da vida com uma campanha inédita do clube nordestino na primeira divisão do campeonato nacional. Torcedores do Botafogo, este ano, puderam gritar um grito de campeão estadual que estava entalado na garganta há muito tempo. O Grêmio fez uma das melhores campanhas do país no começo do ano, venceu o Gauchão e merecia mais do que o Vitória estar na final da Copa do Brasil.

O Coritiba, campeão paranaense, vem dando mostras de que quer porque quer retornar aonde nunca deveria ter saído: a primeira divisão. O Atlético Mineiro, tirando o defeito de se ter um técnico-empresário, o Luxa, conta com jogadores de nível de seleção, como o matador Tardelli. O Fluminense, do vitorioso Muricy e do maduro Fred, surpreendeu neste começo de campeonato.

Agora, toda esta festa do futebol brasileiro foi interrompida. De maneira muito esquisita, teremos somente a final da Copa do Brasil logo depois da final da copa do mundo e também as semifinais da Libertadores. Praticamente, outro Campeonato Brasileiro se iniciará, com times voltando de uma segunda pré-temporada – esses dias de férias podem interferir de maneira positiva e negativa aos times (confira aqui o que o seu time vai fazer nesse período).

Como disse no começo deste texto, estou apreensivo. Hoje, bem que tentei assistir a reprise do amistoso entre a Seleção Brasileira e a Tanzânia. Cochilei no meio de um ataque “fulminante” comandado por um Kaká remediado, um Luis Fabiano revoltado e um Robinho atrapalhado. Nada anormal. Acho que na final da Copa das Confederações, ano passado, entre Brasil e EUA, peguei num sono gostoso, do fim do primeiro do tempo até a metade do segundo.

Jogo de futebol desta seleção comandada pelo Dunga, para mim, é igual àqueles jogos de vôlei masculino que passam de madrugada e àqueles treinos de Fórmula 1. Ótimos soníferos. O barulho dos carros passando nas pistas, o barulho dos chiados dos tênis dos atletas de vôlei na quadra e o toque de bola sem projeção para o ataque da seleção de futebol, neste friozinho, estimulam um sono gostoso. Peguem as cobertas e ajeitem os travesseiros no sofá: a copa vai começar!

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