Sesc Maringá



Semana cheia no Sesc

O escritor, diretor e ator Lauande Aires é João Miolo, um operário da construção civil e brincante de bumba-meu-boi em "Miolo da Estória" (Foto de Ayrton Valle)

O escritor, diretor e ator Lauande Aires é João Miolo, um operário da construção civil e brincante de bumba-meu-boi em “Miolo da Estória” (Foto de Ayrton Valle)

Por Wilame Prado

Parece propaganda manjada de televisão, mas não é: comemora-se amanhã o Dia do Comerciário e quem ganha é o maringaense. Isso porque uma programação especial visando formação de plateia e aproximação de linguagens diferenciadas foi definida pelo Sesc e resultou em uma semana cheia de boas atrações culturais na cidade, a chamada Semana do Comércio em Movimento.

“Neste projeto, estão inseridas atividades artísticas com apresentações musicais e de teatro sempre gratuitas. Buscamos ampliar assim o nível cultural e de formação do indivíduo”, diz Bárbara Di Gennaro, técnica de Atividades do Sesc.

Tudo começou ontem, com obras clássicas de Edino Krieger compondo o concerto apresentado pelo Duo Cancionâncias.

Quem perdeu, tem a chance de se encontrar com a boa música hoje novamente. O cancioneiro do compositor – e biólogo – brasileiro falecido este ano Paulo Vanzolini, autor de famosas canções como “Ronda” e “Na Boca da Noite”, será interpretado pelo músico e médico maringaense Celso Barretto, da banda A Válvula.

Com voz e violão, Barretto faz show ao lado de Geraldinho do Cavaco, Paulo na percussão e José Domingos no pandeiro, além de contar com a voz de Najara Nogueira em participação especial.

Amanhã é dia de teatro. Também pela programação da Semana do Comércio em Movimento, o espetáculo “Miolo da Estória”, da Santa Ignorância Cia. de Artes (São Luís-MA), será apresentado no Teatro Barracão após ter sido atração do Festival Palco Giratório no mês de agosto em Curitiba, e ter percorrido por outras cidades paranaenses.

O escritor, diretor e ator Lauande Aires estrela o solo com base em leitura, observação e depoimentos de brincantes e conta a história de João Miolo, um operário da construção civil e brincante de bumba-meu-boi que vive dilemas sobre a fé e relações sociais.

Em entrevista por telefone, ele diz que estreou o espetáculo em 2010 com o objetivo de refletir e se fazer refletir sobre esses dois mundos conflitantes de seu personagem: o mundo do operário e o mundo do brincante.

“Como esse homem se sente nesses dois mundos? Como o operário se sente no mundo do brincante? Como o brincante se sente no mundo do operário?”, indaga ele. A história revela o drama de João Miolo quando, não sendo aceito como cantador no boi, decide não sair na boiada daquele ano e, revoltado, acaba se machucando ao ir bêbado para o trabalho. Com isso, precisa rever sua fé ao pedir votos para o santo temendo o pior: perder uma perna.

“Mesmo tendo estreado em 2010, toda a inspiração para fazer o texto se deu dez anos antes, quando vi um brincante pagando uma promessa, em uma festa de São Pedro, subindo e descendo escadarias com o boizinho nas costas”, diz Lauande, que apresenta “Miolo da Estória” contando com o trabalho de um iluminador, um operador de palco e um operador de sonoplastia.

Vencedor do Prêmio Myriam Muniz concedido pelo Ministério da Cultura, o espetáculo circulou por toda a região Norte em 2011.

Na quinta-feira, a música volta a ser destaque da semana com o show da cantora paulistana Keila Abeid e Quarteto no Sesc. Ela lança o álbum “Muito Prazer”, que vai do samba e da bossa ao ijexá e baladas. Também no Sesc, na sexta, a semana cultural se encerra com o espetáculo “As Espertezas de Arlequim”, do grupo Arte da Comédia (Curitiba). A peça, inspirada na Commedia dell´Arte, não tem falas e os atores improvisam realizando jogos cênicos a todo momento.

*Reportagem publicada nesta terça-feira (29) no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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Escritor Rodrigo Lacerda faz bate-papo hoje em Maringá

Escritor Rodrigo Lacerda, ano passado, em bate-papo com Luis Henrique Pellanda no Paiol Literário, em Curitiba (Foto de Matheus Dias)

Por Wilame Prado

Com o bate-papo do escritor carioca radicado em São Paulo Rodrigo Lacerda, 44 anos, marcado para hoje, às 20h, o Sesc encerra o ciclo com escritores convidados do projeto Autores & Ideias. Próximos encontros acontecerão só no ano que vem. Além de Lacerda, este ano vieram à cidade falar sobre literatura o cronista e biógrafo Humberto Werneck e o autor de livros infantis Ilan Brenman.

Neto de Carlos Lacerda (jornalista, governador do antigo Estado da Guanabara e criador da editora Nova Fronteira morto em 1977), Rodrigo Lacerda passou toda a infância rodeada por livros e gente que trabalhava com livros na editora. Mas isso nem sempre estimula as pessoas da família a ambicionarem a carreiras das letras. “Tenho muitos primos e uma irmã que nasceram no mesmo meio familiar e cultural que eu e não deram para isso. Foram ganhar sua vida de outro jeito”, conta Lacerda, em entrevista para O Diário.

No caso dele, a timidez, o medo da morte e a dificuldade em arrumar uma namorada foram fatores mais determinantes na hora de sonhar em ser escritor do que propriamente o trabalho familiar com a editora.

No bate-papo de logo mais, cujo tema é “Um Caminho Para os Novos Leitores”, Lacerda fala sobre esses possíveis caminhos, formação de leitor de ficção e possibilidades fora da escola relacionadas à literatura. Sobre isso, carreira, cenário atual da literatura e muito mais o autor do premiado “O Mistério do Leão Rampante” (Ateliê Editorial, 156 páginas, 1995) conversou com a reportagem. Leia a entrevista:

O tema dos Autores & Ideias em que participará aqui em Maringá é “Um Caminho Para os Novos Leitores”. Que caminho é este, Rodrigo?

RODRIGO LACERDA – Acho que é o caminho da persistência, não desistir nunca é a chave. Tudo irá conspirar contra a carreira de escritor: a falta de tempo, de dinheiro, a incompreensão da crítica (na maioria das vezes), a necessidade de ter outro trabalho até se firmar (ou mesmo depois), a solidão inerente ao processo de escrita etc. Então, para vencer tudo isso, você precisa ter uma necessidade interna imensa de escrever. Na verdade, escrever não deve ser uma opção, mas uma condição.

Replico aqui as perguntas do texto de apresentação do projeto: “o que uma formação mais sólida de leitor de ficção e poesia poderia oferecer aos brasileiros adultos, não importa de que área?” “E fora da escola, que caminho os leitores podem seguir?”

O que as artes, não só a literatura, têm a oferecer é algo fundamental para todos, não só para estudantes da área. Pois diz respeito à capacidade de ver o mundo por outros olhos, de educar seus sentimentos para enxergar o outro, e isso afetará sua vida em todos os níveis, pessoal, familiar, profissional e como cidadão. Como falar de política, por exemplo, se você não enxerga o outro, se você acha que a sua razão se sobrepõe a todas as outras? Como ser um irmão melhor, um filho melhor, um marido melhor, sem treinar sua consciência para lidar com realidades paralelas?

O que pensa sobre os Autores & Ideias? Antes de Maringá, irá ter visitado quais cidades? Particularmente, curte essa aproximação com o público leitor?

Gosto muito de fazer essas viagens. É uma chance de sair do escritório e encontrar os leitores, de quebrar a solidão de que já falei. E o Paraná despontou nos últimos anos como polo literário importante, com grandes programas de apoio à leitura, com o melhor jornal literário do Brasil, o Rascunho, com pessoas que realmente estão fazendo a diferença nessa área. Então, além de um prazer, torna-se quase uma obrigação participar e, na medida do meu possível, ajudar.

Ainda sobre o tal caminho para os novos leitores, devo considerar ter sido fácil o seu caminho nas letras, já que veio de uma família cujo negócio era uma grande editora de livros?

Na verdade, ser de uma família ligada ao mundo editorial foi um elemento a mais a me aproximar da literatura, mas não sei se foi o determinante. Tenho muitos primos e uma irmã que nasceram no mesmo meio familiar e cultural que eu e não deram para isso. Foram ganhar sua vida de outro jeito. E quando publiquei meu primeiro livro, não publiquei pela editora da família. Já estava morando em São Paulo, e não no Rio de Janeiro, onde nasci, e estava justamente afastado da empresa familiar, embora continuasse trabalhando no meio editorial. Os elementos determinantes, que realmente plantaram em mim, lá pelos 13/14 anos, o desejo de ser escritor, foram: 1) a timidez e a dificuldade de arrumar uma namorada; 2) o medo de morrer e não deixar nada para trás.

E para os brasileirinhos filhos de analfabetos ou de analfabetos funcionais, cuja leitura de ficção nunca foi hábito, em casas onde o único livro encontrado muitas vezes se resume a uma Bíblia Sagrada?

Tenho um colega escritor, e amigo, Ronaldo Correia de Brito, que era exatamente essa pessoa. O filho de uma família muito humilde de camponeses, que tinha apenas a Bíblia em casa. E o escritor sobre o qual fiz minha tese de doutorado, o João Antônio, também foi eleito pela família para ler a Bíblia todas as noites, com a família a sua volta. E os dois viraram escritores maravilhosos. Convenhamos, a Bíblia, do ponto de vista literário, é um livro tão bom, tão cheio de histórias, de variações estilísticas, que é certamente um excelente começo para qualquer escritor. Se você, além da opção de ser escritor, “sofre” a condição, os parcos recursos culturais da sua família serão tanto um obstáculo quanto um estímulo.

Sinceramente falando, alguma vez já sentiu estar sendo superestimado pelo fato de ser de uma família conhecida, principalmente no meio literário?

Nunca, até porque, nunca tive tanto sucesso assim. Ganhei alguns prêmios, é verdade, mas não tenho grande adesão da crítica ao meu trabalho. Sou visto como um escritor que, na melhor das hipóteses, renova a tradição, mas não como um inventor de algo novo. Do ponto de vista do público, meu livro que mais vendeu, afora adoções em escola, vendeu por volta de 10 mil exemplares, o que não é tanto. Sendo assim, sinto-me na verdade subestimado! Eu acho que mereço muito mais! (risos)

Salvo engano, seu penúltimo livro foi publicado originalmente em 2008. “O Fazedor de Velhos” continuou ganhando reimpressões até o ano passado. Por que resolveu publicar literatura infantojuvenil?

Eu estava escrevendo outro romance, adulto, chamado “Outra Vida”, e estava tendo muita dificuldade para continuar. Tinha a impressão de que havia começado uma história que não sabia como acabar. Então resolvi fazer um livro leve, para minha filha, que tinha então 12 anos. Um livro que eu escrevesse sem pressão, sem planos, sem uma história pronta, improvisando a cada passo. Saiu o “Fazedor de Velhos”, meu livro mais bem sucedido comercialmente falando, e talvez literariamente. A decisão de escrevê-lo, portanto, tinha um caráter recreativo. Além disso, eu queria transmitir à minha filha algumas das coisas que eu pensava da vida, mas sem soar professoral, fazendo com que as emoções dela a levassem às mesmas conclusões que eu. E uma boa história é a melhor maneira de fazer isso.

“Outra Vida”, de 2009, também é romance premiado e sua última obra. Tem algo na manga? De repente, o livro sobre política e que pesquisou a história de seu avô, o Carlos Lacerda? O que pode me contar sobre sua última obra?

O que posso contar é que acabei! Entreguei na editora e dei a umas pessoas próximas para que lessem. Estou recolhendo suas impressões para depois fazer a versão definitiva. Posso dizer também que o livro deixou de ser apenas sobre o meu avô. Vi que o pai dele também era político, e os dois tios, e o avô dele. Então o livro virou algo maior, que vem do período imperial até 1954, com a história do Brasil sendo contada pelos olhos de três gerações de políticos de uma mesma família. Acho que ficou legal.

Como analisa essa sua bela biografia literária, começando bem com um “O Mistério do Leão Rampante” vencedor do Jabuti e um “Outra Vida” vencedor de prêmio na Academia Brasileira de Letras?

Como eu disse, não tenho de mim essa impressão de alguém tão bem sucedido. Vocês estão sendo generosos demais comigo. Encaro esses prêmios como incentivos para continuar a melhorar, a ampliar meus recursos literários, a expandir minha sensibilidade, a me despojar de minhas travações, e assim fazer melhor na próxima vez. Quando rendem algum dinheiro, são uma garantia de que o próximo livro poderá existir, o que é bom. Acabo de acabar o romance sobre os políticos da família e já estou pensando num livro de contos que tenho começado. Sempre estou com a cabeça no próximo livro.

O que tem feito ultimamente da vida? Pode se dedicar apenas ao ato de escrever ficção ou tem outras atividades, ainda que, de repente, envolvida com a literatura?

Já houve o tempo em que eu tinha uma relação de amor e ódio com minhas outras atividades além da literária, sobretudo com minha atividade como editor. Hoje gosto de atuar em mais de uma frente: sou escritor, tradutor e editor. Vivo do que ganho como editor, e portanto essa é minha atividade cotidiana, mais regular que a literatura, até. Trabalho na editora Zahar, onde encontrei o ambiente de trabalho ideal, cheio de amizade, transparência, respeito e admiração mútua. Custou, mas encontrei uma editora onde estou totalmente feliz. E olha que eu rodei, passando pela Nova Aguilar, Nova Fronteira, Edusp, CosacNaify e Mameluco. Em todas tive ótimas experiências, mas só na Zahar a química foi perfeita.

Na apresentação d´“O Mistério do Leão Rampante”, João Ubaldo Ribeiro disse que você chegaria onde quisesse na literatura porque tinha amor pelas palavras, um deleite em escrever. Como é a sua relação com as palavras, digo, com a leitura de palavras e com a produção de palavras. Revele ao nosso leitor, por gentileza, alguns de seus hábitos de leitura e também de produção literária.

Meus hábitos de leitura são caóticos. Por causa do trabalho na editora, leio predominantemente livros de não-ficção, de todos os tipos e sabores. E muitas vezes leio-os pela metade, pois se já não gostei devo aproveitar ao máximo meu tempo para ler os que estão na fila. Fora isso, tento ler literatura, mas acabo lendo tudo aos pedaços também, por falta de tempo. Meus livros, enquanto estão sendo escritos, passam por centenas de releituras, e mexo neles até o último minuto, o que é bastante cansativo. Quando chego no fim do dia, como tenho dupla jornada, como editor e escritor, acabo preferindo um filmezinho na TV.

Quando estreou na literatura, com muito êxito, diga-se de passagem, tinha só 26 anos. Olhando para trás, teria feito tudo exatamente igual, esperaria um pouco mais para lançar? Enfim, o que tem a dizer para os jovens que estão lotando suas pastas de arquivos de computador com contos, romances, poesias. Em Maringá há um monte deles.

Quando eu lancei o primeiro livro, minha vontade era reencarnar um Balzac ou um Jorge Amado, e sair publicando dez, vinte, trinta romances. Ter uma obra imensa, mesmo que nem tudo fosse bom. Mas fui vendo que o meu ritmo de vida e o meu nível de perfeccionismo não me encaminhava para isso, e sim para um ritmo mais lento de publicação. Se tenho algum conselho a dar é que a publicação do livro não deve ser apressada. Mas ele deve ser lido por aquelas pessoas cuja opinião são importantes para você, para que você possa aprimorá-lo. Quando esse trabalho de aperfeiçoamento estiver avançado (terminado nunca está), o livro encontrará um caminho para ser publicado.

Por falar em Maringá, já conhece a cidade ou será a primeira vez? Tenho a honra de informar, se já não sabe, que temos o atual vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2012/2013 na categoria Romance, o meu amigo Marcos Peres, também muito jovem, e temos o atual vencedor do Prêmio Jabuti na Categoria Romance, o professor e escritor Oscar Nakasato (vencedor do Prêmio Benvirá, da Saraiva com o mesmo livro), que nasceu aqui mas se radicou em Apucarana (65 quilômetros distantes).

Já ouvi muito falar de Maringá, sobretudo quando fiz a tese de doutorado, pois o João Antônio morou no Paraná, onde foi um dos editores do jornal Panorama, nos anos 70, e ele tem textos sobre Maringá. Também tenho uma grande amiga que mora perto, e acompanho sua vida. Não sabia dessa concentração de premiados por aí, mas espero poder conhecê-los.

Última de Maringá: No Paiol Literário, em 2012, afirmou: “escolhi São Paulo para morar, mas adoraria morar no Rio, em Curitiba, Londres, Paris, Berlim”. Maringá seria muito pequeno para um grande escritor como você? O que pensa sobre os eixos imaginários Rio-SP no que tange à literatura e escritores?

Na verdade, meu sonho é morar numa fazenda, ou num sítio próximo a uma cidade de porte médio. Odeio os grandes centros. Mas como preciso trabalhar para viver, e como 99% das editoras, no Brasil, estão concentradas no eixo Rio-São Paulo, estou condenado a ficar ou numa ou na outra cidade. Se a prefeitura de Maringá quiser me dar uma bolsa para eu ir morar aí, faço as malas hoje mesmo!

Para o Paiol Literário, disse que tentava seguir uma linha de João Ubaldo, com erudição e humor. Continua sendo a sua grande referência para escrever, além de Eça, Faulkner e Shakespeare? Ou, de lá para cá, descobriu outras leituras e que seriam boas recomendações para os leitores deste jornal?

Descobrir bons escritores é a coisa mais fácil do mundo. Para mim, o talento está disseminado em toda a parte. Não vejo o talento como o dom de uma casta de privilegiados a serem cultuados. Vejo o talento artístico como parte da vida cotidiana. Mas às vezes certos escritores te pegam num momento da vida em que a obra deles realmente transforma sua percepção da vida, sua visão de mundo. Não só pelo mérito literário deles, mas por um momento de vida seu. É uma conjunção cósmica, quase. E nesse plano, realmente, Eça, João Ubaldo, Shakespeare e Faulkner são, para mim, os escritores fundamentais. Eça e João Ubaldo me ensinaram a rir da minha desgraça, o Shakespeare, a lutar para sair da condição de desgraçado, e o Faulkner me ensinou que todo mundo é irresgatavelmente desgraçado, o que não resolveu meu problema mas me deu a sensação de não estar sozinho, o que já foi um adianto considerável.

No Paiol, disse também para Pellanda e plateia curitibana que, nos anos 90, “O Mistério do Leão Rampante” foi um contraponto ao realismo de Rubem Fonseca “ditador” de tendências para a literatura brasileira da época. Hoje, na sua opinião, conseguimos fazer uma análise daquilo o que se está produzindo na literatura contemporânea brasileira? Assim como há quase 20 anos, você destoa ou percebe que vem seguindo uma linha parecida?

Não devemos esquecer que, se o “Mistério…” teve esse papel, ele o teve para mim e para a meia dúzia de leitores na época, enquanto o Rubem Fonseca era lido por milhões. É importante guardar as proporções, ou eu estaria reescrevendo a história da literatura brasileira a meu favor. Acho que hoje em dia é muito mais difícil fazer um painel compreensivo da literatura brasileira, pois a variedade de vozes é imensa, não há grupos ou movimentos muito articulados, que organizem a cena. Então todas os balanços, a meu ver, tendem a ser um pouco parciais. Isso não é necessariamente mau, mas precisamos ter em mente que existe. Quanto à minha obra, cheguei à conclusão que, entre o Hitchcock e o Billy wilder, sou mais o Billy Wilder. O que quero dizer com isso? Que não sou o tipo de escritor que tem um gênero preferencial, que faz de cada livro uma variação numa linha de trabalho contínua. Para o bem ou para o mal, vejo meus livros como muito diferentes uns dos outros, e gosto de variar de “voz narrativa”, gosto de recriar tons e universos a cada livro. Talvez o verbo “gostar”não seja o ideal; não escolhi ser assim, sou assim porque não sei ser do outro jeito.

SERVIÇO – ENTRADA FRANCA

Autores & Ideias

Com o escritor Rodrigo Lacerda

Mediação do jornalista Marcelo Bulgarelli

Quando: amanhã

Onde: Sesc (Av. Duque de Caxias, 1.517, Zona 7)

Horário: 20h

Entrada franca

Informações: (44) 3262-3232

*Entrevista publicada terça-feira (13) no D+, caderno do Diário de Maringá

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“Estamos cantando o som da nossa terra” – AVEduo

Como atração da semana cultural organizada pelo Sesc em alusão ao Dia do Comerciário, comemorado nesta terça-feira (30), Maringá recebe esta noite o AVEduo Feminino – dupla musical composta pela brasileira Andréia Bernardini e pela argentina Viviana Mena e que resgata a música feita na América do Sul.

O show “Eu Sou da América do Sul”, que começa a partir das 20h no Salão Social do Sesc com entrada franca, apresenta um programa selecionado com o melhor da música popular brasileira (MPB) e da música folclórica sul-americana, homenageando grandes intérpretes e compositores de nosso continente, como: Totó la Momposina (Colômbia), Susana Baca (Peru), Violeta Parra (Chile), Mercedes Sosa (Argentina) e as cantoras brasileiras: Elis Regina, Clara Nunes e Clementina de Jesus, entre outros.

Com arranjos próprios para duas vozes, violão e percussão, o Aveduo confere a esse repertório tradicional uma sonoridade única e original.

Viviana Mena concedeu entrevista e falou sobre o projeto do duo, a importância do resgate da música popular produzida na América Latina e ainda sobre a apresentação que acontece hoje em Maringá:

WILAME PRADO – Primeiramente, por que o nome AVEduo?

VIVIANA MENA – O nome AVEduo tem vários significados: AVE como uma saudação universal, outra razão é por serem os pássaros, as aves, os “cantores” da natureza, e também são as duas primeiras letras das integrantes do duo A de Andréa e V de Viviana.

-Como as duas se conheceram? Moram onde? Qual a frequência de ensaios?

Nos conhecemos em 1998 no Conservatório de MPB de Curitiba, moramos na mesma cidade e ensaiamos sempre que pudemos.

-Até por fazerem música que caracteriza a América Latina como um todo, é frequente a apresentação do duo em outros países do continente?

Ainda não, salvo uma ou duas apresentações em Buenos Aires… esperamos que seja mais frequente no futuro próximo.

-Por que o nome “Eu Sou da América do Sul”, trecho de canção de Milton Nascimento?

Porque simboliza, entre outras coisas, a integração cultural do Brasil num panorama sul-americano hispanofalante e porque fala sobre nossa identidade cultural.

-No programa musical do show “Eu Sou da América do Sul”, grandes intérpretes e compositoras sul-americanas são lembradas. Por escolher só cantar música feita ou já cantada por mulheres, podemos dizer que há um discurso feminista ou anti-machista no Aveduo?

Não se trata de discurso feminista nem anti-machista e sim de uma valorização da figura da mulher compositora, intérprete e artistas mulheres em um universo predominantemente masculino.

-O que vão tocar em Maringá?

Uma seleção de música popular, desde MPB até música folclórica argentina e de outros países do continente.

-Já vieram a Maringá antes?

Sim, apresentamos o show “Mujeres Latinas” no SESC Maringá no mês de março, como parte da comemoração do dia da Mulher.

-Como é a apresentação do AVEduo? As duas tocam e cantam? Que instrumentos tocam?

AVEduo tem como característica os arranjos próprios para duas vozes, violão e percussão. Ambas tocamos e cantamos: Andréa toca violão e eu, percussão e bombo legüero, um típico instrumento latinoamericano.

-Por que, na sua opinião, é preciso haver projetos como o do AVEduo, que vai contra o etnocentrismo enraizado no mundo ocidental?

Porque temos que ter orgulho de nossas raízes, de nossa terra, de nossas manifestações culturais. Neste espetáculo, AVEduo canta para recordar, recordar canções de outras épocas, lembrar grandes artistas, lembrar quem nos somos, nossa identidade cultural.

-Na sua opinião, quais principais características do som latino americano?

São muitas, há inúmeros tipos de manifestações musical na América Latina… muito resumidamente poderíamos dizer que é a força e a calidez, a razão e a poesia, a autenticidade e a beleza que caracteriza nossa cultura.

-Quando lançaram pela última vez um CD? É composto com músicas próprias?

Temos um trabalho autoral com música infantil. Em 2010 lançamos o DVD “Oi, tudo bem?”, e este ano estreamos o show “AVE, Crianças!” com o segundo repertório de composições próprias dedicadas ao universo infantil. Também gravamos em 2007 e em 2010 os CDs “Cantos Sagrados” e “Cantos Sagrados II”, com músicas ritualísticas de vários povos e algumas composições nossas como parte de essa estética.

-Como é o processo de criação musical do AVEduo? Cite três canções de autoria própria e comente sobre a sonoridade e a letra da canção.

Bem, o processo de criação é variado… às vezes uma situação, uma frase, um encontro desencadeiam uma canção… Entre outras, podemos citar “Medo de ficar sozinha” um samba e “Aulinha de Inglês”, um blues do repertório infantil e “Portal 818” que é uma música para meditação.

-Mercedes Sosa e Elis Regina são grandes vozes femininas latino-americanas. Por que dedicar um concerto só para as duas?

Porque, além de serem as duas maiores vozes femininas da América Latina, são nossas maiores influências e “maestras”.

-O que falta para a valoração existente na música regionalista da América Latina ser mais reconhecida e consumida pelos próprios latino-americanos e também pelo mundo?

Mais auto-estima e menos postura de colônia, que acha que tudo o que vem de “fora” (EUA e Europa) é melhor.

-Como é o trabalho do duo com a música ritualística indígena?

Muito gratificante, é outro alcance da música, uma dimensão espiritual, plena, outro tipo de conexão.

-Como os leitores podem ouvir e conhecer melhor o trabalho do duo?

Podem assistir ao show que apresentaremos hoje no SESC Maringá e também acessar vídeos no Youtube, colocando o nome AVEduo, para ver canções das diferentes modalidades que foram gravadas.

-O que sente quando está tocando e cantando a América do Sul?

O continente sul-americano é um só, todos os povos estão unidos, irmanados por laços históricos, geográficos e culturais. Sentimos que estamos cantando o som da nossa terra.

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