Simple Twist Of Fate



terceiro sorriso

e parece até um milagre o abrir de olhos

o levantar, cambaleante, da cama

mas não é milagre

é só mais um corpo humano,

fraco e debilitado

que já pede o clássico repositor hidroeletrolítico

e vale até um sorriso, em meio a tanta confusão mental,

simplesmente pelo fato de não ter nascido na Faixa de Gaza

vale o segundo sorriso por saber que,

mesmo com tantas estripulias,

ainda está vivo, andando

e com olhos claros que brilham em frente ao espelho

o terceiro sorriso ele quase dá, sentindo o cheiro dela

que impregnou em sua pele, que se faz outra vida em forma de aroma

que lhe faz rememorar tantos sabores, tanta maciez na pele,

mas o terceiro sorriso logo se esvai, assim como a água do seu banho

indo ralo abaixo

mesmo com tantos problemas neurológicos

envolvendo uma amnésia noturna assustadora

recorda-se, em recortes, de dois corpos na praça,

no motel, no táxi e, finalmente, um adeus taxativo,

uma lágrima representando o quanto ela gosta dele

e também o quanto não o quer mais

o terceiro sorriso nunca mais existiu

mas ele se reconforta na temperatura do banho

sabendo que é difícil fazer atentados mártires

depois de trinta minutos de um bom banho quente

e pela enésima vez naquele dia,

sem sorriso, sem açúcar, com café

botou para tocar no youtube

“Simple Twist of Fate”, de Dylan

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