solidão



Astronauta americano

Por Wilame Prado

757 estão assistindo agora a live
do astronauta americano
filmando o Planeta Terra.
Tá no Youtube
Passo o link se quiser
Tem trilha sonora boa
Calma
Tipo o som do útero da mãe
Das baleias dos oceanos mais distantes
Cavernas nunca habitadas no Mediterrâneo
Pessoas compartilham opiniões no chat
Mandam good vibes para o homem que está só
E pedem informações do Espaço
Ou então dizem da onde são
Dizem hi, mandam emojis
Sorrisos, Mundo, Coração
O astronauta americano virou a câmera
E mostrou o seu lustroso capacete,
de astronauta
Uma bandeira norte-americana
Na manga da camisa
Droga: um anúncio invadiu a conexão
Universo dos gamers
Propaganda da Vivo
De internet rápida
Para simular a imensidão
Que é ser só num quarto
Brincando de interatividade
Com games que não medem
o tamanho da solidão
A live voltou
A música calma também
O astronauta americano
não está só
No Espaço
Agora, 696 pessoas estão assistindo
No chat, o Youtube pede
Wilame Prado diga alguma coisa
Prefiro não dizer (escrever) nada
Um novo anúncio invade a tela
Não existe almoço grátis
Thiago Leifert prometendo
que a Claro faz milagre na comunicação
pulei o anúncio, claro
para voltar a ficar olhando a branquidão
Tons azul embaixo das nuvens
Água céu mar
O nosso mundão
Equipamentos de uma nave sideral
Um astronauta fanfarrão
Só mais um americano que gosta de selfies
Só mais um representante da nossa geração
Passaria a vida olhando para o Planeta Terra
Para o homem que já não se assusta com a solidão
Mas e a gente, aqui na Terra?
Perdidos na multidão de sete bilhões de seres
Meio estranhos, com sorrisos amarelos,
Forçando amizades
E combatendo sempre a solidão
A gente alimentando stories no Instagram
Para provar que a vida é mesmo muito boa
Provar apenas para nós mesmos
Piscina, academia, gatos, corpos, shakes, músicas, baladas, bebidas, mulheres, cigarros, pornografia, celebridades, subcelebridades, pseudocelebridades, gente tentando virar celebridade, vida, movimento, viagem, cada canto do mundo, frio, calor, chuva, sol, lua, estrelas, beijos, gatos novamente, roupas, perfumes, eletrônicos, acessórios “recebidos”, todos querem aparecer, filhos, avós, trabalho, trânsito, Neymar em Paris, gols, golaços, boomerang, imagem em câmera lenta, layouts, filtros, aberrações, políticos, propaganda, propaganda, propaganda, e notícias, e propagandas disfarçadas de notícias, mortes, nascimentos, mais um copo de cerveja, café, hambúrgueres, uma mensagem para empreender, mulheres, mulheres, mulheres…
Tudo isso na telinha
Na bolinha da historieta
Tudo isso e tão pouco,
Somente uma tradução:
relação de humanos e aparelhos inumanos
Estamos sozinhos na multidão
Wifi não garante afagos
É apenas uma simples conexão
Com o Espaço e,
infelizmente,
com o vazio
da vida
Lá em cima,
o astronauta americano nunca mais ficou só
E preferiu
Nunca mais voltar.

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Eu hoje descobri a solidão*

Hoje eu descobri o quanto não gosto de ficar sozinho. Antigamente, sofria já com os dias sem ninguém para conversar, mas achava que a solidão era necessária para pensar melhor sobre a vida. Percebo que estou mudando. Sozinho, quase não consigo pensar. Sinto-me, cada vez mais, um ser dependente, que até questiona, mas que considera importante sim criarmos uma rotina a dois.

Hoje eu finalmente comecei a escutar o quanto o apartamento, sem você, é silencioso. Parece mentira, mas sinto falta até do, sempre questionado por mim, toc toc do salto do seu sapato. Digo que os vizinhos vão reclamar. E você sempre diz que quase não fez barulhos. É possível sentirmos saudades até mesmo dos sons desagradáveis de outrora?

Hoje eu notei, justamente por não ter tido, que modo melhor não há de ser acordado sentindo o cheiro do seu perfume, espirrado de maneira tão metódica, todos os dias, logo cedo. Sempre fico com ciúmes do seu perfume, pois, injustamente, eu tenho o prazer de senti-lo só um pouquinho pela manhã enquanto que as pessoas com quem você convive diariamente o sentem por bem mais tempo. Fico tão feliz quando dou uma passada no Paraguai e compro aquele perfume que você gosta. O seu sorriso de felicidade, ao abrir a caixinha do seu mais novo presente, é impagável.

Hoje eu percebi que posso muito bem ficar um dia inteiro sem comer. Afinal, fome nem dá quando sabemos que a única coisa que nos espera é uma mesa de jantar fria e inabitável. Vou dizer para quem que faltou sal nessa carne? Será que as paredes vão gostar de ouvir o meu comentário positivo sobre a nobre mistura de shoyo e azeite na salada? Quem tira os pratos depois? Quem lava, quem seca? Juro que, para ter sua companhia de volta na hora da refeição, matricular-me-ei em um curso de culinária e farei as melhores maravilhas gastronômicas do mundo, todos os dias, e nada com leite, porque você tem intolerância à lactose.

Hoje fiquei esperando o começo da noite para ouvir de alguém um pedido certeiro: “faz chá?”. Não. Ninguém me pediu para fazer chá, para trocar a lâmpada ou para pagar as contas pelo site do banco. De todo modo, só para não perder o costume, fiz um chá de chocolate, que esfriou em cima da mesa, troquei todas as lâmpadas de casa, mesmo não estando queimadas, e também arrumei mais contas para pagar.

Eu hoje acordei tão só, assim como canta os versos daquela canção cantada por Oswaldo Montenegro juntamente com a Zélia Duncan. E realmente fiquei achando que estava mais só do que eu merecia. Mas, me diz uma coisa: alguém aí no mundo merece algum tipo de solidão? Eu acordei só e, sempre com aquele medo dos monstros que moram debaixo da cama, preferi, como em todas as vezes que me deixam só, dormir no sofá laranja, ao som acalantado da televisão, que, mesmo nos dando programações muito ruins, serve como consolo, fazendo-nos crer que não estamos sozinhos.

Eu hoje descobri a solidão. E confesso não ter gostado da escuridão toda. Peço para que, da próxima vez, não me deixe tanto tempo sozinho. Leve-me contigo, nem que for dentro da sua mala. E, para eu dormir, profira a mim, como em todas as noites, aquelas palavras tão reconfortantes, mais ou menos assim: “dorme com Deus. Amém, você também. Amém, Jesus”.

*Crônica publicada dia 14 de setembro de 2010 na coluna Crônico, no caderno cultural D+, do jornal O Diário do Norte do PR.

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Quis não ficar triste nesse Dia dos Pais

Ontem, domingo, Dia dos Pais, como não fazia há muito tempo, trabalhei. Em uma época amarga da minha vida, tinha de trabalhar quase todos os sábados e domingos fazendo atendimento por telefone para o corpo técnico de uma operadora de telefonia.

Foram naqueles dias, quando tinha de trabalhar no domingo, voltar para a casa e ficar sozinho esperando a segunda-feira chegar, sem crédito no celular, sem telefone fixo, sem internet e sem companhia, extremamente só em um apartamento sujo, com um carpete mais que sujo, que, exatamente em uma noite de domingo, meio fria, meio quente, olhei para uma estrela e quis acreditar que, conversando com ela, poderia perfeitamente traçar uma comunicação com o meu velho e distante pai.

Acho que foi em 2006. O velho ainda não tinha morrido, mas era como se estivesse morto, já que ele, perdido nas noites sujas da grande São Paulo, quase não dava notícias suas. E como eu queria, naquela noite de domingo, dizer para o meu pai que eu odiava ficar sozinho enquanto passava o Fantástico na TV. Como eu queria convidá-lo para irmos a um bar qualquer e, como nos velhos tempos, ele pedir uma cerveja e eu, uma coca-coca bem gelada e um Suflair para mais tarde. Como eu queria vê-lo abrir a porta da sala, ir para a cozinha, cortar fatias de salame, jogar um limãozinho em cima e dizer assim: “come Jr, que tá gostoso”.

Neste último Dia dos Pais, neste último domingo, quando finalmente voltei a trabalhar em um domingo, quase não me lembrei do velho. Estava feliz por estar aprendendo coisas novas, um tipo de trabalho novo. Neste domingo, indo para o trabalho, percebi que estava quente, clima agradável, sol amigo, crianças brincando no parque, pais e filhos andando juntos, atletas jogando bola na quadra e uma Avenida Brasil absolutamente vazia.

Neste domingo, indo para o trabalho, vendo os filhos de Maringá comemorando a data festiva com os pais de Maringá, não fiquei triste, pelo menos não quis ficar triste. É que, justamente por estar trabalhando, pensei que, talvez, da onde estivesse, meu pai devia estar orgulhoso de mim, um cara indo indo trabalhar em pleno horário de jogo de domingo.

Quis não ficar triste no último Dia dos Pais porque sei que, mesmo aquelas pessoas que sempre destacaram os defeitos do meu velho, mesmo seus inimigos ou aqueles que acabaram sofrendo com algumas atitudes dele, absolutamente todos sempre disseram que uma de suas maiores virtudes era a sua plena disposição para o trabalho – podia ser sábado, domingo, feriado, na semana, qualquer dia que fosse, se tivesse trabalho, meu pai trabalhava, e isso ele fez dos 11 ou 12 anos até os 49, quando veio a falecer, curiosamente no Dia do Trabalho, em primeiro de maio de 2007.

Por isso mesmo, quis não ficar triste no Dia dos Pais, em que passei trabalhando e tentando, pelo menos nesse aspecto, seguir os passos do meu velho, sempre trabalhando. Afinal, é isso o que me resta: trabalhar e, graças a Deus, trabalhar com aquilo que realmente gosto de fazer, que é escrever. E, vez ou outra, também olhar para a estrela e tentar conversar com as pessoas que eu amo tanto, mas que insistem em viver a anos-luz de distância de mim.

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Quantos leitores tenho eu?

O meu colega jornalista, cronista e escritor Paulo Briguet, de Londrina, afirma, de quando em vez, que tem apenas sete leitores. Cá me pergunto, com pulga atrás da orelha e um tanto quanto apreensivo: imagine, então, quantos leitores há de se ter este pobre cronista que vos escreve (talvez dois, contando a minha mãe), hoje inaugurando este blog, mas que, desde janeiro de 2008, atualiza o agora de férias indeterminadas A Poltrona (www.apoltrona.blogspot.com) e que, desde o dia 18 de março de 2008, publica crônicas semanalmente para o caderno D+ do Diário do Norte do Paraná sob a alcunha de “Crônico” (www.odiariomaringa.com.br/cronico).

Para descobrir outros caríssimos leitores, sem contar os fieis amigos, conhecidos e parentes, apropriar-me-ei de uma técnica imbatível, utilizada há muito tempo pelos nossos professores. Assim como os mestres no primeiro dia de aula, começo me apresentando e peço para cada aluno, ou melhor, para cada visitante do blog, também se apresentar. Mas podem ficar tranquilos, pois, nesta brincadeira cordial, vocês não precisarão dizer o que fizeram nas férias e nem o que querem ser quando crescer. Apenas digam quem são por meio do espaço dedicado aos comentários do post. Apareçam!

Conheçam-me

E para quem ainda não me conhece, finalmente me apresento: eu me chamo Wilame Prado, tenho 24 anos, nasci em São Paulo-SP, já morei em Santa Fé-PR, há seis anos moro em Maringá-PR, já trabalhei em Mandaguari-PR, sou casado, jornalista, quero voltar a estudar História na UEM, ultimamente ando muito feliz com o fantástico futebol do Santos Futebol Clube, não tenho filhos, não plantei árvores, mas estou gerando um livro para tão logo e pretendo, com minhas atualizações diárias neste espaço, oferecer aos leitores (será que já tenho três?) crônicas, contos, artigos, textos, rascunhos, linhas, palavras, letras, assopros de ideias, tudo sobre as rotineiras canalhices da vida como ela é.

Para isso, é claro, preciso escrever sobre futebol, literatura, cinema, música, mulheres, cervejas, água mineral com gás, as nuances da nossa Maringá e região, Paraná, Brasil, mundo, mundão, mundinho, quadrinhos, desenhos, rabiscos, pichações, indústria cultural, jornalismo canalha, jornalismo decente, fotografia, crimes, castigos, promessas, politicagem, cidadania, malandragem, Chico Buarque, Gabriel García Márquez, gato, cachorro, rã, princesas, sapos, baladas, babados, boatos, fatos, divagações, devagarzinho, medo, delírio, motos, motores, velocidade, bicicleta, triciclo, bola quadrada, bola redonda, carnaval, Pierrot, Colombina, ressaca, quarta-feira de cinzas, sexta-feira da paixão, sábado de aleluia, sábado morto, terça-feira crônica, segunda-feira brava, domingo sangrento, domingo pé de cachimbo, quintaneja, que nojo, rock e bossa eu prefiro, chuva, sol, vento, brisa, mar, céu, nuvens, estrelas, amores, paixões, ódios, tiros, bala perdida, violência, solidão, flores amarelas, flores do caixão, cheiro de flores na morte, flores no canhão, travestis, heterossexuais, homossexuais, bichas, lésbicas, gays, machões, machinhos, homens, mulheres (de novo), gostosas, por quê não, filhos, pais, mães, irmãs, família, casa, apartamento, goteira, torneira, banho quente, vida, morte, severina, celestina, bizantina, margarina, as meninas, eu, eu mesmo, Irene, você, nós, todos, eles, mais ninguém, enfim, cabe sempre alguém. Ufa. Sejam bem-vindos.

Agora é a vez de vocês! Apresentem-se. Quem comentar no post inaugural do blog vai concorrer a uma surpresa literária!

* Observação: não reparem a bagunça.  Ainda estamos arrumando a casa. Prometo, dentro em breve, uma fachada melhor para o blog.

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