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Germanizar, jamais

Por Wilame Prado

O futebol continua nos dando lições, veja só. A Alemanha, seleção de futebol que mais viveu intensamente a Copa do Mundo, sagrou-se tetracampeã mundial em solos brasileiros. Os baianos das redondezas de Santa Cruz de Cabrália, que adoraram a presença dos alemães durante o torneio, devem ter comemorado esse título tal qual um hexacampeonato do Brasil, projeto brecado após uma derrota acachapante nas semifinais justamente para eles, os germanos, e cujo resultado não preciso ficar aqui repetindo, não é mesmo?

A Alemanha demonstrou que é possível vencer sorrindo fora de campo e sério pisando no gramado, simples assim. Não precisamos fazer cara feia, chorar para mamar, tentar ludibriar, entrar para quebrar. Basta jogar. Em dias de folga, por exemplo, dois dos grandes atletas da seleção alemã – Neuer e Schweinsteiger – se deixavam ser flagrados nas areias das praias baianas, aprendendo danças típicas, dando autógrafos, curtindo, por que não, um turismo no País. Dentro de campo, não perderam o foco um minuto sequer das partidas que disputaram do mundial.

Os alemães se abrasileiraram e, sem dúvida, se aproveitaram disso também dentro de campo: jogaram como se estivessem em casa. Lukas Podolski, a partir de agora, será nome lembrado em cartórios daqui. Mario Götze fez o gol mais brasileiro na história da Alemanha de todos os tempos: habilidade de Neymar, matando a redonda no peito no tempo certo, e precisão de Pelé, enfiando a bola para a rede argentina. Gostaram tanto do País, esses alemães, que se recusaram a entregar a Copa do Mundo dentro de nossa casa para o nosso maior rival no futebol. Somos eternamente gratos, portanto.

Além de toda essa simpatia que foi capaz inclusive de quebrar o paradigma reinante – o de que alemão é antipático –, muitos agora aproveitam a conquista do título da Alemanha para sugerir à Seleção Brasileira um possível jeito de se voltar a jogar bola de maneira convincente. Erramos nessa tentativa, a meu ver. Tudo bem: elogiemos, sim, o comportamento deles fora de campo e aplaudamos, e muito, o comportamento tático dos capitaneados pelo polivalente Philipp Lahm. Reconheçamos que a frieza, a obediência tática e a determinação da Alemanha em campo resultaram na conquista do título mais importante para o futebol. Ressaltemos também que é muito melhor ter um time de bons jogadores do que ter um apanhado de jogadores medianos com uma estrela brilhante solitária. Agora, germanizar o futebol brasileiro e suas marcantes características, aí acho demais.

Precisamos de um bom técnico e de um bom time. Precisamos de mais atenção dentro de campo e mais estudo sobre os adversários fora de campo. Mas não precisamos deixar de chorar e sentir menos as coisas do nosso Brasil, assim como muitos sugeriram após o aperto passado na vitória, nos pênaltis, contra o Chile, nas oitavas de final da Copa do Mundo. Não podemos só ter isso, mas temos de respeitar e ver a importância de talentos individuais, porque um talento individual brasileiro – essas coisas de Neymar, Ronaldo, Rivaldo, Romário, Zico, Pelé e Garrincha – vale mais que mil palavras, é coisa que o dinheiro não compra.

Não somos imbatíveis, e isso, aos poucos, o País onde nasceu e vive o rei do futebol vai entendendo. Mas temos um futebol diferente, difícil de explicar. É aquela velha história envolvendo quem é esforçado e quem é talentoso nato. O talento, para nós, é natural. Precisamos é nos esforçar um pouco mais, aceitar algumas reciclagens, ter um pouco mais de humildade para também aprender e admirar outros “futebóis”, e não apenas ficar esperando a admiração alheia por nossa genialidade, fintas, golaços, impossibilidades que só são possíveis dentro de campo com a bola nos pés brasileiros.

Se tudo isso acontecer, meu amigo, aí sim será “Rumo ao Hexa”, tudo voltará ao normal, o Brasil voltará a jogar futebol para alemão ver e, finalmente, poderemos ter o mínimo de chances de ganharmos novamente uma Copa do Mundo, lá na Rússia, em 2018.

Ademais, Olimpíada Rio 2016 está logo aí também.

*Crônica publicada nesta terça-feira (15) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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O Vampiro de Astorga – entrevista com Marcos Peres

Marcos Peres, em seu escritório: “Tomo uma xícara de café enorme e escrevo umas duas, três horas. Se eu ultrapassar esse tempo, sinto que a qualidade do escrito cai” (Foto de Ricardo Lopes)

Quando a reportagem do Diário descobriu, no último domingo, que um jovem escritor maringaense havia ganhado o disputado Prêmio Sesc de Literatura, começou a “caça” pela entrevista com o autor. Para a sorte deste que vos escreve, Marcos Peres Gomes Filho, 28 anos, mais conhecido como Marcos Peres ou ainda simplesmente Astorga (cidade onde morou por um tempo), vencedor do prêmio na categoria Romance com o aguardado “O Evangelho Segundo Hitler”, é um colega de rede social em razão do projeto Contos Maringaenses, do qual ambos participamos.

Nem tanta sorte assim. Ao contrário do que se imaginava, Marcos Peres resolveu dar um sumiço por esses dias, alegando afazeres e compromissos inadiáveis. Formado em Direito, ele é servidor público e dá expediente no Fórum maringaense todos os dias. Não conseguimos entrevistá-lo pessoalmente, infelizmente. Foi difícil marcar até a fotografia. Mas, pelo menos, ele prometeu responder as perguntas da reportagem, via e-mail. Mesmo assim, aos 47 do segundo tempo, em horário próximo ao fechamento das páginas do jornal, a tão esperada entrevista ainda não tinha chegado na caixa de entrada.

Para alegria do repórter, a entrevista chegou. E, lendo o conteúdo do e-mail de Marcos Peres, finalmente entendemos a demora: ele leva a sério esse negócio de escrever e, não se esquivando de nenhuma pergunta, totalizou um documento de quase 10 páginas !

Demonstrando imensa paixão pela literatura, o leitor de Gabriel García Márquez e Jorge Luis Borges, apaixonado pelo São Paulo Futebol Clube e por corridas no Parque do Ingá (onde idealiza grande parte do que escreverá em suas sagradas três horas dedicadas à literatura), “Astorga” contou um pouco mais sobre sua vida e sobre o processo de produção do romance “O Evangelho Segundo Hitler”, que em breve será lançado pela Editora Record, com distribuição nacional.

Leia abaixo a entrevista na íntegra:

O que costuma fazer habitualmente?

MARCOS PERES – Graduado em Direito pela UEM, trabalho na Vara de Execuções Penais de Maringá. Nasci em Maringá – apesar de passar minha infância em Astorga, moro na Zona 2, sou casado e tenho um shih-tzu chamado Billy. Meu maior hobby é correr no Parque do Ingá. Corro todos os dias e todos os anos participo da Prova Tiradentes (inclusive, inspiro-me no japonês Murakami que escreve e participa de provas de atletismo – e que tem um livro chamado “Do que Falo Quando Falo de Corrida”). Gosto de futebol e vejo qualquer partida que esteja passando na TV. Sou são paulino e vi meu time ser campeão da Libertadores da América ao vivo no Morumbi. Além disso, leio e escrevo todos os dias. Minha rotina já há alguns anos é essa. Trabalhar, escrever e correr. O ato da corrida, além de relaxar, ajuda-me também a pensar, a raciocinar como um romance ou um conto deve ser desenvolvido. Algumas boas partes de “O Evangelho Segundo Hitler” saíram do Parque do Ingá. Lá é um lugar maravilhoso.

Desde quando escreve? Por que resolveu começar a escrever?

As duas perguntas se cruzam de forma indissolúvel. Escrevo porque necessito. Escrevo porque há coisas que me perturbam e que preciso exteriorizar, independentemente de um leitor posterior. Escrever sempre foi minha terapia. E escrevo, portanto, desde que comecei a possuir indagações que não eram facilmente respondidas. Creio que desde os 15 anos, mais ou menos. E escreverei enquanto tiver algo inquieto em minha mente. O dia que eu não tiver mais dúvidas, o dia em que eu estiver conformado, não escreverei mais nada. Escrever nunca foi e espero que nunca seja um comércio pra mim. É terapia e paixão. E basta.

Com que frequência produz textos? Onde? Como? Quais suas manias na hora de escrever? Precisa de silêncio? Escreve diretamente no computador? Faz muita pesquisa? Vai no impulso?

Escrevo diariamente. É uma necessidade, de fato. Prefiro a parte da manhã, que minha cabeça está descansada. Tomo uma xícara de café enorme e escrevo umas duas, três horas. Se eu ultrapassar esse tempo, sinto que a qualidade do escrito cai. Escrevo algumas vezes no impulso e, quando o faço, necessito revisitar o escrito e limá-lo. Um escrito genial feito no impulso é, invariavelmente, no dia posterior, algo cheio de vícios e erros grotescos. O Flauzino (José Flauzino Alves), que é meu grande amigo e foi corretor de “O Evangelho…”, sempre me alertou por ser impulsivo. É algo que tento controlar.

Acredita mais em inspiração ou transpiração?

Acredito que, apesar de antônimas, não são características excludentes. As duas devem coexistir. Inspiração é o sopro inaugural, a ideia germinal que aparece de repente e mexe com o nosso brio. O resto é tudo transpiração e desmistificação do escritor como um ser inteiramente feito de pensamentos. Depois de criadas as bases estruturais pela inspiração, o escritor tem de sentar a bunda na cadeira e labutar. Tem de estar ciente que é um trabalho que demanda tempo, dedicação, disposição e entrega, como qualquer outro. Portanto, acho que inspiração e transpiração se complementam. Transpiração sem inspiração gera escritores sem coração. O inverso gera escritores sem livros. E os dois são um problema.

De que forma outras manifestações artísticas, como a música e o cinema, influenciam em sua literatura? Cite alguns gostos pessoais que são importantes em sua produção.

Há determinados momentos que gosto de escrever sob a influência de música. “O Evangelho…” envolve a Argentina e mais de uma vez me peguei escutando Piazzola. Acho que era uma tentativa, mesmo que inconsciente, de entrar no clima. Há um determinado trecho que não conseguia desenvolver e que só o fiz quando escutei “Libertango”. Se foi coincidência, foi uma coincidência ótima. Quanto ao cinema, acho que a premissa é a mesma. Música e cinema são artes que nos fazem sonhar, que realizam a catarse que Aristóteles já previu. Quando escuto uma boa música ou um bom filme, transporto-me para aquele universo. E, consequentemente, penso. E pensar faz parte do sopro inaugural da literatura, daquele momento único da inspiração.

Bisbilhotando em sua rede social, percebo um apreço grande por viagens. Quais você poderia citar que foram determinantes para a produção literária? Viagens são importantes para se escrever bem?

Não sei até que ponto o ato de escrever e viajar podem ser relacionados. Viajar, na verdade, ajuda a compreender melhor – não só o mundo, mas a si mesmo. Escrever após o ato de viajar é, portanto, escrever com mais propriedade, com mais conhecimento dos limites geográficos e próprios. A decisão de escrever “O Evangelho…” se deu no meio de um mochilão que realizei com amigos, um mochilão pela Bolívia, Peru e Chile. Viajava no meio do Deserto do Atacama enquanto pensava nos primeiros alicerces de “O Evangelho…”. Era estimulante olhar um mundo tão diferente do meu e pensar que eu estava prestes a construir um pequeno universo, que, de alguma maneira, eu ousava reescrever a história. Coincidentemente, no Peru, fiz amizade com um escritor argentino, o Juan. Disse-lhe sobre meu fascínio pelo Borges. Ele, ao contrário, preferia outros escritores, outros que nomeava como genuinamente argentinos – Como Sabato e Cortázar. Foi uma conversa estranha – um brasileiro exaltando um ídolo argentino e um argentino afirmando que o brasileiro estava equivocado. Foi uma conversa que, no futebol, provavelmente não ocorreria. Ele me explicou que o Borges é um lord europeu e que nunca refletiu inteiramente o sangue quente portenho. Algo parecido com o que o Messi hoje representa: endeusado na Europa e não tão estimado na própria nação. A conversa me ajudou a criar a imagem do Borges que eu queria escrever. E hoje o Juan é um grande amigo e já me felicitou pelo prêmio.

Você, ao lado do Michel Roberto, foi o idealizador do projeto Contos Maringaenses. O que levou aos dois a encabeçarem o projeto que acabou reunindo o pessoal que aprecia escrever na cidade? O que sentiu com o tempo e com as publicações no Contos Maringaenses? A cidade realmente tem uma geração de escritores? Existem características em comum entre eles?

O Michel foi o criador dos Contos. Na época eu havia mandado uma novelinha irônica chamada o “Código do Ingá” – e que brincava e fazia referências ao “Código Da Vinci”. Era uma história que se passava em Maringá e unia alguns personagens célebres locais. Logo após ele me perguntou se eu topava escrever sobre Maringá. Ele reuniu o time, estabeleceu as diretrizes, estipulou os prazos e, ainda, cuidou da parte gráfica e artística do e-book. Os contos deste e-book deviam mencionar Maringá, mesmo que esta não fosse a protagonista da trama. O Bruno Vicentini definiu bem o tema: “Maringá, incidentemente ou acidentalmente”. Fizemos o e-book e depois mantivemos o blog. O blog foi um baita feito. Antes dele não existia nada, nada. Depois os escritores ficaram amigos uns dos outros, conheceram a fundo a obra que era realizada em Maringá. O projeto Contos Maringaenses sempre teve um princípio: o da democratização. Não negamos nunca o direito de um jovem ver seu texto publicado naquele espaço. Acreditamos que era mais importante o papel de fomentar a criação de textos do que o da triagem. Lá estão jovens incipientes e escritores consagrados. Conseguimos a façanha de publicar no mesmo veículo jovens de 16, 17 anos e textos do Oscar Nakassato e do Laurentino Gomes. Mostramos que é possível – em uma cidade de médio porte, do interior de um Estado, fora do centro cultural nacional, encravada em um país do terceiro mundo – produzir literatura, com quantidade e qualidade. Durante um bom tempo, o blog era abastecido semanalmente com textos meus e de outros jovens – e de escritores consagrados e rodados. Considero um feito. Considero, humildemente, um meio eficaz para organizar a literatura feita pelos escritores principiantes de uma cidade. E, pelo blog, conheci o Flauzino – que aos poucos tomou para si o fardo de crítico literário dos Contos Maringaenses. Ele já havia corrigido o bem sucedido “Nihonjin”, do Oscar. Com o mesmo empenho, corrigiu “O Evangelho…”. É mais um que vai pra conta dele.

Quais escritores maringaenses aprecia?

Não vou citar o Oscar pela obviedade que isso representa. Ele atualmente é o ícone literário de qualquer escritor maringaense e, obviamente, meu ícone também. Gosto muito do Nelson Alexandre e tentei ajudá-lo a divulgar o seu “Paridos e Rejeitados” ano passado. Gosto também do Bruno Vicentini, do Alexandre Gaioto, da Thays Pretti. Maringá tem muitos jovens talentosos.

Quais escritores – não precisa ser maringaense – influenciam sua escrita?

Gosto muito de Dostoiévski, do Borges, do García Márquez, do Bolaño, do Umberto Eco, do Philip Roth, do Tchekhov, do Saramago, do Murakami… Dos brasileiros, leio sempre Guimarães Rosa, Machado, Autran Dourado, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Tezza. Dos contemporâneos, gosto muito de “Os Malaquias”, da Andréa del Fuego e de “Fazes-me Falta”, da portuguesa Inês Pedrosa. São dois livros de uma sensibilidade absurda. Acho que procuro beber da fonte dos escritores que admiro. E acho que este é um fato normal para um escritor principiante, não é?

Sua escrita se assemelha com a literatura produzida por qual escritor brasileiro ou estrangeiro?

Seria pretensão demais afirmar que pareço com outro escritor. Nem escritor me considero. Na ficha do médico, no quadro profissão, assino como “servidor público”. É ousadia demais querer me comparar com alguém que admiro tanto.

Gostaria que sua literatura se parecesse com qual literatura?

Gostaria de ter uma voz própria. Gostaria que as pessoas lessem meu escrito e falassem: “É do Marcos Peres”. Espero um dia chegar lá.

Se alguém fosse apontar características para a sua literatura, quais seriam, na sua opinião?

O Rafael Zanatta, que é uma opinião que considero e admiro na cidade, diz que eu bebo do elemento fantástico. Ele, em parte, está certo. Já usei a fantasia em determinados contos. Mas já procurei beber de outras fontes. Já fiz romance sobre ficção científica, novelas realistas, contos policiais, esboços de teatro… tudo para tentar descobrir meus limites, tudo para tentar explorar o palco em que estou inserido. Muitos projetos não foram exitosos, é verdade. Mas ainda estou me descobrindo. Não acho que já posso me classificar em um gênero. E acho que, quem tentar me classificar, corre o sério risco de errar. Ainda estou em metamorfose…

Utiliza muitos elementos autobiográficos em sua literatura?

Utilizo, mas aparecem sempre como passagens de temas maiores. Acabam surgindo como detalhes de um universo fictício. Não tenho a intenção de me expor ou expor pessoas que conheço na ficção. Quando isso ocorre, é um fato circunstancial e acidental.

Quais contos publicados na internet poderia me indicar para eu ler e que pode definir um pouco melhor o seu perfil literário?

Cara. Há algum tempo fiquei chateado com a publicação de ficção e resolvi tirar meus contos do blog Contos Maringaenses. Na oportunidade, não abandonei a escrita; abandonei apenas a possibilidade de ser lido. Acho que há um ou outro conto no blog do pessoal do Nego Dito. Nos Contos Maringaenses, não sobrou nada.

Por que mesmo com o gosto pela literatura resolveu estudar e trabalhar na área do Direito e não seguir carreira, por exemplo, na área de Letras ou Jornalismo?

O sonho primitivo era o Jornalismo. Uma jornalista, quando eu prestava o vestibular, me desanimou. Disse coisas sobre o mercado de trabalho, sobre o fato de Maringá estar distante do eixo Rio-São Paulo e acabei optando pelo Direito. Quando eu estava no quinto ano do curso de Direito na UEM, passei na primeira fase para virar trainee na Folha de S. Paulo. Mas era tarde demais. Na oportunidade, já havia passado no concurso da Justiça Federal de Presidente Prudente. Todos, na oportunidade, alertaram-me sobre o risco de jogar tudo para o ar para tentar um sonho incerto. E nem fui fazer as demais fases do concurso da Folha.

Assim como 90% dos escritores lembrados na história da literatura brasileira, é servidor público. O que isso ajuda na produção literária?

Não sei se a pedra de toque é o serviço público. Se realizar uma estatística dos escritores que fizeram Direito ou que também foram advogados, o montante será alto também. Imagino que a pedra de toque, de fato, é o ramo das ciências humanas. A grande maioria dos servidores públicos passaram pelas fileiras de algum curso da área de humanas. E escrever, seja ficção ou não, é um ato umbilicalmente ligado às Humanas. É a ciência humana, aplicada na prática, no papel.

Tem ideia da quantidade de coisas que já escreveu? Quantos contos? Só um romance ou tem mais tesouro guardado nas gavetas virtuais do seu computador? Sei que escreve contos por causa do Contos Maringaenses. Descubro que escreve romances com a conquista do Prêmio Sesc de Literatura. Curte escrever outras coisas também, como crônicas e poesias?

O Flauzino costuma dizer que sou producente. Coloquei muitos contos no blog e outros tantos ficaram fora do blog, por opção própria. No meu estoque de contos, devo ter material para uns dois ou três livros. Mas gosto mesmo de escrever romances. Desde que comecei, sei que gosto dos romances. Para falar a verdade, só tomei gosto pelos contos através do Michel Roberto e dos Contos Maringaenses. Tenho alguns romances engavetados e projetos para mais alguns. Uma coisa eu tenho certeza. Escrevo muito – no sentido quantitativo da coisa. Se são bons, eu não posso afirmar. Mas afirmo que são muitos. Escrevi também alguns textos que nem sei se podem ser chamadas de crônicas. Foi para o blog de um grande amigo, José Marques, que também muito me incentivou a escrever. E poesia, definitivamente, não é comigo. Não me sinto capaz.

Nós, do interior do Paraná, as vezes temos o péssimo hábito de nos rebaixarmos perante os escritores da cidade grande, do eixo Rio-SP. Oscar Nakasato e tantos outros estão aí para dizer que estamos errados e que é possível sim produzir literatura boa em qualquer lugar, seja em Maringá, Apucarana ou até mesmo em Astorga. O que pensa sobre isso?

Lembro-me da visita que o Marcelino Freire e o Carpinejar fizeram em nossa cidade. Lembro-me da surpresa que tiveram quando encontraram um grupo literário forte e atuante. Freire depois disse no Twitter que Maringá possuía escritores porretas. Deram sugestões, batizaram nosso projeto, curtiram mesmo. O Tezza também, nas duas oportunidades em que aqui esteve, reuniu-se com o pessoal dos Contos e se mostrou surpreso com a organização que criamos. Não sou capaz de precisar a diferença entre o eixo cultural Rio-São Paulo com o resto do Brasil. Mas ouso afirmar que Maringá não perde para o tal eixo cultural, se considerarmos o tamanho da cidade e a quantidade de recursos que possuímos.

Surpreendeu-se, ainda fazendo referência ao menosprezo por quem é de cidade pequena, ao vencer o Prêmio Sesc de Literatura, disputado pelo Brasil inteiro? Consegue relatar a sensação sentida ao saber da notícia da premiação? Como foi? Quem te contou? Quando?

Foi uma surpresa enorme. Eu estava no trabalho e vejo uma ligação do Rio de Janeiro no celular. Como não tenho amigos lá, imaginei que fosse ligação de algum banco. Quando o senhor perguntou meu nome, todo formal, a expectativa de que era um vendedor de cartões de crédito aumentou. Cheguei a ser ríspido com o senhor do Sesc. Ele, polido, informou que eu era o grande vencedor do prêmio deste ano. O mais difícil foi desligar o telefone e explicar aos colegas de trabalho a notícia. Para eles, eu era apenas o servidor Marcos. Foi um pouco constrangedor explicar que eu escrevi um romance premiado com o nome “O Evangelho Segundo Hitler”. Não é um fato muito comum. Não é algo que ocorre todos os dias.

Conte como foi o processo de escrita de “O Evangelho Segundo Hitler”. Quanto tempo demorou? Quantas horas por dia dedicava ao livro? Que obras te influenciaram? Foi feita muita pesquisa?

Sou, de modo geral, desorganizado. Toda a minha vida é uma bagunça. Na escrita, não. Tenho algumas regras e sempre as cumpro. Crio, primeiro, o esqueleto do livro. Faço esboços com os modos, as características e os trejeitos do personagem. São fatos que podem não ser observados pelo leitor, mas que me auxiliam a movimentar com segurança no mundo que criei. Creio que a segurança é primordial para uma boa escrita. Depois, aos poucos, preencho o esqueleto. Escrevo duas ou três horas por dia, apenas. Mas estabeleço algumas metas. Normalmente, me contento em escrever duas mil palavras diárias. Mais que isso, sinto a qualidade cair. “O Evangelho…” tem em torno de oitenta e cinco mil palavras. Demorei uns dois meses para fazê-lo e mais alguns para revisá-lo.

Por que escolheu esse título?

Foi um nome que ainda me causa um certo receio, é um nome forte e improvável. Senti medo com a repercussão que um Evangelho ligado a Hitler pudesse obter. Minha família é inteira católica, pensei muito neles. Ao contrário do que possa parecer, não quero criar polêmica.

O que pensa sobre Hitler?

Penso o mesmo que ensinam em todos os colégios de todo o mundo. Que é um monstro. Um ditador. Que fez um mal muito grande para humanidade.

E sobre o Evangelho?

É uma palavra bonita. É bonito imaginar que o maior acontecimento da fé cristã foi testemunhado por quatro escritores e que estes foram os responsáveis pela transmissão desta fé. Marcos. Matheus, Lucas e João escreveram, cada qual ao seu modo, os acontecimentos centrais da fé. Denota, de fato, a importância da escrita. Denota o papel do escritor e a responsabilidade que este assume ao empunhar uma caneta ou digitar no word.

Há alguma referência à obra “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de Saramago?

Nenhuma. O único fato em comum é a referência aos Evangelhos canônicos.

De que forma escreveria uma sinopse do seu livro?

O livro trata de um homônimo do escritor Jorge Luis Borges que, por uma série de enganos, acaba se envolvendo com uma seita alemã. Os alemães acreditam que o homônimo é, em verdade, o famoso escritor e acreditam nas palavras dele. O homônimo, para não se envolver, repete escritos do Borges e os alemães, mediante uma interpretação desregrada, acabam criando conotações nazistas nestas declarações. O livro trata de uma união improvável, quiçá impossível: do monstro Hitler com o fabuloso escritor Borges. Crio uma teoria conspiratória apenas para demonstrar ao leitor que é possível criar teorias conspiratórias a torto e a direito. Crio um castelo de areia para desmoroná-lo depois.

Qual público, na sua opinião, vai gostar mais de “O Evangelho Segundo Hitler”?

Não sei. Na verdade não pensei que “O Evangelho…” teria mais que a meia dúzia de leitores que comumente tenho. Ainda é uma novidade para mim.

Chegou a mandar os originais para alguma editora? Como foram recebidos?

Não. Mandei outro romance há alguns anos para Companhia das Letras. Responderam-me com uma resposta já pronta que não tinham interesse.

Quantas páginas de word deram os originais enviados para o prêmio? Quantas páginas acredita que a publicação concretizada terá?

240 páginas de word mais ou menos. 85 mil palavras, para usar um código mais preciso. Não posso precisar quantas páginas terá o romance.

Conte como está sendo o processo de diálogo com a Record? É verdade que vai precisar enxugar um pouco a obra? Por quê?

O diálogo ainda é incipiente. Até pouco tempo meu contato era todo com a instituição do Sesc. Não. Na verdade, eu reli “O Evangelho…” e decidi que era necessária uma releitura. Escrevi o livro há três anos, já há algumas coisas que não me soam bem. A decisão de lapidar “O Evangelho…” partiu de mim e não da editora.

Por que escolheu o pseudônimo Lestast?

Foi uma coincidência grande. Quando necessário, usava outro pseudônimo. Desta vez, antes de mandar os originais, coincidentemente havia acabado de ler “O Vampiro de Curitiba”, do Dalton Trevisan, e de ver o filme “Entrevista com o Vampiro”. Um dos personagens de “Entrevista com o Vampiro” se chama Lestat. Criei, por brincadeira, uma corruptela com o Lestat da Anne Rice e o Ast, de Astorga. Há o Vampiro de Curitiba. Há, agora, o Vampiro de Astorga. Tremei, Edward Cullen!

Além da publicação, há mais alguma premiação pelo Sesc? Serão dois mil exemplares né? Haverá um suporte de divulgação ou precisa correr atrás de alguma coisa?

São dois mil exemplares. O premio é este. Acredito que a Record fará um suporte de divulgação, mas é divagação ainda. Não conversei com a editora a respeito.

Acha que conseguirá vender todos os livros?

Espero verdadeiramente que sim!

Qual é a porcentagem de destinação de dinheiro ao autor por livro vendido? No contrato, quais outras obrigações terá com a Record? Em uma nova obra, terá de publicar com eles?

10% do valor de capa. Com relação às obrigações que terei, ainda me são desconhecidas. Não sei exatamente os termos do contrato que terei que cumprir.

Em uma carreira que se inicia ainda jovem, acha que pode melhorar em que sentido em sua produção literária?

“O Evangelho…” foi feito há três anos e já há muitas coisas que vejo que mudei. Como disse, estou ainda em formação. Escreverei até descobrir, de fato, quem eu sou. É a descoberta do palco. A descoberta do que sou capaz de fazer e quais são minhas limitações.

De que maneira sua vida como escritor vai mudar com essa conquista?

Espero continuar com minha rotina. Espero dedicar minhas manhãs para a literatura. O reconhecimento é muito gostoso, mas escrever, para mim, sempre será uma terapia. Um ato necessário. Espero que isso não mude.

Quais os planos? Tem em mente ideias para novos livros?

Já “O Evangelho” estava engavetado. Estava envolvido até o pescoço com o projeto de uma trilogia de romances. No dia em que recebi a notícia, havia acabado de mandar um e-mail pro Flauzino: “Prepare-se que tem mais um calhamaço pra analisar”. Em seguida, logo que recebi a notícia da premiação, tive de me retratar: “Isso vai ficar pra mais tarde. ‘O Evangelho…’, pelo visto, pede mais atenção agora”.

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O limite físico de Neymar está em jogo*

Por Fabio Chiorino

Onze minutos de jogo. Uma bola espirrada da defesa para o ataque encontrou Neymar. E o menino, mais uma vez, espantou a todos. Driblou três jogadores com aquela peculiar facilidade que nos faz perguntar se não está a enfrentar juvenis. Bola por baixo das pernas de um, corte seco em mais dois e gol do Santos. Neymar cravava mais uma placa, ao completar 200 jogos vestindo a camisa do Peixe.

Enfim, qual o limite de Neymar?

*Termine de ler o lúcido artigo do jornalista Fabio Chiorino lá no site Esporte Fino.

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